• Ivan Milazzotti
    O Zen e a Arte da Escrita
    18-09-2025 16:15:44
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Como manter e alimentar a Musa (1961)

Não é fácil. Ninguém jamais conseguiu fazer isso de forma consistente. Aqueles que mais se esforçaram a afugentaram para o bosque. Aqueles que deram as costas e perambularam, assoviando baixinho entre os dentes, a ouviram seguindo-os tranquilamente, seduzida por um desdém planejado com cuidado. Estamos falando, é claro, da Musa.

O termo caiu em desuso na linguagem atual. Na maioria das vezes, quando o ouvimos agora, sorrimos e nos lembramos das imagens de alguma frágil deusa grega, vestida com folhas, harpa na mão, acariciando a fronte suada de um escriba.

A Musa é a mais amedrontadora das virgens. Ela surge quando ouve um som, empalidece se você lhe pergunta algo, vira e desaparece se você desarrumar a sua roupa.

“O que a aflige?”, você pergunta. Por que ela se esquiva do seu olhar? De onde ela veio e para onde ela vai? Como podemos prolongar a sua visita? Que temperatura lhe agrada? Ela gosta de vozes altas ou de vozes baixas? Onde se compra alimento para ela, de que qualidade e em que quantidade, e a que horas ela gosta de jantar?

Podemos começar parafraseando o poema de Oscar Wilde, substituindo a palavra “arte” por “amor”:

A arte voará se leve demais for mantida,

A arte morrerá se forte demais for mantida,

Leve ou forte, como sei eu

Se estou mantendo ou perdendo a arte?

No lugar de “arte”, se quiser, coloque “criatividade” ou “subconsciente” ou “calor” ou o nome que preferir usar para dizer o que ocorre quando você gira como uma roda de fogo e uma história “acontece”.

Outro modo de descrever a Musa pode ser acessar aquelas minúsculas fagulhas de luz, aquelas bolhas de ar que flutuam pela visão de todo mundo, relâmpagos passageiros na retina dos olhos. Há anos despercebidas, quando você de repente foca a sua atenção nelas, elas se tornam ruídos insuportáveis, distúrbios da atenção em todas as horas do dia. Elas embaralham o que você está olhando ao se intrometerem na frente. As pessoas têm consultado psiquiatras para resolver o problema com essas “fagulhas”. E aí então ouvem o conselho inevitável: ignore-as e elas desaparecerão. O fato é que elas não vão embora; elas permanecem, mas você foca para além delas, para o mundo e para os objetos sempre cambiantes do mundo, como devemos.

Assim também é a nossa Musa. Se focarmos para além dela, ela reconquista o aprumo e fica fora do caminho.

Na minha opinião, para manter a Musa, deve-se, primeiro, oferecer-lhe alimento. Como você poderia alimentar algo que ainda nem está lá, é uma coisa um pouco difícil de explicar, mas vivemos cercados por paradoxos. Mais um não deveria nos incomodar.

Isso é bastante simples. Durante a vida, ao ingerir comida e água, crescemos, nos tornamos maiores e mais encorpados. Aquilo que não era, é. O processo é imperceptível. É visível apenas em intervalos no caminho. Sabemos que está acontecendo, mas não sabemos como nem por quê.

De modo semelhante, na vida nos alimentamos de sons, visões, cheiros, sabores e texturas de pessoas, animais, paisagens, eventos, grandes e pequenos. Alimentamo-nos com essas impressões e experiências e com nossas reações a elas. Em nosso subconsciente não estão apenas informações factuais, mas também informações reativas, nosso movimento de aproximação ou de afastamento dos eventos vividos.

Essas são as coisas, os alimentos por meio dos quais a Musa cresce. Esse é o estoque, o arquivo ao qual devemos voltar a toda hora, despertos, para checar a realidade em relação à memória, e, no sono, para checar a memória em relação à memória, o que significa fantasma em relação a fantasma, para exorcizá-los, caso necessário.

O que é o subconsciente para qualquer pessoa, em seu aspecto criativo, torna-se, para os escritores, a Musa. Dois nomes diferentes para a mesma coisa. Mas, independente de como o chamarmos, aqui está o núcleo do indivíduo que desejamos enaltecer, para o qual construímos santuários e fazemos preces em nossa sociedade democrática. Aqui está a tal coisa da originalidade. Porque é na totalidade da experiência considerada, preenchida e esquecida que cada pessoa é verdadeiramente diferente das outras no mundo. Nenhuma pessoa vê os mesmos eventos do mesmo modo em sua vida. Uma pessoa vê a morte mais cedo do que a outra, conhece o amor mais depressa do que a outra. Duas pessoas, como sabemos, vendo o mesmo acidente, fazem interpretações diferentes com base em diferentes referências cruzadas de seu próprio alfabeto alienígena. Não há apenas uma centena, mas bilhões de elementos no mundo. Cada um vai acessá-los de um modo diferente com os seus próprios espectroscópios e escalas.

Sabemos quão nova e original cada pessoa é, até a mais devagar e entediada. Se nos aproximarmos dela, puxarmos conversa, deixá-la à vontade e, enfim, dissermos: “O que você quer?” – ou, se for uma pessoa idosa, “O que você quis?” −, qualquer pessoa vai falar do seu sonho. E, quando uma pessoa fala do próprio sonho com o coração, nesse momento de verdade, ela fala poesia.

Vi isso acontecer não uma, mas centenas de vezes na vida. Meu pai e eu só nos tornamos grandes amigos tardiamente. Sua linguagem, seu pensamento cotidianos não eram extraordinários, mas, sempre que eu dizia: “Pai, fale-me de Tombstone quando você tinha dezessete anos”, ou “dos trigais, Minnesota, quando você tinha vinte anos”, ele desandava a falar sobre fugir de casa aos dezesseis anos, ir para o Oeste no início do século, antes de as principais fronteiras estarem demarcadas – quando não havia estradas, apenas caminhos para cavalos e trilhos de trem, e a corrida do ouro em Nevada.

Não foi no primeiro minuto, nem no segundo, nem no terceiro que algo aconteceu com a voz de papai, que a cadência certa, as palavras certas vieram. Mas, depois de estarmos conversando por cinco ou seis minutos, ele fumando o seu cachimbo, quase de repente, a velha paixão, os dias do passado, as velhas músicas, o clima, o brilho do sol, o som das vozes, os vagões viajando tarde da noite, as prisões, o caminho virando pó de ouro enquanto o Oeste se abria adiante – tudo, tudo e a cadência daquilo, o momento, os vários momentos de verde, se tornou poesia.

A Musa de repente estava lá para papai. A Verdade vinha fácil em sua mente. O subconsciente diz o que tem que dizer, intocado, escorrendo pela língua.

Do jeito que devemos aprender a fazer com a nossa escrita. Do jeito que podemos aprender com todo homem, mulher ou criança ao nosso redor, tocados e comovidos, quando eles contam sobre algo que amaram ou odiaram naquele dia, ontem ou há muito tempo. Num dado momento, o estopim incendeia e os fogos de artifício começam a estourar.

Ah, é um trabalho duro e cruel para muitos, ainda mais com a linguagem no meio. Ouvi fazendeiros contarem sobre a primeira colheita de trigo em suas terras depois de terem se mudado de outro estado, e, se não era Robert Frost falando, era um primo dele que se mudou cinco vezes. Ouvi os engenheiros de locomotiva falarem da América na voz de Tom Wolfe, que rodou o nosso país com seu estilo tal qual eles tinham rodado em seus vagões. Ouvi mães contarem sobre a longa noite com o seu primeiro filho, em que temiam que elas e o bebê morressem. E ouvi minha avó falar do seu primeiro baile, quando ela tinha dezessete anos. E todos eram, com a sua alma cada vez mais aquecida, poetas.

Parece que escolhi o caminho mais longo; talvez eu tenha mesmo escolhido. Mas quis mostrar o que todos temos em nós, o que sempre está lá, e ao que tão poucos de nós damos bola. Quando alguém me pergunta de onde tiro minhas ideias, eu rio. Que estranho – estamos tão ocupados em olhar para fora, para encontrar meios e fundos, que nos esquecemos de olhar para dentro.

A Musa, para ser explícito, está lá, um estoque fantástico, nosso ser total. Tudo de mais original está ali esperando para ser usado por nós, e mesmo sabendo disso não é fácil. Sabemos quão frágil é o padrão tecido por nossos pais ou tios ou amigos, que podem ter seu momento destruído pela palavra errada, um bater de porta ou uma sirene de bombeiro. E também embaraço, autoconsciência, criticismo podem sufocar a pessoa comum que cada vez menos se sente à vontade para se abrir.

Vamos considerar que cada um de nós se alimentou durante a vida, primeiro ou mais tarde, com livros e revistas. A diferença é que, no primeiro caso, um conjunto de eventos aconteceu com a gente e, no outro, foi refeição forçada.

Se você vai se alimentar do seu subconsciente, como preparar o menu? Bem, devemos começar o nosso cardápio assim:

Leia poesia todos os dias de sua vida. Poesia é bom porque exercita músculos que não são utilizados sempre. Poesia expande os sentidos e os mantém em forma. Ela mantém você consciente de seu nariz, olho, ouvido, língua, mão. E, acima de tudo, a poesia é uma metáfora compacta ou um sorriso. Essas metáforas, como flores de papel japonesas, podem se expandir em formas gigantes. As ideias estão em todo lugar nos livros de poesia, embora muito raramente os professores de conto as recomendem para estimular a escrita.

Minha história “A praia ao pôr do sol” é resultado direto da leitura do adorável poema de Robert Hillyer sobre o encontro de uma sereia perto de Plymouth Rock. Minha história “Virão chuvas suaves” é baseada no poema com esse título de Sara Teasdale, e o corpo da história envolve o tema do poema. Do poema “And the moon be still as bright”, de Lorde Byron, surgiu um capítulo do meu livro As crônicas marcianas, que trata de uma raça extinta de marcianos que não perambulam mais pelos mares vazios à noite. Nesses casos, e em dezenas de outros, uma metáfora irrompeu, me fazendo girar e correr para escrever uma história.

Que poesia? Qualquer uma que arrepie os pelos dos seus braços. Não se esforce demais; vá com calma. Ao longo dos anos, você vai compreender, virar-se bem e ultrapassar T. S. Eliot no caminho para novas pastagens. Você não consegue compreender Dylan Thomas? Mas seus gânglios, sua sabedoria secreta e toda a sua criança ainda por nascer o compreendem. Leia-o, assim como quem lê um cavalo com os olhos, liberte-se e cavalgue por um campo verdejante infinito num dia de muito vento.

O que mais cabe na sua dieta?

Livros de ensaio. Aqui novamente, pegue e escolha; passeie pelos séculos. Há muito que colher mesmo que o ensaio tenha se tornado menos popular. Você nunca poderá saber quando vai querer saber mais sobre ser pedestre, cultivar abelhas, esculpir lápides ou construir aros. Aqui é onde você brinca de amador e onde vale a pena sê-lo. Você está, de fato, deixando cair pedras num poço. Cada vez que se ouve um eco do subconsciente, é possível se conhecer um pouco melhor. De um pequeno eco pode surgir uma ideia. De um grande eco pode resultar uma história.

Em sua leitura, encontre livros para melhorar o seu sentido das cores, das formas e dos tamanhos no mundo. Por que não aprender sobre os sentidos do odor e da audição? Seus personagens devem às vezes usar seu nariz e o ouvido ou podem perder metade dos odores e sons da cidade, e todos os sons do deserto ainda estão nas árvores e nos gramados da cidade.

Por que essa insistência nos sentidos? Porque, para convencer o seu leitor de que ele está , você deve surpreender cada um de seus sentidos com cores, sons, sabores e texturas. Se o seu leitor sentir o sol na sua carne, o vento agitando as mangas da sua camisa, metade da sua batalha como escritor estará ganha. Os contos mais improváveis podem se tornar factíveis se seu leitor, por meio dos sentidos, tiver certeza de que está envolvido nos eventos. Assim, ele não pode se recusar a participar. A lógica dos eventos sempre abre caminho para a lógica dos sentidos, a menos, é claro, que você faça algo realmente imperdoável que arranque o seu leitor do contexto, como descrever a Revolução Americana feita com metralhadoras ou enfiar dinossauros e homens da caverna na mesma cena − eles viveram a milhões de anos de distância no tempo. Mesmo assim, com uma máquina do tempo bem descrita e tecnicamente perfeita, é possível suspender a descrença.

Poesia, ensaios. Mas e os contos e romances? Também, claro. Leia os autores que escrevem do jeito que você gostaria de escrever, aqueles que pensam do jeito que você gostaria de pensar. Mas também leia aqueles que não pensam como você nem escrevem do jeito que você quer escrever, e desse modo seja estimulado em direções diferentes. Aqui, novamente, não permita que o esnobismo dos outros evite que você leia Kipling, embora ninguém mais o esteja lendo.

Nossa cultura e época são riquíssimas tanto em lixo como em tesouros. Às vezes, é um pouco difícil separar o lixo do tesouro, então recuamos, com medo de nos assumir. Mas, uma vez que estamos aqui para dar aos outros textura, para colecionar verdades em vários níveis e, de muitos modos, para testá-las em relação à vida e às verdades dos outros oferecidas em histórias em quadrinhos, shows de tevê, livros, revistas, jornais, peças de teatro e filmes, não devemos temer ser vistos com estranhas companhias. Eu sempre me senti bem na companhia de Ferdinando e da Família Buscapé do cartunista Al Capp. Acho que há muito a se aprender sobre psicologia infantil com Snoopy e outros personagens do cartunista Charles Schulz. Um mundo inteiro de aventura romântica ganhou existência, tendo sido belamente desenhado por Hal Foster em seu Príncipe Valente. Ainda menino, colecionei e talvez tenha sido influenciado em meus livros posteriores pela maravilhosa tirinha classe média americana Out our way, de J. C. Williams. Sou tanto Charles Chaplin em Tempos modernos, em 1935, como leitor de Aldous Huxley, em 1961. Não sou apenas uma coisa. Sou muitas das coisas que a América tem sido em minha época. Tenho suficiente sensibilidade para continuar me movendo, aprendendo, crescendo, e nunca injuriei ou dei as costas para as coisas das quais cresci. Aprendi com Tom Swift, aprendi com George Orwell. Deliciei-me com o Tarzan, de Edgar Rice Burroughs − e ainda respeito esse antigo prazer e não terei meu cérebro lavado dele −, assim como também me delicio com as Cartas de um diabo ao seu aprendiz, de C. S. Lewis. Conheci Bertrand Russell e Tom Mix e minha Musa se desenvolveu do adubo do bom, do ruim, do indiferente. Sou essa criatura que se lembra com amor não apenas das pinturas de Michelangelo no teto do Vaticano como também dos há muito desaparecidos sons do programa de comédia de rádio Vic and Sade.

Qual é o padrão que une isso tudo? Se alimentei minha Musa com partes iguais de lixo e de tesouro, como cheguei ao fim da vida com o que as pessoas consideram histórias aceitáveis?

Creio que uma coisa mantém tudo junto. Tudo o que fiz, foi feito com excitação, porque quis fazê-lo, porque gostava de fazê-lo. O maior homem do mundo para mim, um dia, foi Lon Chaney, foi Orson Welles em Cidadão Kane, foi Laurence Olivier em Ricardo III. Os homens mudaram, mas uma coisa permaneceu a mesma: a febre, o ardor, o prazer. Porque quis fazer, fiz. Onde quis me alimentar, me alimentei. Lembro-me de deixar, maravilhado, um palco em minha cidade natal, segurando um coelho vivo que me foi oferecido por Blackstone, o Mágico, na melhor performance de todos os tempos! Lembro-me de vagar, estarrecido, pelas ruas de papel-machê da Century of Progress Exhibition em Chicago, em 1933, e nos salões dos doges venezianos em 1954. A qualidade de cada evento era imensamente diferente, mas minha habilidade de me embebedar nelas, a mesma.

Isso não quer dizer que a reação de uma pessoa a todas as coisas num dado momento deve ser semelhante. Primeiro, porque não pode ser. Aos dez anos, Júlio Verne foi aceito; Huxley, rejeitado. Aos 18, Tom Wolfe aceito e Buck Rogers deixado para trás. Aos 30, Melville foi descoberto e Tom Wolfe, perdido.

Uma coisa se mantém: a busca, o encontro, a admiração, o amor, a reação honesta ao material em mãos, não importa quão puído ele um dia possa parecer, quando retomado mais tarde. Aos dez anos, fui atrás de uma estátua de um gorila africano feito da cerâmica mais vagabunda, uma estátua que me veio como prêmio por eu ter enviado uma embalagem de Fould’s Macaroni. O gorila, chegado pelo correio, mereceu uma recepção tão grande quanto a oferecida ao Menino Davi em seu primeiro desvelamento.

Alimentar a Musa, então, tema sobre o qual investimos grande parte do nosso tempo aqui, a mim me parece a contínua corrida atrás de amores, o confronto desses amores com as nossas necessidades presentes e futuras, o movimento das texturas mais simples para as mais complexas, das ingênuas para as mais informadas, das não intelectuais para as intelectuais. Nada nunca é perdido. Se você andou por vastos territórios e ousou amar coisas bobas, aprendeu com os itens mais primitivos coletados e postos de lado em sua vida. De uma curiosidade sempre perambulante por todas as artes, do rádio ruim ao bom teatro, da rima das canções de ninar à sinfonia, do brinquedo selvagem ao Castelo de Kafka, há uma excelência básica a ser descoberta, verdades a ser encontradas, mantidas, saboreadas e usadas em algum dia posterior.

Ser uma criança do seu tempo é fazer todas essas coisas.

Não dê as costas, por causa do dinheiro, a todas as coisas que você colecionou na vida.

Não dê as costas, por causa da vaidade de publicar coisas intelectualizadas, ao que você é: o seu material é que faz você individual e, portanto, indispensável para os outros.

Para alimentar a Musa, então, você precisa ter sido faminto pela vida desde criança. Se não, é um pouco tarde para começar. Antes tarde do que nunca, claro. Você é capaz disso?

Isso significa que você ainda deve fazer longas caminhadas à noite pela sua cidade ou vilarejo, ou caminhadas pelo campo durante o dia. E longos passeios, a qualquer hora, por livrarias e bibliotecas.

E, enquanto se alimenta, como manter a sua Musa é o seu problema final.

A Musa deve ter uma forma. Você vai escrever cem palavras por dia durante dez ou vinte anos para tentar dar-lhe uma forma, aprender o suficiente sobre gramática e construção de histórias, assim isso se torna parte do seu subconsciente e não mais restringe ou distorce a Musa.

Ao viver bem, ao observar ao viver, ao ler bem e observar enquanto escreve, você alimenta seu self mais original. Ao treinar a escrita, por meio de exercícios de repetição, imitação, bons exemplos, você constrói um lugar limpo, bem iluminado para manter a Musa. Você dá a ela, a ele, à coisa, ou seja lá ao que for, espaço para surgir. E, por meio da prática, você consegue ficar relaxado o suficiente para não encará-la grosseiramente quando a inspiração entrar na sala.

Você aprendeu a ir de imediato para a máquina de escrever e preservar a inspiração por todo o tempo ao colocá-la no papel, e aprendeu a responder à questão posta anteriormente: a criatividade aprecia vozes altas ou baixas?

A voz alta, apaixonada, parece agradar à maioria; a voz exaltada em conflito, a comparação dos opostos. Sente-se à máquina de escrever, escolha personagens de todos os tipos, deixe-os voar juntos numa grande estridência. Em algum momento, todo o seu self secreto irromperá. Todos nós gostamos de decisão, declaração, alguém gritando contra, outro gritando a favor.

Isso não quer dizer que uma história quieta deve ser excluída. Uma pessoa pode ficar tão empolgada e apaixonada por uma história serena como por qualquer outra. Existe excitação na beleza tranquila da Vênus de Milo. O espectador, aqui, torna-se tão importante quanto a coisa observada.

Fique certo disto: quando o amor sincero fala, quando a admiração verdadeira começa, quando a excitação surge, quando o ódio se desprende como fumaça, você nunca mais precisará duvidar de que a criatividade vai ficar com você por toda a vida. O âmago da sua criatividade deve ser o mesmo âmago da sua história e do personagem principal da sua história. O que um personagem quer, qual é o seu sonho, que forma ele tem e como expressa isso? Dar expressão, este é o dínamo da vida dele, da sua vida, então, como Criador. No exato momento em que a verdade transborda, o subconsciente deixa de ser um arquivo-lixeira para se tornar um anjo da escrita num livro de ouro.

Olhe para si mesmo, então. Analise tudo com o que você se alimentou ao longo dos anos. Foi um banquete ou uma dieta de fome?

Quem são os seus amigos? Eles apostam em você? Ou perturbam o seu crescimento com ridicularização e descrença? Se for assim, você não tem amigos. Vá encontrar alguns!

E, finalmente, você praticou o suficiente para poder dizer o que quer dizer sem ficar empacado? Escreveu o suficiente para se sentir relaxado e deixar que a verdade saia sem ser arruinada por pose e autoconsciência ou pelo desejo de se tornar rico?

Alimentar-se bem é crescer. Trabalhar bem e com constância é manter o que você aprendeu e o que sabe em ótima condição. Experiência. Trabalho. Esses são os dois lados da moeda que não é nem uma coisa nem outra quando girada, e sim o momento de revelação. A moeda, por ilusão óptica, torna-se redonda, brilhante, o globo rotatório da vida. É nesse momento que a varanda range baixinho e uma voz se põe a falar. Todos prendem a respiração. A voz vai e vem. Papai fala de outros tempos. Um fantasma escapa de seus lábios. O subconsciente pisca e coça os olhos. A Musa se arrisca nas plantas na varanda, perto de onde garotos de verão, derramados no gramado, escutam. As palavras se tornam poesia que ninguém repara porque ninguém havia pensado em chamá-las assim. O amor está lá. A história está lá. Um homem bem alimentado mantém e calmamente oferece a sua porção infinitesimal de eternidade. Parece grande numa noite de verão. E é, como sempre foi por eras, desde quando existiu um homem com algo para contar e outros, quietos e sábios, para ouvir.

Uma nota de conclusão

A primeira estrela de cinema de que me lembro é Lon Chaney.

O primeiro desenho que fiz foi um esqueleto.

A primeira comoção que me lembro de ter tido foi com as estrelas numa noite de verão em Illinois.

As primeiras histórias que li foram de ficção científica na Amazing.

A primeira vez em que saí de casa foi para ir a Nova York e ver o Mundo do Futuro no Perisfério e sombreado pelo Trilão.

Minha primeira escolha de carreira foi aos onze anos – ser um mágico e rodar o mundo com minhas magias.

Minha segunda escolha foi aos doze anos, quando ganhei uma máquina de escrever de brinquedo no Natal.

E decidi ser escritor. E entre a decisão e a realidade estão oito anos de escola e a venda de jornais na esquina das ruas de Los Angeles, enquanto escrevia três milhões de palavras.

Minha primeira aceitação veio de Rob Wagner, da Script Magazine, quando eu tinha vinte anos.

Minha segunda venda foi para Thrilling Wonder Stories.

Minha terceira foi para Weird Tales.

Desde então, vendi duzentos e cinquenta histórias para quase todas as revistas dos Estados Unidos, além de ter escrito um roteiro de Moby Dick para John Huston.

Escrevi sobre Lon Chaney-e-o-pessoal-do-esqueleto para Weird Tales.

Escrevi sobre Illinois e sua selvageria em meu romance O vinho da alegria.

Escrevi sobre aquelas estrelas do céu de Illinois para a nova geração.

Construí mundos futurísticos no papel, muito do mundo que eu vi em Nova York na Exposição quando era menino.

E decidi, muito tarde num dia, que nunca desistiria do meu primeiro sonho.

Eu sou, goste ou não, um tipo de mágico, no final das contas, meio-irmão de Houdini, filho-coelho de Blackstone, nascido na luz de cinema de um antigo teatro, gostaria de pensar − meu nome do meio é Douglas; Fairbanks estava no topo quando eu cheguei em 1920 −, e amadureci na época perfeita, quando um homem dá o seu último e maior passo para fora do mar de onde nasceu, a caverna que o abrigou, a terra que o suportou e o ar que o respirou, então ele nunca pode descansar.

Em suma, eu sou o filhote malhado de nossa massa-comovida, massa-entretida, numa época sozinho-numa-multidão-de-ano-novo.

É uma grande época para se viver e, se preciso, morrer nela e por ela. Qualquer mágico digno de sua graça lhe diria o mesmo.