Tradução de referência: Janaína Perotto (Antofágica, 2022).
POR QUE ESTA CENA
A morte de Emma é o fechamento estrutural do bovarismo. Tudo o que foi formado no convento e confirmado em Vaubyessard é desmontado fisicamente neste capítulo. Romances românticos exibem mortes belas: heroínas pálidas em camas de seda, susurros emocionados, mãos delicadas que esfriam. Flaubert, a personagem que mais consumiu esse tipo de morte ficcional, mata com o oposto exato: envenenamento por arsênico, vômitos negros, língua para fora, riso obsceno, a canção rural de um mendigo cego sobre o vento que levantava a saia de uma camponesa.
Status crítico: Esta cena é universalmente analisada como o anti-romantismo flaubertiano em seu ponto máximo. Vargas Llosa dedica um capítulo inteiro em La orgía perpetua; Auerbach a considera o ápice do realismo flaubertiano em Mimesis.
Desafio técnico: Como escrever uma morte longa, corporal, desagradável — sem cair em sentimentalismo (que seria contrário ao realismo) nem em frieza clínica. Como narrar uma morte de quem o leitor passou 350 páginas conhecendo, sem permitir que ela seja bela ou redentora.
A EXTREMA-UNÇÃO COMO CATÁLOGO DE PECADOS
O momento técnico mais sofisticado da cena é a administração dos sacramentos. A unção ritual tradicional toca cinco pontos: olhos, narinas, boca, mãos, pés — os cinco sentidos pelos quais a alma pecou.
Flaubert aproveita o ritual para catalogar os pecados específicos de Emma, em registro de livre indireto que é simultaneamente do narrador e da memória do romance:
*"Em seguida, ele recitou o Misereatur e o Indulgentiam, mergulhou o polegar direito no óleo e começou as unções: primeiro nos olhos, que tanto cobiçaram toda suntuosidade terrena; depois nas narinas, entusiastas das brisas tépidas e dos perfumes amorosos; depois na boca, que se abrira para a mentira, que havia gemido de orgulho e exclamado na luxúria; depois nas mãos, que se deleitavam aos toques suaves; e finalmente nas solas dos pés, outrora tão rápidos quando corriam para saciar seus desejos, e que não andariam mais."*
Análise técnica:
A fórmula sacramental se converte em condenação retrospectiva. Cada parte do corpo é nomeada com o pecado que cometeu. O ritual religioso de purificação se torna, na voz de Flaubert, um inventário do romance inteiro. Os olhos que cobiçaram Vaubyessard. As narinas dos perfumes amorosos (Léon, Rodolphe). A boca que mentiu, gemeu de orgulho, exclamou na luxúria. As mãos do toque sensual. Os pés que corriam para saciar desejos.
A construção rítmica. Cinco partes do corpo, cinco verbos, cinco pecados, em sintaxe paralela. O ritmo litúrgico da própria unção é preservado — e usado contra a personagem que recebe a unção.
A última cláusula corta o ritmo: "e finalmente nas solas dos pés, outrora tão rápidos quando corriam para saciar seus desejos, e que não andariam mais." A frase final quebra a fórmula com a finalidade da morte.
Princípio derivado: Ritos cerimoniais podem ser usados em narrativa para catalogar implicitamente o passado do personagem. A forma cerimonial é o esqueleto; o conteúdo concreto é a memória do romance.
Princípio adicional: A voz é simultaneamente do padre (que recita), do narrador (que cataloga) e da personagem (cuja vida está sendo julgada). Três sujeitos enunciativos coexistem na mesma frase sem marcação explícita.
O ESPELHO
Antes da agonia final, Flaubert insere um detalhe extraordinariamente curto:
"Na verdade, ela olhava tudo ao redor, lentamente, como quem acorda de um sonho; então, em uma voz distinta, ela pediu seu espelho, e permaneceu debruçada sobre ele por algum tempo, até o momento em que lágrimas pesadas escorreram de seus olhos. Ela então reclinou a cabeça com um suspiro e tornou a cair sobre o travesseiro."
O que esse detalhe significa:
Emma, morrendo, pede um espelho. Não pede para ver a filha (Berthe), não pede para ver Charles (que está ali, ao lado), não pede para ver Léon ou Rodolphe. Pede para ver a si mesma.
E ao se ver, chora. Chora por si mesma.
Esta é a desmontagem definitiva do bovarismo. O bovarismo é a doença de imaginar-se outra; o último gesto de Emma é olhar quem ela realmente é. As lágrimas pesadas são por quem ela viu no espelho — não a heroína romântica que tinha imaginado ser desde os quinze anos, mas uma mulher pálida, desfigurada pelo veneno, prestes a morrer.
Flaubert poderia ter colocado a frase em livre indireto explícito. Recusou. O narrador não explica. O leitor sabe.
Princípio derivado: Para o momento de epifania mais devastadora de um personagem, omitir todo comentário interpretativo e narrar apenas o gesto físico. A epifania está implícita no gesto. Comentar seria amortecer. Confiança no leitor é o princípio.
A AGONIA — DESCRIÇÃO CORPORAL SUSTENTADA
Após o espelho, começa a agonia final. Flaubert sustenta a descrição corporal sem suavizar:
"Seu peito logo começou a ofegar rapidamente. A língua inteira saiu-lhe da boca; seus olhos, rodando, empalideceram como duas lâmpadas que se apagam, a crer que já estivesse morta, se não fosse a assustadora aceleração das costelas, sacudidas por um sopro furioso, como se a alma tivesse saltado para desprender-se."
A língua para fora. Detalhe brutal que rompe qualquer estética romântica da morte.
As comparações são honestas, não embelezadoras. "Olhos rodando, empalideceram como duas lâmpadas que se apagam" — comparação concreta com objeto doméstico (lâmpadas).
A "assustadora aceleração das costelas". Foco anatômico exato. A respiração é mostrada como mecânica corporal, não como suspiro.
Princípio derivado: Em descrição de morte ou de corpo em colapso, manter o registro anatomicamente exato. Comparações concretas, não sublimadas. Comentários metafísicos só com marcação irônica (como se, parecia).
O MENDIGO CEGO — O CONTRAPONTO OBSCENO
No instante mais alto da agonia, Flaubert insere a interrupção mais brilhante de toda a literatura francesa. Da rua sobe a canção de um mendigo cego que aparece esparsamente ao longo do romance:
"De repente, ouviu-se na calçada um barulho de tamancos pesados, com o toque de um bastão; e uma voz elevou-se, uma voz rouca, que cantava:
Quando em vez um dia de calor / Faz a mocinha sonhar com o amor.
Emma reergueu-se como um cadáver galvanizado, os cabelos soltos, as pupilas fixas, boquiaberta.
Para juntar atentamente / As espigas que a foice sega, / Minha Nanette em vertente / Ao sulco que a nós oferta.
— O Cego! — exclamou ela.
Emma começou a rir, com um riso atroz, frenético, desesperado, acreditando ter visto o rosto hediondo do miserável, que emergia na escuridão eterna como uma assombração.
Soprou bem forte naquele dia, / E a saia curta fugiu na ventania!"
O que essa interrupção faz tecnicamente:
A canção é obscena de baixo registro. Conteúdo: uma camponesa sonha com amor enquanto colhe; o vento levanta a saia. Sexo rural, vulgar, físico — o oposto exato do amor romantizado que Emma perseguiu o romance inteiro. O sexo dos lavradores reais, contado em rima popular, invade o quarto sagrado da morte.
O mendigo é figura recorrente. Aparece esparsamente ao longo do romance — Emma o vê várias vezes na estrada para Rouen. Flaubert sustentou esta figura durante centenas de páginas para que ela voltasse aqui.
A canção é fragmentada por dois momentos de descrição. Estrofe → reação de Emma → estrofe → exclamação + riso → estrofe → morte. Montagem contrapontística — Flaubert volta a usar a técnica dos comícios, mas agora em escala íntima.
Emma se ergue "como um cadáver galvanizado". Referência ao experimento de Galvani. A comparação é cientificista e desencantadora, não espiritual.
O riso "atroz, frenético, desesperado". Os três adjetivos não são sinônimos completos — atroz é a qualidade objetiva, frenético é a forma, desesperado é o conteúdo afetivo. Empilhamento concreto distinto.
A última estrofe é deixada flutuando depois da morte. A música não para. A vulgaridade do mundo é indiferente ao drama do quarto.
Princípio derivado: O contraponto sonoro vulgar invadindo cena solene é técnica de subversão poderosa. A música obscena na hora da morte funciona como inversão sacrílega. Vulgaridade externa como anti-sublimação da intimidade dramática.
Princípio adicional: Figuras recorrentes ao longo de um romance longo podem ser plantadas esparsamente e mobilizadas no clímax. A repetição silenciosa cria autoridade simbólica.
A MORTE — CINCO PALAVRAS
E a morte de Emma é narrada em uma frase de cinco palavras, depois da estrofe do mendigo:
"Uma convulsão abateu-a sobre o colchão. Todos se aproximaram. Ela não existia mais."
Três frases curtas. A morte propriamente dita é dita em cinco palavras: "Ela não existia mais."
Inversão radical da expectativa. O capítulo inteiro são páginas de agonia detalhada, descrição corporal sustentada, montagem contrapontística com canção obscena. E a morte propriamente é despachada em cinco palavras. O contraste de escala é deliberado: a vida demora; a morte é instantânea.
A negação total. Flaubert não diz "Emma morreu", não diz "ela faleceu", não diz "expirou". Diz "ela não existia mais". A frase é ontológica, não eufemística.
A frase é em pretérito imperfeito. "Não existia" — o tempo do estado, não do evento. A morte é representada como o término de um estado de existência.
Princípio derivado: O momento mais esperado de uma cena pode ser executado em uma frase mínima. Quanto mais longa a aproximação, mais devastadora a brevidade da chegada. Para o evento ontológico (morte, nascimento, decisão irreversível), a brevidade é a forma da gravidade.
PRINCÍPIOS DERIVADOS APLICÁVEIS
1. Ritos cerimoniais podem ser usados como catálogo retrospectivo. Cada elemento do rito preenchido com referência específica ao percurso do personagem.
2. Para epifania devastadora, omitir comentário e narrar apenas o gesto físico.
3. Em descrição de morte/corpo em colapso, manter registro anatomicamente exato. Comparações concretas, não sublimadas.
4. Contraponto sonoro vulgar invadindo cena solene é técnica de subversão.
5. Figuras recorrentes plantadas esparsamente podem ser mobilizadas no clímax.
6. Empilhamento concreto distinto também funciona em adjetivos.
7. O momento mais esperado pode ser executado em uma frase mínima. Contraste de escala.
8. Para evento ontológico, a brevidade é a forma da gravidade.
A DESMONTAGEM COMO MÉTODO
Lendo este capítulo em conjunto com os anteriores, emerge a estrutura completa do bovarismo flaubertiano:
| Etapa | Capítulo | Mecanismo técnico |
|---|---|---|
| Gênese | Convento (I, 6) | Formação por sobreposição de leituras |
| Confirmação | Vaubyessard (I, 8) | Contágio sensorial por experiência única |
| Operação | Comícios (II, 8) + Fiacre (III, 1) | Bovarismo em ação |
| Desmontagem | Morte (III, 8) | Desconstrução física |
O método de Flaubert é arquitetônico. Não há nada na morte que não tenha sido preparado nos capítulos de formação. Cada elemento da agonia é a inversão de algo que Emma desejou. A unção catalogando os pecados é a inversão das imagens piedosas que ela amou no convento. O espelho é a inversão dos romances onde a heroína nunca se via realmente. O mendigo cego é a inversão das canções galantes que a solteirona da lavanderia trouxe. O romance inteiro está nessa morte, e a morte estava no romance inteiro.
Princípio derivado para escala de obra inteira: Em romance longo, o destino do personagem deve estar contido em sua formação. Cada cena de morte/desmontagem deve inverter especificamente uma cena de formação/sedução. O bovarismo de Emma é destruído pelos mesmos órgãos sensoriais que o construíram (olhos no espelho, boca na agonia, ouvidos na canção).