VI

A DADIVA DA DEUSA

Os mitos da Grande Deusa ensinam a ter compaixão por todas as criaturas. Assim você chega a avaliar a verdadeira santidade da própria terra, que é o corpo da Deusa.

MOYERS: A oração ao Senhor começa: “Pai Nosso que estás no Céu...” Não podia ter sido “Mãe Nossa”?

CAMPBELL: Essa é uma imagem simbólica. Todas as imagens religiosas e mitológicas se referem a planos de consciência, ou campos de experiência, que existem potencialmente no espírito humano. Essas imagens evocam atitudes e experiências propícias à meditação sobre o mistério da fonte do seu próprio ser.

Houve sistemas religiosos em que a mãe era o principal progenitor, a fonte. A mãe, na verdade, é um progenitor mais próximo que o pai, porque o bebê nasce da mãe e o primeiro contato que experimenta é com a mãe. Tenho pensado, muitas vezes, que a mitologia é uma sublimação da imagem da mãe. Estamos falando da Mãe Terra. No Egito você tem a Mãe Céu, a deusa Nut, representada como sendo toda a esfera celeste. 

MOYERS: Fiquei fascinado pelo Egito ao ver, pela primeira vez, a imagem de Nut no teto de um daqueles templos.

CAMPBELL: Sim, conheço o templo.

MOYERS: É impressionante, por inspirar reverência e, ao mesmo tempo, por seu caráter sensual.

CAMPBELL: Sim. A idéia da Deusa se relaciona ao fato de que você nasceu de sua mãe e seu pai pode ser desconhecido, para você, ou ter morrido. Nas epopéias, freqüentemente, quando o herói nasce, o pai já morreu ou está em algum outro lugar, então o herói tem de partir à procura do pai.

Na história de Jesus, seu pai era o Pai do Céu, pelo menos em termos da simbologia.  Quando é colocado na cruz, Jesus está a caminho do pai, deixando a mãe para trás. E a cruz, que simboliza a terra, é o símbolo da mãe. Assim, na cruz, Jesus deixa o seu corpo sobre a mãe, de quem ele o havia adquirido, e vai para o pai, que é a suprema fonte transcendente do mistério.

MOYERS: Que impacto teve sobre nós essa procura do pai, através dos séculos? 

CAMPBELL: É um tema básico, na mitologia. Há um tema secundário, que ocorre em muitas narrativas ligadas à vida do herói, em que o menino diz: “Mãe, quem é meu pai?” Ela dirá: “Bem, seu pai está em tal ou qual lugar”, e então ele parte à procura do pai.  Na Odisséia, Telêmaco, filho de Ulisses, ainda é um bebê quando o pai parte para a Guerra de Tróia. A guerra se estende por dez anos e então, na viagem de volta para casa, Ulisses se perde por mais dez anos no mundo misterioso do Mediterrâneo mitológico. Atena se aproxima de Telêmaco, que está com vinte anos, e di z: “Vá encontrar o seu pai”. Ele não sabe onde o pai está. Vai a Nestor e pergunta: “Onde você acha que meu pai poderia estar?” E este responde: “Bem, vá perguntar a Proteu”. Ele está à procura do pai. 

MOYERS: Em Guerra nas estrelas, Luke Skywalker diz aos companheiros: “Eu gostaria de ter conhecido meu pai”. Existe algo poderoso na imagem da procura do pai. Mas por que não a procura da mãe?

CAMPBELL: Bem, a mãe está aí mesmo. Você nasceu dela, ela o amamenta, lhe dá educação e acompanha o seu crescimento, até a idade em que você deve ir procurar o seu pai.

Pois bem, encontrar o pai tem a ver com o encontro do seu próprio caráter e do seu próprio destino. Acredita se que o caráter seja herdado do pai e o corpo, e muitas vezes a mente, da mãe. Mas o mistério reside no seu caráter, e o seu caráter é o seu destino. Portanto, a procura do pai simboliza a descoberta do seu destino.

MOYERS: Então, quando encontra o seu pai, você encontra a si mesmo?

CAMPBELL: Em inglês, podemos dizer “at one ment”{3} junto ao pai. Você deve se lembrar da história de Jesus perdido em Jerusalém, quando tinha doze anos de idade. Seus pais o procuram e o encontram no templo, conversando com os doutores da lei, e perguntam lhe:

“Por que você nos abandonou desse modo? Por que você nos causou tanto medo e ansiedade?” E ele diz: “Vocês não sabiam que eu devia estar às voltas com a ocupação do meu pai?” Ele estava com doze anos, a idade da iniciação adolescente, em que o menino parte à procura do pai.

MOYERS: Mas o que aconteceu, no meio do percurso, a essa reverência que, nas sociedades primitivas, era dirigida à figura da Deusa, a Grande Deusa, a Mãe Terra? 

CAMPBELL: Bem, isso estava associado, primordialmente, à agricultura e às sociedades agrárias. Tinha a ver com a terra. A mulher dá à luz, assim como da terra se originam as plantas. A mãe alimenta, como o fazem as plantas. Assim, a magia da mãe e a magia da terra são a mesma coisa. Relacionam se. A personificação da energia que dá origem às formas e as alimenta é essencialmente feminina. A Deusa é a figura mítica dominante no mundo agrário da antiga Mesopotâmia, do Egito e dos primitivos sistemas de cultura do plantio.

Encontramos centenas de variações da Deusa na primitiva Europa neolítica, mas praticamente nada ligado à figura masculina. O touro e certos animais, como o javali e o bode, podem aparecer como simbólicos do poder masculino, mas a Deusa é a única divindade visualizada, nessa altura.

E quando você tem uma Deusa como criador, o próprio corpo dela é o universo. Ela se identifica com o universo. É esse o sentido daquela figura da deusa Nut, que você viu no templo egípcio. Ela é toda a esfera dos céus que abarcam a vida. 

MOYERS: Existe uma imagem da Deusa engolindo o sol, você se lembra?

CAMPBELL: A idéia é que ela engole o sol no oeste e volta a dar lhe nascimento no leste.

E o sol atravessa o seu corpo durante a noite.

MOYERS: Então seria natural, para aqueles que procuram entender as maravilhas do universo, tomar a figura feminina como explicação do que percebem nas suas próprias vidas.

CAMPBELL: Não só isso. Quando você depara com uma perspectiva filosófica, como nas religiões consagradas à Deusa, na índia – onde a simbologia da Deusa é dominante ainda hoje , o feminino representa a maya. O feminino representa o que, em termos kantianos, chamamos de formas da sensibilidade. Ela é espaço e tempo, e o mistério para além dela é o mistério para além de todos os pares de opostos. Assim, não é masculina nem feminina.  Nem é, nem deixa de ser. Mas tudo está dentro dela, de modo que os deuses são seus filhos.

Tudo quanto você vê, tudo aquilo em que possa pensar, é produto da Deusa.  Uma vez vi um filme científico maravilhoso sobre o protoplasma. Foi uma revelação para mim. Ele se move o tempo todo, flutua. As vezes, parece estar flutuando nesta ou naquela direção e, então, cria formas. O protoplasma possui a potencialidade de dar às coisas formas delineadas. Isso foi no norte da Califórnia. No caminho de volta, enquanto eu dirigia pela costa, na direção sul, tudo o que eu via, o tempo todo, era protoplasma, em forma de capim, sendo comido por protoplasma em forma de vacas; protoplasma em forma de pássaros, mergulhando atrás de protoplasma em forma de peixes. Você ganha essa intuição maravilhosa do abismo do qual tudo se origina. Mas cada forma tem suas intenções próprias, suas possibilidades próprias e aí se constitui o significado, não no protoplasma em si.

MOYERS: Voltemos, então, aos hindus, para quem a vida e a energia informes de todas as coisas estão na terra. Você cita estas frases dos Upanixades: “Tu és o pássaro azul escuro e o papagaio verde com olhos vermelhos. Tu lanças o raio como se fosse teu filho. Tu és as estações e os oceanos. Não tendo início, tu deves conformar te à imanência, de onde todas as coisas são nascidas”. É essa idéia de que nós e a terra somos um só, não é mesmo?  Mas não era inevitável que essa idéia desaparecesse sob o impacto das descobertas científicas? Sabemos hoje que as plantas não crescem de cadáveres humanos, mas sim de acordo com as normas do plantio, do solo, do sol. Newton não matou o mito? 

CAMPBELL: Ah, eu acho que o mito está voltando. Há um jovem cientista, hoje, que está usando a expressão “campo morfogenético”, o campo que produz formas. Eis o que a Deusa é, o campo que produz formas.

MOYERS: O que significa isso, para nós?

CAMPBELL: Bem, significa procurar a fonte da sua própria vida, a relação entre o seu corpo, enquanto forma física, e essa energia que o anima. O corpo sem energia não está vivo, não é mesmo? Então você pode distinguir, na sua própria vida, o que é do corpo e o que é da energia e da consciência.

Na India, o símbolo supremo mais comum é o falo, ou lingam, como eles o chamam, do

deus gerador penetrando a vagina, ou a yoni, como eles a chamam, da Deusa. Ao contemplar esse símbolo, você está contemplando o momento gerador, em si, de toda a vida. Todo o mistério da geração da vida pode ser simbolicamente contemplado nesse símbolo.

Como você vê, o mistério sexual, na índia, como em quase todo o mundo, é um mistério sagrado. É o mistério da geração da vida. O ato de gerar uma criança é um ato cósmico e deve ser entendido como sagrado. Por isso, o símbolo que mais claramente representa o mistério do despejar da energia da vida, no campo do tempo, é do lingam e a yoni, os poderes masculino e feminino, em conjunção criativa.

MOYERS: O que teria significado para nós se, em algum ponto do percurso, tivéssemos começado a rezar “Mãe Nossa” em vez de “Pai Nosso”? Que diferença psicológica isso teria ocasionado?

CAMPBELL: Isso certamente ocasionou uma diferença psicológica no caráter da nossa cultura. Por exemplo, a floração básica da civilização ocidental ocorreu nos grandes vales dos rios – o Nilo, o Tigre Eufrates, o Indo, e mais tarde, o Ganges. Esse era o mundo da Deusa. O nome do rio Ganges (Ganga), por exemplo, é o nome de uma deusa.  E então vieram as invasões. Pois bem, as invasões começaram, para N aler, no quarto milênio antes de Cristo e foram se tornando cada vez mais devastadoras. Vieram do norte e do sul e destruíram cidades, da noite para o dia. Leia no Gênesis a história do papel desempenhado pela tribo de Jacó na queda da cidade de Siquém. Do dia para a noite, a cidade foi varrida do mapa por esses povos pastores, que surgiram repentinamente. Os invasores semitas eram pastores de cabras e ovelhas, os indo europeus eram pastores de gado. Uns e outros, primitivamente, eram caçadores, de modo que as suas culturas eram essencialmente orientadas para os animais. Onde há caçadores, há assassinos. E onde há pastores também há assassinos, porque estão sempre em movimento, são nômades entrando em conflito com outros povos e conquistando as áreas para onde se movem. E essas invasões traziam deuses guerreiros, lançadores de raios, como Zeus ou Jeová. 

MOYERS: A espada e a morte em lugar do falo e da fertilidade?

CAMPBELL: Isso mesmo, e eles se equipararam.

MOYERS: Você costuma contar uma história sobre a queda da deusamãe Tiamat. 

CAMPBELL: Desconfio que essa história poderia ser considerada, aqui, como um evento arquetípico chave.

MOYERS: Você considera esse um momento crítico da história. 

CAMPBELL: Exato. Os povos semíticos estavam invadindo o território dos sistemas da Deusa Mãe, de modo que as mitologias de orientação masculina se tornaram dominantes e a Deusa Mãe se tornou, bem... uma espécie de Deusa Vovozinha, deixada para trás.  Foi na época do surgimento da cidade de Babilônia. Cada uma dessas cidades primitivas tinha o seu deus ou deusa protetora. A característica dos povos imperialistas, você sabe, é ver o seu deus local promovi do a senhor de todo o universo. As demais divindades deixam de contar. E o meio de conseguir isso é aniquilar o deus ou deusa que estava aí antes. Pois bem, a divindade que precedeu ao deus babilônio Marduk era a Deusa de Todas as Mães.  Então a história começa com um grande concílio dos deuses masculinos, no céu – cada deus era uma estrela , e eles tinham ouvido dizer que a Vovó estava chegando, a velha Tiamat, o Abismo, a Fonte inexaurível. Ela surge na forma de um grande peixe ou dragão –e que deus teria coragem de se lançar contra a Vovó e matá-la? Aquele que teve coragem foi, é claro, o deus da maior cidade de então. Era o maior de todos.  Assim, quando Tiamat abre a boca, o jovem deus Marduk, da Babilônia, despeja todos os ventos em sua garganta e barriga e a faz em pedaços. Em seguida, recolhe os pedaços e enfeita a terra e os céus com o corpo desmembrado de Tiamat. Esse motivo do desmembramento de um ser primordial, transformando se o seu corpo no universo, aparece em muitas mitologias, sob variadas formas. Na índia, desponta com a figura de Purusha, cujo corpo refletido é o universo.

Pois bem, nas velhas mitologias da Deusa, a deusa mãe, ela própria, já é o universo, de modo que a grande proeza criativa de Marduk se constituiu num ato de suprema revogação.  Ele não tinha necessidade de cortá-la em pedaços, nem de construir o universo a partir dela, porque ela já era o universo. Mas o mito de orientação masculina se impõe, e ele se torna, aparentemente, o criador.

MOYERS: E o interesse que se transfere da Deusa para seu filho, esse jovem político ambicioso, que...

CAMPBELL: Bem, tudo se subordinou aos interesses específicos dos homens que comandavam a cidade de Babilônia.

MOYERS: Então a sociedade matriarcal começou a dar lugar a... 

CAMPBELL: Ah, naquela época, cerca de 175º a.C., a sociedade matriarcal já estava extinta.

MOYERS: Algumas mulheres, hoje, dizem que o espírito da Deusa foi mantido em exílio por cinco mil anos, desde que...

CAMPBELL: Não se deve recuar tanto assim, cinco mil anos. A Deusa foi uma figura poderosa na cultura helenística do Mediterrâneo, e retornou com a figura da Virgem, na tradição católica romana. Nenhuma tradição da Deusa é celebrada mais esplêndida e maravilhosamente do que nos séculos XII e XIII, nas catedrais francesas, todas as quais se chamam Notre Dame.

MOYERS: Sim, mas todos esses motivos e temas eram controlados por homens –sacerdotes, bispos – que excluíam as mulheres. Assim, seja o que for que essa forma tenha significado para o crente, no que se refere ao po der a imagem estava nas mãos da figura masculina, dominante.

CAMPBELL: Você pode sublinhar esse aspecto, mas eu ainda acho que é um pouco exagerado, porque havia as grandes figuras das santas. Hildegarde de Bingen se emparelhava com Inocêncio 111. Eleonor da Aquitânia... não sei de ninguém, na Idade Média, que tivesse estatura semelhante. Hoje é possível olhar para trás e questionar o quadro, no seu todo, mas a situação das mulheres não era tão má assim, de modo algum. 

MOYERS: Não, mas nenhuma dessas santas jamais se tornou papa. 

CAMPBELL: Tornar se papa, na verdade, não significa muita coisa, é uma função própria da aridez dos negócios. Nenhum dos papas jamais poderia tornar se a mãe de Cristo. São diferentes papéis a desempenhar. A tarefa do homem era proteger as mulheres. 

MOYERS: Daí se desenvolveu a idéia do paternalismo.

CAMPBELL: As mulheres eram presas de guerra, eram bens. Com a queda de uma cidade, todas as mulheres eram estupradas.

MOYERS: Existe essa contradição ética, mencionada no seu livro, a partir de uma citação do Êxodo: “Não matarás, não cobiçarás a mulher do próximo – exceto no estrangeiro.  Então deverás submeter todos os homens, pela espada, e tomarás para ti todas as mulheres, como despojos de guerra”. Está lá, no Velho Testamento. 

CAMPBELL: Deuteronômio. São algumas passagens atrozes.

MOYERS: E o que dizem elas a respeito das mulheres?

CAMPBELL: Elas falam mais acerca do Deuteronômio que de mulheres. Os hebreus eram absolutamente cruéis em relação aos seus vizinhos. Mas essa passagem é uma variação extrema de algo que é inerente à maior parte das mitologias sociologicamente orientadas.  Quer dizer, amor e compaixão são reservados para os do grupo, agressão e abuso são projetados fora, nos outros. A compaixão se destina aos membros do seu próprio grupo. Os de fora devem ser tratados da maneira descrita nessa passagem do Deuteronômio. Acontece que, hoje, não existem mais “os de fora”, no planeta. E o alvo da religião moderna é demonstrar a mesma compaixão para com toda a humanidade. Mas o que ocorre, então, com a agressão? Esse é um problema que o mundo vai ter de enfrentar – porque a agressão é um instinto tão natural quanto a compaixão, e ainda mais imediato que ela, e sempre vai existir. E um fato biológico. Nos tempos bíblicos, é claro, os hebreus, quando chegavam, literalmente punham abaixo a Deusa. O termo empregado para a deusa de Canaã, no Velho Testamento, é “a Abominação”. Aparentemente, ao longo do período descrito no Livro dos Reis, por exemplo, houve um movimento de ida e vi nda entre os dois cultos. Muitos dos reis hebreus são condenados, no Velho Testamento, por terem cometido o pecado da idolatria, no topo das montanhas. Essas montanhas eram símbolos da Deusa. E, entre os hebreus, havia uma forte discriminação contra a Deusa, sem similar nas mitologias indo européias. Ali, Zeus se casa com a Deusa e depois os dois atuam juntos. Portanto, o que temos na Bíblia é um caso extremo; a subjugação da mulher, entre nós, ocidentais, é uma decorrência do pensamento bíblico.

MOYERS: É que, ao substituir a mulher pelo homem, você assume uma psicologia diferente, outro viés cultural, que lhe faculta fazer o que os seus deuses fazem. Aí você, simplesmente...

CAMPBELL: É exatamente isso. Eu vejo aqui três estágios. Primeiro, o primordial, da Deusa, em que o homem é uma divindade pouco significativa. Depois, a reversão, que é quando o homem assume o papel da Deusa. E finalmente o estágio clássico, quando os dois interagem, como acontece também, por exemplo, na índia. 

MOYERS: Como isso se dá?

CAMPBELL: Isso resulta da atitude dos indo europeus, que não chegaram a desvalorizar completamente o princípio feminino.

MOYERS: E quanto ao nascimento virginal? De repente, a Deusa reaparece, sob a forma de um receptáculo casto e puro, escolhido por Deus para a sua ação.

CAMPBELL: Na história das religiões ocidentais, isso constitui um desenvolvimento extremamente interessante. No Velho Testamento, você tem um Deus que criou o mundo sem uma deusa. Depois, nos Provérbios, lá está ela, Sofia, a Deusa da Sabedoria, que diz:

“Quando Ele criou o mundo, eu lá estava e era a Sua grande alegria”. Mas na tradição hebraica a idéia de um filho de Deus é repulsiva, é totalmente desconsiderada. O Messias, enquanto filho de Deus, não é na verdade filho de Deus. Estou seguro de que não há vestígio de nascimento virginal nessa tradição. O nascimento virginal ingressa no cristianismo através da tradição grega. Nos quatro Evangelhos, por exemplo, o único em que há referência a nascimento virginal é o Evangelho segundo São Lucas, e Lucas era grego.

MOYERS: E na tradição grega havia imagens, lendas, mitos de nascimentos virginais? 

CAMPBELL: Oh, sim... Leda e o cisne, Perséfone e a serpente, e este, aquele e aquele outro. O nascimento virginal é um motivo recorrente.

MOYERS: Então não era uma novidade, em Belém. Mas qual é o significado do nascimento virginal?

CAMPBELL: Acho que a melhor maneira de responder a essa pergunta é conversar a respeito de um sistema, existente na índia, que descreve os estágios do desenvolvimento espiritual. Na índia, existe um sistema de sete centros psicológicos, ao longo da espinha.  Eles representam planos psicológicos de interesse, consciência e ação. O primeiro se localiza no reto e representa a alimentação, a função básica, sustentadora da vida. A serpente simboliza bem essa compulsão, como uma espécie de esôfago deambulatório, que segue em frente, comendo, comendo, comendo. Nenhum de nós estaria aqui se não estivéssemos comendo continuamente. O que você come é sempre algo que, um momento antes, estava vivo. Este é o mistério sacramental do alimento e da comida, que raramente nos vem à mente, quando nos sentamos para comer. Se dizemos graças, antes das refeições, agradecemos a essa figura provinda da Bíblia, pelo nosso alimento. Mas, nas mitologias primitivas, quando se preparavam para comer, as pessoas agradeciam ao animal, que estavam prestes a consumir, por ter se doado, em sacrifício voluntário.  Há um dito magnífico, num dos Upanixades: “Oh maravilhoso, oh maravilhoso, oh maravilhoso, eu sou alimento, eu sou alimento, eu sou alimento! Eu sou um comedor de alimento, eu sou um comedor de alimento, eu sou um comedor de alimento!” Já não pensamos assim, hoje, a respeito de nós mesmos. Mas agarrando se a você mesmo, e não se permitindo ser alimento, você pratica o ato negativo primordial, enquanto negação da vida.

Você interrompe o fluxo! E a liberação do fluxo é a grande experiência do mistério, inerente ao ato de agradecer a um animal, que está prestes a ser comido, por ter se doado.  Você também será doado, quando chegar o momento.

MOYERS: Eu sou natureza, a natureza é meu próprio ser.

CAMPBELL: Sim. Agora, o segundo centro psicológico é simbolizado, na ordem hindu do desenvolvimento espiritual, pelos órgãos sexuais, o que significa dizer a urgência da procriação. Um terceiro centro se localiza na altura do umbigo e é o centro da vontade de poder, domínio e realização, ou, em seu aspecto negativo, conquistar, subjugar, esmagar e refugar fora os outros. Essa é a terceira função, a agressiva. E, como somos obrigados a reconhecer no simbolismo do sistema psicológico hindu, essas três funções – alimentação, procriação e domínio e conquista – são todas de instinto animal, e os três centros se localizam simbolicamente na bacia pélvica.

O quarto centro está na altura do coração e é o da abertura para a compaixão. Aqui você transita do campo da ação animal para um campo que é propriamente humano e espiritual.  E para cada um desses quatro centros é imaginada uma forma simbólica. Na base, por exemplo, onde se encontra o primeiro centro, o símbolo é o do lingam e a yoni, os órgãos masculino e feminino, em conjunção. E no centro do coração aparecem outra vez o lingam e a yoni, ou seja, os órgãos masculino e feminino, em conjunção, mas aqui representados em dourado, para simbolizar o nascimento virginal, quer dizer, o nascimento do homem espiritual a partir do homem animal.

MOYERS: E isso acontece...

CAMPBELL: ...acontece quando, no nível do coração, você desperta para a compaixão, com paixão, sofrimento partilhado: participação efetiva no sofrimento de outra pessoa. É o início da humanidade. E as meditações religiosas, apropriadamente, se localizam neste nível, o nível do coração.

MOYERS: Você diz que é o início da humanidade. Mas essas histórias falam do nascimento de deuses. O nascimento virginal... é um deus que emerge. 

CAMPBELL: E você sabe quem é esse deus? É você. Todos esses símbolos na mitologia se referem a você. Você pode se apegar ao lá fora e achar que está tudo lá fora. Assim, você estará pensando em Jesus levando em conta todo o sentimento, tudo o que ele sofreu – lá fora. Mas esse sofrimento devia estar acontecendo dentro de você. Você renasceu espiritualmente? Você morreu para a sua natureza animal e retornou à vida como encarnação humana da compaixão?

MOYERS: O que há de significativo no fato de se tratar de uma virgem? 

CAMPBELL: O procriador é do espírito. Trata se de um nascimento espiritual. A Virgem ficou grávida da Palavra, pelo ouvido.

MOYERS: A Palavra veio como um feixe de luz.

CAMPBELL: Sim. E o Buda – o sentido é o mesmo – diz se que nasceu do flanco de sua mãe, localizado no chakra do coração.

MOYERS: Chakra do coração significa...?

CAMPBELL: Oh, chakra do coração é o centro simbólico associado ao coração. Chakra significa “círculo”, “esfera”.

MOYERS: Então o Buda saiu...

CAMPBELL: ...o Buda nasceu do flanco de sua mãe. É um nascimento simbólico. Ele não nasceu fisicamente do flanco de sua mãe, mas simbolicamente. 

MOYERS: Mas Cristo nasceu do modo como você e eu nascemos. 

CAMPBELL: Sim, mas de uma virgem. E então, de acordo com a doutrina católica romana, sua virgindade foi restaurada. De modo que, fisicamente, nada aconteceu, você poderia dizer. A referência simbólica não é ao nascimento físico de Jesus, mas à sua significação espiritual. Eis aí o que o nascimento virginal representa. Heróis e semideuses nascem como seres motivados pela compaixão e não pela vontade de domínio, de sexualidade e de autopreservação.

Este é o sentido do segundo nascimento, quando você começa a viver a partir do centro do coração. Os três centros inferiores não devem ser recusados, mas transcendidos, na medida em que se subordinam e passam a servir ao coração.

MOYERS: Existem, na Antiguidade, imagens da Madona como a mãe da criança salvadora?

CAMPBELL: O antigo modelo para a Madona, na verdade, é Ísis amamentando Hórus.

MOYERS: Ísis?

CAMPBELL: É uma história complicada. Tudo isso, de fato, vai se tornando bem complicado. Mas Ísis e seu marido, Osíris, eram gêmeos, nascidos da deusa Nut. E seus parentes mais jovens eram Set e Néftis, que também eram gêmeos, nascidos de Nut. Uma noite, Osíris dormiu com Néftis, pensando que era Ísis. Mera questão de detalhe, você diria.  Em resultado, nasceu Anúbis, filho mais velho de Osíris, mas da esposa errada. Set, marido de Néftis, não gostou nada do que aconteceu e planejou matar o irmão mais velho, Osíris.  Secretamente, tomou as medidas de Osíris e mandou confeccionar um sarcófago muito bonito do tamanho exato do irmão. E então, uma noite, enquanto transcorria uma festa encantadora, entre os deuses, Set chegou com o sarcófago e declarou que o daria de presente a quem ele servisse. Todos na festa tentaram, e, é claro, quando chegou a vez de Osíris o sarcófago lhe serviu perfeitamente. Em seguida, entraram correndo setenta e dois cúmplices, colocaram a tampa, prenderam na firmemente e jogaram o sarcófago no Nilo. O que temos aqui, então, é a morte de um deus. Sempre que ocorre a morte de um deus desse porte, pode se esperar em seguida uma ressurreição.

A morte de Osíris foi simbolicamente associada à cheia e ao transbordamento anuais do Nilo, que periodicamente propiciava a fertilização do solo do Egito. Foi como se a decomposição do corpo de Osíris fertilizasse e vitalizasse aterra.  Osíris desceu o Nilo, flutuando, e foi lançado à margem, numa praia da Síria. Uma bela árvore, de essência aromática, cresceu ali e incorporou o sarcófago ao seu tronco. Tinha acabado de nascer um filho do rei local, que se preparava para construir um palácio. E, como o aroma daquela árvore era de fato magnífico, ele a mandou cortar e transformou a no pilar central da grande sala do palácio.

Enquanto isso, a pobre deusa Ísis, cujo marido tinha sido lançado no Nilo, começou a procurar o seu corpo. Este tema da procura do deus que é o esposo da alma é um tema mitológico primordial, nesse período: o tema da Deusa que parte em busca do esposo ou amado perdido e, graças à lealdade e à descida ao reino da morte, consegue resgatá-lo.  Ísis chega em tempo à Síria, ouve falar da coluna aromática do palácio real e, suspeitando que deve ter relação com Osíris, emprega se como babá do príncipe recém nascido. Bem, a criança mama através do dedo de Ísis afinal, ela é uma deusa e há um limite nisso de se rebaixar para obter alguma coisa. Mas ela se apaixona pela criança e decide conceder lhe imortalidade, colocando a na lareira, para queimar seu corpo mortal, livrando o menino desse peso. Sendo deusa, você sabe, ela podia evitar que o fogo matasse a criança.  E, toda noite, enquanto o menino está no fogo, ela se transforma numa andorinha e fica voando, cheia de pesar, ao redor da coluna onde seu esposo está encerrado.  Certa noite, a mãe da criança entra no quarto e vê o bebê na lareira, solta um grito que rompe o encantamento, e a criança tem que ser salva da incineração. A andorinha, nesse intervalo, tinha retornado à forma de uma encantadora babá e deusa, que explica o que está acontecendo e diz à rainha: “É o meu marido que está encerrado naquela coluna, e eu ficaria grata se você me permitisse levá-lo de volta para casa”. Aí o rei, que tinha acabado de entrar, diz: “Mas claro! Certamente”. Manda remover a coluna, entrega a a Ísis e o belo sarcófago contendo Osíris é colocado numa barcaça real.

No caminho de volta ao delta do Nilo, Ísis remove a tampa do caixão, deita se sobre o marido morto e engravida. Esse é um tema que aparece nas antigas mitologias, inúmeras vezes, sob muitas formas simbólicas: da morte se origina a vida. Quando a barcaça aporta, a Deusa dá à luz, no pântano de papiro, o seu filho Hórus. E foi a imagem dessa mãe divina, com seu filho concebido por um deus, que se tornou o modelo para a Madona. 

MOYERS: E a andorinha se tornou a pomba, não é verdade? 

CAMPBELL: Bem, a pomba, em pleno vôo, é um símbolo praticamente universal do espírito, tal como, no cristianismo, o Espírito Santo...

MOYERS: ...que se associa à mãe sagrada?

CAMPBELL: À mãe como grávida do espírito, sim. Mas falta um detalhe aqui. Enquanto isso tudo acontecia, o ciumento irmão mais novo, Set, tinha usurpado o trono de Osíris.  Porém, para que o trono fosse adequadamente dignificado, ele precisaria casar se com Isis.  Na iconografia egípcia, Ísis representa o trono. O faraó se senta no trono, que é Ísis, como uma criança no colo da mãe. Então, quando pára diante da catedral de Chartres, você vê, acima de um dos portais da entrada oeste, uma imagem da Madona como um trono sobre o qual se assenta o Menino Jesus, que abençoa o mundo, como seu imperador. E precisamente esta a imagem que chegou até nós, do Egito antigo. Os primeiros padres e os primeiros artistas adotaram essas imagens intencionalmente. 

MOYERS: Os padres do cristianismo adotaram a imagem de Ísis? 

CAMPBELL: Sem dúvida. Eles mesmos o dizem. Leia o texto onde se declara que “aquelas formas, meras formas mitológicas no passado, agora são verdadeiras e encarnam em nosso Salvador”. As mitologias aí referidas diziam respeito ao deus morto e ressuscitado: Átis, Adônis, Gilgamech, Osíris e outros. A morte e ressurreição do deus é associada, em toda parte, à lua, que morre e ressuscita todo mês. São duas noites ou três dias de escuridão; e ali temos Cristo, por duas noites ou três dias, no túmulo.  Ninguém sabe exatamente qual a data do nascimento de Jesus, mas adotou se a data que costumava ser a do solstício de inverno, 25 de dezembro, quando as noites começam a ficar mais curtas e os dias mais longos. Esse é o momento do renascimento da luz. Essa é exatamente a data do nascimento do deus persa da luz, Mitra, Sol, o sol.

MOYERS: O que isso diz a você?

CAMPBELL: Isso me diz que existe uma idéia de morte em relação ao passado, e de nascimento em relação ao futuro, nas nossas vidas e no nosso pensamento: morte da natureza animal e nascimento da natureza espiritual. E disso que falam esses símbolos, de um modo ou de outro.

MOYERS: Então Ísis poderia dizer: “Sou aquela que é a mãe natural de todas as coisas.  Senhora e governo de todos os elementos. Chefe dos poderes divinos, rainha de tudo o que está no inferno, dirigente de todos os que habitam os céus. Sozinha e sob uma forma única, sou a manifestação de todos os deuses e deusas”.

CAMPBELL: Essa é uma forma tardia de todo esse tema. Isso está no Asno de ouro, de Apuleio, no século II a.C. O Asno de ouro é uma das primeiras novelas, aliás. Seu protagonista, o herói, graças à luxúria e à magia, foi convertido num asno, e deve enfrentar a provação de aventuras penosas e humilhantes, até conseguir a redenção, através da graça da deusa Isis. Ela surge com uma rosa na mão (símbolo do amor divino e não da luxúria), e, ainda enquanto asno, ele come a rosa e é de novo convertido em homem. Mas agora é mais do que um homem, é um homem iluminado, um santo. Experimentou o segundo nascimento, virginal, não é mesmo? Assim, da mera carnalidade animal é possível passar por uma morte espiritual e retornar, renascido. O segundo nascimento é de uma encarnação excelsa, espiritualmente concebida.

E a Deusa é um dos elementos capazes de desencadear o processo. O segundo nascimento se dá através de uma mãe espiritual. Notre Dame de Paris, Notre Dame de Chartres, a Santa Madre Igreja. Ao entrar e sair de uma igreja renascemos espiritualmente. 

MOYERS: Existe aí um poder específico do princípio feminino.

CAMPBELL: Apuleio colocou nesses termos, mas não é sempre, necessariamente, assim.  O renascimento também pode dar se através do masculino. Mas, nesse sistema de símbolos, a mulher se torna o princípio regenerador.

MOYERS: Então, quando o Concílio de Éfeso se reuniu, no ano 431 depois de Cristo, e proclamou que Maria era a Mãe de Deus, essa não foi a primeira vez? 

CAMPBELL: Não, na verdade esse argumento já vinha circulando na igreja fazia algum tempo. Mas o local onde essa decisão foi tomada, em Efeso, era, na época, o maior templo urbano, no Império Romano, da deusa Ártemis, ou Diana. E conta se que, enquanto o concílio estava reunido, discutindo esse ponto, o povo de Efeso se aglomerou ao redor do templo e começou a gritar, em reverência a Maria: “A Deusa, a Deusa, certamente ela é a Deusa”.

Bem, o que temos, na tradição católica, é a fusão da idéia hebraica, patriarcal, monoteística, do Messias, como o destinado a unir os poderes espiritual e temporal – e da idéia clássica, helenística, do Salvador, como o filho da Grande Deusa, morto e ressuscitado através do nascimento virginal. Há uma quantidade de histórias desses salvadores renascidos.  No Oriente Próximo, a divindade que desceu ao campo do tempo era originariamente uma deusa. Jesus assumiu o que é, na verdade, o papel de uma deusa, nisso de descer até nós encarnando a compaixão. Mas quando a Virgem aquiesce em ser o receptáculo da encarnação, ela própria já está tocada pela redenção. Foi se tornando cada vez mais evidente que o sofrimento da Virgem é equivalente ao sofrimento do filho. Creio que, hoje, na Igreja Católica, ela é chamada de “co-salvador”.

MOYERS: O que é que isso tudo mostra, em termos da união do masculino com o feminino? Por muito tempo, nas sociedades primitivas, a mulher foi a imagem mitológica dominante. Depois surge essa imagem masculina, agressiva, guerreira, e em seguida retornamos à figura feminina, desempenhando um importante papel na criação e na re-criação. Isso diz alguma coisa a respeito do enlevo entre o homem e a mulher? 

CAMPBELL: Sim, mas eu prefiro colocar a questão em termos históricos. É interessante observar que essa Deusa Mãe reinou ao longo de todo o vale do Indo Ganges, na Índia. Do mar Egeu ao vale do Indo, ela é a figura dominante. Aí você tem os indo europeus descendo do norte, na direção da Pérsia, índia, Grécia, Itália, com a sua mitologia de orientação masculina, que vai sendo introduzida ao longo de todo o trajeto. Na Índia, é a tradição védica, na Grécia, a tradição homérica, e, quinhentos anos mais tarde, a Deusa começa a reaparecer. Existe, com efeito, um Upanixade de cerca do século VII a.C. – exatamente a época em que a Deusa está começando a ressurgir também na região do Egeu – em que os deuses védicos estão reunidos e deparam com uma estranha espécie de coisa amorfa, no caminho, um tipo de neblina fumarenta, e perguntam: “O que é isso?” Nenhum deles sabe o que poderia ser.  Então, um deles sugere: “Vou descobrir o que é”. Esse, então, se dirige àquela coisa enfumaçada e diz: “Eu sou Agni, o Senhor do Fogo; posso queimar qualquer coisa. Quem é você?” E do meio da espessa neblina sai voando um pedaço de palha, que cai no chão, e uma voz diz: “Vamos ver você queimar isso”. Agni descobre que não é capaz de fazê-lo.  Ele então retorna até onde estão os outros deuses e diz: “Isto sem dúvida é muito estranho!”

“Bem, então”, diz o Senhor do Vento, “deixe me tentar.” Ele vai e a cena se repete. “Eu sou Vayu, Senhor do Vento, posso arrastar qualquer coisa.” Outra vez uma palha é jogada ao chão. “Vamos ver se você pode arrastar isso.” Ele não consegue, e retorna. Então Indra, o maior dos deuses védicos, se aproxima, mas, ao chegar perto, a aparição se desfaz e em seu lugar surge uma mulher, uma bela e misteriosa mulher, que se dirige aos deuses, revelando lhes o mistério que fundamenta a eles próprios. “Este é o supremo mistério de todo o ser”, ela lhes diz, “do qual vocês próprios receberam os seus poderes. E Ele pode pôr em ação os seus poderes ou neutralizá-los, conforme deseje.” O nome hindu para esse Ser de todos os seres é Brahman, que é uma palavra neutra, nem masculina nem feminina. E o nome hindu para essa mulher é Maya Shakti Devi, “Deusa Doadora da Vida e Mãe de Todas as Formas”. E nesse Upanixade ela aparece como aquela que ensina aos deuses védicos sobre o fundamento e a fonte suprema do seu próprio ser e dos seus próprios poderes. 

MOYERS: É a sabedoria feminina.

CAMPBELL: É a mulher como doadora de formas. Ela é quem dá vida às formas e sabe de onde estas provêm. Provêm daquilo que está além do masculino e do feminino; daquilo que está além do ser e do não ser. Aquilo que ao mesmo tempo é e não é. Nem é nem deixa de ser. Está além de todas as categorias da mente e do pensamento. 

MOYERS: Há uma bela passagem no Novo Testamento que diz: “Em Jesus não há nem masculino nem feminino”. No sentido supremo das coisas, não há nem um nem outro. 

CAMPBELL: Não poderia ser de outro modo. Se Jesus representa a fonte do nosso ser, todos nós somos, de algum modo, pensamentos na mente de Jesus. Ele é também a palavra que se tornou carne, em nós.

MOYERS: Você e eu possuímos características que são ao mesmo tempo masculinas e femininas?

CAMPBELL: O corpo, sim. Não sei nada sobre os dados mais recentes nessa área, mas em algum momento, durante o período fetal, fica evidente que esta criança vai ser menino e aquela, menina. Até que isso se dê, tratase de um corpo com potencialidades nas duas direções.

MOYERS: Ao longo da vida, estaremos confirmando ou suprimindo um dos lados. 

CAMPBELL: Na figura chinesa do yin e do yang, no peixe escuro, ou como quer que você o chame, existe um ponto luminoso, e, no claro, um ponto escuro. E assim que eles se relacionam. Você não poderia se relacionar com alguma coisa da qual, de algum modo, não participasse. Eis por que a idéia de Deus como o Outro Absoluto é uma idéia ridícula. Não poderia haver qualquer relacionamento com o Outro Absoluto.

MOYERS: Nessa transformação espiritual de que você está falando, as mudanças não dependem daquelas características femininas como amamentação, criatividade e colaboração em vez de competição? Isso não está no cerne do princípio feminino de que estamos falando?

CAMPBELL: Bem, a mãe ama a todos os seus filhos – os idiotas, os brilhantes, os travessos, os bonzinhos. Não importa o caráter particular de cada um. Assim, o feminino representa, de certo modo, o amor intrínseco pela progênie. O pai é mais disciplinador. É mais associado à ordem social e ao caráter social. Com efeito, é assim que as coisas funcionam, nas sociedades. A mãe propicia a natureza do indivíduo; o pai, o seu caráter social, a maneira como o indivíduo funciona, você poderia dizer.  Por isso, voltar à natureza certamente trará à tona, outra vez, o princípio da mãe. Como é que isso vai conviver com o princípio patriarcal, eu não sei, porque a organização do planeta será uma operação gigantesca, e essa é uma função masculina, de modo que é impossível prever como serão as coisas. Mas a natureza, sem dúvida, está voltando. 

MOYERS: E quando dizemos “Preserve a natureza”, estamos falando da nossa própria preservação.

CAMPBELL: Sim. Toda essa esperança de que algo aconteça na sociedade precisa aguardar que algo aconteça na psique humana, um modo inteiramente novo de interação social. E a questão crucial aqui, como eu vejo a coisa, é simplesmente: com que sociedade, com que grupo social você se identifica? Você vai se identificar com todos os povos do planeta ou com o seu próprio grupo restrito? Esta é, na essência, a questão que estava na mente dos fundadores da nossa nação, quando as gentes dos treze Estados começaram a pensar nelas mesmas como uma nação, embora sem abrir mão dos interesses particulares de cada um dos vários Estados. Por que algo semelhante não pode ocorrer agora mesmo, no mundo todo?

MOYERS: Toda esta nossa conversação – o princípio masculino feminino, o nascimento virginal, o poder espiritual que nos propicia o segundo nascimento – suscita uma dúvida.  As pessoas avisadas de todos os tempos têm dito que nossa vida será tanto melhor quanto mais aprendermos a viver espiritualmente. Mas como aprender a viver espiritualmente se somos feitos de carne? Paulo disse: “Os desejos da carne contrariam o espírito, e os desejos do espírito contrariam a carne”. Como aprendermos a viver espiritualmente? 

CAMPBELL: Nos tempos antigos, essa era a tarefa do professor. Ele fornecia as chaves para a vida espiritual. Era para isso que servia o sacerdote. Era para isso, também, que servia o ritual. O ritual pode ser definido como a encenação de um mito. Participar de um ritual é, na verdade, ter a experiência de uma vida mitológica. E é a partir dessa experiência que se pode aprender a viver espiritualmente.

MOYERS: As histórias mitológicas apontam efetivamente para o caminho da vida espiritual?

CAMPBELL: Sim, você precisa de uma chave. Você precisa de um guia-mapa de alguma espécie, e eles estão todos aí, à nossa volta. Mas não são todos iguais. Alguns falam apenas dos interesses deste ou daquele grupo fechado, deste ou daquele deus tribal. Outros, especialmente aqueles que se oferecem como revelações da Grande Deusa, mãe do universo e de nós todos, ensinam compaixão por todos os seres vivos. Aí você chega também a avaliar a santidade da terra, em si, porque ela é o corpo da Deusa. Ao criar, Jeová cria o homem a partir da terra, do barro, e sopra vida no corpo já formado. Ele próprio não está ali, presente, nessa forma. Mas a Deusa está ali dentro, assim como continua aqui fora.  O corpo de cada um é feito do corpo dela. Nessas mitologias dá se o reconhecimento dessa espécie de identidade universal.

MOYERS: Por isso não estou tão seguro de que o futuro da raça e a redenção da jornada estejam no espaço. Acho que devem estar aqui mesmo, na terra, no corpo, no útero do nosso ser.

CAMPBELL: Bem, sem dúvida estão. Ao se lançar no espaço, você carrega o seu corpo e, se este não estiver transformado, o espaço não o transformará. Mas pensar no espaço pode ajudar a tomar consciência de alguma coisa. Há uma página dupla, no atlas, que mostra nossa galáxia no meio de muitas galáxias, e no meio da nossa galáxia, o sistema solar. Aí você tem uma idéia da magnitude desse espaço que nós agora estamos começando a explorar. O que essa página dupla me mostra é a visão de um universo de inimaginável magnitude e inconcebível violência. Bilhões e bilhões de tremendas fornalhas termonucleares dispersando se umas às outras. Cada fornalha termonuclear é uma estrela, e o nosso sol é uma delas. Muitas delas, na verdade, estão se rompendo em pedaços, espalhando pelos mais longínquos rincões do espaço a poeira e o gás a partir dos quais, neste instante, estão nascendo novas estrelas, com planetas girando ao seu redor. E então, de distâncias ainda mais remotas, além dessas estrelas, chegam murmúrios, microondas que são ecos da maior explosão cataclísmica de todas, ou seja, o Big Bang, a grande explosão da criação, que, de acordo com certos cálculos, deve ter ocorrido há cerca de dezoito bilhões de anos.

É aí que estamos, meu jovem. E, ao tomar consciência disso, você se dá conta da sua real importância, não é mesmo?, uma minúscula micropartícula no meio dessa grande magnitude. Depois, é preciso viver a experiência de que você e isso tudo são, de algum modo, uma coisa só, e você participa de tudo isso.

MOYERS: E essa experiência começa aqui.

CAMPBELL: Essa experiência começa aqui.