VIII
MÁSCARAS DA ETERNIDADE
As imagens do mito são reflexos das potencialidades espirituais de cada um de nós. Ao contemplá-las, evocamos os seus poderes em nossas próprias vidas.
MOYERS: Tendo entrado em contato com diversas visões de mundo, tendo mergulhado em tantas culturas, civilizações e religiões, você encontrou algo, comum a todas elas, que gere a necessidade de Deus?
CAMPBELL: Todo indivíduo que teve uma experiência com o mistério sabe que há uma dimensão do universo que não corresponde àquela avaliável pelos sentidos. Há uma afirmação pertinente em um dos Upanixades: “Quando, diante da beleza do pôr do sol ou de uma montanha, você pára e exclama ‘Ah’, você está participando da divindade”. Tal momento de participação envolve uma percepção da prodigiosa e pura beleza da existência. As pessoas que vivem no mundo da natureza experimentam isso todos os dias. Elas experimentam o reconhecimento de algo muito maior do que a dimensão humana. A tendência do homem, contudo, é personificar essas experiências para antropomorfizar forças naturais.
Em nosso modo ocidental de pensar, Deus é visto como fonte última ou causa das energias e do mistério do universo. Mas na maior parte do pensamento oriental, e também no primitivo, os deuses são manifestações e provimento de uma energia que é, na verdade, impessoal. Eles não são a fonte dessa energia. São o veículo dela. E a força ou qualidade da energia por eles representada determina o caráter e a função do deus. Há deuses da violência, há deuses da compaixão, há deuses que unem os mundos do invisível e do visível e há deuses que simplesmente são os protetores de reis ou nações em suas campanhas de guerra. São personificações da energia posta em jogo. Mas a fonte última da energia permanece um mistério.
MOYERS: Isso não conduziria a uma espécie de anarquia, a uma guerra contínua entre principais?
CAMPBELL: Sim, como acontece na própria vida. Mesmo em nossas mentes, quando se precisa tomar uma decisão, há uma guerra. Agindo em relação a outras pessoas, por exemplo, pode haver quatro ou cinco possibilidades. A influência da divindade dominante em minha mente determinará minha decisão. Se minha divindade norteadora for brutal, minha decisão será também brutal.
MOYERS: O que isso tem a ver com a fé? Você é um homem que tem fé, desejo de saber, e...
CAMPBELL: Não, não preciso ter fé, eu tenho experiência.
MOYERS: Que espécie de experiência?
CAMPBELL: Tenho experiência do desejo de viver. Tenho experiência do amor, do ódio, da malícia e da vontade de esmurrar a mim mesmo no queixo. Do ponto de vista da imaginação simbólica, trata se de diferentes forças operando em minha mente. Pode se pensar nelas – desejo, amor, ódio – como inspiradas por diferentes divindades. Quando eu era garoto, tendo sido educado como todo católico romano, disseram me que eu tinha um anjo da guarda, do meu lado direito, e um diabo tentador, do esquerdo, e que as decisões que tomasse na vida dependeriam da influência maior que ou o diabo ou o anjo exercesse sobre mim. Naquela época, esses pensamentos, para mim, eram fatos concretos, e penso que para meus professores também. Pensávamos que realmente havia um anjo ali, que ele era um fato e que o diabo também era um fato. Mas em vez de encará-los como fatos, posso agora pensar neles como metáforas dos impulsos que me movem e me guiam.
MOYERS: De onde vêm essas energias?
CAMPBELL: Da própria vida, das energias do próprio corpo. Os diferentes órgãos do corpo, incluindo a cabeça, estão em conflito uns com os o utros.
MOYERS: E de onde vem a sua vida?
CAMPBELL: Da energia última, que é a vida do universo. E então você se pergunta:
“Bem, haverá alguém a gerar essa energia?” Por que é preciso perguntar isso? Por que o mistério final não pode ser impessoal?
MOYERS: Homens e mulheres podem viver com a impessoalidade?
CAMPBELL: Sim, é assim que se vive, em toda parte. Vá ao leste de Suez. Você sabe que há essa tendência no Ocidente para antropomorfizar, para sublinhar a humanidade dos deuses, as personificações. Jeová, por exemplo, tanto pode ser um deus de vingança, justiça e punição, como um deus benéfico, o suporte de nossa vida, como lemos nos Salmos. Mas, no Oriente, os deuses são muito mais elementares, muito menos humanos e mais semelhantes aos poderes da natureza.
MOYERS: Quando alguém diz: “Imagine Deus”, a criança de nossa cultura dirá: “Um velho de barba, com uma longa veste branca”.
CAMPBELL: Em nossa cultura, sim. É nosso costume pensar em Deus como uma forma masculina, mas muitas tradições pensam no poder divino principalmente como forma feminina.
MOYERS: O fato é que você não consegue imaginar aquilo que não pode personificar. Você acha que é possível centrar a mente naquilo que Platão denominou “idéias imortais e divinas”?
CAMPBELL: Naturalmente. Eis o que é a meditação, que significa pensar concentradamente em certo tema, o que pode se dar em qualquer nível. Não faço, em meu pensamento, uma grande separação entre o físico e o espiritual. Por exemplo, meditar sobre dinheiro é um pensamento muito bom. Sustentar a família é um pensamento importante. Mas há uma meditação solitária, por exemplo, quando você entra numa catedral.
MOYERS: Então a reza é de fato uma meditação.
CAMPBELL: A reza quer dizer ligar se ao mistério e meditar a respeito.
MOYERS: Como se chamássemos por um poder vindo do interior.
CAMPBELL: Há uma forma de meditação, ensinada pelo catolicismo romano, em que você reza o terço, a mesma oração, vezes e vezes seguidas. Isso leva a mente para dentro de si própria. Em sânscrito, tal prática é denominada japa, “repetição do santo nome”. Ela afasta outros interesses e lhe permite concentrar se em uma só coisa e, a partir daí, dependendo da sua capacidade, você pode experimentar a profundidade desse mistério.
MOYERS: De que modo alguém realiza uma experiência profunda?
CAMPBELL: Desenvolvendo um sentido profundo do mistério.
MOYERS: Mas se Deus é o deus que somente imaginamos, como podemos ficar amedrontados diante de nossa própria criação?
CAMPBELL: Como podemos ficar aterrorizados com um sonho? Você tem que ultrapassar a sua imagem de Deus para atingir a iluminação conotada. O psiquiatra Jung tem uma frase relevante: “A religião é uma defesa contra a experiência de Deus”. O mistério tem sido reduzido a uma série de conceitos e idéias e enfatizá-los pode provocar um curto circuito no transcendente, na experiência conotada. O que se deve almejar como experiência religiosa final é uma intensa experiência do mistério.
MOYERS: Há muitos cristãos que acreditam que, para descobrir o que é Jesus, é preciso ultrapassar a fé cristã, a doutrina cristã, a Igreja cristã...
CAMPBELL: Você deve ultrapassar a imagem idealizada de Jesus. Tal imagem de Deus torna se um bloqueio, uma barreira para a pessoa. Você se agarra à sua própria ideologia, à sua maneira estreita de pensar e, quando se aproxima uma experiência maior de Deus, uma experiência bem maior do que a que você está preparado para receber, você foge dela e se apega à imagem que tem em sua mente. Isso é conhecido como a preservação da sua fé. Você conhece a idéia da ascensão do espírito através de diferentes centros ou estágios arquetípicos de experiência. Começa se com experiências animais elementares de fome e voracidade, depois furor sexual, e assim vai, passando se de um domínio físico a outro. Todos são estágios fortalecedores da experiência. Mas, depois, quando o centro do coração é tocado e um sentimento de compaixão se ergue em direção a uma outra pessoa, e você percebe que vocês dois são criaturas que participam de uma mesma vida, abre se no espírito todo um novo estágio de vida. Essa abertura do coração para o mundo é mitologicamente simbolizada como nascimento virginal, que significa o nascimento de uma vida espiritual onde havia inicialmente uma forma humana animal elementar, vivendo para atender apenas a necessidades físicas de saúde, procriação, poder e alguma diversão.
Mas aqui chegamos a algo mais significativo. Experimentar esse sentimento de compaixão, acordo ou mesmo identidade com alguém ou algum princípio que transcenda o ego e seja aceito como digno de ser reverenciado e servido, é o começo, em definitivo, do apropriado modo de vida e experiência religiosos; e isso pode, então, conduzir à busca de uma experiência completa daquele Ser dos seres, do qual todas as formas temporais são o reflexo – busca essa que leva a vida toda.
Ora, esse fundamento último de todos os seres pode ser experimentado em dois sentidos, um em que há forma e outro que não contém forma ou a excede. Quando você experimenta seu deus como forma, há a sua mente, que contempla, e há o deus. Há um sujeito e um objeto. Mas o objetivo místico final é unir se a deus. Com isso, a dualidade é superada e as formas desaparecem. Não há ninguém, nem deus, nem você. Sua mente, ultrapassando todos os conceitos, dissolveu se na identificação com o fundamento de seu próprio ser, porque aquilo a que se refere a imagem metafórica de seu deus é o mistério último do seu próprio ser, o qual é também o mistério do ser do mundo. É assim que eu vejo a coisa.
MOYERS: Naturalmente, o âmago da fé cristã é que Deus está em Cristo e que essas forças elementares, das quais você está falando, encarnaram se em um ser humano, que reconciliou a humanidade com Deus.
CAMPBELL: Sim, e a idéia gnóstica e budista básica é aquela que é verdadeira tanto para você como para mim. Jesus foi uma pessoa histórica que percebeu em si mesmo que ele e o que ele chamou de Pai eram um só, e viveu o conhecimento do estado crístico em sua própria natureza.
Lembro me de certa vez em que estava dando uma conferência, na qual falei sobre viver a partir do sentido do Cristo em nós, e um padre que estava na platéia (como eu soube mais tarde) virou se para a mulher ao seu lado e sussurrou: “Que blasfêmia!”
MOYERS: O que você quer dizer com Cristo em nós?
CAMPBELL: Quero dizer que você deve viver de acordo não com o sistema do seu próprio ego, dos seus próprios desejos, mas com aquilo que você poderia chamar senso de humanidade – o Cristo – em você. Há um pensamento hindu que diz: “Ninguém a não ser um deus pode adorar um deus”. Você deve se identificar, de algum modo, com o princípio espiritual, qualquer que seja, que seu deus represente para você, a fim de venerá-lo adequadamente e viver de acordo com a palavra dele.
MOYERS: Ao se discutir acerca do deus interior, o Cristo interior, a iluminação ou despertar que vem do interior, não há o perigo de nos tornarmos narcisistas, de sermos tomados por uma obsessão pelo próprio ego, o que pode levar a uma visão distorcida de nós mesmos e do mundo?
CAMPBELL: Isso pode acontecer, claro. É uma espécie de curto circuito na trajetória. Mas o objetivo é ultrapassar a si mesmo e o conceito que se tem de si mesmo, para atingir aquilo de que não somos senão uma manifestação imperfeita. Ao termo de uma meditação, por exemplo, espera se que você distribua os benefícios advindos dela – quaisquer que sejam –a todos os seres vivos e ao mundo. Tais benefícios não podem ficar apenas para você. Veja, há dois modos de pensar “Eu sou Deus”. Se você pensa: “Aqui, em minha presença física e em meu caráter temporal, eu sou Deus”, então você está-louco e provocou um curto circuito na experiência. Você é Deus não em seu ego, mas em seu mais profundo ser, onde você é uno com o transcendente não dual.
MOYERS: Em algum dos seus escritos você diz que podemos nos tornar figuras salvadoras para as pessoas de nosso círculo – filhos, esposas, seres amados, vizinhos , mas nunca o Salvador. Você diz que podemos ser mãe e pai, mas nunca a Mãe e o Pai. É o reconhecimento de uma limitação, não é?
CAMPBELL: Sim.
MOYERS: O que você pensa sobre o Jesus Salvador?
CAMPBELL: Não sabemos muito sobre Jesus. Tudo o que sabemos está em quatro textos contraditórios que pretendem nos contar o que ele disse e fez.
MOYERS: Que foram escritos muitos anos depois que ele viveu.
CAMPBELL: Sim, mas, apesar disso, penso que podemos saber mais ou menos o que Jesus disse. Acho que as máximas de Jesus recolhidas nas escrituras estão bem próximas das originais. O principal ensinamento de Cristo, por exemplo, é “Amai vossos inimigos”.
MOYERS: Como você pode amar seu inimigo sem endossar o que ele faz, sem confirmar a sua agressão?
CAMPBELL: Eu lhe direi como fazê-lo: não tire o cisco dos olhos do seu inimigo, mas tire a trave dos seus próprios olhos. Ninguém tem o direito de condenar o modo de vida do seu inimigo.
MOYERS: Você acha que Jesus seria hoje um cristão?
CAMPBELL: Não a espécie de cristão que conhecemos. Talvez alguns monges e monjas, que realmente estão em contato com altos mistérios espirituais, estejam próximos do que foi Jesus.
MOYERS: Então Jesus poderia não ter pertencido à Igreja militante?
CAMPBELL: Não há nada de militante em Jesus. Não li nada nesse sentido em nenhum dos Evangelhos. Pedro sacou sua espada e cortou a orelha do servo, e Jesus disse: “Guarda tua espada, Pedro”. Mas Pedro continuou com sua espada e seu trabalho, desde então. Tenho vivido ao longo do século XX e conheço o que me foi dito, quando era garoto, sobre um povo que ainda não era e nunca tinha sido nosso inimigo. A fim de representá-los como inimigos potenciais e justificar nosso ataque, foi lançada contra eles uma campanha de ódio, difamação e descrédito, cujos ecos ouvimos até hoje.
MOYERS: E no entanto nos disseram que Deus é amor... Uma vez você citou as palavras de Jesus: “Amai vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem; desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai, que está nos céus; pois ele faz o sol nascer sobre o mal e o bem e envia a chuva para o justo e o injusto”, e tomou essas palavras como sendo o mais alto, nobre e ousado dos ensinamentos cristãos. Você ainda pensa desse modo?
CAMPBELL: Penso na compaixão como a experiência religiosa fundamental; quando ela não existe, você não tem nada.
MOYERS: Vou lhe contar o que significa para mim a mais pungente escritura do Novo Testamento: “Eu creio! Ajuda a minha incredulidade!” Eu acredito nessa realidade última, que posso e estou vivenciando. Mas não tenho respostas para minhas questões. Acredito na pergunta: Há um Deus?
CAMPBELL: Alguns anos atrás, tive uma experiência muito divertida. Eu estava na piscina do Clube Atlético de Nova Iorque, onde fui apresenta do a um padre, que era professor em uma de nossas universidades católicas.
Então, após ter nadado, sentei me em uma dessas cadeiras tipo espreguiçadeira, de modo a ficar na posição que chamamos de “atleta horizontal”, e o padre que estava a meu lado perguntou: “Então, sr. Campbell, o senhor é padre?”
Eu respondi: “Não, padre”.
Ele perguntou: “O senhor é católico?”
Respondi: “Eu era, padre”.
Então ele perguntou – e acho interessante o modo como ele formulou a questão: “O senhor acredita em um deus pessoal?”
“Não, padre”, disse lhe.
E ele replicou: “Bem, suponho que não há como provar, pela lógica, a existência de um deus pessoal”.
“Se houvesse, padre, qual seria então o valor da fé?”
“Bem, sr. Campbell”, disse ele rapidamente, “foi bom tê-lo conhecido.”
E se foi. Senti como se eu tivesse aplicado um golpe de jiu jitsu. Mas aquela foi uma conversa iluminadora para mim. O fato de um padre católico ter perguntado “Você acredita em um deus pessoal?” significava para mim que ele também reconhecia a possibilidade de um deus impessoal, isto é, um fundamento transcendente ou energia em si mesma. A idéia da consciência búdica é a de uma consciência imanente, luminosa, que anima todas as coisas e vidas. Vivemos irracionalmente, através de fragmentos daquela consciência, de fragmentos daquela energia. No entanto, o caminho da vida religiosa não é viver de acordo com intenções egoístas para com este corpo e tempo particulares, mas de acordo com aquela consciência mais ampla. Há uma importante passagem no recém descoberto Evangelho Gnóstico segundo São Tomás: ‘Quando o reino virá?’, perguntavam os discípulos de Jesus”. Em São Marcos, versículo 13, suponho, lemos que o fim do mundo está por vir. Vale dizer, uma imagem mitológica – a do fim do mundo está lá para ser tomada como predizendo um fato real, físico, histórico. Mas na versão de São Tomás, Jesus replica: “O reino do Pai não virá, conforme o esperado. O reino do Pai está disseminado pela terra e os homens não o vêem”. Nesse sentido, olho para você agora e o esplendor da presença do divino chega até mim através de você.
MOYERS: Através de mim?
CAMPBELL: De você, certamente. Ao dizer: “Aquele que beber da minha boca se tornará como eu e eu serei ele”, Jesus está falando do ponto de vista daquele Ser dos seres, a que chamamos Cristo, que é o ser de todos nós. Todo aquele que vive essa relação é como Cristo. Todo aquele que traz em sua vida a mensagem do Verbo é equivalente a Jesus – foi o que eu quis dizer.
MOYERS: É isso o que você quer dizer quando afirma que eu estou irradiando Deus para você?
CAMPBELL: Sim, é isso.
MOYERS: E você irradiando Deus para mim?
CAMPBELL: E estou falando seriamente.
MOYERS: Eu o tomei a sério. Realmente sinto que há divindade no outro.
CAMPBELL: Não somente isso, mas aquilo que você está expressando nesta conversa e aquilo que você está procurando mostrar é uma manifestação desses princípios espirituais. Desse modo, você é o veículo, o instrumento. Vo cê está radiante de espírito.
MOYERS: Isso é verdade para todos?
CAMPBELL: É verdade para todo aquele que alcançou em sua vida o nível do coração.
MOYERS: Você acredita realmente que há uma geografia da psique?
CAMPBELL: Essa é uma linguagem metafórica, mas você pode dizer que algumas pessoas estão vivendo no nível da sexualidade, suas vidas se reduzem a isso. E o sentido da vida, para elas. Essa é a filosofia de Freud, não é? Então você se volta para a filosofia adleriana da busca de poder, segundo a qual toda vida está centrada em obstáculos e superação de obstáculos. Bem, certamente é uma vida muito boa, e também pode representar uma forma de divindade, embora esteja no nível animal. Depois, vem outra espécie de vida que envolve a doação de si mesmo aos outros. Este é um dos caminhos simbolizados na abertura do coração.
MOYERS: Qual é a fonte dessa vida?
CAMPBELL: Ela deve ser o reconhecimento de sua vida no outro, de uma única vida em nós dois. Deus é uma imagem para essa única vida. Perguntamos a nós mesmos de onde vem essa vida, e as pessoas que pensam que todas as coisas devem ter sido feitas por alguém concluirão: “Bem, Deus a fez”. Então, Deus é a fonte de tudo.
MOYERS: E o que é religião?
CAMPBELL: A palavra “religião” significa religio, religar. Se dizemos que há uma única vida em nós ambos, então minha existência separada foi ligada à vida una, religio, religada. Isso está simbolizado nas imagens da religião, que representam aquela união.
MOYERS: Jung, o famoso psiquiatra, diz que um dos mais poderosos símbolos religiosos é o círculo. Ele diz que o círculo é uma das grandes imagens primordiais da humanidade e que, ao nos determos sobre esse símbolo, estamos analisando o próprio eu. O que pensa disso?
CAMPBELL: O mundo todo é um círculo. Todas as imagens circulares refletem a psique, de modo que há uma relação entre essa forma geométrica e a real estruturação de nossas funções espirituais.
Quando um mago quer realizar sua magia, traça um círculo ao redor de si mesmo, e é dentro desse círculo limitado, dessa área hermeticamente fechada para o exterior, que os poderes, até aí perdidos do lado de fora, podem ser postos em jogo.
MOYERS: Lembro me de ter lido sobre um chefe índio que disse: “Quando acampamos, nós o fazemos num círculo. Quando a águia constrói um ninho, este fica em um círculo. Quando olhamos para o horizonte, ele está em um círculo”. Os círculos são muito importantes para alguns índios, não são?
CAMPBELL: Sim. Mas também o são em muito do que herdamos da mitologia sumeriana. Herdamos o círculo com os quatro pontos cardeais e os 360 graus. O ano oficial sumeriano tinha 360 dias, com cinco dias santos que não contavam, porque estavam fora do tempo e eram dedicados a cerimônias que relacionavam sua sociedade aos céus. Agora estamos perdendo essa noção do círculo associado ao tempo, porque temos o tempo digital, em que você não percebe o tempo passando. Fora do digital, você tem a sensação do escoamento do tempo. Na Penn Station, em Nova Iorque, há um relógio que dá as horas, minutos, segundos, décimos de segundo e centésimos de segundo. Quando você ouve os centésimos de segundo tocando, percebe como o tempo está passando rápido por você. O círculo, por outro lado, representa a totalidade. Tudo dentro do círculo é uma coisa só, circundada e limitada. Esse seria o aspecto espacial. Mas o aspecto temporal do círculo é que você parte, vai a algum lugar e sempre retorna. Deus é o alfa e o ômega, o princípio e o fim. O círculo sugere imediatamente uma totalidade completa, quer no tempo, quer no espaço.
MOYERS: Sem começo, sem fim.
CAMPBELL: Volta, volta e mais volta. Considere o ano, por exemplo. Quando novembro se completa, temos a Ação de Graças novamente. Então vem dezembro e temos o Natal. Não somente o mês se completa mais uma vez como também o ciclo da lua, o ciclo do dia. Apercebemo nos disso quando olhamos para nossos relógios e vemos o ciclo do tempo. É a mesma hora, mas um outro dia.
MOYERS: A China costumava chamar se o Reino do Centro, e os astecas faziam uma afirmação semelhante sobre sua cultura. Imagino que toda cultura que usa o círculo, como representativo da ordem cosmológica, se coloque a si mesma no centro. Na sua opinião, por que o círculo se tornou tão universalmente simbólico?
CAMPBELL: Porque ele é experimentado por você o tempo todo: o dia, o ano, as suas saídas para a aventura – a caça ou outra qualquer – e o seu retorno para casa. Há também uma experiência mais profunda, o mistério do útero e da sepultura. Quando as pessoas são enterradas, o que se visa é o renascimento. Eis a origem da idéia do sepultamento. É colocar alguém de volta no útero da mãe terra, para o renascimento. Imagens muito primitivas da Deusa mostram na como uma mãe recebendo a alma de volta.
MOYERS: Quando li seus livros – As máscaras de Deus, O caminho dos poderes animais e A imagem mítica – deparei freqüentemente com imagens do círculo, em que este aparecia ou em desenhos mágicos ou na arquitetura, em imagens tanto antigas como modernas; aparece nos templos indianos em forma de abóbada, nas gravuras paleolíticas em rochas da Rodésia, nas pedras do calendário dos astecas, nos antigos escudos de bronze dos chineses e nas visões do profeta Ezequiel do Velho Testamento, que fala sobre a roda no céu. Enfim, tenho convivido com essa imagem. E este anel, minha aliança de casamento, é um círculo também. O que ele simboliza?
CAMPBELL: Depende de como você interpreta o casamento. A palavra “symbol” (símbolo) significa a junção de duas coisas. Esta pessoa tem uma metade, aquela, a outra metade, e assim elas ficam juntas. O reconhecimento acontece no ato de se colocar o anel ao mesmo tempo, é o círculo que se completa. Isso é meu casamento, isso é a aliança de minha vida individual com uma vida maior que é a de dois, em que os dois são um só. O anel indica que estamos juntos em um círculo.
MOYERS: Quando um novo papa assume o papado, ele recebe o anel do pescador – um outro círculo.
CAMPBELL: Esse anel singular simboliza o chamamento de Jesus aos apóstolos, que eram
pescadores. Ele disse: “Eu vos farei pescadores de homens”. Este é um velho motivo, mais
antigo que a cristandade. Orfeu é chamado “O Pescador”, que pesca homens que vivem na água como peixes, trazendo os para fora, para a luz. Essa é a velha idéia da metamorfose do peixe em homem. A parte peixe é a natureza animal mais cruel de nosso caráter, e o caminho religioso procura expurgá-la de nós.
MOYERS: A cada novo rei ou rainha da Inglaterra é dado o anel da coroação.
CAMPBELL: Sim, porque há um outro aspecto do anel – a servidão. Como rei, você está submetido a um princípio e não pode viver simples mente o seu caminho, você foi marcado. Em ritos de iniciação, quando as pessoas são sacrificadas e tatuadas, estão submetidas a outras e à sociedade.
MOYERS: Jung fala do círculo como uma mandala.
CAMPBELL: “Mandala” é a palavra sânscrita para “círculo”, mas um círculo que é montado ou desenhado simbolicamente, o que lhe permite adquirir um significado de ordem cósmica. Ao compor mandalas, você está tentando coordenar seu círculo pessoal com o universal. Em uma mandala budista muito elaborada, por exemplo, aparece a deidade no centro como a fonte do poder, a fonte da iluminação. As imagens periféricas seriam manifestações ou aspectos do esplendor da deidade. Ao diagramar uma mandala de você mesmo, você desenha um círculo e pensa nos diferentes sistemas de impulsos e de valores de sua vida. A seguir, você os compõe e procura descobrir onde está o seu centro. Fazer uma mandala exige disciplina para reunir todos os aspectos dispersos de sua vida, encontrar um centro e dirigir se a ele. Você tenta harmonizar seu círculo com o círculo universal.
MOYERS: Ficar no centro?
CAMPBELL: Sim, no centro. Por exemplo, entre os índios navajos, as cerimônias de cura são realizadas através de pinturas de areia, das quais a maior parte são mandalas feitas no chão. A pessoa que deve ser curada movimenta se dentro da mandala como se estivesse se movendo num contexto mitológico, com o qual deverá identificar se; ela se identifica com o poder simbolizado. Essa associação de pinturas de areia com mandalas, e seu uso para fins de meditação, aparecem também no Tibete. Os monges tibetanos realizam pinturas de areia, desenhando imagens cósmicas para representar as forças dos poderes espirituais que operam em nossas vidas.
MOYERS: Há um certo esforço, aparentemente, para fazer coincidir o centro da vida de uma pessoa com o centro do universo...
CAMPBELL: ... pelo caminho da imagem mitológica, sim. A imagem ajuda você a se identificar com a força simbolizada. Você não pode esperar que uma pessoa se identifique com uma coisa indiferenciada ou uma coisa qualquer. Mas quando você lhe fornece elementos que apontem para certas percepções, a pessoa pode acompanhar.
MOYERS: Há uma teoria de que o Santo Graal representou o centro da harmonia perfeita, a busca da perfeição, totalidade e unidade.
CAMPBELL: Há numerosas fontes para o Santo Graal. Uma delas é que, na mansão do deus do mar, nas profundezas do inconsciente, há um caldeirão de abundância. É a partir das profundezas do inconsciente que as energias da vida chegam até nós. Esse caldeirão é a fonte inexaurível, o centro, a primavera borbulhaste da qual se origina toda a vida.
MOYERS: Você acha que isso é o inconsciente?
CAMPBELL: Não apenas o inconsciente, mas também o vale do mundo. As coisas estão acontecendo na vida, ao seu redor, a todo momento. Há uma vida afluindo para o mundo, e ela verte de uma fonte inexaurível.
MOYERS: Bem, o que você pensa disso, do fato de que em culturas bem diferentes e separadas no tempo e no espaço, a mesma imagética apareça?
CAMPBELL: Isso diz respeito a certos poderes da psique comuns a toda a humanidade; caso contrário, não haveria correspondências tão específicas.
MOYERS: Se você considera que muitas culturas diferentes contam histórias de criação, de nascimentos virginais, da vinda, morte e renascimento de um salvador, todas essas histórias falam de alguma coisa que está dentro de nós, e da nossa necessidade de compreender.
CAMPBELL: É certo. As imagens do mito são o reflexo das potencialidades espirituais de cada um de nós. Ao contemplá-las, evocamos os seus poderes em nossas próprias vidas.
MOYERS: Então, quando a escritura fala sobre o homem como tendo sido feito à imagem de Deus, está falando de certas qualidades de todo ser humano, não importa qual seja sua religião, cultura, geografia ou herança.
CAMPBELL: Deus seria a idéia quintessencial do homem.
MOYERS: A necessidade primordial.
CAMPBELL: E nós somos todos feitos à imagem de Deus, que é o arquétipo último do homem.
MOYERS: Eliot fala do ponto imóvel do mundo giratório, onde movimento e repouso estão juntos, o centro onde o movimento do tempo e a imobilidade da eternidade estão juntos.
CAMPBELL: É o centro inexaurível, representado pelo Graal. Quando a vida ingressa no ser, não há nem medo nem desejo, apenas vir a ser. Então o ser começa a existir e a sentir medo e desejo. Quando você consegue livrar se do medo e do desejo e retorna ao lugar do seu vir a ser, aí você está no caminho certo. Goethe diz que a divindade é efetiva nos vivos e não nos mortos, no vir a ser e no que é mutável, não naquilo que já foi feito e ficou consolidado. Desse modo, a razão, afirma ele, relaciona se com o esforço em direção ao divino através do vir a ser e do mutável; enquanto a inteligência se move no campo do estabelecido, daquilo que é conhecível e conhecido para, desse modo, traçar o perfil de uma vida. Porém, a meta da busca do autoconhecimento encontra se naquele ponto de combustão em você mesmo, naquele transformar se que está em você mesmo, que é inocente dos bens e dos males já estabelecidos no mundo e, portanto, destituído de desejo e medo. Essa é a condição do guerreiro de plena coragem indo para a guerra. É a vida em movimento. E a essência do misticismo tanto da guerra como do crescimento de uma planta. Eu penso na grama... você sabe, a cada duas semanas vem um camarada com um cortador de grama e a deita fora. Suponha que a grama pudesse dizer: “Pelo amor de Deus, qual é a utilidade de crescer se você continua a me cortar?” Em vez disso, ela continua a crescer. Eis o sentido da energia do centro. Eis o significado da imagem do Graal, da fonte inexaurível, da causa primeira. Sendo ela a geradora do ser, não se preocupa com o que acontece a partir daí. O que conta é o dar se ao ser; esse é o momento da vida emergindo em você. Isso é o que todos os mitos procuram dizer.
No estudo da mitologia comparada, comparamos as imagens de um sistema com as de outro e ambos se iluminam, porque um acentuará e dará uma expressão mais clara ao significado do outro, e assim sucessivamente. Eles se esclarecem uns aos outros. Quando comecei a ensinar mitologia comparada, tive receio de que pudesse destruir as crenças religiosas de meus estudantes, mas o que aconteceu foi justamente o oposto.
Tradições religiosas que não significavam muito para eles repentinamente se deixaram iluminar por um sentido novo, ao serem comparadas a outras tradições, em que imagens similares tinham recebido uma interpretação mais interna ou espiritual. Eu tinha estudantes cristãos, judeus, budistas e alguns seguidores de Zoroastro; todos tiveram essa experiência. Não há nenhum perigo em interpretar os símbolos de um sistema religioso e chamá-los de metáforas em vez de fatos. O que isso pode trazer, como conseqüência, é a transformação deles em mensagens para a experiência interior e para a vida. O sistema subitamente se torna uma experiência pessoal.
MOYERS: Eu me senti fortalecido em minha crença ao saber que outros experimentam os mesmos anseios e buscam imagens semelhantes para tentar expressar uma experiência que ultrapassa os hábitos da linguagem comum.
CAMPBELL: Eis por que personagens e religiões hílares são úteis. Os mitos germânicos e célticos estão cheios dessas figuras, divindades realmente grotescas. É como se elas dissessem: “Eu não sou a imagem última, deixo transparecer alguma outra coisa. Olhe através de mim, através da minha forma engraçada”.
MOYERS: Há em alguma tradição africana uma bela história do deus que está caminhando pela estrada, usando um chapéu vermelho de um lado, azul de outro. Quando os trabalhadores do campo vão, à noite, para a aldeia, perguntam: “Você viu aquele deus com o chapéu azul?” E os outros respondem: “Não, não, ele estava com um chapéu vermelho”. E começam a brigar.
CAMPBELL: Sim, é o trapaceiro deus Exu, da Nigéria. Ele complica ainda mais a situação: caminha primeiro numa direção e depois vira na direção contrária, invertendo também o chapéu. Depois, quando os dois indivíduos que brigavam são levados à frente do rei, para julgamento, o deus trapaceiro aparece e diz: “É minha culpa, eu provoquei e tive a intenção de fazê-lo. Alimentar disputas é minha maior alegria”.
MOYERS: Há uma verdade nisso.
CAMPBELL: Certamente. Heráclito disse que é da discórdia que nascem todas as grandes coisas. Algo dessa ordem pode estar implícito nessa idéia ardilosa, simbólica. Em nossa tradição, a serpente do Paraíso atuou de modo semelhante. Exatamente quando tudo estava ajustado e perfeito, ela atirou uma maçã no cenário.
Seja qual for o seu sistema de idéias, ele não tem como abranger toda a vida, em sentido ilimitado. Quando você pensa que tudo está exatamente em seu lugar, aquele pregador de peças aparece, tudo vai pelos ares, você se altera e, assim, a história se repete.
MOYERS: Noto que quando conta essas histórias, Joseph, você o faz com humor. Parece que sempre se diverte com elas, mesmo que falem de coisas estranhas e cruéis.
CAMPBELL: Uma diferença chave entre a mitologia e a nossa religião judaico cristã é que a imagética da mitologia é apresentada com humor. Você percebe que a imagem é símbolo de algo, e que você está distante disso. Mas em nossa religião tudo é tedioso e muito sério. Você não pode brincar com Jeová.
MOYERS: Como você explica o que o psicólogo Maslow chamou de “experiências culminantes”, e o que James Joyce chamou de “epifanias”?
CAMPBELL: Bem, elas não são a mesma coisa. A experiência culminante refere se a momentos reais de sua vida, em que você experimenta sua relação com a harmonia do ser. Minhas experiências culminantes, aquelas que eu soube que o eram somente depois de vivê-las, vieram todas de jogos esportivos.
MOYERS: Qual foi o ponto culminante de sua experiência?
CAMPBELL: Quando estava correndo em Columbia, fiz duas corridas belíssimas. No meio da segunda corrida, eu sabia que ia vencer, embora não houvesse razão alguma para acreditar nisso; de fato, eu estava estarrecido com o desempenho do líder, que seguia trinta jardas à minha frente. Mas eu simplesmente sabia, e essa foi minha experiência culminante. Ninguém pôde me derrotar aquele dia. Isso é estar em plena forma e realmente sabê-lo. Acho que nunca tinha feito algo em minha vida de maneira tão competente quanto aquelas duas corridas de que participei; foi a experiência na qual realmente estive em meu ponto máximo e consegui um desempenho perfeito.
MOYERS: Nem todas as experiências culminantes são físicas.
CAMPBELL: Não, há outras espécies de experiências culminantes. Mas aquelas são as que vêm à minha mente quando penso nisso.
MOYERS: E sobre as epifanias de James Joyce?
CAMPBELL: Bem, isso é algo muito especial. A fórmula de Joyce para a experiência estética é que ela não o leva a querer possuir o objeto. A um trabalho de arte que o leva a querer possuir o objeto representado, ele chama de pornografia. A verdadeira experiência estética tampouco provoca em você a crítica ou a rejeição do objeto; a isso ele chama didática ou crítica de arte. A experiência estética é uma simples contemplação do objeto. Joyce diz que você põe uma moldura ao redor do objeto e o vê primeiramente como uma coisa e, vendo o desse modo, toma consciência da relação entre as partes, de cada parte com o todo e deste com cada uma das partes. Este é o fator estético essencial: o ritmo, o ritmo harmonioso das relações. E, quando o artista fisgou um ritmo feliz, você experimenta o esplendor. Você foi pego num rapto estético. É a epifania. É o que, em termos religiosos, poderia ser pensado como a revelação do princípio crístico em todas as coisas.
MOYERS: A face do santo contemplando Deus?
CAMPBELL: Não importa quem seja. Você poderia considerar alguém em quem pensasse até como um monstro. A experiência estética transcende ética e didática.
MOYERS: É o ponto em que discordo de você. Parece me que, para experimentar a epifania, o objeto que você contempla, mas não deseja possuir, deve ser belo de alguma maneira. Momentos atrás, falando sobre sua experiência culminante, na corrida, você disse que ela foi bela. “Belo” é um conceito estético. Beleza é harmonia.
CAMPBELL: Sim.
MOYERS: E você disse ainda que ela existe também nas epifanias de Joyce e que diz respeito à arte e à estética.
CAMPBELL: Sim.
MOYERS: Parece me que elas são a mesma coisa já que ambas são belas. Como você pode contemplar um monstro e ter uma epifania?
CAMPBELL: Há uma outra emoção associada à arte, que não é a da beleza mas a do sublime. O que chamamos de monstro pode ser experimentado como sublime. Ele representa poderes tão grandes que formas de vida normais não o podem albergar. Uma imensa vastidão de espaço é sublime. Os budistas sabem como conseguir esse efeito, ao buscarem a localização para os seus templos, que geralmente ficam em altas colinas. Por exemplo, alguns jardins de templos no Japão são projetados de modo a que você primeiramente vá experimentando a proximidade, a harmonia íntima. Enquanto isso, você está subindo, até que subitamente ultrapassa um limite e a extensão do horizonte se abre e, de algum modo, com o minguar do seu próprio ego, sua consciência se expande para uma experiência do sublime.
Uma outra modalidade do sublime é a da energia prodigiosa, a força e o poder. Conheci um bom número de pessoas que estavam na Europa Central durante o auge dos bombardeios anglo americanos em suas cidades; muitos deles descreveram essa experiência desumana não apenas como terrível, mas também como sublime.
MOYERS: Uma vez entrevistei um veterano da Segunda Guerra Mundial. Conversei com ele sobre sua experiência na batalha de Bulge, naquele amargo inverno, pouco antes de acontecer o assalto alemão. Perguntei: “Quando você recorda esse fato, como ele lhe parece?” E ele respondeu: “Foi sublime”.
CAMPBELL: E então o monstro aparece como uma espécie de deus.
MOYERS: E por monstro você entende...
CAMPBELL: Quando falo monstro quero dizer alguma presença horrível, ou uma aparição, que abala todos os nossos modelos de harmonia, ordem e conduta ética. Por exemplo, Vishnu no fim do mundo aparece como um monstro. Lá está ele, devastando o universo, primeiro com o fogo e depois com um sangue torrencial que extingue o fogo e todas as coisas. Nada resta senão cinzas. Todo o universo e tudo o que era vivo nele fica totalmente destruído. É deus no papel de destruidor. Tais experiências ultrapassam julgamentos éticos ou estéticos. A ética é eliminada. Isso porque em nossas religiões, com a ênfase dada ao humano, há também um destaque para o ético; Deus é qualificado como bom. Não, não! Deus é horrível. Nenhum deus capaz de inventar o inferno pode ser candidato ao Exército de Salvação. Pense no fim do mundo! Mas há um dito muçulmano sobre o Anjo da Morte: “Quando se aproxima, o Anjo da Morte é terrível. Quando alcança você, é uma bem aventurança.”
Nos sistemas budistas, especialmente os do Tibete, os Budas da meditação aparecem sob duplo aspecto, um pacífico, outro colérico. Se você se apegar fortemente ao seu ego e ao seu pequeno mundo temporal, de mágoas e alegrias, querendo preservar uma vida desejada, aparecerá o aspecto colérico da deidade. Esta será terrível. Mas no momento em que o seu ego se desprende e se entrega, aquele mesmo Buda é experimentado como doador de felicidade.
MOYERS: Jesus falou sobre carregar uma espada. Mas não creio que ele sugerisse com isso que devêssemos usá-la contra o nosso semelhante. Ele a considerava no sentido de uma abertura do ego: Eu vim para libertá-lo, separando o ego que está amarrado em você.
CAMPBELL: Isso é o que em sânscrito é conhecido como vivekn, “discernimento”. Há uma importante imagem do Buda segurando uma espada flamejante bem no alto da própria cabeça. Para que serve essa espada? E a espada do discernimento, separando o meramente temporal do eterno. É a espada que distingue o que é duradouro do que é passageiro. O tique taque do tempo exclui a eternidade. É nessa dimensão de tempo que vivemos. Mas o que se reflete nessa dimensão é um princípio eterno, tornado manifesto.
MOYERS: A experiência do eterno.
CAMPBELL: A experiência do que você é.
MOYERS: Sim, mas o que quer que seja a eternidade, ela está aqui e agora.
CAMPBELL: E em nenhum outro lugar. Ou em qualquer outro lugar. Se você não viver aqui e agora, não irá consegui-lo no céu. O céu não é eterno, é apenas duradouro.
MOYERS: Não compreendo.
CAMPBELL: Céu e inferno são descritos como eternidade. O céu tem um tempo infindável. Não é eterno. O eterno está além do tempo. O conceito de tempo exclui a eternidade. Todos os sofrimentos e atribulações tempo rais vão e vêm, na direção dos fundamentos dessa profunda experiência da eternidade. Há um ideal budista de participação voluntária e jubilosa nas tristezas que ocorrem no mundo. Onde quer que exista tempo, há tristeza. Mas a experiência da tristeza movimenta se na direção de uma tomada de consciência do ser duradouro, que é a nossa vida verdadeira.
MOYERS: Há uma certa imagem de Shiva, o deus Shiva, circundada por chamas, anéis de fogo.
CAMPBELL: É o esplendor da dança do deus. A dança de Shiva é o universo. Em seus cabelos há um crânio e uma lua nova, morte e renascimento ao mesmo tempo, o momento do vir a ser. Numa das mãos ele tem um pequeno tambor que faz tique-tique-tique. É o tambor do tempo, o tique do tempo que exclui o conhecimento da eternidade. Estamos fechados no tempo. Mas na outra mão há uma chama que queima o véu do tempo e abre nossas mentes para a eternidade.
Shiva é uma deidade muito antiga, talvez hoje a mais antiga imagem venerada do mundo. Há imagens de 2000 ou 2500 a.C., pequenos selos cunhados mostrando figuras que claramente sugerem Shiva.
Em algumas de suas manifestações ele é realmente um deus horrível, representando os aspectos terríveis da natureza do ser. Ele é o Togue arquetípico, que extingue a ilusão da vida; mas é também o criador da vida, seu gerador e iluminador.
MOYERS: Os mitos lidam com a metafísica. Mas a religião também lida com a ética, com o bem e o mal, com a maneira como devo me dirigir a você e como devo me comportar em relação a você, à minha esposa, aos meus companheiros, enquanto subordinado a Deus. Qual o lugar e o papel da ética na mitologia?
CAMPBELL: Já falamos da experiência metafísica na qual você percebe que você e o outro são um só. A ética é um caminho para lhe ensinar a viver como se você e o outro fossem um só. Você não tem que viver a experiência porque a doutrina da religião dá a você modelos de conduta que implicam numa relação compassiva com o outro. Ela oferece um incentivo para isso, ensinando lhe que agir simplesmente em seu interesse próprio é pecado. É a identificação com o seu corpo.
MOYERS: Ame o seu próximo como a você mesmo porque ele é você mesmo.
CAMPBELL: Isso é o que você aprendeu ao agir assim.
MOYERS: Por que você acha que tantas pessoas têm um desejo tão grande de viver para sempre?
CAMPBELL: É algo que não compreendo.
MOYERS: Será que é por causa do medo do inferno?
CAMPBELL: Essa é a convencional doutrina cristã, a de que no fim do mundo haverá um juízo final e aqueles que tiverem agido virtuosamente serão enviados ao céu e os que tiverem agido mal, ao inferno.
Esse é um tema que remonta ao Egito. Osíris é o deus que morreu e renasceu e, em seu aspecto eterno, estabeleceu se como juiz dos mortos. A mumificação significava preparar a pessoa para encarar o deus. Mas uma coisa interessante no Egito é que a pessoa que vai ao encontro do deus deve reconhecer sua identidade com ele. Na tradição cristã isso não é permitido. Portanto, se a escolha é entre o céu e o inferno, bem, dê me o céu para sempre. Mas quando você percebe que o céu é a contemplação da imagem beatificada de Deus... então esse seria um momento atemporal. O tempo explode e, mais uma vez, a eternidade não é algo duradouro. Você pode sentir isso aqui e agora, em meio à sua experiência das relações terrenas.
Perdi muitos amigos, assim como a meus pais. Entretanto, veio me uma compreensão muito aguda de que na verdade não os perdi. Aquele momento que eu partilhei com eles teve uma qualidade de duração que ainda agora perdura em mim. O que aquele momento me deu permanece em mim, e há nele uma espécie de sugestão de imortalidade. Há uma história do Buda segundo a qual ele encontrou uma mulher que perdera seu filho e sentia por isso grande aflição. O Buda disse: “Eu sugiro que você procure à sua volta alguém que não tenha perdido uma criança adorada, o marido, um parente ou um amigo”. Aceitar a morte de algo que, para você, transcende a mortalidade é uma tarefa difícil.
MOYERS: Os mitos estão repletos de de sejo de imortalidade, não estão?
CAMPBELL: Sim. Entretanto, quando a imortalidade é mal compreendida, como se fosse um corpo duradouro, isso se torna um ato desvirtuado. Por outro lado, quando a imortalidade é compreendida como a identificação com o que há de eternidade em sua vida de agora, então aí sim você tem algo valioso.
MOYERS: Você disse que toda a questão da vida se move em torno da oposição entre o ser e o vir a ser.
CAMPBELL: Sim. O vir a ser é sempre parcial e o ser é total.
MOYERS: O que quer dizer isso?
CAMPBELL: Bem, digamos que você vai se tornar um homem completo. Nos primeiros anos de vida você é uma criança, o que corresponde a apenas uma fração do ser humano. Depois de alguns anos, você é um adolescente e isso é certamente mais uma fração do ser. Na maturidade, você é ainda incompleto; não é uma criança, mas ainda não é velho. Nos Upanixades há uma imagem da energia original, concentrada, responsável pela grande explosão da criação que produziu o mundo, destinando todas as coisas à fragmentação temporal. Mas ver, através dos fragmentos do tempo, o poder total do ser original – essa é a função da arte.
MOYERS: A beleza é uma expressão daquele arrebatamento de estar vivo.
CAMPBELL: Cada momento deveria ser uma experiência como essa.
MOYERS: E o que vai ser de nós amanhã não é importante comparado com tal experiência.
CAMPBELL: Este é o grande momento, Bill. O que estamos tentando fazer, de certo modo, é apreender a essência do nosso assunto através dos meios parciais de que dispomos para expressá-lo.
MOYERS: Mas se não podemos descrever Deus, se nossa linguagem não é adequada, como é que erguemos essas construções sublimes? Como criamos essas obras de arte, que refletem o que os artistas pensam de Deus? Como fazemos isso?
CAMPBELL: Ora, é o que a arte reflete – o que os artistas pensam de Deus, a experiência de Deus que têm as pessoas. Mas o mistério último, imponderável, está além da experiência humana.
MOYERS: Portanto, o que quer que experimentemos, temos de expressar em uma linguagem que não é apropriada à situação.
CAMPBELL: É isso. Eis a função da poesia. Ela é uma linguagem que deve ser assimilada aos poucos, cuidadosamente. A poesia envolve uma escolha precisa de palavras, cujas implicações e sugestões ultrapassam as próprias palavras. Graças a isso, você experimenta o esplendor, a epifania, que é uma aparição da essência.
MOYERS: Portanto, a experiência de Deus está além do que podemos descrever, mas nos sentimos compelidos a tentar descrevê-la?
CAMPBELL: Correto. Schopenhauer, em seu esplêndido ensaio intitulado “Sobre a aparente intencionalidade no destino do indivíduo”, assinala que, quando vòcê alcança uma idade avançada e olha para o tempo de vida que ficou para trás, pode lhe parecer que este teve uma ordem e um plano consistentes, como se concebidos por algum romancista. Acontecimentos que, quando ocorreram, pareciam acidentais e passageiros transformam se em fatores indispensáveis na composição do enredo. Então, quem compôs esse enredo?
Schopenhauer sugere que, assim como os seus sonhos se engendram a partir de um aspecto seu que é ignorado por sua consciência, toda a sua vida é engendrada pela vontade que há em você. E, assim como as pessoas que você teria conhecido por mero acaso transformam se em agentes important es na estruturação da sua vida, você também terá servido, sem o saber, como um agente atribuidor de significação às vidas de outras pessoas. O sistema todo movimenta se e ajusta se como uma grande sinfonia, em que cada coisa inconscientemente estrutura as demais. E Schopenhauer conclui que é como se nossas vidas fossem as imagens do grande sonho de um único sonhador, em que todos os personagens do sonho sonhassem também; desse modo, tudo se liga a tudo, movido por uma vontade de vida que é a vontade universal da natureza.
É uma idéia magnífica. Ela aparece na índia, na imagem mítica da Rede de Indra, uma rede de pedras preciosas na qual, em cada cruzamento de um fio com outro, há uma pedra refletindo todas as demais. Cada coisa emerge em mútua relação com as outras, de modo que você não pode censurar ninguém por coisa alguma. É exatamente como se houvesse uma única intenção atrás de tudo, sempre com algum sentido, embora nenhum de nós saiba que sentido é, nem tenha vivido a vida que de fato tencionou viver.
MOYERS: E ainda assim todos vivemos uma vida que teria um propósito. Você acredita nisso?
CAMPBELL: Não creio que a vida tenha um propósito. A vida é uma porção de protoplasma com impulso para se reproduzir e continuar a ser.
MOYERS: Não é verdade – não é verdade.
CAMPBELL: Espere um minuto. A mera vida não pode ser considerada como tendo propósito; olhe para as mais variadas intenções que ela tem, em toda parte. Mas cada encarnação, você poderia dizer, tem uma potencialidade e a missão da vida é vivê-la. Como fazê-lo? Minha resposta é: “Siga a sua bem aventurança”. Há algo em seu interior que sabe quando você está no centro, quando você está na direção certa ou fora dela. E se abandonar a direção para ganhar dinheiro, você perdeu sua vida. Se estiver no centro e não conseguir dinheiro, você ainda tem a sua bem aventurança.
MOYERS: Gosto da idéia de que não é o destino que conta, mas a trajetória.
CAMPBELL: Sim. Como diz Karlfried Graf Dürckheim: “Quando você se lança numa jornada e o fim parece cada vez mais distante, então você percebe que o verdadeiro fim é o percurso”.
Os navajos têm aquela bela imagem do que eles chamam o caminho do pólen. O pólen é a fonte da vida; o caminho do pólen é o caminho para o centro. Os navajos dizem: “Oh, beleza diante de mim, beleza atrás de mim, beleza à minha direita, beleza à minha esquerda, beleza acima de mim, beleza abaixo de mim, estou no caminho do pólen”.
MOYERS: O Éden não foi, o Éden será.
CAMPBELL: O Éden é. “O reino do Pai está disseminado pela terra e os homens não o vêem.”
MOYERS: O Éden é... neste mundo de dor, sofrimento, morte e violência?
CAMPBELL: Essa é a sensação que ele desperta, mas é assim, este é o Éden. Quando você vir o reino disseminado pela terra, estará extinto 0 antigo modo de vida no mundo. É o fim do mundo. O fim do mundo não é um acontecimento por vir, é um acontecimento de transformação psicológica, de transformação visionária. Você não vê um mundo de coisas sólidas, mas um mundo de radiância.
MOYERS: Interpretei aquela afirmação po derosa e misteriosa, “A Palavra se fez carne”, como o princípio eterno que se encontra na trajetória humana, em nossa experiência.
CAMPBELL: E você também pode encontrar a Palavra em você mesmo.
MOYERS: Onde encontrá-la senão em você mesmo?
CAMPBELL: Já foi dito que a poesia consiste em permitir que a Palavra seja ouvida para além das palavras. E Goethe diz: “Todas as coisas são metáforas”. Tudo o que é transitório não é senão uma referência metafórica. Eis o que todos somos.
MOYERS: Mas como alguém pode cultuar uma metáfora, amá-la, morrer por ela?
CAMPBELL: É o que as pessoas fazem, por toda parte – morrem por metáforas. Mas quando você realmente capta o som “AUM”, o som do mistério da palavra em todos os lugares, então você não precisa sair à procura de alguma coisa e morrer por ela, porque é certo que ela está à sua volta. Aquiete se apenas, veja a, experimente a e conheça a. Essa é uma experiência culminante.
MOYERS: Explique o AUM.
CAMPBELL: “AUM” é uma palavra que representa aos nossos ouvidos aquele som da energia do universo, da qual todas as coisas são manifestações. O som começa na parte posterior da boca, “aa”, depois o “uu” a preenche e o “mm” fecha a. Quando você pronuncia adequadamente, todos os sons vocálicos estão incluídos na pronúncia. AUM. As consoantes são tomadas aqui simplesmente como interrupções do som vocálico essencial. Todas as palavras são, portanto, fragmentos de AUM, assim como todas as imagens são fragmentos da Forma das formas. AUM é um som simbólico que coloca você em contato com o ser reverberante que é o universo. Se ouvisse alguns dos registros dos monges tibetanos cantando AUM, você saberia exatamente o que a palavra significa. É o AUM de estar no mundo. Estar em contato com isso, captar lhe o sentido, é a experiência culminante de tudo.
AUM. O nascimento, a vinda ao ser e a dissolução que reinicia o ciclo. O AUM é chamado a “sílaba de quatro elementos”. AUM – e qual é o quarto elemento? O silêncio do qual brota AUM e ao qual retorna, ou seja, é o que subjaz a ele. Minha vida é o AUM, mas há também um silêncio subjacente. Eis o que chamaríamos o imortal. Aqui está o mortal e lá o imortal, e não haveria aquele se não houvesse este. Deve se fazer uma diferenciação entre o aspecto mortal e o imortal na existência de cada indivíduo. Na experiência com meus pais, que já se foram, pude compreender que há algo que transcende o que foi nossa relação temporal. Naturalmente, houve certos momentos nessa relação em que pude perceber de maneira evidente o que ela significava. Lembro me claramente de alguns deles. Eles destacavam se como momentos de epifania, de revelação, de esplendor.
MOYERS: O significado é essencialmente indizível.
CAMPBELL: Sim. As palavras são sempre qualificações e limitações.
MOYERS: E assim mesmo, Joseph, todos nós, fracos seres humanos, acabamos ficando com essa linguagem miserável, embora bela, mas limitada para se tentar descrever...
CAMPBELL: É certo, eis por que é uma experiência culminante romper com tudo isso, às vezes, e perceber: “Oh... ah...”