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— Cavalheiros do Lions Club de Anaheim — disse o homem ao microfone o Condado de Orange nos deu a maravilhosa oportunidade esta tarde, como verão, de ouvir... e depois participar de uma sessão de perguntas e respostas... um agente disfarçado da divisão de narcóticos do Departamento de Polícia do Condado de Orange. — Ele exultava, o homem com seu terno cor-de-rosa de fibra de waffle, gravata plástica amarela, camisa azul e sapatos de couro falso; era um homem com peso demais, idade demais e animado demais mesmo quando havia pouco ou nenhum motivo para ser animado.

Observando-o, o agente disfarçado da divisão de narcóticos sentiu náuseas.

— Agora vocês vão perceber — disse o anfitrião do Lions Club — que mal podem ver esse indivíduo, que está sentado bem à minha direita, porque ele está usando o que se chama um traje misturador, e é esse traje mesmo que ele usa... e, na verdade, deve usar... em algumas, de fato, na maioria de suas atividades diárias de agente da lei. Mais tarde ele explicará por quê.

O público, que espelhava as virtudes do anfitrião de todo jeito possível, observou o indivíduo no traje misturador.

— Esse homem — declarou o anfitrião —, que chamaremos de Fred, porque esse é o codinome com o qual relata as informações que colhe, depois de que veste o traje misturador não pode ser identificado pela voz, nem ao menos por tecnologia de impressão vocal, nem pela aparência. Não acham que ele parece um vago borrão, nada além disso? Não estou certo? — Ele abriu um largo sorriso. Seu público, achando que isso era mesmo divertido, deu seu próprio sorrisinho.

O traje misturador era uma invenção da Bell Laboratories, obtido por acidente por um funcionário chamado S. A. Powers. Alguns anos antes, ele estava fazendo experiências com substâncias desinibidoras que afetam o tecido neural e, numa noite, depois de ter administrado em si mesmo uma injeção intravenosa considerada segura e levemente cuforizante, teve uma queda desastrosa de fluido GABA no cérebro. Subjetivamente, testemunhou uma horripilante atividade de fosfeno projetada na parede de seu quarto, uma montagem que progredia freneticamente a partir do que, na época, ele deduziu que fossem pinturas abstratas da era moderna.

Por cerca de seis horas, em transe, S. A. Powers viu milhares de pinturas de Picasso alternando-se na velocidade de um raio e depois ele se deleitou com Paul Klees, com mais do que o pintor produzira em toda a vida. S. A. Powers, agora vendo telas de Modigliani se sucedendo numa velocidade furiosa, conjecturou (é preciso ter uma teoria para tudo) que os rosa-cruzes estavam irradiando telepaticamente pinturas para ele, provavelmente impulsionadas por sistemas avançados de microrrelé; mas depois, quando as pinturas de Kandinsky começaram a importuná-lo, ele lembrou que o maior museu de arte de Leningrado era especializado nesse tipo de moderno abstrato e concluiu que os soviéticos estavam tentando entrar em contato telepático com ele.

Pela manhã, ele se lembrou de que uma queda drástica no fluido GABA do cérebro normalmente produzia essa atividade de fosfeno; ninguém estava tentando entrar em contato telepático com ele, com ou sem impulsionador de microondas. Mas isso deu a ele a idéia do traje misturador. Basicamente, seu desenho consistia em lentes de quartzo multifacetadas conectadas a um computador miniaturizado cujo banco de memória guardava até um milhão e meio de frações de representações fisionômicas de várias pessoas: homens, mulheres e crianças,, com cada variante codificada e em seguida projetada igualmente, em todas as direções, em uma membrana superfina semelhante a um manto, grande o suficiente para se ajustar a um ser humano médio.

À medida que o computador fazia o circuito pelo banco, ele projetava cada cor de olho, cor de cabelo, formato e tipo de nariz, estrutura dos dentes, configuração da estrutura óssea facial, cada traço concebível — toda a membrana-manto assumia quaisquer características físicas que fossem projetadas em um dado nanossegundo e depois passava à seguinte. Assim, para tornar o traje misturador mais eficaz, S. A. Powers programou o computador para randomizar a seqüência de características dentro de cada conjunto. E, para baixar os custos (os federais sempre gostavam disso), ele encontrou a fonte para o material da membrana em um subproduto de uma grande indústria que já fazia negócios com Washington.

De qualquer forma, o usuário do traje misturador era Todo Mundo e em todas as combinações (até combinações de um milhão e meio de sub-bits) a cada hora. Daí, nenhuma descrição dele — ou dela — tinha sentido. É desnecessário dizer que S. A. Powers alimentou as unidades de computação com suas próprias características fisionômicas, de forma que, enterrado na permutação frenética de traços faciais, os dele vinham à superfície e se combinavam em média, segundo ele calculou, a cada 15 anos por traje, fornecido e remontado, desde que o traje sobrevivesse tanto tempo. Era o mais próximo da imortalidade que ele podia pretender.

— Vamos ouvir o borrão vago! — disse o anfitrião em voz alta e houve um aplauso da massa.

Em seu traje misturador, Fred, que era também Robert Arctor, rosnou e pensou: “Isso é horrível.”

Uma vez por mês, um agente disfarçado da divisão de narcóticos do condado era designado aleatoriamente para falar em reuniões de cabeças-ocas como esta. Hoje era a vez dele. Olhando para seu público, ele percebeu o quanto detestava os caretas. Eles pensavam que tudo estava ótimo. Eles estavam sorrindo. Estavam se divertindo.

Talvez nesse momento os componentes quase incontáveis de seu traje misturador tenham exibido S. A. Powers.

— Mas, para falar a sério por um momento — disse o anfitrião —, este homem aqui... — Ele se interrompeu, tentando se lembrar.

— Fred — disse Bob Arctor. S. A. Fred.

— Fred, isso. — O anfitrião, revigorado, reassumiu, retumbando na direção do público. — Vejam vocês que a voz de Fred é como uma daquelas vozes computadorizadas de robô do banco em San Diego, quando se entra perfeitamente sem tom e artificial. Não deixa qualquer característica em nossa mente, exatamente como acontece quando ele se reporta aos superiores no Programa, é..., de Abuso de Drogas do Condado de Orange. — Ele fez uma pausa sugestiva. — Vejam vocês que esses policiais correm um risco terrível, porque as forças das drogas, como sabemos, penetraram com uma habilidade extraordinária nas várias instâncias da lei em toda a nossa nação, ou podem bem ter penetrado, de acordo com os especialistas mais informados. Assim, para a proteção desses homens dedicados, é necessário esse traje misturador.

Um leve aplauso para o traje misturador. E depois olhares de expectativa para Fred, que se escondia dentro de sua membrana.

— Mas, em sua linha de trabalho no campo — acrescentou por fim o anfitrião enquanto se afastava do microfone para abrir espaço para Fred —, é claro que ele não usa isso. Ele se veste como vocês ou eu, embora, evidentemente, com as roupas hippies daqueles vários grupos da subcultura nos quais ele penetra de forma incansável.

Ele fez um movimento para Fred se levantar e se aproximar do microfone. Fred, Robert Arctor, já fizera isso seis vezes e sabia o que dizer e o que lhe estava reservado: perguntas idiotas e estupidez opaca em graus variados. Uma perda de tempo para ele, além da raiva por esse papel e a eterna sensação de inutilidade.

— Se vocês me vissem na rua — disse ele ao microfone, depois que os aplausos esmoreceram —, diriam: “Lá vai um drogado viciado e doidão.” E sentiriam aversão e se afastariam.

Silêncio.

— Eu não sou como vocês — disse ele. — Não posso ser. Minha vida depende disso. — Na verdade, ele não era assim tão diferente. E, de qualquer modo, ele teria vestido o que vestia diariamente, a trabalho ou não. Ele gostava das roupas que usava. Mas o que ele estava dizendo fora escrito, em linhas gerais, pelos outros e colocado diante dele para que memorizasse. Ele podia se desviar um pouco, mas todos usavam um formato padrão. Introduzido alguns anos antes por um chefe de divisão que queria mostrar serviço, agora se tornara obrigatório.

Ele esperou enquanto absorviam o que acabara de dizer.

— Não vou dizer a vocês — disse ele — o que estou tentando fazer como policial disfarçado, envolvido na identificação de traficantes e na maior parte de toda a fonte das drogas ilegais nas ruas de nossas cidades e corredores de nossas escolas aqui no Condado de Orange. Vou contar a vocês — ele fez uma pausa, como o haviam treinado nas aulas de RP na academia — do que eu tenho medo — concluiu ele.

Isso os fisgou; agora eles eram só olhos.

— Meu medo — disse ele —, dia e noite, é de que nossos filhos, seus filhos e meus filhos... — Novamente ele fez uma pausa. — Eu tenho dois — disse ele. Depois, muito baixinho: — Pequenos, muito pequenos. — E depois ele ergueu a voz enfaticamente: — Mas não pequenos demais para se viciarem, para serem viciados de forma calculada, por lucro, por aqueles que destruiriam esta sociedade. — Outra pausa. — Ainda não sabemos — continuou ele logo em seguida, mas com calma — especificamente quem são estes homens... ou melhor, animais... que pilham nossos filhos, como se estivessem numa selva, como num país estrangeiro e não no nosso. A identidade dos fornecedores dos venenos do lixo que destrói o cérebro, injetado diariamente, tomado por via oral diariamente, fumado diariamente por vários milhões de homens e mulheres... ou melhor, que um dia foram homens e mulheres... aos poucos está sendo revelada. Mas finalmente, se Deus quiser, teremos certeza.

Uma voz do público:

— Acaba com eles!

Outra voz, igualmente entusiasmada:

— Pega os comunas!

Robert Arctor parou. Olhando para eles, para os caretas com seus ternos gordos, suas gravatas gordas, seus sapatos gordos, ele pensou, a Substância D não pode destruir o cérebro deles porque eles não têm cérebro.

— Conte como é — gritou uma voz um pouco menos enfática, uma voz de mulher. Procurando, Arctor localizou uma senhora de meia-idade, não tão gorda, as mãos batendo de ansiedade.

— Todo dia — disse Fred, Robert Arctor, que seja — essa doença cobra seu tributo de nós. No final de cada dia que passa, o fluxo dos lucros... e para onde eles vão, nós... — ele se interrompeu. Mesmo que sua vida dependesse disso, ele não conseguia puxar o resto da frase da memória, embora a houvesse repetido um milhão de vezes, tanto em aula como nas palestras anteriores.

Todos no salão estavam em silêncio.

— Bem — disse ele mas não são os lucros. É outra coisa. O que vocês vêem acontecer.

Eles não notaram qualquer diferença, percebeu ele, embora ele tenha largado o discurso preparado e estivesse divagando, por conta própria, sem a ajuda dos rapazes da RP do Centro Cívico do Condado de Orange. Que diferença fazia, afinal?, pensou ele. E daí? O que realmente faz com que eles saibam ou se importem? Os caretas, pensou ele, moram em seus enormes complexos de apartamentos fortificados guardados por seus seguranças, prontos para abrir fogo em qualquer drogado que suba no muro com uma fronha vazia para roubar em piano ou relógio elétrico ou barbeador ou aparelho de som pelos quais não tiveram de pagar, para poder conseguir sua dose, conseguir a merda que, se não tiverem, talvez eles morram, morram rápida e completamente da dor e do choque da abstinência. Mas, pensou ele, quando se mora em um lugar que parece seguro, seu muro é eletrificado e sua segurança é armada, por que pensar nisso?

— Se vocês fossem diabéticos — disse ele — e não tivessem dinheiro para uma injeção de insulina, roubariam para conseguir o dinheiro? Ou simplesmente morreriam?

Silêncio.

Nos fones de ouvido de seu traje misturador uma vozinha disse: “Acho melhor você voltar ao texto preparado, Fred. Eu o aconselho a fazer isso.”

No microfone em sua garganta, Fred, Robert Arctor, quem quer que fosse, disse: “Eu esqueci.” Só seu superior no Q. G. do Condado de Orange, que não era o sr. F., isto é, Hank, podia ouvir isso. Era um superior anônimo, designado a ele somente para essa ocasião.

“Legaaaaaal”, disse o minúsculo ponto no fone de ouvido. “Vou ler para você. Repita, mas procure transmitir despreocupação.” Uma leve hesitação, um revirar de páginas. “Vamos ver... A cada dia, o fluxo de lucros, para onde eles vão, nós...’ Foi aí que você parou.”

“Eu tenho um bloqueio com esse troço”, disse Arctor. logo vamos identificar’”, disse o ponto do policial, distraído, ‘“e a punição rapidamente virá. E nesse momento eu não gostaria de estar no lugar deles.’”

“Sabe por que eu tenho um bloqueio com esse troço?”, disse Arctor. “Porque é isso que leva as pessoas à droga.” Ele pensou, é por isso que você tropeça e se torna um drogado, esse tipo de coisa. É por isso que você desiste e parte. De desgosto.

Mas então ele olhou mais uma vez para o público e percebeu que para eles não era assim. Essa era a única maneira de alcançar aquela gente. Ele estava falando para patetas. Simplórios mentais. Tinha de ser dito da mesma forma como na primeira série: A de Abacate e Abacate é Redondo.

— D — disse ele em voz alta para o público — é a Substância D. Que significa Desespero e Desilusão, e Desdém, o desdém de seus amigos por você, de você por eles, de todos por todos, isolamento, solidão, ódio e suspeitas mútuas. D — disse ele então — é, por fim, Death, Morte. Slow Death, Morte Lenta. Nós... — Ele se interrompeu. — Nós, os drogados — disse ele —, chamamos assim. — Sua voz ficou rouca e falhou. — Como vocês devem saber. Slow Death. Da cabeça para baixo. Bom, é isso. — Ele voltou à sua cadeira e se sentou novamente. Em silêncio.

“Você deturpou o texto”, disse seu superior, a voz no ponto. “Vá falar comigo em meu escritório quando voltar. Sala 430.”

“É”, disse Arctor. “Eu deturpei.”

Estavam olhando para ele como se ele tivesse urinado no palco diante de todos. Mas ele não tinha certeza do motivo.

Andando pomposamente para o microfone, o anfitrião do Lions Club disse:

— Antes desta palestra, Fred me pediu que fosse principalmente um fórum de perguntas e respostas, com apenas uma pequena declaração introdutória feita por ele. Eu esqueci de mencionar isso. Muito bem — ele levantou a mão direita —, quem será o primeiro, gente?

Arctor de repente se levantou de novo, desajeitado.

— Parece que Fred tem algo mais a dizer — disse o anfitrião, acenando para ele.

Voltando lentamente ao microfone, Arctor disse, de cabeça baixa, falando claramente:

— Só uma coisa. Não os expulsem quando eles se viciarem. Os usuários, os viciados. Metade deles, a maioria deles, em especial as mulheres, não sabe onde entrou nem que está se metendo em alguma coisa. Apenas impeçam as pessoas, qualquer um de nós, de entrar nessa. — Ele ergueu os olhos brevemente. — Olha, eles dissolvem umas pílulas vermelhas de secobarbital em uma taça de vinho, os traficantes, quero dizer... eles dão a bebida a uma garota, uma menor de idade, com oito a dez vermelhas nela, e ela desmaia, e depois eles injetam nela a mistura, que é metade heroína e metade Substância D... — Ele se interrompeu. — Obrigado — disse ele.

Um homem gritou:

— Como vamos deter essa gente, senhor?

— Matem os traficantes — disse Arctor e voltou à sua cadeira.

Ele não teve vontade de voltar direto para o Centro Cívico do Condado de Orange, então vagou por uma das ruas comerciais de Anaheim, inspecionando as lojas de McDonaldburger, os lava-jatos, postos de gasolina, Pizza Huts e outros prodígios.

Vagando sem rumo desse jeito na rua pública com todo tipo de gente, ele sempre tinha a estranha sensação de quem era. Como ele disse ao pessoal do Lions no salão, ele parecia um drogado quando estava sem o traje misturador; ele falava como um drogado; as pessoas à sua volta agora sem dúvida o tomavam por um drogado e reagiam de acordo com isso. Outros drogados — olha aí, pensou ele, “outros”, por exemplo — davam-lhe um olhar de “paz, irmão”, e os caretas, não.

Vista uma batina e mitra de bispo, refletiu ele, e se andar como um bispo e as pessoas se curvarem e se ajoelharem e coisas assim e tentarem beijar seu anel, se não a sua bunda, logo você será um bispo. Por assim dizer. O que é identidade?, ele se perguntou. Onde termina a atuação? Ninguém sabe.

O que realmente estragava o senso que tinha de quem era e o que era acontecia quando os Homens o interrogavam. Quando detetives, patrulheiros ou policiais em geral, qualquer um deles, por exemplo, aproximavam-se lentamente dele pelo meio-fio de uma forma intimidadora enquanto ele andava, analisando-o com um olhar intenso, incisivo, frio e vazio, e depois, em geral, isso não acontecia, evidentemente porque dava na veneta, estacionavam e acenavam para ele.

— Tudo bem, quero ver sua identidade — dizia o policial, estendendo a mão; e depois, enquanto Arctor-Fred-Deus- Sabe-Quem vasculhava o bolso, o policial gritava com ele: “Já foi PRESO?” Ou, como uma variação, acrescentando: “ANTES?” Como se ele estivesse prestes a ir para a cadeia naquele momento.

— O que é que tá pegando? — ele dizia em geral, quando dizia alguma coisa. Uma multidão naturalmente se formava. A maioria achava que ele fora apanhado traficando na esquina. Eles sorriam inquietos e esperavam para ver o que ia acontecer, embora alguns, em geral chicanos, negros ou doidões óbvios, demonstrassem raiva. E depois de um curto intervalo, aqueles que demonstravam raiva começavam a ter consciência de que demonstravam raiva e mudavam rapidamente para uma atitude impassível. Porque todos sabiam que qualquer um que demonstrasse raiva ou inquietação — não importava qual das duas coisas — perto de policiais devia estar escondendo alguma coisa. Os policiais em especial sabiam disso, eram lendários por isso e abordavam essas pessoas automaticamente.

Dessa vez, porém, ninguém incomodou. Muitos doidões estavam em evidência, ele era apenas um entre muitos.

O que eu sou realmente?, perguntou-se ele. Por um momento ele quis seu traje misturador. Depois, pensou, eu podia continuar a ser um borrão vago e as pessoas que passassem na rua aplaudiriam. Vamos ouvir o borrão vago, pensou ele, fazendo uma pequena reprise. Que maneira de conseguir reconhecimento! Como, por exemplo, eles poderiam ter certeza de que não era outro borrão vago e não o borrão certo? Podia ser alguém e não Fred ali dentro ou outro Fred e eles nunca saberiam, nem mesmo quando Fred abrisse a boca e falasse. Eles não saberiam realmente. Nunca saberiam. Podia ser Todo Mundo fingindo ser Fred, por exemplo. Podia ser qualquer um ali, o traje podia até estar vazio. No Q. G. do Condado de Orange, ele podia transmitir uma voz para o traje misturador, animando-o a partir da sala do xerife. Fred, nesse caso, poderia ser qualquer um que por acaso estivesse à sua mesa naquele dia e por acaso pegasse o roteiro e o microfone ou um composto de todos os tipos de caras e suas mesas.

Mas acho que o que eu disse no final, pensou ele, acabou com isso. Que não havia ninguém no escritório. Era sobre isso que os caras no escritório queriam falar comigo.

Ele não ansiava por isso, então continuou a vagar e se arrastar, indo a lugar nenhum, indo a toda parte. No sul da Califórnia não fazia diferença para onde você ia; sempre havia os mesmos McDonaldburgers repetidamente, como uma pista circular que passava por você enquanto você fingia ir a algum lugar. E quando finalmente você sentisse fome e fosse a um McDonaldburger e comprasse um hambúrguer do McDonald, era aquele que lhe venderam da última vez e antes disso e assim por diante, voltando a antes de você nascer, e além disso pessoas cruéis — mentirosas — diziam que era feito de moela de peru.

De acordo com a placa nova, eles agora vendiam o mesmo hambúrguer original cinqüenta bilhões de vezes. Ele se perguntou se era a mesma pessoa. A vida em Ana- heim, na Califórnia, era um comercial reprisado interminavelmente. Nada mudava, só se alastrava mais e mais como um pântano de néon. O que sempre havia de mais fora congelado na permanência havia muito tempo, como se a fábrica automática que produzia esses objetos aos montes estivesse emperrada na posição liga. Como a Terra virou plástico, pensou ele, lembrando-se do conto de fadas “Como o mar virou sal”. Um dia, pensou ele, seria obrigatório que todos vendêssemos hambúrguer do McDonald da mesma forma com que comprávamos; venderemos de um para o outro para sempre em nossa sala de estar. Assim, nem vamos precisar sair.

Ele olhou o relógio. Duas e meia: hora de dar um telefonema. De acordo com Donna, ele podia conseguir, por intermédio dela, talvez uns mil tabletes de Substância D batizada com metanfetamina.

Naturalmente, depois que comprasse, ele levaria a partida para o Abuso de Drogas do condado para que fosse analisada e depois destruída ou o que quer que fizessem com ela. Tomando eles mesmos, talvez, ou assim dizia outra lenda. Ou a venderiam. Mas a compra não era para prendê- la por tráfico; ele tinha comprado muitas vezes dela e nunca a prendera. Não era isso que interessava, prender uma traficante local menor, uma garota que considerava legal e incrível traficar drogas. Metade dos agentes da narcóticos do Condado de Orange sabia que Donna traficava e a reconhecia de vista. Donna vendia às vezes no estacionamento da loja 7-11, na frente do holo-scanner automático que a polícia tinha por ali e escapava impune. De certa forma, Donna não podia ser presa, independentemente do que fizesse e na frente de quem fizesse.

O que representava sua transação com Donna, como todas as anteriores, era uma tentativa de abrir caminho para chegar ao fornecedor de quem ela comprava. E assim, aos poucos, ele aumentava a quantidade do que comprava com ela. No início, ele a cantara — se essa era a palavra — a arranjar dez tabletes para ele, como um favor; coisa de amigos. Depois, mais tarde, ele conseguiu um saco de cem como recompensa, depois três sacos. Agora, se tivesse sorte, podia arranjar mil, o que significava dez sacos. Um dia, ele compraria uma quantidade que estivesse além da capacidade econômica de Donna; ela não poderia adiantar a grana para o fornecedor e garantir a parada. E assim ela perderia, em vez de ter um bom lucro. Eles discutiriam; ela insistiria em que ele adiantasse pelo menos parte do dinheiro; ele se recusaria; ela não podia adiantar sozinha para a sua fonte; o tempo passaria — até em um negócio pequeno cresceria uma certa tensão; todos ficariam impacientes; o fornecedor dela, quem quer que fosse, estaria esperando e irritado porque ela não aparecera. E então um dia, se tudo desse certo, ela desistiria e diria a ele e ao fornecedor: “Olha, é melhor vocês negociarem diretamente. Eu conheço os dois, os dois são legais. Eu garanto os dois. Vou marcar lugar e hora e vocês dois podem se encontrar. Então, de agora em diante, Bob, você pode começar a comprar direto, se vai mesmo comprar essa quantidade.” Porque nessa quantidade ele seria, para todos os fins, um traficante; estavam se aproximando de quantidades de tráfico. Donna acharia que ele estava revendendo a um lucro por centena, uma vez que ele comprava mil de cada vez, pelo menos. Dessa forma ele podia subir a escada e chegar ao próximo da fila, tornar-se traficante como Donna, e depois, mais tarde, talvez subisse outro degrau, e outro, à medida que a quantidade fosse aumentando.

Um dia — esse era o nome do projeto — ele conheceria alguém superior o bastante para valer uma prisão. Isso significava alguém que soubesse de alguma coisa, o que significava alguém que ou tivesse contato com os que fabricavam ou fosse das relações do fornecedor que conhecesse a fonte.

Ao contrário das outras drogas, a Substância D só tinha — ao que parecia — uma fonte. Ela era sintética e não orgânica; portanto, vinha de um laboratório. Podia ser sintetizada e já o fora em experimentos federais. Mas os componentes eram derivados de substâncias complexas quase igualmente difíceis de sintetizar. Teoricamente, a Substância D podia ser fabricada por alguém que tivesse, primeiro, a fórmula e, segundo, capacidade tecnológica para montar uma fábrica. Mas, na prática, o custo era proibitivo. Além disso, quem a inventou e a estava disponibilizando vendia barato demais para haver concorrência. E a ampla distribuição sugeria que, embora existisse uma única fonte, tinha um aparato diversificado, provavelmente uma série de laboratórios em áreas-chave, talvez perto de cada grande centro urbano de usuários de drogas na América do Norte e na Europa. Era um mistério o fato de nenhum deles ter sido localizado, mas suspeitava-se, tanto publicamente e sem dúvida sob sigilo oficial, de que a Agência S. D. — como as autoridades a batizaram arbitrariamente — penetrara em tantos grupos policiais, municipais e nacionais, que aqueles que descobrissem alguma coisa de útil sobre suas operações ou não se importavam, ou não existiam.

Naturalmente ele tinha vários outros caminhos no momento, além de Donna. Outros traficantes que ele pressionou, pedindo progressivamente quantidades maiores. Mas como Donna era sua gatinha — ou ele esperava que fosse —, era mais fácil para ele. Visitá-la, conversar com ela por telefone, levá-la ou convidá-la para sair — esse também era um prazer pessoal. De certa forma, era a linha de menor resistência. Se você tivesse de espionar e informar sobre alguém, melhor que fosse uma pessoa com quem já convivesse normalmente; era menos suspeito e dava menos trabalho. E se você não os visse com freqüência antes de começar sua vigilância, um dia teria de ver, de qualquer forma; no final, acabava dando certo.

Entrando na cabine telefônica, ele fez a chamada.

Ring-ring-ring.

— Alô — disse Donna.

Cada telefone público do mundo era grampeado. Ou, se não fosse, alguma turma em algum lugar largara o grampo havia pouco. As gravações eram alimentadas eletronicamente em cilindros de armazenagem em um local central e de dois em dois dias um policial, que ouvia muitos telefonemas sem ter de sair de sua sala, fazia um relatório impresso. Ele apenas ligava os cilindros de armazenagem e, a um sinal, eles tocavam, pulando todas as gravações inúteis. A maioria das chamadas era inócua. O policial podia identificar prontamente as que porventura não fossem. Essa era a habilidade dele. Era para isso que era pago. Alguns policiais eram melhores do que outros.

Enquanto ele e Donna conversavam, portanto, ninguém estava ouvindo. A gravação seria tocada talvez no dia seguinte de manhã cedo. Se eles discutissem alguma coisa notavelmente ilegal e o policial do monitoramento pegasse, tirariam impressões vocais. Mas só o que ela e ele tinham de fazer era continuar tranqüilos. O diálogo ainda podia ser reconhecido como tráfico de drogas. Entrava em jogo aqui uma certa economia governamental — não valia a pena passar pela confusão de impressões vocais e identificação com transações ilegais de rotina. Havia muita coisa todo dia da semana, em muitos telefones. Donna e ele sabiam disso.

— Como está? — perguntou ele.

—Tudo bem. — Pausa na voz calorosa e rouca de Donna.

— Como está sua cabeça hoje?

— Meio avoada. Meio pra baixo. — Pausa. — Fiquei irritada com meu chefe na loja de manhã. — Donna trabalhava no balcão de uma pequena perfumaria no Gateside Mall, na Costa Mesa, aonde ela ia toda manhã em seu MG. — Sabe o que ele disse? Ele disse que aquele cliente, aquele velho, de cabelo grisalho, que nos enganou com dez pratas... ele disse que foi minha culpa e que vou ter de pagar. Vai sair do meu contracheque. Então vou perder dez pratas sem ter porra nenhuma... desculpe... de culpa.

Arctor disse:

— Ei, posso arranjar alguma coisa com você?

Agora ela parecia soturna. Como se não quisesse. O que era meio decepcionante.

— Quanto... Quanto você quer? Eu não sei.

— Dez deles — disse ele. Como eles haviam combinado, um significava cem; esse era, então, um pedido de mil.

De fachada, se as transações tivessem de acontecer por comunicações públicas, uma boa opção consistia em mascarar uma compra grande com outra aparentemente pequena. Eles podiam ficar negociando para sempre com quantidades assim, sem que as autoridades tivessem algum interesse; caso contrário, as equipes de narcóticos dariam uma busca em apartamentos e casas em cada rua a toda hora do dia e pouco conseguiriam.

— Dez — resmungou Donna, irritada.

— Estou na pior, de verdade — disse ele, como um usuário. Em vez de traficante. — Vou te pagar depois, quando arranjar.

— Não — disse ela rigidamente. — Arranjo pra você grátis. Dez. — Agora, sem dúvida, ela estava especulando se ele estava traficando. Provavelmente estava. — Dez. Por que não? Que tal daqui a três dias?

— Não dá mais cedo?

— Tem os...

— Tudo bem — disse ele.

— Vou ficar sem nada.

— A que horas?

Ela calculou.

— Digamos umas oito da noite. Olha, eu quero te mostrar um livro que peguei, alguém deixou na loja. E legal. Tem a ver com lobos. Sabe o que os lobos fazem? Os machos? Quando derrotam o inimigo, eles não matam, eles urinam nele. É verdade! Eles ficam ali, mijam no inimigo derrotado e depois se separam. E isso. Eles brigam principalmente por território. E pelo direito de trepar. Sabe como é.

Arctor disse:

— Eu mijei numas pessoas faz um tempo.

— Tá brincando! Como foi isso?

— Metaforicamente — disse ele.

— Não do jeito de sempre?

— Quer dizer — disse ele —, eu disse a eles... — Ele se interrompeu. Falando demais; uma merda. Meu Deus, pensou ele. — Aqueles caras — disse ele — tipo motoqueiros, saca? Pelo Fosters Freeze? Eu estava passando por ali e eles disseram um troço obsceno. Então eu me virei e disse uma coisa do tipo... — Ele não conseguiu pensar em nada por um momento.

— Pode me contar — disse Donna —, mesmo que seja supergrosso. Você tem de ser supergrosso com esses motoqueiros ou eles não entendem.

Arctor disse:

— Eu disse que um dia desses eu ia comer uma das galinhas deles.

— Essa eu não entendi.

— Bom, uma galinha é uma garota que...

— Ah, sim. Tudo bem. Agora entendi. Eca.

— Eu te vejo na minha casa, como você disse — disse ele.

— Tchau. — Ele começou a desligar.

— Posso levar o livro dos lobos pra te mostrar? E de Konrad Lorenz. A capa diz que ele era a maior autoridade em lobos do mundo. Ah, sim, mais uma coisa. Seus colegas de quarto foram à loja hoje. Ernie não-sei-das-quantas e aquele Barris. Procurando por você, se você podia...

— O quê? — disse Arctor.

— Seu cefalocromoscópio que te custou 900 dólares, que você sempre liga e toca quando chega em casa... Ernie e Barris estavam tagarelando uma coisa assim. Eles tentaram usar hoje e não funcionou. Sem cor nem nenhum padrão cef, nada. Então eles pegaram o kit de ferramentas de Barris e abriram a base.

— Mas o que é que você está dizendo! — disse ele, indignado.

— E eles disseram que estava todo ferrado. Sabotado. Fios cortados e uma coisa meio estranha... sabe como é, coisas anormais. Curtos e peças quebradas. Barris disse que ele tentou...

— Vou para casa agora — disse Arctor e desligou. A coisa que eu mais valorizo, pensou ele com amargura. E aquele idiota do Barris mexendo nela. Mas não posso ir para casa agora, percebeu ele. Tenho de passar na New-Path para ver o que andaram aprontando.

Essa era sua designação: obrigatória.