13

Novamente na Sala 203, o laboratório de testes psicológicos da polícia, Fred ouviu sem interesse enquanto os resultados de seus testes eram explicados pelos dois psicólogos.

— Você mostra o que consideramos mais um fenômeno de competição, em vez de deterioração. Sente-se.

— Tudo bem — disse Fred estoicamente, sentando-se.

— Competição — disse o outro psicólogo — entre os hemisférios direito e esquerdo de seu cérebro. Não é um sinal único, deficiente ou contaminado, é mais como dois sinais que interferem um no outro ao transmitir informações conflitantes.

— Normalmente — explicou o outro psicólogo — uma pessoa usa o hemisfério esquerdo. O auto-sistema do ego, ou consciência, localiza-se ali. É dominante, porque é sempre no hemisfério esquerdo que se localiza o centro da fala; mais precisamente, a bilateralização envolve uma capacidade verbal ou valência no esquerdo, com capacidades espaciais no direito. O esquerdo pode ser comparado com um computador digital; o direito, com um analógico. Então a função bilateral não é uma simples duplicação, os dois sistemas de percepção monitoram e processam de forma diferente as informações que recebem. Mas, para você, nenhum dos dois hemisférios é dominante e eles não agem de forma compensatória, um com o outro. Um lhe diz uma coisa, o outro diz outra.

— É como se você tivesse dois mostradores de combustível em seu carro — disse o outro homem. — Um lhe diz que seu tanque está cheio, e o outro registra que está vazio.

Não é possível que os dois estejam certos. Eles estão em conflito. Mas, no seu caso, não é que um esteja funcionando bem e o outro mal, é que... Quero dizer o seguinte: os dois mostradores analisam exatamente a mesma quantidade de combustível, o mesmo combustível, o mesmo tanque. Na verdade, eles testam a mesma coisa. Você, como motorista, só tem uma relação indireta com o tanque de combustível, por meio do mostrador ou, no seu caso, dos mostradores. De fato, o tanque pode se esvaziar inteiramente e você só vai saber quando um mostrador do painel lhe disser, ou quando o motor finalmente parar. Não deve haver dois mostradores dando informações conflitantes, porque, assim que isso acontece, você não tem qualquer conhecimento da situação que está sendo informada. Não é a mesma coisa que um mostrador e um mostrador de apoio, em que o de apoio entra em ação quando o normal dá defeito.

Fred disse:

— E o que isso significa?

-Tenho certeza de que você já sabe — disse o psicólogo à esquerda. — Você anda vivendo isso, sem saber por que ou o que é.

— Os dois hemisférios de meu cérebro estão competindo? — disse Fred.

— Sim.

— Por quê?

— A Substância D. Ela costuma causar isso, funcionalmente. Era o que esperávamos, foi o que os testes confirmaram. Quando os danos ocorrem no hemisfério esquerdo, normalmente dominante, o hemisfério direito tenta compensar a deterioração. Mas as funções gêmeas não se misturam porque este é um problema anormal, para o qual o corpo não está preparado. Não deve acontecer. Chamamos de sugestão cruzada. Relacionada com o fenômeno da divisão cerebral. Podemos fazer uma hemisferectomia direita, mas...

— Isso vai desaparecer — interrompeu Fred — quando eu largar a Substância D?

— Provavelmente — disse o psicólogo da esquerda, assentindo. — É uma deterioração funcional.

O outro homem disse:

— Pode ser um dano orgânico. Pode ser permanente. O tempo dirá e só depois de que você largar a Substância D por algum tempo. E largar inteiramente.

— Como é? — disse Fred. Ele não entendeu a resposta: era sim ou não? Ele tinha danos para sempre ou não? O que eles disseram?

— Mesmo que haja um dano no seu tecido cerebral — disse um dos psicólogos —, há experimentos em andamento agora, na remoção de pequenas seções de cada hemisfério, para abortar o processamento competitivo de Gestalt. Acredita-se que um dia isso possa levar o hemisfério original a recuperar a dominância.

— Porém, o problema aqui é que o indivíduo só pode receber impressões parciais... informações que recebe dos sentidos... pelo resto da vida. Em vez de dois sinais, ele recebe meio sinal. O que é igualmente prejudicial, na minha opinião.

— Sim, mas uma função parcial não-competitiva é melhor do que não ter função alguma, uma vez que a sugestão cruzada competitiva equivale a recepção zero.

— Está vendo, Fred — disse o outro homem você não tem mais...

— Nunca mais vou tomar a Substância D — disse Fred.

— Pelo resto da minha vida.

— Quantas está tomando agora?

— Não muito. — Depois de um intervalo, ele disse: — Mais, recentemente, por causa do estresse no trabalho.

— Ela sem dúvida deve aliviá-lo de suas atribuições — disse um psicólogo. — Isolá-lo de tudo. Você está mesmo com deterioração, Fred. E ficará assim por mais tempo.

Provavelmente. Depois disso, ninguém poderá ter certeza. Você poderá ter uma recuperação total, mas pode ser que' não.

— Como é — disse Fred numa voz aguda — que mesmo que os dois hemisférios de meu cérebro sejam dominantes eles não recebem os mesmos estímulos? Por que os dois não podem ser sincronizados, como um aparelho de som estéreo?

Silêncio.

— Quer dizer — disse ele, gesticulando —, a mão esquerda e a mão direita, quando pegam um objeto, o mesmo objeto, devem...

— O uso da mão esquerda comparado com o da mão direita, como, por exemplo, o que é indicado por, digamos, uma imagem especular... em que a esquerda “se torna” a mão direita... — O psicólogo se inclinou para Fred, que não olhou para ele. — Como você definiria uma luva esquerda se comparada com uma luva direita, de rnodo que uma pessoa que não conheça estes termos possa entender o que você quer dizer? E não entender o contrário? O oposto especular?

— Uma luva esquerda... — disse Fred e depois parou.

É como se um hemisfério de seu cérebro estivesse percebendo o mundo refletido em um espelho. Através de um espelho. Entendeu? Então esquerda se torna direita e tudo o que isso implica. E não sabemos ainda o que isso implica, ver o mundo invertido desse jeito. Do ponto de vista topológico, uma luva esquerda é uma luva direita salva da infinidade.

— Através de um espelho — disse Fred. Um espelho escuro, pensou ele, um scanner escuro. E São Paulo quis dizer, por um espelho, não um espelho de vidro — eles não existiam na época —, mas um reflexo de si mesmo quando ele olhava para a base polida de uma panela de metal. Lu- ckman, em suas leituras de teologia, contara isso a ele.

Não por um telescópio ou sistema de lentes, que não invertem, não através de nada, mas ver sua própria face refletida nele, invertida — salva da infinidade. Como eles estavam me dizendo. Não é através do vidro, mas volta refletido por um vidro. É esse reflexo que volta a você: é você, é seu rosto, mas não é. E eles não tinham câmeras naquela época e essa era a única maneira de uma pessoa se ver: ao contrário.

Eu tenho me visto ao contrário.

De certa forma, eu tenho começado a ver todo o universo ao contrário. Com o outro lado do meu cérebro!

— Topologia — estava dizendo um dos psicólogos. — Uma ciência ou matemática pouco compreendida. Como os buracos negros no espaço, como...

— Fred, está vendo o mundo de dentro para fora — declarava o outro homem no mesmo momento. — De frente e de trás ao mesmo tempo, acho. É difícil sabermos como é para ele. A topologia é o ramo da matemática que investiga as propriedades de uma forma geométrica ou outra configuração que fica inalterada se o objeto é submetido a uma transformação contínua aos pares, somente aos pares. Mas aplicada à psicologia...

— E quando isso acontece com objetos, quem sabe que aparência eles terão? Eles são irreconhecíveis. Como acontece quando um ser primitivo vê pela primeira vez uma fotografia de si mesmo, ele não se reconhece nela. Embora ele tenha visto seu reflexo muitas vezes nos regatos, em objetos de metal. Porque seu reflexo é invertido e a fotografia dele não é. Então ele não sabe que a pessoa é idêntica.

— Ele só está acostumado com a imagem refletida e invertida e acha que ele é assim.

— Em geral, uma pessoa que ouve a própria voz numa gravação...

— Isso é diferente. Tem a ver com a ressonância no sinus...

— Talvez sejam vocês, seus merdas — disse Fred —, que estejam vendo o universo ao contrário, como num espelho. Talvez eu esteja vendo certo.

— Você vê das duas formas.

— O que é...

Um psicólogo disse:

— Costumavam falar de ver somente “reflexos” da realidade. Não a realidade em si. O principal erro em um reflexo não é que ele não seja real, mas que seja invertido. Fico admirado com isso. — Ele estava com uma expressão estranha. — Paridade. O princípio científico da paridade. O universo e a imagem refletida, tomamos essa última pela primeira, por algum motivo... porque não temos paridade bilateral.

— Ao passo que uma fotografia pode compensar a falta de paridade bilateral hemisférica; não é o objeto, mas não é invertido, de modo que a oposição faria das imagens fotográficas não imagens, mas a forma verdadeira. O inverso do inverso.

— Mas uma foto pode ser invertida acidentalmente também, se o negativo é virado... impresso ao contrário. Em geral, só podemos saber se houver algo escrito. Mas não com um rosto humano. Podem-se ter duas impressões por contato de um determinado homem, uma invertida e outra não. Uma pessoa que nunca o viu não sabe qual é a correta, mas pode ver que são diferentes e não podem ser sobrepostas.

— É isso aí, Fred, o que lhe mostra como é complexo o problema de formular a distinção entre uma luva esquerda e...

— Então acontecerá o que está escrito — disse uma voz. — A morte é destruída. Na vitória. — Talvez só Fred estivesse ouvindo isso. — Porque — disse a voz —, assim que a escrita parece invertida, sabeis o que é ilusão e o que não é. A confusão termina e a morte, a derradeira inimiga, a Substância Dorte, desaparece, não no corpo, mas na vitória. Vede, eu agora vos conto o segredo sagrado: não iremos todos dormir na morte.

O mistério, pensou ele, a explicação, ele quis dizer. De um segredo. Um segredo sagrado. Não vamos morrer.

Os reflexos partirão

E tudo acontecerá rápido.

Todos seremos mudados e, com isso, ele quis dizer invertido novamente, de repente. Num...

... piscar de olhos!

Porque, pensou ele, taciturno, enquanto observava os psicólogos da polícia escreverem suas conclusões e assiná- las, estamos ao contrário neste exato momento, eu acho, cada um de nós; cada um e todas as coisas, e o espaço, e até o tempo. Mas quanto tempo, pensou ele, quando é feita uma impressão, uma impressão de contato, quando o fotógrafo descobre que usou o negativo invertido, quanto tempo leva para virar? Para invertê-lo novamente para o que deveria ser?

Uma fração de segundo.

Eu entendo, pensou ele, o que quer dizer a passagem da Bíblia. Através de um vidro escuro. Mas meu sistema de percepção está fodido, como sempre foi. Como eles dizem. Eu entendo, mas não posso me ajudar.

Talvez, pensou ele, depois que eu enxergar as duas formas de uma só vez, corretamente e invertidas, eu seja a primeira pessoa na história a ver virado e não virado simultaneamente e tenha um vislumbre do que vai ser quando estiver correto. Embora eu também tenha o outro, o normal. E o que é o quê?

O que é invertido e o que não é?

Quando vejo uma foto, quando vejo um reflexo?

E quanto vou receber de licença médica ou aposentadoria ou invalidez enquanto estiver me tratando?, perguntou-se ele, sentindo já o terror, o pavor profundo e o frio em tudo. Wie kalt ist es in diesem unterirdischen Gewôlbe! Das ist natürlich, es ist ja tief. Tenho de me afastar dessa merda. Já vi pessoas passando por isso. Meu Deus, pensou ele, e fechou os olhos.

— Isso pode parecer metafísica — estava dizendo um deles —, mas os matemáticos dizem que podemos estar à beira de uma nova cosmologia, tanto...

O outro disse, animado:

— A infinidade do tempo, que é expressa como eternidade, como um circuito! Como um circuito de uma fita cassete!

 

 

Ele tinha uma hora para matar, antes de precisar voltar ao escritório de Hank, para ouvir e analisar as provas de Jim Barris.

A cantina do prédio o atraiu, então ele foi até lá, passando pelos que estavam uniformizados, os que vestiam trajes misturadores e os que estavam de terno e gravata.

Enquanto isso, as descobertas dos psicólogos presumivelmente estavam sendo levadas a Hank. Elas estariam lá quando ele chegasse.

Isso lhe dava tempo para pensar, refletiu ele enquanto entrava na cantina e na fila. Tempo. Suponha, pensou ele, que o tempo seja redondo, como a Terra. Você navega para o Oeste e chega à índia. Eles riram de você, mas por fim lá estava a índia, na frente e não atrás. Com o tempo, talvez a Crucificação esteja à nossa frente enquanto navegamos, achando que está no Leste.

Na frente dele, uma secretária. Suéter azul apertado, sem sutiã, quase saia nenhuma. Era bom ficar olhando para ela; ele olhou sem parar e, por fim, ela percebeu e se afastou com sua bandeja.

O Primeiro e o Segundo Adventos de Cristo sendo o mesmo acontecimento, pensou ele; o tempo como uma volta de fita cassete. Não surpreende que eles tivessem certeza de que ia acontecer. Ele ia voltar.

Ele viu que a secretária estava atrás, mas depois percebeu que ela não podia vê-lo de trás como ele a via, porque o traje dele não tinha rosto nem bunda. Ela, porém, sente que estou armando pra cima dela, concluiu ele. Qualquer mulher com pernas assim sentiria isso de qualquer homem.

Sabe de uma coisa, pensou ele, neste traje misturador eu podia bater na cabeça da mulher por trás, foder muito com ela e quem ia saber que fui eu? Como poderia ela me identificar?

Os crimes que podem ser cometidos nesses trajes, refletiu ele. Também viagens mais curtas, crimes menores, o que você nunca fez; sempre quis, mas nunca fez.

— Senhorita — disse ele à mulher de suéter azul apertado —, certamente tem pernas lindas. Mas acho que sabe disso ou não estaria usando uma microssaia assim.

A garota ofegou.

— Quê — disse ela. — Ah, agora sei quem você é.

— Sabe? — disse ele, surpreso.

— Pete Wickam — disse a mulher.

— Quê? — disse ele.

— Você não é o Pete Wickam? Você sempre está sentado na minha frente... não é você, Pete?

— Eu sou o cara — disse ele — que sempre está sentado lá, olha suas pernas e pensa muito em você sabe o quê?

Ela assentiu.

— Eu tenho alguma chance? — disse ele.

— Bom, isso depende.

— Posso te levar para jantar uma noite dessas?

— Acho que sim.

— Pode me dar o número do seu telefone? Para eu poder te ligar?

A garota murmurou:

— Me dê você o seu.

— Eu vou te dar — disse ele — se você ficar sentada comigo agora, aqui, e se você ficar comigo enquanto eu como meu sanduíche e tomo meu café.

— Não, tem uma amiga minha aqui... ela está esperando.

— Eu posso ficar com vocês, com as duas.

— Nós duas vamos ter uma conversa particular.

— Tudo bem — disse ele.

— Bom, então a gente se vê, Pete. — Ela andou pela fila com a bandeja, os talheres e o guardanapo.

Ele pegou o café e o sanduíche, encontrou uma mesa vazia e se sentou sozinho, colocando pequenos pedaços de sanduíche no café e olhando para ele.

Eles vão me tirar a porra do Arctor, concluiu ele. Vou para a Synanon ou para a New-Path, ou para um desses lugares de privação e eles vão designar outra pessoa para observá-lo e avaliá-lo. Algum babaca que não sabe merda alguma do Arctor — vão ter de começar tudo do zero.

Pelo menos eles podem me deixar avaliar as provas de Barris, pensou ele. Só me suspender depois que repassarmos a coisa toda, o que quer que seja.

Se eu pegar essa mulher e ela engravidar, ruminou ele, os bebês — sem rosto. Só borrões. Ele estremeceu.

Eu sei que serei afastado. Mas por que necessariamente agora? Se eu pudesse fazer mais algumas coisas... processar as informações de Barris, participar da decisão. Ou até ficar sentado lá e ver o que ele tem. Descobrir, para minha própria satisfação, finalmente descobrir o que Arctor está aprontando. Ele está aprontando alguma coisa? Ou não está? Eles devem isso a mim: permitir que eu fique por tempo suficiente para descobrir.

Se eu pudesse só ouvir e observar e não dizer nada.

Ele ficou sentado ali interminavelmente e depois percebeu a garota do suéter azul apertado e a amiga dela, que tinha cabelo preto e curto, levantarem-se da mesa e começarem a partir. A amiga da garota, que não era muito bonita, hesitou e se aproximou de Fred, onde ele estava sentado, curvado sobre o café e os fragmentos de sanduíche.

— Pete? — disse a garota de cabelo curto.

Ele olhou para ela.

— Hummm, Pete — disse ela de um jeito nervoso. — Eu só tenho um segundinho. Hmmm, a Ellen queria te dizer isso, mas não teve coragem. Pete, ela teria saído com você há muito tempo, talvez há um mês, tipo em março, até. Se...

— Se o quê? — disse ele.

— Bom, ela me pediu para te dizer que por algum tempo ela queria que você soubesse que você se daria muito melhor se usasse, digamos, Scope.

O desinfetante bucal.

— Eu queria ter sabido disso — disse ele, sem entusiasmo.

— Tá legal, Pete — disse a garota, aliviada agora e partindo. — Te vejo depois. — Ela se apressou, sorrindo.

Coitado do fodido do Pete, pensou ele consigo mesmo. Isso era pra valer? Ou era só uma afronta chocante feita por duas maldosas que bolaram isso ao vê-lo — ao verem a mim — sentado aqui sozinho? Só uma maldadezinha — ah, ao inferno com isso, pensou ele.

Ou pode ser verdade, concluiu ele enquanto limpava a boca, amassava o guardanapo e se levantava pesadamente. Eu me pergunto se São Paulo tinha mau hálito. Ele saiu da cantina, as mãos enfiadas no fundo dos bolsos. Nos bolsos do traje misturador e depois nos bolsos do terno. Talvez seja por isso que Paulo tenha ficado na cadeia na última parte da vida. Eles o atiraram lá por isso.

Essas trips de foder com a cabeça sempre apareciam numa fase dessas, pensou ele enquanto saía da cantina. Ela jogou essa pra cima de todos os outros babacas hoje — a grande sabedoria que vinha de séculos de pontificação de teste psicológico. Isso e aquilo. Que merda!, pensou ele. Ele se sentia ainda pior agora do que antes; mal conseguia andar, mal podia pensar, sua mente zumbia de confusão. Confusão e desespero. De qualquer forma, pensou ele, Scope não é nada bom, Lavoris é melhor. A não ser quando você cospe e parece que está cuspindo sangue. Talvez Micrin, pensou ele. Isso poderia ser melhor.

Se tivesse uma drogaria neste prédio, pensou ele, eu podia comprar um frasco e usar antes de subir para encarar Hank. Assim talvez eu me sentisse mais confiante. Talvez eu tivesse mais chance.

Eu podia usar, refletiu ele, qualquer coisa que ajudasse, qualquer coisa mesmo. Qualquer pista, como daquela garota, qualquer sugestão. Ele se sentiu desanimado e com medo. Que merda!, pensou ele, o que eu vou fazer?

Se estou fora de tudo, pensou ele, então nunca vou ver qualquer deles de novo, nenhum dos meus amigos, as pessoas que eu observei e conheci. Vou ficar de fora, talvez fique afastado pelo resto da vida — de qualquer modo, eu vi Arctor, Luckman, Jerry Fabin e Charles Freck pela última vez e, acima de tudo, Donna Hawthorne. Nunca mais vou ver meus amigos, pelo resto da eternidade. Acabou.

Donna. Ele se lembrou de uma canção que o tio-avô costumava cantar anos atrás, em alemão. “Ich seh’ wie ein Engel im rosigen Duft/Sich tröstend zur Seite mir stellet”, que o tio-avô lhe explicara que significava “Eu vejo, vestida como um anjo, parada ao meu lado para me dar conforto”, a mulher que ele amava, a mulher que o salvou (na música). Na música, não na vida real. O tio-avô estava morto e havia muito tempo ele não ouvia essas palavras. O tio- avô, alemão, cantando na casa ou lendo em voz alta:

 

Gott! Welch Dunkel hier! O grauenvolle Stille!

Od’ ist es um mich her. Nichts lebet auszer mir...

 

Deus, como está escuro aqui, e num silêncio completo.

Nada a não ser eu vivo neste vácuo...

 

Mesmo que seu cérebro não estivesse estragado, percebeu ele, outra pessoa terá recebido minhas atribuições quando eu voltar ao trabalho. Ou eles estarão mortos ou em clínicas federais, ou só dispersos, dispersos, dispersos. Ferrados e destruídos, como eu, incapazes de deduzir que porra está acontecendo. Tinha chegado ao fim de qualquer forma, para mim. Eu, sem saber, já havia dito adeus.

Só o que posso fazer um dia, pensou ele, é tocar as holofitas, para me lembrar.

— Eu devia ir para o apartamento seguro... — ele olhou em volta e ficou em silêncio. Eu devia ir para o apartamento seguro e roubá-las agora, pensou ele. Enquanto posso. Depois, elas podem ser apagadas e, mais tarde, eu não teria acesso. Foda-se o departamento, pensou ele, eles podem descontar do meu salário. Segundo qualquer consideração ética, as gravações daquela casa e das pessoas nela pertencem a mim.

E agora aquelas fitas são tudo o que me resta nesta história, elas são a única coisa que posso esperar levar.

Mas também, pensou ele rapidamente, para tocar as fitas eu preciso de todo o sistema de resolução com transporte de projeção em cubo ali no apartamento seguro. Vou precisar desmontá-lo e levá-lo de lá, peça por peça. Dos scanners e aparelhos de gravação não vou precisar; só do transporte, dos componentes de reprodução e em especial de todos os aparelhos de projeção em cubo. Posso fazer isso aos pouquinhos, eu tenho a chave do apartamento. Eles vão exigir que eu devolva a chave, mas posso fazer uma cópia bem aqui antes de entregar; é uma chave convencional Schlage. Depois posso pegar tudo! Ele se sentiu melhor ao perceber isso; ele se sentiu cruel, digno e um pouco irritado. Com todos. O prazer de como agiria fazia diferença.

Por outro lado, pensou ele, se eu roubar os scanners e as cabeças de gravação e coisas assim, posso continuar monitorando. Por minha conta. Manter a vigilância ativa, como eu venho fazendo. Por algum tempo, pelo menos. Mas tudo na vida é por algum tempo — como testemunhar isso.

A vigilância, pensou ele, devia essencialmente ser mantida. E, se possível, por mim. Eu sempre devia estar observando, observando e tirando conclusões, mesmo que eu nunca faça nada com o que vejo; mesmo que eu só fique sentado lá e observe em silêncio, sem ser visto; isto é importante: que eu, como observador de tudo o que acontece, deva estar na minha casa.

Não para o bem deles. Para o meu.

É, corrigiu-se ele, para o bem deles também. No caso de acontecer alguma coisa, como quando Luckman sufocou. Se alguém estiver vendo — se eu estiver vendo —, posso perceber e conseguir ajuda. Telefonar pedindo ajuda. Levar assistência a eles de imediato, o tipo certo de ajuda.

Por outro lado, pensou ele, eles podiam morrer e ninguém iria saber. Saber ou mesmo se importar.

Em vidinhas infelizes assim, alguém deve intervir. Ou, pelo menos, marcar suas tristes idas e vindas. Marcar e, se possível, gravar permanentemente, para que eles sejam lembrados. Para uma época melhor, no futuro, quando as pessoas entenderão.

 

 

Na sala de Hank, ele se sentou com Hank, com um policial uniformizado e com o informante suarento e sorridente Jim Barris, enquanto uma das fitas cassete de Barris tocava na mesa diante deles. Ao lado, outra fita cassete gravava o que estava tocando, para uma cópia do departamento.

Ah, oi! Olha, não posso conversar.”

“Então, quando?”

“Eu te ligo.”

“Isso não pode esperar.”

“Bom, o que é?”

“Nós planejamos...”

Hank estendeu a mão, indicando a Barris para parar a fita.

— Pode identificar as vozes para nós, sr. Barris? — disse Hank.

— Sim — concordou Barris ansiosamente. — A voz de mulher é de Donna Hawthorne, e a de homem, de Robert Arctor.

— Muito bem — disse Hank assentindo, olhando depois para Fred. Estava com o relatório médico de Fred diante dele e o via. — Continue com sua gravação.

“... chegar à metade do sul da Califórnia amanhã à noite”, continuou a voz masculina, identificada pelo informante como de Bob Arctor. “O Arsenal da Força Aérea na base de Vanderberg será atingido por armas automáticas e semi-automáticas...”

Hank parou de ler o relatório médico e prestou atenção, inclinando a cabeça borrada pelo traje misturador.

Para si mesmo e agora para todos na sala, Barris sorriu; seus dedos mexiam em clipes de papel tirados da mesa, mexiam sem parar, como se tecesse uma teia de arame, tecendo e mexendo, suando e tecendo.

A mulher, identificada como Donna Hawthorne, disse: “E a droga de desorientação que os motoqueiros roubaram para nós? Quando vamos levar essa porcaria para a área da vertente?...”

“A organização precisa das armas primeiro”, explicou a voz de homem. “Esse é o passo B.”

“Tudo bem, mas agora eu preciso ir, tenho um cliente.”

Clique. Clique.

Barris, remexendo-se na cadeira, disse:

— Posso identificar a gangue de motoqueiros mencionada. É citada em outra...

— Você tem mais material desse tipo? — disse Hank. — Para dar fundamento? Ou é substancialmente esta fita?

— Muito mais.

— Mas é o mesmo tipo de coisa.

— Refere-se, sim, à mesma organização conspiradora e aos planos dela, sim. Essa trama em particular.

— Quem são essas pessoas? — disse Hank. — Que organização?

— Eles agem em todo o mundo...

— Os nomes. Você está especulando.

— Robert Arctor, Donna Hawthorne, principalmente. Tenho anotações codificadas também... — Barris fuçou um caderno encardido que despencava enquanto ele tentava abri-lo.

Hank disse:

— Estou apreendendo todas essas coisas, sr. Barris, as fitas e o que o senhor tiver. Temporariamente, elas são de nossa propriedade. Vamos examinar nós mesmos.

— Minha letra e o material cifrado que eu...

— O senhor estará disponível para nos explicar quando chegarmos a esse ponto ou acharmos que queremos que explique alguma coisa. — Hank fez um sinal para que o policial uniformizado, não Barris, desligasse o gravador. Barris estendeu a mão para o aparelho. Rapidamente o policial o deteve e o empurrou. Barris, pestanejando, olhou em volta, ainda com um sorriso fixo. — Sr. Barris — disse Hank —, o senhor só será liberado quando analisarmos este material. O senhor está sendo acusado, para que formalmente o mantenhamos disponível, de dar falsas informações às autoridades, intencionalmente. Isso, é claro, é só um pretexto para sua própria segurança e todos entendemos isso, mas a acusação formal será apresentada de qualquer modo. Será transmitida à promotoria, com indicação para que aguardem. É satisfatório? — Ele não esperou resposta; em vez disso, fez um sinal para o policial uniformizado levar Barris dali, deixando as provas e as merdas e os trecos em cima da mesa.

O policial levou o sorridente Barris para fora. Hank e Fred se sentaram de frente um para o outro à mesa abarrotada. Hank não disse nada, estava lendo as conclusões dos psicólogos.

Depois de um tempo, ele pegou o fone e discou um número interno.

— Recebi um material aqui que não foi avaliado. Quero que você o examine em detalhes e determine o quanto dele é falso. Me informe disso e depois lhe direi o que fazer a seguir. Tem uns seis quilos; vai precisar de uma caixa de papelão, tamanho 3. É só isso, obrigado. — Ele desligou. — Era o laboratório de eletrônica e criptografia — informou ele a Fred e reassumiu a leitura.

Surgiram dois técnicos de laboratório, uniformizados e fortemente armados, trazendo uma caixa de aço com tranca.

— Só conseguimos encontrar isto — um deles se desculpou enquanto cuidadosamente enchiam a caixa com os itens da mesa.

— Quem está lá embaixo?

— Hurley.

— Certifique-se de que Hurley analise isto ainda hoje e reporte quando terá um fator-índice espúrio para mim. Deve ser hoje, diga isso a ele.

Os técnicos de laboratório trancaram a caixa de metal e a levaram da sala.

Atirando o relatório médico na mesa, Hank recostou- se e disse:

— O que você... Tudo bem, qual é a sua resposta às provas de Barris até agora?

Fred disse:

— É o meu relatório médico que você tem aí, não é? — Ele estendeu a mão para pegá-lo, depois mudou de idéia. — Acho que o que ele tocou, o pouco que tocou, parecia autêntico.

— É falso — disse Hank. — Não vale nada.

— Você pode ter razão — disse Fred —, mas eu não concordo.

— O arsenal de que estavam falando em Vanderberg deve ser o arsenal OSI. — Hank pegou o telefone. Para si mesmo, mas em voz alta, ele disse: — Vamos ver... quem é o cara da OSI com quem eu conversei daquela vez... Ele apareceu na quarta com umas fotos... — Hank sacudiu a cabeça e desviou-a do telefone para confrontar Fred. — Vou esperar. Posso esperar pelo relatório preliminar espúrio, Fred?

— O que meu relatório médico...

— Diz que você está totalmente pirado.

Fred deu de ombros (o melhor que pôde).

— Totalmente?

Wie kalt ist es in diesem unterirdischen Gewolbe!

— E possível que duas células cerebrais ainda funcionem. Mas só isso. Existem principalmente curtos-circuitos e faíscas.

Das ist natürlich, es ist ja tief.

— Duas, você diz — disse Fred. — Duas em quantas?

— Não sei. O cérebro tem um monte de células, pelo que sei... trilhões.

— Há mais conexões possíveis entre elas — disse Fred — do que estrelas no universo.

— Se é assim, então agora você está longe da média. Umas duas células em... talvez 65 trilhões?

— Mais para 65 trilhões de trilhões — disse Fred.

— Isso é pior do que o Philadelphia Athledcs com o Connie Mack. Eles costumavam terminar a temporada com um percentual...

— O que posso conseguir — disse Fred —, dizendo que isso aconteceu no cumprimento do dever?

— Consegue ficar sentado na sala de espera e ler um monte de Saturday Evening Posts e Cosmopolitans de graça.

— Onde?

— Onde gostaria que fosse?

Fred disse:

— Me deixa pensar melhor.

— Vou te dizer o que eu faria — disse Hank. — Eu não iria para uma clínica federal; compraria umas seis garrafas de um bom uísque, I. W. Harper, e iria para o alto de uma montanha, nas montanhas San Bernardino, perto de um dos lagos, sozinho, e ficaria ali totalmente só até que passasse. Onde ninguém pudesse me encontrar.

— Mas pode ser que não passe nunca — disse Fred.

— Então eu nunca voltaria. Conhece alguém que tenha uma cabana por lá?

— Não — disse Fred.

— Pode dirigir?

— Meu... — ele hesitou e uma energia como de sonho se abateu sobre ele, relaxando-o e deixando-o mole. Todas as relações espaciais na sala mudaram; a alteração afetou até sua consciência de tempo. — Ele está no... — Ele bocejou.

— Você não se lembra.

— Eu me lembro de que não está funcionando.

— Podemos conseguir quem dirija para você. Isso seria mais seguro, de qualquer modo.

Dirigir para onde?, perguntou-se ele. A que lugar? Subir estradas, trilhas, caminhos, escalando e caminhando através de gelatina, feito um gato em uma trela que só quer entrar em casa ou se libertar.

Ele pensou: “Ein Engel, der Gattin, so gleich, der fuhrt mich zur Freiheit ins himmlische Reich.

— Claro — disse ele e sorriu. Aliviado. Puxando a trela, tentando e se esforçando para se libertar e depois se deitar.

— O que você acha de mim agora — disse ele —, agora que eu provei que estou... ferrado, temporariamente, de qualquer modo. Talvez permanentemente.

Hank disse:

— Acho que você é uma pessoa muito boa.

— Obrigado.

— Leve a arma com você.

Como é? — disse ele.

— Quando for para as montanhas San Bernardino com as cinco garrafas de I. W. Harper. Leve sua arma.

— Quer dizer, para o caso de eu não sair dessa?

Hank disse:

— Para qualquer caso. Sair da quantidade que eles dizem que você toma... Leve a arma com você.

— Tudo bem.

— Quando voltar — disse Hank —, me ligue. Me informe.

— Que droga, não sou dono do meu traje.

— Me ligue de qualquer forma. Com ou sem o traje.

Novamente ele disse:

— Tudo bem. — Evidentemente isso não importava. Evidentemente tudo estava acabado.

— Quando pegar seu próximo pagamento, a quantia vai ser diferente. Muito diferente.

Fred disse:

— Vou ganhar uma espécie de bonificação por isso, pelo que aconteceu comigo?

— Não. Leia seu Código Penal. Um policial que voluntariamente se torna viciado e não informa isso prontamente está sujeito a uma acusação de contravenção... uma multa de três mil dólares e/ou seis meses. Você deve apenas ser multado.

— Voluntariamente? — disse ele, surpreso.

— Ninguém segurou uma arma na sua cabeça e te deu um tiro. Ninguém colocou alguma coisa na sua sopa. Você tomou uma droga viciante consciente e voluntariamente, uma droga desorientadora e prejudicial para o cérebro.

— Não tomei voluntariamente não!

Hank disse:

— Você podia ter fingido que tomava. A maioria dos policiais consegue lidar com isso. E, pela quantidade que eles dizem que você estava tomando, você deve ter sido...

— Está me tratando como um vigarista. Eu não sou vigarista.

Pegando um bloco e uma caneta, Hank começou a calcular.

— Quanto você recebe de pagamento? Posso calcular agora se...

— Será que posso pagar a multa depois? Talvez em uma série de prestações mensais, tipo por dois anos?

Hank disse:

— Qual é, Fred...

— Tudo bem — disse ele.

— Quanto por hora?

Ele não conseguiu se lembrar.

— Bom, então, quantas horas anotadas?

Isso também não.

Hank atirou o bloco na mesa.

— Quer um cigarro? — Ele ofereceu o maço a Fred.

— Estou parando com isso também — disse Fred. — Tudo, até amendoins e... — Ele não conseguia pensar. Os dois ficaram sentados ali, os dois, em seus trajes misturadores, ambos em silêncio.

— Como eu digo a meus filhos — começou Hank.

— Eu tive dois filhos — disse Fred. — Duas meninas.

— Não acredito em você; você não deve ter.

— Talvez não. — Ele começara a tentar deduzir quando começaria a crise de abstinência e depois começou a tentar deduzir quantos tabletes de Substância D ele tinha escondidos aqui e ali. E quanto dinheiro ele teria, quando recebesse, para comprar.

— Talvez você queira que eu continue calculando em que consiste seu pagamento — disse Hank.

— Tudo bem — disse ele e assentiu vigorosamente. — Faça isso. — Ele ficou sentado esperando, tenso, tamborilando na mesa. Como Barris.

— Quanto por hora? — repetiu Hank e depois pegou o telefone. — Ligue para a tesouraria.

Fred não disse nada. Olhando para baixo, esperou. Ele pensou: “Talvez Donna possa me ajudar.” Donna, pensou ele, por favor, me ajude agora.

— Não acho que você vá para as montanhas — disse Hank. — Mesmo que alguém te leve lá.

— Não.

— Para onde quer ir?

— Deixe-me ficar sentado e pensar.

— Clínica federal?

— Não.

Eles continuaram sentados.

Ele se perguntou o que não devia dizer.

— E Donna Hawthorne? — disse Hank. — Pelas informações que você trouxe e que todos têm, eu sei que vocês são próximos.

— Sim. — Ele assentiu. — Somos. — E depois ele olhou para Hank e disse: — Como sabe disso?

Hank disse:

— Por um processo de eliminação. Eu sei quem você não é e não há um número infinito de suspeitos nesse grupo... na verdade, é um grupo bem pequeno. Pensávamos que eles iam nos levar a um nível mais alto e talvez Barris faça isso. Você e eu passamos muito tempo conversando. Eu juntei as peças há muito tempo. Você é Arctor.

— Eu sou quem? — disse ele, encarando Hank no traje misturador diante dele. — Eu sou Bob Arctor? — Ele não conseguia acreditar nisso. Não fazia sentido para ele. Não se encaixava com nada que ele tivesse feito ou pensado, era grotesco.

— Deixa pra lá — disse Hank. — Qual é o telefone de Donna Hawthorne?

— Ela deve estar no trabalho. — A voz dele tremia. — A perfumaria. O número é... — Ele não conseguiu manter a voz estável e não conseguiu se lembrar do número. Uma ova que eu sou, disse ele a si mesmo. Eu não sou Bob Arctor. Mas quem sou eu? Talvez eu seja...

— Me dê o número do trabalho de Donna Hawthorne — estava dizendo Hank rapidamente ao telefone. — Tome — disse ele, segurando o telefone para Fred. — Vou colocar você na linha. Não, acho que é melhor não fazer isso. Vou dizer a ela para te buscar... Onde? Vamos levar você e te deixamos lá; não podemos encontrá-la aqui. Que lugar é bom? Onde você costuma encontrá-la?

— Me leve à casa dela — disse ele. — Eu sei como entrar.

— Vou dizer a ela que você está lá e que está passando pela privação. Só vou dizer que te conheço e que você me pediu para ligar.

— Claro — disse Fred. — Saquei. Obrigado, cara.

Hank assentiu e começou a rediscar, um número externo. Pareceu a Fred que ele discava cada algarismo com uma lentidão cada vez maior e continuaria nisso para sempre e ele fechou os olhos, murmurando consigo mesmo e pensando: “Caramba! Estou acabado pra valer.”

Você está mesmo, concordou ele. Chapado, ligado, ferrado e lascado e fodido. Totalmente fodido. Teve vontade de rir.

— Vamos te levar à casa da tua... — começou Hank e depois voltou a atenção para o telefone, dizendo: — Oi, Donna, aqui é um amigo do Bob, tá legal? Olha, cara, ele tá numa pior, não tô de sacanagem contigo não. Olha, ele...

Saquei, pensaram duas vozes dentro de sua mente em uníssono enquanto ele ouvia o amigo falando com Donna. E não se esqueça de dizer a ela para me levar alguma coisa, está brabeza! Pode me arrumar alguma coisa? Talvez me sobrecarregar, como Donna faz? Ele estendeu a mão para tocar em Hank, mas não conseguiu, a mão dele não alcançava.

— Um dia eu faço o mesmo por você — prometeu ele a Hank enquanto Hank desligava.

— Só fique sentado aí até que o carro esteja lá fora. Vou pedir agora. — Novamente Hank telefonou, desta vez dizendo: — Garagem? Quero um carro sem marcas e um policial à paisana. O que vocês têm disponível?

Eles, dentro do traje misturador, o borrão nebuloso, fecharam os olhos para esperar.

— Pode ser que eu tenha que te levar para o hospital — disse Hank. — Você está muito mal; talvez Jim Barris tenha te envenenado. Estamos na verdade interessados em Barris, não em você, fizemos a varredura da casa principalmente para ficar de olho em Barris. Esperávamos atraí-lo para cá... e conseguimos. — Hank ficou em silêncio. — E é por isso que eu sei muito bem que as fitas e os outros itens dele são falsos. O laboratório vai confirmar. Mas Barris está metido em alguma coisa pesada. Pesada, doentia e tem a ver com armas.

— Eu sou o quê, então? — disse ele de repente, num tom muito alto.

— Temos de pegar Jim Barris e apresentar uma acusação contra ele.

— Vocês são uns merdas — disse ele.

— Do modo como arranjamos, Barris... se é isso que ele é... vai ficar cada vez mais desconfiado de que você era um agente disfarçado da polícia, prestes a desmascará-lo e usá-lo para chegar aos superiores. Então ele...

O telefone tocou.

— Tudo bem — disse Hank depois. — Só fique sentado aí, Bob. Bob, Fred, o que for. Fique à vontade... Vamos pegar o patife e ele é um... bom, o que você acaba de nos chamar. Uma coisa assim, o que quer que ele esteja fazendo.

— Claro, vale a pena. — Ele mal conseguia falar; chiou mecanicamente.

Juntos, eles ficaram sentados.

 

 

No caminho para a New-Path, Donna saiu da estrada, onde eles podiam vez as luzes embaixo, de todos os lados. Mas agora ele começara a sentir dor, ela podia ver isso, e não restava muito tempo. Ela queria ficar com ele mais um pouco. Bem, ela esperara tempo demais. As lágrimas rolaram do rosto dele e ele tinha começado a arquejar e vomitar.

— Vamos ficar sentados por uns minutos — disse ela a ele, guiando-o pelos arbustos e pelo mato, atravessando um solo arenoso entre latas de cerveja descartadas e lixo. — Eu...

— Está com o seu cachimbo de haxixe? — ele conseguiu dizer.

— Estou — disse ela. Eles estavam longe da estrada, o bastante para não serem vistos pela polícia. Ou, pelo menos, longe o bastante para poder jogar o cachimbo fora, se aparecesse um policial. Ela veria o carro da polícia estacionado, suas luzes apagadas, às ocultas, a certa distância, e a aproximação do policial a pé. Haveria tempo.

Ela pensou: tempo suficiente para isso. Tempo suficiente para ficar a salvo da lei. Mas não havia mais tempo para Bob Arctor. O tempo dele — pelo menos o tempo medido pelos padrões humanos — tinha acabado. Era outro tipo de tempo em que ele entrara agora. Como, pensou ela, o tempo de um rato; correr de um lado para outro, ser inútil. Para se mover sem planejamento, de um lado a outro, de um lado a outro. Mas pelo menos ele podia ver as luzes lá embaixo. Embora para ele isso talvez não importasse.

Eles acharam um lugar protegido e ela pegou o haxixe embrulhado em papel-alumínio e acendeu o cachimbo. Bob Arctor, ao lado dela, não pareceu perceber. Tinha se borrado, mas ela sabia que ele não pôde evitar. Na verdade ele provavelmente nem sabia disso. Todos ficavam desse jeito durante a privação.

— Toma. — Ela se curvou para ele, para sobrecarregá-lo. Mas ele tampouco pareceu dar pela presença dela. Só ficou sentado ali, recurvado, suportando as cólicas de estômago, vomitando e se borrando, tremendo e gemendo loucamente para si mesmo, uma espécie de canção.

Ela pensou então em um cara que tinha conhecido certa vez, que tinha visto Deus. Ele agira da mesma forma, gemendo e chorando, embora não tivesse se borrado. Ele vira Deus em um flasbback depois de uma viagem de ácido; estava experimentando vitaminas hidrossolúveis, enormes doses dela. A fórmula ortomolecular que devia melhorar o circuito nervoso do cérebro, acelerá-lo e sincronizá- lo. Esse cara, porém, em vez de ficar mais inteligente, tinha visto Deus. Fora uma surpresa completa para ele.

— Eu acho — disse ela — que nunca vamos saber o que está reservado para nós.

Ao lado dela, Bob Arctor gemia e não respondeu.

— Conhece um cara chamado Tony Amsterdam?

Não houve resposta.

Donna inalou do cachimbo e contemplou as luzes que se espalhavam abaixo deles; ela sentiu o cheiro no ar e escutou.

— Depois que viu Deus, ele se sentiu realmente bem, por quase um ano. E aí ele se sentiu bem mal. Pior do que nunca na vida. Porque um dia a ficha dele caiu, ele começou a perceber que nunca veria Deus novamente; ele ia viver tudo o que restava da vida, décadas, talvez 50 anos, e não ver nada além do que sempre viu. O que a gente vê. Ele ficou pior do que se não tivesse visto Deus. Um dia ele me disse que ficou puto de verdade, tinha acabado de tomar uma e começou a xingar e esmagar coisas no apartamento dele. Até o aparelho de som ele destruiu. Ele percebeu que ia ter de viver para sempre como ele era, sem ver nada. Sem nenhum propósito. Só um pedaço de carne mourejando, comendo, bebendo, dormindo, trabalhando, cagando.

— Como todos nós. — Era a primeira coisa que Bob Arctor conseguia dizer; cada palavra saiu com uma ânsia de vômito.

Donna disse:

— Foi o que eu disse a ele. Eu assinalei isso para ele. Todos estávamos no mesmo barco e isso não pirava o resto de nós. E ele disse: “Você não sabe o que eu vi. Não sabe.”

Um espasmo passou por Bob Arctor, convulsionando-o, e depois disse, engasgado:

— Ele... ele disse como era?

— Faíscas. Chuvas de faíscas coloridas, como acontece quando dá alguma coisa errada na TV. Faíscas subindo pelas paredes, faíscas no ar. E todo o mundo era uma criatura viva, para onde quer que ele olhasse. E não havia acaso: tudo se encaixava e acontecia com um propósito, para chegar a alguma coisa... uma meta no futuro. E depois ele viu a soleira de uma porta. Por uma semana ele a viu, para onde quer que olhasse... dentro do apartamento dele, do lado de fora, quando estava indo para a loja ou andando de carro. E eram sempre as mesmas proporções, bem estreitas. Ele disse que era muito... agradável. Foi a palavra que ele usou. Ele nunca tentou passar por ela, só ficava olhando, porque era muito agradável. Com um contorno brilhante em vermelho vivo e ouro, foi o que ele disse. Como se as faíscas tivessem se reunido em linhas, como em geometria. E depois disso ele nunca mais viu de novo em toda a vida, e foi isso que um dia acabou com ele.

Depois de um tempo, Bob Arctor disse:

— O que havia do outro lado?

Donna disse:

— Ele disse que tinha outro mundo do outro lado. Ele podia ver.

— Ele... nunca atravessou?

— Foi por isso que ele chutou a merda toda no apartamento dele; ele nunca atravessou, só admirava a soleira da porta, depois ele não conseguiu ver mais nada e era tarde demais. Ela se abriu para ele por alguns dias e depois se fechou e foi embora para sempre. Ele ficou tomando um monte de LSD e umas vitaminas hidrossolúveis, mas nunca mais viu, nunca encontrou a combinação.

Bob Arctor disse:

— O que tinha do outro lado?

— Ele disse que era sempre noite.

— Noite!

— Tinha luar e água, sempre a mesma coisa. Nada se mexia nem mudava. Uma água preta, como tinta, e uma praia, a praia de uma ilha. Ele tinha certeza de que era a Grécia, a Grécia antiga. Ele deduziu que a soleira da porta era uma passagem no tempo e ele estava vendo o passado. E depois, quando ele não conseguiu ver mais a porta, estava na via expressa, de carro, com todos os caminhões, e foi ficando muito irritado. Disse que não conseguia suportar todo o movimento e o barulho, tudo indo de um lado para outro, todo o barulho e as explosões. Mas aí ele nunca entendeu por que eles mostraram o que mostraram. Ele realmente acreditou que era Deus e era a porta para o além, mas na análise final só o que fez foi embolar a cabeça dele. Ele não conseguiu segurar, então não podia lidar com isso. Toda vez que ele conhecia alguém, contava depois de algum tempo que tinha perdido tudo.

Bob Arctor disse:

— É assim que eu estou.

— Tinha uma mulher na ilha. Não exatamente... mais uma estátua; ele disse que era de Afrodite Cirenaica. Parada ali na luz da lua, pálida, fria e feita de mármore.

— Ele devia ter atravessado a porta quando teve chance.

Donna disse:

— Ele não teve chance. Era uma promessa. Alguma coisa que ia acontecer. Algo melhor, para depois de muito tempo. Talvez depois de ele... — Ela fez uma pausa. — Quando ele morresse.

— Ele perdeu — disse Bob Arctor. — Você tem uma chance e só. — Ele fechou os olhos novamente, a dor e o suor raiando seu rosto. — Mas o que é que sabe um doidão ferrado de ácido? O que nós sabemos? Não consigo falar. Esquece. — Ele se afastou dela, foi para a escuridão, sacudindo-se e tremendo.

— Agora eles dão trailers à gente — disse Donna. Ela passou os braços nele e o abraçou com a máxima força que pôde, balançando-o de um lado para outro. — Então vamos ficar firmes.

— É o que você está tentando fazer. Comigo, agora.

— Você é um bom homem. Tem passado por uma barra pesada. Mas a vida não acabou para você. Eu sinto muito carinho por você. Eu queria... — Ela continuou a abraçá-lo, em silêncio, na escuridão que o estava tragando para dentro. Tomando conta mesmo enquanto ela o abraçava. — Você é uma pessoa boa e gentil — disse ela. — E isso é injusto, mas tem de ser assim. Tente esperar pelo fim. Um dia, daqui a um bom tempo, você vai ver do jeito como via antes. A visão vai voltar para você. — Restaurado, pensou ela. No dia em que tudo que foi tirado injustamente das pessoas for restaurado a elas. Pode levar mil anos, ou mais do que isso, mas esse dia chegará e todas as contas serão acertadas. Talvez, como Tony Amsterdam, você tenha tido uma visão de Deus que foi apenas temporária; a privação, pensou ela, em vez de o fim. Talvez, por dentro, os circuitos terrivelmente danificados e deteriorados de sua cabeça, que queimam cada vez mais, mesmo enquanto eu te abraço, uma faísca de cor e luz em alguma forma disfarçada que se manifestou, sem ser reconhecida, para levar você, por sua memória, pelos anos que virão, uma coisinha vista, mas não compreendida, um fragmento de estrela misturado com o lixo deste mundo, para te guiar por reflexo até o dia... mas isso está tão longe... Ela não conseguia verdadeiramente imaginar. Mesclado com o lugar-comum, algo de outro mundo talvez tenha aparecido a Bob Arctor antes que acabasse. Só o que ela podia fazer agora era abraçá-lo e esperar.

Mas quando ele o encontrasse novamente, se eles tivessem sorte, haveria um padrão de reconhecimento. A comparação correta no hemisfério certo. Mesmo no nível subcortical que ele tivesse. E a viagem, tão pavorosa para ele, tão custosa, tão evidentemente sem sentido, estaria terminada.

Uma luz brilhou nos olhos dela. Parado diante dela, um policial de cassetete e lanterna.

— Poderiam se levantar, por favor? — disse o policial. — E me mostrarem a identidade? A senhorita primeiro.

Ela soltou Bob Arctor, que deslizou de lado até cair no chão; ele não tinha consciência do policial, que se aproximou deles pelo morro, furtivamente, de uma estrada vicinal abaixo. Pegando a carteira na bolsa, Donna fez um sinal para o policial se afastar, onde Bob Arctor não pudesse ouvir. Por vários minutos, o policial analisou a identidade dela com a luz fraca da lanterna e depois disse:

— Você é uma federal disfarçada.

— Fale baixo — disse Donna.

— Desculpe. — O policial devolveu a carteira a ela.

— Só dá o fora daqui, porra — disse Donna.

O policial jogou a luz da lanterna no rosto de Donna brevemente e depois se afastou; ele partiu como havia se aproximado, sem fazer ruído.

Quando ela voltou a Bob Arctor, era óbvio que ele não tomara conhecimento do policial. Agora não tinha consciência de quase nada. Mal tinha consciência dela, que diria de outra pessoa ou outra coisa.

Ao longe, ecoando, Donna podia ouvir o carro da polícia descendo a estrada vicinal sulcada e invisível. Alguns insetos e talvez um lagarto andavam pelo mato seco em volta deles. A distância, na 91 Freeway, brilhava um padrão de luzes, mas não chegava som algum a eles, era longe demais.

— Bob — disse ela com delicadeza. — Pode me ouvir?

Nenhuma resposta.

Todos os circuitos estão fundidos, pensou ela. Derretidos e fundidos. E ninguém vai conseguir reabri-los, independentemente do quanto tentarem. E eles vão tentar.

— Vamos — disse ela, puxando-o, tentando fazer com que ele se levantasse. — Já devíamos ter começado.

Bob Arctor disse:

— Não podemos transar. Meu troço sumiu.

— Estão esperando pela gente — disse Donna com firmeza. — Eu tenho de assinar sua entrada.

— Mas o que eu vou fazer se meu troço sumiu? Eles vão me aceitar assim mesmo?

Donna disse:

— Eles vão te aceitar.

Isso requer uma espécie maior de sabedoria, pensou ela, saber quando aplicar a injustiça. Como pode a justiça ser vítima, sempre, do que é certo? Como isso pode acontecer? Ela pensou: “Porque há uma maldição neste mundo e tudo prova isso, a prova está bem aqui.” Em algum lugar, no nível mais profundo possível, o mecanismo, a construção das coisas, se separa e do que restou vem a necessidade de cometer todos os vários tipos de erros incompreensíveis pelos quais optamos por parecerem os mais sensatos. Deve ter começado há milhares de anos. Agora está infiltrado na natureza de tudo. E, pensou ela, em cada um de nós. Não podemos nos virar ou abrir a boca e falar, tomar decisões, sem fazer isso. Eu nem me importo com como, quando ou por que isso começou. Ela pensou: “Só espero que um dia termine. Como com o Tony Amsterdam; só espero que um dia a chuva de faíscas coloridas e brilhantes volte e dessa vez todos nós a veremos. A soleira estreita onde há paz do outro lado. Uma estátua, o mar e o que parece um luar. E nada se agita, nada destrói a calma.” Há muito, muito tempo, pensou ela. Antes da maldição e de tudo e todos ficarem assim. A Era de Ouro, pensou ela, quando sabedoria e justiça eram a mesma coisa. Antes de tudo se espatifar em fragmentos cortantes. Em cacos que não se encaixam, que não podem ser reunidos por mais que tentemos.

Abaixo dela, na escuridão e na distribuição das luzes urbanas, soou uma sirene da polícia. Uma viatura policial em plena perseguição. Parecia um animal enlouquecido, sôfrego para matar. E sabendo que isso logo aconteceria. Ela tremeu; o ar da noite ficara frio. Era hora de ir.

Agora não estávamos na Era de Ouro, pensou ela, com barulhos como esse no escuro. Será que eu emito esse tipo de barulho voraz?, perguntou-se ela. Eu sou essa coisa? Me aproximando ou fechando o cerco?

Conseguindo pegar?

Ao lado dela, o homem se agitou e gemeu enquanto ela o ajudava a se levantar. Ajudou-o a se pôr de pé e voltar ao carro dela, passo a passo, ajudou-o, ajudou-o a continuar em frente. Abaixo deles, o barulho da viatura cessara abruptamente, tinha parado sua caçada. Seu trabalho estava feito. Segurando Bob Arctor apoiado nela, ela pensou: O meu também acabou.

 

 

Os dois integrantes da equipe da New-Path estavam de pé avaliando a coisa a seus pés, que vomitava, tremia e se emporcalhava, os braços envolvendo o próprio corpo, abraçando-se como que para deter o frio que o fazia tremer com tanta violência.

— O que é isso? — disse um membro da equipe.

Donna disse:

— Uma pessoa.

— Substância D?

Ela assentiu.

— Ela devorou a cabeça dele. Mais um fracassado.

Ela disse aos dois:

— É fácil vencer. Qualquer um pode vencer. — Curvando-se para Robert Arctor, ela disse, em silêncio:

— Adeus.

Estavam colocando um velho cobertor do exército em cima dele enquanto ela saía. Ela não olhou para trás.

Chegando ao carro, ela partiu para a via expressa mais próxima, para o trânsito mais pesado possível. Da caixa de fitas no chão do carro pegou Tapestry, de Carole King, a preferida de todas que tinha, e colocou no toca-fitas; ao mesmo tempo, ela soltou a pistola Ruger, colocada magneticamente fora de vista, abaixo do painel. Engrenando a quinta, ela colou na traseira de um caminhão que transportava caixas de madeira de garrafas médias de Coca-Cola e, enquanto Carole King cantava no som, ela esvaziou o pente da Ruger nas garrafas de Coca a pouca distância do carro.

Enquanto Carole King cantava suavemente sobre pessoas transformando-se em sapos, Donna conseguiu atingir quatro garrafas antes que o pente da arma se esvaziasse. Cacos de vidro e manchas de Coca-Cola se espalharam pelo pára-brisa do carro. Ela se sentiu melhor.

Justiça, honestidade e lealdade não eram propriedades deste mundo, pensou ela, e depois, por Deus, ela investiu para seu velho inimigo, seu antigo adversário, o caminhão de Coca-Cola, que continuou em frente sem perceber nada. O impacto fez seu carrinho rodar; os faróis se apagaram, barulhos horríveis de pára-lamas nos pneus guinchando e depois ela saiu da via expressa, na faixa de emergência, na contramão, a água cuspindo do radiador, os motoristas reduzindo a velocidade, embasbacados.

Volta, seu filho-da-puta, disse ela a si mesma, mas o caminhão da Coca-Cola tinha partido, provavelmente sem nenhum amassado. Talvez com um arranhão. Bom, isso ia acontecer cedo ou tarde, a guerra dela, ela enfrentando um símbolo e uma realidade que a oprimia. Agora minhas taxas de seguro vão aumentar, percebeu ela enquanto saltava do carro. Neste mundo, você paga por combater o mal com o dinheiro frio e duro.

Um Mustang último modelo reduziu e o motorista, um homem, chamou por ela:

— Quer uma carona, senhorita?

Ela não respondeu. Só andou. Uma figurinha a pé enfrentando uma infinidade de luzes que se aproximavam.