11
Na manhã seguinte, de táxi, já que agora não era só o cefscópio que precisava de conserto, mas também o carro, ele apareceu à porta do chaveiro Englesohn com 40 pratas em dinheiro e muita preocupação em seu íntimo.
A loja tinha um quê de madeira antiga, com uma placa mais moderna, mas muitos trecos de latão nas vitrines trancadas: caixas de correio ornamentadas, maçanetas feitas de forma a parecer cabeças humanas, grandes chaves de ferro falso e preto. Ele entrou na semi-escuridão. Como a casa de um drogado, pensou ele, apreciando a ironia.
Num balcão onde assomavam duas enormes copiadoras de chaves, além de centenas de moldes de chaves penduradas em ganchos, uma idosa gorducha o recebeu.
— Sim, senhor? Bom-dia.
Arctor disse:
— Estou aqui...
Ihr Instrumente freilich spottet mein,
Mit Rad und Kämmen, Walz’ und Bügel:
Ich stand am Tor, ihr solltet Schlüssel sein;
Zwar euer Bart ist kraus, doch hebt ihr nicht die Riegel.
— ... para pagar por um cheque meu que voltou do banco. De vinte dólares, acho.
— Ah! — A senhora ergueu afavelmente um arquivo de metal, procurou pela chave para abri-lo, depois descobriu que o arquivo não estava trancado. Ela o abriu e encontrou o cheque imediatamente, com um bilhete. — Sr. Arctor?
— Sim — disse ele, já com o dinheiro na mão.
— Sim, vinte dólares. — Soltando o bilhete do cheque, ela começou laboriosamente a escrever no papel, indicando que ele tinha aparecido e pago pelo cheque.
— Desculpe por isso — disse ele a ela —, mas preenchi um cheque por engano, de uma conta encerrada, em vez de minha conta ativa.
— Sei... — disse a mulher, sorrindo enquanto escrevia.
— Além disso — disse ele —, eu agradeceria se a senhora dissesse a seu marido, que me ligou outro dia...
— Meu irmão, Carl — disse a mulher —, na verdade. — Ela olhou sobre o ombro. — Se Carl disse ao senhor... — Ela gesticulou, sorrindo. — Às vezes ele fica muito nervoso com os cheques... Me desculpe se ele falou... o senhor sabe.
— Diga a ele — disse Arctor, o discurso memorizado — que quando telefonou eu estava perturbado e peço desculpas por isso também.
— Acho que ele disse alguma coisa sobre isso sim. — Ela estendeu o cheque, ele lhe deu os vinte dólares.
— Alguma taxa? — disse Arctor.
— Não, nenhuma.
— Eu estava perturbado — disse ele, olhando brevemente para o cheque e depois colocando-o no bolso — porque um amigo meu tinha acabado de morrer, de repente.
— Ah, lamento — disse a mulher.
Arctor, demorando-se ali, disse:
— Ele morreu sufocado, sozinho, no quarto dele, com um pedaço de carne. Ninguém o ouviu.
— O senhor sabia, sr. Arctor, que acontecem mais mortes do que as pessoas percebem? Eu li que, quando o senhor estiver jantando com um amigo e ele não falar por um tempo e só ficar sentado ali, o senhor deve se aproximar dele e perguntar se ele consegue falar. Porque ele pode não conseguir, ele pode estar entalado, sem conseguir dizer ao senhor.
— Sim — disse Arctor. — Obrigado. É verdade. E obrigado pelo cheque.
— Mais uma vez, lamento pelo seu amigo — disse a senhora.
— Sim — disse ele. — Ele era o melhor amigo que eu tinha.
— Isso é terrível! — disse a mulher. — Quantos anos ele tinha, sr. Arctor?
— Trinta e poucos — disse Arctor, o que era verdade: Luckman tinha 32.
— Ah, que coisa horrível! Vou contar a Cari. E obrigada por ter o trabalho de vir até aqui.
— Eu é que agradeço — disse Arctor. — E agradeça ao sr. Englesohn também por mim. Muito obrigado aos dois. — Ele partiu, vendo-se de volta à calçada no calor da manhã, pestanejando com a luz forte e o ar poluído.
Ele pediu um táxi por telefone e, na viagem de volta a casa, certificou-se de como tinha se saído bem da armadilha de Barris sem fazer nenhuma cena. Podia ter sido muito pior, assinalou ele a si mesmo. O cheque ainda estava lá. E eu não tive de enfrentar o cara.
Ele pegou o cheque para ver o quanto Barris fora capaz de se aproximar de sua letra. Sim, era uma conta encerrada, ele reconheceu a cor do cheque de imediato, uma conta inteiramente encerrada, e o banco tinha carimbado CONTA ENCERRADA. Não surpreende que o chaveiro tenha ficado louco da vida. E depois, analisando o cheque enquanto prosseguia no táxi, Arctor viu que a letra era dele.
Não era nada parecida com a de Barris. Uma fraude perfeita. Ele nunca saberia que não era dele, só que, pelo que se lembrava, ele não o havia preenchido.
Meu Deus, pensou ele, quantos destes Barris fez a esta altura? Talvez ele tenha me desfalcado de metade do que eu tenho.
Barris, pensou ele, é um gênio. Por outro lado, provavelmente é uma reprodução por decalque ou algo feito mecanicamente. Mas eu nunca fiz um cheque para o chaveiro Englesohn; então, como a fraude pôde ser decalcada?
Este cheque é único. Vou levar ao departamento de grafologia, decidiu ele, e deixar que eles deduzam como foi feito. Talvez só com prática, muita prática.
Como no papo furado do cogumelo, ele pensou, vou procurá-lo e dizer que as pessoas me contaram que ele andou tentando vender doses de cogumelo para elas. E encerrar o assunto. Eu tive informações de alguém preocupado, como deve estar mesmo.
Mas, pensou ele, estes itens são só indicações aleatórias do que ele está aprontando, descobertos na primeira reprise. Eles só representam amostras do que vou ter de combater. Só Deus sabe o que mais ele fez; ele teve todo o tempo do mundo para andar por aí, ler livros de referência e imaginar tramóias, intrigas, conspirações e assim por diante... Talvez, pensou ele abruptamente, seja melhor eu dar uma olhada no meu telefone agora mesmo, para ver se está grampeado. Barris tem uma caixa de equipamentos eletrônicos, e até a Sony, por exemplo, fabrica e vende uma bobina de indução que pode ser usada como dispositivo para grampo telefônico. O telefone deve estar grampeado. Provavelmente já há algum tempo.
Quer dizer, pensou ele, além de meu próprio grampo recente — e necessário.
Novamente ele analisou o cheque enquanto o táxi se sacudia e, de repente, pensou: “E se eu fiz isso comigo mesmo? E se Arctor escreveu isso? Acho que eu fiz”, pensou ele, “acho que o próprio filho-da-puta lascado do Arctor preencheu este cheque, muito rápido — as letras estavam inclinadas —, porque, por algum motivo, ele estava com pressa; ele preencheu às pressas, pegou o talão errado e depois se esqueceu totalmente disso, esqueceu-se de todo o incidente.”
Esqueceu-se, pensou ele, da vez em que Arctor...
Was grinsest du mir, hohler Schädel, her?
Als dass dein Hirn, wie meines, einst verwirret
Den leichten Tag gesucht und in der Dämmrung schwer,
Mit Lust nach Wahrheit, jämmerlich geirret.
... saiu daquela enorme festa de doidão em Santa Ana, onde ele conhecera aquela lourinha de dentes tortos, cabelo louro comprido e uma bunda grande, mas tão cheia de energia e tão simpática... Ele não conseguiu dar a partida no carro; Arctor estava totalmente chapado. Ele continuou tendo problemas — tinha tomado muita droga e pico naquela noite, quase até o amanhecer. E também muita Substância D e de primeira. De primeiríssima. Material dele.
Curvando-se para a frente, ele disse:
— Pare no posto Shell. Vou ficar ali.
Ele saiu, pagou ao taxista, depois entrou na cabine telefônica, procurou pelo número do chaveiro e ligou para ele.
A senhora atendeu.
— Chaveiro Englesohn, bom...
— É o sr. Arctor novamente. Desculpe-me por incomodá-la. Qual foi o endereço da chamada, para o serviço feito em troca do meu cheque?
— Bem, vamos ver. Um minutinho, sr. Arctor. — Uma pancada no telefone enquanto ela o baixava.
Uma voz de homem, distante e abafada: — Quem é? Aquele tal de Arctor?
— Sim, Carl, mas não diga nada, por favor. Ele acabou de vir aqui...
— Me deixa falar com ele.
Pausa. Depois a velha novamente.
— Bem, eu tenho este endereço, sr. Arctor. — Ela leu o endereço da casa dele.
— Foi para lá que chamaram o seu irmão? Para fazer uma chave?
— Espere um minuto. Cari? Você se lembra aonde foi na picape para fazer a chave do sr. Arctor?
Um murmúrio distante de homem: “Em Katella.”
“Não foi à casa dele?”
“Em Katella!”
— Em algum lugar em Katella, sr. Arctor. Em Anaheim. Não, espere... Carl disse que foi em Santa Ana, em Main. Que...
— Obrigado — disse ele e desligou. Santa Ana. Main. Foi onde aconteceu a porra da festa de drogas e eu devo ter informado uns trinta nomes e placas de carros naquela noite; aquela não foi uma festa comum. Um grande carregamento tinha chegado do México, os compradores estavam fazendo a partilha e, como sempre acontece com os compradores, provavam o que dividiam. Metade deles agora deve ter sido presa por agentes de compra mandados... Caramba, pensou ele, eu ainda me lembro — ou nunca vou me lembrar corretamente — daquela noite.
Mas isso ainda não era desculpa para Barris fingir ser Arctor maldosamente naquele telefonema. A não ser que, pelos indícios, Barris tenha inventado tudo certinho — improvisado. Que merda, talvez Barris estivesse chapado na outra noite e fez o que faz um monte de gente quando está chapada: divertindo-se com o que está acontecendo. Arctor preencheu o cheque, sem dúvida nenhuma; Barris, por acaso, só pegou o telefone. Mas, em sua cabeça ferrada, foi só uma brincadeira. Estava apenas sendo irresponsável, mais nada.
E, refletiu ele enquanto chamava novamente o táxi, Arctor não tinha sido muito responsável ao pagar este cheque depois de um longo período. De quem era a culpa? Pegando-o mais uma vez, ele examinou a data do cheque. Um mês e meio. Meu Deus... e vem falar de irresponsabilidade! Arctor podia se animar por causa disso; graças a Deus o biruta do Carl não foi ao escritório do promotor. Provavelmente a doce irmã o impediu.
Arctor, concluiu ele, é melhor começar a agir; ele mesmo fez umas coisas estranhas que só foi saber agora. Barris não é o único ou talvez nem seja o primeiro. Uma coisa é certa: ainda é preciso explicar a causa da maldade intensa e concentrada de Barris com relação a Arctor; um homem não perde tanto tempo para ferrar outro sem motivo nenhum. E Barris não está tentando ferrar mais ninguém, não, digamos, Luckman ou Charles Freck, ou Donna Hawthorne; ele ajudou a colocar Jerry Fabin na clínica federal mais do que qualquer outra pessoa e ele gosta de todos os animais da casa.
Uma vez, Arctor ia mandar uma cadela — qual era mesmo o nome da pretinha, Popo ou coisa assim? — para o abrigo, a fim de ser sacrificada, ela não podia ser adestrada, e Barris passou horas, na verdade dias, com Popo, treinando-a delicadamente e falando com ela até que ela se acalmou, pôde ser adestrada e assim não teve de ser morta. Se Barris tinha maldade generalizada com relação a tudo, ele não daria exemplos, bons exemplos como esse.
— Táxi — disse ao telefone.
Ele deu o endereço do posto da Shell.
E se Carl, o chaveiro, reconheceu Arctor como um usuário pesado de drogas, ponderou ele enquanto esperava malhumorado pelo táxi, não foi culpa de Barris; quando Carl chegou de picape às cinco da manhã para fazer uma chave para o Olds de Arctor, Arctor provavelmente estava andando torto, subindo pelas paredes e piscando os olhos de peixe e todas as outras coisas de uma bela trip de drogas. Carl tirou as conclusões dele aí. Enquanto Carl fazia a chave nova, Arctor deve ter ficado plantando bananeira ou batendo a cabeça, dizendo coisas sem sentido. Não surpreende que Carl não tenha achado graça.
Na verdade, especulou ele, talvez Barris estivesse tentando dar cobertura para as merdas cada vez maiores de Arctor. Arctor não mantinha mais seu carro em condições seguras, como fazia antigamente; estava indolente, não de propósito, mas porque a porcaria do cérebro dele está podre pelas drogas. Mas, se é assim, então é pior ainda. Barris está fazendo o que pode, essa é uma possibilidade. Só que o cérebro dele também está podre. O cérebro de todos eles está...
Dem Wurme gleich’ ich, der den Staub durchwühlt,
Den, wie er sich im Staube nährend lebt,
Des Wandrers Tritt vernichtet and begräbt.
... podre e eles interagiam de forma podre. É podre levando a podre. E direto para a perdição.
Talvez, conjecturou ele, Arctor tenha cortado e dobrado os fios e provocado todos os curtos no cefscópio. No meio da noite. Mas por que motivo?
Esta era difícil: por quê? Mas com cérebros podres, tudo era possível, qualquer variedade de motivos distorcidos — como os próprios fios. Ele tinha visto isso, durante seu trabalho como policial disfarçado, muitas, muitas vezes. Essa tragédia não era nova para ele; seria, em seus arquivos de computador, só mais um caso. Essa era uma fase anterior à viagem para uma clínica federal, como aconteceu com Jerry Fabin.
Todos aqueles caras andavam em um tabuleiro de jogo, parados agora em diferentes quadrados a distâncias variadas da meta e a atingiriam em diferentes tempos. Mas um dia todos chegariam lá, às clínicas federais.
Estava inscrito em seu tecido nervoso. Ou no que restava dele. Nada podia deter ou reverter isso agora.
E, ele começou a acreditar, principalmente para Bob Arctor. Era intuição dele, só um começo, sem depender de nada do que Barris fizesse. Um insight novo e profissional.
E, além disso, seus superiores no Departamento de Polícia do Condado de Orange tinham decidido se concentrar em Bob Arctor; eles sem dúvida tinham motivos que ele desconhecia. Talvez esses fatos confirmassem outro: o crescente interesse deles em Arctor — afinal, custou uma grana preta ao departamento instalar os holo-scanners na casa de Arctor e pagar a ele para analisar os impressos, bem como a outros acima dele para avaliar o que ele fornecia periodicamente —, isso combinava com a atenção incomum de Barris com relação a Arctor, ambos escolherem Arctor como principal alvo. Mas o que ele tinha visto na conduta de Arctor que parecesse incomum? Em primeira mão, sem depender daquelas duas partes interessadas?
Enquanto o táxi prosseguia, ele refletiu que teria de observar por algum tempo para entender alguma coisa, mais provavelmente; ele grudaria nos monitores um dia inteiro. Ele precisaria ser paciente, precisaria se resignar a uma análise longa e a se colocar em um espaço onde estivesse disposto a esperar.
Mas depois de que visse algo nos holo-scanners, um comportamento enigmático ou suspeito por parte de Arctor, passaria a existir um dilema triplo para ele, uma terceira verificação dos interesses dos outros. Certamente seria uma confirmação. Justificaria as despesas e o tempo de todos.
Eu me pergunto o que Barris sabe que nós não sabemos, pensou ele. Talvez devêssemos detê-lo e perguntar. Mas — é melhor obter material desenvolvido de forma independente de Barris, caso contrário seria uma reprodução do que tinha Barris, quem quer que ele fosse ou representasse.
E depois ele pensou: “De que diabos eu estou falando? Eu devo estar maluco. Eu conheço Bob Arctor, ele é uma boa pessoa. Ele não está aprontando nada. Pelo menos nada de ofensivo. Na realidade, pensou ele, ele trabalha para o Departamento de Polícia do Condado de Orange, sob disfarce. E deve ser por isso...”
Zwei Seelen wohnen, ach! in meiner Brust,
Die eine will sich von der andem trennen:
Die eine hält, in derber Liebeslust,
Sich an die Welt mit klammernden Organen;
Die andre hebt gewaltsan sich vom Dust
Zu den Gefilden hoher Ahnen.
“... que Barris o está perseguindo.”
Mas, pensou ele, isso não explicaria por que o Departamento de Polícia do Condado de Orange o estava perseguindo — em especial a ponto de instalar todos aqueles holos e designar um agente em tempo integral para vigiar e fornecer relatórios sobre ele. Isso não é explicação.
Não faz sentido, pensou ele. Mais, muito mais deve estar rolando naquela casa, aquela casa em ruínas cheia de entulho, com o quintal cheio de mato, a caixa de areia do gato que nunca é limpa e animais andando pela mesa da cozinha e lixo cuspindo pela lata que ninguém recolhe.
Que desperdício, pensou ele, de uma casa realmente boa. Tanta coisa podia ser feita com ela. Uma família, filhos e uma mulher podiam morar ali. Foi projetada para isso: três quartos. Que desperdício, que porra de desperdício! Deviam tomá-la dele, pensou Arctor, entrar na situação e impedir. Talvez eles façam isso. E dêem melhor uso a ela, aquela casa anseia por isso. Aquela casa viu dias muito melhores há muito tempo. Esses dias podem voltar. Se outro tipo de pessoa a tiver e a conservar.
Especialmente o quintal, pensou ele, enquanto o táxi encostava na entrada cheia de jornais espalhados.
Ele pagou ao motorista, pegou a chave da porta e entrou na casa.
Imediatamente sentiu algo o observando; os holo-scanners nele. Assim que passou pela soleira da porta. Sozinho — não havia ninguém na casa a não ser ele. Mentira! Ele e os scanners, insidiosos e invisíveis, que o observavam e registravam. Tudo o que ele fazia. Tudo o que ele exprimia.
Como os garranchos na parede quando você urinava em um mictório público, pensou ele. SORRIA! VOCÊ
ESTÁ SENDO FILMADO! Eu estou, pensou ele, assim que entro nesta casa. E sinistro. Ele não gostava disso. Sentia- se constrangido, a sensação vinha aumentando desde o primeiro dia, quando eles chegaram em casa — o “dia da merda de cachorro”, como ele o considerava, não conseguia deixar de pensar nele. A cada dia a experiência dos scanners aumentava.
— Parece que não tem ninguém em casa — declarou ele em voz alta, como sempre, e estava ciente de que os scanners tinham pegado isso. Mas ele tinha de ter cuidado o tempo todo, não devia saber que eles estavam ali. Como um ator diante de uma câmera de cinema, concluiu ele, você age como se a câmera não existisse ou acaba ferrando tudo. Tudo se acaba.
E para essa merda não vai haver mais de uma tomada.
O que você consegue, em vez disso, é apagar, quer dizer, o que eu consigo. Não as pessoas por trás dos scanners, mas eu.
O que eu devia fazer, pensou ele, para sair dessa, é vender a casa, é acabar com tudo. Mas... eu adoro esta casa. De jeito nenhum!
É a minha casa.
Ninguém pode me expulsar daqui.
Por quaisquer motivos que tenham para fazer isso.
Pressupondo-se que “eles” realmente existam.
O que pode ser só minha imaginação, o “eles” me observando. Paranóia. Ou melhor, a “coisa”. A coisa despersonalizada.
O que quer que o estivesse observando, não era humano.
Não por meus padrões, de qualquer forma. Nada que eu reconheça.
Embora isso seja uma tolice, pensou ele, é assustador. Algo está sendo feito comigo e por uma simples coisa, aqui, na minha própria casa. Diante de meus olhos.
Nos olhos de alguma coisa; na visão de uma coisa. O que, ao contrário dos olhinhos escuros de Donna, nem mesmo pisca. O que um scanner vê?, perguntou-se ele. Quer dizer, ele realmente vê? Na cabeça? No coração? Será que um scanner de infravermelho passivo, como costumavam usar, ou um holo-scanner do tipo cubo, como os que usam hoje em dia, o mais recente, me vê — vê a nós — com clareza ou obscuramente? Eu espero que ele veja com clareza, pensou ele, porque ultimamente não consigo mais ver a mim mesmo. Só vejo minhas trevas. Trevas por fora, trevas por dentro. Espero, para o bem de todos, que os scanners façam melhor do que isso. Porque, pensou ele, se o scanner só vê obscuramente, como eu me vejo, então estamos amaldiçoados, amaldiçoados de novo, como temos sido continuamente, e vamos morrer desse jeito, sabendo muito pouco e entendendo também esse pedacinho da forma errada.
Da estante da sala de estar, ele tirou um volume ao acaso; acabou sendo, como descobriu, O livro ilustrado do amor sexual. Abrindo ao acaso, ele viu uma página — que mostrava um homem mordiscando satisfeito o peito direito de uma mulher, e a mulher suspirava — e disse em voz alta, como se lesse para si mesmo do livro, como se citasse um filósofo famoso de antigamente, o que ele não era:
— Qualquer homem só vê uma parte mínima da verdade total e, com muita freqüência, na realidade quase...
Weh! steck’ ich dem Kerker noch?
Verfluchtes dumpfes Mauerloch,
Wo selbst das liebe Himmelslicht
Trüb durch gemalte Scheiben bricht!
Beschränkt mit diesem Bücherhauf,
Den Würme nagen, Staub bedeckt,
Den bis ans hohe.
— ... eternamente, ele deliberadamente se ilude também com este pequeno fragmento precioso. Uma parte dele se volta contra ele e age como outra pessoa, derrotando-o a partir de dentro. Um homem dentro de um homem. O que não é homem nenhum.
Assentindo, como se movido pela sabedoria das inexistentes palavras escritas nessa página, ele fechou o livro grande de capa vermelha e estampa em ouro, O livro ilustrado do amor sexual, e o recolocou na prateleira. Espero que os scanners tenham dado um zoom na capa desse livro, pensou ele, e tenham estragado meu disfarce.
Charles Freck, cada vez mais deprimido com o que estava acontecendo com todo mundo que ele conhecia, decidiu finalmente dar um fim à própria vida. Não havia problema, nos círculos que ele freqüentava, em se matar, você só comprava uma grande quantidade de vermelhas e as tomava com um vinho barato, de madrugada, com o telefone fora do gancho para ninguém interrompê-lo.
A parte do planejamento tinha de ser feita com os artefatos que você quisesse que os arqueólogos encontrassem com você mais tarde. Assim eles iam saber de que estrato você veio. E também podiam reconstituir sua cabeça como tinha sido na época em que você viveu.
Ele passou vários dias decidindo sobre os artefatos. Muito mais tempo do que tinha gasto decidindo se matar e aproximadamente o mesmo tempo necessário para conseguir tantas vermelhas de secobarbital. Ele seria encontrado deitado de costas, em sua cama, com um exemplar de A nascente, de Ayn Rand (o que provaria que ele fora um super-homem incompreendido, rejeitado pelas massas, e assim, de certa forma, fora assassinado pelo desprezo delas), e uma carta inacabada para a Exxon, protestando contra o cancelamento de seu cartão de crédito de combustível. Assim, ele culparia o sistema e conseguiria alguma coisa com sua morte, além do que a própria morte conseguia.
Na verdade, ele não tinha tanta certeza de que a morte conseguiria o que seria conseguido pelos dois artefatos, mas de qualquer modo tudo se encaixava e ele começou a se preparar, como um animal sentindo que sua hora chegara, agindo de acordo com a programação de seu instinto, derrubado pela natureza, quando seu fim inevitável estava próximo.
No último minuto (o prazo se encerrava) ele mudou de idéia sobre uma questão categórica e decidiu tomar as vermelhas com um vinho sofisticado, em vez de Ripple ou Thunderbird; assim, foi com o carro pela última vez até o Trader Joe’s, que era especializado em vinhos finos, e comprou uma garrafa de Mondavi Cabernet Sauvignon 1971, que lhe custou quase trinta dólares — tudo o que ele tinha.
Em casa de novo, ele abriu o vinho, deixou que ele respirasse, tomou algumas taças, passou alguns minutos contemplando a página preferida de O livro ilustrado do amor sexual, que mostrava a garota por cima, depois colocou o saco plástico com as vermelhas ao lado da cama, deitou-se com o livro de Ayn Rand e a carta de protesto inacabada para a Exxon, tentou pensar em uma coisa significativa, mas não conseguiu, embora continuasse se lembrando da garota por cima, e depois, com uma taça do Cabernet Sauvignon, engoliu todas as vermelhas de uma vez. Depois disso, feita a proeza, ele se deitou de costas, o livro de Ayn Rand e a carta em seu peito, e esperou.
Mas ele acabou se ferrando. As cápsulas não eram de barbitúricos, como deviam. Eram um tipo de psicodélico vagabundo, de uma espécie que ele nunca tinha tomado na vida, provavelmente uma mistura e nova no mercado. Em vez de sufocar tranqüilamente, Charles Freck começou a ter alucinações. Bem, pensou ele filosoficamente, essa é a história de minha vida. Sempre sendo roubado.
Ele teve de encarar o fato — considerando-se quantas cápsulas tinha tomado — de que estava entrando numa viagem.
A próxima coisa que ele percebeu foi uma criatura interdimensional parada ao lado de sua cama, olhando para ele de cima, com desaprovação.
A criatura tinha muitos olhos, em todo o corpo, roupas ultramodernas que pareciam caras e mais de dois metros e meio de altura. Além disso, portava um rolo enorme de pergaminho.
— Você vai ler meus pecados para mim — disse Charles Freck.
A criatura assentiu e abriu o rolo.
Freck disse, deitado impotente na cama:
— E vai levar umas 100 mil horas.
Fixando seus muitos olhos compostos nele, a criatura interdimensional disse:
— Não estamos mais no universo mundano. Categorias do plano inferior de existência material, como “espaço” e “tempo”, não são mais válidas para você. Você se elevou ao reino do transcendente. Seus pecados serão lidos para você incessantemente, em turnos, por toda a eternidade. A lista nunca terminará.
Conheça seu traficante, pensou Charles Freck, e ele quis poder voltar para a última meia hora de sua vida.
Mil anos depois, ele ainda estava deitado na cama com o livro de Ayn Rand e a carta para a Exxon no peito, ouvindo-os lerem seus pecados para ele. Tinham chegado à primeira série, quando ele tinha seis anos de idade.
Dez mil anos depois, eles chegaram à sexta série.
No ano em que ele descobriu a masturbação.
Ele fechou os olhos, mas ainda podia ver o ser de múltiplos olhos e dois metros e meio de altura com o rolo interminável, lendo sem parar.
— E a seguir... — estava dizendo a criatura.
Charles Freck pensou: “Pelo menos tomei um bom vinho.”