A mente secreta (1965)
Nunca na vida eu quis ir para a Irlanda. Ainda assim, aqui estava John Huston no telefone me convidando para tomar um drinque em seu hotel. Tarde naquela tarde, drinques na mão, Huston me olhou demoradamente e disse:
– Você não gostaria de morar na Irlanda e escrever um roteiro de Moby Dick?
E de repente estamos atrás da Baleia Branca; eu, minha mulher e nossas duas filhas.
Levei sete meses para seguir, capturar e me livrar do destino da Baleia. De outubro a abril, morei num país onde eu não queria estar.
Achava que não via nada, não ouvia nada, não sentia nada da Irlanda. A Igreja era deplorável. O clima era terrível. A pobreza, inadmissível. Eu não tirava nada daquilo. Exceto, o Peixão…
Não esperava que meu subconsciente fosse me passar a perna. No meio da umidade cotidiana, enquanto tentava afundar o Leviatã com a máquina de escrever, minhas antenas detectavam as pessoas. Não que meu eu desperto, consciente e andarilho não as notasse, gostasse e admirasse e tomasse algumas delas por amigas, visitando-as com frequência. Não. No entanto, a coisa mais geral, mais penetrante para mim era a pobreza, e a chuva, e o sentimento de desconsolo por mim mesmo numa terra desconsolada.
Com a Besta traduzida em tinta e entregue às câmeras, fugi da Irlanda, certo de que não tinha aprendido nada mais do que como temer tempestades, neblinas e mendigos das ruas de Dublin e Kilcock.
Mas o olho subliminar é perspicaz. Enquanto, dia após dia, eu me lamentava do trabalho duro e da minha inabilidade para sentir do jeito que Herman Melville sentia, meu self interior se manteve alerta, inspirou fundo, ouviu bastante, observou de perto e arquivou a Irlanda e sua gente para os momentos em que eu estaria relaxado e os deixaria fluir, para minha própria surpresa.
Quando voltei para casa pela Sicília, Itália, onde me queimei todo para me libertar do inverno irlandês, bradei de uma vez por todas que “eu nunca vou escrever nada sobre os Connemara Lightfoots e os Donnybrook Gazelles!”.
Devo ter me lembrado da experiência no México, muitos anos antes, onde não encontrei chuva e pobreza, mas sol e pobreza, e fiquei apavorado com um clima de mortalidade e o terrível cheiro doce de mexicanos que exalam a morte. Por fim, escrevi alguns bons pesadelos sobre isso.
Ainda assim, insisti, a Irlanda estava morta. A vigília finda, sua gente nunca mais me assombraria.
Muitos anos se passaram.
Então, numa tarde chuvosa, Mike − cujo nome real é Nick −, o motorista de táxi, veio se sentar exatamente fora de vista em minha mente. Ele me cutucou de leve e me desafiou a lembrar das nossas corridas juntos pelos lamaçais, ao longo do rio Liffey, ele falando e guiando devagar o seu velho carro de aço através da neblina, noite após noite, levando-me para casa, o Royal Hibernian Hotel, o homem que eu mais conhecia em todo aquele país verde e selvagem, de dezenas de milhas de Jornadas Sombrias.
– Diga a verdade sobre mim – Mike disse. – Apenas diga do jeito que ela é.
E, de repente, eu tinha um conto e uma peça. E o conto é real e a peça é real. Aconteceu exatamente aquilo. Não poderia ter sido de outro modo.
Bem, o conto a gente entende, mas por que, depois de todos esses anos, eu fui para o palco? Não era bem uma ida, mas um retorno.
Atuei no teatro amador e no rádio quando era garoto. Escrevi peças quando era jovem. Essas peças, não encenadas, eram tão ruins que prometi a mim mesmo nunca mais escrever novamente para o teatro até bem mais tarde na vida, depois de ter aprendido a escrever todos os outros estilos primeiro e melhor. Simultaneamente, desisti de atuar porque detestava a política competitiva de que os atores precisam lançar mão para conseguir trabalho. Além disso, o conto e o romance me convocaram. Atendi. Mergulhei na escrita. Anos se passaram. Fui a centenas de peças. Eu as amo, mas ainda me esquivava de escrever Ato I, Cena I novamente. Então veio Moby Dick, um período para pensar nisso, e, de repente, aqui estava Mike, meu motorista de táxi, remexendo a minha alma, levantando bocados de aventura de anos recentes perto da Hill of Tara ou no interior da Irlanda no período da troca das folhas no outono em Killeshandra. Meu antigo amor pelo teatro, com esse empurrão final, me precipitou.
Mas, no meio dos puxões e empurrões de dádivas grátis e inesperadas, veio um tropel de cartas de estranhos. Há oito ou nove anos, comecei a receber notas como as abaixo:
Senhor,
Na noite passada, na cama, contei a sua história “The Fog Horn” para a minha mulher.
Ou:
Senhor,
Tenho quinze anos e ganhei o Prêmio Anual de Recitação no colégio Gurnee Illinois High, por ter memorizado e declamado o seu conto “Um som do trovão”.
Ou:
Querido Sr. B.,
Estamos felizes por contar que nossa leitura encenada de seu romance Fahrenheit 451 foi efusivamente elogiada por dois mil professores de inglês em nossa conferência ontem à noite.
Em sete anos, dezenas de histórias minhas foram lidas, declamadas, recitadas e dramatizadas por amadores em escolas de ensino fundamental, médio e universitário em todo o país. As cartas formavam pilhas e, finalmente, desabaram sobre mim. Virei para a minha mulher e disse:
– Todo mundo, exceto eu, está se divertindo me adaptando! Como pode?
Aconteceu então o contrário da velha história. Em vez de gritar que o rei estava nu, essas pessoas diziam, explicitamente, que um inglês reprovado na Los Angeles High School estava demasiadamente vestido para ser visto!
Comecei então a escrever peças.
Uma coisa, por fim, me lançou de volta ao teatro. Nos últimos cinco anos, tomei emprestadas ou comprei várias ideias de peças europeias e americanas para ler; assisti ao teatro do Absurdo e ao Mais-do-que-absurdo. No geral, tive de considerar essas peças exercícios débeis, a maioria não muito inteligentes, mas, acima de tudo, deixando a desejar em quesitos essenciais como imaginação e técnica.
Era apenas justo, tendo essa opinião insípida, que eu pusesse minha própria cabeça na guilhotina. Você pode, se quiser, ser meu executor.
Isso não é incomum. A história da literatura está cheia de escritores que, correta ou incorretamente, sentiram que podiam melhorar, aperfeiçoar ou revolucionar um determinado campo. Assim, muitos de nós mergulhamos onde os anjos não deixaram nem uma marca de poeira.
Tendo ousado uma vez, exuberante, ousei novamente. Quando Mike se desenterrou da minha máquina de escrever, outros ali escondidos se sucederam. E, quanto mais aquilo formigava, mais eles se acotovelavam para preencher os espaços.
De repente, vi que sabia mais das misturas e comoções dos irlandeses do que seria capaz de desembaraçar em um mês ou um ano de escrita e desnudamento deles. Inadvertidamente, encontrei-me bendizendo a minha mente secreta e esquadrinhando um vasto correio interior, chamadas noturnas, cidades, climas, animais, bicicletas, igrejas, cinemas, procissões e voos.
Mike me pôs a passo lento; desandei num trote, que em breve se tornou uma supercorrida.
As histórias, as peças nasceram em um uivo. Eu só tinha que sair do caminho.
Agora, tendo feito e estando ocupado com outras peças sobre maquinarias de ficção científica, teria eu uma teoria depois-do-fato sobre como fazer uma peça de teatro?
Sim.
Porque apenas depois de se ter feito é que se pode analisar, examinar, explicar. Tentar saber antes é congelar e matar.
A autoconsciência é inimiga de toda a arte, seja encenação, escrita, pintura ou o próprio viver, que é a maior de todas as artes.
Eis aqui a minha teoria. Nós escritores estamos aí para o seguinte: construímos tensões sobre o riso, então dê permissão e o riso vem. Construímos tensões sobre a dor e, por fim, diga, chore e torça para ver o seu público em lágrimas. Construímos tensões sobre a violência, acenda o pavio e corra. Construímos estranhas tensões de amor, em que tantas outras tensões se misturam para ser modificadas e transcendidas, e permita a fruição delas na mente do público. Construímos tensões, especialmente hoje, sobre doenças e então, se formos bons o suficiente, suficientemente talentosos, elas permitem que o nosso público fique doente.
Cada tensão busca o seu próprio fim, alívio e relaxamento.
Disso decorre que a não tensão, esteticamente e na prática, deve ser construída com o que permanece não libertado. Sem isso, qualquer arte fica incompleta, a meio caminho de seu objetivo. E na vida real, como sabemos, o fracasso em relaxar uma tensão particular pode levar à loucura. Há algumas exceções, romances e peças que terminam no auge da tensão, porém, mesmo assim, o relaxamento está implicado. O público é convidado a ir para o mundo e explodir uma ideia. A ação final é passada do criador para o leitor-espectador, cuja tarefa é finalizar o riso, as lágrimas, a violência, a sexualidade ou a doença.
Não saber isso é não conhecer a essência da criatividade, a qual, no coração, é a essência do ser humano.
Se eu fosse dar conselhos aos novos escritores, se fosse dar conselhos ao novo escritor em mim mesmo, indo ao teatro do Absurdo, do Quase-absurdo, ao teatro das Ideias, a qualquer-tipo-de-teatro, enfim, aconselharia o seguinte: não me conte piadas insípidas. Rirei da sua recusa em deixar-me rir.
Não construa para mim tensão em relação a lágrimas e recuse as minhas lamentações. Vou buscar melhores muros de lamentação.
Não cerre os meus punhos por mim e esconda o alvo. Posso acertar você, em vez dele.
Acima de tudo, não me cause náusea, a menos que você me mostre o caminho para o convés do navio.
Porque, por favor, compreenda que, se você me envenenar, devo ficar doente. Parece-me que as pessoas que escrevem o filme doente, o romance doente, a peça doente se esqueceram de que o veneno pode destruir mentes, assim como destruir a carne. Muitos vidros de veneno vêm com instruções para vômito em seu rótulo. Por causa da negligência, ignorância ou inabilidade, os novos Bórgias intelectuais entopem nossa garganta com bola de cabelo e nos negam a convulsão que pode nos fazer bem.
Essas pessoas se esqueceram, embora sempre soubessem, do conhecimento antigo de que apenas ficando realmente doente é que alguém pode reconquistar a saúde. Até os animais sabem quando é bom e apropriado vomitar. Ensine-me como ficar doente então, no momento e no lugar certos, e assim poderei andar de novo pelos campos e, como os cães sábios e felizes, saber o bastante para mastigar erva-doce.
A estética da arte é totalmente abrangente; nela há espaço para cada horror, cada prazer, se as tensões que os representam forem levadas aos seus limites mais distantes e relaxados de ação. Não estou pedindo finais felizes. Estou pedindo apenas finais adequados, baseados na avaliação correta da energia contida e da denotação oferecida.
Onde o México me surpreendeu com tanta escuridão no coração do sol do meio-dia, a Irlanda me surpreendeu com tanto sol engolido no coração da neblina para manter alguém quente. O percussionista distante que ouvi no México me conduziu a uma marcha fúnebre. O percussionista em Dublin suavemente me conduziu pelos pubs. As peças quiseram ser peças felizes. Deixei-as se escreverem desse modo, conforme as suas próprias fomes e necessidades, as suas alegrias incomuns e os bons prazeres.
Assim escrevi meia dúzia de peças e escreverei mais sobre a Irlanda. Você conhece aquela gente por toda a Irlanda que se encontra em grandes colisões frontais de bicicleta e que sofre de abalos terríveis anos depois? Eu conheço. Eu as capturei e as mantive num ato. Você sabe dos cinemas em que toda noite, um instante antes do hino nacional irlandês explodir em suas harmonias, há uma horrível onda e defluxo à medida que as pessoas lutam para escapar pelas saídas para não ouvir aquela música medonha novamente? Isso acontece. Eu vi. Eu corri com elas. Agora eu transformei isso numa peça, Os corredores de hino. Você sabia que o melhor jeito de guiar à noite pela neblina dos pântanos do interior da Irlanda é manter as luzes apagadas? E que dirigir terrivelmente rápido é melhor? Eu escrevi isso. É o sangue de um irlandês que conduz a sua língua à beleza ou é o uísque que ele entorna que leva o seu sangue a conduzir a sua língua e a dizer poemas e declamar com as harpas? Eu não sei. Pergunto ao meu self secreto, que me diz. Homem sábio, eu ouvi.
Então, me sentindo arruinado, ignorante, distraído, acabei escrevendo peças de um ato, uma peça de três atos, ensaios, poemas e um romance sobre a Irlanda. Eu era rico e não sabia. Todos nós somos ricos e ignoramos o fato enterrado da sabedoria acumulada. Então frequentemente minhas histórias e peças me ensinam, me lembram de que não devo duvidar de mim mesmo, de minhas vísceras, gânglios ou do subconsciente ouija de novo.
De agora em diante, espero estar sempre alerta, educar a mim mesmo da melhor forma possível. Mas, na falta disso, no futuro, voltarei a minha mente secreta para ver o que ela observou quando eu achava que já tinha ido até o fim.
Nós nunca vamos até o fim. Nossos copos é que, constante e silenciosamente, são enchidos. O truque é saber como nos virar e deixar o belo entornar.
Meu teatro de ideias
O tempo é, de fato, teatral. É cheio de loucura, selvageria, brilho, inventividade. Ele tanto anima quanto deprime. Ele diz demais ou diz muito pouco.
E uma coisa é constante em todas as situações acima mencionadas: ideias. Ideias estão em marcha.
Pela primeira vez na longa e incômoda história do homem, as ideias não existem apenas no papel, como nas filosofias dos livros. Hoje, elas estão desenhadas, dispostas em maquetes, engenhadas, eletrificadas, fixadas e liberadas para acelerar ou degradar os homens.
Sendo tudo isso verdade, quão raramente o cinema, o romance, o poema, o conto, a pintura ou a peça de teatro tratam do grande problema do nosso tempo: o homem e seus fabulosos instrumentos, o homem e suas crianças mecânicas, o homem e seus robôs imorais que o conduzem, estranha e inexplicavelmente, para a imoralidade?
Quero que as minhas peças sejam, primeiro, entretenimento e bastante engraçadas, e que estimulem, provoquem, aterrorizem e, espero, divirtam. Por isso, acho, é importante contar uma boa história, escrever bem as paixões, até o fim. Deixe o resíduo vir quando a peça terminar e o público for para casa. Deixe o público acordar no meio da noite e dizer: “Oh, foi isso que ele quis dizer!”. Ou, no dia seguinte, gritar: “Ele quis dizer nós! Ele quis dizer agora! Nosso mundo, nosso problema, nossos prazeres ou nossos desesperos!”.
Não quero ser um conferencista esnobe, um benfeitor grandiloquente nem um reformista chato.
Quero de fato correr, captar esse melhor momento de toda a história do homem para ficar vivo, empanturrar os meus sentidos dele, olhá-lo, tocá-lo, ouvi-lo, cheirá-lo, degustá-lo e torcer para que outros corram comigo, seguindo e sendo seguidos por ideias e máquinas feitas de ideias.
Muitas vezes, fui parado por policiais às duas horas da madrugada, que me perguntavam o que eu estava fazendo, andando na calçada. Escrevi uma peça chamada “O pedestre”, ambientada no futuro, sobre o apuro de caminhantes semelhantes nas cidades.
Testemunhei inúmeras cenas com televisão e crianças de todas as idades extasiadas, transportadas e abstraídas, e escrevi A savana, uma peça sobre uma sala com paredes cobertas por televisões num futuro muito próximo, que se torna o centro de existência de uma família aprisionada.
E escrevi uma peça sobre um poeta-do-ordinário, um mestre do medíocre, um velho cujo grande feito da memória é se lembrar de como era um Moon ou Kissel-Kar ou Buick em 1925 nos detalhes de seus para-lamas, para-brisa, painéis e placas. Um homem que podia descrever a cor de cada embalagem de todos os doces já comprados, o design de cada embalagem de cigarro já fumado.
Essas peças, essas ideias, colocadas em movimento agora no palco, espero que sejam consideradas um produto verdadeiro do nosso tempo.