5. O estranho caso da Rue Servandoni
Recentemente, minha aluna Lucrecia Escudero elaborou uma tese sobre a cobertura da guerra das Falklands-Malvinas pela imprensa argentina e incluiu a seguinte história.1
Em 31 de março de 1982, dois dias antes de os argentinos desembarcarem nas ilhas Malvinas e 25 dias antes de a Força-Tarefa britânica chegar às ilhas Falklands, o jornal Clarín, de Buenos Aires, publicou uma notícia interessante: uma fonte londrina teria dito que a Inglaterra enviara o Superb, um submarino nuclear, à região austral do Atlântico Sul. Imediatamente, o Foreign Office declarou que não tinha nenhum comentário a fazer sobre tal “versão”, e a imprensa argentina inferiu que, se as autoridades britânicas consideravam a matéria como uma “versão”, isso significava que uma informação militar importante e secreta havia vazado. No dia lo de abril, quando os argentinos estavam prestes a desembarcar nas Malvinas, o Clarín publicou que o Superb era uma nave de 45 mil toneladas, com uma equipe de 97 especialistas em mergulho.
As reações dos ingleses foram bastante ambíguas. Um perito militar disse que seria razoável enviar à região submarinos atômicos ou uma força conjunta aérea e naval destinada a caçar submarinos. O Daily Telegraph deu a impressão de saber muita coisa sobre a história toda, e pouco a pouco o boato se transformou em fato. Os leitores argentinos ficaram chocados com o acontecimento, e a imprensa tratou de satisfazer suas expectativas mantendo-os em suspense. A informação veiculada teria sido fornecida pelo próprio comando militar argentino, e o Superb tornou-se “aquele submarino que fontes inglesas localizam no Atlântico Sul”. No dia 4 de abril, já se havia avistado a embarcação não muito longe do litoral argentino. As fontes militares britânicas respondiam a todas as perguntas dizendo que não pretendiam revelar a localização de seus submarinos, e uma resposta tão óbvia reforçou a opinião geral de que havia submarinos ingleses em algum lugar — o que naturalmente era verdade.
Ainda em 4 de abril, diversas agências de notícias europeias informaram que o Superb estava prestes a zarpar com destino aos mares do Sul, liderando a Força-Tarefa britânica. Se essa informação era correta, a nave avistada perto da costa argentina não podia ser o Superb; no entanto, ao invés de atenuar a síndrome do submarino, a contradição agravou-a.
No dia 5 de abril, a agência de notícias dan anunciou que o Superb se encontrava a 250 quilômetros das Falklands-Malvinas. O resto da mídia foi atrás, descrevendo todas as características do submarino e sua extraordinária potência. Em 6 de abril, a Marinha argentina localizou a embarcação perto do arquipélago e, na semana seguinte, o submarino Oracle juntou-se ao Superb. No dia 8 de abril, o jornal francês Le Monde mencionou as duas naves, e o Clarín reproduziu a matéria sob o título dramático de “Uma frota submarina?”. Em 12 de abril, a tal frota se mostrou novamente, e o Clarín noticiou a chegada de submarinos soviéticos a águas meridionais.
Pois bem, essa história diz respeito não só à presença do Superb (tida como certa), mas também à diabólica competência dos ingleses, que conseguiram manter em segredo sua posição. Em 18 de abril, um piloto brasileiro avistou o Superb perto de Santa Catarina e o fotografou, mas a imagem não saiu nítida pois o tempo estava nublado. Aqui temos mais um efeito do nevoeiro (o terceiro destas conferências, se bem se lembram), desta vez criado diretamente pelos leitores a fim de manter o necessário suspense da história. Parece que estamos a meio caminho entre Flatland e Blow Up, de Antonioni.
No dia 22 de abril, quando a Força-Tarefa britânica realmente se encontrava a oitenta quilômetros do palco de operações, com vasos de guerra autênticos e submarinos autênticos, o Clarín informou a seus leitores que o submarino que estaria patrulhando a região das Malvinas havia voltado para a Escócia. Em 23 de abril, o jornal escocês Daily Record revelou que na verdade o Superb nunca deixara sua base britânica. Os jornais argentinos se viram obrigados a encontrar outro gênero narrativo, passando dos filmes de guerra para os romances de espionagem, e em 23 de abril o Clarín anunciou triunfante que a fraude das forças britânicas fora desmascarada.
Quem foi que inventou aquele Submarino Amarelo. Os serviços secretos britânicos, a fim de baixar o moral dos argentinos? O comando militar argentino, a fim de justificar sua intransigência? A imprensa britânica? A imprensa argentina? Quem se beneficiou com a boataria? Esse lado da história não me interessa. O que me interessa é a forma como a história inteira se desenvolveu a partir de um vago mexerico com a colaboração de todos os envolvidos. Todo mundo contribuiu para a criação do Submarino Amarelo porque era uma personagem de ficção fascinante e sua história era narrativamente empolgante.
Essa história — quer dizer, a história verdadeira de uma construção ficcional — tem muitas morais. Primeiro, mostra que somos constantemente tentados a dar forma à vida através de esquemas narrativos (mas esse será o tema de minha próxima e última conferência). Segundo, demonstra a força de pressuposições existenciais.2 Em cada declaração que envolve nomes próprios ou descrições definidas o leitor ou ouvinte deve aceitar a existência da entidade sobre a qual se afirma alguma coisa. Se um sujeito me diz que não pôde ir a um encontro porque sua mulher estava doente, minha primeira reação é aceitar a existência dessa mulher. Só depois, se por acaso descobrir que o sujeito em questão é solteiro, vou poder concluir que ele mentiu. Mas até então, porque o ato de mencionar sua mulher postulou-a na estrutura discursiva, não tenho motivo para pensar que ela não existe. Essa é de tal forma a tendência natural dos seres humanos normais que, se leio um texto que começa assim: “Como todos sabem, o atual rei da França é calvo” (considerando que a França é amplamente conhecida como uma república e que não sou um filósofo da linguagem, e sim uma criatura humana normal), não corro a consultar as Tábuas da Verdade; ao contrário, resolvo suspender minha descrença e aceitar esse texto como um discurso ficcional que provavelmente conta uma história ambientada na época de Carlos, o Calvo. Faço isso porque é a única maneira de atribuir uma forma de existência à entidade postulada pela declaração, em qualquer mundo que seja.
Foi o que aconteceu com nosso submarino. Uma vez postulado pelo discurso da mídia, ele estava ali, e, como compete aos jornais dizer a verdade sobre o mundo real, as pessoas se esforçaram ao máximo para avistar o submarino.
Em Ma che cos’è questo amore [Mas o que é esse amor], de Achille Campanile (aquele sublime escritor humorístico), há uma personagem chamada barão Manuel, que, para facilitar sua secreta vida adúltera, vive dizendo à esposa e aos outros que tem de visitar e assistir um tal Pasotti, um querido amigo seu, que sofre de um mal crônico e cuja saúde declina tragicamente à medida que os casos do barão Manuel se tornam cada vez mais complicados. A presença de Pasotti é tão palpável que, embora o autor e o leitor saibam que ele não existe, chega um momento em que todos (com certeza as outras personagens, mas também o leitor) estão preparados para vê-lo aparecer em cena fisicamente. Assim, Pasotti surge de repente, infelizmente alguns minutos depois que o barão Manuel (que se fartou de sua vida adúltera) havia anunciado a morte do querido amigo.
O Submarino Amarelo foi postulado pela mídia, e, tão logo foi postulado, todo mundo o aceitou como real. O que acontece quando o autor postula num texto de ficção, como um elemento do mundo real (que é o pano de fundo do mundo ficcional), alguma coisa que não existe no mundo real? Como vocês talvez se lembrem, esse é o caso de Ann Radcliffe, que postulou oliveiras na Gasconha.
No primeiro capítulo de Os três mosqueteiros, D’Artagnan chega a Paris e logo encontra alojamento na Rue des Fossoyeurs, em casa de monsieur Bonacieux. A residência de monsieur De Tréville, para a qual se dirige em seguida, fica na Rue du Vieux Colombier (capítulo 2). Só no sétimo capítulo somos informados de que Porthos mora na mesma rua e Athos mora na Rue Férou. Hoje, a Rue du Vieux Colombier se estende ao norte da atual Place Saint-Sulpice, enquanto a Rue Férou se estende ao sul; contudo, a praça ainda não existia na época em que transcorre a ação de Os três mosqueteiros. Onde se aloja aquele indivíduo reticente e misterioso que atende pelo nome de Aramis? No capítulo 11, descobrimos que ele mora numa esquina da Rue Servandoni, e, se consultarem o mapa de Paris (figura 12), verão que a Rue Servandoni é a primeira rua a leste da Rue Férou, à qual é paralela. Esse capítulo 11 traz o título “L’intrigue se noue” [“A intriga se complica”]. Claro está que Dumas tinha em mente uma coisa muito diversa, mas para nós a intriga se complica do ponto de vista da onomástica e do planejamento urbano.
Uma noite, depois de visitar monsieur De Tréville, na Rue du Vieux Colombier, D’Artagnan resolve andar um pouco para pensar carinhosamente em sua amada, Mme. Bonacieux, e sem pressa volta para casa pelo “caminho mais comprido”, conforme diz o texto. No entanto, não sabemos onde fica a Rue des Fossoyeurs e, se consultarmos um mapa da Paris atual, não a encontraremos. Assim, vamos seguir D’Artagnan, que está “conversando com a noite e sorrindo para as estrelas” (ver figura 13).
Se lermos o texto de Dumas examinando um mapa do século xviii, veremos que D’Artagnan desce a Rue du Cherche-Midi (que naquela época, observa Dumas, chamava-se Chasse-Midi), passa por uma ruazinha que fica onde está hoje a Rue d’Assas e que sem dúvida era a Rue des Carmes, e dobra à esquerda, “porque a casa de Aramis se situava entre a Rue Cassette e a Rue Servandoni”. Ao sair da Rue des Carmes, D’Artagnan provavelmente corta caminho por um terreno próximo ao convento das Carmelitas Descalças, dobra na Rue Cassette, entra na Rue Messiers (atual Mézières) e de algum modo atravessa a Rue Férou (Ferrau, na época), onde Athos mora, porém nem se dá conta disso (claro está que perambula como as pessoas apaixonadas). Se a casa de Aramis se situa entre a Rue Cassette e a Rue Servandoni, sua localização deveria ser na Rue du Canivet (que aparentemente ainda não existia em 1625).3 No entanto deveria situar-se precisamente na esquina da Rue Servandoni (“Rue?” em nosso mapa), porque bem em frente à casa do amigo D’Artagnan vê um vulto deixar a Rue Servandoni (mais adiante descobrimos que se tratava de Mme. Bonacieux).
Infelizmente, nosso leitor empírico por certo ficará comovido com a menção da Rue Servandoni porque Roland Barthes morou lá; contudo Aramis não poderia ter se comovido, porque a ação transcorre em 1625 e o arquiteto florentino Giovanni Niccolò Servandoni nasceu em 1695, concebeu a fachada da igreja de Saint-Suipice em 1733 e se tornou nome de rua só em 1806.
Dumas até sabia que a Rue du Cherche-Midi se chamava então Chasse-Midi, mas errou em relação à Rue Servandoni. Isso não teria importância se a questão dissesse respeito unicamente ao autor empírico Dumas. Entretanto, agora que o texto está aí, nós, leitores obedientes, devemos seguir suas instruções e nos encontramos numa Paris inteiramente real, idêntica à Paris de 1625, com a exceção de uma rua que não podia existir naquela época.
Como vocês sabem, os lógicos e filósofos da linguagem têm discutido com frequência o problema do status ontológico das personagens de ficção (e também dos objetos e acontecimentos ficcionais), e não é absurdo perguntar o que significa dizer que “p é verdadeiro”, quando p é uma proposição que se refere não ao mundo real, e sim ao ficcional. Em minha conferência anterior, todavia, decidimos nos ater à opinião mais sensata. Sejam quais forem suas posições filosóficas, vocês diriam que, no mundo ficcional de Conan Doyle, Sherlock Holmes é solteiro; se numa de suas histórias Holmes de repente pedisse a Watson para comprar três passagens de trem porque viajará com a sra. Holmes a fim de perseguir o dr. Moriarty, com certeza ficaríamos no mínimo um pouco perturbados. Permitam-me usar uma noção bem grosseira de verdade: não é verdade que Holmes é casado, assim como não é verdade que o Empire State fica em Berlim. Ponto.
Mas podemos afirmar com a mesma segurança que não é verdade que Aramis mora na esquina da Rue Servandoni? Naturalmente poderíamos argumentar que tudo se encaixa se dissermos apenas que no mundo possível de Os três mosqueteiros Aramis mora na esquina de uma certa rua X e que só por causa de um erro do autor empírico essa rua se chama Servandoni, quando na realidade devia ter outro nome. Keith Donnellan nos convenceu de que, se acreditamos e sustentamos equivocadamente que Jones é o assassino de Smith, sempre que mencionarmos o assassino de Smith estaremos nos referindo a Jones, ainda que este seja inocente.4
A questão é mais complicada, porém. Onde fica a Rue des Fossoyeurs, na qual mora D’Artagnan? Essa rua existia no século xvii e hoje não existe mais por um motivo muito simples: a velha Rue des Fossoyeurs era a mesma que hoje chamamos de Rue Servandoni. Portanto, a) Aramis mora numa rua que em 1625 ainda não tinha esse nome; e b) D’Artagnan mora na mesma rua de Aramis sem se dar conta de tal fato. Na verdade, D’Artagnan está numa situação ontológica bastante curiosa: acredita que, em sua Paris de 1625, há duas ruas com dois nomes diferentes, enquanto havia apenas uma com um único nome. Poderíamos dizer que um erro desse tipo não é improvável. Durante muitos séculos a humanidade acreditou que ao largo do litoral sul da Índia existiam duas grandes ilhas, Ceilão e Taprobana, e os cartógrafos do século xvi as desenharam; mas depois se constatou que essa duplicação era fruto da interpretação imaginativa das descrições de vários viajantes e que na realidade havia uma única ilha. Da mesma forma, acreditava-se que a estrela da manhã era diferente da estrela vespertina (Héspero e Fósforo, como eram chamadas), quando de fato trata-se do mesmo corpo celeste — Vênus.
Entretanto, essa não é a situação de D’Artagnan. Nós, seres terrestres, observamos duas entidades, Héspero e Fósforo, a distância, em dois momentos distintos do dia, e é compreensível que tenhamos cometido ou ainda cometamos o erro de acreditar que se trate de duas entidades distintas. Contudo, se fôssemos habitantes de Fósforo, não poderíamos acreditar na existência de Héspero, porque nenhum de nós jamais a teria visto brilhando no céu. O problema de Héspero e Fósforo preocupou Frege e outros filósofos terrestres, porém não se coloca para os filósofos fosfóricos, se é que existe algum. Como autor empírico que evidentemente cometeu um erro, Dumas se encontra na mesma situação dos filósofos terrestres. Já D’Artagnan, em seu mundo possível, encontra-se na mesma situação dos filósofos fosfóricos. Se está na rua que hoje chamamos de Servandoni, deve saber que está na Rue des Fossoyeurs, a rua onde mora. Assim, como pode pensar que é outra rua, aquela onde Aramis mora?
Se Os três mosqueteiros fosse um romance de ficção científica (ou um exemplo de ficção que se autoinvalida), não haveria problema. Eu poderia tranquilamente escrever a história de um navegador espacial que sai de Héspero em 1o de janeiro de 2001 e chega a Fósforo em 1o de janeiro de 1999. Minha história poderia postular a existência de mundos paralelos nos quais haveria uma defasagem de tempo equivalente a dois anos. Um desses planetas se chama Héspero; tem 1 milhão de habitantes e um rei chamado Stan Laurel. O outro é Fósforo; seus habitantes somam 1 milhão menos um (Stan Laurel não existe em Fósforo, que é uma república) e são exatamente os mesmos de Héspero (os mesmos nomes, as mesmas características, as mesmas histórias individuais, os mesmos vínculos familiares). Ou então eu poderia imaginar que o navegador espacial recua no tempo e chega a Héspero, que ainda era chamado de Fósforo, meia hora antes de seus habitantes decidirem a mudança de nome.
Mas um dos acordos ficcionais básicos de todo romance histórico é o seguinte: a história pode ter um sem-número de personagens imaginárias, porém o restante deve corresponder mais ou menos ao que aconteceu naquela época no mundo real.
Uma boa solução para o nosso quebra-cabeça poderia ser esta: segundo alguns mapas, parece que, pelo menos em torno de 1636, a Rue des Fossoyeurs passava a chamar-se Rue du Pied de Biche a partir de determinado ponto mais ao sul; assim sendo, D’Artagnan mora na Rue des Fossoyeurs e Aramis na Rue du Pied de Biche. D’Artagnan, que pensa que as duas ruas são diferentes porque têm nomes diferentes, sabe que mora numa rua que é continuação da rua de Aramis e erroneamente acha que esta última se chama Rue Servandoni, e não Rue du Pied de Biche. Por que não? Talvez ele tenha conhecido um florentino chamado Servandoni, bisavô do arquiteto de Saint-Sulpice, e sua memória lhe pregou uma peça.
Mas o texto não nos diz que D’Artagnan chega ao local que “acredita” ser a Rue Servandoni. O texto nos diz que ele chega ao local que o leitor deve acreditar ser a Rue Servandoni. Como podemos resolver essa situação desconcertante? Aceitando a ideia de que até agora o que fiz foi caricaturar as discussões sobre a ontologia das personagens ficcionais. O que realmente nos interessa não é a ontologia de mundos possíveis e seus habitantes (um problema respeitável nas discussões da lógica modal), e sim a posição do leitor.
O que nos diz que Holmes não é casado é sua saga — ou seja, um corpo ficcional. Mas só a Enciclopédia pode nos dizer que a existência da Rue Servandoni em 1625 era impossível; e, do ponto de vista do mundo textual, a informação da Enciclopédia não passa de mexerico irrelevante. Se pensarem um pouquinho nisso, vão ver que é o mesmo tipo de problema colocado pelo lobo em “Chapeuzinho Vermelho”. Como leitores empíricos sabemos muito bem que lobo não fala, mas como leitores-modelo temos de concordar em viver num mundo em que os lobos falam. Assim, se aceitamos que no bosque existem lobos falantes, por que não podemos aceitar que em 1625 havia em Paris uma Rue Servandoni? Na verdade, é o que fazemos, e o que vocês vão continuar fazendo se relerem Os três mosqueteiros, mesmo depois de minhas revelações.
Em meus livros Os limites da interpretação e Interpretação e superinterpretação, insisti na diferença entre interpretar um texto e usar um texto, porém disse que não é proibido usar um texto para devanear. Nesta conferência, “usei” Os três mosqueteiros para me permitir uma aventura empolgante pelo mundo da História e da erudição. Devo reconhecer que gostei muito de percorrer as ruas de Paris a fim de encontrar aquelas mencionadas por Dumas e de examinar mapas da cidade datados do século xvii (todos muito imprecisos, aliás). Pode-se fazer com um texto ficcional o que bem se entender. Eu gostei de representar o papel do leitor paranoico e de verificar se a Paris do século xvii correspondia às descrições de Dumas.
Ao fazer isso, no entanto, não agi como um leitor-modelo e nem mesmo como um leitor empírico normal. Para saber quem foi Servandoni é preciso saber um bocado de arte, e para saber que a Rue des Fossoyeurs era a Rue Servandoni é preciso ter um bocado de conhecimento especializado. O texto de Dumas, que através de sinais estilísticos se apresenta como um romance histórico popular, não pode pretender alcançar esse tipo sofisticado de leitor. Portanto, os leitores-modelo de Dumas não têm obrigação de conhecer esse irrelevante detalhe de que em 1625 a Rue Servandoni se chamava Rue des Fossoyeurs e podem continuar lendo alegremente.
Isso resolve tudo? De jeito nenhum. Vamos imaginar que Dumas fez D’Artagnan deixar a casa de De Tréville na Rue du Vieux Colombier e entrar na Rue Bonaparte (que já existia nessa época: era perpendicular à Rue du Vieux Colombier e paralela à Rue Férou e chamava-se então Rue du Pot de Fer). Não, isso seria demais. Ou jogaríamos o livro fora, indignados, ou tentaríamos relê-lo, convencidos de que erramos ao nos colocar como leitores-modelo de um romance histórico. Estaríamos lidando não com um romance histórico, mas com uma daquelas histórias chamadas ucrônicas — que se passam num tempo histórico totalmente maluco, em que Júlio César duela com Napoleão e Euclides consegue por fim demonstrar o teorema de Fermat.
Por que não podemos aceitar que D’Artagnan caminhe pela Rue Bonaparte, se aceitamos que caminhe pela Rue Servandoni? É óbvio: porque quase todo mundo sabe que a Rue Bonaparte não podia existir no século xvii, e quase ninguém sabe que a Rue Servandoni tampouco podia existir nessa época — nem Dumas sabia.
Portanto, nosso problema tem menos a ver com a ontologia das personagens que vivem em mundos ficcionais do que com o formato da Enciclopédia do leitor-modelo. Os três mosqueteiros prevê leitores-modelo que se interessam por reconstituição histórica (desde que não seja muito erudita) e sabem quem foi Bonaparte; têm apenas uma vaga ideia da diferença entre os reinados de Luís xiii e Luís xiv, de modo que o autor lhes fornece um bocado de informação tanto no começo quanto ao longo da história; e não pretendem vasculhar os arquivos nacionais franceses para descobrir se naquela época de fato existiu um conde de Rochefort. Deveriam saber também que a América já havia sido descoberta? O texto não diz nem sugere isso, mas é razoável supor que, se D’Artagnan encontrasse Cristóvão Colombo na Rue Servandoni, o leitor ficaria estupefato. “Ficaria” porque estou apenas supondo. Há leitores que certamente são capazes de acreditar que Colombo foi contemporâneo de D’Artagnan, porque há leitores para os quais tudo que não é presente é “passado” e o passado pode ser muito vago. Assim, uma vez que dissemos que o texto pressupõe uma Enciclopédia do leitor com um determinado formato, é muito difícil estabelecer esse formato.
O primeiro exemplo que vem à mente é Finnegans Wake, que prevê, demanda e requer um leitor-modelo dotado de uma competência enciclopédica infinita, superior ao do autor empírico James Joyce — um leitor capaz de descobrir alusões e ligações semânticas até onde o autor empírico não as percebeu. Na verdade, o texto pressupõe (como disse Joyce) um “leitor ideal acometido de uma insônia ideal”. Dumas não esperava — ao contrário, ficaria extremamente irritado — um leitor como eu, que vai investigar onde se situa a Rue des Fossoyeurs. Por outro lado, Joyce (embora o bosque de Finnegans Wake seja potencialmente infinito, de maneira que quando se entra não se consegue sair) queria um leitor capaz de deixar o bosque a qualquer momento e pensar em outros bosques, na floresta infinita da cultura universal e da intertextualidade.
Podemos dizer que todo texto de ficção cria um leitor-modelo, semelhante a “Funes, o Memorioso”, de Borges? Claro que não. Os leitores de “Chapeuzinho Vermelho” não precisam saber nada sobre Giordano Bruno, ao contrário dos leitores de Finnegans Wake. Assim, qual é o formato da Enciclopédia que uma obra narrativa “normal” requer de nós?
Em seu livro The Cognitive Computer [O computador cognitivo], Roger Schank e Peter Childers nos permitem enfocar o problema de outro ângulo: qual é o formato da Enciclopédia que se deveria dar a uma máquina para que ela possa escrever (e entender) fábulas como as de Esopo?5
Em seu programa Tale-Spin começaram com uma Enciclopédia em pequena escala: o computador foi informado como — considerando-se um conjunto de situações problemáticas — um urso podia fazer planos para conseguir mel.
No início das tentativas, o Urso perguntou ao Pássaro onde poderia encontrar mel e o Pássaro respondeu que “havia uma colmeia no carvalho”. Porém, numa das primeiras histórias produzidas pelo computador, o Urso se agastou pois achou que o Pássaro não tinha lhe respondido. Na verdade, faltava à sua competência enciclopédica a informação de que às vezes se pode indicar a localização de um alimento utilizando-se metonímia — quer dizer, designando a fonte em vez do alimento. Proust enalteceu Flaubert por escrever que Mme. Bovary se aproximou da lareira e por julgar desnecessário dizer aos leitores que ela estava com frio. Ademais, Flaubert supôs que seus leitores soubessem que uma lareira produz calor. Inversamente, Schank e Childers entenderam que tinham de ser mais explícitos com um computador e lhe forneceram dados sobre a relação do alimento com sua fonte. Entretanto, quando o Pássaro repetiu que havia uma colmeia no carvalho, o Urso foi até o carvalho e devorou a colmeia inteira. Sua Enciclopédia ainda estava incompleta: faltava explicar ao Urso a diferença entre fonte como continente e fonte como objeto, porque “encontrar uma geladeira será útil quando você tiver fome [só] se você souber que precisa olhar dentro dela, e não comê-la. Nada disso é óbvio para uma máquina”.6
Outro incidente imprevisto ocorreu quando a máquina recebeu informações sobre a maneira de utilizar determinados meios para alcançar determinados fins (por exemplo, “se uma personagem quer um objeto, uma opção consiste em tentar barganhar com o dono do objeto”). E vejam o que aconteceu:
O Urso estava com fome. Perguntou ao Pássaro onde havia mel. Este se recusou a dizer-lhe, e o Urso ofereceu-se então para trazer-lhe uma minhoca, caso o outro contasse onde havia mel. O Pássaro aceitou a oferta. Mas o Urso não sabia onde encontrar minhocas e perguntou ao Pássaro, que se recusou a dizer-lhe. Em seguida, o Urso ofereceu-se para trazer-lhe uma minhoca, caso ele contasse onde havia minhocas. O Pássaro aceitou a oferta. Mas o Urso não sabia onde encontrar minhocas e perguntou ao Pássaro, que se recusou a dizer-lhe. Então o Urso se ofereceu para trazer-lhe uma minhoca, caso ele contasse onde havia minhocas…7
A fim de evitar esse círculo vicioso, o computador foi instruído a “não dar um objetivo a uma personagem se esta já tem um [quer dizer, se já tentou alcançá-lo e não conseguiu], mas experimentar outra coisa”. No entanto, até mesmo essas instruções causaram problemas, porque interagiram mal com informações posteriores — por exemplo, “se uma personagem está com fome e vê um alimento, vai querer comê-lo. Se uma personagem está tentando arrumar comida e não consegue, vai ficar doente por falta de alimentação”.
Eis aqui uma história produzida pelo computador: a Raposa viu o Corvo empoleirado num galho com um pedaço de queijo no bico e, como estava com fome, evidentemente quis comer o queijo; assim, convenceu o Corvo a cantar. Quando este abriu o bico, o queijo caiu no chão. Uma vez que o queijo estava no chão, a Raposa o viu novamente e, em circunstâncias normais, teria tido vontade de comê-lo. Mas o computador fora instruído para não dar o mesmo objetivo duas vezes a uma personagem, de modo que a Raposa não pôde satisfazer a fome e ficou doente. Péssimo para ela. Mas o que aconteceu com o Corvo?
O Corvo viu o queijo no chão e teve fome, porém sabia que o queijo era seu. Ele era muito honesto consigo mesmo, de forma que resolveu não trapacear consigo mesmo a fim de dispensar o queijo. Tampouco tentava se enganar, nem estava competindo consigo mesmo, mas lembrou-se de que também se achava numa posição de domínio sobre si mesmo, e então se recusou a dar-se o queijo. Não lhe ocorreu nenhum bom motivo para se dar o queijo [se fizesse isso, perderia o queijo], de modo que propôs trazer uma minhoca para si, caso se desse o queijo. Isso lhe pareceu correto, mas ele não sabia onde encontrar minhocas. Então perguntou para si mesmo: “Corvo, você sabe onde encontrar minhocas?”. Mas naturalmente ele não sabia, de modo que… [e vai por aí afora].8
Na verdade, é necessário saber muita coisa para se ler uma fábula. No entanto, por mais que Schank e Childers tivessem de ensinar a seu computador, não precisaram lhe dizer onde ficava a Rue Servandoni. O mundo do Urso sempre foi um mundo pequeno.
Para ler uma obra de ficção é preciso ter alguma noção dos critérios econômicos que norteiam o mundo ficcional. Os critérios não estão lá — ou melhor, como em todo círculo hermenêutico, têm de ser pressupostos mesmo quando se tenta inferi-los a partir das evidências do texto. Por essa razão, ler é como uma aposta. Apostamos que seremos fiéis às sugestões de uma voz que não diz explicitamente o que está sugerindo.
Vamos voltar a Dumas e tentar lê-lo como se fôssemos leitores formados em Finnegans Wake — quer dizer, como se estivéssemos autorizados a encontrar em toda parte evidências e indícios para alusões e curtos-circuitos semânticos. Vamos tentar superinterpretar Os três mosqueteiros.
Poderíamos supor que mencionar a Rue Servandoni não foi um erro, e sim uma pista, uma alusão — que Dumas jogou esse nome nas margens do texto a fim de alertar seus leitores. Ele queria que os leitores entendessem que todo texto ficcional contém uma contradição básica exatamente porque se esforça tanto para fazer o mundo ficcional corresponder ao mundo real. Dumas queria demonstrar que toda ficção é uma ficção que se autoinvalida. O título do capítulo “A intriga se complica” refere-se não só aos casos amorosos de D’Artagnan ou da rainha, mas também à natureza da própria narratividade.
Aqui, no entanto, os critérios econômicos entram em cena. Dissemos que Nerval queria que reconstituíssemos sua história e pudemos afirmar isso porque o texto de Sylvie contém uma grande quantidade de sinais temporais. É difícil acreditar que esses sinais fossem fortuitos; não é por acaso que a única data precisa do romance aparece no final, como se o narrador nos convidasse a reler o livro para redescobrir a sequência da história, que ele perdeu e nós ainda não encontramos. Mas os sinais temporais espalhados ao longo do texto de Nerval surgem sempre em momentos cruciais do enredo, exatamente quando o leitor se sente perdido. Eles funcionam como sinais de trânsito, apagados porém perceptíveis num cruzamento enevoado. Por outro lado, quem sair caçando anacronismos em Dumas talvez encontre vários, embora nenhum em pontos muito estratégicos. No capítulo 11, a voz narrativa se concentra no ciúme de D’Artagnan, um drama que não se alteraria em função do caminho percorrido pela personagem. Sim, pode-se dizer que o capítulo inteiro gira em torno de uma confusão de identidades: primeiro vemos um vulto, depois esse vulto é identificado como Mme. Bonacieux, depois ela fala com uma pessoa que D’Artagnan julga ser Aramis, depois descobrimos que essa pessoa era uma mulher; no final do capítulo, Mme. Bonacieux será acompanhada por alguém que D’Artagnan novamente julga ser seu amante, mas depois descobrimos que é lorde Buckingham, o amante da rainha… Por que não pensar que a confusão com as ruas é intencional — que funciona como signo e alegoria da confusão com as pessoas, e que há paralelos sutis entre os dois tipos de mal-entendido?
A resposta é a seguinte: ao longo do livro ocorrem reconhecimentos repentinos após os casos de identidade equivocada, como era comum nos romances populares do século xix. D’Artagnan constantemente reconhece num estranho que passa o infame homem de Meung; muitas vezes acredita que Mme. Bonacieux é infiel e depois descobre que ela é pura como um anjo. Athos reconhecerá Milady como Anne de Breuil, com quem se casou anos antes de descobrir que ela era uma criminosa. Milady reconhecerá no carrasco de Lille o irmão do homem que ela levou à ruína. E assim por diante. Ao anacronismo referente à Rue Servandoni, contudo, não se segue nenhuma revelação, e Aramis continua morando lá até o romance terminar e provavelmente ainda depois. De acordo com as regras dos romances de capa e espada do século xix, se seguirmos a pista Servandoni, acabaremos num beco sem saída.
Até agora fizemos algumas divertidas experiências mentais, perguntando-nos o que teria acontecido se Nerval tivesse nos dito que nenhum cavalo puxava a carruagem, se Rex Stout tivesse situado Alexanderplatz em Nova York, se Dumas tivesse feito D’Artagnan entrar na Rue Bonaparte. Tudo bem, nós nos divertimos, como os filósofos às vezes se divertem; mas não devemos esquecer que Nerval nunca disse que faltava cavalo na carruagem, que Stout nunca colocou Alexanderplatz em Nova York e que D’Artagnan nunca dobrou a esquina da Rue Bonaparte.
A competência enciclopédica exigida do leitor (os limites impostos ao tamanho potencialmente infinito da Enciclopédia máxima, que nenhum de nós jamais possuirá) é limitada pelo texto ficcional. Provavelmente, um leitor-modelo de Dumas devia saber que Bonaparte não podia ser nome de rua em 1625, e na verdade Dumas não comete esse erro. Provavelmente, não se espera desse mesmo leitor que saiba quem foi Servandoni, e Dumas pode tomar a liberdade de mencioná-lo no lugar errado. Um texto ficcional sugere algumas capacidades que o leitor deveria ter e estabelece outras. Quanto ao mais, continua sendo vago, porém naturalmente não nos obriga a explorar toda a Enciclopédia máxima.
O formato preciso da Enciclopédia que um texto requer de um leitor permanece no campo da conjectura. Descobrir isso equivale a descobrir a estratégia do autor-modelo — quer dizer, não a figura-no-tapete, e sim a regra segundo a qual se pode traçar muitas figuras no tapete da ficção.
Qual é a moral dessa história? É que os textos ficcionais prestam auxílio a nossa tacanheza metafísica. Vivemos no grande labirinto do mundo real, que é maior e mais complexo que o mundo de Chapeuzinho Vermelho. É um mundo cujos caminhos ainda não mapeamos inteiramente e cuja estrutura total não conseguimos descrever. Na esperança de que existam regras do jogo, ao longo dos séculos a humanidade vem se perguntando se esse labirinto tem um autor ou talvez mais de um. E vem pensando em Deus ou nos deuses como autores empíricos, narradores ou autores-modelo. As pessoas tentam imaginar uma divindade empírica: se tem barba; se é Ele, Ela ou Isso; se nasceu ou sempre existiu; e até (em nossa própria época) se morreu. Sempre se procurou Deus como Narrador — nos intestinos dos animais, no voo dos pássaros, na sarça ardente, na primeira frase dos Dez Mandamentos. Alguns, todavia (inclusive filósofos, é claro, mas também adeptos de muitas religiões), procuraram Deus como Autor-Modelo — quer dizer, Deus como a Regra do Jogo, como a Lei que torna ou um dia tornará compreensível o labirinto do mundo. A Divindade nesse caso é algo que precisamos descobrir ao mesmo tempo que descobrimos por que estamos no labirinto e qual é o caminho que nos cabe percorrer.
No pós-escrito a O nome da rosa, eu disse que gostamos de histórias policiais porque fazem a mesma pergunta formulada pela filosofia e pela religião: “Quem fez isso?”.9 Mas isso é metafísica para um leitor do primeiro nível. O leitor do segundo nível tem perguntas de uma ordem maior: como devo identificar (conjecturalmente) ou até mesmo como devo construir o Autor-Modelo para que minha leitura faça sentido? Stephen Dedalus se questionava: se um homem que martela ao acaso um bloco de madeira elabora a imagem de uma vaca, essa imagem é uma obra de arte? E, se não o é, por que não o é?10 Hoje, tendo já formulado uma poética do ready-made, sabemos a resposta: aquele objeto informal é uma obra de arte se conseguimos imaginar por trás dele a estratégia de um autor. Esse é um caso extremo, em que tornar-se um bom leitor necessariamente implica tornar-se um bom autor. Entretanto, é um caso extremo que expressa muito bem o elo indissolúvel, a dialética, entre autor e leitor-modelo.
Nessa dialética, temos de seguir o preceito do oráculo de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. E como, conforme Heráclito nos lembra, “o Senhor cujo oráculo está em Delfos não fala nem esconde, mas indica através de sinais”, o conhecimento que buscamos é ilimitado porque assume a forma de uma contínua interrogação.
Embora potencialmente infinita, essa interrogação é limitada pelo formato resumido da Enciclopédia que uma obra de ficção demanda; mas quanto ao mundo real, com a infinidade de cópias que é possível fazer dele, não sabemos ao certo se é infinito e limitado ou finito e ilimitado. Contudo, há outro motivo pelo qual nos sentimos metafisicamente mais à vontade na ficção do que na realidade. Existe uma regra de ouro em que os criptoanalistas confiam — a saber, que toda mensagem secreta pode ser decifrada, desde que se saiba que é uma mensagem. O problema com o mundo real é que, desde o começo dos tempos, os seres humanos vêm se perguntando se há uma mensagem e, em havendo, se essa mensagem faz sentido. Com os universos ficcionais sabemos sem dúvida que têm uma mensagem e que uma entidade autoral está por trás deles como criador e dentro deles como um conjunto de instruções de leitura.
Assim, nossa busca do autor-modelo é um Ersatz para aquela outra procura, no curso da qual a Imagem do Pai se esvaece na Névoa do Infinito, e nunca deixamos de nos perguntar por que existe alguma coisa em vez de nada.
1. Lucrecia Escudero, “Malvine: Il Gran Racconto” (tese, Università degli Studi di Bologna, Dottorato di Ricerca in Semiotica, 4 Ciclo, 1992).
2. Umberto Eco (em colaboração com Patrizia Violi), “Presuppositions”, in The Limits of Interpretation (Bloomington: Indiana University Press, 1990), pp. 253-60.
3. Consultei um mapa de Paris datado de 1609, no qual algumas das ruas não constam ou têm outros nomes. Num texto intitulado Estat, noms et nombre de toutes les rues de Paris en 1636, ed. Alfred Franklin (Paris: Léon Willem, 1873; Éditions de Paris, 1988), os nomes dados são já os que se utilizavam em 1716, segundo um mapa do último ano que encontrei. Considerando que a maioria dos mapas obedece a critérios estéticos e não mostra os nomes de ruas secundárias, creio que minha reconstituição se aproxima razoavelmente da situação das ruas em 1625.
4. Keith S. Donnellan, “Reference and Definite Descriptions”, Philosophical Review 75 (1966), pp. 281-304.
5. Roger C. Schank (com Peter G. Childers), The Cognitive Computer (Reading, Mass.: Addison-Wesley, 1984), pp. 81-9.
6. Ibid., p. 83.
7. Ibid., p. 85.
8. Ibid., p. 86.
9. Umberto Eco, “Postscript” de The Name of the Rose, trad. William Weaver (Nova York: Harcourt Brace, 1984).
10. James Joyce, A Portrait of the Artist as a Young Man (Nova York: Viking, 1964), p. 214.