• Joseph Campbell
    O Poder do Mito
    02-10-2026 18:28:06
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IV

SACRIFÍCIO E BEM-AVENTURANÇA

Pondo se no encalço da sua bem aventurança, você se coloca numa espécie de trilha que esteve aí o tempo todo, à sua espera, e a vida que você tem de viver é essa mesma que você está vivendo. Onde quer que esteja – se estiver no encalço da sua bem aventurança, estará desfrutando aquele frescor, aquela vida intensa dentro de você, o tempo todo.

MOYERS: O que me impressiona, quando leio o que você escreveu sobre o impacto do meio ambiente na formação de histórias, é que esses povos os povos das planícies, os caçadores, os povos das florestas, os agricultores – estão integrados em suas paisagens.  Eles fazem parte do seu mundo, e cada elemento desse mundo se torna sagrado para eles.

CAMPBELL: A sacralização da paisagem local é uma função fundamental da mitologia. Você vê isso claramente nos navajos, capazes de identificar uma montanha do norte, uma montanha do sul, uma montanha do leste, uma montanha do oeste e uma montanha do centro. Numa habitação navaja, a porta sempre está voltada para o leste. A lareira se localiza no centro, que se torna um centro cósmico, e a fumaça sobe para um buraco aberto no teto, de modo que o aroma do incenso se dirija diretamente às narinas dos deuses. A paisagem, o lugar de morada, se torna um ícone, uma figura sagrada.  Onde quer que esteja, você estará conectado com a ordem cósmica.  Observe uma pintura de areia navaja, verá que há sempre uma figura circundante – pode representar uma miragem, o arco íris, o que seja, mas haverá sempre uma figura circundante, aberta do lado leste, para que o espírito novo possa penetrar por ali.  Quando o Buda se sentou sob a árvore, voltou sua face para o leste – a direção do sol nascente.

MOYERS: Na minha primeira ida ao Quênia, fui sozinho a um daqueles lugares primitivos, no que fora a margem de um lago, e fiquei ali até a noite cair, experimentando a sensação da presença de toda a criação – sentindo, sob aquele céu noturno, naquele lugar descampado, que eu pertencia a algo ancestral, algo ainda muito vivo.

CAMPBELL: Creio que é Cícero que diz que, ao penetrar num bosque alto e cerrado, a presença de uma deidade se manifesta a você. Há bosques sagrados por toda parte.  Lembro me de ter ido a uma floresta, quando menino, e ficar reverenciando uma árvore, uma enorme e velha árvore, enquanto pensava: “Ah, o que você conheceu, o que você tem sido!” Acho que essa sensação da presença da criação é uma tendência básica do homem. Mas hoje vivemos em cidades. É tudo pedra e rocha, manipuladas por mãos humanas. Você vive outro tipo de realidade quando cresce lá fora, no meio da floresta, ao lado dos pequenos esquilos e das grandes corujas. Todas essas coisas estão ao seu redor como presenças, representam forças, poderes e possibilidades mágicas de vida, que, embora não sejam suas, fazem parte da vida e lhe franqueiam o caminho da vida.  Então você descobre tudo isso ecoando em você, porque você é natureza. Quando um índio sioux apanha o cachimbo da paz, ele o empunha com o bocal apontando para o céu, para que o sol dê a primeira baforada. Em seguida ele o apontará nas quatro direções, sempre. Com a mente assim constituída, quando se dirige ao horizonte, ao mundo onde você está, você percebe que ocupa o seu lugar no mundo. É uma maneira diferente de viver.

MOYERS: Em The Mythic Image, você escreve sobre o centro transformador, a idéia de um lugar sagrado, onde os muros temporários podem se dissolver, revelando algo maravilhoso. O que significa ter um lugar sagrado?

CAMPBELL: Isso, hoje, é uma necessidade absoluta para qualquer um. Você precisa de um quarto, uma determinada hora ou um certo dia em que não leu as notícias da manhã, não sabe quem são seus amigos, não sabe o que deve a quem quer que seja, nem o que lhe devem. É um lugar onde você simplesmente vivencia e traz à tona o que você é e o que pode ser. É o lugar da criação incubativa. No início, você pode achar que nada acontece. Mas se você tem um lugar sagrado e se serve dele, alguma coisa eventualmente acontecerá.

MOYERS: Esse lugar sagrado fará por você o que as planícies fizeram pelos caçadores.

CAMPBELL: Para eles, o mundo inteiro era um lugar sagrado. Mas a orientação de nossas vidas se tornou tão prática e econômica que, à medida que você envelhece, as solicitações do momento se tornam prementes a ponto de você mal saber onde diabo está, ou quais são suas intenções genuínas. Você está sempre fazendo algo exigido de você. Onde está a sua estação de bem-aventurança? Você precisa se esforçar para encontrá-la. Pegue o aparelho de som e ponha uma música de que você realmente goste, ainda que seja uma música piegas, ultrapassada, que ninguém mais aprecie. Ou pegue o livro que você realmente gosta de ler. No seu lugar sagrado, você atinge aquele sentimento de respeito pela vida que esses povos tinham para com o mundo todo em que viviam.

MOYERS: Falamos do impacto da paisagem sobre as pessoas. Mas e quanto à ação das pessoas na paisagem?

CAMPBELL: As pessoas reivindicam a terra criando sítios sagrados, mitologizando os animais e as plantas – elas investem a terra de poderes espirituais. A terra se torna uma espécie de templo, um lugar de meditação. Por exemplo, os navajos foram esplêndidos ao mitologizar os animais. Nas suas pinturas de areia você vê aquela quantidade de pequenos animais, cada um com seu valor próprio. Pois bem, esses animais não aparecem representados naturalisticamente. São estilizados. E a estilização se refere às suas características espirituais, não às meramente físicas. Existe uma grande mosca, por exemplo, que às vezes se aproximará e pousará em seu ombro, quando você estiver caminhando pelo deserto. Nos mitos navajos, ela é conhecida como Grande Mosca e também como Pequeno Vento. Ela sopra para os jovens heróis, quando estão sendo testados, as respostas a todas as questões formuladas pelos pais. A Grande Mosca é a voz do espírito sagrado, revelando a sabedoria escondida. 

MOYERS: E qual é o propósito disso tudo?

CAMPBELL: Reivindicar a terra. Transformar a terra em que eles vivem num lugar espiritualmente relevante.

MOYERS: Então quando Moisés avistou a Terra Prometida, estava apenas fazendo o que outros líderes espirituais haviam feito por seus povos. Estava reivindicando a terra. 

CAMPBELL: Sim. Você deve se lembrar da história do sonho de Jacó. Quando ele desperta, o lugar se torna Betel, a casa de Deus. Jacó reivindicou esse lugar dotado de certa significação espiritual. É o lugar onde Deus semeou suas energias.

MOYERS: Ainda existem sítios sagrados neste continente, hoje? 

CAMPBELL: A Cidade do México era um sítio sagrado, uma das maiores cidades do mundo, antes que os conquistadores espanhóis a dividissem. Quando os espanhóis viram a Cidade do México, ou Tenochtitlán, pela primeira vez, era uma cidade maior do que qualquer cidade européia. E era uma cidade sagrada, com grandes templos.  Atualmente, a catedral católica se situa no exato lugar onde antes se localizava o templo do sol. Isto é um exemplo de reivindicação da terra pelos cristãos. Como você vê, eles transformaram a paisagem em paisagem própria, colocando o seu templo no mesmo lugar do templo alheio.

Nossos antigos peregrinos, por exemplo, batizaram os lugares a partir da Bíblia. E alguém, na parte norte do Estado de Nova Iorque, tinha em mente a Odisséia e a Ilíada – Ítaca, Utica, e nomes clássicos um atrás do outro.

MOYERS: De certo modo, as pessoas ungem a terra onde acreditam que se localiza a energia que as fortalece. Existe uma relação orgânica entre a terra e as estruturas que as pessoas constroem sobre ela.

CAMPBELL: Sim, mas isso terminou com o advento da metrópole. 

MOYERS: Em Nova Iorque, agora, a disputa é para saber quem construirá o prédio mais alto.

CAMPBELL: Isso é uma espécie de triunfo arquitetônico. É a declaração, da cidade, de que somos um centro de poder financeiro – veja o que somos capazes de fazer. É uma espécie de proeza acrobática, virtuosística.

MOYERS: Onde estão hoje os lugares sagrados?

CAMPBELL: Eles não existem mais. Há uns poucos marcos históricos, aonde as pessoas podem ir, para meditar sobre algo importante que tenha acontecido ali. Por exemplo, podemos ir em visita à Terra Santa porque é a terra de origem das nossas religiões. Mas qualquer terra poderia ser uma terra sagrada. Qualquer um poderia encontrar na própria paisagem o símbolo das energias da vida. E o que fazem todas as tradições primordiais. Elas santificam sua própria paisagem.

É o que fizeram os primeiros ocupadores da Islândia, por exemplo, nos séculos VIII e IX. Eles estabeleceram seus diferentes povoados a uma distância de 432.00O pés romanos um do outro (432.00O é um número mitológico importante, conhecido de muitas tradições). Toda a organização da paisagem da Islândia se dava em termos dessa relação cósmica, de modo que, aonde quer que você fosse, estaria, por assim dizer (caso conhecesse a mitologia), em acordo com o universo. E a mesma espécie de mitologia que temos no Egito, sendo que a simbologia ali adquiriu uma forma diferente, porque o Egito não é circular, é longilíneo. Lá você tem a deusa do céu como uma Vaca Sagrada, dois pés no sul e dois pés no norte – uma idéia retangular, por assim dizer. Mas a simbolização espiritual da nossa própria civilização está basicamente perdida para nós.  Eis por que é tão maravilhoso ir à adorável cidadezinha francesa de Chartres, onde a catedral ainda domina; você ouve o sino tocando quando a noite cede lugar ao dia, quando a manhã chega ao apogeu do meio dia e, de novo, quando o dia se transforma em noite.

Considero Chartres a minha paróquia. Tenho estado lá freqüentemente. Quando era estudante, em Paris, gastei todo um fim de semana na catedral, estudando cada figura que ela contém. Eu era tão assíduo que certa vez o zelador chegou a mim, por volta do meio dia, e disse: “Você quer subir lá comigo e tocar os sinos?” “Gostaria muito”, respondi. Então escalamos a torre até o grande sino de bronze. Havia uma pequena plataforma, como uma gangorra. Ele subiu numa das extremidades e eu, na outra. Havia uma pequena barra para nos apoiarmos. Ele deu um pequeno puxão e eu, outro.  Começamos a subir e a descer. O vento soprava em nossos cabelos, lá no alto da catedral, e então o sino começou a soar logo abaixo de nós – “Boxag, bong, bong”. Foi uma das aventuras mais emocionantes da minha vida.

Quando tudo terminou, ele me levou para baixo e disse: “Quero lhe mostrar onde é o meu quarto”. Bem, numa catedral você tem a nave, depois o transepto e então a abside, e, ao redor desta, a grade do coro. Ele me levou por uma pequena porta ao meio do recinto, e lá havia uma pequena cama e uma pequena mesa, com uma lâmpada. Quando olhei através da grade, lá estava a Madona Negra – e é lá que ele vivia. Pois bem, ali estava um homem vivendo em constante meditação. Foi algo tocante, belíssimo. Desde então, tenho estado em Chartres muitas vezes.

MOYERS: E o que você encontra lá?

CAMPBELL: Ela me leva de volta a um tempo em que esses princípios espirituais enformavam a sociedade. Você pode ter uma idéia do que enforma uma sociedade pelo seu edifício mais alto. Ao se aproximar de uma cidade medieval, você vê que a catedral se eleva acima de tudo. Ao se aproximar de uma cidade do século XVIII, o palácio do governo é o prédio mais alto. E ao se aproximar de uma cidade moderna, os edifícios mais altos são os prédios de escritórios, os centros da vida econômica.

Indo a Salt Lake City, você tem um exemplo disso diante dos seus olhos. Primeiro foi construído o templo, bem no centro da cidade. Essa é uma organização apropriada, porque o templo é o centro espiritual de onde tudo flui, em todas as direções. Depois o prédio político, o Capitólio, foi construído ao lado, e é mais alto que o templo. Hoje, o edifício mais alto é um prédio de escritórios, que cuida dos interesses tanto do templo quanto do prédio político. Esta é a história da civilização ocidental. Do período gótico ao período principesco dos séculos XVI, XVII e XVIII, até este mundo econômico, em que vivemos.

MOYERS: Assim, quando você vai a Chartres...

CAMPBELL: ....estou de volta à Idade Média. Estou de volta ao mundo em que fui criado, na infância, o mundo com a imagem espiritual do catolicismo romano, e isto é magnífico.

MOYERS: Você não é um homem que se deixe levar pela nostalgia. Não é apenas o passado que o comove quando você está lá, não é mesmo? 

CAMPBELL: Não, é o presente. A catedral me fala a respeito da estrutura espiritual do mundo. É um lugar de meditação, é só caminhar ao redor, é só ficar sentado, é só olhar para todas aquelas belezas.

MOYERS: A catedral de Chartres, que você ama tanto, também expressa uma relação entre o humano e o cosmos, não é verdade?

CAMPBELL: Sim. A catedral tem a forma de uma cruz, com o altar no meio. É uma estrutura simbólica. Bem, muitas igrejas são construídas como se fossem teatros. A visibilidade é importante. Mas na catedral não há qualquer interesse na visibilidade. A maior parte do que acontece, acontece fora do alcance do seu olhar. O símbolo é que é importante ali, não apenas observar o espetáculo. Todos conhecem de cor o espetáculo.  Você está acostumado a ver isso desde os seis anos de idade.

MOYERS: Então por que continuar indo à catedral?

CAMPBELL: Aí está toda a questão do mito. Por que gostamos de continuar a falar sobre este assunto? Porque ele nos põe novamente em contato com a arquetipologia essencial da nossa vida espiritual. Ir a um ritual, dia após dia, nos mantém na trilha.

MOYERS: Mas, hoje, perdemos o conhecimento disso.

CAMPBELL: Perdemos contato com essa espécie de preocupação. O objetivo da vida primitiva era viver em permanente consciência do princípio espiritual. Nos palácios assírios, vê se um animal híbrido, com cabeça de homem, corpo de leão, asas de águia e patas de touro: quatro signos do zodíaco, reunidos, tornados guardiães das portas do palácio.

Esses mesmos quatro animais, associados à visão de Ezequiel, se tornaram os quatro evangelistas, na tradição cristã. Você deve se lembrar da prece: “Mateus, Marcos, Lucas e João abençoam o leito em que eu durmo”. Nessa prece, você está no meio, onde Cristo está, e os quatro pontos cardeais ao seu redor são os quatro pés da cama.  Pois bem, essa mandala representa o Cristo aparecendo por detrás do espaço tempo.  Esses quatro animais representam o véu do espaço tempo, velando a eternidade, e o Cristo no centro é o rompimento, o segundo nascimento, a vinda do Senhor ao mundo, através do útero da deusa universal, o espaço tempo.

MOYERS: Você diz que uma catedral como Chartres simboliza o conhecimento de um nível de sentido que transcende a lei e está presente em termos de arquitetura, não apenas nas formas da pedra majestosa, mas também no vasto silêncio que circunda e habita essas formas.

CAMPBELL: Toda referência espiritual derradeira é ao silêncio para além do som. A palavra tornada carne é o primeiro som. Para além desse som está o transcendente desconhecido, o incognoscível. Pode ser referido como o grande silêncio, ou o proibido, ou o absoluto transcendente.

MOYERS: Quando eu o ouço falar sobre os mitos que se ligam aos nossos lugares sagrados, sobre as paisagens que ligam os primeiros seres humanos ao universo, começo a pensar que o sobrenatural, pelo menos do modo como você o entende, é na verdade apenas o natural.

CAMPBELL: A idéia do sobrenatural como algo além e acima do natural é uma idéia mortífera. Foi essa idéia que, na Idade Média, acabou por transformar o mundo em algo como uma terra devastada, uma terra onde as pessoas vivem uma vida inautêntica, jamais fazendo aquilo que verdadeiramente desejariam fazer, porque as leis sobrenaturais impõem a elas viverem sob o comando dos clérigos. Numa terra devastada, as pessoas perseguem propósitos que não são propriamente delas, mas lhes foram impostos como leis inescapáveis. Isto é morticínio. A poesia amorosa trovadoresca do século XII era um protesto contra essa violação, sobrenaturalmente justificada, da alegria de viver. Da mesma forma, a lenda de Tristão e pelo menos uma das grandes versões da lenda do Graal, a de Wolfram von Eschenbach. O espírito é realmente o buquê da vida. Não é algo soprado para dentro da vida, provém da vida.  Este é um dos aspectos gloriosos das religiões orientadas para a deusa mãe, em que o mundo é o corpo da Deusa, divino em si mesmo, e a divindade não é algo que se coloque além e acima da natureza decaída, regendo a. Havia algo desse espírito no culto medieval da Virgem, do qual resultam todas as belas catedrais francesas do século XIII.  Entretanto, nossa história da Queda do Éden vê a natureza como corrompida, e esse mito corrompe o mundo inteiro, para nós. Quando a natureza é vista como corrompida, todo ato espontâneo é pecaminoso, devendo ser reprimido. Você terá civilizações e modos de vida completamente diferentes caso os mitos apresentem a natureza como decaída ou como uma manifestação da divindade em si mesma – e o espírito é a revelação da divindade que é inerente à natureza.

MOYERS: Quem interpreta a divindade inerente à natureza, para nós, hoje? Quem são nossos xamãs? Quem interpreta, para nós, as coisas que não são vistas? 

CAMPBELL: Essa é a função do artista. O artista é aquele que transmite os mitos, hoje.  Mas ele precisa ser um artista que compreenda a mitologia e a humanidade, e não simplesmente um sociólogo com um programa.

MOYERS: E quanto aos vulgares, os que não são poetas nem artistas, ou que nunca tiveram um êxtase transcendente? Como distingui-los?

CAMPBELL: Vou lhe dizer uma maneira, uma maneira muito boa. Sente se numa sala e leia – leia, leia, leia. E leia os livros certos escritos pelas pessoas certas. Sua mente será levada a esse nível, e você terá, o tempo todo, um enlevo agradável, suave, cálido.  Essa compreensão da vida pode ser uma compreensão constante em seu viver. Quando você encontrar um autor que o prenda de verdade, leia tudo o que ele escreveu. Não diga: “Ah, preciso conhecer o que fulano ou beltrano fizeram”, e nunca perca tempo com as listas de best sellers. Leia apenas o que esse determinado autor tem a lhe oferecer. Depois você poderá ler o que ele tenha lido. Então o mundo se abrirá, em coerência com um certo ponto de vista. Mas quando você salta de um autor para outro, isso o habilita a dizer em que data cada um deles escreveu este ou aquele poema – mas nenhum deles lhe terá dito nada.

MOYERS: Então os xamãs representavam, nas sociedades primitivas, o papel que os artistas representam agora. O que eles faziam era mais importante do que apenas ser... 

CAMPBELL: Eles desempenharam um papel tradicionalmente desempenhado pelo sacerdócio em nossa sociedade.

MOYERS: Então os xamãs eram sacerdotes?

CAMPBELL: Há uma diferença básica, como eu vejo a questão, entre um xamã e um sacerdote. O sacerdote é um funcionário de uma determinada categoria social. A sociedade reverencia certas deidades, de uma certa maneira, e o sacerdote é ordenado como um funcionário incumbido de conduzir o ritual. A deidade à qual ele se devota já estava lá antes que ele aparecesse. Mas os poderes do xamã estão simbolizados nos seus próprios familiares, deidades de sua própria experiência pessoal. Sua autoridade decorre de uma experiência psicológica, não de uma ordenação social. 

MOYERS: O xamã esteve em algum lugar onde eu não estive e explica a coisa para mim.

CAMPBELL: Além disso, como no caso de Black Elk, o xamã traduz algumas das suas visões em performances rituais para o seu povo. Isto significa trazer a experiência interior para a vida exterior das próprias pessoas.

MOYERS: Isso representa o início de uma religião?

CAMPBELL: Pessoalmente, penso que é assim que as religiões começaram. Mas é apenas um palpite. Na verdade, não podemos saber.

MOYERS: Algum Jesus se isola no deserto, vive uma transformação psicológica, retorna e diz ao povo: “Sigam me”. É assim que acontece nessas culturas primitivas? 

CAMPBELL: Parece que é assim. Encontramos um aspecto xamânico em praticamente todas as culturas voltadas para a caça.

MOYERS: Por que, particularmente, nas culturas voltadas para a caça?

CAMPBELL: Porque elas são individualistas. O caçador tem um senso de individualidade que nenhum agricultor jamais terá. Labutar no campo, esperando que a natureza diga quando agir, é uma coisa, mas partir para uma caçada... Cada caçada é diferente da anterior. E os caçadores são treinados em habilidades individuais que exigem talentos e capacidades muito especiais.

MOYERS: O que acontece, então, ao xamã na evolução humana? 

CAMPBELL: Quando se dá a grande ênfase na vida sedentária, nas povoações fixas, o xamã perde poderes. De fato, há uma bela coleção de histórias e mitos de alguns dos índios do sudoeste americano, os navajos e os apaches, que eram originalmente povos caçadores, desceram para uma área onde a agricultura tinha sido desenvolvida e adotaram um sistema de vida agrário. Em suas histórias mais antigas, é típico haver um episódio jocoso em que os xamãs caem em desgraça e os sacerdotes assumem. Os xamãs dizem alguma coisa que ofende o sol e o sol desaparece; então eles dizem: “Oh, eu posso trazer o sol de volta”. Aí eles desempenham todos os seus truques, que são cinicamente, comicamente descritos. Mas não conseguem trazer o sol de volta. São então reduzidos a uma micro sociedade xamânica, uma espécie de sociedade de palhaços. São mágicos dotados de um poder especial, mas seu poder está agora subordinado a uma sociedade mais ampla.

MOYERS: Falamos a respeito da influência da planície dos caçadores na mitologia, esse espaço claramente delimitado por um horizonte circular encimado pela grande abóbada do céu. Mas, e quanto aos povos que viviam em meio à espessa folhagem da floresta? Não existe a abóbada do céu, nem horizonte, nem senso de perspectiva – só árvores, árvores, árvores.

CAMPBELL: Colin Turnbull conta uma história interessante de um pigmeu que nunca tinha saído da floresta e foi levado para o topo da montanha. Subitamente, ultrapassando o arvoredo, chegaram ao morro, e uma imensa planície se estendeu diante deles. O pobre amiguinho ficou extremamente aterrorizado, pois não tinha como avaliar perspectiva ou distância. Ele pensou que os animais que pastavam, distantes, na planície estivessem logo ali adiante e fossem minúsculos como formigas. Ficou totalmente desconcertado e saiu correndo de volta para a floresta.

MOYERS: A geografia teve um papel decisivo no sentido de moldar nossa cultura e nossa idéia de religião. O deus do deserto não é o deus das planícies...

CAMPBELL: ...ou o deus da floresta úmida – os deuses, no plural, da floresta úmida.  Quando você está no deserto, diante de um céu e um mundo, você pode ter uma só deidade, mas numa floresta, onde não há horizonte e onde você não avista mais de dez ou vinte jardas adiante do nariz, essa idéia já não é mais possível. 

MOYERS: Eles então projetam sua idéia de Deus sobre o mundo?

CAMPBELL: Sim, claro.

MOYERS: A geografia molda a sua imagem de divindade; aí eles a projetam para fora e chamam na Deus.

CAMPBELL: Sim. A idéia de Deus é sempre culturalmente condicionada, sempre. E mesmo quando um missionário transmite o que ele pensa que seja Deus, o seu deus, esse deus é transformado em função do que as pessoas estão aptas a pensar como divindade.

Há uma história curiosa sobre um missionário inglês no Havaí, que recebeu a visita de uma sacerdotisa da deusa Pele. Pois bem, a sacerdotisa de Pele seria, de certo modo, uma manifestação menor da própria deusa. Com isso, o missionário estava ali, na verdade, falando a uma deusa. Ele disse: “Eu vim para lhe trazer a mensagem de Deus”.  E a sacerdotisa retrucou: “Oh, esse é o seu deus. Pele é a minha”.  MOYERS: “Tu não terás nenhum outro deus além de mim” é uma idéia puramente hebraica?

CAMPBELL: Não a encontrei em nenhuma outra parte.

MOYERS: Por que um só deus?

CAMPBELL: Não compreendo por quê. Compreendo a ênfase numa deidade social local, de parte de um povo que viva no deserto. Todo o seu empenho volta se para a sociedade que o protege. A sociedade é sempre patriarcal. A natureza é sempre matrilinear.

MOYERS: Você acha que as religiões voltadas a deusas emergiram porque na culturalização da espécie humana, nas sociedades primitivas, as mulheres desempenharam um papel dominante nas atividades de plantio e colheita? 

CAMPBELL: Não há dúvida a respeito. Naquele momento, as mulheres se tornaram os membros mais importantes da sociedade, em termos de poderes mágicos. 

MOYERS: Tinha sido o homem caçador...

CAMPBELL: Sim, e agora a coisa se move na direção da mulher. Como a sua magia consiste em propiciar o nascimento e em nutrir, como faz a terra, sua magia sustenta a magia da terra. Na tradição primitiva, ela é o primeiro plantador. Só mais tarde, quando é inventado o arado, nos sistemas de alta cultura, é que o homem reassume a liderança da agricultura. Então, a simulação do coito, com o arado penetrando a terra, se torna uma figuração mítica dominante.

MOYERS: Quer dizer que esses diferentes enfoques do mito dizem respeito ao que você chama de “caminho dos poderes animais”, “caminho da terra semeada”, “caminho das luzes celestiais” e “caminho do homem”?

CAMPBELL: Esses caminhos têm a ver com o sistema simbólico através do qual a condição humana normal, em cada época, é simbolizada, organizada e adquire conhecimento de si mesma.

MOYERS: E quanto aos valores?

CAMPBELL: Os valores serão o resultado das condições que governam a vida. Por exemplo, o caçador está sempre voltado para tora, para o animal. Sua vida depende da relação com os animais. Sua mitologia é orientada para fora. Mas a mitologia do plantio, que tem a ver com o cultivo das plantas, o plantio da semente, a morte da semente, por assim dizer, e o nascimento da nova planta, é orientada para dentro. Com os caçadores, foram os animais que inspiraram a mitologia. Quando o homem queria adquirir poder e conhecimento, dirigia se à floresta, jejuava e orava, e um animal vinha ensiná-lo.

Com os agricultores, quem ensina é o mundo das plantas. Em sua seqüência de vida, o mundo das plantas é idêntico à vida do homem. Como você vê, aí se estabelece uma relação de interioridade.

MOYERS: O que acontece à imaginação mítica quando os seres humanos se transformam, de caçadores de animais, em plantadores de sementes? 

CAMPBELL: Ocorre uma transformação dramática e total, não apenas dos mitos, mas da própria psique, creio. Veja, um animal é uma entidade total contida dentro de uma pele. Quando você mata um animal, ele está morto – é o seu fim. Não existe, no mundo vegetal, nada parecido com um indivíduo contido em si mesmo. Quando se corta o talo de uma planta, uma nova planta surge. A poda é benéfica à planta. A coisa toda é apenas uma contínua realimentação do ser.

Outra idéia associada às florestas tropicais é que da decomposição surge a vida. Eu vi maravilhosas florestas de pau-brasil, com grandes, imensas toras de árvores cortadas havia décadas. Brotavam delas essas novas criancinhas iluminadas, que são parte da mesma planta. Se você corta um ramo de uma planta, surge outro. Se você corta uma parte de um animal – a menos que seja um tipo especial de lagarto – ela não volta a crescer.

Assim, nas culturas da floresta e do plantio, existe uma noção de morte que, de algum modo, não é propriamente morte, pois a morte é necessária à nova vida. E o indivíduo não é propriamente um indivíduo, é o ramo de uma planta. Jesus usa essa imagem, quando diz: “Eu sou a parreira, vocês são os ramos”. Essa imagem proveniente da parreira é totalmente distinta daquela originária dos animais individualizados. Numa cultura de plantio, ocorre o cultivo de uma planta que vai ser comida. 

MOYERS: Que histórias se inspiraram nessa experiência do plantador? 

CAMPBELL: O motivo das plantas comestíveis, que cresceram a partir da poda e sepultamento do corpo sacrificado de uma deidade ou de uma personagem ancestral, ocorre um pouco por toda parte, mas particularmente nas culturas do Pacífico.

Essas histórias de plantas, na verdade, penetram uma área que nós normalmente entendemos como área de caçadores, nas Américas. A cultura da América do Norte é um expressivo exemplo da interação de culturas caçadoras e plantadoras. Os índios eram principalmente caçadores, mas eram também plantadores de milho. Uma história algonquina, sobre a origem do milho, fala de um menino que teve uma visão. Nessa visão, aparece lhe um jovem, com a cabeça ornada de plumas verdes, e o convida para um combate. Ele vence o menino, volta mais uma vez, torna a vencer, outra mais, e assim por diante. Um dia, o jovem diz que na vez seguinte o menino precisará matá-lo, enterrá-lo e cuidar do lugar onde ele será enterrado. O menino então faz o que lhe ordenaram fazer, mata e enterra o belo jovem. Um tempo depois, o menino volta e vê o milho crescendo no lugar onde o jovem de plumas verdes tinha sido enterrado – ou plantado, você poderia dizer.

Pois bem, esse menino tinha estado preocupado com seu pai, que era um caçador mas estava velho. O menino estava imaginando se poderia haver outra forma de obter alimento, além da caça. A visão apareceu diante dele outra vez. E o menino disse ao pai, no fim da história: “Agora não precisamos mais sair para caçar”. Esse deve ter sido um momento de grande revelação e mudança, para essas pessoas. 

MOYERS: A idéia é que o homem emplumado, da visão, deve morrer e ser enterrado antes que a planta brote dos restos do seu corpo. Essa história reaparece em outros mitos, nas culturas do plantio?

CAMPBELL: Sim. Uma réplica dessa história aparece na Polinésia, por exemplo. Há uma garota que adora banhar se em certa lagoa. Uma grande enguia nada ali no mesmo lugar e todo dia roça as coxas da garota, enquanto esta se banha. Certo dia, a enguia se transforma num belo jovem e faz amor com a garota. Depois parte, em seguida retorna, volta a partir, torna a voltar. Numa das voltas, o jovem enguia diz, tal como o homem emplumado da história algonquina: “Da próxima vez que eu vier visitá-la, você deverá matar me, cortar minha cabeça e enterrá-la”. Ela assim faz, e, da cabeça enterrada, nasce um coqueiro... Quando apanha um coco, você pode ver que é exatamente do tamanho de uma cabeça. Você vê inclusive os olhos e os pequenos nódulos que simulam uma cabeça. Se fôssemos acreditar no que dizem os antropólogos americanos, não haveria nenhuma relação entre as culturas do Pacífico e as da América, de que provêm nossos mitos do plantio.

MOYERS: Temos então a mesma história brotando em culturas que não se relacionam entre si. O que é que esse fato revela, a respeito?

CAMPBELL: Essa é uma das coisas mais surpreendentes a propósito dos mitos. Tenho lidado a vida inteira com esse material e ainda me espanto com a precisão das repetições. São praticamente o reflexo da mesma coisa, a mesma história, em outro meio. Em vez do milho é o coco.

MOYERS: O que há de espantoso, para mim, nessas histórias das culturas do plantio é que, pela primeira vez, nós temos povos surgindo do ventre da terra. O ventre aparece sucessivas vezes em muitas dessas histórias.

CAMPBELL: Isto é particularmente visível nas lendas do sudoeste americano, onde os primeiros povos se originam da terra. Emergem de um buraco, que se torna um lugar sagrado, o centro axial do mundo – sempre associado a uma certa montanha.  A história diz que havia ali pessoas, nas profundezas, que ainda não eram verdadeiramente pessoas, que sequer sabiam que eram pessoas. Uma delas rompe um tabu, que ninguém sabia que era um tabu, e um fluxo de águas começa a brotar. Elas têm que subir, escapar por uma corda através do buraco no teto do mundo – e acabam chegando a um novo mundo. Numa história, os xamãs se tornam agressivos em seus pensamentos e dirigem insultos ao sol e à lua, que então desaparecem, e todos ficam no escuro.

Os xamãs dizem então que podem trazer o sol de volta; engolem árvores e fazem as árvores brotar em suas barrigas. Aí se enterram no chão, deixando apenas os olhos à mostra, e encenam toda uma série de truques xamânicos. Mas os truques não resultam em nada, o sol não retorna.

Os sacerdotes dizem: “Bem, agora deixem o povo tentar”. E o povo é constituído de todos os animais. O povo animal se organiza em círculo e começa a dançar e a dançar.  É a dança que faz emergir a colina que se transforma em montanha e se torna o centro elevado do mundo, do qual surgem todos os seres humanos.  Então advém uma coisa muito interessante – exatamente como no Velho Testamento.  (Tudo o que ouvimos até agora é a história particular de um grupo, os navajos, digamos.) Quando as pessoas escapam para fora do buraco, os habitantes do Pueblo já estão lá. E como o problema de saber onde os filhos de Adão encontraram suas esposas.  Dá se a criação dessas pessoas, e o resto do mundo de algum modo está lá, por meio de um outro acontecimento.

MOYERS: É a idéia do Povo Eleito.

CAMPBELL: Com certeza. Cada povo é o povo eleito, em sua própria concepção. E o curioso é que o nome que cada qual dá a si mesmo normalmente significa “humanidade”. E eles dão nomes bizarros aos demais: Cara Engraçada, Nariz Torcido. 

MOYERS: Os índios americanos das florestas do nordeste falam de uma mulher que caiu do céu e deu à luz gêmeos. Os do sudoeste contam uma história de gêmeos nascidos de uma virgem.

CAMPBELL: Sim. A mulher que cai do céu provém, originariamente, de uma cultura basicamente caçadora, e a mulher da terra provém de uma cultura de plantio. Os gêmeos representam dois princípios contrários, mas princípios muito diferentes daqueles representados por Caim e Abel, na Bíblia. Na história dos iroqueses, um gêmeo é Broto ou Menino planta, e o outro é chamado Pedra. Pedra fere tanto a própria mãe, ao nascer, que ela morre. Com isso, Pedra e Menino planta representam as duas tradições. A pedra é usada nas armas, para matar os animais, de modo que o gêmeo chamado Pedra representa a tradição caçadora – e o Menino planta, obviamente, representa o princípio do plantio.

Na tradição bíblica, o menino planta é Caim e o menino pedra é Abel, que é mais um pastor que um caçador. Assim, na Bíblia, você tem o pastor contra o plantador, e este último é que é abominado. Este é o mito de um povo caçador ou pastor, que chega a um mundo em que prevalece a cultura do plantio e denigre o povo por ele conquistado. 

MOYERS: Soa como uma daquelas intermináveis lutas entre agricultores e vaqueiros, no velho oeste.

CAMPBELL: Sim. Na tradição bíblica, o segundo filho é sempre o vencedor, o bom. O segundo filho é o recém chegado – ou seja, os hebreus. O filho mais velho, ou o povo de Canaã, vivia ali, antes. Caim representa a posição da cidade agricolamente estabelecida.

MOYERS: Essas histórias explicam um bocado dos conflitos contemporâneos, não explicam?

CAMPBELL: Sim, sem dúvida. É fascinante comparar a convergência de uma sociedade de plantio, invasora, ou de um povo de caçadores ou pastores, invasores, em conflito com plantadores. As contrapartes são exatamente as mesmas, em todo o planeta, dois sistemas em conflito e em conjunção.

MOYERS: Você disse que tanto a mulher que caiu do céu quanto a que concebeu gêmeos na terra já estavam grávidas. Como você encara o fato de que em tantas dessas culturas haja lendas sobre virgens que dão à luz heróis que morrem e ressuscitam? 

CAMPBELL: A morte e ressurreição de uma figura salvadora é um motivo comum a todas essas lendas. Por exemplo, na história da origem do milho, você tem essa figura benigna que aparece para o rapaz, numa visão, proporciona o milho e morre. A planta nasce do seu corpo. Alguém teve que morrer para que a vida emergisse. Percebe se aí esse incrível padrão da morte dando origem ao nascimento, e do nascimento dando origem à morte. Toda geração deve morrer, para que a geração seguinte possa surgir.

MOYERS: Você escreve: “Das pedras da floresta e das folhas decaídas, brotos frescos nascem, e daí se extrai a lição de que da morte nasce a vida, da morte surge um novo nascimento. A conclusão implacável é que a melhor maneira de incrementar a vida é incrementar a morte. Bem de acordo com isso, todo o cinturão equatorial do globo terrestre tem sido caracterizado pela fúria do sacrifício – sacrifício vegetal, animal e humano”.

CAMPBELL: Existe um ritual vinculado à sociedade humana da Nova Guiné que, na verdade, representa o mito da morte, ressurreição e consumação canibalesca das sociedades do plantio. Num campo sagrado, soam tambores, cantos ecoam, depois há uma pausa. Isso prossegue por quatro ou cinco dias consecutivos. Os rituais são monótonos, você sabe. Eles apenas o envolvem, e então você rompe na direção de outra coisa qualquer.

Por fim chega o grande momento. Dá se a celebração de uma verdadeira orgia sexual, rompendo todas as regras. Os rapazes que vão ser iniciados na vida adulta terão agora sua primeira experiência sexual. Há um grande galpão de troncos enormes, escorados por duas colunas. Uma jovem entra, ornamentada como uma deusa, e é deitada no lugar bem abaixo do grande teto. Os rapazes, por volta de seis, enquanto os tambores soam e os cantos ecoam, um após o outro, têm a sua primeira experiência de acasalamento, com a garota. Quando o último rapaz está próximo do auge, as escoras são retiradas, os troncos desabam e o casal morre. Dá se aí a união de macho e fêmea, como eram no começo, antes que tivesse lugar a separação. É a união de procriação e morte: ambas são a mesma coisa.

Então o jovem casal é puxado para fora, assado e comido, nessa mesma noite. O ritual é a repetição do ato original de matar um deus, a que se segue o surgimento de alimento, dos restos do salvador morto. No sacrifício da missa, ensinam lhe que aquele é o corpo e o sangue do Salvador. Você o toma, volta se para o seu próprio interior e ele, então, atua dentro de você.

MOYERS: Qual é a verdade assinalada por esses rituais?

CAMPBELL: A natureza da vida deve ser compreendida nos atos da vida. Nas culturas caçadoras, quando um sacrifício se dá, isso representa uma oferenda ou um suborno em relação à deidade que está sendo instada a realizar algo por nós ou a nos conceder algo.  Mas quando uma figura é sacrificada, nas culturas do plantio, essa figura, em si mesma, é um deus. A pessoa que morre é enterrada e se transforma em alimento. Cristo é crucificado e do seu corpo surge o alimento do espírito.

A história de Cristo envolve uma sublimação daquilo que originariamente era uma

imagem vegetal muito sólida. Jesus está na Cruz Sagrada, a árvore, e ele próprio é o fruto da árvore. Jesus é o fruto da vida eterna, que estava na segunda árvore proibida do Jardim do Éden. Quando o homem comeu o fruto da primeira árvore, a árvore do conhecimento do bem e do mal, foi expulso do Paraíso. O Paraíso é o lugar da unidade, da não dualidade entre macho e fêmea, bem e mal, Deus e seres humanos. Comendo a dualidade, você se põe no caminho da expulsão. A árvore que leva de volta ao Paraíso é a árvore da vida imortal, através da qual você aprende que eu e o Pai somos um.  Voltar àquele Jardim é o objetivo de muitas religiões. Quando expulsou o homem do Paraíso, Jeová colocou dois querubins na entrada, com uma espada de fogo entre eles.  Ao se aproximar de um relicário budista, com o Buda sentado sob a árvore da vida eterna, você vê dois guardiães na entrada – são os dois querubins – e passa entre eles, na direção da árvore da vida eterna. Na tradição cristã, Jesus crucificado está numa árvore, a árvore da vida eterna, e ele é o fruto da árvore. Jesus na cruz. O Buda sob a árvore são as mesmas figuras. E os querubins da entrada, quem são eles? Nos relicários budistas, você verá que um tem a boca aberta, outro a boca fechada – medo e desejo, um par de opostos. Quando você se aproxima de um jardim como esse, e essas figuras lhe parecem reais e o ameaçam; quando você tem medo em relação à vida, ainda está fora do jardim. Mas se você já não estiver mais ligado à sua existência de maneira egoísta, se você encarar a vida individual como função de uma totalidade mais ampla, eterna, e valorizar o maior acima do menor, então não terá medo das duas figuras e passará direto por elas.

Somos mantidos fora do Jardim por nosso próprio medo e desejo em relação ao que julgamos serem as coisas boas da nossa vida.

MOYERS: Todos os homens, de todos os tempos, tiveram sempre essa sensação de terem sido excluídos de uma realidade superior, da bem aventurança, do gozo, da perfeição, de Deus?

CAMPBELL: Sim, mas você também tem momentos de êxtase. A diferença entre a vida cotidiana e a vida nesses momentos de êxtase é a diferença entre estar fora ou dentro do jardim. Você ultrapassa o medo e o desejo, ultrapassa o par de opostos. 

MOYERS: Em direção à harmonia?

CAMPBELL: Em direção à transcendência. Essa é uma experiência essencial em qualquer realização mística. Você morre para a sua carne e nasce para o seu espírito.  Você se identifica com a consciência e a vida de que o seu corpo é apenas o veículo.  Você morre para o veículo e se identifica com aquilo de que, na sua consciência, o veículo era o portador. Isso é Deus.

O que você tem, nas tradições agrárias, é a noção de identidade por trás da aparência de dualidade da superfície. Por trás dessas manifestações existe a radiância una, que brilha através de todas as coisas. A função da arte é revelar essa radiância através do objeto criado. Ao contemplar a bela organização de uma obra de arte afortunadamente bem realizada, você apenas exclama: “Oh!” De algum modo ela se comunica com a ordem que subjaz à sua própria vida e conduz à compreensão daquelas coisas de que a religião se ocupa.

MOYERS: Morte é vida, vida é morte e os opostos entram em acordo? 

CAMPBELL: Você encontra o equih’brio entre morte e vida – que são dois aspectos da mesma coisa, que é ser, vir a ser.

MOYERS: E isso aparece em todas essas histórias?

CAMPBELL: Todas elas. Não sei de nenhuma história em que a morte seja rejeitada. A velha idéia de ser sacrificado não é o que pensamos. Os maias praticavam uma espécie de jogo de bola em que, no final, o capitão do time vencedor era sacrificado pelo capitão do time perdedor. Sua cabeça era cortada. Ser sacrificado como vencedor da grande jogada da sua vida é a essência da primitiva idéia sacrificial.  MOYERS: Essa idéia de sacrifício, especialmente a do vencedor sendo sacrificado, é muito estranha ao nosso mundo. A regra dominante hoje é: “O vencedor ganha tudo”. 

CAMPBELL: Nesse ritual maia, o jogo consiste em tornar se merecedor de ser sacrificado como um deus.

MOYERS: Você acredita que aquele que perde sua vida ganha a vida?

CAMPBELL: Foi o que Jesus disse.

MOYERS: Você acredita que seja verdade?

CAMPBELL: Acredito – desde que se perca a vida em nome de algo. Há um relato dos missionários jesuítas do século XVII, no leste do Canadá, sobre um jovem e valente iroquês, recém capturado por uma tribo inimiga. Ele está sendo levado para ser torturado até a morte. Os índios do nordeste tinham o costume de torturar sistematicamente seus prisioneiros homens. A prova era sofrer sem recuar, era o teste final da verdadeira masculinidade. Assim, esse jovem iroquês estava sendo levado para se submeter à dura prova; mas, para espanto dos jesuítas, era como se estivesse sendo levado para a festa do seu casamento. Ele vem todo ornamentado e canta em voz alta.  Seus captores o tratam como se fossem seus anfitriões e ele, o convidado de honra. E o jovem participa da coisa sabendo, o tempo todo, que fim o aguarda. Os sacerdotes franceses, que descrevem a cena, se mostram espantados com o que interpretam como zombaria desalmada da cerimônia, e caracterizam os captores como um bando de brutos selvagens. Mas não! Aquelas pessoas iam ser os sacerdotes sacrificiais do jovem valente. Seria um sacrifício do altar, e, por analogia, aquele rapaz era o equivalente de Jesus. Os próprios sacerdotes franceses, todo dia, celebravam missa, que é a réplica do brutal sacrifício da cruz.

Há uma cena equivalente descrita nos Atos cristãos, apócrifos, de João, imediatamente antes de Jesus ser crucificado. É uma das passagens mais comoventes da literatura cristã. Nos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, é mencionado de passagem, no término da celebração da Última Ceia, que Jesus e seus discípulos cantaram um hino antes que ele partisse. Mas nos Atos de João temos uma transcrição palavra a palavra desse hino. Pouco antes de sair para o jardim, no fim da última Ceia, Jesus diz aos seus acompanhantes: “Dancemos!” Todos se dão as mãos, formando um círculo, e enquanto rodam em volta dele, Jesus canta: “Glória a ti, Pai!”

E os outros respondem: “Amém!”

“Glória a ti, Palavra!”

Outra vez: “Amém!”

“Eu nasceria e suportaria!”

“Amém!”

“Eu comeria e seria comido!”

“Amém!”

“Tu que danças, vê o que faço, pois tua é a paixão dos homens, que logo em seguida sofrerei!”

“Amém!”

“Eu voaria e permaneceria!”

“Amém!”

“Eu seria unido e uniria!”

“Amém!”

“Porta eu sou para ti, que me procuraste. (...) Caminho eu sou para ti, um transeunte.”

E quando a dança termina, ele caminha em direção ao jardim, para ser detido e crucificado.

Quando enfrenta a morte dessa maneira, como um deus, conhecendo O mito, você se encaminha para a vida eterna. O que existe, pois, de triste nisso? Vamos torná-lo magnífico, tal como é. Vamos celebrá-lo.

MOYERS: O deus da morte é o senhor da dança.

CAMPBELL: O deus da morte é ao mesmo tempo o senhor do sexo.

MOYERS: O que isso quer dizer?

CAMPBELL: É surpreendente: um após outro, você descobre esses deuses que presidem, ao mesmo tempo, à morte e à geração. O deus da morte, Ghede, na tradição vodu haitiana, é também o deus do sexo. O deus egípcio Osíris era o juiz e o senhor dos mortos, e o senhor da regeneração da vida. É um tema básico – aquele que morre, nasce. É preciso haver morte para que haja vida.

Esta é a origem dos caçadores de cabeças no sudeste da Ásia, especialmente na Indonésia. A caça da cabeça é um ato sagrado, um assassinato sagrado. Antes que seja autorizado a se casar e a ser pai, o jovem precisa sair a campo e conseguir a sua cabeça.  A menos que haja morte, não pode haver nascimento. O significado disso é que cada geração deve morrer para que a seguinte possa surgir. Assim que dá origem a uma criança, você se torna aquele que deve morrer. A criança é a nova vida, e você é apenas o protetor dessa nova vida.

MOYERS: Seu tempo chegou.

CAMPBELL: Eis por que existe uma associação psicológica profunda entre dar à luz e morrer.

MOYERS: Existe alguma relação entre o que você está dizendo e o fato de que um progenitor dará a vida por um filho?

CAMPBELL: Há um magnífico ensaio de Schopenhauer em que ele pergunta como um ser humano pode participar tão intensamente do perigo ou da dor que aflige o outro a ponto de, sem pensar, espontaneamente, chegar a sacrificar a própria vida por esse outro. Como pode acontecer a brusca anulação daquilo que normalmente concebemos como a primeira lei da natureza, a autopreservação?

No Havaí, há cerca de quatro ou cinco anos, deu se um evento extraordinário que ilustra bem a questão. Há um lugar lá chamado Pali, onde os ventos do norte passam rápidos através de uma grande cadeia de montanhas. As pessoas gostam de ir lá em cima, para ver seus cabelos agitados ou, às vezes, para cometer suicídio – você sabe, algo como saltar da Golden Gate Bridge.

Um dia, dois policiais dirigiam pela estrada de Pali quando viram, encostado à amurada que protege os carros do perigo do despenhadeiro, um jovem que se preparava para saltar. O carro de polícia parou e o policial à direita pulou para agarrar o jovem; mas o fez no instante em que este saltava, e acabou sendo carregado pelo outro; o segundo policial chegou a tempo de puxar os dois.

Você se dá conta do que subitamente aconteceu àquele policial que quase morreu junto com o jovem desconhecido? Tudo o mais em sua vida foi esquecido – seus deveres para com a família, seus deveres para com o trabalho, seus deveres para com sua própria vida – todos os seus desejos e esperanças em relação à vida simplesmente tinham desaparecido. Ele estava a ponto de morrer.

Mais tarde, um repórter lhe perguntou: “Por que você não o deixou cair? Você teria morrido com ele”. Sua resposta foi: “Não podia. Se tivesse deixado aquele jovem cair, não poderia viver nem mais um dia da minha vida”. Como é possível?  A resposta de Schopenhauer é que tal crise psicológica representa a abertura para a consciência metafísica de que você e o outro são um, de que você é dois aspectos de uma só vida, e que a sua aparente separação é apenas resultado do modo como vivenciamos as formas, sob as limitações de tempo e espaço. Nossa verdadeira realidade reside em nossa identidade e unidade com a vida total. Esta é uma verdade metafísica, que pode surgir espontaneamente em circunstâncias de crise. Pois esta é, de acordo com Schopenhauer, a verdade da sua vida.

O herói é aquele que deu sua vida física em troca de alguma espécie de realização dessa verdade. A idéia de amar seu próximo é pôr você em sintonia com esse fato. Mas, quer ame ou não o seu próximo, quando a realização o pega, você pode arriscar a própria vida. Aquele policial havaiano não sabia quem era o jovem a quem ele tinha oferecido a própria vida. Schopenhauer declara que, em proporções reduzidas, você vê isso acontecer todos os dias, o tempo todo, movendo a vida na terra – pessoas tendo gestos desprendidos em relação a outras pessoas.

MOYERS: Então, quando Jesus diz “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, ele na verdade está dizendo: “Ama o teu próximo porque ele é tu mesmo”.

CAMPBELL: Há uma bela figura na tradição oriental, o bodhisattva, cuja natureza é a compaixão ilimitada e de cujos dedos diz se que escorre ambrosia até as profundezas do inferno.

MOYERS: Qual é o significado disso?

CAMPBELL: No final da Divina comédia, Dante se dá conta de que o amor de Deus impregna todo o universo, até as mais fundas cavernas do inferno. É aproximadamente a mesma imagem. O bodhisattva representa o princípio da compaixão, o princípio curativo que torna a vida possível. A vida é dor, mas a compaixão é que lhe dá a possibilidade de continuar. O bodhisattva é aquele que atingiu a consciência da imortalidade, por meio da sua participação voluntária no sofrimento do mundo.  Participação voluntária no mundo é muito diferente de apenas ter nascido nele. Este é exatamente o tema da declaração de Paulo sobre Cristo em sua Epístola aos Filipenses, segundo a qual Jesus “não pensou na condição divina como algo a ser conservado, mas tomou a forma de um servo aqui na terra, para morrer na cruz”. É uma participação voluntária na fragmentação da vida.

MOYERS: Então você concordaria com Abelardo, do século XII, para quem a morte de Jesus na cruz não foi como o pagamento de um resgate ou como a aplicação de uma punição, mas foi um ato de expiação para a humanidade. 

CAMPBELL: Esta é a interpretação mais sofisticada de por que Cristo tinha de ser crucificado, ou por que escolheu ser crucificado. Uma interpretação mais antiga era que o pecado no Jardim do Éden tinha condenado a humanidade ao Mal, e Deus tinha de redimir o homem junto ao agiota, o Diabo. Então ofereceu seu próprio filho, Jesus, como a redenção. O papa Gregório deu essa interpretação de Jesus como a isca que fisgou o Diabo. Essa é a idéia da redenção. Em outra versão, Deus ficou tão ofendido com o ato de impudência no jardim, e tão irado, que lançou o homem para fora da sua esfera de misericórdia, de modo que a única coisa capaz de reconciliar o homem com Deus era um sacrifício que tivesse a mesma elevada importância que o pecado tinha tido. Nenhum homem comum seria capaz de tal sacrifício; então o próprio filho de Deus se tornou homem, a fim de resgatar a dívida.

Mas a idéia de Abelardo era que Cristo veio ser crucificado para evocar no coração do homem o sentimento de compaixão pelos sofrimentos da vida, e assim afastar a mente humana de seu cego interesse nas coisas deste mundo. É tendo compaixão por Cristo que nos voltamos para ele, e o injuriado se torna o nosso Salvador.

Isso se reflete na idéia medieval do rei injuriado, o rei Graal, sofrendo por causa de sua ferida incurável. O injuriado, outra vez, se torna o salvador. É o sofrimento que evoca a humanidade do coração humano.

MOYERS: Então você concordaria, com Abelardo, que o enternecimento da humanidade por Deus e o de Deus pela humanidade se encontram em compaixão na cruz?

CAMPBELL: Sim. Desde que haja tempo, há sofrimento. Você não pode ter um futuro a não ser que tenha um passado, e ainda que esteja apaixonado pelo presente ele se tornará passado, seja como for. Perda, morte, nascimento, perda, morte – e assim por diante. Ao contemplar a cruz, você está contemplando um símbolo do mistério da vida. 

MOYERS: Eis por que há tanta dor associada à verdadeira transformação ou conversão religiosa. Não é fácil perder se a si mesmo.

CAMPBELL: O Novo Testamento ensina a morrer para si mesmo, literalmente, sofrendo a dor da morte para o mundo e seus valores. Esse é o vocabulário dos místicos.  Agora, o suicídio também é um ato simbólico. Ele rejeita a postura psicológica em que você se encontra num dado momento, de modo que você deseja ingressar noutro melhor. Você morre para a vida em curso, a fim de ingressar em outra, de alguma espécie. Mas, como diz Jung, é melhor você não se deixar envolver numa situação simbólica. Você não precisa morrer literalmente, fisicamente. Tudo o que tem a fazer é morrer espiritualmente e renascer para um modo de vida mais aberto. 

MOYERS: Mas isto soa muito estranho à nossa experiência, hoje. A religião é fácil.

Você a usa, como se estivesse vestindo um casaco e indo ao cinema. 

CAMPBELL: Sim, muitas igrejas servem para encontros sociais agradáveis. Você gosta das pessoas que estão ali, são pessoas respeitáveis, velhos amigos, a família já os conhece há muito tempo.

MOYERS: O que aconteceu a essa idéia mítica do salvador que se autosacrifica, na nossa cultura?

CAMPBELL: Durante a Guerra do Vietnã, lembro me de ver na TV jovens tentando resgatar algum companheiro, com grande risco para si mesmos. Eles não eram obrigados a resgatar ninguém que estivesse em perigo extremo. E ali eu pude ver a mesma coisa agindo outra vez, a mesma aspiração, descrita por Schopenhauer, a sacrificar a própria vida por outrem. Alguns homens às vezes confessam que amam a guerra porque ela lhes proporciona a experiência de estar vivo.  Ir ao escritório todos os dias não lhe dá essa experiência, mas de repente, na guerra, você é lançado de volta à condição de estar vivo. Vida é dor; vida é sofrimento; e vida é horror mas, por Deus, você está vivo. Esses jovens no Vietnã estavam verdadeiramente vivos ao morrer bravamente por seus companheiros.

MOYERS: Um homem me disse certa vez, depois de trabalhar durante anos na mesma plataforma do metrô: “Eu morro um pouquinho, lá embaixo, cada dia, mas sei que estou fazendo isso por minha família”. Também há pequenos atos de heroísmo, que ocorrem sem preocupação com a notoriedade que o heroísmo pode atrair. Por exemplo, uma mãe pratica o heroísmo no isolamento que suporta, em benefício da família. 

CAMPBELL: A maternidade é um sacrifício. Na nossa varanda, no Havaí, os pássaros vêm comer. Cada ano existem lá um ou dois passarinhosmães. Quando você vê um passarinho mãe, atormentado pelos filhos famintos, cinco ou seis passarinhos bebês, alguns deles maiores do que ela, agitando se estabanados sobre ela, você pensa: “Bem, este é o símbolo da maternidade, a doação da sua própria substância, e das mínimas coisas que encontrar, à progênie”. Eis por que a mãe se torna o símbolo da mãe terra.  Ela é quem nos deu o nascimento, é na dependência dela que vivemos, e em seu corpo encontramos alimento.

MOYERS: Enquanto você fala, lembro me de outra figura de O caminho dos poderes animais, que me impressionou por sua semelhança com Cristo. Você se lembra daquela figura de salvador, da lenda da criação dos índios puna?

CAMPBELL: Sim. É uma história instrutiva. É a figura clássica do salvador, que traz a vida à humanidade; e a humanidade então o corta em pedaços. Você deve conhecer o velho ditado: “Salve a vida de um homem e ganhe um inimigo para o resto da vida”. 

MOYERS: Quando o mundo é criado, ele emerge do centro da terra e depois conduz o povo desde o subsolo, mas todos se voltam contra ele e o matam, não uma, mas diversas vezes...

CAMPBELL: ...a ponto de pulverizá-lo.

MOYERS: Mas ele sempre retorna à vida. Por fim, dirige se à montanha, onde as trilhas se tornam tão confusas que ninguém é capaz de segui-lo. Então, não é uma figura semelhante a Cristo?

CAMPBELL: De fato, é. E aqui está também o motivo do labirinto. As trilhas são deliberadamente confundidas, mas, se conhecer o segredo do labirinto, você poderá passar e fazer uma visita ao seu habitante.

MOYERS: E se tiver fé, você poderá seguir Jesus.

CAMPBELL: Poderá. Freqüentemente, uma das coisas que se aprende, como membro das religiões de mistérios, é que o labirinto, que bloqueia, é ao mesmo tempo o caminho para a vida eterna. Este é o segredo final do mito – ensiná-lo a penetrar no labirinto da vida de modo que os seus valores espirituais se manifestem.  Este é, também, o problema da Divina comédia, de Dante. A crise advém “no meio do caminho da nossa vida”, quando o corpo está começando a definhar e toda uma diversa constelação de temas irrompe no seu mundo de sonho. Dante diz que, no meio da vida, ele estava perdido numa floresta perigosa. Ele se sentia ameaçado por três animais, que simbolizavam orgulho, desejo e medo. Então apareceu Virgílio, a personificação da visão poética, e o conduziu através do labirinto do inferno, o lugar daqueles que estão atrelados aos próprios desejos e medos e que, por isso, não podem passar, em direção à eternidade. Dante estava sendo levado pela beatífica visão de Deus. Em escala menor, na história dos índios puna temos a mesma imagem mitológica. Os índios puna constituem uma das culturas mais elementares da América do Norte. Apesar disso, foram capazes, a seu próprio modo, de se utilizar de uma imagem altamente sofisticada, que se assemelha à de Dante.

MOYERS: Você escreveu que “o símbolo da cruz deve ser encarado como símbolo da eterna afirmação de tudo quanto existiu e existirá. A cruz simboliza não apenas o momento histórico do Calvário, mas o mistério, que atravessa tempo e espaço, da presença e participação de Deus na agonia de todas as criaturas vivas”.

CAMPBELL: O grande momento do mito medieval é o despertar do coração para a compaixão, a transformação da paixão em compaixão. Esse é todo o problema das histórias do Graal, compaixão pelo rei ferido. Afora isso, você tem também a explicação de Abelardo para a crucificação: o Filho de Deus veio ser crucificado neste mundo para despertar nossos corações para a compaixão e, portanto, afastar nossas mentes dos interesses grosseiros deste mundo rude, preparando as para os valores especificamente humanos da autodoação no sofrimento compartilhado. Nesse sentido, o rei ferido, o rei mutilado da lenda do Graal, é a contraparte de Cristo. Ele está ali para evocar a compaixão e, assim, trazer à vida a terra morta e desolada. Existe aí uma dimensão mística da função espiritual do sofrimento neste mundo. Aquele que sofre é como se fosse o Cristo, que vem até nós para evocar aquilo que transforma a besta humana predadora num ser humano válido. Isso é a compaixão. Esse é o tema que James Joyce acolhe e desenvolve no Ulisses – o despertar do herói, Stephen Dedalus, para a sua própria humanidade, através da compaixão que comparte com Leopold Bloom. Isso foi o despertar do seu coração para o amor e o descortinar do caminho.  No outro grande livro de Joyce, Finnegans Wake, há um número misterioso que reaparece constantemente, O 1.132. Ocorre como data, por exemplo, e, invertido, como endereço: 32 West 11th Street. Em cada capítulo, de um modo ou de outro, o número 1.132 aparece. Quando eu estava escrevendo Uma chave interpretativa do Finnegans Wake, tentei tudo o que sabia para descobrir: “Que diabo vem a ser o número 1.132?” Depois me lembrei que, em Ulisses, enquanto Bloom divaga pelas ruas de Dublin, uma bola cai de uma torre, para indicar meio dia, e ele pensa: “A lei dos corpos que caem, 32 pés por segundo por segundo”. Trinta e dois, eu pensei, deve ser o número da Queda; onze, então, deve ser a renovação da dezena: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 1º – então O 11, e você começa tudo outra vez. Havia muitas outras sugestões em Ulisses, que me levaram a pensar: “Bem, o que temos aqui talvez seja o número da Queda, 32, e da Redenção, 11; pecado e perdão, morte e renovação”. Finnegans Wake se relaciona com um evento ocorrido no Phoenix Park, um dos principais parques de Dublin. A fênix é o pássaro que se queima até a morte e depois renasce, renovado. O Phoenix Park então vem a ser o Jardim do Éden, onde ocorreu a Queda e onde a cruz foi plantada, sobre o crânio de Adão: O felix culpa (O Phoenix culprit! – diz Joyce). Desse modo, temos morte e redenção. Isso me pareceu uma explicação muito boa, e foi a que eu dei em Uma chave interpretativa.

Mas, certa noite, ao preparar uma aula sobre mitologia comparada, eu estava relendo a Epístola de São Paulo aos Romanos e surgiu uma frase curiosa, que me pareceu epitomizar tudo o que Joyce tivera em mente, em Finnegans Wake. São Paulo escreveu:

“Pois Deus condenou todos os homens à desobediência, para que pudesse mostrar sua misericórdia para com todos”. Você não conseguirá ser tão desobediente que a misericórdia de Deus não consiga alcançá-lo – portanto, dê lhe uma oportunidade.  “Peque intensamente”, diz Lutem, e veja quanto da misericórdia divina você é capaz de despertar. O grande pecador é o grande incentivador da compaixão de Deus. Essa é uma idéia essencial em relação à paradoxologia da moralidade e dos valores da vida.

Então eu disse a mim mesmo: “Pois bem, é exatamente disso que Joyce está falando”. E registrei em meu caderno de anotações sobre Joyce: “Romanos, capítulo 11, versículo 32”. Você pode imaginar minha surpresa? Ali estava, de novo, o mesmo número, 1.132, direto da Bíblia! Joyce tinha tomado o paradoxo da fé cristã como mono da grande obra prima da sua vida. E ali ele descreve cruelmente as profundezas das monstruosidades públicas e privadas da vida e da ação humanas, no curso inteiramente pecaminoso da história da humanidade. Está tudo ali – reconstituído com amor. 

MOYERS: Podem os ocidentais apreender a experiência mística que ultrapassa a teologia? Quando se está preso à imagem de Deus, numa cultura em que a ciência determina a percepção da realidade, como é possível vivenciar esse nível superior de que falam os xamãs?

CAMPBELL: Bem, as pessoas chegam a vivenciá-lo. Aqueles que o conseguiam, na Idade Média, eram quase sempre queimados como heréticos. Uma das grandes heresias do Ocidente é aquela pronunciada por Cristo: “Eu e o Pai somos um”. Ele foi crucificado por dizer isso. Na Idade Média, novecentos anos depois de Cristo, um grande místico da seita sufi disse: “Eu e meu Bem amado somos um”, e também foi crucificado. Quando caminhava para a cruz, orou: “Ó meu Senhor, se você tivesse ensinado a essas pessoas o que me ensinou, eles não fariam isso comigo. E se você não tivesse me ensinado, isso não aconteceria comigo. Abençoados sejam o Senhor e todas as suas obras”. Outro ensinamento sufista diz: “A função da comunidade ortodoxa é propiciar ao místico a satisfação do seu desejo, que é a união com Deus, através da mortificação e da morte”.

MOYERS: O que é que minimizou essa experiência, hoje? 

CAMPBELL: É característico da democracia que a regra majoritária seja entendida como eficaz, não só em política, mas em idéias. Em idéias, é claro, a maioria está sempre errada.

MOYERS: Sempre errada?

CAMPBELL: Em assuntos desse tipo, sim. A função da maioria, no que diz respeito às coisas do espírito, é tentar ouvir e abrir se para alguém que tenha tido uma experiência para além de nutrição, proteção, procriação e riqueza.

Você já leu Babbitt, de Sinclair Lewis?

MOYERS: Há muito tempo.

CAMPBELL: Você se lembra da última frase? “Nunca fiz aquilo que queria, em toda a minha vida.” Este é um homem que nunca perseguiu a sua bem aventurança. Bem, eu ouvi efetivamente essa frase, quando ensinava no Sarah Lawrence College. Antes de me casar, eu costumava sair fora para comer em restaurantes da cidade, no almoço e no jantar. Quinta feira à noite era a folga das empregadas, em Bronxville, de modo que muitas famílias saíam para comer em restaurantes. Uma bela noite, eu estava em meu restaurante favorito e na mesa ao lado havia um pai, uma mãe e um menino magrinho, de uns doze anos de idade. O pai disse ao menino: “Tome o seu suco de tomate”.  E o menino respondeu: “Não quero”.

E o pai insistiu, com voz mais alta: “Tome o seu suco de tomate”.

A mãe interveio: “Não O obrigue a fazer o que ele não quer”.  O pai olhou para a mulher e disse: “Ele não pode levar a vida fazendo O que quer. Se fizer só o que quer, morrerá. Veja o meu exemplo, eu nunca fiz nada do que quis, em toda a minha vida”.

E eu pensei: “Meu Deus, isso é Babbitt encarnado!”

Esse é o homem que nunca perseguiu a sua bem aventurança. Ainda que você seja bem sucedido na vida, pense um pouco: Que espécie de vida é essa? Que tipo de sucesso é esse que o obrigou a nunca fazer nada do que quis, em toda a sua vida? Eu sempre recomendo aos meus alunos: Vão aonde o seu corpo e a sua alma desejam ir. Quando você sentir que é por aí, mantenha se firme no caminho, e não deixe ninguém desviá-lo dele.

MOYERS: O que acontece quando você persegue a sua bem aventurança? 

CAMPBELL: Você atinge a bem aventurança. Na Idade Média, uma imagem predileta, que ocorre em muitos, muitos contextos, é a da roda da fortuna. Existe o eixo da roda e existe a borda da roda. Por exemplo, se você estiver preso à borda da roda da fortuna, você estará ou acima, no caminho descendente, ou abaixo, no caminho ascendente. Mas se estiver no eixo, você estará no mesmo lugar o tempo todo, no centro. Este é o sentido do voto de casamento – eu a aceito na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza: no caminho ascendente ou no descendente. Se eu a tomo como O meu centro, minha esposa é a minha bem aventurança, não a riqueza que possa trazer me, não o prestígio social, mas ela, em si. Isso é que é perseguir a bem aventurança. 

MOYERS: De que modo poderíamos estabelecer contato com esse manancial da vida eterna, essa bem aventurança que está exatamente aí?

CAMPBELL: Estamos vivendo, o tempo todo, experiências que podem, ocasionalmente, conduzir a isso, uma breve intuição de onde está nossa bem aventurança. Agarre a. Ninguém pode dizer lhe o que será. Você precisa aprender a reconhecer a sua própria profundidade.

MOYERS: Quando você reconheceu a sua?

CAMPBELL: Ah, quando era criança. Nunca deixei ninguém me desviar do curso.  Minha família sempre me ajudou, o tempo todo, a realizar apenas o que eu mais profundamente, verdadeiramente, queria fazer. Nunca senti que isso pudesse ser um problema.

MOYERS: Como podemos nós, que somos pais, ajudar nossos filhos a reconhecer a sua bem aventurança?

CAMPBELL: Você precisa conhecer seu filho e estar sempre muito atento a ele. Você pode ajudar. Quando ensinava no Sarah Lawrence, eu tinha uma entrevista individual com cada um dos meus alunos, pelo menos uma vez a cada quinze dias, de cerca de meia hora. Pois bem, ao conversar sobre as suas leituras obrigatórias, quando você toca em alguma coisa que realmente desperta a reação do aluno, você pode ver que os seus olhos se abrem e a postura física muda. Uma possibilidade de vida se abriu ali. Tudo o que você pode dizer a você mesmo é: “Espero que essa criança se apegue a isso”. Eles talvez consigam, talvez não, mas, quando conseguem, encontram a vida exatamente ali, na sala, ao seu lado.

MOYERS: E não é preciso ser poeta para chegar a isso.

CAMPBELL: Poetas são simplesmente aqueles que adotaram, como profissão e como estilo de vida, o estarem em contato com a própria bemaventurança. A maioria das pessoas se preocupa com outras coisas. Envolvem se em atividades econômicas e políticas ou se deixam engajar numa guerra que não é aquela em que estavam interessadas; nessas circunstâncias, é muito difícil manter se fiel ao propósito essencial.  Trata se de uma técnica que cada um precisa desenvolver por sua própria conta.  Mas muitas pessoas que vi vem naquele âmbito de interesses que podem ser chamados de triviais possuem a capacidade, que apenas aguarda ser despertada, de progredirem na direção de um âmbito mais elevado. Eu sei disso. Vi acontecer com muitos estudantes.

Quando ensinava numa escola preparatória, para meninos, eu gostava de conversar com os que cogitavam sobre a carreira que pretendiam seguir. Um garoto se aproximava e perguntava: “Você acha que eu posso fazer isto? Você acha que eu posso fazer aquilo?  Você acha que eu posso ser escritor?”

“Ah”, eu dizia, “não sei. Você é capaz de suportar dez anos de frustração, ninguém prestando atenção a você, ou você acha que vai escrever um best seller logo na primeira tentativa? Se você tem garra para perseverar no que realmente quer, não importa o que aconteça, então vá em frente.”

Então aparecia o papai e dizia: “Não, você deve estudar Direito, porque oferece muito mais perspectiva financeira, você sabe”. Bem, isso é a borda da roda, não o eixo; não é perseguir a bem aventurança. Você pretende se dedicar à fortuna ou à bem aventurança?  Voltei da Europa, como estudante, em 1929, exatamente três semanas antes da quebra da Bolsa de Nova Iorque, de modo que fiquei desempregado por cinco anos.  Simplesmente não havia emprego. Para mim, foi um período e splêndido.

MOYERS: Esplêndido? O auge da Depressão? O que havia de maravilhoso nisso? 

CAMPBELL: Eu não me sentia pobre, apenas sabia que não tinha dinheiro. As pessoas eram muito boas umas com as outras, naquele tempo. Por exemplo, descobri Frobenius, que de repente me entusiasmou, e eu quis ler tudo o que ele tinha escrito. Então simplesmente fiz a encomenda a uma livraria que tinha conhecido, em Nova Iorque, e eles me enviaram os livros, dizendo que não precisaria pagar, até conseguir um emprego – o que aconteceu quatro anos depois.

Havia um velhinho maravilhoso, em Woodstock, que tinha uma propriedade com uns quartinhos que ele alugava por vinte dólares ao ano, pouco mais, pouco menos, a qualquer jovem que, na opinião dele, tivesse algum futuro nas artes. Não havia água corrente, apenas aqui e ali um poço e uma bomba. Ele dizia que não mandava instalar água corrente porque não gostava do tipo de gente que isso atraía. Foi lá que eu realizei a maior parte das minhas leituras básicas. Foi esplêndido. Eu estava no encalço da minha bem aventurança.

Bem, eu cheguei a esta idéia de bem aventurança porque em sânscrito, a grande linguagem espiritual do mundo, há três termos que representam a margem, o trampolim para o oceano da transcendência: Sat, Chit, Ananda. A palavra Sat significa “ser”; Chit significa “consciência”; Ananda significa “bem aventurança” ou “enlevo”. Pensei: “Não sei se minha consciência é propriamente consciência ou não; não sei se o que entendo pelo meu ser é o meu próprio ser ou não; mas sei onde está o meu enlevo. Então, vou apegarme ao meu enlevo, e isso me trará tanto a minha consciência como o meu ser”.  Creio que funcionou.

MOYERS: Será que chegamos a saber a verdade? Será que chegamos a encontrá-la? 

CAMPBELL: Cada um possui a sua própria profundidade, a sua própria experiência, e alguma convicção quanto a estar em contato com sua própria sat chit ananda, seu próprio ser, através da consciência e da bem aventurança. Os religiosos dizem que não chegamos a experimentar verdadeiramente a bem aventurança antes de morrermos e irmos para o céu. Mas eu acredito em atingir o máximo possível dessa experiência enquanto estamos vivos.

MOYERS: A bem aventurança é agora.

CAMPBELL: No céu, você terá um enlevo tão maravilhoso contemplando Deus que nem terá condições de se dedicar à sua própria experiência. O céu não é o lugar para se ter essa experiência – o lugar para ela é aqui.

MOYERS: Você já teve a sensação, como eu tenho às vezes, ao perseguir a sua bem aventurança, de estar sendo ajudado por mãos invisíveis? 

CAMPBELL: O tempo todo. É milagroso. Tenho até mesmo uma superstição, que se desenvolveu em mim como resultado dessas mãos invisíveis agindo o tempo todo, a superstição, por exemplo, de que, pondo se no encalço da sua bem aventurança, você se coloca numa espécie de trilha que esteve aí o tempo todo, à sua espera, e a vida que você tem que viver é essa mesma que você está vivendo. Quando consegue ver isso, você começa a encontrar pessoas que estão no campo da sua bem aventurança, e elas abrem as portas para você. Eu costumo dizer: Persiga a sua bem-aventurança e não tenha medo, que as portas se abrirão, lá onde você não sabia que havia portas. 

MOYERS: Você já sentiu simpatia pelo homem que não dispõe desse tipo de apoio invisível?

CAMPBELL: Quem não tem esse tipo de apoio? Bem, esse é o tipo que evoca compaixão, o pobre coitado. Vê-lo tropeçando, desajeitado, quando todas as águas da vida estão exatamente ali, ao alcance da mão, realmente desperta piedade. 

MOYERS: As águas da vida eterna estão exatamente ali? Onde?

CAMPBELL: Onde quer que você esteja, se estiver no encalço da sua bemaventurança, você estará desfrutando aquele frescor, aquela vida intensa dentro de você, o tempo todo.