VII
HISTÓRIAS DE AMOR MATRIMÔNIO
Assim, pelos olhos, o amor atinge o coração:
Pois os olhos são os espiões do coração.
E vão investigando
O que agradaria a este possuir.
E quando entram em pleno acordo
E, firmes, os três em um só se harmonizam,
Nesse instante nasce o amor perfeito, nasce
Daquilo que os olhos tornaram bem vindo ao coração.
O amor não pode nascer nem ter início senão
Por esse movimento originado do pendor natural.
Pela graça e o comando
Dos três, e do prazer deles,
Nasce o amor, cuja clara esperança
Segue dando conforto aos seus amigos.
Pois, como sabem todos os amantes
Verdadeiros, o amor é bondade perfeita,
Oriunda – ninguém duvida – do coração e dos olhos.
Os olhos o fazem florescer;
o coração o amadurece:
Amor, fruto da semente pelos três plantada.
Gutraut de Borneilh ( Circa 1138-1200?)
MOYERS: O amor é um assunto tão vasto!... Bem, se eu chegasse a você e dissesse: “Vamos falar sobre o amor”, por onde você começaria?
CAMPBELL: Começaria com os trovadores do século XII.
MOYERS: Quem eram eles?
CAMPBELL: Os trovadores eram a nobreza da Provença e, mais tarde, de outras partes da França e da Europa. Na Alemanha, eles são conhecidos como os Minnesingers, os cantores do amor. Minne é a palavra alemã, medieval, para amor.
MOYERS: Eles eram os poetas daquele tempo?
CAMPBELL: Eram poetas de um certo tipo, sim. Seu período é o século XII. Toda a tradição trovadoresca foi extinta na Provença, na altura da assim chamada Cruzada Albigense, de 1209, desencadeada pelo papa Inocêncio III e considerada uma das cruzadas mais monstruosas da história da Europa. Os trovadores foram associados à heresia maniqueísta dos albigenses, que era exuberante nessa época, embora o movimento albigense fosse na verdade um protesto contra a corrupção do clero medieval. Com isso, os trovadores e sua transformação da idéia do amor se viram envolvidos na vida religiosa, de uma maneira muito complicada.
MOYERS: A transformação do amor? O que você quer dizer com isso?
CAMPBELL: Os trovadores estavam muito interessados na psicologia do amor. E foram os primeiros, no Ocidente, a pensar no amor do modo como ainda o fazemos, hoje – como uma relação entre duas pessoas.
MOYERS: Como era antes disso?
CAMPBELL: Antes disso, o amor era simplesmente Eros, o deus que excita o apetite sexual. Isso não corresponde à experiência do apaixonar se, da maneira como os trovadores a compreenderam. Eros é muito mais impessoal do que apaixonar se. As pessoas não tinham conhecimento do Amor{4}. O Amor é algo pessoal, que os trovadores reconheceram. Eros e Ágape são amores impessoais.
MOYERS: Explique.
CAMPBELL: Eros é um impulso biológico. É o entusiasmo dos órgãos por outros órgãos.
O fator pessoal não conta.
MOYERS: E Ágape?
CAMPBELL: Ágape é “ama o teu próximo como a ti mesmo”, o amor espiritual. Não importa quem seja o próximo.
MOYERS: Isso então não é paixão, no sentido de algo comandado por Eros; isso é compaixão, eu diria.
CAMPBELL: Sim, é compaixão. É uma abertura do coração. Mas não é individualizado como o Amor.
MOYERS: Ágape é um impulso religioso.
CAMPBELL: Sim. Mas o Amor pode tornar se um impulso religioso, também. Os trovadores reconheciam o Amor como a mais elevada experiência espiritual. A experiência de Eros é uma espécie de arrebatamento. Na índia, o deus do amor é um jovem forte, vigoroso, com um arco e uma aljava de setas. Os nomes das setas são “Agonia Portadora da Morte”, “Revele se” e assim por diante. Na verdade, ele apenas lança uma das setas na sua direção e produz uma explosão totalmente fisiológica, psicológica. Já o outro amor, Ágape, é amar o próximo como a si mesmo. Outra vez, não importa quem seja a pessoa. É o seu próximo, e você deve manifestar essa espécie de amor.
Mas, com o Amor, o que temos é um ideal puramente pessoal. Aquela espécie de arrebatamento que deriva do encontro dos olhares, como se diz na tradição trovadoresca, é uma experiência entre duas pessoas.
MOYERS: Há um poema, em um dos seus livros, sobre esse encontro dos olhares: “Assim, pelos olhos, o amor atinge o coração...”
CAMPBELL: Isso é completamente contrário a tudo o que era proclamado pela Igreja. É uma experiência pessoal, individual, e creio que esse é o aspecto essencial que torna grandioso o Ocidente, distinguindo o de todas as outras tradições que eu conheço.
MOYERS: Então a coragem de amar se tornou a coragem de afirmar uma experiência individual contra a tradição – a tradição da Igreja. Por que isso foi importante na evolução do Ocidente?
CAMPBELL: Foi importante porque deu ao Ocidente essa ênfase no indivíduo, no sentido de que cada um tivesse fé na sua própria experiência, em vez de simplesmente repetir o que lhe era imposto pelos outros. Isso sublinha a validade da experiência individual no tocante à humanidade, à vida, aos valores, contra o caráter monolítico do sistema. O sistema monolítico é um sistema mecânico: cada máquina funciona exatamente como qualquer outra, saída da mesma oficina.
MOYERS: O que você quis dizer quando escreveu que o início do amor romântico no Ocidente foi “a libido contra o credo”?
CAMPBELL: Bem, o credo diz “Eu creio”, e eu creio não apenas nas leis, mas também que elas foram instituídas por Deus, e com Deus não há discussão. Essas leis pesam enormemente sobre mim; desobedecê-las é pecado e tem a ver com meu caráter eterno.
MOYERS: Isso é o credo?
CAMPBELL: Isso é o credo. Você acredita, então vai ao confessionário, percorre toda a lista de pecados e acaba por se enquadrar em alguns deles; em vez de ir ao sacerdote e dizer: “Abençoe me, padre, porque eu estive muito bem esta semana”, você medita sobre os pecados e, ao fazê-lo, torna-se de fato um pecador. Na verdade, é uma condenação da vontade de viver – isso é que é o credo.
MOYERS: E a libido?
CAMPBELL: A libido é o impulso para a vida. Vem do coração.
MOYERS: E o coração é...
CAMPBELL: ...o coração é o órgão que se abre para o outro. É a qualidade humana, em oposição às qualidades animais, que têm a ver com o interesse próprio de cada um.
MOYERS: Você entende então o amor romântico como oposto à luxúria, à paixão, ou a um sentimento religioso geral?
CAMPBELL: Sim. O casamento nas culturas tradicionais era arranjado pelas famílias. Não era absolutamente uma decisão entre duas pessoas. Na India, hoje, há colunas de anúncios de esposas, nos jornais, colocados por agências de matrimônio. Lembro me de uma jovem, de uma família que conheci lá, que ia se casar. Ela nunca tinha visto o rapaz que ia ser seu marido, e perguntava aos irmãos: “Ele é alto? Tem pele escura? Pele clara? Como é?” Na Idade Média, esse era o tipo de casamento santificado pela Igreja, de modo que a idéia trovadoresca do verdadeiro Amor entre duas pessoas era muito perigosa.
MOYERS: Por ser uma heresia?
CAMPBELL: Não apenas heresia, era adultério, o que poderia ser chamado de adultério espiritual. Como os casamentos eram todos arranjados pela sociedade, o amor derivado de um encontro de olhares tinha um alto valor espiritual.
Por exemplo, na história de Tristão, Isolda está comprometida a se casar com o rei Mark. Eles nunca se haviam visto. Tristão é enviado para escoltar Isolda até Mark, e a mãe de Isolda prepara uma poção amorosa, a fim de que os noivos nutrissem verdadeiro amor um pelo outro. A poção é colocada sob a guarda da camareira que deve acompanhar Isolda, mas ela se distrai e Tristão e Isolda, pensando que é vinho, bebem a poção e são acometidos de amor. Mas eles já estavam enamorados, só que não o sabiam. A poção amorosa apenas trouxe isso à tona. Todos se lembram desse tipo de experiência. O problema, do ponto de vista do trovador, é que o rei Mark e Isolda, que estão para se casar, não estão na verdade qualificados para o amor. Eles nunca chegaram sequer a se ver. O verdadeiro matrimônio é aquele que brota da descoberta da identificação com o outro, e a união física é apenas o sacramento pelo qual isso é confirmado. A coisa não se dá no sentido contrário, do interesse físico que depois se torne espiritualizado. Começa com o impacto espiritual do amor – o Amor.
MOYERS: Cristo falou do “adúltero no coração”, a violação da união, que se dá espiritualmente, na mente e no coração.
CAMPBELL: E todo casamento constituía uma violação dessas, quando era arranjado pela sociedade e não pelo coração. Esse é o sentido do amor cortês, na Idade Média. Contradiz inteiramente o caminho pregado pela Igreja. A palavra AMOR, lida ao contrário, é ROMA, a Igreja Católica Romana, que justificava casamentos que não passavam de arranjos políticos e sociais. Então surgiu esse movimento que validava a escolha individual, que eu chamo de “perseguir a bem aventurança”.
Mas aí se esconde algum perigo, também, é claro. Na história de Tristão, depois que eles bebem a poção amorosa, a camareira, ao se dar conta do que tinha acontecido, vai a Tristão e diz: “Você bebeu sua morte”. E Tristão responde: “Por minha morte você entende esta dor de amor?” Porque esse era um ponto básico, o indivíduo devia sentir a enfermidade do amor. Não há nada mais no mundo capaz de preencher a sensação de identidade como a experimentada no amor. Tristão diz: “Se por minha morte você entende esta agonia de amor, isso é a minha vida. Se por minha morte você entende a punição que sofreremos se formos descobertos, eu aceito isso. E se por minha morte você entende a punição eterna nas chamas do inferno, aceito isso também”. Bem, aí a coisa já é para valer!
MOYERS: Especialmente para os católicos da Idade Média, que acreditavam literalmente no inferno. Qual é, então, o significado do que Tristão disse?
CAMPBELL: O que ele disse é que o amor é ainda maior do que a morte e a dor, maior do que tudo. Isso é a afirmação da dor da vida, de uma maneira grandiosa.
MOYERS: E ele escolheria essa dor de amor, agora, ainda que isso significasse dor e danação perpétuas, no inferno.
CAMPBELL: Qualquer caminho de vida que eu escolha, no encalço da minha bem aventurança, deve ser escolhido nesses termos; ninguém nem nada deve assustar me e demover me da escolha. Não importa o que aconteça, isso é a validação da minha vida e da minha ação.
MOYERS: E escolher o amor, também?
CAMPBELL: Escolher o amor também.
MOYERS: Você escreveu uma vez que a questão com o inferno, e com o céu, é que, uma vez lá, você está no lugar certo, que é finalmente o lugar onde queria estar.
CAMPBELL: Essa é uma idéia de Bernard Shaw e, na verdade, de Dante, também. A punição do inferno é ter, por toda a eternidade, o que você achou que queria na terra.
MOYERS: Tristão queria o seu amor, queria a sua bem aventurança, e estava disposto a sofrer por isso.
CAMPBELL: Sim. Mas então William Blake diz, na maravilhosa série de aforismos “O casamento do céu e do inferno”: “Enquanto eu caminhava entre as chamas do inferno (...) que, para os anjos, pareciam um tormento” – ou seja, para os que estão lá, e não são anjos, não é o fogo da dor, é o fogo do deleite.
MOYERS: Lembro me do “Inferno” de Dante, o poeta observando, no inferno, os grandes amantes da história, Helena, Cleópatra, Tristão. Qual é o sentido disso?
CAMPBELL: Dante assume a atitude da Igreja, de que isso é o inferno e eles estão sofrendo, lá. Lembre se, ele vê os dois jovens amantes da Itália do seu tempo, Paolo e Francesca. Francesca teve um caso de amor com Paolo, irmão de seu marido. E Dante, como um cientista social, pergunta: “Meu bem, como isso aconteceu? O que provocou isso?” E então vêm os versos mais famosos de Dante. Francesca diz que ela e Paolo estavam sentados sob uma árvore, no jardim, lendo a história de Lancelote e Ginebra. “E quando lemos a respeito do seu primeiro beijo, olhamos um para o outro e não lemos mais no livro, esse dia.” E isso foi o início da sua queda. Que essa maravilhosa experiência fosse condenada como pecado é aquilo a que os trovadores se o põem, com firmeza. O amor é o sentido da vida, é a culminância da vida.
MOYERS: Foi isso o que Wagner quis dizer, em sua grande ópera Tristão e Isolda: “Neste mundo, deixe me ter o meu mundo, para ser condenado ou salvo com ele”?
CAMPBELL: Sim, foi exatamente o que Tristão disse.
MOYERS: Significando “Eu quero o meu amor, quero a minha vida”.
CAMPBELL: “Esta é a minha vida”, sim. “E, por ela, estou disposto a enfrentar qualquer tipo de dor.”
MOYERS: E isso exigiu coragem, não exigiu?
CAMPBELL: Não exige? Só pensar nisso já exige.
MOYERS: “Não exige”, você pôs o verbo no presente.
CAMPBELL: Sim.
MOYERS: Mesmo agora?
CAMPBELL: Sim.
MOYERS: Você disse que o objetivo de todos esses pioneiros do amor é que eles decidiram ser os autores e os instrumentos da sua própria autorealização, que a consciência do amor é o trabalho mais nobre da natureza, e que eles estavam dispostos a extrair a sua sabedoria da sua experiência e não do dogma, da política ou de qualquer conceito corrente de bem social. Isso é o início da idéia romântica do homem ocidental tomando a decisão em suas próprias mãos?
CAMPBELL: Sem dúvida. Há exemplos de algo semelhante nas histórias orientais, mas jamais resultaram num sistema social. Mas isso veio a se tornar o ideal de amor no mundo ocidental.
MOYERS: Amor baseado em experiência própria, tomar a própria experiência como fonte de sabedoria.
CAMPBELL: Sim, isso é o indivíduo. A melhor parte da tradição ocidental expressou reconhecimento e respeito pelo indivíduo como entidade viva. A função da sociedade é promover o indivíduo. Não é função do indivíduo sustentar a sociedade.
MOYERS: Mas o que aconteceria às instituições – universidades, corporações, igrejas, instituições políticas da nossa sociedade – se nós simplesmente saíssemos correndo no encalço do amor? Deve haver algum limite, legítimo, para além do qual a intuição, a libido, o desejo, o amor, o impulso que leva o indivíduo a fazer o que quer, deva ser reprimido; do contrário, haveria tumulto e anarquia, e nenhuma instituição poderia sobreviver. Você está realmente dizendo que devemos partir no encalço da nossa bem aventurança, do nosso amor, não importa aonde isso conduza?
CAMPBELL: Bem, é preciso usar a cabeça. O que dizem, você sabe, é que um caminho estreito é um caminho perigoso... o fio da navalha.
MOYERS: Então, cabeça e coração não devem entrar em guerra?
CAMPBELL: Não, não devem. Devem entrar em cooperação. A cabeça deve estar presente e o coração deve ouvi Ia, uma vez ou outra.
MOYERS: Há momentos em que o coração comanda?
CAMPBELL: Essa deveria ser a situação desejável, na maior parte das vezes. As cinco virtudes básicas do cavaleiro medieval podem ser lembradas aqui. Temperança, coragem, amor, lealdade, cortesia. Cortesia é respeito pelo decoro da sociedade em que se vive.
MOYERS: Então o amor não caminha sozinho, é assistido por...
CAMPBELL: ...o amor é uma dentre várias funções. Uma boa maneira de enlouquecer é permitir que uma função domine o sistema todo e não sirva ao conjunto. A idéia medieval, a despeito de essas pessoas estarem protestando contra as autoridades eclesiásticas, era de respeito pela sociedade da qual faziam parte. Tudo era feito de acordo com regras. Quando dois cavaleiros lutavam, jamais violavam as regras do combate, embora se empenhassem num combate mortal. Essa cortesia deve ser lembrada.
MOYERS: Havia regras da lei? Regras do amor? Havia restrições quanto ao adultério, por exemplo? Se seus olhos caíssem sobre alguém que não era sua esposa, ou seu marido, qual deveria ser sua reação, na era medieval?
CAMPBELL: Bem, esse foi o início das relações do amor cortês. O jogo tinha regras, e eles o jogavam de acordo com elas. Tinham o seu próprio sistema de regras. Não eram aquelas da Igreja, eram regras para se jogar harmoniosamente, e com os resultados pretendidos. Tudo quanto você faz envolve um sistema de regras que estabelecem como algo deve ser feito, e bem feito. Já se disse que arte é fazer coisas bem feitas. E a conduta num caso amoroso... bem, você podia ser um palerma desajeitado nesse assunto, mas tudo se torna bem mais agradável se você possui o conhecimento de certas regras que lhe permitam expressar se de forma mais eloqüente e gratificante.
MOYERS: Então a idade da cavalaria e do cavalheirismo estava em franco desenvolvimento quando a idade do amor romântico teve o seu início.
CAMPBELL: Eu diria que se trata da mesma coisa. Aquele foi um período estranho, pois era terrivelmente brutal. Não havia uma lei centralizada. Cada um se guiava por si, e, é claro, houve grandes violações de todas as normas. Mas, no interior dessa brutalidade, havia uma força civilizadora, efetivamente representada pelas mulheres, pois foram elas que estabeleceram as regras desse jogo. E os homens deviam jogá-lo de acordo com as exigências delas.
MOYERS: Como aconteceu de a mulher exercer uma influência dominante?
CAMPBELL: Quando você quer fazer amor com uma mulher, ela já o tem sob a mira. O termo técnico para quando a mulher se entrega era “mercí”. A mulher entrega a sua “merci”. Pois bem, isso pode significar que ela consinta em ser beijada na nuca todo dia de Pentecostes, ou qualquer coisa do gênero – você sabe, uma vez por ano, como pode significar a total entrega do seu amor. Tudo dependerá da avaliação que ela fizer do caráter do candidato.
MOYERS: E havia regras para a aplicação do teste?
CAMPBELL: Sim. A exigência fundamental era que o indivíduo tivesse um coração gentil, isto é, um coração capaz de amor, não só de luxúria. A mulher tentaria avaliar se o candidato ao seu amor tinha um coração gentil, se era capaz de amor. Temos de nos lembrar, também, de que todas essas damas pertenciam à nobreza e que esta, naquele tempo, era altamente sofisticada e competente, tanto na brutalidade quanto na ternura. Hoje, não sei o que faria uma mulher para testar o temperamento do candidato e saber se ele tem um coração gentil, nem sei se isso corresponde a algum ideal desejado pela mulher um coração gentil.
MOYERS: O que é, para você, a idéia do coração gentil?
CAMPBELL: Alguém que seja capaz de... bem, a palavra chave, para mim, é compaixão.
MOYERS: E o que isso significa?
CAMPBELL: Sofrer com. “Paixão” é sofrer e “com “ é companhia. A palavra alemã dá a mesma idéia, de um modo mais claro: mitleu, “com” (mit) “pesar ou sofrimento” (leid). A idéia essencial era testar o homem para se assegurar de que ele seria capaz de sofrer por amor, e de que este, portanto, não era apenas luxúria.
MOYERS: Joseph, isso pode ter surgido no período dos trovadores, mas ainda estava vivo e atuante no início dos anos 50, na região leste do Texas.
CAMPBELL: Eis aí a força desse princípio. Ele se originou na Provença do século XII e você foi topar com ele no Texas do século XX.
MOYERS: Bem, isso mais tarde se desfez, é preciso que lhe diga. Quero dizer, não sei se hoje ainda é um teste como costumava ser. Mas sou grato a ele, eu acho. Não estou certo...
CAMPBELL: Os testes aplicados naquela altura envolviam, por exemplo, enviar o indivíduo para proteger uma ponte. O tráfego na Idade Média ficou um tanto congestionado com todos esses jovens guardando pontes. Mas os testes incluíam também participar de uma batalha. Uma mulher demasiado rude ao solicitar do seu pretendente que arriscasse a vida, efetivamente, antes de lhe conceder qualquer favor, era considerada sauvage, ou “selvagem”. Mas a mulher que se entregava sem nenhum teste também era sauvage. O que se praticava, então, era um interessante jogo de avaliação psicológica.
MOYERS: Os trovadores não pretendiam, não é mesmo?, dissolver casamentos ou desmantelar o mundo, nem seu objetivo era o intercurso carnal, a luxúria, ou saciar a sede que a alma tinha de Deus. Você diz: “Antes, eles celebravam a vida diretamente, na experiência do amor, como um refinamento, uma força sublimadora, que abria o coração para a triste e agridoce melodia de ser, através do amor, cada um a sua própria angústia e alegria”. Eles não estavam tentando destruir as coisas, estavam?
CAMPBELL: Não, você sabe, não era a atração do poder o que os animava, mas sim a atração da experiência pessoal e da sublimação. É muito diferente. Não havia um ataque direto à Igreja. A idéia era sublimar a vida num plano espiritual de experiências.
MOYERS: O amor está aí, bem diante de mim. O Amor é o caminho que se abre à minha frente, os olhos...
CAMPBELL: ...aquela idéia do encontro dos olhares. “Assim, pelos olhos, o amor atinge o coração:/Pois os olhos são os espiões do coração.”
MOYERS: O que é que os trovadores aprenderam sobre a psique? Ouvimos falar da psique – Eros amou Psique – e fomos alertados para a necessidade de compreender nossa psique. O que é que os trovadores descobriram sobre a psique humana?
CAMPBELL: O que eles descobriram foi um determinado aspecto particular da psique, de que não é possível falar em termos puramente gerais. A experiência individual, o empenho do indivíduo na experiência, a crença do indivíduo na experiência, a vida individual – esse é o ponto chave.
MOYERS: Então o amor não é o amor em geral, é o amor por essa mulher?
CAMPBELL: Por essa única mulher. Exato.
MOYERS: Na sua opinião, por que é que nos apaixonamos por determinada pessoa e não por outra?
CAMPBELL: Bem, não seria eu a dizê-lo. É uma coisa muito misteriosa, aquela coisa elétrica que acontece, e depois a agonia que pode advir. Os trovadores celebraram a agonia do amor, a enfermidade que os médicos não podem curar, as feridas que só podem ser cicatrizadas pela arma que as provocou.
MOYERS: O que isso quer dizer?
CAMPBELL: A ferida é a ferida da minha paixão e a agonia do meu amor por esta criatura. A única criatura capaz de cicatrizá-la é aquela que provocou o ferimento. Este é um motivo que aparece, de forma simbólica, em muitas histórias medievais, o motivo da lança que produz um ferimento. Só quando a lança toca de novo a ferida é que esta chega a cicatrizar.
MOYERS: Não existe algo nesse sentido, na lenda do Santo Graal?
CAMPBELL: Na versão monástica da história, o Graal é associado à paixão de Cristo. O Graal é o cálice da última Ceia, o cálice que recebeu o sangue de Cristo, quando este foi retirado da cruz.
MOYERS: Que é que o Graal representa, então?
CAMPBELL: Existe um documento interessante sobre a origem do Graal. Um dos primeiros escritores diz que o Graal foi trazido dos céus pelos anjos neutros. Bem, durante a guerra, no céu, entre Deus e Satã, entre o bem e o mal, algumas hostes angélicas se colocaram do lado de Satã, e outras, do lado de Deus. O Graal foi trazido, através do caminho do meio, pelos anjos neutros. O Graal representa o caminho espiritual que se estende entre os pares de opostos, entre o medo e o desejo, entre o bem e o mal. O tema da história do Graal é que a terra, o país, todo o território de ocupação foi devastado. Isto se chama terra devastada. E o que caracteriza a terra devastada? É a terra em que todos vivem uma viva inautêntica, fazendo o que os outros fazem, fazendo o que são mandados fazer, desprovidos de coragem para uma vida própria. Isso é a terra devastada.
É isso o que T. S. Eliot quis dizer no seu poema “A terra devastada”. Numa terra devastada, a superfície não representa a verdade do que supostamente representaria, e as pessoas vivem vidas inautênticas. “Em toda a minha vida, nunca fiz o que queria. Sempre fiz o que me mandaram fazer.” Você sabe...
MOYERS: E o Graal se torna...?
CAMPBELL: O Graal se torna... como poderia dizer?... aquilo que é logrado e conscientizado por pessoas que viveram suas próprias vidas. O Graal representa a realização das mais altas potencialidades espirituais da consciência humana. O rei Graal, por exemplo, era um jovem adorável, mas que não tinha feito jus à posição de rei Graal. Ele partiu do castelo com o grito de guerra “Amor!”, o que é próprio da juventude, mas não se coaduna com a condição de guardião do Graal. E, quando ele cavalgava, um muçulmano, um cavaleiro pagão, surgiu da floresta. Ambos erguem as lanças e se atiram um contra o outro. A lança do rei Graal mata o pagão, mas a lança do pagão castra o rei Graal.
O que isso quer dizer é que a separação cristã entre matéria e espírito, entre o dinamismo da vida e o reino do espírito, entre a graça natural e a graça sobrenatural, na verdade castrou a natureza. E a mente européia, a vida européia, tem sido, por assim dizer, emasculada por essa separação. A verdadeira espiritualidade, que resultaria da união entre matéria e espírito, foi morta. O que representava, então, o pagão? Era alguém dos subúrbios do Éden.
Era encarado como um homem da natureza, e na ponta da sua lança estava escrita a palavra
“Graal”. Isso quer dizer que a natureza aspira ao Graal. A vida espiritual é o buquê, o perfume, o florescimento e a plenitude da vida humana, e não uma virtude sobrenatural imposta a ela.
Desse modo, os impulsos da natureza é que dão autenticidade à vida, não as regras provenientes de uma autoridade sobrenatural. Esse é o sentido do Graal.
MOYERS: Foi isso o que Thomas Mann quis dizer quando falou da humanidade como a criação mais nobre, porque reúne natureza e espírito?
CAMPBELL: Sim.
MOYERS: Natureza e espírito anseiam por se encontrar um ao outro, nessa experiência. E o Graal, procurado nessas lendas românticas, é, outra vez, a reunião do que tinha sido dividido, a paz que advém da união.
CAMPBELL: O Graal se tornou o símbolo de uma vida autêntica, vivida de acordo com sua própria volição, de acordo com seu próprio sistema de impulsos, vida que se move entre os pares de opostos, o bem e o mal, a luz e a treva. Uma das versões da lenda do Graal começa a sua longa narrativa épica com um breve poema, que diz: “Todo ato traz bons e maus resultados”. Todo ato na vida desencadeia pares de opostos em seus resultados. O melhor que podemos fazer é pender na direção da luz, na direção do harmonioso relacionamento que resulta da compaixão pelo sofrimento, que resulta de compreender o outro. É disso que trata o Graal. E isso é o que ressuma da história. Na lenda do Graal, o jovem Percival foi criado no campo: sua mãe rejeitava a corte e não queria que o filho soubesse nada a respeito das regras da corte. A vida de Percival foi vivida em termos da dinâmica dos seus próprios impulsos, até que ele chegou a uma idade mais madura. Então, uma bela jovem lhe foi oferecida em casamento, pelo pai da moça, que havia treinado Percival para ser cavaleiro, e este responde: “Não, eu preciso merecer uma esposa, não ganhar uma de presente”. E esse foi o início da Europa.
MOYERS: O início da Europa?
CAMPBELL: Sim, a Europa do indivíduo, a Europa do Graal. Quando Percival chega ao castelo do Graal, encontra o rei Graal sendo carregado numa liteira, ferido, mantido vivo apenas pela presença do Graal. A compaixão de Percival o leva a indagar: “O que o atormenta, Tio?” Mas ele não chega a fazer a pergunta, pois tinha sido ensinado, por seu instrutor, que um cavaleiro não faz perguntas desnecessárias. Ele obedece à regra, e a aventura falha.
Percival passará, então, cinco anos de provações e dificuldades e toda sorte de coisas, até voltar ao castelo e fazer a pergunta que cicatriza a ferida do rei e cicatriza a sociedade. A pergunta é a expressão, não das regras da sociedade, mas da compaixão, da abertura natural do coração humano para outro ser humano. Isso é o Graal.
MOYERS: E é uma espécie de amor que...
CAMPBELL: Bem, é uma compaixão espontânea, um sofrer com.
MOYERS: Jung disse alguma coisa sobre a alma que não,pode viver em paz até encontrar o seu outro, e o outro é sempre um tu. E isso o que os românticos...
CAMPBELL: Sim, exatamente: romance. Isso é romance. É disso que trata o mito.
MOYERS: Não o tipo sentimental de romance...
CAMPBELL: Não, o sentimentalismo é um eco da violência; não é, na verdade, uma expressão vital.
MOYERS: Na sua opinião, o que é que tudo isso diz a respeito do amor romântico? A respeito de nós mesmos, enquanto indivíduos?
CAMPBELL: Diz que estamos em dois mundos. Estamos em nosso próprio mundo e no mundo que nos foi dado, lá fora, e o problema todo é conseguir uma relação harmoniosa entre os dois. Eu cheguei a esta sociedade, portanto devo viver de acordo com ela. É ridículo não viver de acordo com esta sociedade, porque, a menos que o faça, não estarei vivendo. Mas não posso permitir que esta sociedade me diga como devo viver. Cada um deve construir o seu próprio sistema, que pode contrariar as expectativas da sociedade, e a sociedade talvez não o aceite. Mas o objetivo da vida é viver dentro do campo oferecido pela sociedade, que efetivamente sustenta você.
O problema surge, por exemplo, numa guerra, quando os jovens precisam se inscrever para o recrutamento. Isso envolve uma difícil decisão. Até onde você está disposto a ir, ao concordar com o que a sociedade espera de você – matar outras pessoas , a quem você não conhece? Por quê? Por quem? Todo esse tipo de coisa.
MOYERS: Foi isso que eu quis dizer, um pouco antes, quando disse que a sociedade não podia existir se todos os corações e todos os olhares estivessem vagando por aí, sem rumo.
CAMPBELL: Sim, é isso mesmo. Mas existem algumas sociedades que não deveriam existir, você sabe.
MOYERS: Mais cedo ou mais tarde, elas...
CAMPBELL: ...entram em colapso.
MOYERS: Os trovadores provocaram um colapso naquele velho mundo.
CAMPBELL: Não acho que tenham sido eles, realmente.
MOYERS: Foi o amor.
CAMPBELL: Foi... bem, foi um pouco de tudo. Lutero foi, de certo modo, um trovador de Cristo. Ele tinha idéias próprias sobre o que significava ser um sacerdote. E isso de fato arruinou a Igreja medieval, que nunca se recuperou.
Sabe, é muito esclarecedor pensar na história do cristianismo. Nos primeiros cinco séculos, havia vários cristianismos, vários modos de ser cristão. Já no tempo de Teodósio, no quarto século, a única religião permitida no Império Romano era o cristianismo, e a única forma de cristianismo permitida era aquela do trono bizantino. O vandalismo envolvido na destruição dos templos pagãos da Antiguidade poucas vezes foi igualado, na história mundial.
MOYERS: Eles foram destruídos pela Igreja organizada?
CAMPBELL: Pela Igreja organizada. E por que os cristãos não podiam conviver com outra religião? Qual era o problema?
MOYERS: O que você acha a respeito?
CAMPBELL: É o poder, o poder. Penso que o impulso do poder é o impulso fundamental na história européia, e integra as nossas tradições religiosas.
Um dos aspectos interessantes das lendas do Graal é que elas ocorrem cerca de quinhentos anos depois que o cristianismo se impôs na Europa. Elas representam a reunião de duas tradições.
Lá pelo final do século XII, o abade Joachim de Floris escreveu sobre as três idades do espírito. Depois da expulsão do Paraíso, ele disse, Deus tinha de oferecer alguma compensação pelo desastre, reintroduzindo na história o princípio espiritual. Ele escolheu então uma raça, que se tornaria o veículo dessa comunicação, e essa é a idade do Pai e de Israel. Essa raça, portanto, tendo sido preparada como uma raça de sacerdotes, apta a se tornar o receptáculo da Encarnação, produz o Filho. Aí tem início a segunda idade, a do Filho e da Igreja, quando toda a humanidade, e não apenas uma raça, deve receber a mensagem da vontade espiritual de Deus.
A terceira idade, que esse filósofo, por volta de 1260, disse que estava para começar, é a idade do Espírito Santo, que fala diretamente ao indivíduo. Qualquer um que encarne ou traga no âmago de sua própria vida a mensagem da Palavra, se equipara a Jesus; este é o sentido dessa terceira idade. Assim como Israel se tornou arcaico pelo advento da Igreja, esta se tornou igualmente arcaica pelo advento da experiência individual. Isso deu início a todo um movimento de eremitas que se dirigiam às florestas para viver a experiência. O santo considerado o primeiro representante desse movimento foi São Francisco de Assis, tomado como equivalente de Cristo e considerado, em si, como manifestação do Espírito Santo no mundo físico.
Pois bem, isso é o que subjaz à demanda do Graal. Galaad, em sua demanda, se equivale a Cristo. Trajando uma armadura vermelho ígnea, ele foi introduzido na corte do rei Artur, durante a festa de Pentecostes, que é a festa da descida do Espírito Santo, para os apóstolos, sob a forma de fogo. Cada um de nós, você sabe, pode ser um Galaad. Esta é uma posição gnóstica quanto à mensagem do cristianismo. Os documentos gnósticos, incinerados no deserto, no tempo de Teodósio, expressam essa idéia.
No Evangelho Gnóstico segundo Tomás, por exemplo, Jesus diz: “Aquele que beber da minha boca se tornará como eu e eu serei ele”. Esta é a idéia básica, nas histórias do Graal.
MOYERS: Você disse que nos séculos XII e XIII aconteceu uma das mais importantes mutações do sentimento humano e da consciência espiritual, que um novo caminho da experiência do amor se abriu.
CAMPBELL: Sim.
MOYERS: E isso se deu em oposição ao despotismo eclesiástico sobre o coração, que obrigava as pessoas, especialmente as moças, a desposarem quem quer que a Igreja e os progenitores quisessem que elas desposassem. Qual foi o efeito disso sobre a paixão do coração?
CAMPBELL: Bem, primeiro, ainda com relação ao casamento arranjado, é preciso reconhecer que na vida doméstica desponta uma relação amorosa entre marido e mulher, mesmo que não tenha sido deles a decisão de estarem juntos. Em outras palavras, existe um bocado de amor em casamentos arranjados, dessa espécie. Existe o amor familiar, uma rica vida de amor, nesse nível. Mas não existe a outra coisa, o arrebatamento decorrente de reconhecer a contraparte da sua alma na outra pessoa. Foi isso que os trovadores propagaram, o que se tornou, hoje, o ide al de nossas vidas. Mas casamento é casamento, você sabe. Casamento não é um caso de amor. Um caso de amor é algo inteiramente diferente. O casamento é um compromisso com aquilo que você é. Aquela pessoa é literalmente a sua outra metade. Você e o outro são um só. Um caso de amor não é nada disso, é um relacionamento que visa ao prazer, e, quando deixa de proporcionar prazer, está acabado. Mas o casamento é um compromisso para a vida, e um compromisso para a vida significa a preocupação primordial da sua vida. Quando o casamento não é uma preocupação primordial, você não está casado.
MOYERS: O romance pode se prolongar, no casamento?
CAMPBELL: Em alguns, sim. Em outros, não. Mas o problema, veja, a palavra chave na tradição trovadoresca é “lealdade”.
MOYERS: O que você entende por lealdade?
CAMPBELL: Não trapacear, não trair; manter se verdadeiro, quaisquer que sejam as provações e sofrimentos.
MOYERS: Os puritanos chamam o casamento de “a pequena igreja dentro da Igreja”. Todo dia você ama, todo dia você perdoa. É um contínuo sacramento – amor e perdão.
CAMPBELL: Bem, a palavra certa, penso eu, é “provação”, no sentido próprio, de submissão do indivíduo a algo superior a ele. A verdadeira vida de um casamento, ou de um autêntico caso de amor, está na relação, que é onde você está, também. Você entende o que eu quero dizer?
MOYERS: Não, não está claro para mim.
CAMPBELL: Veja, é como o símbolo yin/yang. Aqui estou eu, aqui está ela, aqui estamos.
Pois bem, quando eu preciso fazer algum sacrifício, não estou me sacrificando por ela, mas pela relação. O ressentimento em relação ao outro é sempre negativo. A vida está na relação, é nela que a sua está, agora. Isso é que é o casamento; ao passo que, num caso de amor, você tem duas vidas vivendo uma relação mais ou menos bem sucedida, por algum tempo, enquanto isso parecer agradável.
MOYERS: No sacramento do matrimônio, o que Deus uniu não pode ser separado pelo homem.
CAMPBELL: Homem e mulher eram um só, na origem, e o matrimônio restabelece simbolicamente essa unidade.
MOYERS: Eram um só, na origem?
CAMPBELL: O casamento é o reconhecimento simbólico da nossa identidade, dois aspectos da mesma coisa.
MOYERS: Você conhece a velha e curiosa lenda do profeta cego Tirésias?
CAMPBELL: Sim, é uma história excelente. Tirésias caminhava um dia pela floresta, quando viu duas serpentes copulando. Colocou o seu cajado entre elas e foi transformado numa mulher, e viveu como mulher por alguns anos. Aí outra vez Tirésias, mulher, caminhava pela floresta quando viu duas serpentes copulando, colocou seu cajado entre elas e foi de novo transformado em homem.
Bem, um belo dia, na colina do Capitólio, a colina de Zeus...
MOYERS: O Monte Olimpo?
CAMPBELL: ...o Monte Olimpo, sim... Zeus e sua mulher estavam discutindo, para saber quem extraía mais prazer da relação sexual, o homem ou a mulher. E nenhum deles, é claro, podia decidir, porque eles estavam em apenas um dos lados da rede, você poderia dizer. Então alguém disse: “Vamos perguntar a Tirésias”.
Eles então se dirigem a Tirésias, fazem lhe a pergunta e ele diz: “Ora, a mulher, nove vezes mais do que o homem”. Bem, por alguma razão que eu realmente não compreendo, Hera, mulher de Zeus, não gostou da resposta e cegou Tirésias. Zeus, sentindo se um pouco responsável, concedeu a Tirésias o dom da profecia, em meio à cegueira. Há um ponto muito importante aqui: quando os olhos estão fechados para os fenômenos que distraem a atenção, você se concentra na sua intuição e pode entrar em contato com a morfologia, a forma básica das coisas.
MOYERS: Bem, qual é a conclusão, então? Tendo sido transformado pelas serpentes, primeiro em mulher, depois de novo em homem, Tirésias adquiriu conhecimento da experiência masculina e da feminina e ficou sabendo mais do que o deus ou a deusa sabiam, isoladamente?
CAMPBELL: Exatamente. Além disso, ele representava simbolicamente a unidade dos dois. E quando Ulisses foi enviado ao mundo das sombras, por Circe, sua verdadeira iniciação veio através de Tirésias, que propiciou a ele a consciência da unidade do masculino e do feminino.
MOYERS: Tenho pensado muitas vezes que, se fosse possível entrar em contato com o seu lado feminino – ou, se você for mulher, com o seu lado masculino , você ficaria sabendo o que os deuses sabem, ou até mais do que eles.
CAMPBELL: Essa é uma informação que se adquire através do matrimônio. É a maneira de você entrar em contato com o seu lado feminino.
MOYERS: Mas o que acontece a essa autodescoberta, no amor, quando você encontra alguém e, de súbito, sente: “Eu conhe ço essa pessoa”, ou “Eu quero conhecer essa pessoa”?
CAMPBELL: Isso é muito misterioso. É quase como se a vida futura, que você vai viver com essa pessoa, já lhe tivesse contado isso. Eis aqui alguém com quem você vai viver aquela vida em comum.
MOYERS: Não é alguma coisa que vem do interior da nossa reserva de memórias, que nós não compreendemos nem reconhecemos? Tocar uma pessoa e ser tocado por essa pessoa, de um modo...
CAMPBELL: É quase como se você estivesse reagindo em face do futuro. É aquilo que está por acontecer, falando a você. Isso tem a ver com o mistério do tempo e com a transcendência do tempo. Mas eu penso que estamos tocando, aqui, num mistério muito profundo.
MOYERS: Em sua vida, você simplesmente deixa isso aí, como um mistério? Ou você acha que é possível ter ao mesmo tempo, ambos bem sucedidos, um casamento e uma outra relação que não o casamento?
CAMPBELL: Tecnicamente, a resposta seria: “Bem, sim, é claro”.
MOYERS: Mas parece que aquilo que alguém dedica ao caso amoroso é extraído da relação matrimonial e compromete a lealdade dessa relação.
CAMPBELL: Acho que cada um deve lidar com essas coisas por si mesmo. Pode ser que aconteça uma grande paixão, depois que você tenha contraído matrimônio, e uma paixão tal que não dar livre curso a ela poderia... como dizê-lo?... embotar toda a experiência da vitalidade do amor.
MOYERS: Acho que esse é o âmago da questão. Se os olhos são os espiões do coração e revivem aquilo que o coração apaixonadamente deseja, será que o coração vai desejar apenas uma vez?
CAMPBELL: Deixe me dizer lhe que o amor não imuniza a pessoa no tocante a outras relações. Mas que alguém possa ter um caso amoroso pleno – repito, um caso amoroso pleno... e ao mesmo tempo manter se leal ao matrimônio, bem, não creio que isso chegue a acontecer.
MOYERS: Por quê?
CAMPBELL: A coisa se romperia. Mas a lealdade não o proíbe de ter uma relação afetuosa, até amorosa, com outra pessoa do sexo oposto. A maneira como as novelas de cavalaria descrevem a ternura das relações com outras mulheres, por parte daquele que se mantém leal ao seu amor, é muito encantadora e cheia de sensibilidade.
MOYERS: Os trovadores cantariam para suas damas, ainda que houvesse escassas esperanças de virem a entreter uma relação com elas.
CAMPBELL: Sim.
MOYERS: Bem, a mitologia diz alguma coisa a respeito de ser ou não ser melhor ter amado e perdido?
CAMPBELL: A mitologia, de modo geral, não lida efetivamente com o problema do amor pessoal, individual. O indivíduo desposa aquela que lhe é facultado desposar, você sabe. Caso pertença a este grupo, você pode se casar com esta mas não com aquela, e assim por diante.
MOYERS: Sendo assim, o que o amor tem a ver com a moralidade?
CAMPBELL: O amor viola a moralidade.
MOYERS: Viola?
CAMPBELL: Sim. Na medida em que se expressa a si mesmo, o amor não se está expressando em termos das formas de vida socialmente aprovadas. Por isso é, que tudo é tão secreto. O amor não tem nada a ver com a ordem social. E uma experiência espiritual mais elevada do que aquela do matrimônio socialmente organizado.
MOYERS: Quando dizemos que Deus é amor, isso tem algo a ver com o amor romântico?
A mitologia chega, de algum modo, a relacionar amor romântico e Deus?
CAMPBELL: É o que ela tem feito. O amor é uma visitação divina, e por isso é superior ao matrimônio. Essa era a idéia do trovador. Se Deus é amor, bem, então o amor é Deus. Mestre Eckhart disse: “O amor não conhece dor”. E foi exatamente o que Tristão quis dizer quando declarou: “Estou disposto a aceitar as dores do inferno por meu amor”.
MOYERS: Mas você tinha dito que o amor envolve sofrimento.
CAMPBELL: Esta é a outra idéia. Tristão estava vivendo o amor; Mestre Eckhart estava só falando a respeito dele. A dor do amor não é outra espécie de dor, é a dor da vida. Onde está a sua dor, está a sua vida, você poderia dizer.
MOYERS: Há aquela passagem das Epístolas aos Coríntios, em que Paulo diz: “O amor suporta tudo, resiste a tudo”.
CAMPBELL: É a mesma coisa.
MOYERS: E, apesar disso, um dos meus mitos favoritos é uma história persa, que diz que Satã foi condenado ao inferno porque amava demasiado a Deus.
CAMPBELL: Sim, essa é uma idéia básica do islamismo, a de que Satã é o maior dos amantes de Deus. Há várias maneiras de pensar em Satã, mas esta se baseia na questão: Por que Satã foi lançado ao inferno? A história convencional diz que, tendo criado os anjos, Deus disse lhes que não se curvassem senão diante dele. E então criou o homem, que ele concebeu como uma forma mais elevada que os anjos, pedindo a estes que o servissem. E Satã não se curvaria diante do homem.
Pois bem, isso é interpretado na tradição cristã, conforme me lembro do que aprendi na infância, como sendo o orgulho de Satã. Ele não se curvaria diante do homem. Mas, na história persa, ele não se curvaria diante do homem por causa do seu amor a Deus; ele só se curvaria diante de Deus. Deus mudou os sinais, você percebe? Mas Satã estava tão envolvido com o primeiro conjunto de sinais que não poderia transgredi-los, e em seu... não sei se Satã tem ou não um coração... mas em sua mente ele não podia curvar se diante de ninguém, exceto Deus, a quem ele amava. Então Deus diz: “Saia da minha vista”. Bem, o pior dos padecimentos do inferno, a julgar pelo que sabemos dele, é a ausência do Bem amado, que é Deus. Então, como Satã se mantém no inferno? Pela memória do eco da palavra de Deus, que lhe disse: “Vá para o inferno”. Isso é um grande indício de amor.
MOYERS: Bem, na vida, não há dúvida de que o pior dos infernos que alguém pode suportar é estar separado de quem ama. Por isso me tocou o mito persa. Satã é amante de Deus...
CAMPBELL: ...e está separado de Deus; essa é a sua verdadeira dor.
MOYERS: Existe outra história persa, sobre os dois progenitores primordiais.
CAMPBELL: Essa também é uma bela história, sim. Eles eram, na verdade, um só, no início, e cresceram como uma espécie de planta. Mas então se separaram, tornaram se dois e geraram filhos. E amaram tanto as crianças, que as comeram. Deus pensou: “Bem, isso não pode continuar”. Então reduziu o amor paterno em qualquer coisa como noventa e nove vírgula nove por cento, para que os pais deixassem de comer os próprios filhos.
MOYERS: O que é que esse mito...
CAMPBELL: Já ouvi pessoas dizerem: “Que coisinha deliciosa, seria capaz de comê-la”.
MOYERS: O poder do amor?
CAMPBELL: O poder do amor.
MOYERS: Tão intenso que precisou ser reduzido.
CAMPBELL: Sim. Vi uma vez uma gravura, uma boca escancarada, engolindo, e um coração dentro dela. Essa é a espécie de amor que devora. A espécie de amor que as mães deviam aprender a reduzir.
MOYERS: Senhor, ensine me quando deixar ir.
CAMPBELL: Sim. Na índia, havia pequenos rituais para ajudar as mães a deixarem ir, especialmente os seus filhos. O guru, o capelão da família, chegava e pedia à mãe que lhe desse qualquer coisa que ela apreciasse muito. Podia ser alguma jóia ou qualquer coisa de real valor. Então seguiam se os exercícios, em que a mãe ia aprendendo a desistir daquilo que mais apreciava. E aí, por fim, ela desistiria do filho.
MOYERS: Alegria e sofrimento se reúnem no amor.
CAMPBELL: Sim. O amor é o ponto de combustão da vida; como a vida é dolorosa, assim é o amor. Quanto maior o amor, maior o sofrimento.
MOYERS: Mas o amor resiste a tudo.
CAMPBELL: O amor em si é dor, você poderia dizer, a dor de estar verdadeiramente vivo.