7

No dia seguinte, Fred apareceu com o traje misturador para saber da instalação do grampo.

— Os seis holo-scanners agora estão operando no local; por enquanto seis devem ser suficientes, segundo pensamos; transmitem para um apartamento seguro na rua, no mesmo bloco da casa de Arctor — explicou Hank, estendendo uma planta baixa da casa de Bob Arctor na mesa de metal entre os dois. Ver isso deu arrepios em Fred, mas não abertamente. Ele pegou a folha de papel e analisou as localizações dos vários scanners nos vários cômodos, aqui e ali, de modo que tudo parecia sob constante escrutínio de vídeo, bem como de áudio.

— Então eu faço a gravação no apartamento — disse Fred.

— Usamos o apartamento como ponto monitor de gravação para umas oito... talvez agora nove... casas ou apartamentos sob análise neste bairro em particular. Então você vai topar com outro agente disfarçado fazendo gravações. Sempre use seu traje.

— Vão me ver indo para o apartamento. Fica perto demais.

— Acho que sim, mas é um prédio enorme, com centenas de unidades, e é o único que encontramos que era eletronicamente viável. Terá de fazer, pelo menos até que consigamos expropriação legal de outra unidade em outro lugar. Estamos trabalhando nisso, fica a duas quadras de distância, onde você será menos visível. Uma semana mais ou menos, eu acho. Se os holo-scanners puderem ser transmitidos com uma resolução aceitável por cabos de microrrelé e linhas ITT como o anterior...

— Vou usar a desculpa de que estou transando com uma garota do prédio se Arctor, Luckman ou qualquer um dos doidões me vir entrando. — Na verdade, não era uma questão complicada; reduziria seu tempo não remunerado em trânsito, o que era um fator importante. Ele podia muito bem dirigir para o apartamento seguro, ver as gravações do scanner, determinar o que era relevante para seus relatórios, o que podia ser descartado e depois voltar rapidamente para...

Para minha própria casa, pensou ele. A casa de Arctor. Naquela rua, na casa onde sou Bob Arctor, o drogado suspeito que está sendo vigiado sem saber, e depois de dois em dois dias encontro um pretexto para descer a rua e entrar no apartamento, onde sou Fred repassando quilômetros de gravação para ver o que eu fiz; todo esse negócio, pensou ele, realmente me deprime. A não ser pela proteção — as informações pessoais valiosas — que me dará.

Provavelmente quem está me perseguindo será pego pelos holo-scanners na primeira semana.

Percebendo isso, ele se sentiu bem.

— Ótimo — disse ele a Hank.

— Então está vendo onde foram colocados os holos. Se precisarem de manutenção, você provavelmente poderá fazer sozinho enquanto estiver na casa de Arctor e ninguém estiver por perto. Você entra na casa dele normalmente, não é?

Mas que merda!, pensou Fred. Se eu fizer isso, aparecerei nas gravações. E então, quando eu as entregar a Flank terei de ser, obviamente, um dos indivíduos visíveis nelas e isso vai estragar tudo.

Até agora ele não pressionara Hank sobre como ele sabia que sabia sobre seus suspeitos; ele mesmo como Fred, o dispositivo de varredura eficaz que levava as informações. Mas agora áudio e holo-scanners, que não editavam automaticamente como o relatório verbal que fazia, identificando menções a si mesmo. Haveria Robert Arctor mexendo nos holos quando funcionassem mal, seu rosto crescendo e enchendo a tela. Mas, por outro lado, ele seria o primeiro a tocar as gravações, ele ainda podia editar. Só que isso ia requerer tempo e cuidado.

Mas editar o quê? Editar Arctor — inteiramente? Arctor era o suspeito. Exatamente Arctor, quando fosse mexer nos holos.

— Vou editar a mim mesmo — disse ele. — Então você não vai me ver. Uma questão de proteção convencional.

— É claro. Já fez isso antes? — Hank estendeu a mão para mostrar a ele algumas imagens. — Você usa um dispositivo apagador que elimina qualquer seção onde aparece como informante. Isso nos holos, é claro; para o áudio não há uma política a ser seguida. Mas você não terá problema. Sabemos que você é um dos indivíduos do círculo de amigos de Arctor que freqüentam aquela casa; você ou é Jim Barris ou Ernie Luckman, ou Charles Freck ou Donna Hawthorne...

— Donna? — Ele riu. O traje riu, na verdade. À sua maneira.

— Ou Bob Arctor — continuou Hank, analisando a lista de suspeitos.

— Faço relatórios sobre mim mesmo o tempo todo — disse Fred.

— Então você terá de se incluir de vez em quando nas holofitas que nos entregar, porque se editar sistematicamente a si mesmo podemos deduzir quem é você por um processo de eliminação, quer você queira ou não. O que você deve fazer, na verdade, é eliminar a si mesmo na edição... como devo chamar isso?... de forma inventiva, artística... que droga, a palavra é criativa... como, por exemplo, durante os breves intervalos em que você estiver sozinho na casa e fizer a busca, revirando papéis e gavetas ou consertando um scanner no campo de visão de outro scanner ou...

— Você devia simplesmente mandar alguém uniformizado à casa uma vez por mês — disse Fred. — E ele diria: “Bom-dia! Estou aqui para fazer a manutenção dos dispositivos de monitoramento instalados em sua casa, em seu telefone e em seu carro.” Talvez Arctor acabe pagando a conta.

— Arctor provavelmente sairia e depois desapareceria.

O traje misturador Fred disse:

— Se Arctor está escondendo tanto assim. Isso não foi provado.

— Arctor pode estar escondendo muito. Reunimos e estamos analisando informações mais recentes sobre ele. Não há uma dúvida substancial sobre isso: ele é um embuste, ele simplesmente não existe. E um impostor. Então fique de olho nele até que ele caia, até que a gente tenha o bastante para prendê-lo e provar sua culpa.

— Quer que eu plante coisas?

— Vamos discutir isso mais tarde.

— Acha que ele está aprontando muito na, você sabe, agência S. D.?

— O que achamos não tem importância no nosso trabalho — disse Hank. — Nós avaliamos; você informa, com suas próprias conclusões limitadas. Isso não é uma descortesia contigo, mas temos informações, montes delas, que não estão disponíveis para você. O quadro mais amplo. O quadro computadorizado.

— Arctor está condenado — disse Fred. — Está aprontando alguma. E eu tenho um pressentimento, baseado no que você diz, que é ele.

— Logo vamos ter um processo contra ele — disse Hank. — E depois podemos fechar este caso, o que agradará a todos nós.

Fred memorizou estoicamente o endereço e o número do apartamento e, de repente, se lembrou de que tinha visto um jovem casal do tipo doidão que havia pouco tempo

desaparecera de repente e de vez em quando entrava e saía do prédio. Foram pegos e o apartamento fora tomado para isso. Ele gostava deles. A garota tinha cabelo comprido cor-de-linho e não usava sutiã. Uma vez ele passou por ela de carro enquanto ela carregava umas compras e lhe ofereceu uma carona; eles conversaram. Ela era do tipo orgânico, de megavitaminas, kelp e luz do sol, simpática, tímida, mas rejeitou a carona. Agora ele podia entender por quê. Evidentemente os dois eram usuários. Ou, mais provavelmente, traficavam. Por outro lado, se o apartamento era necessário, uma batida por posse resolveria e sempre se conseguia isso.

Ele se perguntou o que as autoridades fariam com a casa desordenada e grande de Bob Arctor quando ele fosse preso. Um centro ainda maior de processamento de informações, mais provavelmente.

— Você gostou da casa de Arctor — disse ele em voz alta.

— Está em ruínas e é suja como as casas de drogados, mas é grande. Tem um bom quintal. Montes de arbustos.

— Foi isso que a turma de instalação relatou. Algumas possibilidades excelentes.

— Eles o quê? Eles relataram que é “cheia de possibilidades”, foi isso? — A voz do traje misturador estalou irritantemente sem tom nem ressonância, o que o deixou com uma raiva ainda maior. — O quê, por exemplo?

— Bem, uma possibilidade óbvia: a sala tem vista para um cruzamento, então os veículos que passam podem ser diagramados e as placas... — Hank analisou seus muitos, muitos documentos. — Mas Burt Qual-é-a-cara-dele, que chefiou a equipe, achou que deixaram que a casa se deteriorasse tanto que não valeria a pena a tomarmos. Como um investimento.

— De que maneira? A casa se deteriorou de que forma?

— O telhado.

— O telhado está perfeito.

— A pintura por dentro e por fora da casa. O estado do piso. Os armários da cozinha...

— Que besteira! — disse Fred monotonamente. — Arctor pode ter deixado pilhas de pratos e lixo e não ter limpado a casa, mas, afinal, três caras morando ali sem mulher nenhuma? A esposa dele o deixou, são as mulheres que devem fazer essas coisas. Se Donna Hawthorne tivesse se mudado para lá, como queria o Arctor, como ele lhe implorou, ela teria cuidado disso. De qualquer forma, qualquer serviço profissional de faxina pode colocar toda a casa em ordem e até limpar tudo na metade de um dia. No que diz respeito ao telhado, isso realmente me deixa louco, porque...

— Então você nos recomenda adquiri-la depois que Arctor for preso e perder a escritura.

Fred, o traje, encarou-o.

— E então? — disse Hank, impassível, a esferográfica a postos.

— Não tenho opinião. De uma forma ou de outra. — Fred se levantou da cadeira para ir embora.

— Você ainda não vai sair — disse Hank, acenando para que ele se sentasse novamente. Ele vasculhou os papéis em sua mesa. — Tenho um memorando aqui...

— Você sempre tem memorandos — disse Fred. — Para todo mundo.

— Este memorando — disse Hank — me instrui a te mandar para a Sala 203 antes de você ir embora hoje.

— Se é sobre a palestra antidrogas que dei no Lions Club, já me esculacharam o bastante.

— Não, não é isso. — Hank atirou para ele o bilhete. — E uma coisa diferente. Terminei com você, então por que não vai lá agora e encerra o assunto?

 

 

Ele se viu confrontando uma sala completamente branca com acessórios, cadeiras e mesa de aço, tudo aparafusado, uma sala que parecia de hospital, purificada, estéril e fria, com a luz forte demais. Na realidade, à direita havia uma balança com a placa AJUSTADA SOMENTE POR TÉCNICOS. Dois agentes o olharam, ambos com uniforme completo do escritório do xerife do Condado de Orange, mas com divisas médicas.

— Você é o policial Fred? — disse um deles, com um bigode de pontas viradas.

— Sim, senhor — disse Fred. Ele estava com medo.

— Tudo bem, Fred, primeiro deixe-me dizer que, como sem dúvida deve estar ciente, seus relatórios e interrogatórios são monitorados e depois repassados para análise, para o caso de alguma coisa ter sido perdida nas sessões originais. Isso é padrão, é claro, e é válido para todos os policiais que fazem relatórios verbais, não só para você.

O outro agente médico disse:

— Além de todos os outros contatos que você mantém com o departamento, como contatos telefônicos e atividades adicionais, como sua recente palestra em Anaheim para os rapazes do Rotary Club.

— Do Lions — disse Fred.

— Você toma a Substância D? — perguntou o agente médico, canhoto.

— Essa pergunta — disse o outro — é discutível porque consideramos que em seu trabalho você é levado a isso. Então não responda. Não que seja incriminador, mas simplesmente porque é discutível. — Ele indicou uma mesa em que havia um monte de blocos e outros objetos baratos de plástico colorido, além de itens peculiares que o policial Fred não conseguiu identificar. — Venha aqui e se sente, policial Fred. Vamos lhe aplicar, brevemente, vários testes fáceis. Não vai consumir muito o seu tempo e não haverá nenhum desconforto físico.

— Sobre a palestra que eu dei... — disse Fred.

— Isto aqui — disse o agente médico canhoto, enquanto se sentava e pegava uma caneta e alguns formulários — tem origem em um recente levantamento departamental que mostra que vários agentes que trabalham sob disfarce nesta área foram admitidos nas clínicas de afasia neurai no mês passado.

— Você está ciente do alto fator viciante da Substância D? — indagou o outro agente a Fred.

— Claro — disse Fred. — É claro que estou.

— Vamos lhe aplicar estes testes agora — disse o agente sentado nesta ordem, a começar pelo que chamamos de FF ou...

— Acha que sou viciado? — disse Fred.

— Se você é ou não viciado não é a principal questão, uma vez que esperamos um agente bloqueador da Divisão de Guerra Química do exército nos próximos cinco anos.

— Estes testes não dizem respeito às propriedades viciantes da Substância D, mas... bem, deixe-me primeiro aplicar o Teste de Figura e Fundo, que determina sua capacidade de distinguir prontamente uma figura do fundo. Vê este diagrama geométrico? — Ele estendeu na mesa um cartão desenhado diante de Fred. — Dentro das linhas aparentemente sem sentido está um objeto familiar que todos reconheceríamos. Você vai me dizer qual é...

Informação. Em julho de 1969, Joseph E. Bogen publicou seu artigo revolucionário “O Outro Lado do Cérebro: uma Mente Aposicional”. Nesse artigo, ele citou um obscuro dr. A. L. Wigan, que escreveu em 1844:

 

“A mente é essencialmente dual, como os órgãos pelos quais é exercitada. Essa idéia me ocorreu e eu a analisei por mais de um quarto de século, sem conseguir descobrir uma só objeção válida ou mesmo plausível. Acredito que sou capaz de provar (1) que cada metade do cérebro é um todo distinto e perfeito como órgão do pensamento; (2) que um processo separado e distinto de pensamento ou raciocínio pode ser realizado em cada metade do cérebro simultaneamente.”

 

Nesse artigo, Bogen concluiu: “Acredito [como Wigan] que cada um de nós tem duas mentes em uma pessoa. Há uma série de detalhes a dispor neste caso. Mas um dia devemos confrontar diretamente a principal resistência à concepção de Wigan, isto é, a sensação subjetiva que cada um de nós possui de que somos Um. Essa convicção íntima da Unidade é uma opinião muito valorizada pelo homem ocidental...”

— ... o objeto e apontá-lo no campo.

Estão brincando de tira bom/tira mau comigo, pensou Fred.

— O que significa tudo isso? — disse ele, olhando para o agente e não para o diagrama. — Aposto que é a palestra do Lions Club — disse ele. Ele foi incisivo.

O agente sentado disse:

— Em muitos que tomam a Substância D, acontece uma divisão entre os hemisférios direito e esquerdo do cérebro. Há uma perda de gestaltismo adequado, que é um defeito nos sistemas de percepção e cognição, embora aparentemente o sistema de cognição continue a funcionar normalmente. Mas o que agora se recebe do sistema de percepção é contaminado pela divisão e também esse, portanto, deixa aos poucos de funcionar, deteriorando-se progressivamente. Já localizou o objeto conhecido neste desenho? Pode apontá-lo para mim?

Fred disse:

— Não está falando de depósitos de vestígios de metais pesados nos sítios neurorreceptores, está? Irreversíveis...

— Não — disse o agente de pé. — Não é dano cerebral, mas uma forma de toxicidade, de toxicidade cerebral. E uma psicose tóxica do cérebro que afeta o sistema de percepção, dividindo-o. O que tem diante de você, este teste FF, mede a precisão de seu sistema de percepção para agir como um todo unificado. Consegue ver a forma aqui? Deve estar saltando diante de seus olhos.

— Vejo uma garrafa de Coca-Cola — disse Fred.

— Uma garrafa de refrigerante, está correto — disse o agente sentado e afastou o desenho, substituindo-o por outro.

— Percebeu alguma coisa — disse Fred — no estudo de meus relatórios e coisas assim? Alguma baboseira? — Na palestra, pensou ele. — E a palestra que eu dei? — disse ele.

— Eu mostrei disfunção bilateral ali? É por isso que fui mandado aqui para estes testes? — Ele tinha lido sobre os testes de cérebro dividido, aplicados pelo departamento de tempos em tempos.

— Não, isso é rotina — disse o agente sentado. — Entendemos, policial Fred, que os agentes disfarçados precisam tomar drogas no cumprimento do dever; aqueles que tiveram de ir para as federais...

— Permanentemente? — perguntou Fred.

— Não muitos permanentemente. Repito, essa é uma contaminação que pode, com o passar do tempo, ser retificada como...

— Trevas — disse Fred. — As trevas encobrem tudo.

— Está passando por algum diálogo cruzado? — perguntou um dos agentes a ele de repente.

— Como é? — disse ele, inseguro.

— Entre os hemisférios. Se houver dano no hemisfério esquerdo, onde normalmente estão localizadas as habilidades lingüísticas, às vezes o hemisfério direito compensa com o máximo de sua capacidade.

— Eu não sei — disse ele. — Não que eu tenha percebido.

— Pensamentos que não são seus. Como se outra pessoa ou outra mente estivesse pensando. Mas diferente do modo como você pensaria. Até palavras estrangeiras que você não conhece. Que são aprendidas de sua percepção periférica de vez em quando durante a sua vida.

— Nada parecido com isso. Eu não percebi.

— Provavelmente perceberia. Pelo que informaram pessoas com danos no hemisfério esquerdo, evidentemente é uma experiência muito perturbadora.

— Bom, acho que não percebi.

— Antigamente se acreditava que o hemisfério direito não tinha faculdades lingüísticas, mas isso foi antes de tanta gente arruinar o hemisfério esquerdo com drogas e dar ao lado direito a oportunidade de aparecer. Para preencher o vazio.

— Certamente vou ficar atento para isso — disse Fred e ouviu a mera qualidade mecânica de sua voz, como a de uma criança diligente na escola. Concordando em obedecer a qualquer ordem estúpida que lhe fosse imposta por uma autoridade. Aos que eram superiores a ele e em condições de impor sua força e vontade sobre ele, quer isso fosse razoável ou não.

Só concorde, pensou ele. E faça o que mandarem.

— O que está vendo nesta segunda imagem?

— Uma ovelha — disse Fred.

— Mostre-me a ovelha. — O agente sentado inclinou-se e girou a imagem. — Uma deterioração na discriminação figura-fundo pode metê-lo em um monte de problemas... em vez de não perceber formas, você percebe formas imperfeitas.

Como merda de cachorro, pensou Fred. Merda de cachorro certamente seria considerada uma forma imperfeita. Por qualquer padrão. Ele...

 

“Os dados indicam que o hemisfério menor e mudo é especializado na percepção Gestalt, sendo principalmente um sintetizador ao lidar com as informações recebidas. O hemisfério maior e falante, ao contrário, parece operar de maneira mais lógica, analítica, como de computador, e as descobertas sugerem que um possível motivo para a lateralização cerebral no homem é uma incompatibilidade fundamental de funções de linguagem, de um lado, e funções de percepção sintética, de outro.”

 

... se sentia doente e deprimido, quase como se sentiu durante a palestra no Lions Club. — Não tem ovelha alguma, não é? — disse ele. — Mas cheguei perto?

— Isto não é um teste de Rorschach — disse o agente sentado —, onde uma mancha confusa pode ser interpretada de muitas maneiras por muitas pessoas. Neste, um objeto específico, por exemplo, foi delineado e há somente um. Neste caso, é um cachorro.

— Um o quê? — disse Fred.

— Um cachorro.

— Como pode dizer que é um cachorro? — Ele não viu cachorro algum. — Me mostre. — O agente...

 

“Essa conclusão encontra sua prova experimental no animal de cérebro dividido cujos dois hemisférios podem ser treinados para perceber, considerar e agir de forma independente. No ser humano, em que o pensamento proposicional em geral é lateralizado em um hemisfério, o outro hemisfério evidentemente se especializa em um modo diferente de pensamento, que pode ser chamado aposicional. As regras ou métodos pelos quais o pensamento proposicional é elaborado ‘nesse’ lado do cérebro (o lado que fala, lê e escreve) têm sido submetidos a análise de sintaxe, semântica, lógica matemática etc. há muitos anos. As regras pelas quais o pensamento aposicional é elaborado no outro lado do cérebro precisarão de estudo por muitos anos ainda.”

 

... virou o cartão; no verso, o perfil formal, cabal e simples de um CACHORRO tinha sido inscrito e agora Fred o reconhecia como a forma desenhada dentro das linhas na frente do cartão. Na verdade, era um tipo específico de cão: um greyhound, com a tripa desenhada.

— O que significa — disse ele — eu ter visto uma ovelha?

— Provavelmente só um bloqueio psicológico — disse o agente de pé, passando o peso de uma para a outra perna.

— Só quando todo o conjunto de cartões é mostrado e depois temos os vários outros testes...

— Este é um teste superior ao de Rorschach — interrompeu o agente sentado, pegando o desenho seguinte —, porque não é interpretativo; há muitas respostas erradas em que você pode pensar, mas só uma resposta certa. O objeto correto que o Departamento de Psigrafia dos EUA desenhou nele e certificou, para cada cartão; isso é o que é certo, porque foi passado de Washington. Ou você consegue ou não consegue e, se demonstrar uma série sem conseguir, então temos um problema de deterioração funcional na percepção e vamos afastá-lo por algum tempo, até que seu teste seja bom.

— Uma clínica federal? — disse Fred.

— Sim. Agora, o que você vê neste desenho, entre estas linhas pretas e brancas?

Cidade da Morte, pensou Fred enquanto analisava o desenho. E o que eu vejo: morte multiforme, não naquela forma correta, mas total. Homenzinhos de um metro em carrinhos.

— Só me diga uma coisa — disse Fred —, foi a palestra no Lions Club que alertou vocês?

Os dois agentes médicos trocaram olhares.

— Não — disse por fim o de pé. — Teve a ver com uma conversa que foi... na verdade... de improviso, na realidade, só uma besteirada entre você e Hank. Há cerca de duas semanas. Perceba que há um atraso tecnológico no processamento de todo esse lixo, todas essas informações cruas que aparecem. Eles ainda não analisaram sua palestra. Na realidade, vão levar mais uns dias.

— O que foi essa besteirada?

— Algo sobre uma bicicleta roubada — disse o outro agente. — Uma chamada bicicleta de sete marchas. Você ficou tentando deduzir onde foram parar as três marchas perdidas, foi isso? — Novamente eles se olharam, os dois agentes médicos. — Você achou que tinham ficado no chão da garagem de onde foi roubada?

— Que droga! — protestou Fred. — Foi culpa do Charles Freck, não minha; ele deixou todo mundo maluco com uma algazarra sobre isso. Eu só achei engraçado.

BARRIS: (Parado no meio da sala com uma bicicleta nova, reluzente e grande, muito satisfeito.) Olha o que eu comprei por vinte dólares.

FRECK: O que é?

BARRIS: Uma bicicleta, uma bicicleta de corrida de dez marchas, praticamente nova. Vi no jardim do vizinho e perguntei sobre ela, e eles tinham quatro, então ofereci vinte dólares em dinheiro e eles me venderam essa. Um pessoal de cor. Eles até a levantaram pela cerca para mim.

LUCKMAN: Não sei como conseguiu uma bicicleta de dez marchas quase nova por vinte dólares. É incrível o que se consegue com vinte dólares.

DONNA: Parece com a que roubaram faz um mês de uma garota que mora na frente da minha casa. Eles devem ter roubado dela, aqueles negros.

ARCTOR: Claro que sim, eles tinham quatro. E vender assim tão barato.

DONNA: Você devia devolver à garota da minha rua, se é dela. Ou devia deixar ela dar uma olhada para ver se é dela mesmo.

BARRIS: E uma bicicleta masculina. Então não pode ser dela.

FRECK: Por que você diz que tem dez marchas quando só tem sete?

BARRIS: (Atordoado.) Como é que é?

FRECK: (Aproximando-se da bicicleta e apontando.) Olha, cinco marchas aqui, duas aqui na outra ponta da corrente. Cinco e dois...

 

“Quando o quiasma ótico de um gato ou de um macaco é dividido sagitalmente, as informações recebidas pelo olho direito vão somente para o hemisfério direito e, da mesma forma, o olho esquerdo informa somente ao hemisfério esquerdo. Se um animal com essa operação é treinado para escolher entre dois símbolos enquanto usa somente um olho, testes posteriores mostram que ele pode fazer a escolha adequada com o outro olho. Mas, se as comissuras, em especial o corpo caloso, forem seccionadas antes do treinamento, o olho inicialmente coberto e seu hemisfério ipsolateral deverão ser treinados desde o início. Isto é, o treinamento não será transferido de um hemisfério para outro se as comissuras forem cortadas. Esse é o experimento de divisão cerebral fundamental de Myers e Sperry (1953; Sperry, 1961; Myers, 1965; Sperry, 1967).”

 

... dão sete. Então é uma bicicleta de só sete marchas.

LUCKMAN: É, mas nem uma bicicleta de corrida de sete marchas vale vinte dólares. Ele ainda conseguiu uma pechincha.

BARRIS: (Confuso.) Aqueles negros me disseram que tinha dez marchas. Isso é roubo.

(Todos se reúnem para examinar a bicicleta. Eles contam as marchas repetidamente.)

FRECK: Agora contei oito. Seis na frente, duas atrás. Dá oito.

ARCTOR: (Logicamente.) Mas devia ter dez. Não existem bicicletas de sete ou oito marchas. Não que eu saiba.

O que acha que aconteceu com as marchas que estão faltando?

BARRIS: Aqueles caras de cor devem ter trabalhado nela, desmontando-as com ferramentas inadequadas e sem conhecimento técnico, e quando remontaram deixaram três marchas no chão da garagem deles. Provavelmente elas ainda estão lá.

LUCKMAN: Então a gente devia pedir as marchas de volta.

BARRIS: (Refletindo com raiva.) Mas é aí que está o roubo: eles vão se oferecer para me vender as marchas e não dá-las a mim, como deviam. Imagino o que mais eles estragaram. (Inspeciona toda a bicicleta.)

LUCKMAN: Se todos formos juntos, eles vão dar as marchas para a gente; pode apostar nisso, cara. Vamos todos, está bem? (Olha em volta procurando por aprovação.)

DONNA: Tem certeza de que só tem sete marchas?

FRECK: Oito.

DONNA: Sete, oito. Quer dizer, antes de vocês irem lá, perguntem a alguém. Quer dizer, não me parece que eles fizeram nada do tipo desmontar a bicicleta. Antes de você ir lá e pegar pesado com eles, descubra. Sacou?

ARCTOR: Ela tem razão.

LUCKMAN: A quem vamos perguntar? Quem aqui conhece uma autoridade em bicicletas de corrida?

FRECK: Vamos perguntar à primeira pessoa que encontrarmos. Vamos levar a bicicleta para a porta e, quando um cara passar, a gente pergunta a ele. Assim vamos ter uma opinião neutra.

(Eles levaram juntos a bicicleta para a frente, bem ao lado de onde os negros estacionam o carro. Eles apontaram para as sete — oito?— marchas de forma questionadora e perguntaram quantas eram, embora pudessem ver — a não ser por Charles Freck — que eram somente sete: cinco em uma ponta da corrente, duas na outra. Cinco e dois somam sete. ELes puderam verificar isso com os próprios olhos. O que está pegando?)

JOVEM NEGRO: (Calmamente.) O que vocês têm de fazer é multiplicar o número de marchas na frente pelo número da traseira. Não é somar, mas multiplicar, porque, estão vendo, a corrente pula de uma marcha para outra e, em termos de proporção de marcha, vocês têm cinco (Ele indica as cinco marchas) vezes uma das duas da frente (Ele aponta para ela), o que dá um vezes cinco, que é cinco, e depois, quando você muda com esta alavanca no punho (Ele demonstra), a corrente pula para a outra das duas da frente e interage com as mesmas cinco de trás novamente, o que dá mais cinco. A adição envolvida é cinco mais cinco, que dá dez. Estão vendo como funciona? Viu, as proporções de marchas são sempre derivadas de...

(Eles agradecem e silenciosamente levam a bicicleta de volta para dentro de casa. O jovem negro, que eles nunca viram na vida, não tem mais de 17 anos e dirige um carro incrivelmente surrado que parece de transportadora, foi trancar o carro e eles fecharam a porta da frente da casa eficaram parados ali.)

LUCKMAN: Alguém arrumou algum bagulho? “Onde há substância, há esperança.” (Ninguém...)

 

“Todas as evidências indicam que essa separação dos hemisférios cria duas esferas independentes de consciência em um único crânio, isto é, dentro de um único organismo. Essa conclusão é perturbadora para algumas pessoas, que vêem a consciência como uma propriedade indivisível do cérebro humano. Parece prematuro para outros, que insistem em que as capacidades até agora reveladas pelo hemisfério direito permanecem no nível do automatismo. Há, certamente, desigualdade hemisférica nos casos presentes, mas pode bem ser uma característica dos indivíduos que estudamos. E inteiramente possível que, se um cérebro humano fosse dividido em uma pessoa muito jovem, os dois hemisférios poderiam, por conseqüência, desenvolver de forma separada e independente funções mentais de uma ordem superior ao nível que corresponde somente ao hemisfério esquerdo de indivíduos normais.”

 

(... ri.)

— Sabemos que você era uma das pessoas naquele grupo — diz o agente médico sentado. — Não importa quem. Nenhum de vocês conseguiu olhar a bicicleta e perceber a simples operação matemática envolvida na determinação do número de seu pequeno sistema de marchas. — Na voz do agente Fred sentiu uma certa compaixão, uma tentativa de ser gentil. — Uma operação dessas, que constitui um teste de aptidão de primeiranista do secundário. Vocês estavam todos chapados?

— Não — disse Fred.

— Fazem testes de aptidão assim com as crianças — disse o outro agente médico.

— Então, qual era o problema, Fred? — perguntou o primeiro agente.

— Esqueci — disse Fred. Ele se calou agora. E depois disse: — Isso me parece uma merda cognitiva e não per- ceptiva. Não tem pensamento abstrato envolvido numa coisa dessas? Não...

— É o que você pode imaginar — disse o agente sentado.

— Mas os testes mostram que o sistema cognitivo falha, porque não está recebendo dados exatos. Em outras palavras, as informações são distorcidas de tal forma que, quando você raciocina sobre o que vê, raciocina erroneamente, porque não... — O agente gesticulou, tentando encontrar uma forma de se expressar.

— Mas uma bicicleta de dez marchas tem sete marchas

— disse Fred. — O que vimos foi exato. Duas na frente, cinco atrás.

— Mas vocês não perceberam, nenhum de vocês, como as marchas interagem: cinco atrás com cada uma das marchas da frente, como disse o negro. Ele era um homem muito instruído?

— Provavelmente não — disse Fred.

— O que o negro viu — disse o agente de pé — foi diferente do que todos vocês viram. Ele viu duas linhas de conexão separadas entre o sistema de marcha traseira e o frontal, duas linhas diferentes e simultâneas, perceptíveis para ele, entre as marchas da frente, passando para cada uma das traseiras... O que vocês viram foi uma conexão para todas as traseiras.

— Mas isso daria seis marchas, então — disse Fred. — Duas marchas da frente mais uma de conexão.

— Essa é uma percepção imprecisa. Ninguém ensinou isso ao negro, o que lhe ensinaram a fazer, se alguém ensinou mesmo, foi deduzir, cognitivamente, o significado daquelas duas de conexão. Vocês deixaram passar inteiramente uma delas, todos vocês. O que vocês fizeram foi que, embora contassem duas marchas na frente, perceberam as marchas como uma homogeneidade.

— Vou me sair melhor da próxima vez — disse Fred.

— Que próxima vez? Quando comprar uma bicicleta de dez marchas roubada? Ou abstrair todas as informações diárias que percebe?

Fred continuou em silêncio.

— Vamos continuar o teste — disse o agente sentado. — O que vê neste, Fred?

— Merda de cachorro, de plástico — disse Fred. — Como vendem aqui na região de Los Angeles. Posso ir agora? — Era a palestra do Lions Club toda de novo.

Os dois agentes, porém, riram.

— Está vendo, Fred — disse o sentado se você pode manter seu senso de humor como agora, talvez consiga fazer.

— Fazer? — ecoou Fred. — Fazer o quê? A equipe? A garota? Sucesso? As conclusões? Fazer sentido? Dinheiro? Tempo? Defina o que quer dizer. A palavra latina para “fazer” é facere, que sempre me lembra de fuckere, que é “foder” em latim, e eu não...

 

“O cérebro dos animais superiores, inclusive o homem, é um órgão duplo, consistindo em hemisférios direito e esquerdo, conectados por um istmo de tecido nervoso chamado corpo caloso. Cerca de 15 anos atrás, Ronald E. Myers e R. W. Sperry, então na Universidade de Chicago, fizeram uma descoberta surpreendente: quando essa conexão entre as duas metades do cérebro foi cortada, cada hemisfério funcionou de forma independente, como se fosse um cérebro completo.”

 

— ... tenho entendido merda alguma ultimamente, merda de plástico ou qualquer outra, qualquer tipo de merda. Se vocês são psicólogos e andaram ouvindo meus relatórios intermináveis com Hank, como é que se pega a Donna? Como consigo chegar nela? Quer dizer, como se faz? Com esse tipo de garota doce, singular e teimosa?

— Cada garota é diferente — disse o agente sentado.

— Quero dizer, chegar nela eticamente — disse Fred. — E não a encher de vermelhas e álcool e depois meter nela enquanto ela está deitada no chão da sala.

— Compre flores para ela — disse o agente de pé.

— Quê? — disse Fred, arregalando os olhos filtrados pelo traje.

— Nesta época do ano, você pode comprar umas florezinhas de primavera. Na seção de plantas da, digamos, Penney’s ou da K Mart. Ou uma azaléia.

— Flores — murmurou Fred. — Quer dizer flores de plástico ou flores de verdade? As de verdade, eu acho.

— As de plástico não são boas — disse o agente sentado.

— Elas parecem... bem, falsas. Meio falsas.

— Posso sair agora? — perguntou Fred.

Depois de uma troca de olhares, os dois agentes assentiram.

— Vamos avaliar você outra hora, Fred — disse o de pé. — Não é tão urgente. Depois Hank vai notificá-lo de um horário.

Por algum motivo obscuro, Fred teve vontade de trocar um aperto de mãos com eles antes de sair, mas não o fez; ele só saiu, sem dizer nada, meio deprimido e meio desnorteado, devido, provavelmente, à forma como tinha sido dispensado, tão de repente. Eles vão repassar todo o meu material, pensou ele, tentando encontrar sinais de que estou ferrado e eles vão descobrir algum indício. O bastante, de qualquer modo, para querer aplicar esses testes.

Flores de primavera, pensou ele enquanto chegava ao elevador. Pequenininhas; elas provavelmente crescem perto do solo e um monte de gente pisa nelas. Elas são silvestres? Ou são criadas em vasos comerciais especiais ou em enormes fazendas fechadas? Fico imaginando como é o interior. Os campos e essas coisas, os cheiros estranhos. E, perguntou-se ele, onde se encontra isso? Aonde se vai e como fazer para chegar lá e ficar por lá? Que tipo de viagem é essa e que tipo de passagem tem? E de quem se compra a passagem?

E, pensou ele, eu queria levar alguém comigo quando fosse lá, talvez a Donna. Mas como pedir isso a ela, pedir a uma garota assim, quando você nem sabe como chegar nela? Quando você fica tramando sobre ela sem conseguir nada, nem mesmo dar o primeiro passo. A gente devia se apressar, pensou ele, porque depois todas as flores da primavera de que eles falaram estarão mortas.