14
Recorte de revista preso com tachas na parede da sala de estar na Samarkand House, o prédio residencial da New-Path em Santa Ana, Califórnia:
“Quando o paciente senil acordar pela manhã e perguntar pela mãe, lembre a ele que ela morreu há muito tempo, que ele tem mais de oitenta anos, mora em um asilo e que estamos em 1992, e não em 1913, e que ele deve enfrentar a realidade e o fato de que...”
Um interno tinha rasgado o resto do recorte; terminava ali. Evidentemente tinha sido retirado de uma revista para profissionais de enfermagem; era um papel acetinado.
— A primeira coisa que você vai fazer aqui — disse-lhe George, o membro da equipe, levando-o pelo corredor — são os banheiros. O piso, a pia, especialmente a privada. São três banheiros nesta estrutura, um em cada andar.
— Tudo bem — disse ele.
— Aqui está um esfregão. E um balde. Acha que sabe como fazer isso? Limpar um banheiro? Comece e vamos observar você e lhe dar as dicas.
Ele levou o balde para a banheira ao fundo, colocou sabão nele e depois abriu a água quente. Só o que ele podia ver era a espuma da água diretamente diante de si, a espuma e o rugido.
Mas ele podia ouvir a voz de George, fora de vista.
— Não encha demais, porque não vai conseguir levantar o balde.
— Tudo bem.
— Você tem um probleminha para saber onde está — disse George depois de um tempo.
— Estou na New-Path. — Ele baixou o balde no chão e o balde salpicou água; ele ficou parado, olhando para baixo.
— New-Path onde?
— Em Santa Ana.
George ergueu o balde para ele, mostrando-lhe como pegar a alça de arame e balançando-o enquanto ele andava.
— Mais tarde acho que vamos transferir você para a ilha ou para uma das fazendas. Primeiro, você tem de passar pela lavagem da louça.
— Posso fazer isso — disse ele. — Lavar a louça.
— Você gosta de animais?
— Claro.
— Ou de agricultura?
— Animais.
— Veremos. Vamos esperar até te conhecer melhor. De qualquer modo, levará algum tempo; todo mundo fica lavando a louça por um mês. Todo mundo que entra pela porta.
— Eu meio que gostaria de morar no campo — disse ele.
— Mantemos vários tipos de instalações. Vamos decidir o que é mais adequado. Sabe de uma coisa, você pode fumar aqui, mas não estimulamos isso. Aqui não é a Synanon; lá eles não te deixam fumar.
Ele disse:
— Eu não tenho mais cigarro.
— Damos a cada interno um maço por dia.
— Dinheiro? — Ele não tinha.
— Sem custos. Nunca tem custo. Você paga por seu custo. — George pegou o esfregão, enfiou-o no balde, mostrou a ele como esfregar.
— Como é que não tenho dinheiro algum?
— Pelo mesmo motivo que não tem carteira nem sobrenome. Será devolvido a você, tudo será devolvido. É o que todos queremos fazer: te devolver o que foi tirado de você.
Ele disse:
— Esses sapatos não cabem em mim.
— Dependemos de doações, mas só novas, de lojas. Mais tarde talvez a gente possa tirar suas medidas. Experimentou todos os sapatos da caixa de papelão?
— Sim — disse ele.
— Tudo bem, este é o banheiro daqui do porão, faça este primeiro. Depois, quando tiver acabado e realmente bem-feito, realmente perfeito, suba... leve o esfregão e o balde... e vou te mostrar o banheiro lá de cima e, depois disso, o banheiro do terceiro andar. Mas você tem de pedir permissão para subir daqui para o terceiro andar, porque é lá que moram as mulheres, então primeiro peça a alguém da equipe, nunca suba lá sem permissão. — Ele lhe deu um tapinha nas costas. — Tudo bem, Bruce? Entendeu?
— Tudo bem — disse Bruce, esfregando.
George disse:
— Vai fazer esse tipo de trabalho, limpar estes banheiros, até que possa fazer um bom trabalho. Não importa o que uma pessoa faz, é o que ela consegue, para que possa fazer direito e se orgulhar disso.
— Vou voltar a ser como eu era antes? — perguntou Bruce.
— Foi o que você era que te trouxe aqui. Se você se tornar o que era novamente, mais cedo ou mais tarde vai vir para cá de novo. E possível que da próxima vez nem consiga vir para cá. Não é assim? Você tem sorte por estar aqui, quase não conseguiu vir.
— Uma pessoa me trouxe para cá.
— Você tem sorte. Da próxima vez, podem não trazer. Podem te largar no acostamento da via expressa em algum lugar e mandar tudo para o inferno.
Ele continuou esfregando.
— A melhor maneira é fazer primeiro as pias, depois a banheira, depois as privadas e, por último, o chão.
— Tudo bem — disse ele e guardou o esfregão.
—Tem um jeitinho de fazer isso. Você vai acabar sabendo.
Concentrando-se, ele viu diante de si rachaduras no esmalte da pia; passou desinfetante nas rachaduras e abriu a água quente. O vapor subiu e ele ficou parado nele, imóvel, enquanto o vapor aumentava. Ele gostou do cheiro.
Depois do almoço, ele se sentou na sala, tomando café. Ninguém falou com ele, porque entendiam que estava passando pela crise de abstinência. Sentado, bebendo de sua caneca, ele podia ouvir a conversa dos outros. Todos se conheciam.
— Se você pudesse ver de dentro de um morto que ainda pudesse ver, mas não pudesse controlar os músculos dos olhos, então você não ia poder focalizar. Não ia poder virar a cabeça nem os globos oculares. Só o que podia fazer era esperar até que um objeto passasse por você. Você ficaria congelado. Só esperando. Seria uma cena terrível.
Ele olhou para o vapor do café, só isso. O vapor subia, ele gostava do cheiro.
— Oi!
Certa mão o tocou. De uma mulher.
— Oi!
Ele olhou um pouco de lado.
— Como está?
— Tudo bem — disse ele.
— Sente-se melhor?
— Eu estou bem — disse ele.
Ele via seu café e o vapor e não olhou para ela, nem para nenhum deles; ele olhava para baixo, sem parar, para o café. Ele gostava do calor e do cheiro.
— Você ia poder ver alguém quando passasse bem na sua frente e só nessa hora. Ou para o lado para que você estivesse olhando e não para outro. Se uma folha ou coisa assim flutuasse em cima de seu olho, seria só isso, para sempre. Só uma folha. Mais nada, você não ia poder se virar.
— Tudo bem — disse ele, segurando o café, a caneca nas duas mãos.
— Imagine perceber as coisas, mas não estar vivo. Ver e até saber, mas não estar vivo. Só olhar. Reconhecer, mas não estar vivo. Uma pessoa pode morrer e ainda continuar. As vezes, o que olha para você, dos olhos de uma pessoa, talvez tenha morrido na infância. O que está morto ali ainda olha. Não é só o corpo olhando para você sem nada dentro dele; ainda existe alguma coisa ali, mas morreu e só fica olhando e olhando, não pode parar de olhar.
Outra pessoa disse:
— E isso que significa morrer, não ser capaz de parar de olhar para o que está na sua frente. Uma maldita coisa colocada bem ali e você não pode fazer nada, como escolher ou mudar alguma coisa. Você só pode aceitar o que puseram ali do jeito como é.
— Você gostaria de olhar uma lata de cerveja por toda a eternidade? Podia não ser assim tão ruim. Não haveria nada a temer.
Antes do jantar, que era servido na sala de jantar, eles tiveram a hora do Conceito. Vários Conceitos eram colocados no quadro-negro por diferentes funcionários e discutidos.
Ele se sentou com as mãos cruzadas no colo, vendo o chão e ouvindo a grande cafeteira se aquecer; fazia wup- wup e o som o assustava.
— Viver e não viver as coisas são propriedades intercambiantes.
Sentados aqui e ali em cadeiras dobráveis, todos discutiram isso. Eles pareciam familiarizados com o Conceito. Evidentemente havia partes do modo de pensar da New- Path, talvez até memorizada e depois repensada insistentemente. Wup-wup.
— O impulso para não viver as coisas é mais forte do que o de viver as coisas.
Eles discutiram sobre isso. Wup-wup. O barulho da cafeteira ficou cada vez mais alto e o assustou mais; ele, porém, não se mexeu nem olhou, ficou sentado onde estava, ouvindo. Era difícil ouvir o que estavam dizendo, por causa da cafeteira.
— Estamos incorporando demais um impulso para não viver dentro de nós. E o intercâmbio... Alguém pode dar uma olhada na maldita cafeteira para ver por que está fazendo isso?
Houve uma interrupção enquanto alguém examinava a cafeteira. Ele ficou sentado olhando para baixo, esperando.
— Vou escrever isto novamente. Estamos trocando uma vida passiva demais pela realidade que está fora de nós.
— Não quer um café? — Uma voz atrás dele e alguém o tocou. — Ned? Bruce? Qual é o seu nome mesmo? Bruce?
— Tudo bem. — Ele se levantou e os seguiu até a cafeteira. Ele esperou pela vez. Eles observaram enquanto ele colocava creme e açúcar na caneca. Eles o observaram voltar à sua cadeira, a mesma cadeira; ele se certificou de encontrá-la, para se sentar novamente e continuar ouvindo. O café quente, seu vapor, fez com que ele se sentisse bem.
— Atividade não significa necessariamente vida. Os quasares são ativos. E um monge meditando não é inanimado.
Ele ficou sentado olhando a caneca vazia; era uma caneca de porcelana. Virando-a, ele descobriu um impresso no fundo e o esmalte rachado. A caneca parecia velha, mas tinha sido feita em Detroit.
— O movimento circular é a forma preferida do universo.
Outra voz disse:
— Tempo.
Ele sabia a resposta para isso. O tempo é redondo.
— Sim, vamos fazer uma pausa agora, mas alguém tem um último comentário a fazer?
— Bom, seguir a linha de menor resistência, essa é a regra da sobrevivência. Seguir e não liderar.
Outra voz, mais velha, disse:
— Sim, os seguidores sobrevivem ao líder. Como aconteceu com Cristo. E não o contrário.
— É melhor comermos, porque Rick pára de servir exatamente às cinco e cinqüenta.
— Vamos falar disso no Jogo, não agora.
Cadeiras rangeram, estalaram. Ele se levantou também, levando a caneca velha para a bandeja das outras, e se juntou aos demais na fila. Ele podia sentir o cheiro de roupas velhas à sua volta, um cheiro bom, mas frio.
Parecia que estavam dizendo que a vida passiva era boa, pensou ele. Mas não havia essa história de vida passiva. É uma contradição.
Ele se perguntou o que era a vida, o que ela significava, talvez ele não entendesse.
Tinha chegado um monte enorme de ostentosas roupas doadas. Várias pessoas ficaram com braçadas e algumas tinham vestido camisas, experimentando-as e obtendo aprovação.
— Ei, Mike. Você é um cara esperto.
No meio da sala de estar, havia um homem baixo e atarracado, de cabelo crespo e cara de pug; ele mexeu no cinto, carrancudo.
— Como se lida com isto aqui? Não entendo como se faz para usar. Por que não fica mais frouxo? — Ele tinha um cinto de sete centímetros, sem fivela, com aros de metal, e não sabia como apertar os aros. Olhando em volta, com os olhos piscando, ele disse: — Acho que me deram um que ninguém pode usar.
Bruce apareceu atrás dele, estendeu a mão e fechou o cinto, passando-o pelos aros.
— Obrigado — disse Mike. Ele vasculhou várias camisas sociais, os lábios franzidos. — Quando eu conseguir me casar, vou usar uma dessas.
— Legal — disse ele.
Mike andou até duas mulheres na outra ponta da sala; elas sorriram. Segurando uma camisa florida vinho contra o peito, Mike disse:
— Vou à cidade.
— Tudo bem, vá e trate de jantar! — gritou o diretor da casa animadamente com sua voz poderosa. Ele piscou para Bruce. — Como está se saindo, colega?
— Bem — disse Bruce.
— Parece que você pegou uma gripe.
— É — concordou ele —, foi de sair. Posso tomar um Dristan ou...
— Nada de substâncias químicas — disse o diretor da casa. — Nada. Trate de entrar e comer. Como está seu apetite?
— Melhor — disse ele, seguindo. Eles sorriram para ele, das mesas.
Depois do jantar, ele se sentou no meio da escada para o segundo andar. Ninguém falou com ele, estava acontecendo uma reunião. Ele ficou sentado ali até que tivesse terminado. Todos surgiram, enchendo o corredor.
Ele sentiu que o viam e talvez alguns tenham falado com ele. Ele ficou sentado na escada, curvado, os braços em volta do corpo, vendo e vendo. O carpete escuro diante de seus olhos.
Logo não havia mais vozes.
— Bruce?
Ele não se mexeu.
— Bruce? — Certa mão o tocou.
Ele não disse nada.
— Bruce, venha para a sala. Você devia estar em sua cama, mas olha só, queremos conversar com você. — Mike o levou, acenando para que ele o seguisse. Ele acompanhou Mike pela escada e entrou na sala, que estava vazia. Quando estavam na sala, Mike fechou a porta.
Sentando-se em uma poltrona funda, Mike indicou-lhe para se sentar de frente para ele. Mike parecia cansado, seus olhos pequenos estavam anelados e ele esfregou a testa.
— Estou acordado desde as cinco e meia da manhã — disse Mike.
Uma batida; a porta começou a se abrir.
Muito alto, Mike gritou:
— Não quero que ninguém entre aqui, estamos conversando. Entendeu?
Murmúrios. A porta se fechou.
— Sabe de uma coisa, é melhor você trocar de camisa algumas vezes por dia — disse Mike. — Você está suando de forma meio assustadora.
Ele assentiu.
— De que parte do estado você é?
Ele nada disse.
— Você vai me procurar a partir de agora quando estiver se sentindo mal desse jeito. Eu passei pela mesma coisa, há um ano e meio. Eles costumavam me levar nos carros deles. Membros da equipe. Você conheceu Eddie? O cara alto e magro que humilha todo mundo? Ele me levou por oito dias, andando por aí de carro. Nunca me deixou sozinho. — Mike gritou de repente: — Quer sair daqui? Estamos conversando. Vá ver TV. — Sua voz diminuiu e ele olhou para Bruce. — Às vezes, você tem de fazer isso. Nunca deixar alguém sozinho.
— Entendi — disse Bruce.
— Bruce, cuidado para não tirar a própria vida.
— Sim, senhor — disse Bruce, agora olhando-o.
— Não me chame de senhor!
Ele assentiu.
— Você estava na prisão, Bruce? Era isso? Você entrou nessas coisas na prisão?
— Não.
— Você se aplicava ou tomava?
Ele não fez qualquer som.
— “Senhor” — disse Mike. — Eu cumpri, eu mesmo, dez anos na prisão. Uma vez vi oito caras em nossa fila de celas cortarem a garganta em um dia. A gente dormia com os pés na privada, nossas celas eram muito pequenas. Isso é que é uma prisão, você dorme com os pés na privada. Nunca esteve numa prisão, não é?
— Não — disse ele.
— Mas, por outro lado, vi prisioneiros de oitenta anos ainda felizes por estarem vivos e esperando continuar vivos. Eu me lembro de quando eu era drogado e tomava pico; comecei a me aplicar quando era adolescente. Não fazia mais nada. Eu me aplicava e depois continuei por dez anos. Tomei tanto pico... heroína e M juntas... que nunca fazia mais nada, nunca via mais nada. Agora estou fora dessa, saí da prisão e estou aqui. Sabe o que eu mais percebi? Sabe qual é a grande diferença que eu percebi? Agora posso andar pela rua lá fora e ver alguma coisa. Posso ouvir a água quando vamos à floresta... Você vai ver nossas outras instalações mais tarde, fazendas e assim por diante. Posso andar pela rua, a rua comum, e ver os cachorrinhos e os gatos. Eu nunca havia visto. Só o que eu via era a droga. — Ele olhou o relógio de pulso. — Então — acrescentou ele — entendo como você se sente.
— É difícil — disse Bruce — largar.
— Todo mundo aqui largou. É claro que alguns voltam. Se você sair daqui, vai voltar. Você sabe disso.
Ele assentiu.
— Ninguém aqui teve uma vida fácil. Não estou dizendo que a sua vida tem sido fácil. Eddie diria isso. Ele ia te dizer que seus problemas são fichinha. Os problemas de ninguém são fichinha. Sei como você se sente mal, mas eu já me senti assim. Agora me sinto muito melhor. Quem é seu colega de quarto?
— John.
— Ah, sim. John. Então você deve dormir no porão.
— Eu gosto de lá — disse ele.
— É, lá é quentinho. Você deve sentir muito frio. Mais do que nós, e eu lembro que sentia; eu tremia o tempo todo e borrava minhas calças. Bom, vou te contar, você não vai ter de passar por isso de novo, se ficar aqui na New-Path.
— Quanto tempo? — disse ele.
— Pelo resto da vida.
Bruce ergueu a cabeça.
— Eu não posso ir embora — disse Mike. — Eu voltaria para a droga se saísse daqui. Tenho muitos amigos lá fora. Eu voltaria para a esquina de novo, traficando e me aplicando, e depois ia voltar para a prisão por 20 anos. Sabe de uma coisa... olha... eu tenho 35 anos e vou me casar pela primeira vez. Já conheceu a Laura? A minha noiva?
Ele não teve certeza.
— Uma mulher bonita, rechonchuda. Atraente.
Ele assentiu.
— Ela tem medo de sair. Alguém tem de ir com ela. Nós vamos ao zoológico... Vamos levar o filhinho do diretor executivo ao zoológico de San Diego na semana que vem e Laura está apavorada. Mais assustada do que eu.
Silêncio.
— Ouviu o que eu disse? — disse Mike. — Que estou com medo de ir ao zoológico?
— Sim.
— Eu nunca fui ao zoológico, pelo que me lembro — disse Mike. — O que a gente faz num zoológico? Talvez você saiba.
— Olha jaulas e áreas cercadas.
— Que tipo de animais eles têm por lá?
— De todo tipo.
— Os selvagens, eu acho. Normalmente os selvagens. E os exóticos.
— No zoológico de San Diego eles têm quase todos os animais selvagens — disse Bruce.
— Eles têm um daqueles... como é mesmo? Coalas.
— Têm.
— Eu vi num comercial da TV — disse Mike. — Um urso coala. Eles pulam. Parecem de pelúcia.
Bruce disse:
— O velho ursinho de pelúcia, que as crianças têm, que foi criado com base no coala, na década de 20.
— É isso mesmo. Acho que você deve ir à Austrália para ver um coala. Ou agora eles estão extintos?
— Tem muitos na Austrália — disse Bruce —, mas a exportação é proibida. Vivos ou a pele. Eles quase foram extintos.
— Eu nunca fui a lugar algum — disse Mike —, a não ser quando levei uns trecos do México para Vancouver, na Colúmbia Britânica. Eu sempre pegava a mesma rota, então nunca via nada. Eu só dirigia muito rápido para terminar com aquilo. Eu dirigia um dos carros da fundação. Se você se sentir assim, se você se sentir muito mal, eu passeio de carro com você. Eu te levo e a gente pode conversar. Eu não me importo. Eddie e uns outros que não estão aqui agora fizeram isso comigo. Eu não me importo.
— Obrigado.
— Agora nós dois temos de ir dormir. Eles o fizeram arrumar as coisas na cozinha para de manhã? Colocar as mesas e servir?
— Não.
— Então você tem de dormir no mesmo horário em que eu. Te vejo no café-da-manhã. Você fica na minha mesa e eu te apresento a Laura.
— Quando vocês vão se casar?
— Daqui a um mês e meio. Será um prazer para a gente se você for. E claro que vai ser aqui no prédio, então todos vão comparecer.
— Obrigado — disse ele.
Ele ficou sentado no Jogo e eles gritavam com ele. Rostos, todos eles, gritando; ele olhou para baixo.
— Sabe o que ele é? Um puxa-saco! — Uma voz estridente fez com que ele olhasse. Entre as pavorosas distorções dos gritos, havia uma garota chinesa berrando.
— Você é um puxa-saco, é isso que você é!
— Dá pra se foder? Dá pra você se foder? — entoaram os outros para ele, enroscados em uma roda no chão.
O diretor executivo, de camisa vermelha e calça rosa, sorriu. Olhos como pequenas fendas brilhantes, feito os de um espectro. Balançando-se, as pernas compridas por baixo do corpo, sem uma almofada.
— Vamos ver você se foder!
O diretor executivo parecia estar gostando quando seus olhos viram uma coisa irromper; seus olhos cintilaram e se encheram de alegria. Como um louco dramático, de uma corte antiga, cheio de habilidade, colorido, ele olhou em volta e gostou. E depois, de vez em quando, a voz dele trinava, irritante e monótona, como um ruído metálico. Uma dobradiça mecânica raspando.
— O puxa-saco! — berrou a chinesa para ele; ao lado dela, outra garota batia os braços e inchava as bochechas, plop-plop. — Aqui! — berrou a chinesa, girando para projetar o traseiro para ele, apontando-o e berrando para ele: — Beija isto aqui, então, puxa-saco! Ele quer beijar as pessoas, beija isto, puxa-saco!
— Vamos ver você se foder! — entoou a família. — Bate uma punheta, puxa-saco!
Ele fechou os olhos, mas os ouvidos ainda escutavam.
— Seu cafetão — disse o diretor executivo lentamente para ele, monotonamente. — Seu fodido. Seu caralho. Seu merda. Monte de bosta. Seu... — e assim por diante.
Os ouvidos dele ainda captavam sons, mas eles se misturavam. Ele olhou para cima mais uma vez quando percebeu a voz de Mike, audível durante uma calmaria. Mike estava sentado, olhando impassivelmente para ele, um pouco ruborizado, o pescoço duro no colarinho apertado demais da camisa social.
— Bruce — disse Mike —, qual é o problema? O que te trouxe aqui? O que você quer nos dizer? Pode nos contar alguma coisa sobre você?
— Cafetão! — gritou George, quicando como uma bola de borracha. — O que você era, cafetão?
A chinesa deu um pulo, guinchando:
— Conta aí, seu cafetão de puta de boquete, seu beija- cu, seu fodido!
Ele disse:
— Eu sou detetive.
— Seu monte de bosta — disse o diretor executivo. — Seu covarde. Seu vômito. Seu babaca. Seu buceta.
Ele agora não ouvia nada. E se esqueceu do significado das palavras e, por fim, das próprias palavras.
Só que ele sentiu Mike observando-o, observando e ouvindo, sem escutar nada; ele não sabia, ele não se lembrava, ele pouco sentia, ele se sentia mal, ele queria ir embora.
O Vácuo nele crescia. E, na realidade, ele estava um pouco feliz.
Era o fim do mesmo dia.
— Olha aqui — disse uma mulher. — E aqui que guardamos os caras.
Ele ficou com medo enquanto ela abria a porta. A porta caiu de lado e o barulho escapou do quarto; o volume o surpreendeu, mas ele viu muitas criancinhas brincando.
Nessa tarde, ele viu dois velhos sendo alimentados com leite e comida para crianças, sentados em um pequeno nicho separado perto da cozinha. Rick, o cozinheiro, dava o alimento infantil aos dois velhos primeiro, enquanto todos esperavam na sala de jantar.
Sorrindo para ele, uma chinesa, levando pratos para a sala de jantar, disse:
— Gosta de crianças?
— Gosto — disse ele.
— Pode ficar sentado com as crianças e comer com elas.
— Ah — disse ele.
— Vai poder alimentá-las elas mais tarde, tipo daqui a um ou dois meses. — Ela hesitou. — Quando tivermos certeza de que você não vai bater nelas. Temos uma regra: as crianças não apanham por nada do que fizerem.
— Tudo bem — disse ele. Ele sentiu vontade de viver, olhando as crianças comerem; ele se sentou e um dos menores engatinhou para o colo dele. Ele começou a dar colheradas de comida à criança. Ele e a criança sentiam, pensou ele, o mesmo calor. A chinesa sorriu para ele e depois passou com os pratos para a sala de jantar.
Por um bom tempo ele ficou sentado entre as crianças, segurando primeiro uma e depois outra. Os dois velhos brigaram com as crianças e criticaram o modo como o outro se alimentava. Pedaços e nacos e manchas de comida cobriam a mesa e o chão; sobressaltado, ele percebeu que as crianças tinham sido alimentadas e estavam indo para o grande quarto de brincar, para ver desenhos animados na TV. Desajeitado, ele se curvou para limpar a comida cuspida.
— Não, esse trabalho não é seu! — disse um dos idosos agudamente. — Eu é que tenho de fazer isso.
— Tudo bem — concordou ele, levantando-se, batendo a cabeça na beira da mesa. Ele segurou comida cuspida na mão e olhou para ela, surpreso.
— Vá ajudar a limpar a sala de jantar! — disse o outro velho a ele. Ele tinha um leve problema de fala.
Um dos ajudantes de cozinha, alguém que lavava a louça, disse a ele de passagem:
— Você precisa de permissão para se sentar com as crianças.
Ele assentiu, parado ali, confuso.
— Isso é para os caras velhos — disse o lavador de pratos. — Bancar a babá. — Ele riu. — Eles não conseguem fazer mais nada. — Ele continuou andando.
Restava uma criança. Ela o analisou, os olhos grandes, e perguntou a ele:
— Qual é o seu nome?
Ele nada respondeu.
— Eu perguntei o seu nome.
Estendendo a mão cautelosamente, ele tocou um pedaço de carne na mesa. Agora estava frio. Mas, ciente da criança ao lado dele, ele ainda se sentia quente; ele a tocou na cabeça, brevemente.
— Meu nome é Thelma — disse a criança. — Você esqueceu seu nome? — Ela deu um tapinha nele. — Se você esqueceu seu nome, pode escrever na sua mão. Quer que eu te mostre? — Ela deu um tapinha nele de novo.
— Não vai sair? — ele perguntou a ela. — Se você escrever na sua mão, na primeira vez em que fizer alguma coisa ou tomar um banho vai sair.
— Ah, entendi. — Ela assentiu. — Bom, você pode escrever na parede, em cima da sua cabeça. No seu quarto, onde você dorme. No alto, onde não vai poder ser lavado. E depois, quando você quiser saber seu nome...
— Thelma — murmurou ele.
— Não, esse é o meu nome. Você tem um nome diferente. E esse é um nome de menina.
— Vamos ver — disse ele, meditando.
— Se eu te encontrar de novo, vou te dar um nome — disse Thelma. — Vou arranjar um nome pra você. Tá?
— Você não mora aqui? — disse ele.
— Moro, mas minha mãe pode sair. Ela está pensando em levar a gente, eu e meu irmão, e ir embora.
Ele assentiu. Parte do calor o deixou.
De repente, por nenhum motivo que ele pudesse ver, a criança se afastou correndo.
Eu devia saber o meu nome, pensou ele, é minha responsabilidade. Ele examinou a mão e se perguntou por que estava fazendo isso; não havia nada para ver. Bruce, pensou ele. E esse o meu nome. Mas deve haver nomes melhores do que esse, pensou ele. O calor que restava aos poucos desapareceu, como a criança.
Ele se sentiu sozinho, estranho e perdido de novo. E não muito feliz.
* * *
Um dia Mike Westaway conseguiu ser enviado para buscar uma carga de produtos semi-estragados, doados por um supermercado da cidade à New-Path. Porém, depois de se certificar de que nenhum membro da equipe o tivesse seguido, ele deu um telefonema e encontrou-se com Donna Hawthorne em uma lanchonete do McDonalds.
Eles se sentaram juntos na calçada, com Coca-Colas e hambúrgueres entre eles na mesa de madeira.
— Já conseguimos domar o cara? — perguntou Donna.
— Sim — disse Westaway. Mas ele pensou: O cara está tão ferrado. Será que isso importa? Eu me pergunto se conseguimos alguma coisa. E, no entanto, tem de ser assim.
— Não estão paranóicos com ele.
— Não — disse Mike Westaway.
Donna disse:
— Está pessoalmente convencido de que eles estão desenvolvendo o troço?
— Eu não. Não é no que eu acredito. Eles sim. — Aqueles que nos pagam, pensou ele.
— O que significa o nome?
— Mors ontologica. Morte do espírito. A identidade. A natureza essencial.
— Ele será capaz de agir?
Westaway viu os carros e as pessoas passando; ele ficou olhando, mal-humorado, enquanto remexia na comida.
— Na verdade, você não sabe.
— Nunca podemos saber, até que acontece. Uma lembrança. Algumas células cerebrais queimadas que palpitam. Como um reflexo. Reage, não age. Só podemos esperar. Lembrando o que disse Paulo na Bíblia: fé, esperança e abrir mão de seu dinheiro. — Ele olhou com atenção a jovem bonita, de cabelos pretos, na frente dele e pôde perceber, no rosto inteligente de Donna, por que Bob Arctor — não, pensou ele, eu sempre tenho de pensar nele como Bruce. Caso contrário, vou deixar escapar que sei demais: coisas que eu não devo, que não posso saber. Por que Bruce pensava tanto nela. Pensava quando era capaz de pensar.
— Ele foi muito bem treinado — disse Donna, no que pareceu a ele uma voz de desamparo extraordinário. E ao mesmo tempo uma expressão de tristeza cruzou o rosto dela, lhe tensionando e arqueando as linhas da face. — Como um custo a ser pago — disse ela então, meio para si mesma, e bebeu a Coca-Cola.
Ele pensou: “Mas não tem outro jeito.” Para entrar lá. Eu não posso entrar. Isso agora está estabelecido; pense em quanto tempo eu andei tentando. Eles só deixam entrar uma casca ferrada como o Bruce. Inofensivo. Ele teria de ser... como ele é. Ou eles não assumiriam o risco. E a política deles.
— O governo cobra um quinhão apavorante — disse Donna.
— A vida cobra um quinhão apavorante.
Erguendo os olhos, ela o confrontou, numa irritação sombria.
— Nesse caso, o governo federal. Especificamente. De você, de mim. De... — Ela se interrompeu. — Do que era o meu amigo.
— Ele ainda é seu amigo.
Furiosa, Donna disse:
— O que resta dele.
O que resta dele, pensou Mike Westaway, ainda está procurando por você. De certo modo. Ele também estava triste. Mas o dia estava lindo, as pessoas e os carros o animavam, o ar tinha um cheiro bom. E havia a perspectiva de sucesso; isso o animava acima de tudo. Eles tinham chegado a esse ponto. Podiam percorrer o resto do caminho.
Donna disse:
— Acho mesmo que não há nada mais terrível do que sacrificar alguém ou alguma coisa, um ser vivo, sem que ele sequer tome conhecimento. Se ele soubesse. Se entendesse e se dispusesse a fazer. Mas... — Ela gesticulou. — Ele não sabe, ele nunca soube. Ele não foi voluntário...
— Claro que foi. Era o trabalho dele.
— Ele não tinha idéia disso e não tem a menor idéia agora, porque agora não tem idéia alguma. Você sabe disso tão bem quanto eu. E nunca mais na vida, enquanto viver, ele vai ter idéias. Só reflexos. E isso não acontece por acaso, era para ser assim. Então temos esse... carma ruim. Eu o sinto nas minhas costas. Feito um cadáver. Estou carregando um cadáver... o cadáver de Bob Arctor. Mesmo que ele tecnicamente esteja vivo. — A voz dela se elevou; Mike Westaway gesticulou e, com um esforço visível, ela se acalmou. As pessoas das outras mesas, desfrutando de seus hambúrgueres e milk-shakes, olharam de um jeito inquisitivo.
Depois de uma pausa, Westaway disse:
— Bom, veja desta forma: eles não podem interrogar uma coisa, alguém, que não tem mente.
— Tenho de voltar para o trabalho — disse Donna. Ela olhou o relógio de pulso. — Vou dizer a eles que está tudo bem, de acordo com o que você me contou. Em sua opinião.
— Espere pelo inverno — disse Westaway.
— Pelo inverno?
— Vou conseguir até lá. Não importa por quê, mas como é; vai funcionar no inverno ou não vai funcionar de jeito algum. Ou vamos conseguir nessa época ou nunca. — Bem no solstício, pensou ele.
— Um período adequado. Quando tudo está morto e debaixo de neve.
Ele riu.
— Na Califórnia?
— O inverno do espírito. Mors ontologica. Quando o espírito está morto.
— Só dormindo — disse Westaway. Ele se levantou. — Preciso ir também, tenho de pegar uma carga de vegetais.
Donna olhou para ele com desânimo, triste, mudo e aflito.
— Para a cozinha — disse Westaway delicadamente. — Cenouras e alface. Desse tipo. Doados pelo Mercado McCoy para os pobres da New-Path. Lamento ter dito isso. Não era para ser uma piada. Não era para significar nada. — Ele deu um tapinha no ombro do casaco de couro de Donna. E, ao fazer isso, ocorreu-lhe que provavelmente Bob Arctor, em dias melhores e mais felizes, tinha dado esse casaco de presente a ela.
— Estamos trabalhando nisso juntos há um bom tempo — disse Donna numa voz moderada e estável. — Não quero ficar nessa por muito tempo. Quero que termine. Às vezes, à noite, quando não consigo dormir, eu penso: Que merda!, somos mais insensíveis do que eles. Que o adversário.
— Não vejo uma pessoa insensível quando olho para você — disse Westaway. — Embora eu ache que não conheço você muito bem. O que eu vejo, e vejo claramente, é uma das pessoas mais calorosas que já conheci.
— Sou calorosa por fora, o que as pessoas vêem. Olhos calorosos, rosto caloroso, uma porra de sorriso falso caloroso, mas por dentro sou fria o tempo todo e cheia de mentiras. Não sou o que pareço ser, sou horrível. — A voz da garota continuava estável e, enquanto falava, ela sorriu. Suas pupilas estavam grandes, calmas e sem malícia. — Mas então, não tem outro jeito. Tem? Imagino que há muito tempo talvez eu mesma fosse assim. E todo mundo é assim, de certa forma. O que eu sou que é realmente tão ruim... eu sou uma mentira. Eu menti para o meu amigo. Eu menti para Bob Arctor o tempo todo. Eu cheguei a dizer a ele uma vez para não acreditar em nada do que eu dissesse, e é claro que ele achou que eu estava brincando; ele não ouviu. Mas se eu contasse a ele, seria responsabilidade dele não ouvir, não acreditar mais em mim, depois do que eu dissesse. Eu o alertei. Mas ele esqueceu assim que eu disse e continuou em frente. Sempre em frente.
— Você fez o que devia fazer. Fez mais do que tinha de fazer.
A garota começou a se afastar da mesa.
— Tá legal, então realmente não há nada para eu relatar, até agora. A não ser sua confiança. Só que ele está controlado e eles o aceitaram. Eles não arrancaram nada dele naqueles... — Ela estremeceu. — Naqueles jogos estúpidos.
-É.
— Te vejo depois. — Ela fez uma pausa. — Os federais não vão querer esperar até o inverno.
— Mas o inverno é isso — disse Westaway. — O solstício de inverno.
— O quê?
— Só espere — disse ele. — E reze.
— Isso é besteira — disse Donna. — Rezar, quer dizer. Eu rezava há muito tempo, rezava muito, mas não rezo mais. Não precisaríamos fazer isso, o que fazemos, se rezar desse certo. E outro engodo.
— A maioria das coisas é assim. — Ele seguiu a garota por alguns passos enquanto ela ia embora, atraído por ela, gostando dela. — Não acho que você tenha destruído seu amigo. Me parece que você é que foi destruída, você foi a vítima. Só que em você isso não aparece. De qualquer modo, não havia alternativa.
— Eu vou para o inferno — disse Donna. Ela sorriu de repente, um sorriso largo e moleque. — Minha criação católica.
— No inferno eles te vendem sacos de moedas e quando você chega em casa vê que são M-Ms.
— Os M-Ms são feitos de titica de peru — disse Donna, e depois, de repente, ela havia partido. Desaparecera no ir e vir das pessoas; ele pestanejou. Era assim que se sentia Bob Arctor?, perguntou-se ele. Deve ser. Lá estava ela, estável e como sempre; depois... nada. Desaparece como fogo ou ar, um elemento da terra voltando para a terra. Para se misturar com todas as outras pessoas que nunca deixaram de ser. Despejada entre elas. Que vêm e vão de acordo com a vontade dela. E ninguém, nada, pode prendê-la.
Estou tentando pegar o vento numa rede. E Bob Arctor também. Inútil, pensou ele, tentar colocar as mãos firmemente em um dos agentes federais do abuso de drogas. Eles são furtivos. Sombras que desaparecem quando seu trabalho determina. Como se nunca tivessem estado lá. Arctor, pensou ele, estava apaixonado por um fantasma de autoridade, uma espécie de holograma através do qual um homem normal podia andar e sair do outro lado, sozinho. Sem sequer ter conseguido uma boa compreensão disso — da própria garota.
Deus é o momento, refletiu ele, é para transmutar o mal no bem. Se Ele está ativo aqui, Ele está fazendo isso agora, embora nossos olhos não possam perceber; o processo está oculto abaixo da superfície da realidade e só aparece depois. Para, talvez, nossos herdeiros que aguardam. Uma gente insignificante que não conhecerá a guerra medonha que estávamos travando e as perdas que suportamos, a não ser em uma nota de rodapé de um livro de história menor que tenha captado a concepção. Uma breve menção. Sem uma lista das baixas.
Devia haver um monumento em algum lugar, pensou ele, listando aqueles que morreram nisso. E, pior ainda, aqueles que não morreram. Que têm de viver, de passar pela morte. Como Bob Arctor. O mais triste de todos.
Acho que Donna é uma mercenária, pensou ele. Não é assalariada. E eles são os mais fantasmagóricos. Desaparecem para sempre. Nomes novos, localizações novas. Você se pergunta: Onde ela está agora? E a resposta é...
Em lugar nenhum. Porque ela não estava aqui, para começo de conversa.
Sentando-se novamente à mesa de madeira, Mike Westaway terminou de comer o sanduíche e beber a Coca.
Isso era melhor do que o que eles serviam na New-Path. Mesmo que o hambúrguer fosse feito de ânus de boi moído.
Ligar para Donna de novo, tentar encontrá-la ou pos- suí-la... Eu procuro o que Bob Arctor procurava, então talvez seja melhor que ele agora esteja melhor desse jeito. A tragédia da vida dele já existiu. Amar um espírito atmosférico. Esse era o verdadeiro desgosto. A própria desesperança. Em lugar nenhum nas páginas impressas, em nenhum lugar nos anais humanos o nome dela apareceria; nenhum domicílio, nenhum nome. Há garotas assim, pensou ele, e aqueles que você mais ama, aqueles onde não há esperança porque a esperança escapou de você no momento em que você fechou as mãos em volta dela.
Então talvez nós o tenhamos salvado de coisa pior, concluiu Westaway. E, enquanto fazemos isso, colocamos o que restava dele em uso. Em uso bom e valioso.
Se por acaso tivermos sorte.
— Você conhece alguma história? — perguntou Thelma um dia.
— Conheço a história de um lobo — disse Bruce.
— O lobo mau e a vovozinha?
— Não — disse ele. — O lobo preto-e-branco. Ele ficava no alto de uma árvore e caía sem parar em cima dos animais da fazenda. Finalmente, um dia, o fazendeiro pegou todos os filhos e todos os amigos dos filhos e eles ficaram parados, esperando que o lobo preto-e-branco descesse da árvore. Por fim, o lobo caiu em um animal marrom que parecia sarnento e ali, com seu casaco preto-e-branco, ele foi morto a tiro por eles.
— Que pena! — disse Thelma. — Isso é muito ruim.
— Mas eles salvaram a pele — continuou ele. — Eles despelaram o grande lobo preto-e-branco que descia da árvore e preservaram sua linda pele, de modo que os que vieram depois, os que nasceram depois, puderam ver como ele era e como era maravilhoso, com sua força e seu tama- nho. E as gerações futuras falaram dele e contaram muitas histórias de sua coragem e sua majestade, e choraram sua morte.
— Por que atiraram nele?
— Tinham de atirar — disse ele. — Você deve fazer isso com lobos assim.
— Você sabe outras histórias? Melhores do que essa?
— Não — disse ele —, essa é a única história que eu sei. — Ele ficou sentado, lembrando-se de como o lobo gostava de sua grande habilidade de saltar, o lobo pulando repetidamente em seu corpo elegante, mas agora esse corpo se fora, morto a tiros. E por animais magros, para ser chacinado e devorado. Animais sem força que nunca saltam, que não têm orgulho de seus corpos. Mas, de qualquer modo, no aspecto bom, esses animais continuavam em frente. E o lobo preto-e-branco não reclamou, nada disse quando atiraram nele. Suas garras ainda estavam fundas na presa. Para nada. Só que era o jeito dele e ele gostava de fazer isso. Esse era o único caminho dele. O único estilo pelo qual viver. Tudo o que ele sabia. E eles o pegaram.
— Lá vai o lobo! — exclamou Thelma, pulando meio desajeitada. — Vub, vub! — Ela pegava as coisas e largava, e ele viu com desânimo que havia algo de errado com ela. Ele viu pela primeira vez, angustiado e se perguntando como isso podia acontecer, que ela era deficiente.
Ele disse:
— Você não é o lobo.
Mas mesmo assim, enquanto ela tateava e mancava, ela tropeçava; mesmo assim, percebeu ele, a deficiência continuava. Ele se perguntou como podia ser...
Ich unglückseTget Atlas! Eine Welt,
Die ganze Welt der Schmerzen muss ich tragen,
Ich trage Unerträgliches, und brechen Will mir das Herz im Leibe.
... que uma tristeza dessas existisse. Ele se afastou.
Atrás dele, ela ainda brincava. Ela tropeçava e caía. Como pode ser assim?, perguntou-se ele.
Ele andou pelo corredor, procurando pelo aspirador de pó. Disseram-lhe que devia aspirar cuidadosamente o quarto grande de brincar, onde as crianças passavam a maior parte do dia.
— No final do corredor, à direita — apontou uma pessoa. Earl.
— Obrigado, Earl — disse ele.
Quando chegou à porta fechada, ele começou a bater e depois a abriu.
Dentro da sala, uma velha estava parada segurando três bolas de borracha, com que fazia malabarismo. Ela se virou para ele, o cabelo grisalho pegajoso caindo nos ombros, sorrindo para ele, quase sem dentes. Ela usava meias brancas e tênis. Olhos fundos, viu ele; olhos fundos, boca sorridente e vazia.
— Consegue fazer isto? — disse a velha ofegando e atirou as três bolas no ar. Elas caíram, atingiram-na, quicando para o chão. Ela se abaixou, cuspindo e rindo.
— Não consigo fazer isso — disse ele, parado ali, desanimado.
— Eu consigo. — A criatura velha e magra, os braços estalando enquanto se movia, ergueu as bolas, semicerrou os olhos, tentou fazer direito.
Outra pessoa apareceu na porta atrás de Bruce e ficou parada com ele, também assistindo.
— Há quanto tempo ela está praticando? — perguntou Bruce.
— Há muito tempo. — A pessoa gritou: — Tente de novo. Está quase lá!
A velha cacarejou enquanto se curvava para pegar as bolas mais uma vez, desajeitada.
— Tem uma lá — disse a pessoa ao lado de Bruce. — Debaixo de sua mesa-de-cabeceira.
— Oohhh! — ofegou a velha.
Eles viram a velha tentar novamente, sem parar, deixando as bolas caírem, pegando-as, mirando com cuidado, balançando-se, atirando-as para o ar e depois curvando-se enquanto elas choviam sobre ela, às vezes batendo em sua cabeça.
A pessoa ao lado de Bruce fungou e disse:
— Donna, é melhor você se limpar. Você não está limpa.
Bruce, chocado, disse:
— Essa não é a Donna. E a Donna? — Ele levantou a cabeça para espiar a velha e sentiu um grande pavor; umas lágrimas estavam paradas nos olhos da velha enquanto ela olhava para ele, mas a mulher estava rindo, rindo enquanto atirava as três bolas para ele, esperando atingi-lo. Ele se abaixou.
— Não, Donna, não faça isso — disse a ela a pessoa ao lado de Bruce. — Não machuque as pessoas. Só continue tentando fazer o que você viu na TV, sabe como é, pegar as bolas e atirá-las direto de novo. Mas agora vá se limpar, você está fedendo.
— Tudo bem — concordou a velha e correu, curvada e pequena. Ela deixou as três bolas ainda rolando no chão.
A pessoa ao lado de Bruce fechou a porta e eles andaram pelo corredor.
— Há quanto tempo Donna está aqui? — disse Bruce.
— Há muito tempo. Desde que eu cheguei, e já faz seis meses. Ela começou a tentar fazer malabarismo há mais ou menos uma semana.
— Então não é a Donna — disse ele. — Se está aqui há tanto tempo. Porque eu cheguei só há uma semana. — E, pensou ele, Donna me trouxe aqui no MG dela. Eu me lembro disso, porque tivemos de parar por um tempo enquanto ela enchia o radiador. E ela parecia bem. Olhos tristes, escuros, silenciosos e calmos em seu casaquinho de couro, suas botas, com a bolsa que tinha um pé de coelho pendurado. Como sempre.
Ele continuou então, procurando pelo aspirador de pó. Ele se sentiu muito melhor. Mas não entendeu por quê.