III

OS PRIMEIROS CONTADORES DE HISTORIAS

Os mensageiros animais, enviados pelo Poder Invisível, já não servem mais, como nos tempos primevos, para ensinar e guiar a humanidade. Ursos, leões, elefantes, cabritos e gazelas estão nas jaulas dos nossos zoológicos. O homem não é mais o recém chegado a um mundo de planícies e florestas inexploradas, e nossos vizinhos mais próximos não são as bestas selvagens, mas outros seres humanos, lutando por bens e espaço, num planeta que gira sem cessar ao redor da bola de fogo de uma estrela. Nem em corpo nem em alma habitamos o mundo daquelas raças caçadoras do milênio paleolítico, a cujas vidas e caminhos de vida, no entanto, devemos a própria forma dos nossos corpos e a estrutura das nossas mentes. Lembranças de suas mensagens animais devem estar adormecidas, de algum modo, em nós, pois ameaçam despertar e se agitam quando nos aventuramos em regiões inexploradas. Elas despertam com o terror do trovão. E voltam a despertar, com uma sensação de reconhecimento, quando entramos numa daquelas grandes cavernas pintadas.  Qualquer que tenha sido a escuridão interior em que os xamãs daquelas cavernas mergulharam, em seus transes, algo semelhante deve estar adormecido em nós, e nos visita à noite, no sono.

JOSEPH CAMPBELL

The Way of the Animal Powers

MOYERS: Você acha que Wordsworth estava certo ao escrever: “Nosso nascimento não é senão sono e esquecimento:/A alma que se alteia em nós, estrela da nossa vida,/Já teve seu pouso em outro lugar/E vem de muito longe”? Você acha que é assim? 

CAMPBELL: Acho. Não em completo esquecimento, quer dizer, os nervos em nosso corpo conservam as lembranças que moldaram a organização do nosso sistema nervoso a determinadas circunstâncias ambientais e às exigências do organismo.

MOYERS: O que nossas almas devem aos mitos antigos?

CAMPBELL: Os mitos antigos foram concebidos para harmonizar a mente e o corpo. A mente pode divagar por caminhos estranhos, querendo coisas que o corpo não quer. Os mitos e ritos eram meios de colocar a mente em acordo com o corpo, e o rumo da vida em acordo com o rumo apontado pela natureza.

MOYERS: Então essas velhas histórias vivem em nós?

CAMPBELL: Certamente. Os estágios do desenvolvimento humano são hoje os mesmos que eram nos tempos antigos. Quando criança, você é educado num mundo de disciplina, de obediência, e é dependente dos outros. Tudo isso tem de ser superado quando você atinge a maturidade, de modo que possa viver, não em dependência, mas com uma autoridade auto responsável. Se você não for capaz de cruzar essa barreira, poderá se tornar um neurótico. Depois de ter conquistado, produzido o seu mundo, vem a crise de ser dispensado, a crise do desengajamento.

MOYERS: E finalmente a morte?

CAMPBELL: E finalmente a morte. É o desengajamento definitivo. Assim, o mito precisa servir aos dois propósitos, induzir o jovem a participar da vida do seu mundo – esta é a função do folclore – e depois desengajá-lo. A idéia folclórica desencadeia a idéia elementar, que guia você na direção da sua própria vida interior. 

MOYERS: E esses mitos contam como os outros fizeram a travessia, e como eu posso fazê-la?

CAMPBELL: Isso mesmo, e também falam das belezas que você encontra no caminho.  Compreendo bem isso, agora que me aproximo dos meus últimos anos, você sabe – os mitos me ajudam a aceitá-lo.

MOYERS: Que tipo de mitos? Fale me de um que o tenha realmente ajudado.

CAMPBELL: A tradição hindu, por exemplo, de mudar efetivamente toda a maneira de se vestir, mudar até o próprio nome, quando se passa de um estágio a outro. Quando me aposentei do magistério, sabia que tinha de criar um novo modo de vida, e mudei a maneira de pensar em minha vi da, exatamente em termos daquela noção – movendo me da esfera da realização para a esfera do deleite, da apreciação e do repouso diante da maravilha que é isso tudo.

MOYERS: E depois vem a passagem final pelo portão escuro? 

CAMPBELL: Bem, isso não chega a ser problema. O problema, na meia idade, quando o corpo atingiu seu poder máximo e começa a declinar, é identificar se, não com o corpo, que decai, mas com a consciência de que ele é um veículo. Isto é algo que aprendi com os mitos. Que sou eu? Sou a lâmpada que contém a luz ou sou a luz de que a lâmpada é o veículo?

Um dos problemas psicológicos do envelhecimento é o medo da morte. As pessoas relutam diante da porta da morte. Mas este corpo é um veículo da consciência, e se você for capaz de se identificar com a consciência, também será capaz de encarar esse corpo como um velho carro. Lá se vai um pára-lama, lá se vai um pneu, uma coisa depois da outra – é previsível. Então, a coisa toda se desmancha e a consciência se reúne à consciência. Já não mais neste ambiente específico.

MOYERS: Então esses mitos têm algo a dizer sobre o envelhecimento. Pergunto isso porque muitos deles falam do esplendor da juventude.

CAMPBELL: Os mitos gregos falam disso. Quando pensamos em mitologia, normalmente pensamos ou na mitologia grega ou na mitologia bíblica. Há uma espécie de humanização do material mítico em ambas essas culturas. Elas dão uma ênfase especial ao humano e, principalmente nos mitos gregos, à humanidade e glória do esplendor da juventude.  Mas eles também sabem apreciar a idade. O velho sábio e o prudente são figuras respeitadas no mundo grego.

MOYERS: E nas outras culturas?

CAMPBELL: Elas não enfatizam a beleza da juventude até esse ponto. 

MOYERS: Você diz que a imagem da morte está no início da mitologi a. O que você quer dizer com isso?

CAMPBELL: A primeira evidência de qualquer coisa parecida com pensamento mítico está associada à sepultura.

MOYERS: E ela sugere que homens e mulheres viam a vida, e quando não mais a viam começavam a questionar a respe ito disso?

CAMPBELL: Deve ter sido algo assim. Tudo o que você tem a fazer é imaginar como seria a sua própria experiência. Os sepultamentos que recorrem a armas e sacrifícios para garantir a continuidade da vida... eles certamente sugerem que havia uma pessoa que estava viva e animada diante de você e agora jaz, ali, fria, começando a se decompor. Alguma coisa estava ali e já não está. Onde se encontra agora?

MOYERS: Na sua opinião, quando é que os seres humanos se deram conta da morte, pela primeira vez?

CAMPBELL: Eles descobriram a morte pela primeira vez quando concluíram que eram humanos porque morriam. Ora, os animais vivem a experiência de observar a morte dos companheiros, mas, até onde sabemos, não nutrem, a respeito, qualquer pensamento ulterior. E não existe evidência de que os seres humanos pensassem a respeito da morte, de maneira significativa, até o período de Neandertal, quando armas e sacrifícios de animais acompanhavam os sepultamentos.

MOYERS: O que esses sacrifícios representam?

CAMPBELL: Isso eu não saberia dizer.

MOYERS: Por que não arrisca um palpite?

CAMPBELL: Eu faço o possível para não dar palpites. Você sabe, nós temos um portentoso acervo de informações sobre esse assunto, mas existe um ponto a partir do qual já não há informação alguma. Antes do aparecimento da escrita, você não tem condições de saber o que as pessoas pensavam. Tudo o que você terá serão vestígios, apreciáveis, dessa ou daquela espécie. Você pode extrapolar a respeito do passado, mas isso é perigoso. No entanto, sabemos que os sepultamentos sempre implicam a idéia de uma vida que prossegue para além da vida visível, de um plano de ser subjacente ao plano visível, e que de algum modo sustenta esse visível a que temos de nos vincular. Eu diria que esse é o tema básico de toda mitologia: o de que existe um plano invisível sustentando o visível. 

MOYERS: O que não sabemos sustenta o que sabemos.

CAMPBELL: Sim. E essa idéia de uma sustentação invisível se relaciona também à sociedade. A sociedade aí estava, antes de você; continua aí, depois que você se vai, e você é um membro dela. Os mitos que o ligam ao seu grupo social, os mitos tribais, afirmam que você é um órgão de um organismo maior. E a própria sociedade, por sua vez, também é um órgão de um organismo ainda maior, que é a paisagem, o mundo no qual a tribo se move. O tema básico do ritual é a vinculação do indivíduo a uma estrutura morfológica maior que a do seu próprio corpo físico.

O homem vive de matar e há um senso de culpabilidade decorrente disso. Sepultamentos sugerem que o meu amigo morreu e sobrevive. Os animais que eu matei também devem sobreviver. Os caçadores primitivos normalmente tinham uma espécie de divindade animal – o nome técnico deveria ser o mestre animal, o animal que é o mestre animal. O mestre animal envia os rebanhos para serem mortos.

Como você vê, o mito básico da caçada traduz uma espécie de acordo entre o mundo animal e o mundo humano. O animal entrega sua vida voluntariamente, compreendendo que essa vida transcende sua entidade fís ica e retornará ao solo ou à matriz, por meio de algum ritual de restauração. E esse ritual de restauração se associa ao animal que, na caça, ocupa a posição mais elevada. Para os índios das planícies americanas, era o búfalo. Na costa noroeste, as grandes festas têm a ver com a chegada do salmão. No sul da África, o magnífico antílope é o animal principal.

MOYERS: E o animal principal é...

CAMPBELL: ...aquele que fornece o alimento.

MOYERS: Quer dizer que nas primeiras sociedades caçadoras desenvolveu se entre os seres humanos e os animais um compromisso segundo o qual uns deviam ser consumidos pelos outros?

CAMPBELL: Assim é a vida. O homem é um caçador, e o caçador é uma besta predatória.  Nos mitos, a besta predatória e o animal que é predado desempenham dois papéis significativos. Representam dois aspectos da vida – o agressivo, mortífero, conquistador, criativo; e, do outro lado, a matéria ou a matéria subjugada, você poderia dizer. 

MOYERS: A própria vida. O que acontece na relação entre o caçador e a caça? 

CAMPBELL: Pelo que sabemos da vida dos bosquímanos primitivos, e da ligação dos índios americanos com o búfalo, é uma relação de reverência, de respeito. Por exemplo, o bosquímano da África vive num mundo deserto.

É uma vida duríssima, e a caçada, em tal ambiente, é uma tarefa extremamente árdua. Há pouca madeira para arcos fortes, poderosos. O bosquímano dispõe de arcos minúsculos e o alcance da flecha é de pouco mais de trinta jardas. A flecha tem fraco poder de penetração.  Não faz nada além de romper a pele do animal. Mas o bosquímano aplica um veneno prodigiosamente eficaz na ponta da flecha, de modo que aqueles belos animais, os antílopes, morrem em agonia, ao longo de um dia e meio. Depois que o animal foi ferido e começa a morrer dolorosamente por causa do veneno, os caçadores devem respeitar certos tabus, fazer isso, não fazer aquilo, numa espécie de participação mística na morte do animal, cuja carne se tornou a vida deles, e cuja morte eles provocaram. Há uma identificação, uma identificação mitológica. Matar não é simplesmente abater, é urri ato ritual, como é comer, quando você rende graças antes da refeição. Um ato ritual é o reconhecimento da sua dependência à voluntária doação desse alimento, a você, pelo animal, que cedeu a própria vi da. A caçada é um ritual.

MOYERS: E um ritual expressa uma realidade espiritual.

CAMPBELL: Expressa o fato de que isso está de acordo com o rumo da natureza, e não apenas com meus impulsos pessoais.

Ouvi dizer que, quando contam histórias sobre seus animais, os bosquímanos realmente imitam as vozes dos diferentes animais, pronunciando as palavras como se os próprios animais as estivessem pronunciando. Eles possuem um conhecimento íntimo dessas criaturas, com as quais mantêm amigáveis relações de vizinhança.  E então matam alguns deles, para se alimentar. Conheço rancheiros que têm uma vaca de estimação, além dos animais do rancho, propriamente ditos. Eles não comerão a carne desse animal, porque seria uma espécie de canibalismo comer a carne de um amigo. Mas os aborígines comiam a carne dos seus amigos, o tempo todo. Alguma espécie de compensação psicológica precisa ser obtida, e os mitos ajudam quanto a isso. 

MOYERS: Como?

CAMPBELL: Esses mitos primitivos ajudam a psique a participar, sem culpa ou receio, no ato necessário da vida.

MOYERS: E essas grandes histórias se referem repetidamente a essa dinâmica, de um modo ou de outro – a caça, o caçador, o caçado, e o animal como amigo, como mensageiro de deus.

CAMPBELL: Correto. Normalmente, o animal predado se torna o mensageiro do divino.

MOYERS: E você termina como o caçador matando o mensageiro.

CAMPBELL: Matando deus.

MOYERS: Isso não traz culpa?

CAMPBELL: Não, culpa é aquilo que é banido pelo mito. Matar o animal não é um ato pessoal. Você está realizando uma tarefa da natureza.

MOYERS: A culpa é banida pelo mito?

CAMPBELL: Sim.

MOYERS: Mas em algum momento você deve sentir alguma relutância ao se aproximar do animal para o matar. Na verdade, você não quer matá-lo. 

CAMPBELL: O animal é o pai. Você sabe o que os freudianos dizem, que o primeiro inimigo é o pai, se você for homem. Quando você é criança, todo inimigo é potencialmente, psicologicamente associado à imagem do pai.

MOYERS: Você acha que o animal se tornou a imagem paterna de Deus? 

CAMPBELL: Sim. Não há dúvida de que a atitude religiosa em relação ao animal principal é de reverência e respeito, e também de submissão à inspiração desse animal. O animal é aquele que traz as dádivas – tabaco, o cachimbo místico, e assim por diante. 

MOYERS: Você não acha que isso perturbava o homem primitivo matar o animal que é um deus ou o mensageiro de um deus?

CAMPBELL: Em hipótese alguma – é para isso que existem os ritos.

MOYERS: Que espécie de ritos?

CAMPBELL: Rituais de pacificação e agradecimento ao animal. Por exemplo, quando o urso é abatido, existe uma cerimônia em que se oferece a ele um naco da sua própria carne.  Depois há uma breve cerimônia em que a pele do urso é estendida sobre uma espécie de engradado, como se ele estivesse presente – e ele está presente: serve sua própria carne para o jantar. Uma fogueira arde – e a fogueira é a deusa. Depois trava se uma conversação entre o deus da montanha, que é o urso, e a deusa do fogo.

MOYERS: Que dizem eles?

CAMPBELL: Quem sabe? Ninguém os ouve, mas há um esboço de socialização em meio a tudo isso.

MOYERS: Se os ursos da caverna não tivessem sido pacificados, os animais não apareceriam e os caçadores primitivos morreriam de fome. Eles começaram a se dar conta de uma espécie de poder, do qual eram dependentes, um poder maior que o deles próprios. 

CAMPBELL: Sim. Esse é o poder do mestre animal, que provém do fato de os animais participarem do jogo por sua vontade. Em toda parte, entre povos caçadores, existe uma relação muito íntima, compreensiva, com o principal animal fornecedor de alimento.  Quando nos sentamos para uma refeição, agradecemos a Deus pelo alimento. Essa gente agradecia aos animais.

MOYERS: Então, pacificar o animal por meio desse ritual de honraria seria como subornar o açougueiro no supermercado.

CAMPBELL: Não, não creio que fosse suborno, de maneira alguma. É agradecer a um amigo por cooperar numa relação comum. E se você não agradecer, ele ficará ofendido.  Existem rituais descritos como preparatórios à caçada de animais. Antes de sair para matar, o caçador desenha, no topo da colina, uma figura do animal que está disposto a matar. E essa colina deve estar numa posição tal que os primeiros raios do sol nascente a atinjam.  Quando o sol nasce, o caçador está lá, esperando, na companhia de algumas pessoas, para representar seus ritos. Quando a luz atinge a figura do animal, a flecha do caçador voa exatamente no caminho aberto pelo raio de luz e toca o desenho do animal, e a mulher, que está presente para ajudar o caçador, ergue as mãos e grita. Aí o caçador sai e mata o animal.  E a flecha estará exatamente onde estava no desenho. Na manhã seguinte, quando o sol se ergue, o caçador apaga o desenho. Isso é feito por ele em nome da ordem natural, não em nome das suas intenções pessoais.

Eis outra história, de um tipo totalmente diferente de sociedade, a do samurai, o guerreiro japonês, que tinha o dever de vingar a morte do seu suserano. Quando ele encontrou o homem que havia assassinado seu suserano, e estava à beira de enfrentá-lo com sua espada de samurai, o homem, na exasperação do terror, cuspiu na sua face. O guerreiro embainhou a espada e foi embora.

MOYERS: Por quê?

CAMPBELL: Porque ele estava com raiva, e, se tivesse matado o homem nesse estado, esse teria sido um ato pessoal. E ele tinha vindo para realizar outro tipo de ato, um ato impessoal de vingança.

MOYERS: Você acredita que esse tipo de impessoalidade tenha desempenhado algum papel na psique do caçador das grandes planícies americanas? 

CAMPBELL: Sem dúvida. Está claro que é um problema moral matar alguém e comer essa pessoa. Veja, esses indivíduos não pensavam nos animais do mesmo modo como nós pensamos, como subespécies. Os animais são pelo menos nossos iguais e, às vezes, nossos superiores.

O animal tem poderes que o ser humano não tem. O xamã, por exemplo, freqüentemente manterá um animal consigo, isto é, o espírito de alguma espécie animal, que lhe dará sustentação e o guiará.

MOYERS: Mas quando começam a ser capazes de imaginar e ver beleza, e a criar beleza, fora dessa relação, então os seres humanos se tornam superiores aos animais, não se tornam?

CAMPBELL: Bem, não creio que o xamã pense tanto em superioridade quanto em igualdade. Ele pede conselho aos animais, e o animal se torna um modelo para a vida.  Nesse caso, é superior. Às vezes o animal se torna o doador de um ritual, como nas lendas sobre a origem do búfalo. Por exemplo, você pode ver essa igualdade na lenda básica da tribo dos pés negros, que é a lenda da origem das suas danças rituais do búfalo, por meio das quais eles invocam a cooperação dos animais no jogo da vida.  MOYERS: Que lenda é essa?

CAMPBELL: Bem, essa história se origina das dificuldades de encontrar alimento para um grupo tribal de grande porte. Um modo de conseguir carne para o inverno é conduzir uma manada de búfalos até o alto de um rochedo, de modo que todos eles caiam e possam ser facilmente esquartejados no pé do rochedo. Isso é conhecido como “cachoeira de búfalo”.

Esta história, muito, muito antiga, é sobre uma tribo de pés negros que não conseguia levar os búfalos até o alto do rochedo. Os búfalos se aproximavam e, então, mudavam de direção.  Assim, parecia que a tribo não teria nada para comer, no inverno.  Um dia, uma jovem levantou se cedo, para buscar água para a família, e por ac aso olhou para o rochedo onde estavam os búfalos. Ela então disse: “Ah, se vocês chegarem lá em cima, eu me casarei com um de vocês”.

Para sua surpresa, todos se puseram em marcha. Bem, essa foi a surpresa número 1. A surpresa número 2 foi quando um dos búfalos, o xamã da manada, se aproximou e disse:

“Muito bem, menininha, agora vamos”.

“Oh, não”, ela diz.

“Oh, sim”, diz ele, “você fez uma promessa. Nós mantivemos nossa parte do trato. Olhe para todos os meus parentes aqui – mortos. Agora nós iremos”.  Bem, quando a família acorda, olha ao redor e... onde está Minnehaha? O pai se abaixa para examinar o chão – você sabe, os índios podem ver pelas marcas dos pés – e diz: “Ela se foi com um búfalo. E eu vou trazê-la de volta”.

Então ele veste seus mocassins, apanha arco e flecha, e tudo o mais, e parte na direção das planícies. Já tinha caminhado uma boa distância quando acha melhor sentar e descansar um pouco. Ele então se senta, e enquanto pensa no que deveria fazer, aparece lhe uma pega, um daqueles pássaros espertos que têm qualidades xamânicas. 

MOYERS: Qualidades mágicas.

CAMPBELL: Sim. E o índio diz à pega: “Ó belo pássaro, minha filha fugiu com um búfalo? Você a viu? Poderia procurar aí ao redor, para ver se a encontra em algum lugar nas planícies?”

E a pega diz: “Bem, há uma bela jovem com um búfalo, agora mesmo, logo ali, bem perto”.  “Bem”, diz o homem, “você poderia ir dizer a ela que seu papai está aqui, no lamaçal do búfalo?”

Então a pega sai voando e encontra a jovem lá entre os búfalos, que estão todos dormindo, enquanto ela costura, ou algo parecido. A pega se aproxima e diz: “Seu pai está ali no lamaçal, à sua espera”.

“Oh”, ela diz, “isso é terrível. Isso é muito perigoso. Esses búfalos vão matar nos. Diga lhe para esperar, e eu aparecerei. Tentarei dar um jeito nisso.” Então o búfalo seu esposo, que estava atrás dela, acorda, pega o próprio chifre e diz: “Vá até o lamaçal e me traga algo para beber”.

Ela apanha o chifre e vai, e ali está seu pai. Ele a toma pelo braço e diz:

“Venha!”

Mas ela diz: “Não, não, não! Isto é um tremendo perigo. Toda a manada viria logo atrás de nós. Eu vou dar um jeito nisso. Agora deixe me voltar”.

Assim ela apanha a água e volta. E o búfalo diz: “Fe, fi, fo, fum, eu sinto o cheiro do sangue de um índio” você sabe, esse tipo de coisas. E ela diz: “Não, nada disso”. E ele diz:

“Ah, sim, com certeza!” Então ele dá um berro de búfalo, e todos os búfalos se levantam, começam a executar uma lenta dança de búfalos com as caudas erguidas, e depois se põem em marcha e pisoteiam aquele pobre homem até a morte, até que ele desapareça inteiramente, transformado num monte de pedaços. E se vão. A jovem chora e seu esposo búfalo diz: “Você está chorando?”

“Sim”, ela diz, “ele é meu papai”.

“Bem”, ele diz, “e nós? As nossas crianças lá estão, ao pé do rochedo, nossas esposas, nossos pais... e você chora por causa do seu paizinho.” Bem, ele aparentemente era um tipo de búfalo que se compadecia, e disse: “Está bem, se você conseguir trazer seu papai de volta à vida eu os deixarei ir”.

Então ela se volta para a pega e diz: “Por favor, saia bicando por aí e veja se encontra um pedacinho do papai”. A pega assim o faz e retorna, por fim, com uma vértebra, apenas um ossinho. E a jovem diz: “Isto é o bastante”. Então ela coloca o osso no chão, cobre o com sua manta e canta uma canção revificadora, uma canção mágica, muito poderosa. E então...  isso mesmo, surge um homem de sob a manta. Ela espia. “É papai, e está bem!” Mas ele ainda não está respirando. Ela canta mais algumas estrofes da canção que estava cantando e ele se ergue.

Os búfalos ficam espantados, e dizem: “Bem, por que você não faz isso para nós?  Ensinaremos a vocês a nossa dança de búfalo, e quando vocês tiverem matado nossas famílias, vocês dançarão essa dança e cantarão essa canção, e todos voltaremos a viver de novo”.

E aí está a idéia básica – através do ritual, atinge se aquela dimensão que transcende a temporalidade, aquela dimensão da qual a vida provém e para a qual retorna. 

MOYERS: O que aconteceu há cerca de cem anos, quando o homem branco veio e dizimou esse animal que era objeto de reverência?

CAMPBELL: Foi uma violação sacrílega. Em muitas das pinturas que George Catlin fez, no início do século passado, das grandes planícies do oeste, você vê centenas, milhares de búfalos, por toda parte. Então, em cinqüenta anos, os desbravadores de fronteiras, equipados com rifles de repetição, dizimaram manadas inteiras, tomando só as peles, para vender, e abandonando os corpos ali, apodrecendo. Isso foi um sacrilégio. 

MOYERS: Isso transformou o búfalo, de “alguém”...

CAMPBELL: ...em “coisa”.

MOYERS: Os índios se dirigiam aos búfalos como “vós”, em sinal de reverência. 

CAMPBELL: Os índios se dirigiam a todo ser vivente como “vós” – as árvores, as pedras, tudo. Você também pode se dirigir a qualquer coisa como “vós”, e se o fizer sentirá a mudança na sua própria psicologia. O ego que vê um “vós” não é o mesmo que vê uma “coisa”. E quando se entra em guerra com outro povo, o objetivo da imprensa é transformar esse povo em “coisas”.

MOYERS: Isso acontece no casamento também, não é mesmo? E também com as crianças. 

CAMPBELL: Quando o “vós” se transforma em “coisa”, você já não sabe de que relação se trata. A relação do índio com os animais difere dá nossa relação com eles, na medida em que vemos os animais como forma inferior de vida. Na Bíblia, somos informados de que somos os senhores da terra. Para povos caçadores, como eu disse, o animal é superior, em mais de um sentido. Um índio pawnee disse: “No início de todas as coisas, sabedoria e conhecimento estavam com o animal. Porque Tirawa, Aquele que está acima, não se dirigiu diretamente ao homem. Ele mandou alguns animais contarem à humanidade que Ele se mostrava através da besta. E que o homem deveria aprender com os animais, com as estrelas, com o sol e a lua”.

MOYERS: Então é nesse período de homens caçadores que começamos a sentir um frêmito de imaginação mítica, a maravilha das coisas.

CAMPBELL: Sim. Há uma explosão de arte magnífica e todas as evidências necessárias a uma imaginação mítica, em sentido pleno.

MOYERS: Ao olhar para esses objetos de arte primitiva, você chega a pensar, não na arte, mas no homem ou na mulher ali parados, pintando ou criando? Acho que estou especulando, mas quem era ele ou ela?

CAMPBELL: Isso é exatamente o que nos toca, quando entramos numa dessas cavernas primitivas. O que estava na mente deles quando criaram essas imagens? Como eles se ergueram, ali? E como podiam enxergar qualquer coisa? A única luz que tinham era uma pequena tocha bruxuleante.

E quanto ao aspecto da beleza, seria ela intencional? Ou é alguma coisa como a expressão natural de um belo espírito? A beleza do canto do pássaro é intencional? Em que sentido é intencional? Ou é a expressão do pássaro, a beleza do espírito do pássaro, pode se dizer?  Essas questões me ocorrem com freqüência, a propósito da arte primitiva. Em que medida a intenção do artista é o que chamaríamos de “estética” ou expressiva? E em que medida a arte é algo que eles simplesmente aprenderam a fazer daquela maneira?  Quando uma aranha tece uma bela teia, a beleza provém da natureza da aranha. É beleza instintiva. Quanto da beleza das nossas próprias vidas diz respeito à beleza de estar vivo?  Quanto disso é consciente e intencional? Esta é a grande questão. 

MOYERS: Diga me o que lhe veio à mente na primeira vez em que viu essas pinturas nas cavernas.

CAMPBELL: Não queria ir embora. Você chega a uma câmara gigantesca, como uma imensa catedral, com todos esses animais pintados. A escuridão é difícil de conceber.  Estamos ali com luz elétrica, mas logo em seguida o homem que nos guiava apaga as luzes e você se dá conta de que nunca tinha estado em escuridão maior, em toda a sua vida. Era, não sei, qualquer coisa como um nocaute. Você não sabe onde está, se está olhando para o norte, o sul, o leste, o oeste. Toda orientação se perde, e você está em meio a uma escuridão que nunca viu o sol. Então eles voltam a acender as luzes e você vê aquelas gloriosas pinturas de animais. E eles estão pintados com a vitalidade da tinta sobre seda, na pintura japonesa, sabe, qualquer coisa assim. Um touro que tem mais de seis metros de comprimento, pintado de modo que suas ancas sejam representadas por uma protuberância no rochedo. Eles estavam atentos ao conjunto.

MOYERS: Você as chama de c avernas templos.

CAMPBELL: É verdade.

MOYERS: Por quê?

CAMPBELL: Um templo é uma paisagem da alma. Ao entrar numa catedral, você penetra num mundo de imagens espirituais. É o ventre materno.

MOYERS: Ou vai ao cinema.

CAMPBELL: Isso poderia ser a nossa contraparte das encenações mitológicas – exceto pelo fato de que não temos, na produção de um filme, o mesmo tipo de pensamento instilado na produção de um ritual de iniciação.

MOYERS: Não, mas dada a ausência de rituais de iniciação, que há muito desapareceram de nossa sociedade, o mundo imaginário, projetado nas telas, serve, ainda que de modo errôneo, para contar aquela história, não é mesmo?

CAMPBELL: Sim, mas o que é penoso, para nós, é que muitas das pessoas incumbidas de escrever as histórias não têm noção da sua responsabilidade. Essas histórias fazem e desfazem vidas. Mas os filmes são produzidos simplesmente para fazer dinheiro. Não se encontra aí aquela espécie de responsabilidade que impregna o sacerdócio, num ritual. Este é um dos nossos problemas, hoje em dia.

MOYERS: Hoje não temos nenhum daqueles ritos, temos? 

CAMPBELL: Receio que não. Por isso os jovens os inventam, por sua conta, e temos aquelas gangues que apostam corridas, e assim por diante essa é uma iniciação auto imposta.

MOYERS: Então o mito se relaciona diretamente à cerimônia e ao ritual tribal, e a ausência do mito pode significar o fim do ritual.

CAMPBELL: O ritual é o cumprimento de um mito. Ao participar de um ritual você participa de um mito.

MOYERS: O que a ausência de mitos representa para os meninos de hoje? 

CAMPBELL: Bem, o ritual de confirmação é a contraparte, hoje, desses ritos. Como menino católico, você escolhe confirmar o seu nome, um nome pelo qual você vai ser confirmado. Mas em vez de escarificá-lo ou arrancar-lhe os dentes, e tudo o mais, o bispo lhe dá um sorriso e um tapinha no queixo. A coisa foi reduzida a isso. Nada aconteceu a você. A contraparte judaica é o bar -mitzvah. Se isso de fato funciona, no sentido de operar uma transformação psicológica, depende de cada caso individual, suponho. Mas naqueles tempos não havia dúvida. O menino retornava com um corpo diferente, e tinha realmente passado por alguma coisa.

MOYERS: E quanto à fêmea? Quase todas as figuras nas cavernas templos são machos.

Essa era uma espécie de sociedade secreta de machos?

CAMPBELL: Não era uma sociedade secreta, é que os meninos precisavam passar por isso.  É claro que não sabemos exatamente o que acontecia às fêmeas nesse período, devido à escassez de informações a respeito, mas hoje, nas culturas primárias, a menina se torna mulher com a primeira menstruação. É algo que acontece a ela, a natureza faz isso a ela. E assim ela supera a transformação – mas qual é a sua iniciação? Normalmente é sentar se no recesso de uma cabana, po r alguns dias, e tomar consciência de quem é ela. 

MOYERS: Como ela chega a isso?

CAMPBELL: Ela se senta lá. Agora é uma mulher. E o que é uma mulher? Uma mulher é um condutor de vida. A vida surpreendeu a. A mulher é tudo o que importa à vida: conceder o nascimento e a nutrição. Seus poderes a tornam idêntica à deusa terra, e tem de tomar consciência disso. O menino não vive nenhum acontecimento desse tipo, por isso precisa ser transformado em homem e voluntariamente tornar se um servidor de algo maior do que ele.

MOYERS: Aí é que começa a operar, até onde sabemos, a imaginação mítica?

CAMPBELL: Sim.

MOYERS: Quais eram os temas fundamentais daquela era? A morte? 

CAMPBELL: O mistério da morte é um deles, e alterna com o tema do mistério da vida. É o mesmo mistério em seus dois aspectos. O tema seguinte é o da relação entre este e o tema do mundo animal, que morre e revive.

Aí entra o motivo da busca de alimento. É onde se situa a relação da mulher com a natureza do mundo exterior. Então é preciso conside rar o problema da transformação da criança em adulto. Essa transformação é uma preocupação básica na vida ritual dos povos. Ainda hoje a enfrentamos. É o problema de transformar crianças desobedientes, que apenas expressam impulsos ingênuos da natureza, em membros da sociedade. Isso demanda um trabalho exaustivo. Aqueles povos não podiam aceitar ninguém que não seguisse as regras. A sociedade não podia sustentá-lo. Eles o matavam.

MOYERS: Porque era uma ameaça à saúde do todo?

CAMPBELL: Sim, com certeza. Era como um câncer, algo que estaria separando os corpos em pedaços. Esses povos viviam o tempo todo na tangente.

MOYERS: Apesar disso, começaram a se colocar questões fundamentais. 

CAMPBELL: Sim. Mas sua atitude em relação a morrer não se assemelhava à nossa. A noção de um mundo transcendente era realmente levada a sério. 

MOYERS: Uma parte importante do antigo ritual é que ele fazia de você um membro da tribo, um membro da comunidade, um membro da sociedade. A história da cultura ocidental tem mostrado uma separação constante, profunda, entre o sujeito e a sociedade.  Primeiro o “eu”, primeiro o indivíduo.

CAMPBELL: Eu não diria que essa é uma característica permanente da cultura ocidental, pois não se trata apenas da separação de uma entidade biológica desajustada. Sempre tem havido uma implicação espiritual, até muito recentemente. Pois bem, quando você vê velhas fotos da posse do presidente dos Estados Unidos, você o vê usando um chapéu alto.  O presidente Wilson, ainda no seu tempo, usava um chapéu alto, coisa que não fazia na vida cotidiana. Mas, enquanto presidente, sua aparição obedece a um ritual. Agora é um João recém chegado que cruza um campo de golfe, você sabe, senta se ao seu lado e conversa sobre bombas atômicas. E outro estilo. Houve uma redução do ritual. Até na Igreja Católica Romana, meu Deus, traduziram a missa, de uma linguagem ritual, numa linguagem repleta de associações com a vida cotidiana. O latim da missa era uma linguagem que o lançava para fora da esfera do cotidiano. O altar estava virado, para que as costas do sacerdote se voltassem para você; assim, junto com ele, você se dirigia para fora.  Agora eles deram uma volta no altar parece um punhado de escolares fazendo uma demonstração – tudo caseiro e pequenino.

MOYERS: E tocam guitarra.

CAMPBELL: Tocam guitarra. Esqueceram se de que a função do ritual é lançá-lo para fora, não levá-lo de volta ao lugar onde você tem estado o tempo todo. 

MOYERS: E o ritual do casamento lança o para fora, para outro ritual de casamento. 

CAMPBELL: É exatamente isso. Os rituais, que antes diziam respeito a uma realidade interior, hoje não passam de formalidade. Isso vale para os rituais coletivos e para os privados, como o casamento.

MOYERS: Agora é possível entender por que vários aspectos da educação religiosa se tornaram obsoletos, para muita gente.

CAMPBELL: Quanto ao ritual, é preciso que ele se mantenha vivo. Muito do nosso ritual está morto. É extremamente interessante ler a respeito das culturas primitivas, elementares – como elas transformam os contos populares, os mitos, o tempo todo, em função das circunstâncias. Um povo se move de uma área em que, digamos, a vegetação era o suporte básico, para as planícies. Muitos dos nossos índios das planícies, do período em que andavam a cavalo, tinham pertencido originariamente à cultura do Mississipi. Eles viviam ao longo do Mississipi, tinham moradia fixa nas cidades e desenvolviam uma agricultura estável.

Então receberam os cavalos dos conquistadores espanhóis, o que tornou possível aventurarse pelas planícies e praticar a grande caçada das manadas de búfalos. Por essa época, sua mitologia transformou se, de mitologia ligada à vegetação, em mitologia ligada ao búfalo. É possível detectar a estrutura das antigas mitologias, ligadas à vegetação, por detrás da mitologia mais recente dos índios dakota, pawnee, kiowa e assim por diante. 

MOYERS: Você está sugerindo que o meio ambiente modela a história? 

CAMPBELL: As pessoas reagem ao meio ambiente, você sabe. Mas, no que nos diz respeito, nós temos uma tradição que não reage ao meio ambiente – uma tradição que se formou em algum outro lugar, no primeiro milênio antes de Cristo. Não chegou a assimilar as características da nossa cultura moderna, os novos caminhos possíveis e a nova visão do universo.

O mito deve ser mantido vivo. As pessoas capazes de o fazer são os artistas, de um tipo ou de outro. A função do artista é a mitologização do meio ambiente e do mundo. 

MOYERS: Você quer dizer que os artistas são os fazedores de mitos dos nossos dias? 

CAMPBELL: Os fazedores de mitos dos tempos primitivos eram a contraparte dos nossos artistas.

MOYERS: Eles pintam os muros, encenam rituais.

CAMPBELL: Sim. Existe um velho dito romântico, em alemão, “Das Volk dichtet” [O povo cria poesia], segundo o qual as idéias e a poesia nas culturas tradicionais vêm do povo. Isso não é verdade. Elas provêm de uma experiência de elite, a experiência de pessoas particularmente bem dotadas, de ouvidos sensíveis à música do universo. Essas pessoas falam ao povo, que se manifesta em resposta, a partir daí tomada como interação.  Mas o primeiro impulso na modelação de uma tradição folclórica vem de cima e não de baixo.

MOYERS: Nessas primeiras culturas elementares, como você as chama, quais teriam sido os equivalentes dos poetas de hoje?

CAMPBELL: Os xamãs. O xamã é uma pessoa, homem ou mulher, que, no final da infância ou no início da juventude, passa por uma experiência psicológica transfiguradora, que a leva a se voltar inteiramente para dentro de si mesma. É uma espécie de ruptura esquizofrênica. O inconsciente inteiro se abre, e o xamã mergulha nele. Encontram se descrições dessa experiência xamânica ao longo de todo o caminho que vai da Sibéria às Américas, até a Terra do Fogo.

MOYERS: E o êxtase faz parte dela?

CAMPBELL: Faz.

MOYERS: A dança do transe, por exemplo, entre os bosquímanos. 

CAMPBELL: Ah, esse é um exemplo fantástico. Os bosquímanos vivem num mundo deserto. É uma vida duríssima, uma vida de grandes tensões. Os sexos masculino e feminino são separados de mane ira muito disciplinada. Só se aproximam na dança – como vou descrever. As mulheres se sentam, formando um círculo ou um pequeno grupo, e golpeiam as próprias coxas, marcando o compasso para a dança dos homens, ao redor delas. Elas controlam a dança e os movimentos dos homens através do canto e das batidas nas coxas.

MOYERS: O que significa que as mulheres controlam a dança? 

CAMPBELL: Bem, a mulher é a vida, e o homem é o servidor da vida. Esta é a idéia básica nesse tipo de coisas. No curso do movimento circular, que dura a noite toda, um dos homens subitamente se descontrolará. Ele experimenta o que chamaríamos de possessão, mas que é descrita como um clarão, uma espécie de relâmpago ou flecha luminosa, que sai da área pélvica e atravessa toda a espinha até a cabeça.

MOYERS: A experiência está descrita no seu livro O caminho dos poderes animais. Aqui está. Pode ler, por favor?

CAMPBELL: “Quando as pessoas cantam, eu danço. Eu entro na terra. Vou até um lugar como aquele onde as pessoas bebem água. Faço uma longa viagem, para muito longe.” Ele está em transe agora, e esta é uma descrição da experiência. “Quando emerjo, já estou escalando. Estou escalando os fios, os fios que repousam ali adiante, no sul. Escalo um e o abandono, depois escalo outro. Então o abandono e escalo mais outro ... E quando chega ao lugar de Deus, você se torna pequeno. Você se tornou pequeno. Você chega pequenino ao lugar de Deus. Lá você faz o que tem de fazer. Então você retorna até onde todos estão e esconde o rosto. Você esconde o rosto para não ver ninguém. Você vem vindo vem vindo e finalmente entra outra vez no seu corpo. Todas as pessoas que permaneceram ali estão esperando por você – elas têm medo de você. Você penetra, penetra na terra, e torna a entrar na pele do seu corpo . (...) Então você diz ‘hiii!’ e este é o som do seu retorno ao seu próprio corpo. Aí você começa a cantar. Os mestres ntum estão ali, ao redor.” Ntum é o poder sobrenatural. “Eles pegam pó e o espalham – pouco! pouco! – no seu rosto. Eles seguram sua cabe ça e espalham o pó dos lados do seu rosto. É assim que você consegue ficar vivo outra vez. Amigos, se eles não fizerem isso, você morrerá. (...) Você simplesmente morre e fica morto. Amigos, é isto o que ele faz, este ntum que eu faço, este ntum aqui que e u danço.”

Meu Deus! Esse sujeito experimentou uma forma totalmente distinta de consciência!

Nessas experiências, eles voam pelo ar, como esse voou.

MOYERS: Ele então se torna um xamã?

CAMPBELL: Não nessa cultura. Ele se torna um dançarino do transe. Todo s os homens podem entrar em transe.

MOYERS: Existe algo similar a isso na nossa cultura? Penso particularmente na experiência dos renascidos, na nossa cultura sulina.

CAMPBELL: Deve existir. Essa é uma verdadeira experiência de transe, através da terra, na direção do reino das imagens mitológicas, na direção de Deus ou da sede do poder. Não sei exatamente como é a experiência cristã dos renascidos. Imagino visionários medievais, que tiveram visões de Deus e trouxeram histórias sobre o que poderia ter sido uma experiência similar.

MOYERS: Há um sentido de êxtase nessa experiência, não é mesmo?

CAMPBELL: Tal como é narrada, é um êxtase contínuo.

MOYERS: Você já presenciou um desses ritos? Um desses acontecimentos? Você já conheceu esse tipo de êxtase, ou já o testemunhou?

CAMPBELL: Não, nunca. Tenho amigos que estiveram no Haiti um bom tempo e, de fato, participaram de cerimônias vudu, em que pessoas ficam possuídas. E existem danças em que o êxtase é simulado. Há uma idéia antiga a respeito de ficar frenético, na guerra, de excitar os guerreiros antes da batalha. Eles deviam de fato entrar em estado de loucura durante a batalha – o frenesi da batalha.

MOYERS: Será que essa é a única maneira de se ter uma experiência do inconsciente? 

CAMPBELL: Não, a outra maneira ocorre na forma de ruptura, para as pessoas que não pensavam dessa maneira – e então a coisa acontece a elas, assim, subitamente. 

MOYERS: E aquele que viveu essa experiência psicológica, essa experiência traumática, esse êxtase, viria a se tornar, para os demais, o intérprete das coisas invisíveis. 

CAMPBELL: Viria a se tornar o intérprete da herança da vida mitológica, você poderia dizer.

MOYERS: E o que o conduz a isso?

CAMPBELL: O melhor exemplo que conheço, e que pode ajudar a responder a essa pergunta, é a experiência de Black Elk.

Black Elk era um jovem sioux de cerca de nove anos de idade. Pois bem, isso aconteceu antes que a cavalaria americana encontrasse os sioux, que eram o grande povo das planícies. O menino ficou doente, psicologicamente doente. Sua família conta, a respeito, uma típica história xamânica. A criança começa a tremer e é imobilizada. A família, muito preocupada, manda vir um xamã (que tinha tido uma experiência semelhante, na juventude) para, como uma espécie de psicanalista, livrar o menino do que o afligia. Mas em vez de livrá-lo das divindades, o xamã trata de adaptá-lo a elas, e vice versa. É uma perspectiva diferente daquela da psicanálise. Creio que foi Nietzsche quem disse: “Tome cuidado, para que, ao se desfazer dos demônios, você não se desfaça do que há de melhor em você”.  Aqui, as divindades que foram encontradas – os poderes, chamemos assim – foram mantidos. A conexão é confirmada e não rompida. E esses homens se tornam conselheiros espirituais e propiciadores de recompensas a seu povo.

Bem, o que aconteceu a esse garoto é que ele teve uma visão profética do terrível futuro da sua tribo. Foi uma visão do que ele chamou “o arco” da nação. Na visão, Black Elk viu o arco da sua nação como um dos muitos arcos – e isso é algo que nós próprios ainda não chegamos a compreender corretamente. Ele viu a cooperação entre todos os arcos, todas as nações, numa grande procissão. Mas, mais do que isso, a visão foi a experiência dele mesmo atravessando reinos das imagens espirituais, formadoras da sua cultura, e assimilando o seu significado. Isso resultou numa afirmação, que é para mim uma afirmação chave para a compreensão do mito e dos símbolos. Ele disse: “Eu vi a mim mesmo na montanha do centro do mundo, o lugar mais alto, e tive uma visão, porque estava vendo do modo sagrado de ver o mundo”. A montanha sagrada do centro do mundo à qual ele se referia era o Harney Peak, na Dakota do Sul. E então ele diz: “Mas a montanha do centro do mundo está em toda parte”.

Isto é, de fato, uma tomada de consciência mitológica. Isso distingue entre a imagem do culto local, o Harney Peak, e sua conotação como centro do mundo. O centro do mundo é o axis mundi [eixo do mundo], o ponto central, o pólo ao redor do qual as coisas giram. O ponto central do mundo é o ponto em que o repouso e o movimento se encontram.  Movimento é tempo, mas repouso é eternidade. Ter consciência deste momento da sua vida como um momento de eternidade, vivenciar o aspecto eterno do que você está realizando no plano temporal – essa é a experiência mitológica.

Assim, a montanha do centro do mundo está em Jerusalém? Em Roma? Em Benares? Lhasa? Na Cidade do México?

MOYERS: Esse menino sioux estava dizendo que existe um ponto luminoso que é a intersecção de todas as linhas .

CAMPBELL: Foi exatamente isso que ele disse.

MOYERS: E estava dizendo que Deus não tem circunferência? 

CAMPBELL: Há uma definição de Deus que tem sido repetida por muitos filósofos. Deus é uma esfera inteligível – uma esfera acessível à mente, não aos sentidos – cujo centro está em toda parte e a circunferência, em parte nenhuma. E o centro, Bill, se localiza exatamente aí onde você está sentado. E também aqui, onde eu estou sentado.  E cada um de nós é uma manifestação desse mistério. É uma bela compreensão mitológica, do tipo que lhe dá um senso de quem e do que você é.

MOYERS: Então é uma metáfora, uma imagem da realidade.

CAMPBELL: Sim. O que temos aqui poderia ser entendido como puro individualismo, não é verdade?, caso você não se aperceba de que o centro também está exatamente aí, diante de você, na outra pessoa. Essa é a maneira mitológica de ser um indivíduo. Você é a montanha do centro, e a montanha do centro está em toda parte.