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Informação. O que mais teme um agente disfarçado da Narcóticos não é levar um tiro nem apanhar, mas cometer o erro de tomar uma grande dose de alguma droga psicodélica que vai rolar um filme interminável de terror em sua cabeça pelo resto da vida, ou que vá levar um pico de uma dose mista, metade heroína e metade Substância D, ou as duas coisas, mais um veneno, como a estricnina, que quase vai matá-lo completamente, de modo que pode ocorrer o seguinte: vício por toda a vida, filme de terror por toda a vida. Ele vai afundar numa existência de agulha-e-colher ou quicar nas paredes de um hospital psiquiátrico, ou, o pior de tudo, numa clínica federal. Ele vai tentar se livrar dos afídios no corpo dia e noite ou jamais entenderá por que não consegue mais encerar um chão. E tudo isso vai acontecer deliberadamente. Alguém deduziu o que ele estava fazendo e depois o pegou. E eles o pegaram desse jeito. Da pior maneira de todas: com o troço que vendem e que ele queria comprar.

O que significava, considerou Bob Arctor enquanto dirigia cautelosamente para casa, que traficantes e agentes da Narcóticos sabiam o que as drogas de rua faziam com as pessoas. E concordavam com isso.

Um mecânico do posto Union, perto de onde eles estacionaram, havia chegado num reboque, foi até o carro e finalmente o consertou, a um custo de trinta dólares. Não parecia haver mais nada de errado, só que o mecânico examinou a suspensão frontal esquerda por algum tempo.

— Tem alguma coisa errada aí? — perguntou Arctor.

— Parece que o senhor vai ter problemas quando fizer uma curva fechada — disse o mecânico. — Ele não dá guinada nenhuma?

O carro não dava guinadas, não que Arctor tenha percebido. Mas o mecânico se recusou a dizer mais; só ficou cutucando a mola espiral, a junta de esfera e o pára-choque cheio de óleo. Arctor pagou ao mecânico e o reboque partiu; depois ele voltou ao próprio carro, junto com Luckman e Barris — os dois agora no banco de trás e partiu para o norte, em direção ao Condado de Orange.

Enquanto dirigia, Arctor ruminou sobre outras convenções irônicas na cabeça de agentes da Narcóticos e traficantes. Vários agentes que ele conhecia bancavam traficantes em seu trabalho sob disfarce e acabavam vendendo haxixe e depois, às vezes, até heroína. Era um bom disfarce, mas aos poucos também levava o agente a aumentar o lucro, bem acima de seu salário oficial, além do que ele ganhava quando ajudava a flagrar e apreender uma partida de bom tamanho. Além disso, os agentes se aprofundavam cada vez mais no uso de suas próprias drogas, em todo o jeito de viver, como rotina; eles se tornavam traficantes viciados e ricos, além de X-9, e depois de um tempo alguns começavam a deixar suas atividades policiais em favor do tráfico, integralmente. Mas acontecia também de alguns traficantes, para ferrar os inimigos ou quando esperavam um flagra iminente, começarem a agir como X-9 e seguirem por aí, acabando como uma espécie de dedos- duros disfarçados não-oficiais. Era tudo muito sombrio. O mundo das drogas era um mundo sombrio para todos. Para Bob Arctor, por exemplo, agora se tornara sombrio: nessa tarde, pela San Diego Freeway, enquanto ele e os dois amigos estavam a segundos de ser mortos, as autoridades, em seu nome, tinham — assim ele esperava — grampeado devidamente sua casa e, se isso foi feito mesmo, então de agora em diante ele estaria seguro contra o tipo de coisa que acontecera hoje. Era uma sorte que pudesse haver uma diferença entre ele terminar envenenado ou levar um tiro, ou acabar viciado ou morto se comparado a pegar o inimigo, pegar quem quer que estivesse atrás dele e quem hoje quase o matou. Depois que os holo-scanners estivessem instalados, refletiu ele, haveria muito pouca sabotagem ou ataques contra ele. Ou, pelo menos, sabotagem e ataques bem-sucedidos.

Essa era a única idéia que o tranqüilizava. O culpado, refletiu ele enquanto dirigia com o maior cuidado possível no trânsito pesado de final de tarde, pode desaparecer quando ninguém está procurando — ele ouviu dizer isso e talvez fosse verdade. O que com toda certeza era verdade, porém, era que o culpado fugia, fugia como o diabo da cruz e tomava muitas precauções repentinas quando alguém o perseguia: alguém real e especializado e, ao mesmo tempo, escondido. E muito perto. Tão perto; pensou ele, quanto o banco traseiro do carro. Que, se estiver com a grotesca pistola .22 de ação simples e fabricação alemã e seu suposto silenciador vagabundo igualmente grotesco e risível, e Luckman tiver ido dormir como sempre, pode abrir um buraco a bala no meu crânio e eu estarei morto como Bobby Kennedy, que morreu de ferimentos a bala de mesmo calibre — um buraquinho pequeno assim.

E não só hoje, mas todo dia. E toda noite.

Só que, quando eu verificar os cilindros de armazenagem dos holo-scanners, vou saber muito em breve o que todos na minha casa estão fazendo, quando fazem e provavelmente até o porquê, inclusive eu. Vou ver a mim mesmo, pensou ele, levantando-me à noite para mijar. Vou ver todos os cômodos 24 horas por dia... Embora com algum atraso. Não vai me adiantar muito se os holo-scanners me pegarem levando uma dose de alguma droga desorientadora roubada pelos Hells Angels de um arsenal militar e colocada no meu café; outra pessoa da academia que tateie pelos cilindros de armazenagem terá de me ver me debatendo, incapaz de ver ou saber onde ou o que eu sou. Será uma visão tardia que eu nunca precisarei ter. Outra pessoa terá de fazer por mim.

Luckman disse:

— O que será que rolou em casa enquanto estivemos fora o dia todo? Sabe como é, essas provas que você conseguiu de alguém te ferrando são bem ruins, Bob. Tomara que ainda estejam lá quando voltarmos para casa.

— É — disse Arctor. — Não acho isso. E não conseguimos um cefscópio. — Ele fez com que a voz parecesse tomada de resignação.

Barris disse, numa voz surpreendentemente animada:

— Eu não lamentaria tanto.

Com raiva, Luckman disse:

— Não lamentaria? Meu Deus, eles podem ter quebrado e roubado tudo o que temos. Tudo o que o Bob tem, quer dizer. E matado ou pisado nos bichos. Ou...

— Eu deixei uma surpresinha — disse Barris — para quem entrasse na casa quando saímos hoje. Aperfeiçoei hoje de manhã cedo... Trabalhei nela até conseguir. Uma surpresa eletrônica.

Bruscamente, escondendo sua preocupação, Arctor disse:

— Que tipo de surpresa eletrônica? Na minha casa, Jim, você não pode começar a armar...

— Calma, calma — disse Barris. — Como nossos amigos alemães diriam, leise. Isso significa fica frio.

— O que é?

— Se a porta da frente for aberta — disse Barris — na nossa ausência, meu gravador cassete vai começar a gravar. Está debaixo do sofá. Tem uma fita de duas horas. Eu coloquei três microfones Sony onidirecionais em três diferentes...

— Devia ter me contado — disse Arctor.

— E se eles entrarem pela janela? — disse Luckman. — Ou pela porta dos fundos?

— Para aumentar a probabilidade de eles entrarem pela porta da frente — continuou Barris —, em vez de por meios pouco comuns, deixei providencialmente a porta da frente destrancada.

Depois de uma pausa, Luckman soltou um riso abafado.

— Imagine que eles não saibam que está destrancada? — disse Arctor.

— Eu coloquei um bilhete — disse Barris.

— Tá de sacanagem comigo!

— É — disse Barris, logo em seguida.

— Está sacaneando a gente ou não? — disse Luckman. — Não posso confiar em você. É sacanagem dele, Bob?

— Vamos ver ao chegar — disse Arctor. — Se houver um bilhete na porta e ela estiver destrancada, vamos saber se ele está de sacanagem.

— Eles provavelmente arrancariam o bilhete — disse Luckman —, depois iriam roubar e barbarizar na casa, e depois trancariam a porta. Então não íamos saber. Nunca vamos saber. Ter certeza. É uma área cinzenta de novo.

— E claro que eu estou brincando! — disse Barris, com vigor. — Só um psicótico faria isso, deixar a porta da frente da casa destrancada e um bilhete na porta.

Virando-se, Arctor disse a ele:

— O que você escreveu no bilhete, Jim?

— Para quem é o bilhete? — Luckman fez coro. — Eu nem imaginava que você sabia escrever.

Com condescendência, Barris disse:

— Eu escrevi: “Donna, entre, a porta está destrancada. Nós...” — Barris se interrompeu. — É para Donna — concluiu ele, mas não com tranqüilidade.

— Ele fez isso — disse Luckman. — Ele fez mesmo. Tudo isso.

— Desse jeito — disse Barris, tranqüilo novamente — vamos saber quem anda aprontando, Bob. E é de suma importância.

— A não ser que eles roubem a fita quando roubarem o sofá e todo o resto — disse Arctor. Ele estava pensando rapidamente se isso era mesmo um problema, esse exemplo a mais do gênio eletrônico atrapalhado de Barris, o gênio de jardim-de-infância. Que droga, concluiu Arctor, eles vão encontrar os microfones nos primeiros dez minutos e localizar o gravador. Vão saber exatamente o que fazer. Vão apagar a fita, rebobiná-la, deixar como estava, deixar a porta destrancada e o bilhete nela. Na verdade, talvez a porta destrancada vá facilitar o trabalho deles. Que merda o Barris!, pensou ele. Planos ótimos de gênio que funcionam maravilhosamente para ferrar o universo. Ele deve ter se esquecido de ligar o gravador na tomada da parede. E claro que, se descobrirem que estava desplugado...

Ele vai raciocinar que isso prova que alguém esteve lá, percebeu ele. Vai entender e tagarelar sobre isso por dias. Alguém entrou, achou o dispositivo e espertamente o desplugou. Então, concluiu Arctor, se eles o encontrarem desplugado, espero que pensem em plugar, e não só isso, que o gravador funcione corretamente. Na verdade, o que eles devem fazer é testar todo o sistema de detecção deles, repassar todo o ciclo, como sempre fazem, ter absoluta certeza de que funciona com perfeição e depois rebobinar e deixar uma tabula rasa, uma tabuleta em que nada está inscrito, mas na qual algo certamente acusaria que alguém

— eles mesmos, por exemplo — entrou na casa. Caso contrário, as suspeitas de Barris não vão acabar nunca.

Enquanto dirigia, Arctor continuou sua análise teórica da situação por meio de um segundo exemplo bem estabelecido. Eles tinham aprendido e exercitado em seus próprios bancos de memória durante o treinamento policial na academia. Ou ele lera nos jornais.

Informação. Uma das formas mais eficazes de sabotagem industrial ou militar se limita a danos que jamais podem ser inteiramente provados — ou provados de alguma forma — e que foram propositais. É como um movimento político invisível, talvez não estivesse ali. Se uma bomba é conectada à ignição de um carro, obviamente houve um inimigo, se um prédio público ou uma sede política é explodida, então há um inimigo político. Mas se ocorre um acidente ou uma série de acidentes, se o equipamento simplesmente deixa de funcionar, se ele parece ter defeito, em especial de forma lenta, por um período de tempo natural, com várias pequenas falhas e defeitos — então a vítima, seja uma pessoa, um partido ou um país, não pode tomar posição para se defender.

Na realidade, especulava Arctor enquanto dirigia bem lentamente pela via expressa, a pessoa começa a achar que está paranóica e que não tem inimigos, ela duvida de si mesma. Seu carro quebrou normalmente, ela teve azar. E isso a aniquila mais do que qualquer coisa que possa ser identificada. Porém, leva mais tempo. A pessoa ou as pessoas que estavam fazendo isso devem fazer um trabalho porco e fazem uso do acaso por um longo intervalo. Enquanto isso, se puder deduzir quem eles são, a vítima tem uma probabilidade maior de pegá-los — certamente maior do que, digamos, se atirarem nele com um rifle com mira telescópica. Essa é a vantagem dele.

Ele sabia que cada nação do mundo treina e manda uma quantidade de agentes para afrouxar parafusos aqui, descascar fios ali, cortar fios e começar pequenos incêndios, perder documentos — pequenos infortúnios. Uma bola de chiclete dentro de uma copiadora Xerox em uma agência do governo pode destruir um documento insubstituível e vital: em vez de sair uma cópia, o original é apagado. Sabonete e papel higiênico demais, como sabiam os Yippies dos anos 60, podem acabar com toda a rede de esgoto de um prédio comercial e obrigar todos os funcionários a se ausentarem por uma semana. Uma bolinha de naftalina no tanque de gasolina de um carro desgasta o motor duas semanas depois, quando ele está em outra cidade, e não deixa no combustível contaminantes que possam ser analisados. Qualquer emissora de rádio e TV pode sair do ar por um bate-estacas que acidentalmente corta um cabo de microondas ou um cabo de força. E assim por diante.

Antigamente, muitos da classe aristocrática sabiam de empregadas, jardineiros e outros de seus serviçais: um vaso quebrado aqui, um objeto de família inestimável que escorrega da mão de um mal-humorado...

“Por que você fez isso, Rastus Brown?”

“Ah, madame, desculpa...” e não havia remédio ou muito pouco. Do rico proprietário de uma casa, de um escritor político impopular com o regime, uma pequena nação nova erguendo o punho para os EUA ou a URRS...

Certa vez, a esposa de um embaixador americano na Guatemala se vangloriou publicamente de que o marido, “munido de uma pistola”, tinha derrubado o governo de esquerda daquele pequeno país. Depois de sua queda súbita, o embaixador, destituído do cargo, foi transferido para uma pequena nação asiática e, enquanto dirigia seu carro esporte, descobriu de repente um lento caminhão de feno saindo de uma estrada vicinal diretamente na frente dele. Um minuto depois, nada restava do embaixador, a não ser pedaços espalhados. Portar uma pistola, levantar toda a CIA a um chamado dele não lhe fizeram bem algum. A esposa não teceu loas sobre isso.

“Hein, fazer o que?”, provavelmente disse o proprietário do caminhão de feno às autoridades locais. “Fazer o que, seu moço? Foi uma pena...”

Ou como a própria ex-mulher, lembrou Arctor. Na época em que ele era investigador de uma seguradora (“Seus vizinhos de corredor bebem muito?”), ela reclamava de ele preencher seus relatórios tarde da noite, em vez de se emocionar só de vê-la. Perto do fim do casamento, ela aprendeu a fazer essas coisas durante o período de trabalho à noite, como queimar a mão enquanto acendia um cigarro, colocar alguma coisa no olho, limpar o escritório dele ou procurar interminavelmente por um pequeno objeto em toda parte ou perto da máquina de escrever dele. No início, ele parava de trabalhar, ressentido, e sucumbia à emoção de vê-la, mas depois ele bateu com a cabeça na cozinha enquanto pegava a pipoqueira e encontrou uma solução melhor.

— Se eles matarem nossos bichos — estava dizendo Luckman —, vou detonar todos eles. Vou pegar todos eles. Vou contratar um profissional de Los Angeles, como um bando dos Panteras.

— Eles não vão fazer isso — disse Barris. — Não se ganha nada machucando animais. Os animais não fizeram nada.

— E eu fiz? — perguntou Arctor.

— Evidentemente é o que eles pensam — disse Barris.

Luckman disse:

Se eu soubesse que era inofensivo, eu mesma teria matado. Lembra?

— Acontece que ela era careta — disse Barris. — A garota nunca ficava ligada e tinha muita grana. Lembra do apartamento dela? Os ricos não sabem o valor da vida. E outra coisa. Lembra de Thelma Kornford, Bob? A baixinha dos peitões? A que não usava sutiã e a gente costumava ficar sentado, olhando os mamilos dela? Ela veio a nossa casa para pedir que a gente matasse aquela libélula para ela, lembra? E quando explicamos...

Ao volante de seu carro lento, Bob Arctor se esqueceu de questões teóricas e fez uma reprise de um momento que impressionara todos eles: a garota careta, bonita e elegante com o suéter de gola rulê, calça boca-de-sino e peitos saltitantes que queria que eles matassem um grande inseto inofensivo que na verdade fazia o bem livrando-a dos mosquitos — e em um ano em que surgira um surto de encefalite no Condado de Orange — e quando eles viram o que era e explicaram, ela disse palavras que, para eles, tornaram-se uma paródia do mal a ser temida e desprezada:

 

SE EU SOUBESSE QUE ERA INOFENSIVO

EU MESMA O TERIA MATADO.

 

Isso tinha resumido para eles (e ainda resumia) o que detestavam nos inimigos caretas, pressupondo-se que tivessem inimigos; de qualquer modo, uma pessoa como a bem-educada-com-todas-as-vantagens-financeiras Thelma Kornford tornou-se repentinamente uma inimiga por ter declarado isso, e a partir daí eles desistiram desse dia, saíram do apartamento dela e voltaram à própria casa desarrumada, para perplexidade dela. O abismo entre o mundo deles e o dela tinha se manifestado, embora eles tivessem refletido muito sobre como trepar com ela, e continuou. O coração dela, refletiu Bob Arctor, era uma cozinha vazia: ladrilhos no piso, canos de água e um escorredor de louça com superfícies claras e escovadas e um copo abandonado na beira da pia, com que ninguém se importava.

Numa época anterior, ele pegou somente um trabalho sob disfarce em que tomou o depoimento de um casal de caretas ricos e de classe alta cuja mobília fora roubada na ausência deles, evidentemente por viciados; naquela época, as pessoas ainda moravam em áreas onde perambulavam bandos de ladrões que roubavam o que podiam, deixando pouca coisa. Bandos profissionais, com walkie-talkies nas mãos de olheiros que observavam a alguns quilômetros na rua, esperando que os otários voltassem. Ele se lembrava do homem e da esposa dizendo: “As pessoas que invadem sua casa e levam sua TV em cores são do mesmo tipo de criminosos que matam animais ou destroem obras de arte inestimáveis.” Não, explicou Bob Arctor, parando de registrar o depoimento, o que os faz acreditar nisso? De acordo com a experiência dele, os viciados raras vezes machucam animais. Ele testemunhava, junkies alimentando e cuidando de animais feridos por longos períodos de tempo, enquanto que os caretas provavelmente teriam “colocado os animais para dormir”, um termo do tipo careta, se houver algum — e também um termo do velho sindicato para assassinato. Uma vez, ele viu dois doidões totalmente chapados na triste tarefa de soltar de uma janela quebrada uma gata empalada nela. Os doidões, mal sendo capazes de ver ou entender qualquer outra coisa, levaram quase uma hora soltando a gata com paciência e habilidade até ela se livrar, sangrando um pouco, todos doidões e a gata, com a gata calma nas mãos deles, um dentro da casa com Arctor, outro do lado de fora, onde estavam o rabo e o traseiro da gata. No final, a gata fora libertada sem nenhum ferimento grave e depois eles a alimentaram. Eles não sabiam de quem era a gata; evidentemente ela estava com fome, sentiu o cheiro de comida pela janela quebrada e, por fim, incapaz de acordá-los, tentou pular para dentro. Eles só perceberam quando a gata guinchou e depois se esqueceram das várias viagens e sonhos por algum tempo por causa da gata.

Quanto às “obras de arte inestimáveis”, ele não tinha certeza, porque não entendia exatamente o que isso significava. Em My Lai, durante a Guerra do Vietnã, 450 obras de arte inestimáveis foram destruídas por ordem da CIA — obras de arte inestimáveis, além de bois, frangos e outros animais não arrolados. Quando ele pensava nisso, sempre ficava meio deprimido e era difícil pensar em pinturas em museus desse jeito.

— Vocês acham — disse ele em voz alta, enquanto dirigia cuidadosamente — que quando morrermos e aparecermos diante de Deus, no Dia do Juízo Final, nossos pecados serão relacionados por ordem cronológica ou por ordem de gravidade, que pode ser em ordem crescente ou decrescente ou por ordem alfabética? Porque não quero que Deus troveje para mim quando eu morrer aos 85 anos: “Então você é aquele garotinho que roubou três garrafas de Coca do caminhão da Coca-Cola que estava parado no estacionamento dos fundos da 7-11 em 1962? Você tem muito o que explicar.”

— Acho que eles usam referências cruzadas — disse Luckman. — E só te passam um impresso de computador que totaliza uma coluna comprida que já foi compilada.

— O pecado — disse Barris, rindo — é um mito judaico- cristão ultrapassado.

Arctor disse:

— Talvez eles tenham todos os seus pecados em um barril grande de picles — ele se virou para olhar para Barris, o anti-semita —, um barril de picles kosher, e eles só o levantam e atiram todo o conteúdo de uma vez na sua cara e você fica parado ali, escorrendo pecados. Seus próprios pecados, talvez mais alguns de outra pessoa, que entraram ali por engano.

— Outra pessoa de mesmo nome — disse Luckman. — Outro Robert Arctor. Quantos Robert Arctors você acha que existem, Barris? — Ele assentiu para Barris. — Será que os computadores da CalTech nos dizem isso? E cruzam os arquivos de todos os Jim Barris também enquanto fazem isso?

Para si mesmo, Bob Arctor pensou: Quantos Bob Arctor existem? Uma idéia estranha e fodida. Pelo menos dois, que ele soubesse, pensou ele. Um chamado Fred, que ficará vigiando o outro, chamado Bob. A mesma pessoa. Será? Será que Fred é realmente Bob? Alguém sabe disso? Eu pelo menos saberia, porque sou a única pessoa no mundo que sabe que Fred é Bob Arctor. Mas, pensou ele, quem sou eu? Qual deles sou eu?

Quando eles chegaram à entrada da garagem, estacionaram e andaram cautelosamente até a porta da frente, encontraram o bilhete de Barris na porta destrancada, mas, quando abriram a porta, com cuidado, tudo parecia estar como quando saíram.

As suspeitas de Barris vieram imediatamente à tona.

— Ah — murmurou ele, entrando. Estendeu habilmente a mão para o alto da estante que ficava perto da porta e alcançou a pistola .22, que pegou enquanto os outros andavam pela sala. Os animais se aproximaram deles como sempre faziam, pedindo para ser alimentados.

— Bom, Barris — disse Luckman —, parece que você tem razão. Definitivamente alguém esteve aqui, porque está vendo... está vendo também, não está, Bob?... o acobertamento escrupuloso de todos os sinais que eles deixaram prova que eles... — Ele peidou então, de repulsa, e entrou na cozinha para pegar uma lata de cerveja na geladeira. — Barris — disse ele você está fodido.

Ainda andando atentamente com a arma, Barris o ignorou enquanto procurava descobrir vestígios reveladores. Arctor, observando, pensou: “Talvez ele encontre. Eles podem ter deixado alguma pista.” E pensou: “E estranho como de vez em quando a paranóia pode ter relação com a realidade, por pouco tempo. Sob muitas condições especiais, como a de hoje. Em seguida, Barris vai raciocinar que eu armei tudo na casa, de propósito, para permitir que invasores secretos fizessem o que quisessem aqui. E mais tarde ele vai deduzir por quê, quem e todo o resto e, na realidade, talvez ele já tenha deduzido. Já há algum tempo, na verdade: tempo suficiente para iniciar sabotagem e atos destrutivos no cefscópio, no carro e Deus sabe onde mais. Talvez, quando eu acender a luz da garagem, a casa vá explodir. Mas o caso é que a turma do grampo chegou e instalou todos os monitores e os lugares onde os cilindros de armazenagem podem receber manutenção. E qualquer informação adicional que o chefe da equipe de grampo, além de outros especialistas envolvidos nessa operação, quiser jogar pra cima dele. Em sua armação contra Bob Arctor, o suspeito.”

— Olha isto aqui! — disse Barris. Ele se curvou sobre um cinzeiro na mesa de centro. — Vem cá! — gritou ele animado para os dois e estes se aproximaram.

Estendendo a mão, Arctor sentiu um calor subindo do cinzeiro.

— Uma ponta de cigarro ainda está acesa — disse Luckman, admirando-se. — Sem dúvida nenhuma.

Meu Deus, pensou Arctor. Eles ferraram tudo. Um dos homens fumou e depois, por reflexo, colocou a ponta aqui. Depois eles devem ter ido embora. O cinzeiro, como sempre, estava abarrotado; o homem provavelmente supôs que ninguém fosse perceber outra guimba e em mais alguns minutos ela teria apagado.

— Espere um segundo — disse Luckman, examinando o cinzeiro. Ele pegou, em meio às pontas de cigarro, um baseado. — E isto que está quente, este baseado. Eles acenderam um bagulho enquanto estavam aqui. Mas o que diabos eles fizeram? — Ele franziu o cenho e olhou em volta, com raiva e atarantado. — Bob, que porra! Barris tinha razão. Alguém veio aqui! Este baseado ainda está quente e dá para sentir o cheiro dele, se você segurar... — Ele o segurou debaixo do nariz de Arctor. — É, ainda está queimando por dentro. Deve ser uma semente. Não prepararam muito bem antes de apertar.

— Esse baseado — disse Barris, igualmente inflexível — pode não ter sido largado aí por acaso. Essa prova pode não ser acidental.

— E agora? — disse Arctor, perguntando-se que tipo de turma policial de grampo teria um membro que fumava um baseado diante dos outros enquanto todos trabalhavam.

— Talvez estivessem especificamente plantando drogas nesta casa — disse Barris. — Montando tudo, depois fazendo uma denúncia telefônica... Talvez haja drogas escondidas como esta no telefone, por exemplo, e nas tomadas das paredes. Vamos ter de vasculhar a casa toda e limpar absolutamente tudo antes que dedurem. E provavelmente só temos algumas horas.

— Você vê as tomadas — disse Luckman. — Eu desmonto o telefone.

— Espera — disse Barris, erguendo a mão. — Se eles nos virem revirando tudo pouco antes da batida...

— Que batida? — disse Arctor.

— Se ficarmos correndo freneticamente atrás de drogas

- disse Barris —, depois não vamos poder alegar, embora seja verdade, que não sabíamos que as drogas estavam aqui. Eles vão nos pegar por posse. E talvez isso também seja parte do plano deles.

— Ah, que merda! — disse Luckman com nojo. Ele se atirou no sofá. — Merda, merda, merda! Não podemos fazer nada. Eles devem ter escondido drogas em mil lugares e nunca vamos achar. Estamos ferrados. — Ele olhou para Arctor numa furia atordoada. — Estamos ferrados!

Arctor disse a Barris:

— E a parada do seu cassete eletrônico ligada à porta da frente? — Ele tinha se esquecido disso. E Barris também, evidentemente. Luckman também.

— Sim, isso deve informar sobre toda a questão — disse Barris. Ele se ajoelhou perto do sofá, estendeu a mão por baixo, resmungou, depois apareceu com um pequeno gravador cassete de plástico. — Isso deve nos contar muita coisa — começou ele e depois sua cara caiu. — Bom, é provável que no fim não prove nada de importante. — Ele puxou o plugue do fio de trás e baixou o gravador na mesa de centro. — Sabemos do principal... Que eles entraram durante nossa ausência. Essa foi sua principal tarefa.

Silêncio.

— Aposto que posso adivinhar — disse Arctor.

Barris disse:

— A primeira coisa que eles fizeram quando entraram foi colocar na posição off. Eu o deixei em on, mas olha... agora está em off. Então, embora eu...

— Não gravou? — disse Luckman, decepcionado.

— Eles agiram com muita habilidade — disse Barris. — Antes que uns três centímetros de fita passassem pelo cabeçote de gravação. Este, aliás, é um aparelhinho dos bons, um Sony. Tem cabeçotes separados para tocar, apagar e gravar, e tem sistema Dolby de redução de ruídos. Consegui baratinho. Em uma reunião de escambo. E nunca me deu problema.

Arctor disse:

— Hora da inspiração.

— Sem dúvida nenhuma — concordou Barris enquanto se sentava em uma cadeira e se recostava, retirando os óculos de sol. — A esta altura não temos outro recurso, em vista dessas táticas evasivas. Bob, tem uma coisa que você pode fazer, embora vá levar tempo.

— Vender a casa e me mudar — disse Arctor.

Barris assentiu.

— Mas que droga! — protestou Luckman. — Esta é a nossa casa.

— Quanto vale uma casa como esta nesta região? — perguntou Barris, as mãos na nuca. — No mercado? Imagino também que as taxas de juros tenham aumentado. Talvez você possa ter um lucro considerável, Bob. Por outro lado, pode ter prejuízo vendendo às pressas. Mas, Bob, se toque! Você está lutando contra profissionais.

— Alguém conhece um bom corretor? — perguntou Luckman aos dois.

Arctor disse:

— Que motivo daríamos para vender? Eles sempre perguntam.

— E, não podemos contar a verdade ao corretor — concordou Luckman. — A gente podia dizer... — Ele ponderou enquanto bebia soturnamente a cerveja. — Não consigo pensar num motivo. Barris, que motivo, que desculpa podemos dar?

Arctor disse:

— Vamos dizer simplesmente na cara que a Narcóticos plantou drogas na casa toda e, como não sabemos onde está, decidimos nos mudar e deixar que o novo proprietário seja preso no lugar da gente.

— Não — discordou Barris —, não acho que possamos abrir tanto o jogo assim. Sugiro que você diga, Bob, que você diga que foi transferido no emprego.

— Para onde? — disse Luckman.

— Cleveland — disse Barris.

— Acho que devemos contar a verdade — disse Arctor. — Podemos colocar um anúncio no L. A. Times: “Casa moderna de três quartos com dois banheiros para descarga fácil e rápida, drogas de alta qualidade escondidas em todos os cômodos. Drogas incluídas no preço de venda.”

— Mas vão perguntar que tipo de droga — disse Luckman.

— E não sabemos; pode ser qualquer coisa.

— E o volume — murmurou Barris. — Os candidatos a compradores podem perguntar qual a quantidade.

— Tipo assim — disse Luckman —, podem ser trinta gramas de bagulho, só uma merda dessas, ou podem ser quilos de heroína.

— O que eu sugiro — disse Barris — é telefonar para o setor de abuso de drogas do condado, informar a situação a eles e pedir para virem aqui retirar a droga. Dar uma busca na casa, encontrar, dispor dela. Porque, para ser realista, não há tempo para vender a casa. Eu pesquisei a situação legal uma vez para esse tipo de situação e muitos livros de direito concordam...

— Está maluco — disse Luckman, encarando-o como se ele fosse um dos afídios de Jerry. — Telefonar para o abuso de drogas? Vai ter agentes da Narcóticos aqui em menos tempo do que...

— É a melhor possibilidade — continuou Barris tranqüilamente — e podemos fazer todos os testes com detectores de mentiras para provar que não sabíamos onde ela estava, o que era ou até se estava aqui. Foi sem o nosso conhecimento e a nossa permissão. Se contar isso a eles, Bob, eles vão te absolver. — Depois de uma pausa, ele admitiu: — Um dia. Quando toda a verdade for revelada no tribunal.

— Mas, por outro lado — disse Luckman —, vamos perder nossos próprios esconderijos. Nós sabemos onde eles ficam e essas coisas. Isso significa que vamos limpar nossos esconderijos? E imagine que a gente se esqueça de alguns. Até de um? Meu Deus, isso é pavoroso!

— Não tem saída — disse Arctor. — Parece que eles nos pegaram.

De um dos quartos, apareceu Donna Hawthorne, usando uma calça estranha na altura dos joelhos, o cabelo desarrumado, a cara inchada de sono.

— Eu entrei — disse ela —, como dizia o bilhete. E fiquei sentada por um tempo e depois apaguei. O bilhete não dizia quando vocês iam voltar. Por que estavam gritando? Meu Deus, vocês estão agitados. Me acordaram.

— Você fumou um baseado agora há pouco? — perguntou Arctor a ela. — Antes de apagar?

— Claro — disse ela. — Se não, eu não ia conseguir dormir.

— E o baseado de Donna — disse Luckman. — Dê a ela.

Meu Deus, pensou Bob Arctor. Eu entrei nessa viagem tanto quanto eles. Todos entramos fundo nela. Ele se sacudiu, tremeu e pestanejou. Sabendo o que eu sei, ainda entrei nessa viagem paranóica de doidão com eles, vi o que eles viram — tudo atrapalhado, pensou ele. As trevas de novo, as mesmas trevas que cobrem os dois me cobrem também, as trevas desse lúgubre mundo de sonho em que flutuamos.

— Você nos tirou de uma — disse ele a Donna.

— Tirei do quê? — disse Donna, confusa e sonolenta.

Não que eu soubesse, pensou ele, ou saiba o que deve ter acontecido aqui hoje, mas essa garota — ela pôs a minha cabeça no lugar, puxou os três de volta. Uma garotinha de cabelo preto usando uma roupa esquisita que eu vigio, estou enganando e com quem espero trepar... outro mundo de realidade engana-e-fode, pensou ele, com essa garota bonita no meio: um ponto racional que nos separa de repente. Caso contrário, onde nossas cabeças iam parar? Nós, os três, ficamos totalmente sem noção.

Mas não pela primeira vez, pensou ele. Nem mesmo hoje.

— Não devia deixar sua casa destrancada desse jeito — disse Donna. — Você podia ser roubado e seria culpa sua. Até as grandes seguradoras capitalistas dizem que não pagam se você deixar uma porta ou janela destrancada. Foi esse o principal motivo para eu ter entrado quando vi o bilhete. Alguém devia estar aqui, se está destrancada desse jeito.

— Há quanto tempo está aqui? — perguntou Arctor a ela. Talvez ela tenha abortado o grampo, talvez não. Provavelmente não.

Donna consultou o relógio elétrico Timex de vinte dólares no pulso, que ele lhe dera.

— Tem uns 38 minutos. — Sua face se iluminou. — Bob, eu trouxe o livro dos lobos... quer ver agora? Tem muita coisa barrão, se dá pra entender.

— A vida — disse Barris, como que para si mesmo — é barrão e ponto, há somente uma viagem, totalmente barrão. Barrão, que leva ao túmulo. Para todos e para tudo.

— Ouvi você dizer que vai vender a casa? — perguntou Donna a ele. — Ou eu... sabe como é, estava sonhando? Não dá para saber, o que ouvi parecia distante e estranho.

— Todos estamos sonhando — disse Arctor. Se o último a saber que é um viciado é o viciado, então talvez o último a saber que um homem é sincero no que diz é o próprio homem, refletiu ele. Ele se perguntou quanto lixo entreouvido por Donna fora dito a sério. Ele se perguntou quanto da insanidade do dia — da insanidade dele — tinha sido real ou só induzida pela situação, como uma espécie de loucura de contato. Donna era sempre um lixo da realidade para ele; para ela, essa era a pergunta básica, natural. Ele queria poder responder.