Tradução de referência: Janaína Perotto (Antofágica, 2022).

POR QUE ESTA CENA

O Capítulo 6 da Parte I é uma das estruturas mais sofisticadas do romance. Diferente dos outros capítulos, ele não conta uma cena: conta a formação psicológica de Emma através de um résumé memorial. Não há diálogo. Não há ação no presente da narrativa. É um capítulo inteiro de passado interior — o que Emma leu, o que sentiu, o que imaginou — que explica retroativamente por que ela é como é, e prevê tudo o que ela fará nos próximos 300 páginas.

O que está em jogo tecnicamente: Como retratar a formação de um personagem por aquilo que ele consome (livros, imagens, canções, religião) sem cair em explicação psicológica direta nem em catálogo seco de influências.

O conceito por trás da cena: O termo bovarismo — cunhado pelo crítico Jules de Gaultier em 1892 — designa precisamente o que esse capítulo constrói: a doença de imaginar-se outro, de viver vidas que não se tem por contaminação com vidas lidas em ficção. Emma é a personagem que dá nome ao conceito, e este capítulo é onde o conceito nasce.

A ARQUITETURA DA FORMAÇÃO — O QUE EMMA CONSOME

Flaubert constrói a formação de Emma por camadas de exposição que se sobrepõem cronologicamente. Cada camada deixa um sedimento, e o conjunto produz Emma:

Idade Camada de exposição Sedimento
13 anos (chegada ao convento) Misticismo religioso, perfumes do altar, imagens piedosas Sensorialização do sagrado
13-15 (primeiros anos) Pratos pintados com a história de Louise de la Vallière; bordados; música devocional Confusão religião/sentimento
15 (a solteirona da lavanderia) Romances clandestinos do século anterior: damas desmaiando, cavaleiros galantes Repertório narrativo romântico
15-17 Walter Scott — romances históricos; castelos, castelãs, cavaleiros de plumas brancas Cenário mental do desejo
16-17 Keepsakes (álbuns ilustrados ingleses) com nomes nobres por trás Imagens fixas de aspiração
17 (de volta a casa) Romances religiosos, livros de Châteaubriand, Lamartine Espiritualização do desejo carnal

Princípio fundamental do capítulo: Emma não é formada por uma influência, mas pela sobreposição contraditória de várias. O sagrado se sensualiza; o sentimental se sacraliza. O resultado é a impossibilidade de Emma distinguir entre desejo erótico, desejo místico, e desejo social. Para ela, todos são o mesmo desejo.

Esse é o mecanismo psicológico do bovarismo: a confusão deliberadamente cultivada entre planos de experiência que deveriam ser distintos.

A TÉCNICA CENTRAL — RÉSUMÉ EM LIVRE INDIRETO

O capítulo é narrado em terceira pessoa, em pretérito imperfeito — o tempo verbal do hábito, da repetição, da formação. Mas o livre indireto entra constantemente, contaminando o registro narrativo com a voz interior de Emma.

Exemplo (Perotto):

"Não eram nada além de amores, amantes, damas perseguidas desmaiando em pavilhões solitários, mensageiros assassinados em todas as paradas, cavalos mortos a cada página, florestas sombrias, transtornos do coração, juramentos, soluços, lágrimas e beijos, barquinhos ao luar, rouxinóis nos bosques, cavalheiros valentes como leões, doces como cordeiros, virtuosos como ninguém, sempre bem-vestidos, e que choram como jarros de água."

O que isso é tecnicamente:

  1. Empilhamento concreto distinto: treze itens diferentes, todos visuais ou narrativos, somando o repertório literário dos romances que Emma lia. Não são sinônimos; são instâncias.

  2. Voz contaminada. O narrador parece estar inventariando neutramente o conteúdo dos romances. Mas a frase final — "cavalheiros valentes como leões, doces como cordeiros, virtuosos como ninguém, sempre bem-vestidos, e que choram como jarros de água" — é a voz interior de Emma, com sua ingenuidade adolescente sentimental. Flaubert mistura o inventário objetivo com a apropriação subjetiva sem marcar a transição.

  3. Ironia silenciosa. "E que choram como jarros de água." O narrador não comenta que é absurdo cavaleiros chorarem como jarros de água — mas a comparação ridícula (jarros, recipientes domésticos) desmonta a romantização da própria frase.

Princípio derivado: Para retratar a formação de um personagem por aquilo que consome, listar o conteúdo do consumo em registro contaminado. A lista parece objetiva, mas a escolha das palavras e o ritmo final traem a apropriação subjetiva do personagem.

O CRUZAMENTO RELIGIÃO–SENTIMENTO

O movimento mais fino do capítulo é como Flaubert cruza o registro religioso com o registro sentimental, mostrando que Emma os confunde estruturalmente.

"Vivendo, portanto, sem nunca sair da atmosfera tépida das salas de aula, e entre aquelas mulheres de tez branca que portavam rosários com cruzes de cobre, adormecia suavemente ao langor místico exalado pelos perfumes do altar, do frescor das pias de água benta e do brilho das velas. Em vez de seguir a missa, olhava em seu livro as imagens piedosas ornadas de azul, e amava a ovelha doente, o Sagrado Coração trespassado por flechas afiadas, e o pobre Jesus, caindo ao carregar a cruz."

O que está fazendo:

  1. Vocabulário sensorial aplicado ao sagrado. "Atmosfera tépida", "langor místico", "perfumes do altar", "frescor das pias", "brilho das velas" — Flaubert descreve a experiência religiosa de Emma em termos estritamente sensoriais e quase eróticos. Não há um único termo de fé propriamente dita.

  2. Erotização das imagens devocionais. "O Sagrado Coração trespassado por flechas afiadas" — Emma ama uma imagem que tecnicamente é da Paixão de Cristo, mas a metonímia (coração + flechas) ecoa diretamente a iconografia do amor profano (Cupido).

  3. A própria palavra "amava" é equívoca. Emma "ama" essas imagens com o mesmo verbo que mais tarde aplicará a Rodolphe e a Léon. O capítulo planta a confusão semântica desde a infância.

Princípio derivado: Quando se quer mostrar que um personagem confunde planos de experiência, aplicar o vocabulário de um plano ao outro consistentemente. Não é necessário comentar a confusão. Basta sustentar a contaminação lexical durante várias frases.

A SOLTEIRONA DA LAVANDERIA — A FIGURA INTRODUTORA

Há uma personagem específica no capítulo que merece atenção: a solteirona da lavanderia. Aparece em uma única frase e tem a função estrutural de introduzir Emma à corrupção literária.

A solteirona introduz a literatura proibida (romances galantes) no convento. A formação literária de Emma começa por contrabando. Isso prefigura toda sua relação posterior com o romance/romance — como algo clandestino, escondido, transgressor.

A solteirona é de uma "antiga família nobre arruinada durante a Revolução". A literatura que ela traz carrega a memória do antigo regime — o mundo aristocrático que Emma jamais conhecerá mas pelo qual será fascinada.

Ela tem uma única função: trazer os romances. Aparece, deposita o vírus, desaparece. Personagem instrumental, executada com tal precisão que parece personagem completa.

Princípio derivado: Personagens estruturais podem ter uma única função e ainda assim ser inesquecíveis. A solteirona é um veículo de contágio literário, executada em três parágrafos. Não tem nome, não tem fala, não tem destino — mas tem profissão, classe, gestos (cantar enquanto costura), objetos (romances no avental). Suficiente.

O REGISTRO IRÔNICO SUSTENTADO

O capítulo inteiro opera em um registro irônico que nunca se declara. Flaubert nunca diz "Emma estava sendo corrompida" ou "essas leituras a perderam". Ele apenas:

  1. Cataloga o que Emma consumiu, com a escolha das palavras revelando o tom.
  2. Descreve o efeito sensorial do consumo.
  3. Termina com a frase memorial: "De volta à casa, Emma ficou satisfeita, no início, com o comando dos criados, depois tomou desgosto pelo campo e sentiu saudade do convento. Quando Charles veio a Bertaux pela primeira vez, considerava-se por demasiado desiludida, não tendo mais nada a aprender, e nada mais a sentir."

Essa última frase é devastadora. "Não tendo mais nada a aprender, e nada mais a sentir" aos dezessete anos. O narrador não diz "que arrogância de Emma" ou "ela estava enganada". Apenas reporta o pensamento de Emma como se fosse fato. A ironia opera no leitor que percebe o absurdo, não no narrador que o aponta.

Princípio derivado: A ironia mais devastadora é a que se sustenta inteiramente no registro do personagem ironizado. O narrador não precisa zombar. O leitor zomba sozinho ao perceber que uma adolescente de dezessete anos acaba de declarar (via livre indireto) que já aprendeu tudo o que havia para aprender e já sentiu tudo o que havia para sentir.

PRINCÍPIOS DERIVADOS APLICÁVEIS

1. Para retratar a formação de um personagem por consumo, listar o conteúdo do consumo em registro contaminado. A lista parece objetiva mas a escolha das palavras trai a apropriação subjetiva.

2. Para mostrar que um personagem confunde planos de experiência, contaminar lexicalmente um plano com o vocabulário do outro.

3. Empilhamento concreto distinto pode servir à caracterização indireta. Cada item é diferente, cada item é específico.

4. Personagens estruturais podem ter uma única função e ainda assim ser memoráveis. Definir profissão, classe, gestos e objetos basta.

5. A ironia mais devastadora opera inteiramente no registro do personagem ironizado.

6. Um capítulo de formação retroativa pode ser feito sem ação no presente da narrativa. Pretérito imperfeito + livre indireto + acumulação por camadas.

7. O fim do capítulo de formação deve conter uma frase-juízo em voz do personagem.

RELAÇÃO COM A MORTE DE EMMA

Este capítulo e o capítulo da morte (Parte III, Cap. 8) são as duas pontas do bovarismo. Aqui o bovarismo é fundado por sobreposição de leituras e imagens; lá ele é desmontado por arsênico, vomito, e o riso obsceno do mendigo cego. Tudo o que é construído no Cap. 6 da Parte I será destruído fisicamente no Cap. 8 da Parte III.