5

Era necessário que Bob Arctor estivesse fora de casa por algum tempo para que ela fosse adequadamente (o que significa infalivelmente) grampeada, inclusive o telefone, embora as ligações telefônicas fossem gravadas de outro lugar. Em geral, o procedimento consistia em observar a casa envolvida até que vissem todos saírem, de forma a sugerir que não iam voltar logo. As autoridades às vezes tinham de esperar dias ou até várias semanas. Por fim, se nada mais funcionasse, arranjava-se um pretexto: os moradores eram informados de que um fumigador ou uma dessas personalidades sem importância ia aparecer por toda uma tarde e todos teriam de sair até, digamos, às 18 horas.

Mas, nesse caso, o suspeito Robert Arctor saiu obsequiosamente de casa, levando os dois amigos, para ver um cefalocromoscópio que poderiam usar até que Barris estivesse trabalhando novamente. Os três foram vistos saindo no carro de Arctor parecendo sérios e decididos. Mais tarde, em um local conveniente, que era um telefone público de um posto de gasolina, usando a grade de áudio de seu traje misturador, Fred ligaria para relatar que não haveria absolutamente ninguém em casa pelo resto do dia. Ele ouvira os três homens decidindo atravessar todo o caminho até San Diego em busca de um cefscópio barato e roubado que um cara tinha para vender por cinqüenta pratas. Uma bagatela. Esse preço valia a longa viagem de carro e todo o tempo consumido.

Além de tudo, com isso as autoridades tiveram a oportunidade de fazer alguma busca ilegal, além do que seu pessoal disfarçado fazia quando ninguém estava vendo. Eles

abriram gavetas do escritório para ver o que estava colado no fundo. Tiraram lâmpadas de luminárias para ver se surgiam centenas de tabletes. Olharam dentro de privadas para ver que tipo de pacotinhos em papel higiênico abrigavam-se fora de vista, onde a água corrente automaticamente os descarregaria. Olharam o congelador para ver se alguns pacotes de ervilhas e feijões congelados continham droga congelada, marcados dissimuladamente. Enquanto isso, os complicados holo-scanners eram montados, com os policiais sentados em vários lugares para testar os scanners. O mesmo fizeram com os dispositivos de áudio. Mas a parte do vídeo era mais importante e levou mais tempo. E é claro que os scanners não deveriam ficar visíveis. Era preciso habilidade para montá-los. Vários locais tinham de ser testados. Os técnicos que faziam isso eram bem pagos, porque, se errassem e mais tarde um holo-scanner fosse detectado por um ocupante da casa, todos os ocupantes saberiam que foram invadidos e estavam sob vigilância e moderariam suas atividades. E além disso eles às vezes arrancavam todo o sistema de varredura e o vendiam.

Fora difícil nos tribunais, refletia Bob Arctor enquanto ia para o sul pela San Diego Freeway, conseguir condenações por roubo e venda de dispositivos de detecção eletrônica instalados ilegalmente na casa de uma pessoa. A polícia só podia fazer o flagrante em outro lugar, por outra violação dos estatutos. Porém, os traficantes, em uma situação análoga, reagiam diretamente. Ele se lembrava de um caso em que um traficante de heroína, para ferrar uma garota, plantara dois pacotes de heroína no punho do ferro de passar, depois telefonou para o WE TIP, o serviço de denúncias anônimas, com uma dica sobre ela. Antes que a denúncia pudesse ser comprovada, a garota encontrou a heroína, mas, em vez de se livrar da droga, ela a vendeu. A polícia chegou, não encontrou nada, fez uma impressão vocal da denúncia telefônica e prendeu o traficante por dar informações falsas às autoridades. Fora da cadeia, o traficante visitou a garota de madrugada e quase a matou por espancamento. Quando preso e indagado por que tinha arrancado um dos olhos e quebrado os dois braços e várias costelas da garota, ele explicou que ela havia encontrado dois pacotes de heroína que pertenciam a ele, vendera-os por um bom lucro e não dividira a grana com ele. Essa, refletiu Arctor, era a mentalidade de um traficante.

Ele largou Luckman e Barris para fingir que ia roubar o cefscópio; isso não só prenderia os dois homens e evitaria que voltassem para casa enquanto continuava a instalação dos grampos como permitiria que Bob verificasse uma pessoa que não via por mais de um mês. Ele raras vezes agia desse jeito, e a garota parecia não estar fazendo nada além de injetar metanfetamina duas ou três vezes ao dia e se vender para pagar pela droga. Ela morava com o traficante, que portanto era também o cara dela. Em geral, Dan Mancher passava o dia fora, o que era bom. O traficante era também viciado, mas Arctor não conseguira saber em quê. Evidentemente numa variedade de drogas. De qualquer forma, o que quer que fosse, Dan tinha ficado estranho e perverso, imprevisível e violento. Era surpreendente que a polícia não o tivesse apanhado havia muito tempo por perturbação da paz. Talvez estivessem recebendo algum por fora. Ou, o que era mais provável, eles simplesmente não se importavam; essas pessoas viviam em uma área de cortiços, entre cidadãos idosos e outros pobres. A polícia só entrava quando ocorriam crimes graves no conjunto de prédios, estacionamentos, ruas de cascalho da Cromwell Village e de lixeiras semelhantes.

Parecia não haver nada que contribuísse mais para a imundície do que um monte de estruturas em blocos de basalto projetadas para tirar as pessoas da imundície. Ele estacionou, encontrou a escada certa fedida a urina, subiu no escuro, encontrou a porta do Prédio 4 marcada com um G. Uma lata cheia de soda cáustica Drãno estava diante da porta e ele a pegou automaticamente, imaginando que muitas crianças brincavam aqui e se lembrando, por um momento, das próprias filhas e da atitude protetora que assumira por elas durante anos. Agora estava tendo uma atitude dessas, pegando a lata. Ele bateu na porta com ela.

Rapidamente a fechadura da porta estalou e a porta se abriu, com a corrente passada por dentro; a garota, Kimberly Hawkins, espiou.

— Sim?

— Oi, e aí? — disse ele. — Sou eu, Bob.

— O que você tem aí?

— Uma lata de Drãno — disse ele.

— Tá brincando. — Ela destravou a porta de forma apática; a voz dela também era apática. Kimberly estava mal, ele podia ver: bem mal. Além disso, a garota estava com um olho roxo e o lábio cortado. E enquanto olhavam em volta, ele viu que as janelas do apartamento pequeno e bagunçado estavam quebradas. Havia cacos de vidro no chão, junto com cinzeiros virados e garrafas de Coca-Cola.

— Está sozinha? — perguntou ele.

— Tô. Dan e eu brigamos e ele saiu. — A garota, meio chicana, baixa e não muito bonita, com a pele insípida de uma viciada em bolinha, olhou para baixo cegamente e ele percebeu que a voz dela raspava quando ela falava. Algumas drogas faziam isso. E também garganta inflamada. O apartamento não devia ter aquecimento, não com as janelas quebradas.

— Ele bateu em você. — Arctor pôs a lata de Drãno numa prateleira alta, em cima de alguns romances pornôs em brochura, a maioria antiga.

— Bom, ele não estava com a faca, graças a Deus. A faca Case, que ele agora usa numa bainha no cinto. — Kimberly se sentou em uma poltrona que cuspia enchimento. — O que você quer, Bob? Eu estou na pior, de verdade.

— Quer que ele volte?

— Bom... — Ela tremeu um pouco. — Quem sabe?

Arctor foi até a janela e olhou para fora. Dan Mancher

sem dúvida apareceria cedo ou tarde: a garota era uma fonte de dinheiro e Dan sabia que ela ia precisar de doses regulares depois de que o suprimento acabasse.

— Quanto tempo você agüenta? — perguntou ele.

— Mais um dia.

— Pode conseguir em outro lugar?

— Posso, mas não tão barato.

— Qual é o problema com a sua garganta?

— Uma gripe — disse ela. — Do vento que entra aqui.

— Você devia...

— Se eu for a um médico — disse ela —, ele vai ver que estou cheia de bolinha. Não posso ir.

— Um médico não ia ligar.

— É claro que ia. — Ela o ouviu, o som do escapamento do carro, irregular e alto. — É o carro do Dan? O Ford Torino vermelho 79?

Na janela, Arctor olhou o estacionamento imundo, viu um Torino vermelho e batido parando, os canos de descarga duplos exalando fumaça escura, a porta do motorista se abrindo.

-É.

Kimberly trancou a porta: duas trancas extras.

— Ele deve estar com a faca.

— Você tem telefone?

— Não — disse ela.

— Devia ter um telefone.

A garota deu de ombros.

— Ele vai te matar — disse Arctor.

— Agora não. Você está aqui.

— Mas depois, quando eu for embora.

Kimberly voltou a se sentar e deu de ombros de novo.

Depois de alguns segundos, eles ouviram passos do lado de fora e uma batida na porta. E então Dan gritou para ela abrir a porta. Ela gritou que não e que estava com alguém ali.

— Tudo bem — gritou Dan, numa voz aguda —, vou cortar seus pneus. — Ele desceu correndo e Arctor e a garota viram pela janela quebrada juntos enquanto Dan Mancher, um cara magrelo, de cabelo curto e que parecia homossexual, acenar com uma faca, aproximar-se do carro dela, ainda gritando para ela, as palavras audíveis a todos no conjunto habitacional.

— Vou cortar seus pneus, a porra dos seus pneus! E depois vou te matar! — Ele se curvou e cortou primeiro um pneu e depois outro do Dodge velho da garota.

Kimberly de repente despertou, disparou para a porta do apartamento e começou freneticamente a abrir as várias trancas.

— Preciso parar o Dan! Ele está cortando todos os meus pneus! Eu não tenho seguro!

Arctor a deteve.

— Meu carro está aqui. — Ele não estava armado, é claro, e Dan tinha a faca Case e estava descontrolado. — Pneus não são...

— Meus pneus! — Guinchando, a garota lutava para abrir a porta.

— E o que ele quer que você faça — disse Arctor.

— Lá embaixo. — Ofegou Kimberly. — Podemos telefonar para a polícia... eles têm telefone. Me deixa sair! — Ela o afastou com uma força tremenda e conseguiu abrir a porta.

— Vou ligar para a polícia. Meus pneus! Um deles é novo!

— Eu vou com você. — Ele a agarrou pelo ombro; ela tropeçou na frente dele na escada e ele mal conseguiu acompanhá-la. Ela já havia alcançado o apartamento seguinte e estava batendo na porta.

— Abra, por favor! — gritou ela. — Por favor, quero chamar a polícia! Por favor, me deixe ligar para a polícia!

Arctor se colocou atrás dela e bateu.

— Precisamos usar seu telefone — disse ele. — E uma emergência.

Um idoso, vestindo suéter cinza, calças formais com vinco e gravata, abriu a porta.

— Obrigado — disse Arctor.

Kimberly entrou, correu ao telefone e discou para a telefonista. Arctor ficou parado de frente para a porta, esperando que Dan aparecesse. Não havia qualquer som agora, a não ser de Kimberly balbuciando com a telefonista: um relato deturpado, algo sobre uma briga a respeito de um par de botas que valia sete dólares.

— Ele disse que eram dele porque eu comprei para ele no Natal — ela tagarelava —, mas eram minhas porque eu paguei por elas e depois ele começou a pegá-las e eu arranhei as costas delas com um abridor de latas, então ele... — ela se interrompeu; depois, assentindo: — Tudo bem, obrigada. Sim, vou esperar.

O idoso olhou para Arctor, que olhou para ele. No cômodo ao lado, uma senhora idosa de vestido estampado observava em silêncio, o rosto enrijecido de medo.

— Deve ser ruim para vocês — disse Arctor aos dois idosos.

— Acontece o tempo todo — disse o velho. — Nós ouvimos esses dois a noite toda, noite após noite, brigando, e ele dizendo o tempo todo que vai matá-la.

— Devíamos ter voltado para Denver — disse a idosa. — Eu lhe disse isso, devíamos ter voltado para lá.

— Essas brigas horríveis — disse o idoso. — E coisas quebrando e o barulho. — Ele olhou para Arctor, magoado, talvez apelando por ajuda, ou talvez compreendendo. — Sem parar, o tempo todo, e depois, o que é pior, sabe que toda vez...

— Sim, conte a ele — instou a idosa.

— O que é pior — disse o idoso com dignidade — é que toda vez que saímos, sempre que vamos fazer compras ou vamos ao correio, pisamos em... sabe no quê, o que os cachorros fazem.

— Os cachorros fazem — disse a idosa, indignada.

O carro da polícia chegou. Arctor depôs como testemunha, sem se identificar como agente da lei. O policial pegou o depoimento dele e tentou pegar o de Kimberly, como parte queixosa, mas o que ela dizia não fazia sentido; ela tagarelava repetidamente sobre as botas e por que as pegara, o quanto significavam para ela. O policial, sentado com a prancheta e o papel, olhou uma vez para Arctor e considerou-o com uma expressão fria que Arctor não conseguiu interpretar, mas de que não gostou nem um pouco. O policial por fim aconselhou Kimberly a instalar um telefone e ligar se o suspeito voltasse e causasse mais algum problema.

— Anotou os pneus cortados? — disse Arctor enquanto o policial ia embora. — Examinou o veículo no estacionamento e anotou pessoalmente o número de pneus cortados, os invólucros rasgados com um instrumento cortante, feito recentemente... ainda está escapando ar?

O policial olhou de novo para ele com a mesma expressão e saiu sem fazer comentário.

— É melhor você não ficar aqui — disse Arctor a Kimberly. — Ele devia ter te aconselhado a dar o fora. Devia ter perguntado se havia outro lugar para você ficar.

Kimberly se sentou no sofá puído da sala imunda, os olhos apáticos novamente, agora que acabara o esforço inútil de tentar explicar sua situação ao investigador. Ela deu de ombros.

— Eu te levo a algum lugar — disse Arctor. — Sabe de algum amigo onde possa...

— Dá o fora daqui, porra! — disse Kimberly abruptamente, com rancor, num tom de voz parecido com o de Dan Mancher, só que mais áspero. — Dá o fora daqui, Bob

Arctor... Cai fora, cai fora, que merda! Vai cair fora? — A voz dela se elevou e depois se interrompeu de desespero.

Ele saiu e desceu lentamente a escada, degrau por degrau. Quando chegou à base, algo bateu e rolou atrás dele: era a lata de Drãno. Ele a ouviu fechar a porta, uma tranca após a outra. Trancas inúteis, pensou ele. Tudo inútil. Como pode ficar assim, sem sair do apartamento? E Dan Mancher ia esfaqueá-la como fez com os pneus. E — lembrando-se da queixa dos velhos do andar de baixo — ela provavelmente vai dar o primeiro passo e depois cair morta na merda de cachorro. Ele se sentia como se risse histericamente das prioridades dos velhos; não só tinham um doidão ferrado no andar de cima noite após noite espancando e ameaçando matar, e talvez logo matasse, uma jovem viciada que se prostituía e que sem dúvida tinha inflamado a garganta, se não muito mais além disso, mas além disso...

Enquanto levava Luckman e Barris de carro para o norte, ele riu em voz alta.

— Merda de cachorro — disse ele. — Merda de cachorro.

- Humor sobre merda de cachorro, pensou ele, veja se dá para entender isso! Merda de cachorro engraçada.

— É melhor trocar de pista e passar aquele caminhão da Safeway — disse Luckman. — O grandalhão mal está andando.

Ele passou para outra pista, à esquerda, e ganhou velocidade. Mas então, quando tirou o pé do acelerador, o pedal desabou no carpete do piso, ao mesmo tempo o motor roncou furiosamente e o carro disparou para a frente numa velocidade louca e enorme.

— Reduz! — gritaram Luckman e Barris juntos.

Agora o carro tinha chegado a quase 160 por hora; à

frente, avultou-se uma van VW. O pedal do acelerador estava morto: não voltava e não fazia nada. Luckman, que estava sentado ao lado dele, e Barris, atrás, atiraram os braços para cima, por instinto. Arctor girou o volante e passou pela van VW, à esquerda, onde havia um espaço limitado antes de um Corvette preenchê-lo. O Corvette buzinou e eles ouviram o freio guinchar. Agora Luckman e Barris estavam gritando; Luckman de repente estendeu a mão e desligou a ignição; enquanto isso, Arctor passava a marcha para ponto morto. O carro reduziu e ele freou, passou para a pista à direita e depois, com o motor finalmente morto e a transmissão interrompida, seguiu até um recuo de emergência e foi reduzindo até parar.

O Corvette, já bem distante na rua, ainda buzinava sua indignação. E agora o caminhão gigantesco da Safeway passou por eles e por um momento ensurdecedor soou sua própria buzina de alerta.

— Que diabos aconteceu? — disse Barris.

Arctor, com as mãos, a voz e todo o resto tremendo, disse:

— O recuo de mola no cabo do acelerador. Deve ter travado ou quebrou. — Ele apontou para baixo. Todos olharam para o pedal, que ainda estava encostado no piso. O motor tinha girado até a rotação máxima, o que para esse carro era considerável. Não atingira sua mais alta velocidade na estrada, provavelmente bem mais de 160. E, percebeu ele, embora ele tivesse pisado nos freios por reflexo, o carro só reduziu.

Silenciosamente, os três saíram para a pista de emergência e ergueram o capô. Uma fumaça branca saía da tampa do óleo e também de baixo. E a água quase fervente chiava do bico transbordante do radiador.

Luckman estendeu a mão para o motor e apontou.

— Não foi a mola — disse ele. — É a união do pedal com o carburador. Está vendo? Está partida. — A haste comprida estendia-se despropositadamente no bloco, pendurada impotente e inútil com o parafuso ainda no lugar. — Então o pedal do acelerador não voltou quando você tirou o pé.

Mas... — Ele examinou o carburador por um momento, com o rosto franzido.

— Tem um grampo de segurança no carburador — disse Barris, sorrindo e mostrando os dentes que pareciam sintéticos. — Este sistema, quando as peças de transmissão...

— Por que se partiu? — interrompeu Arctor. — Este parafuso não devia prender a porca? — Ele passou o dedo no parafuso. — Como isso foi quebrar desse jeito?

Como se não estivesse ouvindo, Barris continuou:

— Se por qualquer motivo a união cede, o motor deve morrer. Como fator de segurança. Mas, em vez disso, ele girou completamente. — Ele se curvou para dar uma olhada melhor no carburador. — Este parafuso foi totalmente solto — disse ele. — O parafuso da transmissão. Então, quando a haste se soltou, a marcha foi para outro lado, para cima, em vez de ir para baixo.

— Como isso pôde acontecer? — disse Luckman em voz alta. — O parafuso pode se soltar sozinho desse jeito, por acidente?

Sem responder, Barris pegou o canivete, abriu a pequena lâmina e começou lentamente a apertar o parafuso de ajuste da transmissão. Ele contou em voz alta. Vinte voltas do parafuso para colocá-la no lugar.

— Para afrouxar o parafuso e a porca que seguram as hastes de transmissão do acelerador — disse ele — seria necessária uma ferramenta especial. Na verdade, duas. Acho que vou levar uma meia hora para colocar isso no lugar. Eu tenho as ferramentas na minha caixa.

— Sua caixa de ferramentas ficou em casa — disse Luckman.

— Sim. — Barris assentiu. — Então vamos ter de ir até um posto de gasolina e pegar a deles emprestada ou trazer o reboque deles aqui. Sugiro que eles venham aqui para olhar antes de dirigir este carro de novo.

— Ei, cara — disse Luckman em voz alta —, isso aconteceu por acidente ou foi feito de propósito? Como o cefscópio?

Barris ponderou, ainda dando seu sorriso ardiloso e triste.

— Não posso dizer com certeza. Normalmente, a sabotagem em um carro, o dano maldoso para causar um acidente... — Ele olhou para Arctor, os olhos invisíveis por trás dos óculos de sol verdes. — Nós quase batemos. Se aquele Corvette estivesse vindo mais rápido... quase não teve espaço. Você devia ter desligado a ignição assim que percebeu o que estava acontecendo.

— Eu coloquei o carro em ponto morto — disse Arctor.

— Quando percebi. Por um segundo não consegui pensar em nada. — Ele pensou: se tivesse sido o freio, se o pedal de freio tivesse caído, eu teria entendido tudo antes, saberia melhor o que fazer. Isso era tão... estranho.

— Alguém fez isso de propósito — disse Luckman em voz alta. Ele andou em círculos, furioso, investindo com os dois punhos no ar. — MAS QUE PORRA! Nós quase morremos! Eles quase foderam a gente!

Barris, parado, visível ao lado da via expressa com todo o tráfego pesado zumbindo por eles, pegou uma caixinha de chifre com tabletes de morte e tomou vários. Ele passou a caixinha para Luckman, que tomou alguns, depois a passou para Arctor.

— Talvez seja isso que esteja fodendo com a gente — disse Arctor, recusando, irritado. — Acabando com nosso cérebro.

— A droga não pode desparafusar uma transmissão de acelerador e o ajuste de carburador — disse Barris, ainda estendendo a caixinha para Arctor. — É melhor tomar pelo menos três... são de primeira, mas suaves. Batizadas com um pouco de metanfetamina.

— Sai pra lá com essa porcaria de caixinha — disse Arctor. Ele sentia, em seu cérebro, uma cantoria de vozes altas: uma música horrível, como se a realidade em torno dele tivesse ficado azeda. Agora tudo — os carros em alta velocidade, os dois homens, seu próprio carro com o capô erguido, o cheiro de fumaça, a luz quente e forte do meio-dia —, tudo tinha certa rancidez, como se o mundo dele tivesse apodrecido, em vez de qualquer outra coisa. Mas nem por isso ficou tudo perigoso ou assustador, mais como se apodrecesse, a visão, o som e o odor fedorentos. Deixou-o enjoado e ele fechou os olhos e teve arrepios.

— Está sentindo cheiro de quê? — perguntou Luckman. — Um cheiro estranho, cara? Alguns motores têm esse cheiro...

— Merda de cachorro — disse Arctor. Ele podia sentir o fedor, de dentro da área do motor. Curvando-se, ele fungou, sentindo distintamente seu cheiro, e mais forte. Estranho, pensou ele. Mas que porra de coisa esquisita. — Estão sentindo cheiro de merda de cachorro? — perguntou ele a Barris e Luckman.

— Não — disse Luckman, olhando para ele. Para Barris, ele disse: — Tem algum psicodélico nessa droga?

Barris, sorrindo, sacudiu a cabeça.

Enquanto estava curvado sobre o motor quente, sentindo cheiro de merda de cachorro, Arctor no fundo sabia que era uma ilusão, não havia cheiro de merda de cachorro. Mas ele ainda sentia. E agora ele via, espalhadas pelo bloco do motor, especialmente embaixo das tampas, manchas marrons escuras, uma substância feia. Óleo, pensou ele. Óleo vazado, óleo jogado: pode ser que a junta de vedação esteja vazando. Mas ele precisava estender a mão e tocar para ter certeza, para fortalecer sua convicção racional. Seus dedos encontraram a mancha marrom pegajosa e recuaram rapidamente. Tinha passado os dedos em merda de cachorro. Havia uma camada de merda de cachorro em todo o bloco, por cima dos cabos. Depois ele percebeu que também estava no anteparo contra fogo. Olhando para cima, ele a viu no revestimento à prova de som do capô. O fedor o dominou e ele fechou os olhos, tremendo.

— Ei, cara — disse Luckman animadamente, segurando Arctor pelo ombro. — Está tendo um flashback, não é?

— Ingressos grátis para o teatro — concordou Barris e riu.

— É melhor se sentar — disse Luckman; ele guiou Arctor até o banco do motorista e o colocou sentado ali. — Cara, você está mesmo doidão. Fica sentado aqui. Relaxa. Ninguém morreu e agora estamos prevenidos. — Ele fechou a porta ao lado de Arctor. — Estamos bem agora, tá entendendo?

Barris apareceu na janela e disse:

— Quer um pedaço de merda de cachorro, Bob? Para mascar?

Abrindo os olhos, sentindo frio, Arctor o encarou. As lentes de vidro verde de Barris não diziam nada, nenhuma pista. Será que ele realmente disse aquilo?, perguntou-se Arctor. Ou foi invenção da minha cabeça?

— Que foi, Jim? — disse ele.

Barris começou a rir. E riu sem parar.

— Deixa ele em paz, cara — disse Luckman, empurrando Barris para trás. — Vai se foder, Barris!

Arctor disse a Luckman:

— O que ele acabou de dizer? Que diabos ele me disse exatamente?

— Eu não sei — disse Luckman. — Nem imagino metade das coisas que o Barris joga pra cima das pessoas.

Barris ainda sorria, mas agora em silêncio.

— Barris, seu canalha — disse Arctor a ele. — Eu sei que você fez isso, destruiu o cefscópio e agora o carro. Você fez essa porra, seu filho-da-puta maluco e pervertido. — Ele mal ouvia a própria voz, mas, enquanto gritava para o sorridente Barris, aumentava o fedor medonho de merda de cachorro. Ele desistiu de tentar falar e ficou sentado ali, ao volante inútil de seu carro, esforçando-se para não vomitar. Graças a Deus Luckman veio conosco, pensou ele. Ou hoje tudo estaria acabado para mim. Tudo estaria acabado nas mãos desse nojento fodido, esse puto que mora na mesma casa que eu.

— Relaxa, Bob — a voz de Luckman chegou a ele filtrada por ondas de náusea.

— Eu sei que foi ele — disse Arctor.

— Mas que droga, por quê? — Luckman parecia estar dizendo ou tentando dizer. — Desse jeito, ele ia se matar também. Por quê, cara? Por quê?

O cheiro de Barris ainda sorrindo sobrepujou Arctor e ele vomitou no painel do carro. Mil vozinhas tiniam, irradiando para ele, e o cheiro finalmente passou. Umas mil vozinhas gritando sua estranheza: ele não as entendia, mas pelo menos conseguia enxergar e o cheiro tinha desaparecido. Ele tremeu e pegou o lenço no bolso.

— O que tinha naqueles tabletes que você nos deu? — perguntou Luckman para o sorridente Barris.

— Merda, eu também tomei — disse Barris —, e você também. E não deu bad trip na gente. Então não foi a droga. E foi cedo demais. Como pode ter sido a droga? O estômago não pode absorver...

— Você me envenenou — disse Arctor furiosamente, sua visão quase nítida, a mente clareando, a não ser pelo medo. Agora o medo tinha começado, uma reação racional, em vez de insana. Medo do que quase aconteceu, do que isso significava, medo, medo terrível, medo de Barris sorridente e da porra da caixinha dele e das explicações dele e das coisas assustadoras que ele dizia e do jeito e dos hábitos e dos costumes e das idas e vindas dele. E da denúncia anônima por telefone que ele fez para a polícia sobre Robert Arctor, do dispositivo vagabundo que ele usou para esconder a voz e que funcionara muito bem. Só que tinha de ser Barris.

Bob Arctor pensou: O puto está no meu pé.

— Nunca vi ninguém ficar chapado tão rápido — estava dizendo Barris —, mas...

— Está bem agora, Bob? — disse Luckman. — Vamos limpar o vômito, não se preocupe. É melhor ir para o banco traseiro. — Ele e Barris abriram a porta do carro; Arctor deslizou para fora, tonto. A Barris, Luckman disse: — Tem certeza de que não deu nada a ele?

Barris ergueu as mãos para o alto, em protesto.