8
A caminho da casa de Bob Arctor, onde em geral se podia encontrar um bando de doidões para ficar ligado e relaxar por algum tempo, Charles Freck imaginou uma piada para enganar o velho Barris, retribuindo a sacanagem do baço no Restaurante Fiddler’s Three naquele dia. Em sua cabeça, enquanto evitava habilidosamente os radares que a polícia tinha em toda parte (as vans de radar da polícia que verificavam os motoristas em geral eram disfarçadas de velhas vans VW sujas, pintadas de um marrom desbotado, dirigidas por uns caras barbados; quando ele via uma dessas vans, reduzia), ele passou uma pré-estréia de fantasia de sua pegadinha:
FRECK: (Casualmente.) Comprei uma produção de met hoje que vai dar que nem mato.
BARRIS: (Com uma expressão irritada.) A metanfetamina é uma bolinha, como o speed, é anfetamina, feita sinteticamente em laboratório. Então não é orgânica, como a maconha. Não existe isso de met dar que nem mato como existe maconha dando que nem mato.
FRECK: (Soltando o final da piada.) Eu quis dizer que herdei quarenta mil de um tio e comprei uma fábrica escondida na garagem de um cara, onde ele faz met. Quer dizer, ele tem uma fábrica onde produz metanfetamina. É dar que nem mato no sentido de...
Ele não conseguiu elaborar a frase exata enquanto dirigia, porque parte de sua mente estava nos veículos em volta dele e nos sinais, mas sabia que, quando chegasse à casa de Bob, ia se dar bem para cima de Barris. E, especialmente se um monte de gente estivesse ali, Barris ficaria na berlinda e rapidinho ficaria claro para todos que ele era um idiota. E essa seria uma boa vingança, porque Barris, menos do que qualquer um, não agüentava que se divertissem à custa dele.
Quando encostou o carro, Freck encontrou Barris do lado de fora trabalhando no carro de Bob Arctor. O capô estava erguido e Barris e Arctor estavam juntos com uma pilha de ferramentas.
— Oi, cara — disse Freck, batendo a porta e perambulando casualmente. — Barris — disse ele imediatamente, de forma fria, colocando a mão no ombro de Barris para atrair a atenção dele.
— Depois — grunhiu Barris. Ele estava com as roupas de conserto; graxa e similares cobriam um tecido que já estava sujo.
Freck disse:
— Comprei uma produção de met hoje que vai dar que nem mato.
Com uma carranca impaciente, Barris disse:
— De que tamanho?
— Como assim?
— Um mato de que tamanho?
— Bem — disse Freck, imaginando como prosseguir.
— Quanto pagou por ela? — disse Arctor, também cheio de graxa do conserto do carro. Ele tinham tirado o carburador, como viu Freck, o filtro de ar, as mangueiras e tudo.
Freck disse:
— Uns dez paus.
— Jim podia ter conseguido mais barato — disse Arctor, reassumindo o trabalho. — Não podia, Jim?
— Eles praticamente me dão matagais de metanfetamina — disse Barris.
— Fica na porra de uma garagem! — protestou Freck. — Uma fábrica! Produz um milhão de comprimidos por dia, com a maquinaria de rolar as bolinhas e tudo. Tudo!
— E isso tudo custou dez dólares? — disse Barris, com um largo sorriso.
— Onde fica? — disse Arctor.
— Não fica perto daqui — disse Freck, inquieto. — Aí, fodam-se os dois.
Fazendo uma pausa no trabalho — Barris fazia muitas pausas no trabalho, quer estivessem falando com ele ou não Barris disse:
— Sabe de uma coisa, Freck, se você tomar ou injetar muita met vai começar a falar como o Pato Donald.
— E daí? — disse Freck.
— Daí que ninguém vai entender o que você falar.
Arctor disse:
— O que você disse mesmo, Barris? Não consegui entender.
Com o rosto dançando de contentamento, Barris imitou a voz do Pato Donald. Freck e Arctor sorriram e gostaram. Barris continuou, gesticulando, por fim, para o carburador.
— E o carburador? — disse Arctor, agora sem sorrir.
Barris, com a voz normal, mas ainda com um sorriso largo, disse:
— A haste do afogador entortou. Todo o carburador tem de ser refeito. Caso contrário, o afogador vai parar enquanto você estiver dirigindo pela via expressa e depois você vai ver que seu motor está inundado e morto e um babaca vai te rebocar. E é bem possível que, além disso, essa gasolina bruta inunde as paredes do cilindro, se sair por bastante tempo vai inundar a lubrificação, então seus cilindros vão se acabar e ficar estragados para sempre. E depois vai precisar que sejam retificados.
— Por que a haste do afogador entortou? — perguntou Arctor.
Dando de ombros, Barris voltou a desmontar o carburador e não respondeu. Ele deixou essa para Arctor e Charles
Freck, que nada sabiam de motores, em especial de consertos complexos como esse.
Vindo da casa, Luckman, usando uma camisa da moda e jeans Levis apertados de cós alto, portando um livro e usando óculos de sol, disse:
— Eu telefonei e eles vão ver se conseguem um carburador retificado para um carro desses. Vão telefonar daqui a algum tempo, então eu deixei a porta da frente aberta.
Barris disse:
— Não pode colocar um de quatro cilindros, em vez desse de dois, enquanto estiver em atividade. Mas vai ter de colocar um cano de distribuição novo. Podemos conseguir um usado mais barato.
— Vai girar demais em falso — disse Luckman — com um Rochester de quatro cilindros... é o que quer dizer? E não ia mudar a marcha adequadamente. Não ia subir.
— Os pulverizadores de ponto morto podem ser substituídos por pulverizadores menores — disse Barris — que iam compensar. E com um tacômetro ele pode ver as rotações, então não terá muita rotação. Ele ia saber pelo tacômetro quando não estava subindo. Em geral, só de soltar o pedal do acelerador já dá para subir, se a ligação automática para a transmissão não fizer isso. Eu sei onde podemos conseguir um tacômetro também. Na verdade, eu tenho um.
— Tá — disse Luckman —, bem, se ele pegar pesado ao reduzir a marcha para ter muito torque numa emergência na via expressa, vai aumentar tanto a rotação que vai explodir a vedação ou coisa pior, muito pior: explodir todo o motor.
Barris, pacientemente, disse:
— Ele ia ver a agulha do tacômetro pular e ia soltar o pedal.
— Enquanto ultrapassa? — disse Luckman. — No meio de uma ultrapassagem de uma porra de jamanta? Que merda, ele ia ter de continuar abusando dos cilindros, com alta rotação ou não; ia ter de acelerar o motor, em vez de reduzir, porque se reduzisse nunca ia contornar o que estava tentando ultrapassar.
— Um momento — disse Barris. — Em um carro com esse peso, o momento levaria ele até se ele reduzisse.
— E numa subida? — disse Luckman. — O momento não ia te levar muito longe numa subida se você estivesse ultrapassando.
Para Arctor, Barris disse:
— O que este carro... — Ele se curvou para ver qual era. — Este... — Seu lábios se mexeram. — Olds.
— Ele pesa uns 450 quilos — disse Arctor. Charles Freck o viu piscar para Luckman.
— Tem razão, então — concordou Barris. — Não haveria muita massa inercial com um peso tão pequeno. Ou haveria? — Ele procurou por uma caneta e alguma coisa onde escrever. — Quatrocentos e cinqüenta quilos viajando a 130 por hora dá uma força igual a...
— São 450 quilos — acrescentou Arctor — com os passageiros, o tanque cheio de gasolina e uma carga de tijolos na mala.
— Quantos passageiros? — disse Luckman, fingido seriedade.
— Doze.
— Isso dá seis atrás — disse Luckman — e seis na...
— Não — disse Arctor. — São 11 atrás e o motorista sozinho na frente. Então, como vê, teria mais peso nas rodas traseiras, para mais tração. Assim não ia guinar.
Barris olhou, alerta.
— Este carro dá guinada?
—A não ser que você leve 11 pessoas atrás — disse Arctor.
— Então é melhor colocar sacos de areia na mala — disse Barris. — Sacos de 1.500 quilos. Assim os passageiros podiam ser distribuídos mais igualmente e teriam mais conforto.
— E uma caixa de 300 quilos de ouro na mala? — perguntou Luckman a ele. — Em vez de sacos de 150 quilos...
— Dá um tempo, tá legal? — disse Barris. — Estou tentando calcular a força inercial desse carro viajando a 130 por hora.
— Eu não faço 130 — disse Arctor. — Ele tem um cilindro acabado. Foi o que quis dizer a você. Ele perdeu uma biela ontem à noite, quando eu vinha da 7-11.
— Então, por que estamos tirando o carburador? — quis saber Barris. — Temos de tirar todo o cabeçote. Na verdade, muito mais. Na verdade, você pode ter um motor rachado. Bom, é por isso que não dá a partida.
— Seu carro não dá a partida? — perguntou Freck a Bob Arctor.
— Ele não dá a partida — disse Luckman — porque tiramos o carburador.
Confuso, Barris disse:
— Por que a gente tirou o carburador? Eu esqueci.
— Para substituir todas as molas e pecinhas pequenininhas — disse Arctor. — Assim não vai se foder de novo e quase nos matar. O mecânico do posto Union nos aconselhou a fazer isso.
— Se vocês, cretinos, calassem essas matracas — disse Barris — de doidões de speed, eu podia concluir meus cálculos e dizer como esse carro, com seu peso, lidaria com um carburador Rochester de quatro cilindros modificado naturalmente com pulverizadores menores. — Agora ele estava genuinamente irritado. — Então CALEM A BOCA!
Luckman abriu o livro que trazia. Ele se inflou, depois, para muito maior do que o normal; seu peito grande inchou e o mesmo aconteceu com os bíceps.
— Barris, vou ler para você. — Ele começou a ler o livro, de forma particularmente fluente: — “Ele, a quem é dado ver Cristo mais real do que qualquer outra realidade...”
— Como é que é? — disse Barris.
Luckman continuou a ler:
— “...do que qualquer outra realidade no mundo, Cristo presente em toda parte e em toda parte tornando-se maior, Cristo, a determinação final e o Princípio plasmático do Universo...”
— O que é isso? — disse Arctor.
— Chardin. Teilhard de Chardin.
— Poxa, Luckman! — disse Arctor.
— "... que o homem vive em uma área em que nenhuma multiplicidade pode perturbá-lo e que é todavia a oficina mais ativa da satisfação universal.” — Luckman fechou o livro.
Muito apreensivo, Charles Freck se colocou entre Barris e Luckman.
— Fica fria aí, gente.
— Sai da frente, Freck — disse Luckman, recuando o braço direito, baixo, para dar um soco violento em Barris.
— Vem, Barris, eu vou te dar porrada até amanhã por falar de seus superiores desse jeito.
Com um berro de terror desenfreado e aterrador, Barris largou a esferográfica e o bloco de papel e fugiu erraticamente para a porta aberta da casa, gritando enquanto corria.
— Eu ouvi o telefone tocar; deve ser sobre o carburador retificado.
Eles o observaram ir.
— Eu só estava brincando com ele — disse Luckman, esfregando o lábio inferior.
— E se ele foi pegar a arma com o silenciador? — disse Freck, o nervosismo extrapolando totalmente. Ele andou devagar na direção do próprio carro estacionado, para se jogar rapidamente atrás dele se Barris reaparecesse atirando.
— Vamos — disse Arctor a Luckman; eles voltaram juntos a trabalhar no carro, enquanto Freck se demorava apre- ensivamente perto de seu próprio veículo, perguntando- se por que tinha decidido dar as caras por ali hoje. “Não havia nada de tranqüilo por aqui, absolutamente nada, como sempre houve.” Ele sentiu as vibrações ruins com a brincadeira desde o começo. Que porra estava errada?, ele se perguntou e voltou sombriamente para o próprio carro, para dar a partida.
Será que as coisas vão ficar pesadas e ruins por aqui também, imaginou ele, como aconteceu na casa de Jerry Fabin nas últimas semanas? Eu costumava relaxar aqui, pensou ele, todo mundo tomava uma e ficava ligado, curtindo acid rock, em especial os Stones. Donna ficava sentada aqui com o casaco e as botas de couro, enchendo cápsulas, Luckman enrolando baseados e contando do seminário que pretendia dar na UCLA sobre fumar e enrolar baseado e que um dia ele de repente ia enrolar o baseado perfeito e ele seria colocado debaixo de um vidro sob uma lâmpada de hélio no Constitution Hall, como parte da história americana, junto com aqueles outros objetos de importância semelhante. Quando penso no passado, refletiu ele, até quando Jim Barris e eu estávamos sentados no Fiddlers no outro dia... era melhor nessa época. Foi Jerry que começou isso, pensou ele; isso que baixou por aqui levou embora o Jerry. Como pode ser que os dias, os acontecimentos e os momentos tão bons fiquem tão rapidamente feios e sem nenhum motivo, sem nenhum motivo verdadeiro? Só mudam. Sem que nada tenha causado isso.
— Vou nessa — disse ele a Luckman e Arctor, que estavam vendo a rotação do motor.
— Não, fica aí, cara — disse Luckman com um sorriso caloroso. — Precisamos de você. Você é um irmão.
— Não, tô caindo fora.
Vindo da casa, Barris apareceu cautelosamente. Trazia um martelo.
— Foi engano — gritou ele, avançando com grande cautela, parando e olhando como um caranguejo em um filme de drive-in.
— Para que é o martelo? — disse Luckman.
Arctor disse:
— Para consertar o motor.
— Pensei que tinha trazido — explicou Barris enquanto voltava cauteloso para o Olds —, porque eu estava lá dentro e vi o martelo.
— O tipo mais perigoso de pessoa — disse Arctor — é aquela que tem medo da própria sombra. — Essa foi a última coisa que Freck ouviu enquanto partia; ele refletiu sobre o que Arctor quis dizer, se se referiu a ele, Charles Freck. Sentiu vergonha. Mas que merda, pensou, por que ficar aqui quando estão supermal desse jeito? Onde está a covardia nisso? Nunca participe de cenas ruins, lembrou-se ele; esse era o lema de sua vida. Então ele partiu, sem olhar para trás. Deixe que se matem, pensou. Quem precisa deles? Mas se sentiu mal, muito mal, por deixá-los e ter testemunhado a mudança sombria, e se perguntou de novo por que e o que significava, mas lhe ocorreu que talvez as coisas mudassem de novo e melhorassem e isso o animou. Na verdade, levou-o a rolar uma fantasia curta em sua cabeça enquanto dirigia, evitando carros da polícia invisíveis:
TODOS VÃO FICAR SENTADOS COMO ANTES.
Até as pessoas que estavam mortas ou ferradas, como Jerry Fabin. Todas estavam sentadas aqui e ali numa espécie de luz branca e clara, que não era a luz do dia, mas uma luz melhor do que essa, uma espécie de mar que se estendia embaixo e acima deles.
Donna e outras duas garotas estavam muito gostosas — vestiam tops e calças sensuais ou tops sem sutiã. Ele podia ouvir música, embora não conseguisse distinguir que faixa era e de que disco. Talvez Hendrix!, pensou ele. E, uma faixa do velho Hendrix ou agora, de repente, era J. J. Todos eles: Jim Croce e J. J., mas especialmente Hendrix. “Antes de morrer”, murmurava Hendrix, “deixe-me viver minha vida como eu quiser”, e depois, imediatamente, a fantasia sumiu porque ele tinha se esquecido de que Hendrix estava morto e de como Hendrix e Joplin morreram, para não falar de Croce. Hendrix e J. J. Overdose de heroína, os dois, duas pessoas tão bacanas, dois seres humanos sensacionais, e ele se lembrou de que soube que o empresário de Janis só permitia que ela recebesse algumas centenas de dólares de vez em quando; ela não podia ter o resto, tudo o que ganhava, por causa do vício. E depois ele ouviu em sua cabeça a canção de Janis “Ali Is Loneliness” e começou a chorar. E, nesse estado, dirigiu para casa.
Na sala, sentado com os amigos e tentando decidir se precisava de um carburador novo, um carburador retificado ou uma modificação carburador-e-cano, Robert Arctor percebeu o exame constante e silencioso, a presença eletrônica dos holo-scanners. E se sentiu bem com isso.
— Você parece legal — disse Luckman. — Perder umas 100 pratas não ia me deixar legal.
— Eu decidi andar pela rua até encontrar um Olds igual ao meu — explicou Arctor e depois desparafusar o carburador e não pagar nada. Como todo mundo que conhecemos.
— Especialmente Donna — disse Barris, concordando.
— Eu queria que ela não tivesse vindo aqui no outro dia, quando a gente estava fora. Donna rouba as coisas que pode carregar e, se não puder carregar, ela telefona para uns amigos de uma gangue de ladrões e eles aparecem e levam para ela.
— Vou te contar uma história que soube da Donna — disse Luckman. — Uma vez, ela pôs uma moeda numa dessas máquinas automáticas de selo que operam com rolos e a máquina estava com defeito e só ficava rolando selos para fora. No final, ela estava com uma cesta de compras cheia. A máquina ainda ficou vomitando os selos. No final das contas, ela teve tipo... ela e os amigos ladrões contaram... mais de 18 mil selos americanos de 15 cents. Bom, isso foi legal, só que o que Donna Hawthorne ia fazer com eles? Ela nunca escreveu uma carta na vida, a não ser para o advogado, para processar um cara que ferrou com ela numa parada de drogas.
— A Donna fez issó* — disse Arctor. — Ela tem um advogado para usar em um processo por uma transação ilegal? Como pode fazer isso?
— Ela deve dizer simplesmente que o cara deve uma grana a ela.
— Imagine receber uma carta irritada, do tipo ou-paga- ou-vai-para-o-tribunal, de um advogado sobre um negócio ilegal — disse Arctor, surpreendendo-se com Donna, como freqüentemente acontecia.
— Mas aí — continuou Luckman — lá estava ela com uma cesta cheia de pelo menos 18 mil selos americanos de 15 cents e que diabos fazer com eles? Não dá para vender aos correios. Porque aí, quando os correios fizessem a manutenção na máquina, iam ver que estava com defeito e qualquer um que aparecesse em um guichê com todos aqueles selos de 15 cents, em especial um rolo deles... que merda, eles iam sacar; na verdade, eles iam esperar por Donna, né? Então ela pensou nisso... depois de, é claro, colocar o rolo de selos no MG dela e arrancar... e depois ela telefonou para outros daqueles ladrões com quem ela trabalhava e pediu que eles viessem com algum tipo de britadeira, resfriada a água e com silencioso a água, um daqueles troços especiais que, meu Deus, eles roubaram também, eles arrancaram a máquina de selos do concreto no meio da noite e levaram para a casa dela na traseira de um Ford Ranchero. Que eles devem ter roubado também. Para os selos.
— Quer dizer que ela vendeu os selos? — disse Arctor, surpreendendo-se. — De uma máquina de venda? Um por um?
— Eles a remontaram... foi isso que eu soube... eles recolocaram a máquina de selos em um cruzamento movimentado por onde passa muita gente, mas fora de vista, onde nenhum caminhão dos correios visse, e colocaram a máquina para funcionar de novo.
— Eles teriam sido mais espertos se simplesmente tivessem quebrado a caixa de moedas — disse Barris.
— E aí eles ficaram vendendo selos — disse Luckman — por tipo algumas semanas até que a máquina zerou, como tinha de acontecer naturalmente um dia. E que merda fizeram depois? Posso imaginar o cérebro de Donna trabalhando naquelas semanas, aquele cérebro de ladra da roça... A família dela é de origem camponesa, de um país europeu. Mas aí, quando a máquina ficou sem rolo, Donna decidiu convertê-la em máquina de refrigerantes, que é dos correios... eles estavam realmente precavidos. E você é incriminado para sempre por isso.
— Isso é verdade? — disse Barris.
— O que é verdade? — disse Luckman.
Barris disse:
— Essa garota é perturbada. Ela devia ser internada. Percebe que todos os nossos impostos aumentaram porque ela roubou aqueles selos? — Ele estava com raiva novamente.
— Escreva ao governo e conte a eles — disse Luckman, a face fria de repulsa por Barris. — Peça a Donna um selo para postar a carta, ela vai te vender um.
— Sem desconto — disse Barris, igualmente irritado.
Os holos, pensou Arctor, terão quilômetros e quilômetros disso em suas fitas caras. Não quilômetros e quilômetros de nada, mas quilômetros e quilômetros de uma trip gravada.
Não importava tanto o que ocorria enquanto Robert Arctor estava sentado diante de um holo-scanner, pensou ele; era o que acontecia — pelo menos para ele... para quem?... para Fred — enquanto Bob Arctor estava em outro lugar, ou dormindo, e os outros dentro do alcance do scanner. Então eu devia ir embora, pensou ele, como havia planejado, deixando esses caras, e mandar outras pessoas que eu conheço para cá. Eu devia tornar minha casa superacessível de agora em diante.
E depois uma idéia pavorosa e feia surgiu dentro dele. Suponha, quando eu tocar as gravações, que eu veja Donna quando ela está aqui, abrindo uma janela com uma colher ou com a lâmina de uma faca, entrando de mansinho e destruindo meus bens e roubando. Outra Donna: a garota que ela realmente é ou que ela é quando eu não posso vê-la. Como é a Donna quando ninguém está por perto para observá-la?
Será, perguntou-se ele, que uma garota gentil, adorável, sagaz e muito delicada, superdelicada se transforma instantaneamente em uma sonsa? Será que vou ver uma mudança que vai acabar com a minha cabeça? Donna ou Luckman, alguém de quem eu gosto. Como seu gato ou cachorro de estimação quando você está fora de casa... o gato esvazia um travesseiro e começa a enfiar seus bens valiosos nele: relógio elétrico e rádio de cabeceira, barbeador, tudo que pode enfiar antes de que você volte: outro gato inteiramente diferente enquanto você está fora, roubando você e empenhando suas coisas ou acendendo seus baseados ou andando pelo telhado, ou fazendo interurbano para as pessoas... Só Deus sabe. Um pesadelo, outro mundo estranho através do espelho, uma cidade de terror toda ao contrário, com entidades rastejantes irreconhecíveis; Donna arrastando-se de quatro, comendo de tigelas de animais... um tipo de viagem psicodélica maluca, imensurável e horrenda.
Que droga!, pensou ele; nesse aspecto, talvez Bob Arctor acorde no meio da noite de seu sono profundo e faça trips como essa. Tem relações sexuais com a parede. Ou aparecem uns caras misteriosos que ele nunca viu, um bando deles, com cabeças especiais que giram completamente, feito corujas. E os áudio-scanners vão pegar rapidinho os conspiradores dementes que maquinaram contra ele e depois explodir o banheiro dos homens do posto Standard, enchendo a privada de explosivos plásticos por Deus sabe que propósito de doidão. Talvez esse tipo de coisa aconteça toda noite enquanto ele simplesmente imagina que está dormindo — e tudo passe durante o dia.
Bob Arctor, especulou ele, pode receber novas informações sobre si mesmo, mais do que está preparado, mais do que deseja saber sobre Donna e seu casaquinho de couro e Luckman em suas roupas da moda e até Barris — talvez, quando ninguém está por perto, Jim Barris meramente vá dormir. E durma até que eles reapareçam.
Mas ele duvidava disso. Era mais provável que Barris sacasse um transmissor escondido da bagunça e do caos do quarto dele — que, como todos os outros cômodos da casa, agora pela primeira vez estava sob varredura 24 horas por dia — e mandasse um sinal secreto para outro bando de filhos-da-puta secretos com quem ele conspirava por quaisquer pessoas como ele ou eles conspiravam. Outro ramo, refletiu Bob Arctor, das autoridades.
Por outro lado, Hank e aqueles caras do centro não ficariam muito satisfeitos se Bob Arctor deixasse a casa agora que os monitores tinham sido instalados de forma cara e elaborada e nunca fosse visto novamente: nunca mais aparecesse em ponto nenhum das gravações. Ele não podia ir embora para satisfazer seus planos de vigilância pessoal à custa dos outros. Afinal, era o dinheiro deles.
No roteiro sendo filmado, ele teria de ser o ator principal o tempo todo. Ator, Arctor, pensou ele. Bob, o Ator, que está sendo caçado, ele que é o procurado número um.
Dizem que você não reconhece a própria voz quando a ouve pela primeira vez numa gravação. E quando você se vê em um videoteipe, ou como, nesse caso, em um holograma em 3D, você não se reconhece visualmente também. Você se imaginava gordo, alto e de cabelo preto, mas em vez disso é uma mulher magrela e baixinha sem cabelo nenhum... É assim? Tenho certeza de que vou reconhecer Bob Arctor, pensou ele, pelo menos pelas roupas que ele usa ou por um processo de eliminação. Quem não for Barris ou Luckman e morar aqui deve ser Bob Arctor. A não ser que seja um dos cães ou dos gatos. Vou tentar manter meu olho profissional treinado em qualquer coisa que ande ereta.
— Barris — disse ele vou sair pra ver se arranjo uns grãos. — Depois ele fingiu se lembrar de que não tinha carro; fez uma expressão desse tipo. — Luckman — disse ele —, seu Falcon está legal?
— Não — disse Luckman pensativamente, depois de ponderar —, acho que não.
— Posso pegar o seu carro, Jim? — perguntou Arctor a Barris.
— Estou me perguntando... se você sabe lidar com o meu carro — disse Barris.
Isso sempre surgia como uma defesa quando alguém tentava pegar o carro de Barris emprestado, porque Barris tinha feito modificações secretas inespecíficas nele, em
(a) suspensão,
(b) motor,
(c) transmissão,
(d) pára-choque traseiro,
(e) trem de direção,
(f) sistema elétrico,
(g) pára-choque frontal e volante
(h) e também no velocímetro, acendedor de cigarros, cinzeiro, porta-luvas. Em particular, o porta-luvas. Barris o mantinha sempre trancado. O rádio também tinha sido sutilmente alterado (nunca explicou como ou por quê). Quando se sintonizava numa emissora, só se conseguiam sinais eletrônicos a intervalos de um minuto. Todos os botões levavam a uma mesma transmissão que não fazia sentido e, estranhamente, nunca tocava rock algum. Às vezes, quando eles estavam acompanhando Barris numa compra e Barris estacionava e saía do carro, deixando-os sozinhos, ele sintonizava numa determinada emissora e colocava o volume muito alto. Se eles mudassem enquanto Barris estava fora, ele ficava incoerente e se recusava a falar no assunto ou até explicar. Ele ainda não tinha explicado isso. Provavelmente, quando sintonizado nessa freqüência, o rádio dele transmitia
(a) às autoridades,
(b) a uma determinada organização política paramilitar,
(c) ao sindicato,
(d) a extraterrestres de inteligência superior.
— O que eu quero dizer — disse Barris — é que ele vai rodar...
— Ah, vai se foder! — interrompeu Luckman asperamente. — É um motor comum de seis cilindros, seu mané. Quando a gente estacionou no centro de Los Angeles, o manobrista dirigiu. Então, por que o Bob não pode? Seu babaca!
Bob Arctor também tinha alguns dispositivos, algumas modificações encobertas e embutidas no rádio de seu próprio carro. Mas ele não ia falar nelas. Na verdade, era Fred que tinha. Ou outra pessoa, e eles fizeram algumas coisas um pouco como o que Barris afirmava que faziam seus vários dispositivos eletrônicos e, por outro lado, não faziam.
Por exemplo, toda viatura policial emite uma determinada interferência de amplo espectro que parece, nos rádios comuns de carro, um defeito nos supressores de faísca do veículo. Como se a ignição da viatura policial estivesse com defeito. Contudo, Bob Arctor, como policial, tinha recebido uma engenhoca que lhe dizia muita coisa quando ele a instalou dentro do rádio do carro, enquanto os ruídos não davam aos outros — à maioria das pessoas — absolutamente qualquer informação. Essas outras pessoas nem mesmo reconheciam a estática como informação. Primeiro, os subsons diferentes avisavam a Bob Arctor que ele estava perto do carro da polícia e, depois, que variedade de departamento ele representava: cidade ou condado, Patrulha Rodoviária ou federal, o que fosse. Ele também pegava os sinais com intervalos de um minuto que agiam como um controle de tempo para um carro estacionado; quem estivesse no carro estacionado podia determinar quantos minutos tinha esperado sem nenhum gesto óbvio do braço. Isso era útil, por exemplo, quando eles concordavam em chegar a uma casa em exatamente três minutos. O zt zt zt no rádio de seus carros lhes dizia precisamente quando se passaram três minutos.
Ele sabia também sobre a emissora AM que tocava as dez músicas de maior sucesso e entre elas uma enorme falação dos DJs, o que às vezes não era falação, de certa forma. Se essa emissora fosse sintonizada e a barulheira enchesse seu carro, qualquer um que casualmente escutasse ouviria uma emissora de música pop convencional e a típica tagarelice chata de um DJ e ou não prestaria atenção ou entenderia de alguma forma o fato de que o chamado DJ, de repente, exatamente no mesmo estilo tagarela animadinho em que dizia: “Agora aqui vai uma para Phil e Jane, uma nova canção de Cat Stevens chamada...”, de vez em quando dizia alguma coisa como: “Veículo azul seguindo a um quilômetro ao norte para Bastanchury e as outras unidades vão...” e assim por diante. Ele nunca — mesmo com todos os muitos caras e garotas que andavam com ele, mesmo quando tinha sido obrigado a se manter sintonizado na infoinstrução da polícia, como acontecia quando havia uma prisão importante ou qualquer grande ação que poderia envolvê-lo — viu alguém perceber. Ou, se percebiam, provavelmente pensavam que estavam chapados e paranóicos e se esqueciam do assunto.
Ele também sabia das muitas viaturas sem marcas, como velhos Chevys elevados na traseira com colunas altas (ilegais) e listras de corrida, com uns hippies que pareciam malucos dirigindo-os erraticamente em alta velocidade — ele sabia o que o rádio deles emitia na forma de estação de informações especiais e todas as freqüências, quando um deles zumbia ou passava voando por ele. Ele sabia ignorar.
Além disso, quando ele apertava o botão que supostamente trocava de AM para FM no rádio de seu carro, uma emissora em uma determinada freqüência gemia uma música indefinida do tipo Muzak, mas esse ruído transmitido a seu carro era filtrado, purificado pelo microfone- transmissor dentro do rádio, de modo que o que quer que dissessem dentro do carro era captado pelo equipamento e transmitido às autoridades, mas esta estação esquisita, independentemente do volume, não era recebida por eles e não interferia em nada; a grade a eliminava.
O que Barris afirmava haver feito tinha certa semelhança com o que ele, Bob Arctor, como policial sob disfarce, tinha em seu próprio rádio do carro, mas além disso, com relação a outras modificações, como suspensão, motor, transmissão etc., não havia alteração alguma. Isso não seria legal e seria óbvio. E, em segundo lugar, milhões de tarados também podiam fazer modificações perigosas em seus carros, então ele simplesmente conseguira verba para uma fresa bem potente para suas rodas e deixou ficar. Qualquer veículo de alta potência pode alcançar e deixar qualquer outro para trás. Barris era cheio de merda com essas coisas; uma Ferrari tinha suspensão, direção e volante que “nenhuma modificação especial” podia igualar; então, ao inferno com isso. E os policiais não podem dirigir carros esporte, nem os baratos. Muito menos Ferraris. Definitivamente, é a habilidade do motorista que decide tudo.
Mas ele recebeu outra verba policial. Pneus muito incomuns. Tinham mais do que faixas de aço por dentro, como a Michelin introduzira anos atrás em seus modelos X. Eram todos de metal e se gastavam rapidamente, mas tinham vantagens na velocidade e na aceleração. Sua desvantagem era o custo, mas ele os conseguiu de graça, de sua verba de serviço, que não era uma máquina de Dr. Pepper como a do dinheiro. Funcionava bem, mas ele podia conseguir verba somente quando era absolutamente necessário. Os pneus ele mesmo colocou quando ninguém estava olhando. Como tinha feito com as alterações no rádio.
O único medo sobre o rádio não era a detecção por algum xereta como Barris, mas o simples roubo. Tinha dispositivos adicionais cuja substituição seria cara se fossem roubados; ele precisaria inventar uma desculpa.
Naturalmente, ele também levava uma arma escondida no carro. Barris, em todas as suas fantasias sinistras de viagem de ácido, nunca teria descoberto seu esconderijo, onde a arma realmente estava. Barris teria imaginado um lugar exótico para escondê-la, como uma coluna de direção em uma câmara vazia. Ou dentro do tanque de gasolina, pendurada por um fio, como a coca no clássico filme Easy Rider, aliás, esse lugar, como esconderijo, era o pior em uma moto. Todo policial que tivesse visto esse filme deduziu de imediato o que psiquiatras inteligentes tinham concluído: que os dois motoqueiros queriam ser pegos e, se possível, mortos. A arma dele, no carro dele, estava no porta-luvas.
O treco pseudo-engenhoso a que Barris continuamente aludia em seu próprio carro devia ter alguma semelhança com a realidade, a realidade do carro modificado de Arctor, porque muitos dos truques de rádio que Arctor usava eram procedimento padrão e tinham sido demonstrados em programas noturnos de TV, nos talk shows da rede, por especialistas em eletrônica que ajudaram a projetá-los ou leram sobre eles em publicações especializadas ou os viram ou foram demitidos de laboratórios da polícia e guardavam rancor. Então o cidadão médio (ou, como sempre dizia Barris, de forma arrogante e quase educada, o cidadão médio típico) agora sabia que nenhum preto-e- branco corria o risco de mandar encostar um Chevy 57 veloz e envenenado com o que parecia um adolescente doidão ao volante com uma cerveja Coors — e depois descobrir que ele tinha parado um veículo disfarçado da Narcóticos em plena caça de sua vítima. Então o cidadão médio típico, naquela época, entendia como e por que existiam todos aqueles veículos da Narcóticos enquanto eles passavam rugindo, assustando velhas e caretas indignados que escreviam para reclamar, continuamente indicando sua identidade pelas ruas para os outros e para os colegas... Que diferença isso fazia? Mas o que faria mesmo a diferença — espantosa — seria se os punks, os donos de carros envenenados, os motoqueiros e especialmente os traficantes, mulas e aviões conseguissem construir e incorporar em seus carros similares esses dispositivos sofisticados.
Eles podiam então passar zunindo. Impunemente.
— Então eu vou nessa — disse Arctor, que era o que ele queria fazer; ele tinha armado com Barris e Luckman. Tinha de sair.
— Aonde você vai? — disse Luckman.
— À casa da Donna. — Ir à casa dela a pé era quase impossível; ao dizer isso, ele garantia que nenhum homem o acompanharia. Vestiu o casaco e dirigiu-se à porta da frente. — Depois a gente se vê.
— Meu carro... — continuou Barris como quem se desculpa.
— Se eu tentasse dirigir seu carro — disse Arctor —, ia apertar o botão errado e ele flutuaria sobre o centro da Grande Los Angeles como o dirigível da Goodyear e eles iam ter de me despejar borato nas chamas de um poço de petróleo.
— Ainda bem que você compreendeu minha posição — murmurou Barris quando Arctor fechou a porta.
Sentado ao lado do cubo de holograma do Monitor 2, Fred, em seu traje misturador, assistia impassível enquanto o holograma mudava continuamente diante de seus olhos. No apartamento seguro, outros observadores viam outros hologramas de outras fontes; a maioria gravações. Fred, porém, via um holograma ao vivo; gravava, mas ele tinha passado pela gravação para pegar a transmissão no momento em que ela era emitida da casa supostamente arruinada de Bob Arctor.
Dentro do holograma, em cores vivas, com alta resolução, estavam Barris e Luckman sentados. Na melhor poltrona da sala de estar, Barris estava curvado sobre um cachimbo de haxixe que ele vinha criando há dias. O rosto dele tornou-se uma máscara de concentração enquanto ele passava a corda em volta do fornilho do cachimbo. Na mesa de centro, Luckman curvou-se sobre uma refeição congelada de frango Swanson, comendo em grandes bocados enquanto via um western na TV. Quatro latas de cerveja — vazias — foram amassadas por seu punho forte na mesa; agora ele estendeu a mão para a quinta lata pela metade, derrubou-a, ela vazou, ele a pegou e xingou. Ao palavrão, Barris espiou, parecendo Mime em O anel dos Nibelungos, e voltou a trabalhar.
Fred continuou a ver.
— Merda de programação noturna da TV — gargarejou Luckman, a boca cheia de comida, e depois, de repente, ele largou a colher e ficou de pé num pulo vacilante, cambaleou, girou para Barris as mãos erguidas, gesticulando, sem dizer nada, a boca aberta e a comida meio mastigada caindo em suas roupas, no chão. Os gatos correram para ela ansiosamente.
Barris parou a fabricação do cachimbo de haxixe e olhou para o infeliz Luckman. Em um frenesi, agora gargarejando barulhos horríveis, Luckman, com uma das mãos, varreu as latas de cerveja e a comida da mesa de centro; tudo se espatifou no chão. Os gatos fugiram, apavorados. Ainda assim, Barris ficou sentado, olhando fixamente para ele. Luckman avançou alguns passos para a cozinha; o scanner dali, em seu cubo diante dos olhos apavorados de Fred, pegou Luckman enquanto ele tateava às cegas na semi-escuridão da cozinha procurando por um copo e tentava abrir a torneira para enchê-lo de água. No monitor, Fred deu um pulo; transfixado, no Monitor Dois, ele viu Barris, ainda sentado, voltar a laboriosamente enrolar a corda no fornilho de seu cachimbo de haxixe. Barris não desviou os olhos novamente; o Monitor Dois mostrou-o de novo mergulhado intensamente no trabalho.
O áudio explodia em sons de agonia dilacerantes; o sufocamento humano e o alarido furioso de objetos batendo no chão enquanto Luckman atirava panelas, caçarolas, pratos e pires numa tentativa de atrair a atenção de Barris. Barris, em meio ao barulho, continuava metodicamente com seu cachimbo e não desviou os olhos de novo.
Na cozinha, no Monitor Um, Luckman desabou no chão, não devagar, de joelhos, mas completamente, com um baque surdo e ficou deitado ali, esparramado. Barris continuou a enrolar a corda no cachimbo e agora um sorrisinho falso apareceu em seu rosto, nos cantos da boca.
De pé, Fred encarou chocado, ao mesmo tempo galvanizado e paralisado. Pegou o telefone da polícia ao lado do monitor e parou, ainda observando.
Por vários minutos, Luckman ficou deitado no chão da cozinha, sem se mexer, enquanto Barris enrolava a corda. Barris estava curvado como uma velha concentrada tricotando, sorrindo para si mesmo, sorrindo sem parar, e balançava-se um pouco; depois, de repente, Barris atirou longe o cachimbo de haxixe, levantou-se, olhou atentamente para a forma de Luckman no chão da cozinha, o copo de água quebrado ao lado dele, todos os cacos e panelas e pratos quebrados, e depois o rosto de Barris reagiu subitamente com um terror fingido. Barris tirou os óculos escuros, os olhos arregalados grotescamente, bateu os braços em um pavor desamparado, correu um pouco por ali, depois precipitou-se para Luckman, parando a pouca distância dele, correu de volta, agora ofegando.
Estava fazendo sua cena, percebeu Fred. Estava encenando o Pânico e a Descoberta juntos. Como se tivesse acabado de chegar. Barris, no cubo do Monitor 2, girou o corpo, arfou de pesar, o rosto vermelho-escuro, e depois cambaleou para o telefone, ergueu-o, deixou-o cair, pegou-o com os dedos trêmulos... Ele acabara de descobrir que Luckman, sozinho na cozinha, tinha morrido sufocado com um pedaço de comida. E agora Barris estava tentando freneticamente conseguir ajuda. Tarde demais.
Ao telefone, Barris dizia, numa voz estranha, aguda e lenta: “Telefonista, chame a brigada de inalação ou a brigada de ressuscitação.”
“Senhor”, guinchou o fone para Fred, “tem alguém incapaz de respirar? Quer que...”
“Acho que é uma parada cardíaca”, estava dizendo agora a voz de Barris ao telefone em seu tom calmo, lento, urgente, de profissional, uma voz implacável com a consciência do perigo, da gravidade e da escassez de tempo. “Ou isso ou aspiração involuntária de uma massa de comida no...”
“Qual é o endereço, senhor?”, interrompeu a telefonista. “O endereço”, disse Barris, “deixe-me ver, o endereço é...” Fred, em voz alta, de pé, disse:
— Meu Deus!
De repente, Luckman, estendido no chão, ergueu-se convulsivamente. Estremeceu e expeliu o material que lhe obstruía a garganta, sacudiu-se e abriu os olhos, que encaravam numa confusão crescente.
“Olha, parece que está tudo bem agora”, disse Barris com delicadeza ao telefone. “Obrigado, não será necessária assistência alguma, afinal.” Ele desligou rapidamente.
“Meu Deus”, murmurou Luckman numa voz grossa enquanto se levantava. “Que merda!” Ele ofegava, tossindo e lutando para respirar.
“Você está bem?”, perguntou Barris, num tom preocupado. “Eu devo ter engasgado. Eu desmaiei?”
“Não exatamente. Mas você entrou em um estado alterado de consciência. Por alguns segundos. Provavelmente um estado alfa.”
“Meu Deus! Eu me sujei!” De forma instável, cambaleando de fraqueza, Luckman conseguiu se colocar de pé e ficou oscilando, tonto, segurando-se na parede para se apoiar. “Eu devo estar mesmo me acabando”, murmurou ele, com nojo. “Como um doidão velho.” Ele foi até a pia para se lavar, os passos incertos.
Observando tudo isso, Fred sentiu o medo se esvair dele. O homem ia ficar bem. Mas Barris! Que tipo de pessoa era ele? Luckman tinha se recuperado apesar dele. Mas que sujeitinho!, pensou. Que pervertido! Onde estava a cabeça dele para ficar parado daquele jeito?
“Assim um cara pode empacotar”, disse Luckman enquanto se lavava na pia.
Barris sorriu.
“Eu tenho uma constituição bem forte mesmo”, disse Luckman, bebendo água de uma caneca. “O que você estava fazendo enquanto eu estava deitado aqui? Batendo uma punheta?”
“Você me viu ao telefone”, disse Barris. “Chamando os paramédicos. Eu entrei em ação em...”
“Uma ova”, disse Luckman amargamente e bebeu mais água fresca. “Eu sei o que você ia fazer se eu morresse: ia roubar meu esconderijo. Você ia até vasculhar meus bolsos.” “É incrível”, disse Barris, “a limitação da anatomia humana, o fato de que comida e ar devem dividir a mesma passagem. Então há risco de...”
Em silêncio, Luckman mostrou o dedo médio a ele.
* * *
Pneus cantando. Uma buzina. Bob Arctor olhou rapidamente para o trânsito noturno. Um carro esporte, o motor ligado, junto ao meio-fio; dentro dele, uma garota acenava para ele.
Donna.
— Meu Deus — disse ele novamente. Ele foi até o meio-fio.
Abrindo a porta do MG, Donna disse:
— Eu te assustei? Passei por você quando estava indo para casa e percebi que era você andando, então peguei o retorno e voltei. Entra aí.
Silenciosamente, ele entrou e fechou a porta do carro.
— Por que está a pé? — disse Donna. — Por causa do seu carro? Ainda não foi consertado?
— Acabei de ter uma viagem estranha — disse Bob Arctor. — Não como uma viagem de fantasia, só... — ele estremeceu.
Donna disse:
— Estou com as suas coisas.
— O quê? — disse ele.
— Mil tabletes de morte.
— Morte? — ecoou ele.
— E, morte de alta qualidade. E melhor a gente ir. — Ela engrenou a primeira, saiu do acostamento e pegou a rua; quase de imediato já estava dirigindo rápido demais. Donna sempre dirigia rápido demais e colava nos outros carros, mas sabia o que fazia.
— Aquele puto do Barris! — disse ele. — Sabe como ele age? Ele não mata ninguém que ele quer morto; só fica por perto até surgir a situação em que eles morrem. E ele só fica sentado ali, enquanto eles morrem. Na verdade, ele os prepara para morrer enquanto fica por perto. Mas não tenho certeza de como faz isso. De qualquer forma, ele dá um jeito para que eles morram. — Ele caiu em silêncio então, ruminando. — Tipo assim — disse ele Barris não conectaria explosivos plásticos no sistema de ignição de seu carro. O que ele ia fazer...
— Está com o dinheiro? — disse Donna. — Para a parada? É de primeira mesmo e preciso do dinheiro agora. Preciso ter o dinheiro esta noite porque vou ter de comprar outras coisas.
— Claro. — O dinheiro estava na carteira dele.
— Não gosto do Barris — disse Donna enquanto dirigia — e não confio nele. Acho que é maluco. E quando você está perto dele, fica maluco também. E depois, quando você não está com ele, você fica legal. Agora você está maluco.
— Estou? — disse ele, sobressaltado.
— Está — disse Donna calmamente.
— Bom... — disse ele. — Meu Deus! — Ele não sabia o que dizer a ela. Em especial porque Donna não estava errada.
— Olha — disse Donna com entusiasmo —, pode me levar a um show de rock? No Anaheim Stadium, na semana que vem? Você pode?
— Claro — disse ele mecanicamente. E depois percebeu o que Donna tinha dito: pedindo a ele para levá-la para sair. — Claaaaro! — disse ele, satisfeito. A vida voltou para ele. Novamente, a garotinha de cabelo escuro que ele amava tanto o havia restaurado. — Que noite?
— No domingo à tarde. Vou levar um pouco daquele haxixe gorduroso e preto e ficar bem chapada. Eles não vão saber a diferença, vai ter milhares de doidões por lá. — Ela olhou para ele, criticamente. — Mas você vai ter de vestir uma roupa legal, não essas roupas esquisitas que às vezes usa. Quer dizer... — A voz dela se suavizou. — Eu queria que você ficasse um gato, porque você é um gato.
— Tudo bem — disse ele, encantado.
— Estamos indo para a minha casa — disse Donna enquanto disparava pela noite no carrinho — e você está com o dinheiro e vai dar para mim e depois vamos tomar uns tabletes, ficar doidões e bem relaxados e talvez você vá querer comprar pra gente uma garrafa de Southern Comfort e a gente pode ficar de porre também.
— Legal! — disse ele com sinceridade.
— O que eu quero fazer mesmo hoje à noite — disse Donna enquanto reduzia, entrava na rua em que morava e chegava à entrada de carros — é ir a um drive-in. Comprei um jornal e li, mas não consegui achar nada de bom, a não ser no Torrance Drive-in, mas já começou o filme. Começou às cinco e meia. Que saco!
Ele olhou o relógio.
— Então perdemos...
— Não, a gente ainda pode ver a maior parte dele. — Ela deu um sorriso caloroso para ele enquanto parava o carro e desligava o motor. — São todos os filmes de O planeta dos macacos, todos os 11; eles começam às sete e meia da noite e vão direto até as oito da manhã de amanhã. Vou trabalhar diretamente do drive-in, então tenho de me trocar agora. Vamos ficar sentados lá no cinema, chapados e bebendo Southern Comfort a noite toda. Cara, dá pra sacar?
— Ela olhou para ele cheia de esperança.
— Tudo bem — repetiu ele.
— Tá, tá, tá. — Donna saltou do carro e voltou para ajudá-lo a abrir a portinha. — Quando foi a última vez em que você viu os filmes de O planeta dos macacos? Eu vi a maioria deles no início do ano, mas depois passei mal em um dos últimos e precisei sair. Foi um sanduíche de presunto que me venderam no drive-in. Isso me deixou muito puta, perdi o último filme, onde revelavam que todas as pessoas famosas da história, como Lincoln e Nero, eram macacos disfarçados e dirigiram toda a história humana desde o começo. E por isso que eu quero tanto ir agora. — Ela baixou o tom de voz enquanto eles seguiam para a porta da casa. — Eles me ferraram vendendo aquele sanduíche de presunto, e aí... não vai me dedurar... da vez seguinte que a gente foi ao drive-in, aquele em La Habra, enfiei uma moeda torta na fenda e em outras máquinas de venda além daquela. Eu e Larry Talling... lembra do Larry, aquele cara com quem eu estava saindo? Nós entortamos um monte de moedas de 25 e de cinqüenta usando o torno e uma chave inglesa dele. Tive o cuidado de ver se todas as máquinas de venda eram da mesma empresa, é claro, e depois arrasamos um monte delas, praticamente todas, pra dizer a verdade. — Ela abriu a porta da frente com a chave, lenta e arrastada, à luz fraca.
— Não é um bom negócio te enganar, Donna — disse ele enquanto os dois entravam na casa pequena e arrumada.
— Não pise no carpete felpudo — disse ela.
— Onde vou pisar, então?
— Fique parado ou pise nos jornais.
— Donna...
— Agora não vá ficar cheio de merda por ter de andar em jornais. Sabe quanto me custou mandar lavar o carpete?
— Ela estava parada, desabotoando o casaco.
— Economia — disse ele, tirando o próprio casaco. — Economia de merda. Já jogou alguma coisa fora? Você guarda barbantes curtos demais para...
— Um dia — disse Donna, sacudindo o longo cabelo preto nas costas enquanto tirava o casaco de couro — vou me casar e precisarei disso tudo, de tudo o que guardei. Quando você se casou, precisou de tudo isso. Tipo assim, você viu aquele espelho grande no jardim ao lado da porta; foram necessárias três pessoas por mais de uma hora para passar o espelho pela cerca. Um dia...
— Quanto do que você guarda foi comprado — perguntou ele — e quanto você roubou?
— Comprado? — Ela estudou o rosto dele sem ter certeza. — O que quer dizer com comprado?
— Como quando você compra drogas — disse ele. — Uma parada com as drogas. Como agora. — Ele pegou a carteira. — Eu dou o seu dinheiro, não é?
Donna assentiu, observando-o obedientemente (na verdade, mais por educação), mas com dignidade. Com uma certa reserva.
— E depois você me entrega o monte de drogas por isso — disse ele, estendendo as notas. — O que eu quero dizer com comprar é uma extensão no mundo das transações humanas dos negócios que temos agora, conosco, como a parada com as drogas.
— Acho que entendi — disse ela, os olhos grandes e escuros, plácidos, mas atentos. Ela estava disposta a aprender.
— Quantas... como na vez em que roubou o caminhão da Coca-Cola em que você ficou na cola naquele dia... quantas garrafas de Coca você roubou? Quantos engradados?
— O equivalente a um mês — disse Donna. — Para mim e meus amigos.
Ele olhou para ela de forma reprovadora.
— É uma forma de escambo — disse ela.
— O que você... — Ele começou a rir. — O que você deu em troca?
— Eu dei a mim mesma.
Agora ele riu alto.
— A quem? Ao motorista do caminhão, que deve ter se dado bem...
— A Coca-Cola Company é um monopólio capitalista. Ninguém mais pode fazer Coca-Cola, só eles, como a companhia telefônica, quando você quer ligar para alguém. Todos são monopólios capitalistas. Você sabe — os olhos dela brilharam — que a fórmula da Coca-Cola é um segredo muito bem guardado, transmitido há séculos, que só algumas pessoas conhecem, todas da mesma família, e quando morrer a última delas que tiver a fórmula memorizada não terá mais Coca-Cola? Então tem uma fórmula escrita em um lugar seguro — acrescentou ela, meditativamente. — Queria saber onde — ruminou ela para si mesma, os olhos vibrando.
— Você e seus amigos ladrões nunca vão descobrir a fórmula da Coca-Cola, nem em um milhão de anos.
— QUEM VAI QUERER FABRICAR A PORRA DA COCA-COLA QUANDO PODE ROUBAR OS CAMINHÕES DELES? Eles têm um monte de caminhões. A gente vê eles andando por aí, o tempo todo, bem devagar. Eu colo na traseira deles sempre que posso; eles me deixam maluca. — Ela deu um sorrisinho misterioso, sagaz, adorável e travesso para ele, como se tentasse seduzi-lo a entrar na estranha realidade dela, onde ela colava na traseira de um caminhão lento, ficava cada vez mais irritada e mais impaciente, e depois, quando ele encostava, em vez de passar por ele como fariam outros motoristas, ela também encostava e roubava tudo o que tinha no caminhão. Não tanto por ser ladra ou por vingança, mas porque na hora em que finalmente encostou ela vira os engradados por tanto tempo que deduziu o que podia fazer com todos eles. A impaciência rendera a engenhosidade. Ela estava com o carro — não o MG, mas um Camaro maior que dirigia na época, antes de acabar com ele — com engradados e mais engradados de Coca-Cola, e depois, por um mês, ela e todos os amigos bacacas beberam toda a Coca-Cola de graça que quiseram e depois disso...
Ela devolveu as garrafas vazias a diferentes lojas em troca do depósito.
— O que você faz com as tampas das garrafas? — ele perguntou a ela um dia. — Embrulha em musselina e guarda em sua arca de cedro?
— Eu jogo fora — disse Donna, mal-humorada. — Não se pode fazer nada com tampas de Coca-Cola. Não tem mais concurso, nem nada disso.
Agora ela desapareceu no outro cômodo e voltou com vários sacos de polietileno. — Quer contar estes? — perguntou ela. — Tem mil com toda a certeza. Eu pesei na minha balança antes de pagar por eles.
— Está tudo bem — disse ele. Ele aceitou os sacos, ela aceitou o dinheiro e ele pensou: “Donna, mais uma vez eu podia te entregar, mas provavelmente nunca vou ligar para o que você faz, mesmo que seja comigo, porque há algo maravilhoso, cheio de vida e doce em você, e eu nunca destruiria isso. Não entendo, mas é assim.”
— Posso ficar com dez? — perguntou ela.
— Dez? Dez tabletes de volta? Claro. — Ele abriu um dos sacos — era difícil de desamarrar, mas ele era habilidoso — e contou precisamente dez para ela. E depois dez para si mesmo. E amarrou o saco de novo. E depois levou todos os sacos para o casaco no armário.
— Sabe o que eles fazem agora nas lojas de fitas cassetes? — disse Donna toda animada quando ele voltou. Agora os dez tabletes não estavam à vista, ela já os havia escondido. — As fitas de gravação?
— Eles te prendem — disse ele — se as roubar.
— Sempre fizeram isso. Agora o que eles fazem... sabe quando você leva um disco ou uma fita até o balcão e o vendedor tira a etiqueta de preço que está colada neles? Bom, adivinha só. Adivinha o que eu descobri, quase do pior jeito. — Ela se atirou em uma cadeira, sorrindo de expectativa, e pegou um cubinho embrulhado em alumínio que ele identificou como um fragmento de haxixe mesmo antes de ela desembrulhar. — Não é só uma etiqueta colada. Também é um pedacinho minúsculo de uma liga metálica e, se a etiqueta não for retirada pelo vendedor, e você tentar sair pela porta com ela, o alarme dispara.
— Como você descobriu isso quase do pior jeito?
— Uma adolescente tentou sair com uma debaixo do casaco na minha frente, o alarme disparou, eles pegaram e a polícia chegou.
— Quantos você colocou debaixo do casaco?
— Três.
— Você também tinha drogas no seu carro? — disse ele. — Porque depois que foi pega por roubar as fitas eles iam recolher seu carro, porque você ia ser vigiada no centro, o carro seria rebocado o tempo todo e depois eles iam descobrir as drogas e te prender por isso também. Aposto que não foi na cidade, aposto que você fez isso onde... — ele começara a dizer. Onde você não conhece ninguém da polícia que possa intervir. Mas ele não podia dizer isso, porque implicava a si mesmo; se Donna fosse pega, pelo menos onde ele tinha alguma influência, ele faria de tudo para ajudá-la. Mas ele não podia fazer nada, digamos, no condado de Los Angeles. E se isso acontecesse, o que um dia ia acontecer, assim seria: rápido demais para ele tomar conhecimento ou ajudar. Agora ele tinha um cenário tocando em sua cabeça, uma fantasia de terror: Donna, como Luckman, morrendo sem que ninguém ouvisse, nem se importasse, nem fizesse alguma coisa; eles podiam ouvir, mas eles, como Barris, continuariam impassíveis e imóveis até que tudo estivesse acabado para ela. Ela não morreria literalmente, como aconteceu com Luckman — morreria? Ele quis dizer que podia. Mas ela, sendo viciada na Substância D, não só estaria na cadeia, mas teria de passar pela crise de abstinência. E uma vez que ela traficava, não só usava — e havia punição por roubo também —, ela iria em cana por algum tempo e um monte de outras coisas, coisas apavorantes, aconteceriam com ela. E depois, quando ela voltasse, seria uma Donna diferente. A expressão suave e carinhosa de que ele gostava tanto, o calor — isso seria transformado em Deus sabe o quê. Algo vazio e usado demais. Donna traduzida em uma coisa e era o que ia acontecer com todos eles um dia, mas com Donna, assim ele esperava, muito mais e bem além de sua própria vida. E não onde ele não pudesse ajudar.
— Fantasminha — disse ele a ela agora, de um jeito infeliz —, mas nada Camarada.
— O que é isso? — Depois de um momento, ela entendeu. — Ah, a terapia TA. Mas quando eu fumo um... — Ela havia apanhado o próprio cachimbinho de cerâmica para haxixe, como um corrupio, que ela mesma fez, e estava acendendo. — Eu viro Soneca. — Olhando para ele, os olhos brilhantes e felizes, ela riu e estendeu o precioso cachimbo de haxixe. — Vou te sobrecarregar — declarou ela. — Senta aí.
Enquanto ele se sentava, ela se levantou, ficou fumando o cachimbo animadamente, depois andou até ele, curvou-se e, enquanto ele abria a boca — como um filhote de passarinho, pensou ele, como ele sempre pensava quando ela fazia isso —, ela exalou grandes jatos cinzentos e vigorosos de fumaça de haxixe nele, enchendo-o de seu próprio calor, ousadia e energia incorrigíveis, o que era ao mesmo tempo um tranqüilizante que relaxava os dois: ela, que sobrecarregava, e Bob Arctor, que recebia.
— Eu te amo, Donna — disse ele. Essa sobrecarga, isso era o substituto que ele tinha para as relações sexuais com ela, e talvez fosse melhor; valia muito; não só era íntimo e muito estranho se visto dessa forma, porque primeiro ela podia colocar alguma coisa dentro dele e depois, se ela quisesse, ele colocava algo dentro dela. Como uma troca, de um lado para outro, até que o haxixe acabasse.
— E, eu entendo a sua paixão por mim — disse ela, dando uma risadinha, sentada ao lado dele, sorrindo, agora para dar uma tragada no cachimbo para ela mesma.