Tradução de referência: Janaína Perotto (Antofágica, 2022).

POR QUE ESTE FECHAMENTO

A maioria dos romances do XIX termina restaurando uma ordem moral: o culpado é punido, o virtuoso é recompensado, a sociedade volta ao equilíbrio. Madame Bovary faz o oposto. Os culpados prosperam; os inocentes morrem; a justiça poética é abolida.

Estruturalmente, o último capítulo de Flaubert é uma máquina de inversão moral:

Personagem Mérito moral Destino
Emma Adúltera, mentirosa, irresponsável financeira Morta
Charles Marido fiel, pai amoroso, perdoador Morre de tristeza
Rodolphe Sedutor cínico que abandonou Emma Próspero, ileso, segue na vida
Léon Co-adúltero que se livrou impunemente Casa-se, prospera, esquece
Homais Manipulador medíocre que matou Hippolyte pela vaidade Recebe a Legião de Honra
Lheureux Comerciante usurário que arruinou Emma Próspero, segue cobrando
Berthe Criança inocente, filha dos Bovary Enviada a uma fábrica de fiação

O escândalo do romance — para os leitores de 1857 — não foi a moral sexual de Emma. Foi a recusa de Flaubert em punir os vilões e recompensar os inocentes. O promotor imperial que processou Flaubert sentiu corretamente que o que ali se subvertia era a ordem do mundo, não apenas a moral conjugal.

CHARLES PERDOA RODOLPHE — A CENA DA FATALIDADE

Após a morte de Emma, Charles descobre as cartas. Em vez de raiva, encontra Rodolphe casualmente. Senta-se com ele. E perdoa.

"Acrescentou ainda uma palavra grande, a única que jamais havia dito: — É culpa da fatalidade!

Rodolphe, que conduzira aquela fatalidade, considerou-o bastante benevolente para um homem em sua situação, cômico até, e um pouco vil."

  1. "A única palavra grande que jamais havia dito." Charles, personagem definido pela mediocridade, profere finalmente uma palavra elevada: fatalité. Tragédia para Charles: chegou à grandeza linguística no momento exato em que essa grandeza é insuficiente. O leitor sente o pathos: Charles tenta articular o que aconteceu com vocabulário trágico (fatalidade), mas Rodolphe (e o leitor) sabe que não foi fatalidade — foi a vontade calculada de Rodolphe.

  2. "Rodolphe, que conduzira aquela fatalidade." Frase devastadora em sua brevidade. Rodolphe foi a fatalidade. Não houve destino — houve um homem específico tomando decisões específicas para seduzir Emma. Flaubert nomeia a agência onde Charles vê apenas destino impessoal.

  3. "Cômico até, e um pouco vil." A reação de Rodolphe ao perdão é repugnante. Acha Charles cômico (ridículo) e vil (baixo, mesquinho). A vítima é desprezada pelo culpado por demonstrar generosidade.

Princípio derivado: Para mostrar a profundidade moral de uma personalidade vil, mostrar sua reação ao perdão recebido. A pessoa verdadeiramente cínica não se sente aliviada — sente desprezo pelo perdoador. Esse desprezo, narrado sem comentário, é mais devastador que qualquer condenação direta.

A MORTE DE CHARLES — A INSUFICIÊNCIA DA AUTÓPSIA

Charles morre no banco do jardim com uma mecha do cabelo de Emma na mão:

"No dia seguinte, Charles foi sentar-se no banco do caramanchão. Os dias passavam pela treliça; as folhas da videira traçavam suas sombras na areia, o jasmim exalava perfume, o céu estava azul, besouros zumbiam em torno dos lírios em flor, e Charles sufocava como um adolescente sob as emanações amorosas vagas que insuflavam seu coração triste.

Às sete horas a pequena Berthe, que não o tinha visto durante toda a tarde, veio buscá-lo para jantar.

Ele tinha a cabeça recostada contra o muro, os olhos fechados, a boca aberta, e segurava nas mãos uma longa mecha de cabelos pretos.

— Papai, venha! — disse ela.

E, acreditando que ele queria brincar, ela o empurrou devagarinho. Ele caiu no chão. Estava morto."

  1. O contraste do mundo natural. Jardim em flor, sol, jasmim, besouros, lírios. A natureza está plena no momento exato em que Charles morre. O mundo não pausa para o sofrimento humano. Princípio anti-pathético consolidado: a natureza é indiferente.

  2. A mecha de cabelos. Único objeto que Charles segura. Fetiche bovariano herdado — Charles, que nunca leu romances, no fim adquire o gesto romântico de guardar uma mecha. Demasiado tarde: ele apropria-se do sentimentalismo de Emma exatamente quando morre.

  3. Berthe acredita que ele quer brincar. A criança não reconhece a morte. Empurra o pai "devagarinho". Ele cai. Está morto. Quatro palavras. Mesma técnica que matou Emma em cinco palavras ("Ela não existia mais").

  4. A autópsia que não encontrou nada. "Trinta e seis horas depois, a pedido do boticário, Monsieur Canivet acorreu. Ele o abriu e não encontrou nada."Charles morreu de tristeza, e a medicina (Canivet, o mesmo que amputou Hippolyte) abre o corpo e não encontra causa. Ironia médica suprema: a dor matou, e a ciência não a detecta. A causa real (sofrimento) é invisível ao instrumento (autópsia).

Princípio derivado: Para a morte de um personagem por causa não-física, inserir uma autópsia que não encontra nada. A insuficiência da explicação científica diante da causa real produz silêncio mais eloquente que qualquer descrição de luto.

BERTHE — A INOCENTE DESTRUÍDA

O destino de Berthe é descrito em uma única frase:

*"Quando tudo foi vendido, sobraram doze francos e setenta e cinco centavos, que foram usados para pagar a viagem de Mademoiselle Bovary à casa da avó. A boa mulher morreu no mesmo ano; estando o velho Rouault paralisado, foi uma tia quem se encarregou dela. É pobre e a envia, para ganhar a vida, a uma fábrica de linhas de algodão."*

  1. A precisão monetária. "Doze francos e setenta e cinco centavos" — Flaubert dá o valor exato. A herança de Emma e Charles, depois de tudo vendido, dá para pagar uma única viagem da filha. O dinheiro, que Emma desprezou no plano sentimental, é o que dita o futuro de sua filha.

  2. A cadeia de mortes coletáveis. Avó morre. Avô paralisado. Tia pobre. Todos os adultos que poderiam salvar a criança falham ou se incapacitam. Flaubert ergue uma estrutura sistemática de abandono — não há melodrama, apenas o registro frio de cada elo da cadeia que se quebra.

  3. A fiação de algodão. Trabalho industrial, mecânico, pulmonar (a poeira do algodão causava doenças respiratórias). Berthe, filha de pais provincianos burgueses, descende para o proletariado mais brutal.

  4. O presente do verbo. "É pobre e a envia, para ganhar a vida..." — o tempo presente. Berthe está agora, neste momento que o leitor lê, trabalhando na fábrica. Não foi enviada uma vez; está sendo enviada continuamente.

Princípio derivado: Para registrar destino brutal de personagem secundária, a frase mínima em registro burocrático produz mais impacto que dramatização. A indiferença da forma reproduz a indiferença do mundo.

A FRASE FINAL DO ROMANCE

Após Berthe, Flaubert dedica três parágrafos a Homais. Resume sua escalada social: ele se tornou o oráculo de Yonville, ataca padres, faz propaganda de seus produtos, destrói as carreiras dos três médicos que sucederam Charles. E a frase final do romance é esta:

"Acaba de receber a cruz de honra."

Sete palavras. Não há mais.

  1. O sujeito desaparece. A frase é elíptica. Não diz quem — confia que o leitor sabe, dos parágrafos anteriores, que se trata de Homais. O nome do vilão burguês ocupa o espaço de honra do nome do herói nos romances tradicionais.

  2. O presente do verbo. "Acaba de receber" — passé composé. Acabou de receber, agora mesmo, enquanto você lê. O romance termina no presente. A condecoração de Homais não é um acontecimento passado; é um acontecimento contínuo.

  3. "A cruz de honra". A Legião de Honra é a mais alta distinção civil francesa, criada por Napoleão. A República oficial honra o homem que matou Hippolyte por vaidade, manipulou Charles, e prosperou sobre o cadáver de Emma. Flaubert termina o romance com a confirmação institucional de que a sociedade premia exatamente aquilo que destruiu seus personagens centrais.

  4. A brevidade como veredito. A frase é curta porque não há mais nada a dizer. Não há comentário possível, não há ironia explícita, não há denúncia. O fato é a denúncia.

Princípio derivado: Para fechamento devastador de obra longa, deixar o último fato falar sozinho. Não há frase final melhor que o fato terrível enunciado em registro plano. Quanto mais o autor evitar comentar, mais o fato pesa.

Princípio adicional: O nome do destinatário do fato final pode ser elíptico, confiando na memória do leitor. A elipse é a forma da condenação assumida pelo leitor.

A ARQUITETURA DA INVERSÃO MORAL

Olhando o capítulo final em conjunto, vê-se a arquitetura completa da inversão:

  1. O perdão é desprezado (Charles perdoa Rodolphe; Rodolphe acha "vil")
  2. A morte é invisível à ciência (autópsia não encontra nada)
  3. A inocente é descartada (Berthe à fiação, em uma frase)
  4. O vilão é institucionalizado (Homais recebe a Legião de Honra)
  5. A frase final é sobre o vilão, não sobre os mortos (a elipse confirma)

Flaubert constrói um sistema fechado em que toda virtude é punida e toda mediocridade vulgar é recompensada. Não há saída moral. Não há consolação. O leitor sai do romance sem catarse, porque a catarse seria mentir.

Princípio estrutural para escala de romance: Em romance longo, o capítulo final pode inverter sistemática e silenciosamente as expectativas morais geradas pelos capítulos anteriores. Cada destino atribuído deve contradizer um mérito demonstrado, sem que o narrador comente a contradição. A inversão sem comentário é a forma mais alta de crítica social em ficção.

PRINCÍPIOS DERIVADOS APLICÁVEIS

1. Para mostrar profundidade moral de personalidade vil, mostrar sua reação ao perdão recebido.

2. A natureza plena no momento da morte produz efeito anti-pathético poderoso. Indiferença cosmológica como técnica.

3. Mortes podem ser executadas em frases mínimas (4-5 palavras). A brevidade é a forma da gravidade.

4. Autópsia que não encontra nada para morte por causa não-física produz silêncio eloquente.

5. Destino brutal de personagem secundária em frase mínima em registro burocrático. A neutralidade da forma é a condenação.

6. Presente verbal no final dá permanência ao infortúnio.

7. Frase final pode ser fato sem comentário. Elipse do sujeito (deixar o leitor identificar Homais) intensifica.

8. Em romance longo, inverter sistematicamente as expectativas morais no capítulo final. A inversão sem comentário é crítica social no nível máximo.

RELAÇÃO COM A MORTE DE EMMA

A morte de Emma é o clímax emocional; a morte de Charles e o destino de Berthe são o clímax estrutural. Lendo os dois em conjunto:

Cap. 8 (Morte de Emma) Cap. 11 (Fim)
Romantismo desmontado pelo corpo Justiça desmontada pelo sistema
Vítima do bovarismo morre Vilões prosperam
Cinco palavras para a morte Sete palavras para a condecoração
Fim do indivíduo Fim do mundo moral

A continuidade técnica entre os dois capítulos é o uso de frases mínimas para acontecimentos máximos. Flaubert estabeleceu o método com Emma e o repete com Charles, Berthe e Homais. A brevidade é o estilo do desencanto.