9
— Ei, Donna, aí — disse ele. — Você gosta de gatos?
Ela pestanejou, os olhos vermelhos.
— Coisinhas piegas. Andando acima do chão.
— Acima não, em cima do chão.
— Piegas. Atrás dos móveis.
— Florezinhas de primavera, então — disse ele.
— É — disse ela. — Essa eu saco... florezinhas de primavera, com um amarelo nelas. As primeiras que aparecem.
— Antes — disse ele. — Antes de alguém.
— É. — Ela assentiu, os olhos fechados, na própria trip.
— Antes que alguém pise nelas e elas... morram.
— Você me entende — disse ele. — Você entende o que eu digo.
Ela se deitou de costas, baixando o cachimbo de haxixe. Tinha acabado.
— Não entendo mais — disse ela e seu sorriso lentamente desapareceu.
— Qual é o problema? — disse ele.
— Nada. — Ela sacudiu a cabeça e só.
— Posso te abraçar? — disse ele. — Eu queria segurar você. Tudo bem? Te abraçar? Tudo bem?
Os olhos escuros, alargados, sem foco e cansados abriram-se.
— Não — disse ela. — Não, você é feio demais.
— Quê? — disse ele.
— Não! — disse ela, agora incisivamente. — Eu cheirei muita coca, tenho de ser supercuidadosa porque cheirei muita coca.
— Feio! — ecoou ele, furioso com ela. — Vai se foder, Donna!
— Só deixe o meu corpo em paz — disse ela, encarando-o.
— Claro — disse ele. — Claro. — Ele se levantou e recuou.
— Pode acreditar nisso. — Ele teve vontade de ir até o carro, pegar a pistola no porta-luvas e atirar na cara dela, explodindo o crânio e os olhos de Donna. E depois isso passaria essa mistura de ódio e fúria. — Vai se foder — disse ele com tristeza.
— Não gosto que as pessoas peguem meu corpo — disse Donna. — Eu tenho de tomar cuidado com isso porque uso muita coca. Um dia pretendo ir para a fronteira do Canadá com dois quilos de coca na minha buceta. Vou dizer que sou católica e virgem. Aonde você vai? — Agora ela estava alarmada, ela ergueu meio corpo.
— Vou cair fora — disse ele.
— Seu carro está na sua casa. Eu te levo. — A garota lutou para se levantar, desgrenhada, confusa e meio adormecida, vagando até o armário para pegar o casaco de couro. — Eu te levo lá. Mas você pode entender por que eu tenho de proteger minha buceta. Dois quilos de coca valem...
— De jeito nenhum — disse ele. — Você está chapada demais para dirigir até por três metros e não deixa ninguém dirigir a porra do seu patim.
Encarando-o, ela gritou furiosa:
— Isso porque ninguém mais consegue dirigir a porra do meu carro! Ninguém faz direito, especialmente nenhum homem! Nem dirigir nem nada! Você estava com as mãos no meu...
E depois ele estava em algum lugar do lado de fora, na escuridão, andando, sem casaco, em uma parte estranha da cidade. Ninguém com ele. Totalmente só, pensou ele, e depois ouviu Donna correndo atrás dele, tentando alcançá-lo, ofegando, porque ultimamente ela andava fumando maconha e haxixe demais e os pulmões estavam meio obstruídos de resina. Ele parou, ficou parado, sem se virar, esperando, sentindo-se muito deprimido.
Aproximando-se dele, Donna reduziu o ritmo, ofegando.
— Eu peço mil desculpas por ter magoado você. Pelo que eu disse. Eu estava pirada.
— E — disse ele. — Feio demais!
— As vezes, quando eu trabalho o dia todo e estou super, supercansada, o primeiro tapa me deixa doidona. Quer voltar? Ou o quê? Quer ir ao drive-in? E o Southern Comfort? Não posso comprar... não vão vender para mim — disse ela e fez uma pausa. — Eu sou menor de idade, né?
— Tudo bem — disse ele. Juntos, eles voltaram caminhando.
— E um haxixe dos bons, não é? — disse Donna.
Bob Arctor disse:
— E haxixe preto, o que significa que é saturado de alcalóides do ópio. O que você está fumando é ópio e não haxixe... sabia disso? E por isso que custa tão caro... sabia disso? — Ele ouviu a própria voz se elevar; parou de andar.
— Não está fumando haxixe, meu bem. Estava fumando ópio e isso significa um hábito de toda a vida a um custo de... Vendem o quilo de haxixe por quanto? E você vai ficar fumando e dando cabeçada, não vai conseguir engrenar seu carro e colar em caminhões, e precisará dele todo dia antes de ir para o trabalho...
— Eu preciso agora — disse Donna. — Preciso dar uns tapas antes de ir trabalhar. E ao meio-dia, e assim que eu chegar em casa. E por isso que eu trafico, para comprar meu haxixe. Haxixe relaxa. Haxixe é o bicho.
— Ópio — repetiu ele. — Por quanto vendem o haxixe agora?
— Uns vinte mil dólares o quilo — disse Donna. — O dos bons.
— Meu Deus! Quase o preço da heroína.
— Eu nunca uso agulha. Nunca usei e nunca vou usar. Você dura seis meses quando começa a tomar pico, qualquer coisa que aplicar. Até água da bica. Você pega o vício...
— Você já tem um vício.
Donna disse:
— Todos nós temos. Você toma a Substância D. E daí? Qual é a diferença? Eu estou feliz. Você não está feliz? Preciso ir para casa e fumar um haxixe do bom a noite inteira... é a minha viagem. Não procure me mudar. Nem tente me mudar. A mim ou a meus costumes. Eu sou o que sou. E viajo com haxixe. E a minha vida.
— Alguma vez já viu fotos de um velho fumante de ópio? Como na China, nos velhos tempos? Ou um fumante de haxixe na índia agora, que parece que eles usam quando ficam mais velhos?
Donna disse:
— Eu não espero viver muito. E daí? Não quero ficar por aqui muito tempo. Você quer? Por quê? O que tem neste mundo? E você já viu... que merda, o Jerry Fabin; aí está alguém que foi longe demais na Substância D. O que tem realmente neste mundo, Bob? E um lugar de parada para o próximo, onde eles nos castigam aqui porque nascemos maus...
— Você é mesmo católica.
— A gente está sendo castigada aqui; então, se pudermos fugir em uma trip de vez em quando, que se foda, vamos fugir. Outro dia eu quase bati com meu MG quando ia para o trabalho. Eu tinha ligado o aparelho de som de oito faixas, estava fumando meu haxixe e não vi aquele velho num Ford Imperator 84...
— Você é muito tapada — disse ele. — Supertapada.
— Eu, sabe como é, eu vou morrer cedo. De qualquer forma. O que quer que eu faça? Provavelmente na via expressa, mal tenho freio no meu MG, tá entendendo? E eu recebi quatro multas por velocidade só este ano. Agora tenho de ir para a escola de direção. E um saco! Seis meses inteiros lá.
— Então um dia — disse ele —, de repente, eu não vou mais te ver. Não é? Nunca mais.
— Por causa da escola de direção? Não, depois dos seis meses...
— No cemitério — explicou ele. — Morta antes de ter permissão, de acordo com as leis da Califórnia, a porra das leis da Califórnia, de comprar uma lata de cerveja ou uma garrafa de birita.
— E! — exclamou Donna, alerta. — O Southern Comfort! Agora! Vamos comprar uma garrafa de Southern Comfort e tomar nos filmes dos Macacos? Vamos? Ainda faltam oito, inclusive aquele...
— Olha aqui — disse Bob Arctor, pegando-a pelo ombro; ela instintivamente se afastou.
— Não — disse ela.
Ele disse:
— Sabe o que eles devem deixar você fazer uma vez? Talvez só uma vez? Deixar você ser ilegal só uma vez e comprar uma lata de cerveja.
— Por quê? — disse ela, assombrada.
— Um presente pra você porque você é boa — disse ele.
— Eles me serviram uma vez! — exclamou Donna, deliciada. — Em um bar! A garçonete... eu estava toda produzida e com algumas pessoas... me perguntou o que eu queria e eu disse: “Vou tomar um Collins de vodca” e ela me serviu. Foi no La Paz, também, que é um lugar bem legal. Cara, dá pra acreditar nisso? Eu tinha decorado, o Collins de vodca, de um anúncio que vi. Então, se eu um dia tivesse de pedir em um bar como esse, ia ficar bacana. Não é? — Ela de repente passou o braço pelo dele e o abraçou enquanto andavam, algo que ela quase nunca fazia. — Foi a maior superviagem da minha vida.
— Então eu acho — disse ele — que você já teve seu presente. Seu único presente.
— Tô entendendo — disse Donna. -Tô sacando! E claro que eles me disseram depois... aquelas pessoas com quem eu estava... que eu devia ter pedido uma bebida mexicana feita de tequila, porque, olha só, é um bar mexicano, ali no Restaurante La Paz. Da próxima vez eu vou saber; já colei nos meus bancos de memória, se eu for lá de novo. Sabe o que vou fazer um dia, Bob? Vou me mudar para o norte, para o Oregon, e morar na neve. Vou tirar a neve da calçada da frente toda manhã. E ter uma casinha e uma horta.
Ele disse:
— Vai precisar economizar para isso. Economizar todo o seu dinheiro. Vai sair caro.
Olhando para ele, de repente tímida, Donna disse:
— Ele vai me dar. O Cara.
— Quem?
— Você sabe. — A voz dela era delicada ao dividir aquele segredo. Dividindo com ele porque ele, Bob Arctor, era amigo dela e ela podia confiar nele. — O Sr. Perfeito. Eu sei como ele vai ser... ele vai ter um Aston-Martin e vai me levar para o norte nele. E lá estará a casinha antiquada na neve, ao norte daqui. — Depois de uma pausa, ela disse: — A neve deve ser legal, né?
Ele perguntou:
— Não conhece?
— Nunca estive na neve, a não ser uma vez, em San Berdoo, naquelas montanhas, mas aí estava meio dura e cheia de lama e eu caí. Não quis dizer neve assim, eu quis dizer neve de verdade.
Bob Arctor, com o coração meio pesado, disse:
— Você se sente confiante com relação a isso? Vai mesmo acontecer?
— Vai acontecer! — Ela assentiu. — Está nas cartas, pra mim.
Eles andaram em silêncio. De volta à casa dela, para pegar o MG de Donna. Donna, envolvida em seus sonhos e planos, e ele — ele se lembrou de Barris e se lembrou de Luckman, de Hank e do apartamento seguro, e ele se lembrou de Fred.
— Olha só — disse ele —, posso ir com você para o Oregon? Quando você der o fora de vez?
Ela sorriu para ele, com gentileza e uma forte ternura, com a resposta não.
E ele entendeu, por conhecê-la, que ela foi sincera. E não ia mudar. Ele tremeu.
— Está com frio? — perguntou ela.
— Estou — disse ele. — Muito frio.
— Meu MG tem um bom aquecedor — disse ela — porque, quando estivermos no drive-in... você vai ficar aquecido lá. — Ela pegou a mão dele, apertou-a, segurou-a e depois, de repente, Donna a largou.
Mas esse toque real persistiu no coração dele. Continuou. Em todos os anos de vida à frente, os longos anos sem ela, sem nunca vê-la, ouvi-la ou saber alguma coisa sobre ela, se estava viva ou feliz ou morta ou o quê, esse toque ficou dentro dele, selado nele, e nunca passaria. Esse toque da mão de Donna.
Naquela noite, ele levou para casa uma linda viciadinha em pico chamada Connie para trepar com ela em troca de um saco de dez doses da mistura.
Magra e de cabelo escorrido, a garota se sentou na beira da cama dele, penteando o cabelo estranho; era a primeira vez que ela ia para a casa dele — ele a conhecera em uma festa de doidões — e ele sabia muito pouco dela, embora tivesse seu número de telefone fazia algumas semanas. Sendo viciada em pico, ela era naturalmente frígida, mas isso não era problema; fazia com que fosse indiferente ao sexo com relação ao próprio prazer, mas, por outro lado, ela não se importava com o tipo de sexo que teria.
Isso ficava óbvio só de observá-la. Connie estava sentada meio vestida, sem sapatos, um grampo de cabelo na boca, olhando de maneira apática, evidentemente fazendo uma viagem particular na cabeça. O rosto dela, alongado e ossudo, tinha certa força; deve ser, concluiu ele, porque os ossos, em especial as linhas do queixo, eram pronunciados. Na face direita, havia uma espinha. Sem dúvida ninguém lhe disse e ela nem percebeu isso; como o sexo, as espinhas pouco significavam para ela.
Talvez ela não pudesse saber a diferença. Talvez, para ela, uma viciada em pico há tempos, o sexo e as espinhas tivessem características semelhantes ou fossem até idênticos. Que idéia, pensou ele, para surgir só de olhar uma doidona por um momento.
— Tem uma escova de dentes que eu possa usar? — disse Connie; ela começara a cabecear um pouco e a resmungar, como os doidões de pico tendiam a fazer àquela hora da noite. — Tá ferrado... dentes são dentes. Vou escovar. — A voz dela era tão baixa que ele não conseguia ouvi-la, embora soubesse, pelo movimento dos lábios, que ela estava falando monotonamente.
— Sabe onde fica o banheiro? — perguntou ele.
— Que banheiro?
— Desta casa.
Despertando, ela voltou a se pentear por reflexo.
— Quem são aqueles caras lá fora a esta hora? Enrolando baseados e falando sem parar? Acho que eles moram aqui com você. Claro que moram. Caras como esses devem...
— Dois deles moram — disse Arctor.
Os olhos de peixe morto de Connie viraram-se para se fixar nos dele.
— Você é viado? — perguntou Connie.
— Estou tentando deixar de ser. É por isso que você está aqui hoje.
— Está travando uma batalhazinha contra isso?
— Pode acreditar que sim.
Connie assentiu.
— E, acho que estou prestes a descobrir. Se você é um gay latente, provavelmente vai querer que eu tome a iniciativa. Deita aí que eu faço. Quer que eu tire a sua roupa? Tudo bem, você fica deitado aí e eu faço tudo. — Ela estendeu a mão para o zíper de Bob.
Mais tarde, na semi-escuridão, ele cochilou — por assim dizer — com seu próprio dilema. Connie roncava ao lado dele, deitada de costas, com os braços ao lado, fora das cobertas. Ele podia vê-la vagamente. Eles dormiam como o Conde Drácula, pensou ele, os junkies. Olhando para cima até que de repente se sentavam, como uma máquina que passou da posição A para a B. “Deve... ser... dia...”, diz o junkie, ou diz a gravação na cabeça dele. Toca as instruções para ele, a mente de um junkie é como a música que se ouve de um radiorrelógio... Às vezes é bonita, mas só está ali para levar você a fazer alguma coisa. A música do radiorrelógio é para te acordar; a música do junkie é para conseguir que você se torne um meio para ele obter mais droga, da forma com que puder. Ele, uma máquina, vai transformar você na máquina dele.
Todo junkie, pensou ele, é uma gravação.
Novamente ele cochilou, meditando sobre essas coisas ruins. E por fim o junkie, se for uma mulher, nada tem a vender a não ser o corpo. Como Connie, pensou ele, Connie, que estava bem ali.
Abrindo os olhos, ele se virou para a garota ao lado dele e viu Donna Hawthorne.
Bob se sentou de imediato. Donna!, pensou ele. Ele podia distinguir o rosto dela com clareza. Sem dúvida. Meu Deus!, pensou ele, e estendeu a mão para o abajur da mesa- de-cabeceira. Os dedos dele o tocaram, o abajur se inclinou e caiu. A garota, porém, continuou dormindo. Ele ainda a encarava, e depois, aos poucos, viu Connie novamente, o rosto fino e comprido, o maxilar frio, encovado, o rosto macilento dt junkie chapada, Connie e não Donna, uma garota, não a outra.
Ele deitou novamente e, infeliz, de certa forma dormiu, perguntando-se o que significava isso, perguntando- se repetidamente, na escuridão.
— Não tô nem aí se ele fedia — murmurou a garota ao lado dele depois, sonhadoramente, enquanto dormia. — Eu ainda o amava.
Ele se perguntou o que ela quis dizer. Um namorado?
O pai dela? Um gato? Um brinquedo de pelúcia precioso da infância? Talvez todas essas coisas, pensou ele. Mas as palavras foram “Eu amava”, e não “Ainda amo”. Evidentemente ele, quem quer ou o que quer que fosse, não existia mais. Talvez, refletiu Arctor, eles (o que quer que fossem) a tenham obrigado a jogar fora, porque ele fedia muito.
Devia ser isso. Ele se perguntou que idade Connie tinha na época, a junkie acabada, com suas recordações, que dormitava ao lado dele.