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Charles Freck também andava pensando em visitar a New-Path. O doidão do Jerry Fabin gostava muito dele.
Sentado com Jim Barris na Cafeteria Fiddlers Three, em Santa Ana, ele brincava, rabugento, com o donut açucarado.
— É uma decisão difícil — disse ele. — O que eles fazem é crise de abstinência. Eles só mantêm você dia e noite lá para que você não se mate nem morda seu braço, mas nunca te dão nada. Um médico vai receitar. Valium, por exemplo.
Com uma risadinha, Barris examinou seu sanduíche patty, que tinha imitação de queijo derretido e hambúrguer de carne falsa em pão orgânico especial.
— Que tipo de pão é esse? — perguntou ele.
— Olha o cardápio — disse Charles Freck. — Está explicado aí.
— Se você entrar nessa — disse Barris —, vai ter sintomas que surgem dos fluidos básicos do corpo, especificamente aqueles localizados no cérebro. Estou me referindo às catecolaminas, como a noradrenalina e a serotonina. Olha só, suas funções são assim: a Substância D, na verdade todas as drogas viciantes, mas sobretudo a Substância D, interage com as catecolaminas de tal forma que o envolvimento fica travado no nível subcelular. Houve uma contra-adaptação biológica e de certa forma para sempre.
— Ele comeu um pedaço enorme do lado direito do sanduíche. — Antigamente acreditavam que isso só acontecia com os entorpecentes alcalóides, como a heroína.
— Eu nunca tomei pico de heroína. Ela baixa a bola.
A garçonete, atraente e elegante com o uniforme amarelo, com peitos empinados e cabelo louro, aproximou-se da mesa deles.
— Oi — disse ela. — Está tudo bem?
Charles Freck olhou para ela com medo.
— Seu nome é Patty? — perguntou Barris a ela, sinalizando a Charles Freck que estava tudo bem.
— Não. — Ela apontou o crachá no peito direito. — É Beth.
Imagino do que chamariam o esquerdo, pensou Charles Freck.
—A garçonete da última vez era Patty — disse Barris, olhando a garçonete grosseiramente. — Como o sanduíche.
— Deve ter sido uma Patty diferente do sanduíche. Acho que se escreve com i.
— Está tudo ótimo — disse Barris. Acima da cabeça dele, Charles Freck podia ver um balão de pensamento em que Beth estava tirando as roupas e gemendo para ser comida.
— Não comigo — disse Charles Freck. — Eu tenho um monte de problemas que ninguém mais tem.
Numa voz sombria, Barris disse:
— Mais gente do que você pensa. E mais a cada dia. Este é um mundo doentio e fica cada vez pior. — Acima da cabeça dele, o balão de pensamento também ficava pior.
— Gostaria de pedir sobremesa? — perguntou Beth, sorrindo para eles.
— O que tem aqui? — disse Charles Freck, desconfiado.
— Temos torta de morango e torta de pêssego — disse Beth, sorrindo — que nós mesmos fazemos.
— Não, não vamos comer sobremesa — disse Charles Freck. A garçonete saiu. — Isso é coisa de velha — disse ele a Barris —, essas tortas de fruta.
— A idéia de se entregar para a reabilitação — disse Barris
— certamente está te deixando apreensivo. Isto é uma manifestação de sintomas negativos voluntários, o seu medo. E a droga falando, para evitar que você entre na New-Path e para impedir que você saia dessa. Como pode ver, todos os sintomas são voluntários, sejam negativos ou positivos.
— Tá de sacanagem — murmurou Charles Freck.
— Os negativos se manifestam como ânsias, que são deliberadamente geradas por todo o corpo para obrigar seu dono... neste caso, você... a procurar freneticamente...
— A primeira coisa que eles te fazem quando você vai para a New-Path — disse Charles Freck — é cortar sua pica. Como uma aula prática. E depois eles cortam pra todo lado a partir dali.
— Seu baço vem depois — disse Barris.
— Eles o que, eles cortam... O que isso faz, um baço?
— Ajuda a digerir sua comida.
— Como?
— Removendo a celulose dela.
— Então acho que depois disso...
— Só alimentos sem celulose. Nada de folhas nem alfafa.
— Quanto tempo se pode viver desse jeito?
Barris disse:
— Depende de sua atitude.
— Quantos baços tem a média das pessoas? — Ele sabia que o normal era ter dois rins.
— Depende de seu peso e sua idade.
— Por quê? — Charles Freck sentiu uma desconfiança aguda.
— A pessoa desenvolve mais baços com o passar dos anos. Quando chega aos 80...
— Está de sacanagem comigo.
Barris riu. Ele sempre ria estranho, pensou Charles Freck. Um riso irreal, como de alguma coisa se quebrando.
— Por que essa sua decisão — disse Barris agora — de se apresentar para terapia de internação no centro de reabilitação de drogas?
— Jerry Fabin — disse ele.
Com um gesto de leve repúdio, Barris disse:
— Jerry era um caso especial. Uma vez vi Jerry Fabin cambaleando e caindo, se cagando todo, sem saber onde estava, tentando me convencer a pesquisar que veneno ele tinha apanhado, mais provavelmente sulfato de tálio... é usado em inseticidas e para matar ratos. Era armação, alguém se vingando dele. Eu pude pensar em dez toxinas e venenos diferentes que podiam...
— Há outro motivo — disse Charles Freck. — Estou ficando sem suprimento e não dá para suportar isso, ficar sempre com pouco e sem saber se vou conseguir encontrar mais dessa porra.
— Bom, nem podemos ter certeza de que veremos o sol nascer de novo.
— Mas que merda... agora estou com tão pouco que é uma questão de dias. E, além disso, acho que estou sendo roubado. Não é possível que eu esteja tomando tão rápido; alguém deve estar saqueando a porra do meu esconderijo.
— Quantos tabletes você toma por dia?
— É muito difícil saber. Mas não são muitos.
— Está tolerizando, você sabe disso.
— Claro, eu sei, mas não é isso. Não posso ficar sem nada. Por outro lado... — Ele refletiu. — Acho que consegui uma nova fonte. Aquela garota, a Donna. Donna qualquer coisa.
— Ah, a garota do Bob.
— A mulher dele — disse Charles Freck, assentindo.
— Não, ele nunca conseguiu transar com ela. Ele tenta.
— Ela é de confiança?
— De que maneira? Deitada ou... — Barris gesticulou: a mão na boca e sorvendo...
— Que tipo de sexo é esse? — Depois ele entendeu. — Ah, sim, o último.
— De toda confiança. Meio desmiolada. O que você espera de uma garota, em especial das mais caladonas? Tem o cérebro entre as pernas, como a maioria delas. Provavelmente o esconderijo fica ali também. — Ele riu. — O esconderijo de todo o tráfico que ela faz.
Charles Freck se inclinou para ele.
— Arctor nunca trepou com a Donna? Ele fala dela como se tivesse trepado.
Barris disse:
— Esse é o Bob Arctor. Fala como se tivesse feito muita coisa. Não é a mesma coisa, de jeito nenhum.
— Bom, como é que ele nunca dormiu com ela? Ele não conseguiu?
Barris refletiu sensatamente, ainda mexendo no sanduíche; ele agora o dividira em pedacinhos.
— Donna tem problemas. E provável que ela seja junkie. A aversão que tem ao contato físico em geral... os junkies perdem o interesse pelo sexo porque os órgãos incham com a vasoconstrição. E Donna, como observei, mostra uma falta incomum de excitação sexual, a um ponto que não é natural. Não só com relação a Arctor, mas com relação... — Ele se interrompeu, mal-humorado — a outros homens.
— Que merda, você quer dizer que ela não dá pra ninguém.
— Ela daria — disse Barris —, se fosse bem manipulada. Por exemplo... — Ele ergueu os olhos de forma misteriosa.
— Posso te mostrar como dormir com ela por 98 cents.
— Eu não quero dormir com ela. Só quero comprar dela. — Ele se sentia inquieto. Sempre havia algo em Barris que revirava seu estômago. — Por que 98 cents? — disse ele.
— Ela não ia aceitar dinheiro, ela não trepa por dinheiro.
E, de qualquer forma, é mulher do Bob.
— O dinheiro não seria pago diretamente a ela — disse Barris com seu jeito meticuloso e educado. Ele se inclinou para Charley Freck, o prazer e a malícia palpitando entre as narinas peludas. E não só isso, o tom verde dos óculos de sol tinha se vincado. — Donna gosta de coca. Para qualquer um que lhe dê um grama de coca ela sem dúvida nenhuma vai abrir as pernas, principalmente se uma certa substância química rara for acrescentada de uma forma estritamente científica que eu consegui à custa de muita pesquisa.
— Gostaria de que não falasse desse jeito — disse Charles Freck. — Sobre Donna. E depois, agora um grama de coca custa mais de cem dólares. Quem tem isso tudo?
Meio espirrando, Barris declarou:
— Posso obter um grama de cocaína pura, dos ingredientes a partir dos quais consigo, sem incluir minha mão-de-obra, a um custo total de menos de um dólar.
— Besteira.
— Vou te dar uma demonstração.
— De onde vêm esses ingredientes?
— Da loja 7-11 — disse Barris e se colocou de pé, descartando pedaços de sanduíche em sua empolgação. — Pague a conta — disse ele —, vou te mostrar. Montei um laboratório provisório em casa, até que consiga criar um melhor. Pode me ver extrair um grama de cocaína de materiais comuns e sancionados comprados abertamente na loja 7-11 por um dólar de custo total. — Ele começou a andar pelo corredor. — Vamos. — O tom de voz dele era urgente.
— Claro — disse Charles Freck, pegando a conta e seguindo. Um cascateiro, pensou ele. Ou talvez não fosse. Com todos aqueles experimentos químicos que ele fazia e lendo e relendo a biblioteca do condado... talvez houvesse alguma verdade na coisa. Imagine o lucro, pensou ele. Imagine o que podemos faturar!
Ele correu atrás de Barris, que estava pegando as chaves do Karmann Ghia em seu macacão de pára-quedista enquanto andava, passando pelo caixa.
Eles pararam no estacionamento da 7-11, saíram do carro e entraram na loja. Como sempre, um policial enorme e caladão estava parado ali, fingindo ler uma revista grossa como um livro no balcão da frente; na realidade, como sabia Charles Freck, ele estava verificando todo mundo que entrava para ver se pretendiam assaltar o lugar.
— O que vamos comprar aqui? — perguntou ele a Barris, que estava andando casualmente pelos corredores de pilhas de comida.
— Uma lata de spray — disse Barris. — De Solarcaine.
— Spray para queimadura de sol? — Charles Freck não acreditava que isso estivesse acontecendo, mas, por outro lado, quem sabe? Quem podia ter certeza? Ele seguiu Barris até o balcão; dessa vez Barris pagou.
Eles compraram a lata de Solarcaine, passaram pelo policial e voltaram ao carro. Barris saiu rapidamente do estacionamento, pegou a rua e prosseguiu a toda, ignorando as placas de limite de velocidade, até que por fim reduziram e pararam diante da casa de Bob Arctor, com todos os jornais velhos ainda fechados na grama alta do jardim.
Saindo do carro, Barris ergueu alguns objetos com fios pendurados no banco traseiro para levar para dentro. Voltímetro, viu Charles Freck. E outro aparelho eletrônico de teste e uma pistola de solda.
— Para que isso? — perguntou ele.
— Tenho um trabalho longo e árduo a fazer — disse Barris, levando pela calçada os vários objetos, além do Solarcaine, até a porta da casa. Ele passou a chave a Charles Freck. — E provavelmente não vou receber nada por isso. Como sempre.
Charles Freck destrancou a porta e eles entraram na casa. Dois gatos e um cachorro partiram para cima deles, fazendo barulhos esperançosos; ele e Barris afastaram os animais cuidadosamente com as botas.
Ao longo das semanas, Barris tinha montado uma espécie de laboratório estranho nos fundos da saleta de jantar, frascos e pedaços de refugo aqui e ali, objetos aparentemente sem valor que ele furtara de diferentes fontes. Barris, como Charles Freck ouvira falar, não era tão adepto da parcimônia, mas da engenhosidade. Você deve ser capaz de usar a primeira coisa que cai em suas mãos para conseguir seu objetivo, pregava Barris. Uma tacha, um clipe de papel, parte de um aparelho que se quebrou ou se perdeu... Charles Freck teve a impressão de que um sucateiro tinha montado oficina aqui e estava fazendo experimentos com o que agradava a um sucateiro.
A primeira atitude no esquema de Barris foi pegar um saco plástico do rolo perto da pia e nele esguichar o conteúdo da lata de spray, sem parar, até que a lata ou o gás acabou.
— Isso é irreal — disse Charles Freck. — Superirreal.
— O que eles fizeram deliberadamente — disse Barris, cauteloso, enquanto trabalhava — foi misturar a cocaína com óleo para que não possa ser extraída. Mas meu conhecimento de química é tão bom que sei exatamente como separar a coca do óleo. — Ele começou a sacudir sal na gosma pegajosa do saco. Depois colocou tudo em um jarro de vidro. — Vou congelar — anunciou ele, sorrindo —, o que faz com que os cristais de cocaína subam, porque são mais leves do que o ar. Do que o óleo, quero dizer. E depois a última etapa, é claro, eu guardo para mim mesmo, mas envolve um complicado processo metodológico de filtragem. — Ele abriu o congelador acima da geladeira e colocou com cuidado o vidro dentro dele.
— Quanto tempo vai ficar aí? — perguntou Charles Freck.
— Meia hora. — Barris pegou um dos cigarros enrolados à mão, acendeu e depois foi até o monte de equipamento eletrônico de teste. Ficou parado ali, meditando, esfregando o queixo barbado.
— É — disse Charles Freck —, mas quero dizer, então, mesmo que você consiga disso aí um grama inteiro de coca pura, não posso usar em Donna para... sabe como é, transar com ela. E como comprá-la; é o que isto significa.
—Troca — corrigiu Barris. — Você dá um presente a ela, ela te dá outro. O presente mais precioso de uma mulher.
— Ela ia saber que estava sendo comprada. — Ele tinha visto Donna o suficiente para entender isso; Donna ia entender o engodo de imediato.
— A cocaína é afrodisíaca — murmurou Barris, meio para si mesmo; estava instalando o equipamento ao lado do cefalocromoscópio de Bob Arctor. — Depois que cheirar uma boa parte, ela vai ficar feliz em se arreganhar.
— Que merda, cara — protestou Charles Freck. — Está falando da garota do Bob Arctor. Ele é meu amigo e é o cara com quem você e Luckman moram.
Barris ergueu a cabeça desgrenhada por um momento. Analisou Charles Freck por um tempo.
— Tem uma coisa ótima sobre Bob Arctor que você não sabe — disse ele. — Que nenhum de nós sabe. Sua visão é simplista e ingênua e você acredita sobre o Bob o que ele quer que você acredite.
— Ele é um cara cem por cento legal.
— Certamente — disse Barris, assentindo e sorrindo. — Sem dúvida nenhuma, um dos melhores do mundo. Mas eu tenho... nós temos, nós que observamos Arctor com precisão e percepção... distinguindo nele algumas contradições. Tanto em relação à estrutura da personalidade como no comportamento. No total desligamento com a vida. No, digamos assim, estilo inato dele.
— Pode ser mais específico?
Os olhos de Barris, por trás das lentes verdes, dançaram.
— Seus olhos dançando não significam nada para mim — disse Charles Freck. — O que há de errado com o cefscópio em que você está trabalhando? — Ele se aproximou para olhar.
Inclinando o chassis central na ponta, Barris disse:
— Me diga o que está vendo aqui na fiação por baixo.
— Estou vendo fios cortados — disse Charles Freck. — E um monte do que parecem curtos provocados. Quem fez isso?
Novamente os olhos risonhos e sagazes de Barris dançaram com um prazer especial.
— Essa porcaria ordinária não significa merda nenhuma para mim — disse Charles Freck. — Quem destruiu o cefscópio? Quando isso aconteceu? Você descobriu há pouco tempo? Arctor não disse nada da última vez em que eu o vi, e isso foi antes de ontem.
Barris disse:
— Talvez ele ainda não estivesse preparado para falar no assunto.
— Bom — disse Charles Freck —, para mim você está falando por enigmas de doidão. Acho que vou dar um pulo a uma das clínicas da New-Path, me apresentar, passar pelo tratamento de choque e fazer terapia, entrar no jogo destrutivo deles e ficar com aqueles caras dia e noite, sem malucos misteriosos como você que não dizem nada que faça sentido e eu não consigo entender. Posso ver que esse cefscópio foi destruído, mas você não está me dizendo nada. Está tentando alegar que Bob Arctor fez isso, com o próprio equipamento caro, não está? O que você está dizendo? Eu queria era morar na New-Path, onde eu não precisaria passar por essa merda cheia de significados que eu não entendo dia após dia, se não com você, então com algum doidão acabado como você, igualmente chapado. — Ele olhou de um jeito feroz.
— Eu não destruí essa unidade de transmissão — disse Barris especulativamente, coçando os pêlos da barba — e duvido muito de que Ernie Luckman tenha feito isso.
— Eu duvido muito de que Ernie Luckman tenha destruído qualquer coisa na vida, a não ser aquela vez em que ele se empolgou com um ácido ruim e atirou a mesa de centro da sala e todo o resto pela janela do apartamento que ele tinha, ele e aquela Joan, no estacionamento. Isso é diferente. Normalmente Ernie não se descontrola mais do que todos nós. Não, Ernie não sabotaria o cefscópio de ninguém. E Bob Arctor... é dele, não é? O que ele fez, levantou em segredo no meio da noite sem saber e fez isso, estragando desse jeito o que era dele? Isso foi feito por alguém que queria acabar com ele. Foi isso que aconteceu. — Você deve ter feito isso, seu filho-da-puta nojento, pensou ele. — Quem fez isso — disse ele — devia ir para uma clínica de afasia federal ou para a cova. De preferência, na minha opinião, a última. Bob sempre relaxava com esse cefscópio Altec; eu o vi usando sempre, toda vez que chegava do trabalho à noite, assim que entrava pela porta. Todo cara tem alguma coisa que preza. Essa é a dele. Então eu digo que é uma merda fazer isso com ele, cara, uma merda.
— É o que eu quero dizer.
— O que você quer dizer?
— “Toda vez que chegava do trabalho” — repetiu Barris.
— Andei conjecturando por um tempo quem é que realmente emprega Bob Arctor, que organização específica é essa que ele não pode nos contar.
— E a porra do Blue Chip Redemption Stamp Center, em Placentia — disse Charles Freck. — Ele já me contou.
— Eu me pergunto o que ele faz lá.
Charles Freck suspirou.
— Tinge os selos de azul. — Na verdade, ele não gostava de Barris. Freck queria estar em outro lugar, talvez arranjando uma com a primeira pessoa que ele visitasse ou a quem telefonasse. Talvez seja melhor eu dar o fora, disse ele a si mesmo, mas lembrou-se do vidro de óleo e cocaína no congelador, 98 cents que valiam cem dólares.
— Aí — disse ele —, quando é que esse troço vai ficar pronto? Acho que você está me enrolando. Como o pessoal da Solarcaine vende esse troço por tão pouco se tem um grama de coca pura? Como é que eles têm lucro?
— Eles compram — declarou Barris — em grandes quantidades.
Rolou na cabeça de Charles Freck uma fantasia instantânea: caminhões basculantes cheios de cocaína indo à fábrica de Solarcaine, onde quer que fosse, talvez em Cleveland, descarregando toneladas e mais toneladas de cocaína pura, sem malho, sem mistura, de alta qualidade, em uma extremidade da fábrica, onde era misturada com óleo e gás inerte e outros trecos, e depois enfiada em latinhas de spray coloridas que seriam empilhadas nos milhares de lojas 7-11, drogarias e supermercados. O que devíamos fazer, ruminou ele, era parar um desses caminhões e pegar a carga toda, uns 300 ou 400 quilos — que droga, muito mais. Quanto carrega um caminhão basculante?
Barris levou para ele a lata de Solarcaine agora vazia, para que ele examinasse; ele lhe mostrou o rótulo, em que estavam relacionados todos os componentes.
— Está vendo? Benzocaína. O que só algumas pessoas dotadas sabem que é o nome comercial da cocaína. Se eles dissessem cocaína no rótulo, as pessoas iriam sacar e acabariam fazendo o que eu faço. As pessoas simplesmente não são instruídas para perceber isso. Não têm o treinamento científico que eu tive.
— O que vai fazer com esse conhecimento? — perguntou Charles Freck. — Além de deixar Donna Hawthorne ligadona?
— Pretendo escrever um best-seller um dia desses — disse Barris. — Um texto para a maioria das pessoas sobre como fabricar droga segura na cozinha sem infringir a lei. Isso não infringe a lei, entende? A benzocaína é legalizada. Telefonei para uma farmácia e perguntei. Está em um monte de coisas.
— Poxa! — disse Charles Freck, impressionado. Ele olhou o relógio de pulso para ver quanto tempo tinham de esperar.
Bob Arctor fora avisado por Flank, que era o sr. F., para verificar os centros de internação da New-Path da cidade, a fim de localizar um traficante importante que ele estivera vigiando, mas que de repente tinha sumido de vista.
De vez em quando, um traficante, percebendo que estava prestes a ser flagrado, refugiava-se em um dos centros de reabilitação de drogas, como a Synanon, o Center Point, a X-Kalay e a New-Path, bancando um viciado à procura de ajuda. Depois que entra, ele é despojado de tudo o que o identifica, sua carteira, até o nome, como preparação para formar uma nova personalidade que não é orientada para as drogas. Neste processo de despojamento, desaparece grande parte do que os policiais precisam para localizar o suspeito. Mais tarde, quando a pressão é aliviada, o traficante sai e reassume sua atividade externa de sempre.
Ninguém sabia com que freqüência isso acontecia. As unidades de reabilitação de drogas tentavam discernir quando estavam sendo usadas, mas nem sempre tinham sucesso. Um traficante com medo de pegar quarenta anos de prisão tinha motivação para contar uma boa história para a equipe de reabilitação, que tinha o poder de admiti-lo ou rejeitá-lo. Sua agonia a essa altura era essencialmente verdadeira.
Dirigindo devagar pelo Katella Boulevard, Bob Arctor procurava pela placa da New-Path e o prédio de madeira, antigamente uma residência particular, operada nessa área pelo pessoal ativo da reabilitação. Ele não gostava de enganar um centro de reabilitação dessa maneira, fingindo ser um possível interno que precisava de ajuda, mas essa era a única forma de conseguir. Se ele se identificasse como agente da narcóticos à procura de alguém, o pessoal da reabilitação — a maioria deles, de qualquer forma — naturalmente começaria uma ação evasiva. Eles não queriam sua família abordada pelos Homens e ele tinha de entrar de cabeça ali para entender a validade disso. Aqueles ex-viciados deviam estar seguros lá; na verdade, a equipe da reabilitação costumava garantir oficialmente sua segurança quando eles entravam. Por outro lado, o traficante que ele procurava era uma fonte de primeira e usar centros de reabilitação dessa maneira contrariava o interesse de todos. Ele não viu alternativa para si mesmo ou para o sr. E, que originalmente o colocara na cola de Spade Weeks. Weeks foi o principal tema de Arctor por um tempo interminável, sem resultado nenhum. E agora, por dez dias inteiros, fora impossível localizá-lo.
Ele viu a placa nítida, parou no pequeno estacionamento, que essa filial da New-Path dividia com uma padaria, e andou de maneira irregular pelo passadiço até a porta da frente, as mãos nos bolsos, fazendo seu número de oprimido-e-infeliz.
Pelo menos o departamento não se colocou contra ele por ter perdido Spade Weeks de vista. Em sua estimativa, oficialmente, só provou como Weeks era esperto. Tecnicamente, Weeks era um contrabandista e não traficante; ele enviava drogas pesadas do México a intervalos regulares para algum lugar perto de Los Angeles, onde os compradores se reuniam e dividiam a carga. O método que Weeks usava para contrabandear a carga pela fronteira era eficaz: ele a colava embaixo do carro de algum careta que atravessava a fronteira na frente dele, depois pegava o cara no lado americano e o matava na primeira oportunidade conveniente. Se a patrulha da fronteira dos EUA descobrisse a droga colada embaixo do carro do careta, o careta seria pego, e não Weeks. A posse era prima facie na Califórnia. Péssimo para o careta, a esposa e os filhos dele.
Mais do que qualquer outro no trabalho sob disfarce do Condado de Orange, ele reconhecia Weeks de vista: um negro gordo, em seus trinta anos, com um padrão de fala singular, lento e elegante, como se o tivesse memorizado em uma falsa escola inglesa. Na verdade, Weeks vinha das favelas de Los Angeles. Era mais provável que ele tenha aprendido essa dicção em fitas educativas que pegou em alguma biblioteca universitária.
Weeks gostava de se vestir de forma discreta, mas classuda, como se fosse médico ou advogado. Em geral, portava uma pasta executiva cara, de crocodilo, e usava óculos de aro de chifre. Além disso, costumava andar armado, com uma pistola que encomendara, com um cabo feito sob medida na Itália, muito elegante e cheia de estilo. Mas na New-Path ele seria despido de seus variados paramentos, eles o vestiriam como qualquer outro, com roupas aleatórias de doações, e trancariam sua pasta no armário.
Abrindo a sólida porta de madeira, Arctor entrou.
Um saguão escuro, uma sala de estar à esquerda, com homens lendo. Uma mesa de pingue-pongue no outro extremo, depois uma cozinha. Uns lemas nas paredes, alguns feitos à mão e alguns impressos: O ÚNICO FRACASSO VERDADEIRO É FALHAR COM OS OUTROS e assim por diante. Pouco barulho, pouca atividade. A New-Path mantinha variados negócios de varejo; provavelmente a maioria de seus internos, homens e mulheres também, estava trabalhando em seus salões de beleza, postos de gasolina e empregos burocráticos. Ele ficou parado ali, esperando, parecendo abatido.
— Pois não? — Apareceu uma mulher, bonita, usando uma saia de algodão azul extremamente curta e uma camiseta com NEW-PATH pintado de um mamilo a outro.
Ele disse, numa voz embargada, lamentativa e humilhada:
— Eu estou... numa pior. Não consigo agüentar mais. Posso me sentar?
— Claro. — A mulher acenou e surgiram dois homens de aparência medíocre, olhando impassíveis. — Levem ele para onde possa se sentar e dêem um café.
Arrastando-se, Arctor pensou enquanto deixava que os dois homens o levassem a um sofá estofado de aparência puída. Paredes lúgubres, ele percebeu. Tinta lúgubre de baixa qualidade que fora doada. Mas eles sobreviviam de contribuições, era difícil conseguir financiamento.
— Obrigado — chiou ele, trêmulo, como se fosse um alívio esmagador estar ali e se sentar. — Uau — disse ele, tentando alisar o cabelo; fez com que parecesse que não conseguia e desistiu.
A mulher, bem na frente dele, disse com firmeza:
— Parece péssimo, senhor.
— É — concordaram os dois homens, num tom surpreendentemente animado. — Uma bosta de verdade. O que andou fazendo, deitou na própria merda?
Arctor pestanejou.
— Quem é você? — quis saber um dos homens.
— Dá para ver o que ele é — disse o outro. — Um rebotalho da porra da lata de lixo. Olha. — Ele apontou para o cabelo de Arctor. — Piolhos. É por isso que você coça, cara.
A mulher, calma e sobranceira, mas de maneira nenhuma amistosa, disse:
— Por que veio aqui, senhor?
Para si mesmo, Arctor pensou, porque você tem um contrabandista dos grandes em algum lugar por aqui. E eu sou um dos Homens. E vocês são uns idiotas, todos vocês. Mas, em vez disso, ele murmurou de modo servil, o que evidentemente era o que esperavam:
— Você disse...
— Sim, senhor, pode tomar um café. — A mulher inclinou a cabeça e um dos homens foi obedientemente para a cozinha.
Uma pausa. Depois a mulher se curvou e tocou o joelho dele.
— Sente-se muito mal, não é? — disse ela delicadamente.
Ele só pôde assentir.
— Sente vergonha e repulsa pelo que você é — disse ela.
— É — concordou ele.
— Pelo lixo que você fez de si mesmo. Um esgoto. Enfiando aquela agulha no traseiro dia após dia, injetando no seu corpo...
— Eu não posso mais continuar — disse Arctor. — Este lugar é a única esperança que me ocorre. Um amigo meu vem para cá, eu acho, ele disse que vinha. Um cara negro, uns trinta anos, instruído, muito educado e...
— Vai encontrar a família mais tarde — disse a mulher. — Se estiver qualificado. Precisa passar por nossas exigências, entendeu? E a primeira delas é uma necessidade sincera.
— Eu tenho — disse Arctor. — Uma necessidade sincera.
— Deve estar muito mal para vir parar aqui.
— E estou mesmo — disse ele.
— O quanto você é chapado? Qual é o seu hábito?
— Trinta gramas por dia — disse Arctor.
— Pura?
— É. — Ele assentiu. — Eu guardo num açucareiro na mesa.
— Vai ser dureza. Você vai roer seu travesseiro até as penas a noite toda; só vai haver penas em toda parte quando você acordar. E você terá espuma presa na boca. E vai se sujar como os animais doentes. Está pronto para isso? Entenda que não vamos dar nada a você aqui.
— Tudo bem — disse ele. Isso era um estorvo e ele se sentia inquieto e irritadiço. — Meu amigo — disse ele —, o negro. Ele conseguiu vir para cá? Espero que os canalhas não o tenham pegado no caminho... Ele estava tão acabado, cara, que mal podia se orientar. Ele pensou...
— Não existem relacionamentos pessoais na New-Path — disse a mulher. — Você vai aprender isso.
— É, mas ele conseguiu vir para cá? — disse Arctor. Ele podia ver que estava perdendo tempo. Meu Deus, pensou, isto é pior do que o que fazemos no centro da cidade, essa abordagem. E ela não vai me contar merda nenhuma. E política do lugar, percebeu ele. Como um muro de ferro. Depois que você entra num desses locais, está morto para o mundo. Spade Weeks podia estar sentado depois da divisória, ouvindo e dando gargalhadas, ou não estar aqui ou qualquer coisa entre essas duas. Mesmo com um mandado — que nunca funcionava. As unidades de reabilitação sabiam enrolar, protelando até que um interno procurado pela polícia tenha escapulido por uma porta lateral ou se atirado na fornalha. E nenhum órgão da lei gostava da idéia de revirar um centro de reabilitação: os gritos do público não acabariam nunca.
Hora de desistir de Spade Weeks, decidiu ele, e me livrar dessa. Não surpreende que eles nunca tenham me mandado aqui antes; esses caras não são legais. E depois ele pensou: “Então, no que me diz respeito, eu definitivamente perdi minha principal designação; Spade Weeks não existe mais.”
Vou informar ao sr. E, disse ele a si mesmo, e esperar por outra tarefa. Para o inferno com isso! Ele se levantou rigidamente e disse:
— Vou dar o fora. — Os dois homens tinham voltado, um deles com uma caneca de café, o outro com literatura, aparentemente do tipo instrutiva.
— Está com medo? — disse a mulher, arrogante, com desdém. — Não tem coragem de se prender a uma decisão? De deixar a imoralidade? Vai rastejar para fora daqui de barriga? — Os três olharam para ele com raiva.
— Depois — disse Arctor e andou até a porta para ir embora.
— Porra de drogado — disse a mulher atrás dele. — Não tem coragem, torrou o cérebro, não tem nada. Fuja, pode fugir, a decisão é sua.
— Eu vou voltar — disse Arctor, exasperado. O ambiente daqui o oprimia e, agora que ele estava partindo, tinha se intensificado.
— É possível que a gente não queira você de volta, covarde — disse um dos homens.
— Vai ter de implorar — disse o outro. — Pode ter de implorar muito. E mesmo aí é possível que a gente não queira você.
— Na verdade, não queremos você agora — disse a mulher.
A porta, Arctor parou e se virou para encarar seus acusadores. Ele queria dizer alguma coisa, mas não conseguiu pensar em nada. Eles haviam esvaziado sua mente.
Seu cérebro não funcionou. Nenhum pensamento, nem reações, nenhuma resposta a eles, nem uma fraquinha ocorreu a Arctor.
Estranho, pensou ele, e ficou perplexo.
E saiu do prédio, indo em direção ao carro estacionado.
No que diz respeito a mim, pensou ele, Spade Weeks desapareceu para sempre. Não vou voltar para um lugar desses.
Hora, decidiu ele nauseado, de pedir outra tarefa. De caçar outra pessoa.
Eles são mais durões do que nós.