• Ivan Milazzotti
    Jorge Luis Borges
    09-10-2025 01:07:25
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O homem no umbral

Bioy Casares trouxe de Londres um curioso punhal de folha triangular e empunhadura em forma de H; nosso amigo Christopher Dewey, do Conselho Britânico, disse que tais armas eram de uso comum no Industão. Essa opinião animou-o a mencionar que trabalhara naquele país, entre as duas guerras. ("Ultra auroram etgangem", lembro-me de que disse em latim, equivocando-se com um verso de Juvenal.) Das histórias que contou nessa noite, atrevo-me a reconstruir a que segue. Meu texto será fiel: livre-me Alá da tentação de acrescentar breves traços circunstanciais ou de agravar, com interpolações de Kipling, o aspecto exótico do relato. Este, além do mais, tem um antigo e simples sabor que seria uma lástima perder, talvez o das Mil e Uma Noites.

"A exata geografia dos fatos que vou contar importa muito pouco. Além disso, que precisão conservam em Buenos Aires os nomes de Amritsar ou de Udh? Basta-me dizer, pois, que naqueles anos houve distúrbios numa cidade muçulmana e que o governo central enviou um homem forte para impor a ordem. Esse homem era escocês, de um ilustre clã de guerreiros, e no sangue levava uma tradição de violência. Uma só vez o viram meus olhos, mas não esquecerei os cabelos muito negros, os pômulos salientes, o ávido nariz e a boca, os largos ombros, a forte ossatura de viking. David Alexander Glencairn se chamará ele, nesta noite, em minha história; os dois nomes convêm, pois foram de reis que governaram com um cetro de ferro. David Alexander Glencairn (terei de me habituar a chamá-lo assim) era, suspeito, um homem temido; o simples anúncio de sua chegada bastou para apaziguar a cidade. Isso não impediu que decretasse diversas medidas enérgicas. Alguns anos passaram. A cidade e o distrito estavam em paz; sikhs e muçulmanos haviam renunciado às antigas discórdias e de repente Glencairn desapareceu. Naturalmente, não faltaram rumores de que o tinham sequestrado ou matado.

"Essas coisas eu soube por meu chefe, porque a censura era rígida e os jornais não comentaram (nem sequer registraram, que eu me lembre) o desaparecimento de Glencairn. Um provérbio diz que a Índia é maior que o mundo; Glencairn, talvez onipotente na cidade que uma assinatura ao pé de um decreto lhe destinou, era um simples número nas engrenagens da administração do Império. As investigações da polícia local foram de todo inúteis; meu chefe pensou que um profissional poderia infundir menos receio e conseguir melhor êxito. Três ou quatro dias depois (as distâncias na Índia são generosas), eu perambulava sem maior esperança pelas ruas da opaca cidade que escamoteara um homem.

"Senti, quase de imediato, a infinita presença de uma conjuração para ocultar o destino de Glencairn. "Não há uma alma nesta cidade", pude suspeitar, "que não saiba o segredo e que não tenha jurado guardá-lo". A maioria, interrogada, professava ilimitada ignorância; não sabia quem era Glencairn, não o tinha visto nunca, jamais ouviu falar dele.

Outros, ao contrário, tinham-no divisado há um quarto de hora falando com Fulano de Tal, e até me acompanhavam à casa em que entraram os dois, e na qual nada sabiam deles, ou de onde acabavam de sair nesse momento. Num desses mentirosos precisos dei com o punho na cara. As testemunhas aprovaram meu desafogo, e fabricaram outras mentiras. Não acreditei nelas, mas não me atrevi a deixar de ouvi-las. Uma tarde, entregaram-me um envelope com uma tira de papel em que havia algumas senhas...

"O sol tinha declinado quando cheguei. O bairro era popular e humilde; a casa era muito baixa; da calçada, entrevi uma sucessão de pátios de terra e próxima ao fundo uma claridade. No último pátio, celebrava-se não sei que festa muçulmana; um cego entrou com um alaúde de madeira avermelhada.

"A meus pés, imóvel como um objeto, encolhia-se no umbral um homem muito velho. Direi como era, pois é parte essencial da história. Os muitos anos haviam-no reduzido e polido como as águas a uma pedra ou as gerações dos homens a uma sentença. Longos farrapos o cobriam, ou assim me pareceu, e o turbante que lhe envolvia a cabeça era mais um pedaço de pano. No crepúsculo, ergueu em minha direção um rosto escuro e uma barba muito branca. Falei-lhe sem preâmbulos, porque já havia perdido toda esperança, a respeito de David Alexander Glencairn. Não me entendeu (talvez não me ouvisse) e tive de explicar que era um juiz e que eu o procurava. Senti, ao dizer essas palavras, o irrisório de interrogar aquele homem antigo, para quem o presente era apenas um indefinido rumor. "Notícias da Rebelião ou de Akbar poderia dar este homem", pensei, "mas não de Glencairn". O que me disse confirmou essa suspeita.

"— Um juiz! — articulou com débil espanto. — Um juiz que se perdeu e o procuram. O fato aconteceu quando eu era criança. Não sei de datas, mas não tinha morrido ainda Nikal Seyn (Nicholson) diante da muralha de Delhi. O tempo que se foi fica na memória; sem dúvida, sou capaz de recuperar o que então se passou. Deus tinha permitido, em sua cólera, que o povo se corrompesse; cheias de maldição as bocas estavam e de enganos e de fraude. Entretanto, nem todos eram perversos, e quando se proclamou que a rainha ia mandar um homem que executaria neste país a lei da Inglaterra, os menos maus se alegraram, porque sentiram que a lei é melhor que a desordem. Chegou o cristão e não tardou a prevaricar e a oprimir, a encobrir delitos abomináveis e a vender decisões. Não o culpamos, a princípio; a justiça inglesa que administrava não era conhecida de ninguém e os aparentes excessos do novo juiz correspondiam talvez a válidas e arcanas razões. "Tudo terá justificativa em seu livro", queríamos pensar, mas sua afinidade com todos os maus juízes do mundo era demasiado evidente, e por fim tivemos de admitir que era simplesmente um malvado. Chegou a ser um tirano e a pobre gente (para vingar-se da errônea esperança que alguma vez puseram nele) acalentou a ideia de sequestrá-lo e submetê-lo a julgamento. Falar não basta; dos desígnios tiveram de passar às obras. Ninguém, talvez, à exceção dos muito simples ou dos muito jovens, acreditou que esse propósito temerário pudesse ser levado a cabo, mas milhares de sikhs e de muçulmanos cumpriram sua palavra e um dia executaram, incrédulos, aquilo que a cada um deles parecera impossível. Sequestraram o juiz e lhe deram por cárcere uma casa de campo num afastado subúrbio. Depois, testemunharam as pessoas prejudicadas por ele, ou (em alguns casos) os órfãos e as viúvas, porque a espada do verdugo não havia descansado naqueles anos. Por fim — isto foi talvez o mais difícil —, procuraram e nomearam um juiz para julgar o juiz.

"Aqui o interromperam algumas mulheres que entravam na casa.

"Depois, com lentidão, prosseguiu:

"— Dizem que não há geração que não inclua quatro homens honestos que secretamente sustentam o universo e o justificam diante do Senhor: um desses varões teria sido o juiz mais idôneo. Mas onde encontrá-los, se andam perdidos pelo mundo e anônimos e não se reconhecem quando se vêem e nem eles mesmos sabem do alto ministério que cumprem? Alguém então opinou que, se o destino nos vedava os sábios, teríamos de procurar os insensatos. Essa ideia prevaleceu. Alcoranistas, doutores da lei, sikhs que levam o nome de leões e que adoram um Deus, hindus que adoram multidões de deuses, monges de Mahavira que ensinam que a forma do universo é a de um homem com as pernas abertas, adoradores do fogo e judeus negros, integraram o tribunal, mas a última sentença foi encomendada ao arbítrio de um louco.

"Aqui o interromperam algumas pessoas que iam embora da festa.

"— De um louco — repetiu — para que a sabedoria de Deus falasse por sua boca e envergonhasse a soberba humana. Seu nome perdeu-se ou nunca se soube, mas andava nu por essas ruas, ou coberto de trapos, contando os dedos com o polegar e zombando das árvores.

"Meu bom senso rebelou-se. Disse que entregar a um louco a decisão era invalidar o processo.

"— O acusado aceitou o juiz — foi a resposta. — Talvez compreendesse que, em vista do perigo que os conjurados corriam se o deixassem em liberdade, só de um louco podia não esperar sentença de morte. Ouvi que riu quando lhe disseram quem era o juiz. Muitas noites e dias durou o processo, pelo grande número de testemunhas.

"Calou-se. Uma preocupação o agitava. Para falar alguma coisa, perguntei quantos dias.

"— Pelo menos dezenove — replicou. Gente que ia embora da festa voltou a interrompê-lo; o vinho está proibido aos muçulmanos, mas as faces e as vozes pareciam de bêbados. Alguém lhe gritou algo, ao passar.

"— Dezenove dias, precisamente — retificou. — O cão infiel ouviu a sentença, e a faca se saciou em sua garganta.

"Falava com alegre ferocidade. Com outra voz pôs termo à história.

"— Morreu sem medo; nos mais vis há alguma virtude.

"— Onde aconteceu o que contaste? — perguntei. — Numa casa de campo?

"Pela primeira vez, olhou-me nos olhos. Em seguida, esclareceu com vagar, medindo as palavras.

"— Disse que numa casa de campo lhe deram prisão, não que o julgaram aí. Julgaram-no nesta cidade: numa casa como todas, como esta. Uma casa não pode diferir de outra: o que importa é saber se está edificada no inferno ou no céu.

"Perguntei-lhe pelo destino dos conjurados.

"— Não sei — disse-me com paciência. — Estas coisas ocorreram e foram esquecidas faz já muitos anos. Talvez os homens os condenaram, porém não Deus.

"Dito isto, levantou-se. Senti que suas palavras me despediam e que eu cessara para ele, a partir daquele momento. Uma turba composta de homens e mulheres de todas as nações do Punjab espalhou-se, rezando e cantando, sobre nós e quase nos fez desaparecer: espantou-me que de pátios tão estreitos, pouco mais que longos corredores, pudesse sair tanta gente. Outros saíam das casas da vizinhança; sem dúvida, haviam saltado os muros... À força de empurrões e imprecações, abri caminho. No último pátio, cruzei com um homem despido, coroado de flores amarelas, a quem todos beijavam e agasalhavam, e com uma espada na mão. A espada estava suja, pois dera morte a Glencairn, cujo cadáver mutilado encontrei nas cavalariças do fundo."