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Dentro do traje misturador, o borrão nebuloso indicava que Fred estava diante de outro borrão nebuloso que se apresentava como Hank.

— Nada com Donna, nem Charley Freck, e... deixe-me ver... — A voz monótona e metálica de Hank estalou por um segundo. — Tudo bem, você cobriu Jim Barris. — Hank fez uma anotação no bloco diante dele. — Doug Weeks, segundo você acha, deve estar morto ou fora da área.

— Ou escondido ou inativo — disse Fred.

— Já ouviu falar neste nome: Earl ou Art De Winter?

— Não.

— E numa mulher chamada Molly? Uma grandalhona.

— Não.

— E numa dupla de crioulos, irmãos, uns 20 anos, chamados qualquer coisa Hatfield? Possivelmente traficando sacos de meio quilo de heroína.

— Meio quilo? Sacos de meio quilo de heroína?

— É isso mesmo.

— Não — disse Fred. — Eu me lembraria disso.

— Um sueco, alto, nome sueco. Cumpriu pena, senso de humor distorcido. Alto e magro, anda com muito dinheiro, provavelmente da partilha de um embarque no início do mês.

— Vou ficar de olho nele — disse Fred. — Meio quilo. — Ele sacudiu a cabeça ou pelo menos o borrão nebuloso balançou.

Hank arrumou as notas holográficas.

— Bom, este está na cadeia. — Ele ergueu uma foto brevemente, depois leu o verso. — Não, está morto, estão com

o corpo lá embaixo. — Ele separou. O tempo passou. — Acha que a Jora está se prostituindo?

— Duvido. — Jora Kajas só tinha 15 anos. Já dominada pela Substância D injetável, ela morava em um quarto de um cortiço em Brea; o único calor que irradiava era de um aquecedor a água, sua fonte de renda era uma bolsa de estudos do estado da Califórnia que ela ganhara. Não comparecia às aulas, pelo que ele sabia, havia seis meses.

— Quando ela aprontar, me informe. Depois podemos procurar os pais dela.

— Tudo bem — assentiu Fred.

— Rapaz, a garotada está descendo a ladeira rapidinho. Tivemos uma aqui outro dia... ela parecia ter uns cinqüenta anos. Cabelo grisalho ralo, sem dentes, olhos no buraco, os braços umas varetas... Perguntamos a idade dela e ela disse: “Dezenove.” Verificamos a informação. “Sabe que idade parece ter?”, disse aquela matrona a ela. “Olhe-se no espelho.” Então ela se olhou no espelho. E começou a chorar. Perguntei a ela há quanto tempo estava injetando.

— Um ano — disse Fred.

— Quatro meses.

— As coisas na rua estão bem ruins — disse Fred, sem tentar imaginar a garota, de 19 anos, com o cabelo caindo.

- Malhadas com porcarias piores do que o normal.

— Sabe como a garota entrou nessa? Os irmãos dela, os dois, eram traficantes, foram ao quarto dela uma noite, prenderam ela na cama e injetaram, depois treparam com ela. Os dois. Para jogá-la numa nova vida, eu acho. Ela já estava nessa havia meses quando nós a trouxemos para cá.

— Onde eles estão agora? — Ele pensou que podia esbarrar nos dois.

— Cumprindo uma sentença de seis meses por posse. A garota também pegou gonorréia e não percebeu isso. A doença foi bem fundo nela, como costuma acontecer. Os irmãos dela acharam isso hilário.

— Gente boa... — disse Fred.

— Vou te contar uma que com toda certeza vai te derrubar. Está sabendo dos três bebês no Fairfield Hospital que precisam receber umas doses todo dia porque ainda são novos demais para retirar a droga? Uma enfermeira tentou...

— Você já me derrubou — disse Fred, com voz mecânica. — Já ouvi o bastante, obrigado.

Hank continuou:

— Quando se pensa em recém-nascidos viciados em heroína porque...

— Obrigado — repetiu o borrão nebuloso chamado Fred.

— Que castigo você daria a uma mãe que dá uma dose de heroína a um recém-nascido para acalmá-lo, para evitar que chore? Pernoite na fazenda do condado?

— Alguma coisa assim — disse Fred monotonamente. — Talvez um fim de semana, como fazem com os bêbados. Às vezes, eu queria saber como pirar. Eu esqueci.

— É uma arte esquecida — disse Hank. — Talvez haja um manual de instruções.

— Tinha um filme lá pelos anos 70 — disse Fred — chamado Operação França, sobre dois homens da narcóticos de heroína, e quando eles fizeram sucesso um deles ficou totalmente pirado e começou a atirar em todo mundo que via, inclusive nos superiores. Não fez diferença alguma.

— Talvez seja melhor você não saber quem eu sou, então — disse Hank. — Só pode me pegar por acidente.

— Um dia — disse Fred — alguém vai nos pegar.

— Vai ser um alívio. Um alívio e tanto. — Avançando em sua pilha de anotações, Hank disse: — Jerry Fabin. Bom, vamos cancelar esse. Não é mais cidadão. Os rapazes do final do corredor contaram que Fabin, a caminho da clínica, disse aos policiais que um homenzinho de um metro de altura, sem pernas, em um carrinho, rolava atrás dele dia e noite. Mas ele nunca contou a ninguém porque, se contasse, iam se irritar e o diabo a quatro e depois ele não teria amigos, ninguém com quem conversar.

— É — disse Fred estoicamente. — Fabin está bem ferrado. Li a análise de EEG da clínica. Não podemos nos esquecer dele.

Sempre que se sentava de frente para Hank e fazia esse relatório ele vivia uma certa mudança profunda em si mesmo. Só percebia isso depois, embora na hora sentisse que, por algum motivo, ele assumia uma atitude calculada e bem distante. Para ele, nenhum acontecimento e ninguém tinha significado emocional durante essas sessões.

No início, ele acreditava que eram os trajes misturadores que os dois usavam; eles não podiam sentir fisicamente um ao outro. Mais tarde conjecturou que os trajes não faziam qualquer diferença, era a situação em si. Hank, por motivos profissionais, menosprezava intencionalmente o valor habitual, a excitação habitual em todos os sentidos; nenhuma raiva, nenhum amor, nenhum tipo de emoção forte ajudaria qualquer um dos dois. Como é que o envolvimento emocional intenso podia ser de alguma utilidade quando eles estavam discutindo crimes, crimes graves, cometidos por pessoas próximas a Fred e até, como no caso de Luckman e Donna, pessoas queridas a ele? Ele precisava se neutralizar; os dois faziam isso, ele mais do que Hank. Eles ficavam neutros, falavam de forma neutra, pareciam neutros. Aos poucos ficou fácil conseguir isso, sem combinação prévia.

E depois todos os seus sentimentos voltavam de mansinho.

A indignação com muitos dos acontecimentos que testemunhava, até o pavor, em retrospectiva: o choque. Grandes seqüências esmagadoras para as quais não havia trailer. Com o áudio sempre alto demais dentro de sua cabeça.

Mas, enquanto estava sentado à mesa, de frente para Hank, ele não sentia nada disso. Teoricamente, podia descrever, impassível, qualquer coisa que testemunhasse. Ou ouvir qualquer coisa de Hank.

Por exemplo, ele podia dizer descuidadamente: “Donna está morrendo de hepatite e usa a agulha para eliminar o máximo de amigos que pode. A melhor coisa neste caso seria dar umas coronhadas nela até ela parar com isso.” A própria garota dele... se ele tivesse observado isso ou tivesse certeza... Ou: “Outro dia Donna sofreu uma vasoconstrição maciça com um análogo de LSD vagabundo e metade dos vasos sangüíneos do cérebro dela morreu.” Ou: “Donna está morta.” E Hank registraria isso e talvez dissesse: “Quem vendeu a droga a ela e onde foi feita?” ou “Onde vai ser o funeral? Devemos conseguir números de licença e nomes”, e ele discutiria isso sem sentimento nenhum.

Esse era Fred. Mas depois Fred evoluía para Bob Arctor, em algum lugar na calçada entre o Pizza Hut e o posto de gasolina Arco (gasolina comum agora a 25 cents o litro), e as cores terríveis voltavam a ele, gostasse ou não.

Essa mudança nele como Fred era uma economia das paixões. Bombeiros, médicos e agentes funerários faziam a mesma viagem em seu trabalho. Nenhum deles podia pular e exclamar a cada momento; eles primeiro esgotavam a si mesmos e ficavam imprestáveis, e depois esgotavam os outros, como técnicos no trabalho e como seres humanos. Um indivíduo tinha energia limitada.

Hank não forçava essa imparcialidade nele, ele lhe permitia ser assim. Para o próprio bem. Fred gostava disso.

— E Arctor? — perguntou Hank.

Além de todos os outros, Fred, em seu traje misturador, subordinava naturalmente a si mesmo. Se não fosse assim, seu superior — e através dele todo o aparato da lei — ficaria ciente de quem era Fred, com ou sem traje. Os agentes plantados transmitiriam a informação e muito em breve ele, como Bob Arctor, sentado em sua sala fumando bagulho e tomando droga com os outros viciados, acharia que tinha um homenzinho de um metro de altura em um carrinho deslizando atrás dele também. E não estaria alucinado, como acontecia com Jerry Fabin.

— Arctor não tem feito muita coisa — disse Fred, como sempre fazia. — Trabalha no Blue Chip Stamp em lugar nenhum, toma uns tabletes de morte batizada com met durante o dia...

— Não tenho certeza disso. — Hank remexeu em uma determinada folha de papel. — Temos uma dica aqui de um informante cujas dicas em geral são boas e ele diz que Arctor tem capital acima do que o Blue Chip Redemption Center paga a ele. Ligamos para eles e perguntamos qual é o salário líquido de Arctor. Não é muito. E depois investigamos o porquê disso e descobrimos que ele não está em um emprego de tempo integral a semana toda.

— Tá brincando — disse Fred meio lúgubre, percebendo que o capital “acima” era claramente aquele que ele recebia como agente da Narcóticos. Toda semana ele pegava uma certa quantia em notas baixas em um aparelho disfarçado de máquina de Dr. Pepper, em um bar e restaurante mexicano em Placentia. Eram essencialmente pagamentos por informações que ele dava e que resultavam em prisões. Às vezes, essa soma se tornava excepcionalmente alta, quando ocorria uma importante apreensão de heroína.

Hank leu ponderadamente:

— E de acordo com esse informante, Arctor some e aparece misteriosamente, em especial pelo pôr-do-sol. Depois que chega em casa ele come, depois arranja uma desculpa para sair de novo. Às vezes muito rápido. Mas ele nunca sai por muito tempo. — Ele ergueu os olhos. — O traje misturador ergueu os olhos — para Fred. — Tem observado alguma dessas coisas? Pode verificar? Será que significa alguma coisa?

— Mais provavelmente a garota dele, Donna — disse Fred.

— Bem, “mais provavelmente”. Você devia saber.

— E Donna. Ele transa com ela dia e noite. — Ele se sentia verdadeiramente pouco à vontade. — Mas vou verificar e te informar. Quem é esse informante? Pode estar aprontando para cima do Arctor.

— Porra, não sabemos. É tudo por telefone. Nada impresso... ele usou um tipo de grade eletrônica vagabunda. — Hank deu uma risada; parecia estranha, saindo tão metálica daquele jeito. — Mas funcionou. Satisfatoriamente.

— Meu Deus — protestou Fred —, é aquele maluco ferrado do Jim Barris jogando seu ressentimento esquizóide pra cima do Arctor! Barris fez cursos intermináveis de conserto de eletrônicos nas forças armadas, além de manutenção de maquinaria pesada. Eu não daria nem um centavo a ele como informante.

Hank disse:

— Não sabemos se é Barris e, de qualquer modo, pode haver mais em Barris do que um “maluco ferrado”. Conseguimos várias pessoas que investigaram isso. Nada do que eu ache seria de utilidade para você, pelo menos por enquanto.

— Mas é um dos amigos de Arctor — disse Fred.

— Sim, indubitavelmente é armação por vingança. Esses viciados... eles te telefonam toda vez que ficam irritados. Na realidade, ele parecia conhecer Arctor muito intimamente.

— Gente boa — disse Fred com amargura.

— Bem, foi assim que descobrimos — disse Hank. — Qual é a diferença entre isso e o que você está fazendo?

— Não estou fazendo isso por rancor — disse Fred.

— Por que está fazendo, na realidade?

Fred, depois de um intervalo, disse:

— Bem que eu gostaria de saber.

— Você perdeu o Weeks. Acho que por enquanto vou mandar você observar Bob Arctor. Ele tem um nome do meio? Usa a inicial...

Fred fez um ruído engasgado, de robô.

— Por que Arctor?

— Financiado às ocultas, envolvido às ocultas, fazendo inimigos por suas atividades. Qual é o nome do meio de Arctor? — A caneta de Hank pacientemente postada. Ele esperou para saber.

— Postlethwaite.

— Como se escreve isso?

— Não sei. Não sei dessa porra — disse Fred.

— Postlethwaite — disse Hank, escrevendo algumas letras. — De que nacionalidade é?

— Galês — disse Fred rispidamente. Ele mal conseguia ouvir, seus ouvidos tinham se toldado e seus sentidos também, um por um.

— São aquelas pessoas que cantam sobre os homens de Harlech? O que é “Harlech”? Uma cidade de algum lugar?

— Foi em Harlech que a defesa heróica contra os yorkistas em 1468... — Fred se interrompeu. Merda, pensou ele. Isso é horrível.

— Espere, quero tomar nota disso — estava dizendo Hank, escrevendo com a caneta.

Fred disse:

— Isso significa que você vai grampear a casa e o carro de Arctor?

— Sim, com o novo sistema holográfico; é melhor e, atualmente, temos vários deles parados. Você vai gravar e imprimir tudo. E o que eu suponho. — Hank anotou isso também.

— Vou pegar o que eu puder — disse Fred. Ele se sentia totalmente por fora de tudo isso, queria que a sessão de relatório terminasse e pensou: se ao menos eu pudesse tomar uns tabletes...

Na frente dele, o borrão sem forma escrevia e escrevia, preenchendo todos os números de registro de todas as engenhocas tecnológicas que, se aprovadas, logo estariam disponíveis para ele, com as quais montaria um sistema de monitoramento constante de última geração em sua própria casa, nele mesmo.

* * *

Por mais de uma hora, Barris ficou tentando aperfeiçoar um silenciador feito de materiais caseiros comuns que não custavam mais de 11 cents. Ele quase conseguira fazer um, com chapa de alumínio e um pedaço de espuma de borracha.

Na escuridão da noite, no quintal de Bob Arctor, entre os montes de mato e lixo, ele se preparava para disparar a pistola com o silenciador caseiro instalado.

— Os vizinhos vão ouvir — disse Charles Freck, inquieto. Ele podia ver janelas acesas em toda parte, muitas pessoas provavelmente vendo TV ou enrolando baseados.

Luckman, fora de vista, mas capaz de ver, disse:

— O único chamado por assassinato neste bairro.

— Por que precisa de um silenciador? — perguntou Charles Freck a Barris. — Quer dizer, eles são ilegais.

Barris disse, mal-humorado:

— Em nossa época, com o tipo de sociedade degenerada em que vivemos e a depravação do indivíduo, todo mundo que vale alguma coisa precisa de uma arma o tempo todo. Para se proteger. — Ele semicerrou os olhos e disparou a pistola com o silenciador caseiro. Soou um estrondo enorme, ensurdecendo temporariamente os três. Latiram cães em quintais distantes.

Sorrindo, Barris começou a desenrolar a chapa de alumínio da espuma de borracha. Ele parecia estar se divertindo.

— Mas é um silenciador e tanto — disse Charles Freck, perguntando-se quando a polícia ia aparecer. Num monte de carros.

— O que ele fez — explicou Barris, mostrando a ele e a Luckman trechos crestados de preto e queimados na espuma de borracha — foi aumentar o som, em vez de abafá-lo. Mas eu quase cheguei lá. Consegui em princípio, aliás.

— Quanto vale essa arma? — perguntou Charles Freck. Ele nunca teve uma arma. Por várias vezes teve uma faca, mas alguém sempre a roubava dele. Uma vez uma garota a roubou, enquanto ele estava no banheiro.

— Não muito — disse Barris. — Uns trinta dólares, usada, o que ela é. — Ele a estendeu a Freck, que recuou apreensivamente. — Vou vender para você — disse Barris. — Você devia ter uma mesmo, para se proteger de quem pode te machucar.

— Eles são muitos — disse Luckman de seu jeito irônico, com um sorriso. — Eu vi no Times de Los Angeles, outro dia, que estão dando um rádio transistor para os que tiverem mais sucesso em ferir Freck.

— Vou trocar com você por um tacômetro Borg-Warner — disse Freck.

— Que você roubou da oficina do cara do outro lado da rua — disse Luckman.

— Bom, a arma também deve ser roubada — disse Charles Freck. A maioria das coisas que valiam algum dinheiro foi originalmente roubada de alguma forma; isso indicava que o objeto tinha valor. — Na realidade — disse ele —, o cara do outro lado da rua roubou o tacômetro primeiro. Deve ter trocado de mãos umas 15 vezes. Quer dizer, é um tacômetro realmente legal.

— Como você sabe que ele roubou? — perguntou-lhe Luckman.

— Que droga, cara, ele tem oito tacômetros ali na oficina, todos pendurados por fios! O que mais ele estaria fazendo com eles, com tantos, quero dizer? Quem é que sai e compra oito tacômetros?

Para Barris, Luckman disse:

— Pensei que você estivesse ocupado trabalhando no cefscópio. Já terminou?

— Não posso trabalhar continuamente dia e noite, porque sai caro demais — disse Barris. — Tive de dar uma parada. — Ele cortou, com um canivete complicado, outra seção de espuma de borracha. — Este vai ficar totalmente sem som.

— O Bob pensa que você está trabalhando no cefscópio — disse Luckman. — Ele está deitado ali na cama do quarto, imaginando isso, enquanto você está aqui fora atirando com a pistola. Não concorda com Bob que o aluguel que você deve seria compensado por seu...

— Como se fosse moleza — disse Barris — uma reconstrução intrincada e trabalhosa de um aparelho eletrônico danificado...

— Atire com o maior silenciador de 11 cents de nossos tempos — disse Luckman e arrotou.

 

 

Estou lascado, pensou Robert Arctor.

Ele estava deitado sozinho à meia-luz de seu quarto, de costas, olhando carrancudo para o nada. Debaixo do travesseiro tinha o revólver .32 especial da polícia; ao som do .22 de Barris sendo disparado no quintal, ele por reflexo pegou a própria arma sob a cama e a colocou em um lugar mais fácil de alcançar. Um movimento seguro, contra todo e qualquer perigo; nem precisava pensar nele conscientemente.

Mas o .32 sob o travesseiro não seria muito bom contra algo tão indireto como sabotagem de seu bem mais precioso e caro. Assim que chegou em casa, depois do relatório com Hank, ele verificou todos os outros aparelhos e viu que estava tudo bem — especialmente o carro, sempre o carro primeiro — numa situação dessas. O que quer que acontecesse, pelo que fosse que passasse, seria uma covardia e uma trapaça: um sujeito sem integridade ou coragem escondido na periferia de sua vida, dando tiros nele a esmo, de uma posição oculta e segura. Não uma pessoa, porém mais uma espécie de sintoma ambulante e escondido de seu jeito de viver.

Houve uma época, antigamente, quando ele não vivia assim, com um .32 debaixo do travesseiro, um lunático nos fundos disparando uma pistola Deus sabe por quê, outro maluco ou talvez o mesmo colocando em curto uma impressão encefálica dele mesmo em um cefscópio inacreditavelmente caro e valioso que todo mundo na casa, além de todos os amigos, adorava e do qual desfrutava. Antigamente Bob Arctor cuidava de suas coisas de forma diferente: havia uma esposa, como muitas outras esposas, duas filhas pequenas, uma casa estável que era varrida, limpa e esvaziada diariamente, os jornais antigos sequer abertos levados da calçada da frente para a lata de lixo ou até, às vezes, lidos. Mas um dia, enquanto pegava uma pipoqueira elétrica debaixo da pia, Arctor bateu a cabeça na quina de um armário de cozinha que estava bem acima dele. A dor, o corte no couro cabeludo, tão inesperado e injusto, por algum motivo eliminou as teias de aranha. Ele entendeu de imediato que não odiava o armário da cozinha: odiava a esposa, as duas filhas, toda a casa, o quintal com o aparador de grama elétrico, a garagem, o sistema de aquecimento, o jardim, a cerca, toda a porra do lugar e tudo o que havia nele. Ele quis o divórcio, ele quis se separar. E assim fez logo em seguida. E entrou, aos poucos, em uma vida nova e sombria, em que tudo isso estava ausente.

Provavelmente ele devia ter se arrependido da decisão que tomou. Ele não se arrependera. Aquela vida não tinha entusiasmo, não tinha aventura. Era segura demais. Todos os elementos que a caracterizavam estavam bem diante dos olhos dele e não se podia esperar nada de novo. Certa vez, ele pensou que era como um barquinho de plástico que navegaria para sempre, sem incidentes, até que finalmente afundasse, o que seria um alívio secreto para todos.

Mas, nesse mundo escuro em que ele agora vivia, coisas feias, coisas surpreendentes e de vez em quando coisas assombrosas caíam em cima dele constantemente; ele não podia confiar em nada. Como os danos deliberados e cruéis a seu cefalocromoscópio Altec, em torno do qual ele construiu a parte prazerosa de sua vida, a parte do dia em que todos relaxavam e se acalmavam. Não tinha sentido alguém destruir isso, se visto racionalmente. Mas não havia muito em meio a essas longas sombras escuras da noite que fosse verdadeiramente racional, pelo menos no sentido estrito. O ato misterioso podia ter sido cometido por qualquer um, por quase qualquer motivo. Por qualquer pessoa que ele conhecesse ou tivesse encontrado. Qualquer uma das oito dúzias de esquisitões, doidões variados, drogados fodidos, paranóicos psicóticos com ressentimentos alucinatórios demonstrados na realidade e não na fantasia. Alguém, na verdade, que ele nunca vira. Que o escolhera aleatoriamente da lista telefônica.

Ou seu amigo mais íntimo.

Talvez Jerry Fabin, pensou ele, antes de o levarem daqui. Era uma casca seca e ferrada, envenenado. Ele e seus bilhões de afídios. Culpando Donna — culpando todas as mulheres, na verdade — por “contaminarem-no”. A bicha. Mas, pensou ele, se Jerry tivesse de pegar alguém, teria sido Donna e não eu. Ele pensou: “E eu duvido de que Jerry soubesse como retirar a placa da base da unidade; ele podia tentar, mas ainda estaria ali agora, abrindo e fechando o mesmo parafuso. Ou ia tentar tirar a placa com um martelo.” De qualquer forma, se Jerry Fabin tivesse feito isso, a unidade estaria cheia de ovos de inseto, que cairiam dela. Dentro de sua cabeça, Bob Arctor sorriu de um jeito pervertido.

Pobre fodido, pensou ele, e seu sorriso íntimo desapareceu. Pobre filho-da-mãe: depois que quantidades vestigiais de metais pesados complexos entraram no cérebro dele — bom, isso acabou com ele. Mais um em uma longa linha, uma entidade melancólica entre muitas outras iguais a ele, um número quase interminável de retardados com o cérebro arruinado. A vida biológica continua, pensou ele. Mas a alma, a mente — todo o resto está morto. Uma máquina de reflexos. Como um inseto. Repetindo padrões determinados, um único padrão, agora sem parar. Adequados ou não.

É incrível que ele fosse assim, refletiu ele. Não conhecia Jerry por muito tempo. Charles Freck afirmou que antes Jerry estava muito bem. Eu precisava ver isso, pensou Arctor, para acreditar.

Talvez eu deva contar a Hank sobre a sabotagem no meu cefscópio, pensou ele. Eles iam saber de imediato o que isso implica. Mas o que podem fazer por mim? Esse é o risco que se corre quando se faz esse tipo de trabalho.

Não vale tudo isso, esse trabalho, pensou ele. Nem por todo o dinheiro da porra do planeta. Mas não era pelo dinheiro, de qualquer forma. “Como é que você faz esse troço?”, perguntou Hank a ele. O que qualquer homem, nesse tipo de trabalho, sabia sobre seus verdadeiros motivos? Tédio, talvez, o desejo de um pouco de ação. Hostilidade secreta com relação a todos em volta dele, todos os amigos, até com relação às mulheres. Ou um motivo positivo horrível: ter observado um ser humano que você amou profundamente, de quem era realmente íntimo, que abraçou e com quem dormiu, que beijou e com quem se preocupou, amparou e, acima de tudo, admirou — ver a pessoa generosa e viva arder a partir de dentro, queimar do coração para fora. Até que ficou estalando feito um inseto, repetindo uma frase sem parar. Uma gravação. O ciclo completo de uma fita.

“... Eu sei que se eu conseguisse outra dose...”

Eu ia ficar bem, pensou ele. E, ainda dizendo isso, como Jerry Fabin, quando três quartos do cérebro eram um mingau.

“... eu sei, se eu tivesse só outra dose, que meu cérebro ia se consertar sozinho.”

E aí ele teve uma idéia: o cérebro de Jerry Fabin como a fiação fodida do cefalocromoscópio: fios cortados, curto-circuito, fios torcidos, peças sobrecarregadas e imprestáveis, oscilações de corrente, fumaça e um cheiro ruim. E alguém sentado lá com um voltímetro, seguindo o circuito e murmurando: “Cara, precisa trocar um monte de resistores e condensadores” e assim por diante. E finalmente sairia de Jerry Fabin um zumbido de 60 ciclos. E eles desistiriam.

E na sala de Bob Arctor seu cefscópio de mil dólares produzido pela Altec, depois de supostamente consertado, lançaria em um pontinho na parede em cinza baço:

 

EU SEI QUE SE CONSEGUISSE

SÓ MAIS UMA DOSE...

 

Depois disso eles atirariam o cefscópio, destruído e sem conserto, e Jerry Fabin, destruído e sem conserto, na mesma lata de lixo.

Ah, bem, pensou ele. Quem precisa de Jerry Fabin? A não ser talvez Jerry Fabin, que antigamente imaginava projetar e montar um sistema de console som-e-TV de quase três metros como presente para um amigo, e quando indagado sobre como ia tirá-lo de sua garagem e colocar na casa do amigo, sendo tão imenso quando montado e pesando tanto, ele respondeu: “Tudo bem, cara, eu vou dobrá-lo — já comprei as dobradiças para ele — dobrar, entendeu, dobrar a coisa toda, colocar num envelope e mandar pelo correio pra ele.”

De qualquer forma, pensou Bob Arctor, não íamos ter de ficar varrendo afídios da casa depois de Jerry ter se ausentado. Ele teve vontade de rir ao pensar nisso; uma vez eles inventaram — principalmente Luckman, porque era bom nisso, divertido e inteligente — uma explicação psiquiátrica para a viagem de afídios de Jerry. Tinha a ver, naturalmente, com Jerry Fabin quando criança. Jerry Fabin, veja só, chega da escola primária um dia, com os livrinhos debaixo do braço, assoviando alegremente e, de repente, sentado na sala de jantar, ao lado da mãe, há um grande afídio, de mais de um metro de altura. A mãe está olhando para ele com afeto.

— O que está acontecendo? — pergunta o pequeno Jerry Fabin.

— Este é seu irmão mais velho — diz a mãe —, que você ainda não conhecia. Ele veio morar conosco. Eu gosto mais dele do que de você. Ele sabe fazer um monte de coisas que você não sabe.

E, a partir daí, a mãe e o pai de Jerry Fabin comparavam-no continuamente e de forma desfavorável com o irmão mais velho, que é um afídio. À medida que os dois cresceram, Jerry adquiriu aos poucos um complexo de inferioridade cada vez maior — naturalmente. Depois do secundário, o irmão recebeu uma bolsa de estudos para a universidade, enquanto Jerry foi trabalhar no posto de gasolina. Depois disso, o irmão afídio tornou-se médico ou cientista famoso, ganhou o prêmio Nobel; Jerry ainda estava girando pneus no posto de gasolina, ganhando um dólar e meio por hora. A mãe e o pai nunca deixam de lembrá-lo disso. Eles falam sem parar:

“Se ao menos você pudesse ser como o seu irmão.”

Por fim, Jerry foge de casa. Mas subconscientemente ele ainda acredita que os afídios são superiores a ele. No início, imagina que está seguro, mas começa a ver afídios em toda parte do cabelo e pela casa, porque seu complexo de inferioridade se transformou numa espécie de culpa sexual e os afídios são um castigo que ele se inflige etc.

Agora isso não parecia engraçado. Agora que Jerry tinha sido arrastado no meio da noite a pedido dos próprios amigos. Eles mesmos, todos presentes com Jerry naquela noite, decidiram fazer isso; não podia ser adiado nem evitado. Jerry, naquela noite, tinha empilhado cada maldito objeto da casa contra a porta da frente, inclusive sofás, cadeiras, a geladeira e o aparelho de TV, e depois disse a todos que um afídio gigante e superinteligente de outro planeta estava lá fora preparando-se para invadir e pegá-lo. E outros pousariam mais tarde, mesmo que ele conseguisse pegar esse. Esses afídios extraterrestres eram muito mais inteligentes do que qualquer ser humano e atravessariam as paredes, se necessário, revelando seus poderes secretos dessa maneira. Para se salvar pelo máximo de tempo possível, ele tinha de encher a casa de gás de cianeto, o que estava preparado para fazer. Como estava preparado para fazer isso? Ele já havia vedado portas e janelas. Depois propôs abrir as torneiras de água na cozinha e no banheiro, inundando a casa, dizendo que o tanque de água quente na garagem estava cheio de cianeto e não de água. Ele sabia disso havia muito tempo e estava poupando isso para o final, como uma última defesa. Todos eles se matariam, mas pelo menos se livrariam dos afídios superinteligentes.

Os amigos telefonaram para a polícia, a polícia irrompeu pela porta da frente e arrastou Jerry para a Clínica A. F. A última coisa que Jerry disse a eles foi: “Levem minhas coisas depois... levem meu casaco novo com as miçangas nas costas.” Ele tinha acabado de comprar. Era do que ele mais gostava, achava que todo o resto que possuía estava contaminado.

Não, pensou Bob Arctor, não parecia engraçado agora, e ele se perguntou por que achou graça antes. Talvez tivesse origem no medo, o medo pavoroso que todos sentiram nas últimas semanas perto de Jerry Às vezes, à noite, segundo Jerry dizia a eles, ele rondava pela casa com uma arma, sentindo a presença de um inimigo. Preparando-se para atirar primeiro, antes de ser alvejado. Isto é, os dois.

E agora, pensou Bob Arctor, eu tenho um inimigo. Ou cheguei no rabo dele: sinais dele. Outro doidão piegas em seus últimos estágios, como Jerry E quando batem os últimos estágios dessa merda, pensou ele, ela realmente bate. Melhor do que qualquer Ford ou GM especial já patrocinado no horário nobre da TV.

Uma pancada na porta do quarto.

Tocando a arma debaixo do travesseiro, ele pergunta:

— Que é?

Murmura-murmura a voz de Barris.

— Entra — disse Arctor. Ele estende a mão para acender um abajur na mesa-de-cabeceira.

Barris entrou, os olhos cintilando.

— Ainda acordado?

— Acordei com um sonho — disse Arctor. — Um sonho religioso. Nele teve um enorme estrondo de trovão. De repente os céus se abriram e Deus apareceu e a voz Dele trovejou para mim... o que diabos Ele disse mesmo?... ah, sim: “Eu estou contrariado com você, meu filho.” Ele disse. Ele estava carrancudo. Eu estava tremendo, no sonho, e olhei para cima e disse: “O que eu faço agora, Senhor?” E Ele disse: “Você deixou a pasta de dentes destampada de novo.” E depois percebi que era minha ex-mulher.

Sentando-se, Barris colocou a mão em cada um dos joelhos cobertos de couro, alisou-se, sacudiu a cabeça e confrontou Arctor. Ele parecia estar de excelente humor.

— Bom — disse ele, animado —, eu tenho uma teoria inicial sobre quem pode ter destruído sistematicamente e com maldade seu cefscópio e pode fazer isso de novo.

— Se vai dizer que foi Luckman...

— Escute — disse Barris, balançando-se de agitação. — E-e-e se eu te dissesse que previ faz semanas um defeito grave em um dos aparelhos da casa, especialmente um caro e difícil de consertar? Minha teoria anunciou que isso ia acontecer! É uma confirmação de toda a minha teoria!

Arctor olhou para ele.

Afundando lentamente, Barris reassumiu a calma e o sorriso luminoso.

— Você — disse ele, apontando.

— Acha que eu fiz isso — disse Arctor. — Estraguei meu próprio cefscópio, sem ter seguro nenhum. — O desgosto e a raiva avultaram nele. E era tarde da noite, ele precisava dormir.

— Não, não — disse Barris rapidamente, parecendo aflito. — Você está procurando pela pessoa que fez isso. Que barbarizou seu cefscópio. Essa era a frase completa que eu queria dizer, que não pude terminar.

— Você fez isso? — Desorientado, ele encarou Barris, cujos olhos estavam sombrios, numa espécie de triunfo obscuro. — Por quê?

— Quer dizer, segundo minha teoria, eu fiz — disse Barris. — Sob sugestão hipnótica, evidentemente. Com um bloqueio amnésico para eu não poder me lembrar. — Ele começou a rir.

— Mais tarde a gente fala sobre isso — disse Arctor e desligou o abajur. — Bem mais tarde.

Barris se levantou, tremendo.

— Olhe, você não entende? Eu tenho as habilidades eletrônicas e técnicas especializadas e avançadas e eu tenho acesso a ele... eu moro aqui. Mas o que não consigo entender é o meu motivo.

— Você fez isso porque é maluco — disse Arctor.

— Talvez eu tenha sido contratado por forças secretas — murmurou Barris, perplexo. — Mas quais seriam os motivos deles? Talvez para criar suspeita e problemas entre nós, para causar dissensão e nos separar, levando-nos a brigar, todos nós, sem ter certeza de em quem confiar, quem é nosso inimigo e coisas assim.

— Então eles conseguiram — disse Arctor.

— Mas por que querem fazer isso? — Barris estava falando enquanto ia para a porta; suas mãos se agitavam com urgência. — Tanto trabalho... retirar aquela placa na base, conseguir a senha para a porta da frente...

Vou ficar feliz, pensou Bob Arctor, quando conseguirmos os holo-scanners e os instalarmos em toda esta casa. Ele tocou a arma, sentiu-se tranqüilizado, depois se perguntou se devia se certificar de que ainda estava carregada. Mas então, percebeu ele, vou imaginar que o percussor sumiu ou que a pólvora foi retirada das balas e assim por diante, repetidamente, obsessivamente, como um garotinho contando rachaduras na calçada para reduzir o medo. O pequeno Bobby Arctor, voltando da escola com seus livrinhos, assustado com o desconhecido que tinha à frente.

Abaixando a mão, ele tateou na cama, prosseguindo até que os dedos tocaram a fita adesiva. Puxando, ele a tirou, com Barris ainda no quarto e olhando, dois tabletes de Substância D batizados com quaak. Levando-os à boca, ele os atirou na garganta, sem água, e depois deitou-se, suspirando.

— Cai fora — disse ele a Barris.

E dormiu.