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Certa vez, um sujeito passou o dia todo sacudindo insetos do cabelo. O médico disse a ele que não havia insetos em seu cabelo. Depois de tomar um banho de oito horas, parado interminavelmente sob a água quente, sofrendo a dor dos insetos, ele saiu e se secou e ainda havia insetos no cabelo; na verdade, havia insetos em todo o corpo. Um mês depois, ele tinha insetos nos pulmões.

Sem nada mais a fazer ou pensar, ele começou a tentar entender o ciclo vital dos insetos e, com a ajuda da Britannica, identificar especificamente aqueles insetos. Agora eles enchiam a casa. Ele leu sobre muitos tipos diferentes e por fim percebeu insetos do lado de fora, então concluiu que eram afídios. Depois que lhe ocorreu, essa conclusão não mudou, independentemente do que os outros lhe dissessem, como: “Os afídios não picam as pessoas.”

Eles diziam isso porque as picadas intermináveis dos insetos o atormentavam continuamente. Na loja 7-11, de uma cadeia espalhada pela maior parte da Califórnia, ele comprou latas de spray de Raid, Black Flag e Yard Guard. Primeiro ele borrifou a casa, depois a si mesmo. O Yard Guard pareceu funcionar melhor.

No aspecto teórico, ele percebeu três estágios no ciclo dos insetos. Primeiro, eles apareciam e o contaminavam por intermédio do que ele chamava de “gente-correio”, que eram pessoas que não entendiam seu papel na distribuição dos insetos. Durante essa fase, os insetos não tinham maxilar nem mandíbula (ele aprendeu essa palavra durante as semanas de pesquisa acadêmica, uma ocupação incomumente livresca para um cara que trabalhava na Handy Brake and Tire realinhando os tambores de freios dos outros). A gente-correio, portanto, nada sentia. Ele costumava se sentar no canto mais distante da sala de estar para observar diferentes pessoas-correio entrarem — a maioria delas ele conhecia havia algum tempo, mas algumas eram novas para ele — cobertas de afídios na fase específica em que não picavam. Ele meio que sorria para si mesmo, porque sabia que a pessoa estava sendo usada pelos insetos e não se desesperava com isso.

— Do que está rindo, Jerry? — diziam elas.

Ele se limitava a rir.

Na fase seguinte, os insetos desenvolviam asas ou coisa parecida, mas na verdade não eram exatamente asas; de qualquer modo, eram uma espécie de apêndice funcional que lhes permitia enxamear e era assim que migravam e se disseminavam — em especial para ele. A essa altura o ar ficava cheio deles; deixavam a sala de estar e toda a casa nevoentas. Nessa fase, ele procurava não os inalar.

Acima de tudo, ele lamentava pelo cachorro, porque podia ver os insetos pousando e se fixando em todo o corpo e provavelmente entrando nos pulmões do cão, como entraram no dele próprio. Provavelmente — pelo menos lhe disse sua capacidade de ter empatia — o cachorro estava sofrendo tanto quanto ele. Será que devia expulsar o cão para ter conforto? Não, decidiu; agora o cachorro estava infestado sem querer e carregaria os insetos com ele a toda parte.

Às vezes, ele ficava debaixo do chuveiro com o cão, tentando limpar o cachorro também. Não tinha mais sucesso com ele do que consigo mesmo. Doía sentir o cão sofrer; ele nunca deixou de tentar ajudá-lo. De certa forma, essa era a pior parte, o sofrimento do animal, que não podia reclamar.

— Que merda você está fazendo o dia todo no chuveiro com a droga do cachorro? — perguntou seu amigo Charles Freck certa vez, aparecendo durante o banho.

Jerry disse:

— Tenho de tirar os afídios dele. — Ele tirou Max, o cachorro, do chuveiro e começou a secá-lo. Charles Freck observava, aturdido, enquanto Jerry esfregava óleo de bebê e talco no pêlo do cão. Por toda a casa, latas de spray inseticida, frascos de talco, óleo e condicionadores para bebê estavam empilhados e jogados, a maioria vazia; ele agora usava muitas latas por dia.

— Não estou vendo afídio nenhum — disse Charles. — Aliás, o que é um afídio?

— Um dia ele te mata — disse Jerry. — Assim é um afídio. Eles estão no meu cabelo, na minha pele e nos meus pulmões e a maldita dor é insuportável... vou ter de ir para o hospital.

— Como é que eu não consigo vê-los?

Jerry baixou o cão, que estava enrolado numa toalha, e se ajoelhou no tapete puído.

-Vou te mostrar um — disse ele. O tapete estava coberto de afídios; eles saltavam por toda parte, para cima e para baixo, alguns mais alto do que outros. Ele procurou por um especialmente grande, devido à dificuldade que as pessoas tinham de vê-los. — Traga uma garrafa ou um vidro — disse ele —, procure embaixo da pia. Vamos cobrir um ou colocar uma tampa nele e depois posso levá-lo comigo quando for ao médico e ele vai poder analisá-lo.

Charles Freck lhe trouxe um vidro de maionese. Jerry começou a busca e por fim conseguiu interceptar um afídio que pulou no ar pelo menos 120 centímetros. O afídio tinha três centímetros de comprimento. Ele o apanhou, levou-o para o vidro, largou-o cuidadosamente dentro dele e atarraxou a tampa. Depois ergueu o vidro, triunfante.

— Está vendo? — disse ele.

— Ééééééé — disse Charles Freck, os olhos arregalados enquanto analisava o conteúdo do vidro. — Que grandão! Uau!

— Me ajude a encontrar mais para o médico poder ver — disse Jerry, novamente se agachando no tapete, o vidro ao lado dele.

— Claro — disse Charles Freck e obedeceu.

Meia hora depois, eles tinham três vidros cheios dos insetos. Charles, embora novo no assunto, encontrou alguns dos maiores.

Era meio-dia, em junho de 1994. Na Califórnia, em uma região de casas de plástico baratas, mas duráveis, havia muito desocupadas pelos caretas. Mas Jerry, anteriormente, tinha borrifado tinta metálica em todas as janelas para evitar a luz; a iluminação da sala vinha de uma luminária em que só atarraxara lâmpadas de luz dirigida, que brilhavam dia e noite, de forma a abolir o tempo para ele e os amigos. Ele gostava disso; gostava de se livrar do tempo. Deste modo, podia se concentrar em coisas importantes, sem ser interrompido. Como isto: dois homens ajoelhados em um tapete velho, encontrando um inseto após outro e colocando-os em vidro após vidro.

— O que vamos conseguir com isso? — disse Charles Freck, mais tarde. — Quer dizer, será que o médico vai pagar uma recompensa ou coisa assim? Um prêmio? Uma grana?

— Tenho de ajudar a aperfeiçoar uma cura para eles desse jeito — disse Jerry. A dor, constante, tornara-se insuportável, ele não conseguia se acostumar com ela e sabia que nunca se acostumaria. O impulso ou anseio de tomar outro banho o subjugava. — Ei, cara — ele arfou, endireitando-se —, vai colocando os insetos no vidro enquanto eu tomo um banho. — Ele partiu para o banheiro.

— Tudo bem — disse Charles, as pernas compridas cambaleando enquanto gingava para um vidro, as mãos em concha. Era um ex-veterano e ainda tinha um bom controle muscular, porém; ele conseguiu pegar o vidro. Mas depois disse de repente: — Olha, Jerry... esses insetos meio que me assustam. Não gosto de ficar sozinho com eles. — Ele se levantou.

— Seu cretino covarde — disse Jerry, arfando de dor enquanto hesitava no banheiro por um momento.

— Será que você podia...

— Tenho de tomar um banho! — Ele bateu a porta e girou as torneiras do chuveiro. A água jorrou.

— Estou com medo. — A voz de Charles Freck chegou fraca, embora ele evidentemente estivesse gritando.

— Então vai se foder! — respondeu Jerry aos gritos e entrou no chuveiro. Que porra de amigos são esses?, perguntou-se amargamente. Nada bom, nada bom! Não é nada bom mesmo!

— Essas merdas picam? — gritou Charles, bem junto à porta.

— E, eles picam — disse Jerry enquanto passava xampu no cabelo.

— Foi o que eu pensei. — Uma pausa. — Posso lavar minhas mãos, me livrar deles e esperar por você?

Covarde, pensou Jerry com uma furia amargurada. Ele não disse nada, apenas continuou seu banho. O cretino não valia resposta alguma. Ele não deu atenção a Charles Freck, só a si mesmo. A suas necessidades vitais, exigentes, terríveis e urgentes. Todo o resto teria de esperar. Não havia tempo, tempo nenhum, essas coisas não podiam ser adiadas. Todo o resto era secundário. A não ser o cachorro; ele se perguntou sobre Max, o cão.

Charles Freck telefonou para alguém que ele esperava que estivesse vendendo.

— Pode me passar umas dez mortes?

— Cara, estou totalmente zerado... estou tentando arrumar para mim. Me avise quando encontrar alguém, eu podia usar.

— Qual é o problema com o fornecimento?

— Acho que teve algumas quebras.

Charles Freck desligou e passou um número de fantasia na cabeça enquanto se arrastava desanimado da cabine telefônica — nunca se usava o telefone de casa para uma chamada dessas — de volta ao Chevy estacionado. Em sua fantasia, ele estava passando de carro pela Thrifty Drugstore e eles tinham uma vitrine enorme; frascos de Slow Death, latas de Slow Death, vidros e banheiras e tonéis e tigelas de Slow Death, milhões de cápsulas e tabletes e injeções de Slow Death, Slow Death batizada com speed e heroína e barbitúricos e psicodélicos, tudo — e uma placa gigante: VOCÊ TEM CRÉDITO AQUI. Para não falar de: PREÇOS MUITO BAIXOS, OS MAIS BAIXOS DA CIDADE.

Mas, na realidade, a Thrifty em geral tinha uma vitrine de nada: pentes, frascos de óleo mineral, latas de desodorante spray, sempre porcarias assim. Mas aposto que nos fundos da farmácia tem Slow Death trancada a chave que não é malhada, de uma forma pura, sem adulteração, sem mistura, pensou ele enquanto dirigia do estacionamento para o Harbor Boulevard, entrando no trânsito da tarde. Mais ou menos um saco de 25 quilos.

Ele se perguntou quando e como eles descarregavam o saco de 25 quilos da Substância D na Thrifty Drugstore toda manhã, de onde ele vinha — só Deus sabia, talvez da Suíça ou de outro planeta, onde vivia alguma raça sábia. Eles deviam entregar bem cedo e com seguranças armados - os Homens parados ali com rifles a laser parecendo maus, como os Homens sempre estavam. Qualquer um que tentar levar minha Slow Death, pensou ele com a cabeça de um dos Homens, eu apago.

Provavelmente a Substância D é um ingrediente de toda medicação legal que vale alguma coisa, pensou ele. Um pouquinho aqui e ali, de acordo com a fórmula secreta exclusiva do fabricante da Alemanha ou Suíça que a inventou. Mas, na verdade, ele sabia mais do que isso; as autoridades ou apagavam ou mandavam todo mundo vender ou transportar ou usar então nesse caso a Thrifty Drugstore — todos os milhões de Thrifty Drugstores — seria alvejada a tiros ou bombardeada ou sairia do negócio ou acabaria de alguma forma. Mais provavelmente acabaria. A Thrifty tinha pistolão. Como é que se fecha uma cadeia de grandes drogarias? Ou as mata?

Eles conseguem coisas extraordinárias, pensou ele enquanto circulava. Ele se sentiu repugnante porque só tinha trezentos tabletes de Slow Death no esconderijo. Enterrados em seu quintal debaixo da camélia, aquela híbrida de flores grandes que não ficavam marrons de queimadas na primavera. Eu só tenho suprimento para uma semana, pensou ele. E quando estiver sem nada? Merda!

Imagine que todos na Califórnia e em partes do Oregon fiquem sem nada no mesmo dia, pensou ele. Caramba!

Essa era a maior fantasia de terror de todos os tempos que lhe passava na cabeça, essa de cada entorpecente acabando. Todo o lado leste dos Estados Unidos sem nada ao mesmo tempo e todo mundo entrando em colapso no mesmo dia, provavelmente lá pelas seis da manhã. Domingo de manhã, enquanto os caretas se vestiam para a porra das orações.

Cena: a Primeira Igreja Episcopal de Pasadena, às oito e meia da manhã, de um Domingo de Colapso.

“Sagrados paroquianos, vamos apelar a Deus agora, neste momento, para pedir Sua intervenção na agonia daqueles que estão se agitando em suas camas com privação.”

“Sim, sim.” A congregação concorda com o pastor.

“Mas antes que Ele intervenha com um novo suprimento de...”

Um preto-e-branco evidentemente percebeu alguma coisa no modo como Charles Freck dirigia que ele próprio não notou; tinha saído de seu ponto de estacionamento e seguia atrás dele no trânsito, até agora sem as luzes e sirene, mas...

Talvez eu esteja andando em ziguezague ou coisa assim, pensou ele. Merda de malditas viaturas me vendo fodido. Eu imagino bem o quê.

POLICIAL: “Muito bem, qual é o seu nome?”

“Meu nome?” (NÃO CONSIGO PENSAR NO NOME.)

“Não sabe seu próprio nome?” O policial sinaliza para outro na radiopatrulha. “Esse cara está chapado pra valer.” “Não atire em mim aqui.” Charles Freck em sua fantasia de terror induzida pela visão do preto-e-branco vindo na direção dele. “Pelo menos me leve para a delegacia e atire em mim lá, fora de vista.”

Para sobreviver neste Estado policial fascista, pensou ele, sempre é preciso ser capaz de soltar um nome, o seu nome. Em todas as ocasiões. Esse é o primeiro sinal que eles procuram de que você está doidão, quando você não consegue saber quem diabos você é.

O que vou fazer, concluiu ele, é parar assim que encontrar uma vaga, parar voluntariamente antes que ele acenda as luzes ou faça alguma coisa, e depois, quando ele vier para o meu lado, eu digo que estou com o volante frouxo ou com outro problema mecânico.

Eles sempre acham isso ótimo, pensou ele. Quando você desiste desse jeito e não consegue continuar. Como se você se atirasse no chão como faz um animal, expondo sua barriga macia, indefesa e desprotegida. Vou fazer isso, pensou ele.

E ele fez, parando à direita e batendo as rodas dianteiras do carro no meio-fio. O carro da polícia passou por ele.

Parei por nada, pensou ele. Agora vai ser difícil voltar com o trânsito tão pesado. Ele desligou o motor. Talvez eu fique sentado aqui, parado, por algum tempo, concluiu ele, e alfa-medite ou entre em vários estados alterados de consciência. Possivelmente vendo as gatas passando a pé. Eu me pergunto se fabricam um bioscópio para se ficar excitado. Em vez de ficar em alfa. Ondas de excitação, primeiro bem curtas, depois mais longas, maiores, maiores, até que saem da escala.

Isso não está levando a lugar algum, percebeu ele. Eu devia estar tentando localizar alguém que venda. Tenho de conseguir meu suprimento ou logo, logo vou ficar descontrolado e depois não vou conseguir fazer nada. Nem me sentar no meio-fio como estou agora. Nem vou saber quem sou, não vou saber sequer onde estou ou o que está acontecendo.

O que está acontecendo?, perguntou-se ele. Que dia é hoje? Se eu soubesse que dia era, saberia de todo o resto, voltaria tudo aos pedacinhos.

Quarta-feira, no centro de Los Angeles, no bairro Westwood. Na frente, um daqueles shoppings gigantescos cercados por um muro onde você quica feito uma bola de borracha — a não ser que tenha um cartão de crédito e o passe pelo aro eletrônico. Sem ter nenhum cartão de crédito para nenhum dos shoppings, ele só podia se fiar no relato verbal para saber como eram as lojas por dentro. Todo um monte delas, evidentemente, vendendo produtos bons aos caretas, em especial às esposas caretas. Ele viu os seguranças armados e uniformizados no portão do shopping verificando cada pessoa. Vendo se o homem ou a mulher correspondia a seu cartão de crédito e se não tinha sido rasgado, vendido, comprado, usado fraudulentamente. Pencas de pessoas passando pelo portão, mas ele deduziu que muitas sem dúvida iam olhar as vitrines. Nem toda aquela gente podia ter a grana ou o impulso para comprar a essa hora do dia, refletiu ele. É cedo, mal passa das duas. À noite, essa é a hora. As lojas todas iluminadas. Ele podia — todos os irmãos e irmãs podiam — ver as luzes de fora, como chuva de faíscas, como um parque de diversões para crianças adultas.

As lojas desse lado do shopping não exigiam cartão de crédito, não tinham guardas armados nem valiam grande coisa. Lojas de utilidade: uma sapataria e uma loja de TVs, uma padaria, consertos de pequenos aparelhos, uma lavanderia automática. Ele viu uma garota que usava um casaco de plástico curto e calças stretch vagando de loja em loja; tinha o cabelo bonito, mas ele não conseguiu ver o rosto, ver se ela era gostosa. Não era nada má, pensou ele. A garota parou por um tempo em uma vitrine onde eram exibidos objetos de couro. Ela olhou uma bolsa com borlas; ele a podia ver espiando, preocupando-se, tramando com a bolsa. Aposto que ela vai entrar e pedir para ver, pensou ele.

A garota entrou na loja, como ele imaginou.

Apareceu outra garota no meio do trânsito da calçada com uma blusa de babados, saltos altos, cabelo prateado e maquiagem demais. Tentando parecer mais velha do que é, pensou ele. Nem deve ter saído do secundário. Depois dela, nada digno de menção, então ele tirou o cordão que fechava o porta-luvas e pegou um maço de cigarros. Acendeu um e ligou o rádio do carro, em uma estação de rock. Antigamente ele tinha um toca-fitas estéreo, mas um dia, finalmente, enquanto tomava uma, esqueceu-se de trazê- lo para dentro quando fechou o carro; naturalmente, quando voltou, todo o sistema de som tinha sido roubado. É nisso que dá ser descuidado, pensou ele, e então agora ele só tinha o rádio ordinário. Um dia eles o levariam também. Mas ele sabia onde podia conseguir outro por quase nada, usado. De qualquer forma, o carro um dia ia ser destruído; os anéis de óleo estavam deformados e a compressão tinha caído. Evidentemente, ele havia queimado uma válvula na via expressa quando ia para casa numa noite cheio de um monte de coisas boas; às vezes, quando pegava pesado mesmo, ele ficava paranóico — não tanto com a polícia, mas com outros doidões dilacerando-o. Um doidão desesperado de abstinência e podre como um filho-da-puta.

Agora havia uma mulher andando que chamou a atenção dele. Cabelo preto, bonita, movimentos lentos; usava uma blusa até a barriga e calças brancas de brim que foram muito lavadas. Ei, ele a conhecia, pensou. É a mulher de Bob Arctor. Essa é a Donna.

Ele abriu a porta do carro e saiu. A garota o olhou e continuou. Ele a seguiu.

Ela acha que estou me preparando para cair em cima, pensou ele enquanto a seguia em meio às pessoas. Com que facilidade ela ganhou velocidade; agora ele mal podia vê-la enquanto ela olhava para trás. Um rosto firme, calmo... Ele viu olhos grandes que o avaliavam. Calculavam a velocidade dele e se ele a alcançaria. Não neste ritmo, pensou ele. Ela andava de verdade.

Na esquina, as pessoas tinham parado em um sinal que dizia SIGA, em vez de PARE; os carros estavam virando à esquerda como loucos. Mas a garota continuou, rápida, mas com dignidade, avançando entre os carros malucos. Os motoristas olhavam indignados para ela. Ela não pareceu perceber.

— Donna! — Quando o sinal brilhou SIGA, ele atravessou correndo atrás dela e a alcançou. Ela desistiu de correr, apenas andava rapidamente. — Você não é a mulher do Bob? — perguntou ele. Ele conseguiu se colocar diante dela para examinar o rosto.

— Não — disse ela. — Não. — Ela foi para ele, diretamente para ele; ele recuou porque ela segurava uma faca curta apontada para a barriga dele. — Cai fora — disse ela, continuando a andar sem reduzir o passo nem hesitar.

— Claro que é — disse ele. — Eu te conheci na casa dele.

— Ele mal podia ver a faca, só um pedacinho do metal da lâmina, mas sabia que ela estava ali. Ela podia esfaqueá-lo e continuar andando. Ele continuava a recuar, protestando. A garota segurava a faca tão bem escondida que provavelmente ninguém, os outros que andavam, perceberia. Mas ele percebeu, ia direto para ele à medida que ela se aproximava sem hesitação. Ele deu um passo para o lado, então, e a garota passou por ele em silêncio.

— Porra!- disse ele às costas dela. Eu sei que é a Donna, pensou ele. Ela só não se tocou de quem eu sou, que ela me conhece. Assustada, acho; com medo de que eu vá atacá-la. E preciso ter cuidado, pensou ele, quando você se aproxima de uma estranha na rua; agora todas estão preparadas. Já aconteceu coisas demais com elas.

Que faquinha engraçada, pensou ele. As garotas não deviam portar essas facas, qualquer cara podia girar o pulso e a lâmina se voltaria para ela quando ele quisesse. Eu podia ter feito isso. Se realmente quisesse fazer. Ele ficou parado ali, sentindo-se irritado. Eu sei que era a Donna, pensou.

Ao começar a voltar para o carro estacionado, ele percebeu que a garota tinha parado, não acompanhava o movimento dos transeuntes e agora olhava silenciosamente para ele.

Ele andou com cautela na direção dela.

— Uma noite — disse ele eu, Bob e outra garota tínhamos umas fitas velhas de Simon and Garfunkel e você estava sentada lá... — Ela estava enchendo cápsulas com morte de alta qualidade, uma por uma, dolorosamente. Por mais de uma hora. El Primo. Numero Uno: Morte. Depois de terminar, ela deu uma cápsula para cada um deles e eles tomaram, todos juntos. Menos ela. Eu só vendo, ela dissera. Se começar a tomar, vou devorar meus lucros.

A garota disse:

— Pensei que você ia me derrubar e querer transar comigo.

— Não — disse ele. — Eu só me perguntava se você... — Ele hesitou. — Assim, se queria uma carona. Na calçada? — disse ele, sobressaltado. — Em plena luz do dia?

— Talvez na soleira de uma porta. Ou me empurrar para um carro.

— Eu conheço você — protestou ele. — E o Arctor ia me matar se eu fizesse isso.

— Bom, eu não te reconheci. — Ela deu três passos na direção dele. — Eu sou meio míope.

— Devia usar lentes. — Ele pensou que os olhos dela eram escuros, grandes, calorosos e adoráveis. O que significava que ela não era junkie.

— Eu tinha. Mas caiu uma numa tigela de ponche. Ponche ácido, numa festa. Foi até o fundo e acho que alguém se serviu dele e bebeu. Espero que o gosto tenha sido bom porque me custou 35 dólares.

— Quer uma carona para onde está indo?

— Você vai me pegar no carro.

— Não — disse ele —, não consigo transar nessas últimas semanas. Deve ser alguma coisa que estão usando para adulterar tudo. Alguma química.

— Essa é uma desculpa legal, mas já ouvi antes. Todo mundo transa comigo. — Ela se corrigiu. — Tentam, de qualquer forma. É nisso que dá ser mulher. Estou processando um cara no tribunal agora, por maus-tratos e agressão. Vamos pedir indenização por danos de mais de quarenta mil.

— Até onde ele foi?

Donna disse:

— Pôs a mão no meu peito.

— Isso não vale quarenta mil.

Juntos, eles voltaram ao carro dele.

— Tem algum pra vender? — perguntou ele. — Estou procurando mesmo. Estou praticamente sem nada, que droga, estou sem nada, imagina só. Mesmo um pouco, se você puder ceder um pouco.

— Posso te arrumar algum.

— Tabletes — disse ele. — Eu não sei me aplicar quando é líquido.

— Tá. — Ela assentiu intensamente, de cabeça baixa. — Mas, olha, agora eles são bem raros... o suprimento secou temporariamente. Você já deve ter descoberto. Não posso te arrumar muito, mas... N

— Quando? — ele a interrompeu. Eles chegaram ao carro; ele parou, abriu a porta, entrou. Do outro lado, Donna entrou. Eles se sentaram lado a lado.

— Depois de amanhã — disse Donna. — Se eu puder pegar com um cara aí. Acho que posso.

Merda, pensou ele. Só depois de amanhã!

— Não dá antes? Não dá, digamos, amanhã?

— Amanhã é muito cedo.

— Quanto?

— Sessenta dólares a centena.

— Porra! — disse ele. — Isso é roubo!

— São superbons. Eu comprei com ele antes, não são o que você costuma comprar. Pode acreditar em mim... valem a pena. Na verdade, prefiro comprar com ele do que com qualquer outra pessoa. Olha, acho que ele viajou para o Sul há pouco tempo. Acabou de voltar. Ele próprio comprou, então eu sei que são bons, com toda a certeza. E você não precisa me pagar adiantado. Só quando eu conseguir. Tudo bem? Eu confio em você.

— Eu nunca adianto nada — disse ele.

— Às vezes, é preciso.

— Tudo bem — disse ele. — Então pode me conseguir pelo menos cem? — Ele tentou calcular, rapidamente, quanto conseguiria; em dois dias, provavelmente podia levantar 120 dólares e comprar duzentos dela. E se ele fechasse um negócio melhor nesse meio-tempo, de outras pessoas que estavam vendendo, podia esquecer o trato com ela e comprar delas. Essa era a vantagem de nunca adiantar pagamento, a vantagem de nunca ser roubado.

— Sorte sua você ter vindo atrás de mim — disse Donna enquanto ele dava a partida no carro e voltava para o trânsito. — Eu tenho de encontrar esse cara daqui a uma hora e ele deve ter arranjado tudo o que eu posso comprar... você teve muita sorte. Hoje é o seu dia. — Ela sorriu e ele também.

— Queria que você pegasse mais cedo — disse ele.

— Se eu puder... — Abrindo a bolsa, ela tirou um bloquinho e uma caneta com a gravação REGULAGEM DE BATERIAS SPARKS. — Como vou fazer para te encontrar? E esqueci seu nome.

— Charles B. Freck — disse ele. Ele deu o telefone a ela

— não o dele, na verdade, mas um que ele costumava usar, da casa de um amigo careta, para recados assim —, que anotou laboriosamente. Que dificuldade a garota tinha para escrever, pensou ele. Perscrutando e rabiscando lentamente... Não ensinam mais as merdas na escola às garotas, pensou ele. Analfabeta direta. Mas gostosa. Quer dizer que ela mal sabia ler e escrever, e daí? O que importa numa gata são os peitos bonitos.

— Acho que me lembro de você — disse Donna. — Mais ou menos. Naquela noite, tudo estava uma névoa só; eu estava chapada pra caramba. Só me lembro de colocar o pó naquelas cápsulas pequenas... cápsulas de Librium... depois que a gente esvaziou o conteúdo. Eu devo ter deixado cair metade. No chão. — Ela o olhou de um jeito meditativo enquanto ele dirigia. — Você parece um cara tranqüilo — disse ela. — E vai ao mercado depois? Vai querer mais depois de um tempo?

— Claro — disse ele, perguntando-se se podia derrubar o preço dela quando a visse novamente; ele achava que podia, mais provavelmente. De qualquer forma, ele ganhava. Isto é, de qualquer forma ele arranjava um.

A felicidade, pensou ele, é saber que você tem uns comprimidos.

O dia fora do carro e todas as pessoas ocupadas, a luz do sol e a atividade passavam num fluxo despercebidos; ele estava feliz.

Veja o que ele tinha encontrado por acaso — porque, na verdade, um preto-e-branco o estava seguindo por acidente. Um novo suprimento inesperado de Substância D.

O que mais ele podia pedir da vida? Agora podia contar com mais duas semanas, quase meio mês, antes de empacotar ou quase isso — a abstinência da Substância D igualava as duas coisas. Duas semanas! Seu coração cantou e ele cheirou, por um momento, aproximando-se da janela aberta do carro, a breve empolgação da primavera.

— Quer ir comigo ver Jerry Fabin? — perguntou ele à garota. — Estou levando umas coisas para ele na Clínica Federal Número Três, aonde o levaram ontem à noite. Só estou transportando um pouco, porque há uma possibilidade de ele poder voltar e eu não quero ter de arrastar tudo de volta.

— É melhor eu não vê-lo — disse Donna.

— Você o conhece? Jerry Fabin?

— Jerry Fabin acha que eu o contaminei com aqueles insetos.

— Afídios.

— Bom, na época ele não sabia o que eram. É melhor eu ficar longe. Da última vez que o vi, ele ficou bem hostil. São os sítios receptores dele, no cérebro, pelo menos eu acho que são. Parece isso, pelo que dizem os folhetos do governo.

— Não pode ser restaurado, pode? — disse ele.

— Não — disse Donna. — É irreversível.

— O pessoal da clínica disse que eu poderia vê-lo e que acreditavam que ele podia ficar meio, sabe como é... — Ele gesticulou. — Não ser... — Novamente ele gesticulou. Era difícil encontrar palavras para isso, o que ele estava tentando dizer sobre o amigo.

Olhando para ele, Donna disse:

— Você não tem danos no centro da fala, tem? Em seu... como é que se chama?... lobo occipital.

— Não — disse ele. Vigorosamente.

— Tem algum tipo de dano? — Ela bateu na cabeça.

— Não, é só que... sabe como é. Eu tenho problemas para dizer isso, sobre essas clínicas de merda; odeio as Clínicas de Afasia Neural. Uma vez eu fui visitar um cara, ele tentava encerar o chão... disseram que ele não podia encerar o chão, quer dizer, ele não podia entender como fazer isso... O que me pegou é que ele continuava tentando. Quer dizer, não só por uma hora; ele ainda estava tentando um mês depois, quando eu voltei. Como tinha feito, sem parar, quando eu o vi pela primeira vez ali, quando fui visitá-lo ele pela primeira vez. Ele não conseguia entender por que não podia fazer direito. Eu me lembro de olhar na cara dele. Ele tinha certeza de que ia fazer direito se continuasse tentando identificar o que fez de errado. “O que estou fazendo de errado?”, ele ficava perguntando. Não tinha jeito de dizer a ele. Quer dizer, eles disseram... droga, eu disse a ele... mas ele não conseguia entender.

— Eu li que em geral são os sítios receptores do cérebro que vão primeiro — disse Donna placidamente. — O cérebro de uma pessoa, onde ela levou uma pancada forte, ou coisa assim, tipo pesada demais. — Ela estava olhando os carros na frente. — Olha, é um desses Porsches novos de dois motores. — Ela apontou, animada. — Uau!

— Conheci um cara que fez uma ligação direta num desses Porsches novos — disse ele — e o levou pela Riverside Freeway e meteu 120 por hora... destruiu. — Ele gesticulou. — Bem na traseira de uma carreta. Nunca vi uma coisa dessas. — Em sua cabeça, ele passou um número de fantasia; ele mesmo ao volante de um Porsche, mas percebendo a carreta, todas as carretas. E todo mundo na via expressa - a Hollywood Freeway na hora do rush — vendo-o. Vendo-o com toda a certeza, o cara bonitão, magro e de ombros largos no Porsche novo, andando a 300 por hora e a expressão de impotência de todos os policiais.

— Você está tremendo — disse Donna. Ela estendeu a mão e pegou o braço dele. Um gesto suave com a mão a que antigamente ele reagia. — Calma.

— Estou cansado — disse ele. — Fiquei acordado duas noites e dois dias contando insetos. Contando e colocando em vidros. E Finalmente, quando tínhamos acabado, a gente se levantou e se preparou para na manhã seguinte colocar os vidros no carro, para levar ao médico e mostrar a ele, e não havia nada nos vidros. Vazios. — Agora ele mesmo podia sentir o tremor e vê-lo nas mãos, no volante, as mãos trêmulas no volante, a 30 quilômetros por hora. — Cada uma daquelas merdas — disse ele. — Nada. Inseto nenhum. E depois eu percebi, eu percebi aquela porra. A ficha caiu, sobre o cérebro dele, o cérebro do Jerry.

O ar não cheirava mais a primavera e ele pensou, repentinamente, que precisava com urgência de uma dose de Substância D; era mais tarde do que ele percebera ou ele tinha menos do que pensava. Felizmente ele trazia o suprimento portátil no fundo do porta-luvas. Ele começou a procurar uma vaga para estacionar.

— A mente prega peças na gente — disse Donna, distante; ela parecia ter se retirado para si mesma, ter se afastado. Ele se perguntou se sua direção errática a estava aborrecendo. Provavelmente estava.

Outro filme de fantasia rolou de repente em sua cabeça, sem o consentimento dele. Primeiro, ele viu um grande Pontiac estacionado com um macaco hidráulico escorregando na traseira e um garoto de uns 13 anos e cabelo comprido lutando para evitar que o carro rolasse enquanto pedia ajuda aos gritos. Ele viu Jerry Fabin e a si mesmo correndo juntos da casa. Da casa de Jerry, pela entrada cheia de latas de cerveja até o carro. Ele mesmo, ele pegou a porta do carro do lado do motorista para abri-la, para pisar no pedal de freio. Mas Jerry Fabin, usando só as calças, sem sapatos até, o cabelo todo embaraçado e flutuando — ele estava dormindo antes Jerry passou correndo para a traseira do carro e, com o ombro nu e branco que nunca viu a luz do dia, empurrou o garoto para longe do carro. O macaco se inclinou e caiu, a traseira do carro arriou, o pneu e a roda rolaram para longe e o garoto estava bem.

— Tarde demais para o freio — disse Jerry, arfando, tentando tirar os cabelos feios e oleosos dos olhos e piscar. — Não deu tempo.

— Ele está bem? — gritou Charles Freck. O coração ainda martelava.

— Está. — Jerry ficou ao lado do garoto, arfando. — Merda! — gritou ele para o menino, furioso. — Eu não te disse para esperar até que a gente fizesse isso com você? E quando um macaco escorrega... Merda, cara, você não pode segurar 2.500 quilos! — Seu rosto se retorceu. O menino, como um bebum, parecia infeliz e se contorcia de culpa. — Eu te disse isso mil vezes!

— Eu procurei pelo freio — explicou Charles Freck, sabendo que sua idiotice, sua própria merda, era tão grande quanto a do garoto e igualmente letal. Um fracasso ao tentar reagir como adulto. Mas ele queria se justificar de alguma forma, como fez o garoto, em palavras. — Mas agora eu entendi... — gaguejou ele e depois o número de fantasia parou; era na verdade uma reprise de documentário, porque ele se lembrava do dia em que isso aconteceu, quando todos moravam juntos. O bom instinto de Jerry — caso contrário, o bebum ia parar debaixo da traseira do Pontiac com a coluna esmagada.

Os três andaram lentamente de volta à casa, sem ir atrás da roda e do pneu, que ainda estavam rolando.

— Eu estava dormindo — murmurou Jerry enquanto eles entravam na casa escura. — Foi a primeira vez em semanas que os insetos me deixaram dormir. Não durmo nada há cinco dias... Eu só fico rolando pra lá e pra cá. Achei que eles talvez tivessem ido embora, que eles foram embora. Achei que finalmente tinham desistido e foram para outro lugar, para o vizinho, e saído totalmente desta casa. Agora posso senti-los de novo. Esse é o décimo No Pest Strip que eu compro ou o décimo primeiro... Eles me enganaram de novo, como fizeram com todos os outros. — Mas agora a voz dele estava mais branda, não com raiva, só lenta e perplexa. Ele pôs a mão na cabeça do bebum e lhe deu um tapa. — Você, seu burro... quando um macaco escorregar, saia de perto dele. Esqueça o carro. Não fique atrás tentando empurrar de volta, com toda aquela massa, e bloquear com o seu corpo.

— Mas, Jerry, eu estava com medo de que o eixo...

— Foda-se o eixo. Foda-se o carro. E a sua vida. — Eles atravessaram a sala escura, os três, e a reprise de um momento que agora era passado tremeluziu e desapareceu para sempre.