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POR QUE ESTE MATERIAL
Os documentos analisados nos outros estudos deste conjunto são execuções: o que Flaubert escreveu, revisou e publicou. Os Plans et scénarios são concepções: o que ele decidiu antes de escrever. Mais raro e mais difícil de encontrar para qualquer obra clássica.
Para um escritor estudando técnica narrativa, ver os planos pré-textuais de uma obra-prima é equivalente a entrar no estúdio de um pintor enquanto ele faz os esboços a carvão — antes da tinta. Mostra como uma obra se concebe arquitetonicamente antes que questões de prosa se imponham.
O conjunto: 46 fólios escritos em datas variadas, alguns esboços de plano geral, outros cenários parciais de cenas específicas. O primeiro — chamado "Premier scénario général" (Folio 1) — é o mais importante: contém o plot inteiro do romance em duas páginas.
O PREMIER SCÉNARIO GÉNÉRAL — O ROMANCE EM DUAS PÁGINAS
O folio 1 começa com uma única palavra centrada: "Madame Bovary." Em seguida, em letra rápida e telegráfica, Flaubert escreve:
"Commencer par son entrée au collège. — use ses habits de campagne dans les récréations" "Começar pela entrada dele no colégio. — usa as suas roupas de campo nos recreios"
Primeira frase do plano: a decisão de abrir com a entrada de Charles no colégio. Esta foi a primeira decisão arquitetônica registrada. Note: não é Emma que abre o romance — é Charles, como menino do campo entrando no colégio com roupas que o distinguem dos outros alunos. A abertura "Nous étions à l'étude" (que conhecemos do romance publicado) é uma execução desta decisão arquitetônica primária.
A seguir, em catorze linhas, Flaubert esboça Charles inteiro:
"Charles Bovary officier de santé 33 ans quand commence le livre veuf déjà d'une femme plus vieille que lui épousée par spéculation ou plutôt par bêtise et dont il a été dupe — vagabondage dans les champs — époque où l'on brasse — son enfance à la campagne jusqu'à 15 ans — trois ou quatre ans au collège officier de santé puis Carabin — loge sur l'eau de Robec — à gd peine — misère sotte et dont il n'a pas conscience — esprit doux sensible, droit juste obtus, sans imagination."
Análise:
A psicologia de Charles condensada em cinco adjetivos: "doux, sensible, droit, juste, obtus, sans imagination" — doce, sensível, reto, justo, obtuso, sem imaginação. Toda a tragédia de Charles está nessa sequência. Os quatro primeiros termos descrevem virtudes; obtus e sans imagination nomeiam o que destruirá seu casamento.
A idade exata — 33 anos. Flaubert decidiu a idade de Charles antes da escrita.
A biografia anterior em uma frase — Charles foi viúvo, sua primeira esposa foi mais velha, casou por estupidez, foi enganado. A pré-história inteira do personagem já está aqui.
Princípio derivado: Antes de escrever um personagem, destilar sua psicologia em uma sequência mínima de adjetivos (4-6) e estabelecer sua biografia anterior em uma única frase. Concentração radical em poucos termos precisos.
EMMA EM DEZ LINHAS
Logo abaixo de Charles, Flaubert esboça Emma:
"Me Bovary Marie (signe Maria, Marianne ou Marietta) fille d'un cultivateur aisé élevée au couvent. souvenir de ses rêves quand elle repasse devant le couvent à Rouen — nobles amies — toilette piano — Aime d'abord son mari qui est un assez beau garçon — bien fait & bellâtre. Mais sans gd emportement. ses sens ne sont pas encore réveillés — peu à peu — à cette époque elle en est encore au rêve et à l'ennui."
O que Flaubert decidiu antes de escrever:
O nome de Emma é "Marie" mas ela assina "Maria, Marianne ou Marietta". O movimento bovariano está no próprio nome: nasce Marie (banal francês rural), assina-se com versões mais sofisticadas, italianizantes, romanescas. A primeira manifestação do bovarismo é onomástica. (Na versão publicada, Flaubert eliminou esse detalhe — ela vira Emma.)
A psicologia de Emma em dois termos: "au rêve et à l'ennui" — em sonho e em tédio. Toda a vida interior de Emma está nesses dois termos. Cinco anos de escrita, 350 páginas, e o núcleo é: rêve (sonho) + ennui (tédio).
O percurso emocional pré-traçado: ama primeiro o marido, depois os sentidos despertam, depois pouco a pouco se descobre vazia. Flaubert tinha o arco completo antes de escrever.
O pai já tem nome: "père Desnoyers" — mas no romance publicado se chamará "Rouault". O nome foi trocado depois.
Princípio derivado: A psicologia de uma protagonista pode ser destilada a dois termos opostos que se sustentam mutuamente — sonho e tédio. A tensão entre os dois termos é o motor narrativo.
OS AMANTES NA PRIMEIRA CONCEPÇÃO — DIVERGÊNCIA RADICAL
Aqui está a primeira grande revelação: no Premier scénario, os amantes estão em ordem inversa da do romance publicado.
O primeiro amante é o escrevente do tabelião — i.e., LÉON. Não Rodolphe. No plano original, Léon é o primeiro amante de Emma. E é descrito como "mesmo tipo do marido, mas superior" — mesmo tipo de homem ingênuo, doce, com o adicional da elegância urbana.
Em seguida vem o "segundo amante":
*"Un second amant officier de spahis brun — brun — cassant — spirituel — l'empoigne en blaguant et lui remue vigoureusement le tempérament — sous son apparente gaité c'est un homme rongé d'ambition — chasseur en habits de velours — rude — hâlé — énergique & viveur. se ruine peu à peu."*
O segundo amante é um OFICIAL DE SPAHIS — cavalaria francesa originária do norte da África, uniforme exótico, herói militar. Esse era originalmente Rodolphe. No romance publicado, Rodolphe é apenas um proprietário rural rico, sem militarismo.
E a última frase é demolidora: "se ruine peu à peu". No plano original, Rodolphe acabaria arruinado. No romance publicado, ele permanece próspero, intacto, indiferente.
Síntese das divergências:
| Elemento | Plano original (1851) | Romance publicado (1856) |
|---|---|---|
| Primeiro amante | Léon (escrevente do tabelião) | Rodolphe (proprietário rural) |
| Segundo amante | Oficial de spahis | Léon (escrevente do tabelião) |
| Natureza do segundo amante | Militar, exótico, oficial colonial | Provinciano rico |
| Destino do segundo amante | Se arruína pouco a pouco | Permanece próspero e intacto |
| Nome de Léon | "Léopold" | "Léon" |
A inversão da ordem dos amantes é decisão estrutural enorme. Na versão original (Léon → Spahi), Emma começaria com um homem doce análogo ao marido, e depois subiria para um homem cínico exótico. Na versão publicada (Rodolphe → Léon), ela começa com o cínico experiente e depois desce para o escrevente jovem provinciano. A direção do arco é radicalmente diferente: ascensão erótica vs. queda erótica.
A inversão tornou o romance mais antibovariano: o segundo amante não eleva Emma; degrada-a.
Princípio derivado: A ordem dos eventos eróticos em um arco narrativo define o sentido moral inteiro da trajetória. Ascensão erótica é trágica diferentemente de queda erótica.
O DESTINO DE BERTHE — TRANSFORMAÇÃO BRUTAL
No verso do folio 1, Flaubert sintetiza o fim do romance:
"vide solitaire de Charles avec sa petite fille — le soir il s'apperçoit de jour en jour des dettes de sa femme — le maître-clerc se marie — un jour que Charles se promène dans son jardin il meurt tout à coup — sa petite fille aux écoles gratuites"
No plano original, Berthe vai para as ESCOLAS GRATUITAS — escolas públicas francesas para crianças pobres. Educação, ainda que pobre.
No romance publicado, Berthe vai para uma FÁBRICA DE FIAÇÃO DE ALGODÃO.
A mudança é gigantesca:
- Plano original: educação básica gratuita (descida social, mas com possibilidade)
- Romance publicado: trabalho infantil industrial (proletarização total, futuro cerrado)
Flaubert escolheu, durante a escrita, intensificar a brutalidade do destino de Berthe.
Princípio derivado: Durante a escrita, decisões podem ser intensificadas em direção mais brutal se isso servir à arquitetura moral da obra. A intensificação durante a escrita é parte do método — o plano original frequentemente é mais suave que o resultado final.
OUTRAS DIVERGÊNCIAS PLANO/PUBLICADO
1. Léon morria no plano original. "Léopold maladie — sa mort". No plano: Léon (Léopold) cai doente e morre após casar. No romance publicado: Léon sobrevive, prospera. A morte de Léon foi cortada — fazendo o romance mais cruel ainda.
2. Havia uma viagem a Paris. No plano: Emma e o segundo amante viajavam a Paris. No romance publicado: a viagem a Paris não acontece — Emma apenas sonha com Paris através de revistas de moda; nunca chega lá. Outra intensificação: a fantasia parisiense permanece exclusivamente fantasia.
3. O pai de Emma se chamava "Desnoyers", depois trocado para "Rouault".
NOMES TESTADOS PARA OS PERSONAGENS (FOLIO 2)
O folio 2 mostra Flaubert testando nomes: "henri Leclerc... théodore... Léopold Adol Duprey Dupray... théodore Duval Boulanger"
Lista de candidatos: Henri Leclerc, Théodore, Léopold, Adolphe, Duprey, Dupray, Duval, Boulanger.
O que sobrou na versão final:
- Léopold → virou Léon
- Boulanger → sobrenome de Rodolphe (Rodolphe Boulanger)
- Adolphe → talvez ecoa em "Rodolphe"
Princípio derivado: Nomes de personagens são escolhidos por iteração e descarte. Flaubert testou pelo menos sete candidatos antes de chegar aos definitivos.
HOMAIS JÁ ESTAVA AQUI
No folio 2, Flaubert esboça Homais em quatro linhas: "le pharmacien confident — toujours en manches de chemise — les confitures — correspondant du Journal de Rouen, — libéral"
Cinco traços: farmacêutico confidente, sempre em mangas de camisa, faz/distribui geleias, correspondente do Journal de Rouen, liberal (político). Todos esses traços sobreviveram no romance publicado em estado idêntico. Homais foi concebido nesta forma desde o início.
Princípio derivado: Personagens secundários memoráveis emergem de fórmulas curtas e estáveis estabelecidas desde a concepção.
EMMA — "PEU ARTISTE MAIS POÉTIQUE"
No folio 2, Flaubert anota sobre Emma: "Emma dessine (sans goût artistique. elle est peu artiste mais poétique)..."
A chave do bovarismo está aqui: "peu artiste mais poétique" — pouco artista mas poética.
Emma tem sensibilidade poética (imaginativa, romântica, sonhadora) sem ter talento artístico (sem habilidade técnica para criar arte). Essa é a estrutura psicológica do bovarismo: aspiração estética sem capacidade estética.
Bovarismo não é apenas confundir vida com romance. É ter sensibilidade poética sem o talento de transformá-la em obra. Quem tem talento se torna artista; quem tem só sensibilidade se torna Emma. O bovarismo é o lado consumidor da arte.
Princípio derivado FUNDAMENTAL: O bovarismo, em sua estrutura técnica mais precisa, é a aspiração estética sem competência estética.
O MÉTODO DE TRABALHO REVELADO PELOS PLANOS
Olhando os fólios em conjunto, emerge o método arquitetônico de Flaubert:
Etapa 1 — Premier scénario général (folio 1 + verso): Plot inteiro em duas páginas. Cada personagem com traços psicológicos destilados. Sequência narrativa do começo ao fim. Decisões sobre desfecho.
Etapa 2 — Notes (folio 2): Listas de nomes testados. Detalhes da casa, decoração, objetos. Habilidades dos personagens.
Etapa 3 — Scénarios partiels (folio 2 verso e seguintes): Esboços específicos de cenas-chave. Decisões de tonalidade e cor narrativa.
A sequência: macro plot → notas auxiliares → cenas individuais → escrita.
Princípio derivado fundamental: Romance complexo deve ser concebido em três níveis hierárquicos antes que a primeira frase narrativa seja escrita. A escrita é execução de plano, não invenção em tempo real. Flaubert demonstra que a planificação extensa é compatível com — e talvez requerida por — prosa de máxima sofisticação.
APLICAÇÃO IMEDIATA
Para qualquer projeto literário em fase de concepção, escrever um Premier scénario général à maneira de Flaubert:
- Em uma única página, em letra rápida e telegráfica, escrever o plot inteiro do início ao fim.
- Para cada personagem principal, destilar em 4-6 adjetivos sua psicologia.
- Para cada personagem, uma frase sobre sua biografia anterior à ação do romance.
- Para a protagonista, dois termos opostos que serão o motor narrativo.
- Decidir o desfecho. Especificar o destino de cada personagem secundário.
Depois — em folhas separadas — testar nomes, esboçar objetos e cenários, e fazer scénarios partiels das cenas-chave com decisões de tonalidade.
Antes de qualquer prosa.
Este método pode parecer mecânico ou anti-criativo. Flaubert é a refutação dessa objeção. O romance mais musical e mais livre do XIX foi escrito com plano arquitetônico extenso. A planificação não impede a invenção; sustenta-a.