• Ivan Milazzotti
    Jorge Luis Borges
    09-10-2025 01:07:25
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    14

Abenjacan, o Bokari, morto em seu labirinto

...são comparáveis à aranha, que edifica uma casa.

Alcorão, XXIX, 4O.

— Esta — disse Dunraven com um grande gesto que não recusava as nubladas estrelas e que abarcava o negro páramo, o mar e um edifício majestoso e decrépito que parecia uma cavalariça deteriorada — é a terra de meus antepassados.

Unwin, seu companheiro, tirou o cachimbo da boca e emitiu sons modestos e aprovadores. Era a primeira tarde do verão de 1914; fartos de um mundo sem a dignidade do perigo, os amigos apreciavam a solidão desses confins de Cornwall. Dunraven fomentava uma barba escura e se sabia autor de uma considerável epopéia que seus contemporâneos quase não poderiam escandir e cujo tema não lhe havia sido ainda revelado; Unwin publicara um estudo sobre o teorema que Fermat não escreveu à margem de uma página de Diofanto. Ambos — será preciso que o diga? — eram jovens, distraídos e apaixonados.

— Fará um quarto de século — disse Dunraven — que Abenjacan, o Bokari, chefe ou rei de não sei que tribo nilótica, morreu no aposento central desta casa, pelas mãos de seu primo Zaid. Com o passar dos anos, as circunstâncias de sua morte continuam obscuras.

Unwin perguntou por quê, docilmente.

— Por diversas razões — foi a resposta. — Em primeiro lugar, esta casa é um labirinto. Em segundo lugar, vigiavam-na um escravo e um leão. Em terceiro lugar, desvaneceu-se um tesouro secreto. Em quarto lugar, o assassino estava morto quando o assassinato ocorreu. Em quinto lugar...

Unwin, cansado, o deteve.

— Não multipliques os mistérios — disse. — Estes devem ser simples. Lembra a carta roubada de Poe, lembra o quarto fechado de Zangwill.

— Ou complexos — replicou Dunraven. — Lembra o universo.

Subindo colinas arenosas, haviam chegado ao labirinto. Este, de perto, pareceu-lhes uma direita e quase interminável parede, de tijolos sem reboco, pouco mais alta que um homem. Dunraven disse que tinha a forma de um círculo, mas tão extensa era sua área que não se percebia a curvatura. Unwin lembrou-se de Nicolau de Cusa, para quem toda linha reta é o arco de um círculo infinito... Por volta da meia-noite, descobriram uma arruinada porta, que dava para um cego e perigoso corredor. Dunraven disse que no interior da casa havia muitas encruzilhadas, mas que, dobrando sempre à esquerda, chegariam em pouco mais de uma hora ao centro da rede. Unwin assentiu. Os passos cautelosos ressoaram no solo de pedra; o corredor se bifurcou em outros mais estreitos. A casa parecia querer asfixiá-los, o teto era muito baixo. Tiveram de avançar um atrás do outro pela complicada treva. Unwin ia adiante. Embrutecido de asperezas e de ângulos, fluía sem fim contra sua mão o invisível muro. Unwin, lento na sombra, ouviu da boca de seu amigo a história da morte de Abenjacan.

— Talvez a mais antiga de minhas lembranças — contou Dunraven — seja a de Abenjacan, o Bokari, no porto de Pentreath. Seguia-o um homem negro com um leão; sem dúvida o primeiro negro e o primeiro leão que meus olhos viram fora das gravuras da Escritura. Eu era então um menino, mas a fera da cor do sol e o homem da cor da noite me impressionaram menos que Abenjacan. Pareceu-me muito alto; era um homem de pele citrina, de entrecerrados olhos negros, de insolente nariz, de carnudos lábios, de barba açafroada, de peito forte, de andar seguro e silencioso. Em casa disse: "Chegou um rei num navio". Depois, com o trabalho dos pedreiros, ampliei esse título e pus-lhe o de Rei de Babel.

A notícia de que o forasteiro iria fixar-se em Pentreath foi recebida com agrado; a extensão e a forma de sua casa, com espanto e até mesmo com escândalo. Pareceu intolerável que uma casa constasse de um único aposento e de léguas e léguas de corredores. "Entre os mouros são usadas tais casas, mas não entre cristãos", diziam as pessoas. Nosso reitor, o senhor Allaby, homem de curiosa leitura, exumou a história de um rei a quem a Divindade castigou por ter erguido um labirinto e a divulgou do púlpito. Na segunda-feira, Abenjacan visitou a reitoria; os pormenores da breve entrevista não se conheceram então, mas nenhum sermão ulterior aludiu à soberba, e o mouro pôde contratar pedreiros. Anos depois, quando pereceu Abenjacan, Allaby declarou às autoridades a substância do diálogo.

Abenjacan disse-lhe, de pé, estas ou parecidas palavras: "Ninguém mais pode censurar o que faço. As culpas que me infamam são tais que, mesmo que eu repetisse durante séculos o último Nome de Deus, isso não bastaria para mitigar um só de meus tormentos; as culpas que me infamam são tais que, mesmo que eu o matasse com estas mãos, isso não agravaria os tormentos que me destina a infinita justiça. Em nenhuma terra é desconhecido o meu nome; sou Abenjacan, o Bokari, e regi as tribos do deserto com um cetro de ferro. Durante muitos anos, despojei-as, com assistência de meu primo Zaid, mas Deus ouviu seu clamor e permitiu que se rebelassem. Minha família foi rasgada e esfaqueada; eu consegui fugir com o tesouro arrecadado em meus anos de espoliação. Zaid guiou-me ao sepulcro de um santo, ao pé de uma montanha de pedra. Ordenei a meu escravo que vigiasse a frente do deserto; Zaid e eu dormimos, exaustos. Nessa noite, acreditei que me aprisionava uma rede de serpentes. Despertei com horror; a meu lado, ao amanhecer, dormia Zaid; o roçar de uma teia de aranha em minha carne me fizera sonhar aquele sonho. Desgostou-me que Zaid, um covarde, dormisse tão tranquilamente. Considerei que o tesouro não era infinito e que ele podia reclamar uma parte. Em meu cinto estava a adaga com a empunhadura de prata; desnudei-a e atravessei-lhe a garganta. Em sua agonia, ele balbuciou algumas palavras que não pude entender. Olhei-o; estava morto, mas temi que se levantasse e ordenei ao escravo que lhe desfizesse o rosto com uma pedra. Depois erramos sob o céu e um dia divisamos um mar. Sulcavam-no navios muito altos; refleti que um morto não poderia andar pela água e decidi procurar outras terras. Na primeira noite que navegamos, sonhei que eu matava Zaid. Tudo se repetiu mas eu entendi suas palavras. Dizia: "Como agora me apagas, eu te apagarei, onde quer que estejas". Jurei frustrar essa ameaça; ficarei oculto no centro de um labirinto para que seu fantasma se perca".

Dito isso, foi embora. Allaby tratou de pensar que o mouro estava louco e que o absurdo labirinto era símbolo e claro testemunho de sua loucura. Depois refletiu que essa explicação condizia com o extravagante edifício e com o extravagante relato, não com a enérgica impressão que deixava o homem Abenjacan. Talvez tais histórias fossem comuns nos areais egípcios, talvez tais estranhezas correspondessem (como os dragões de Plínio) menos a uma pessoa que a uma cultura... Allaby, em Londres, reviu números atrasados do Times; comprovou a verdade da rebelião e de uma subsequente derrota do Bokari e de seu vizir, que tinha fama de covarde.

Aquele, tão logo os pedreiros concluíram a obra, instalou-se no centro do labirinto. Não o viram mais no povoado; por vezes, Allaby temeu que Zaid já o tivesse encontrado e aniquilado. Durante as noites, o vento nos trazia o rugido do leão, e as ovelhas do redil se aconchegavam com um antigo medo.

Costumavam ancorar na pequena baía, rumo a Cardiff ou a Bristol, navios de portos orientais. O escravo descia do labirinto (que então, estou lembrado, não era rosado, mas de cor carmesim) e trocava palavras africanas com as tripulações e parecia procurar entre os homens o fantasma do vizir. Dizia-se que tais embarcações traziam contrabando, e se de álcoois ou marfins proibidos, por que não, também, de sombras de mortos?

Aos três anos da construção da casa, ancorou ao pé das colinas o Rose of Sharon. Não fui dos que viram esse veleiro e talvez na imagem que tenho dele influam esquecidas litografias de Aboukir ou de Trafalgar, mas acho que era desses barcos muito trabalhados que não parecem obra de armador mas de carpinteiro e menos de carpinteiro que de ebanista. Era (se não na realidade, em meus sonhos) polido, escuro, silencioso e veloz, e o tripulavam árabes e malaios.

Ancorou ao amanhecer de um dos dias de outubro. Ao entardecer, Abenjacan irrompeu na casa de Allaby. Dominava-o a paixão do terror; apenas pôde articular que Zaid já tinha entrado no labirinto e que seu escravo e seu leão haviam perecido. Perguntou com seriedade se as autoridades poderiam ampará-lo. Antes que Allaby respondesse, saiu, como se o arrebatasse o mesmo terror que o havia trazido a essa casa, pela segunda e última vez. Allaby, sozinho em sua biblioteca, pensou com espanto que esse temeroso oprimira no Sudão tribos de ferro, e sabia o que é uma batalha e o que é matar. Observou, no outro dia, que já havia zarpado o veleiro (rumo a Suakin, no mar Vermelho, averiguou-se depois). Refletiu que seu dever era comprovar a morte do escravo e dirigiu-se ao labirinto. O arquejante relato do Bokari pareceu-lhe fantástico, mas em um ângulo das galerias deu com o leão, e o leão estava morto, e em outro, com o escravo, que estava morto, e no aposento central com o Bokari, a quem haviam destroçado o rosto. Aos pés do homem havia uma arca marchetada de nácar; alguém forçara a fechadura e não restava uma única moeda.

Os períodos finais, agravados por pausas oratórias, procuravam ser eloqüentes; Unwin adivinhou que Dunraven os pronunciara muitas vezes, com idêntico aprumo e com idêntica ineficácia. Perguntou, para simular interesse:

— Como morreram o leão e o escravo?

A incorrigível voz respondeu com sombria satisfação:

— Também lhes destroçaram o rosto.

Ao ruído dos passos juntou-se o ruído da chuva. Unwin pensou que teriam de dormir no labirinto, no aposento central do relato, e que na lembrança essa longa incomodidade seria uma aventura. Guardou silêncio; Dunraven não pôde conter-se e perguntou, como quem não perdoa uma dívida:

— Não é inexplicável esta história?

Unwin respondeu, como se pensasse em voz alta:

— Não sei se é explicável ou inexplicável. Sei que é mentira.

Dunraven prorrompeu em palavrões e invocou o testemunho do filho mais velho do reitor (Allaby, parece, havia morrido) e de todos os vizinhos de Pentreath. Não menos atônito que Dunraven, Unwin desculpou-se. O tempo, na escuridão, parecia mais longo; os dois temeram haver perdido o caminho e estavam muito cansados quando uma tênue claridade superior lhes mostrou os degraus iniciais de uma estreita escada. Subiram e chegaram a um arruinado quarto redondo. Dois sinais perduravam do medo do malfadado rei: uma estreita janela que dominava os páramos e o mar e no chão um alçapão que se abria sobre a curva da escada. O quarto, embora espaçoso, tinha muito de cela carcerária.

Menos instados pela chuva que pelo afã de viver para rememorar e contar, os amigos passaram a noite no labirinto. O matemático dormiu com tranquilidade, o que não aconteceu com o poeta, acossado por versos que sua razão julgava detestáveis:

 

Faceless the sultry and overpowering lion,

Faceless the stricken slave, faceless the king.

 

Unwin acreditava que não lhe interessara a história da morte do Bokari, mas acordou com a convicção de havê-la decifrado. Todo aquele dia esteve preocupado e esquivo, ajustando e reajustando as peças, e duas noites depois se reuniu com Dunraven em uma cervejaria de Londres e disse-lhe estas ou parecidas palavras:

— Em Cornwall disse que era mentira a história que ouvi de ti. Os fatos eram certos, ou poderiam sê-lo, mas contados como tu os contaste eram, de modo manifesto, mentiras. Começarei pela maior mentira de todas, pelo labirinto inacreditável. Um fugitivo não se oculta num labirinto. Não ergue um labirinto sobre um alto lugar da costa, um labirinto carmesim que os marinheiros avistam de longe. Não precisa erguer um labirinto, quando o universo já o é. Para quem verdadeiramente quer ocultar-se, Londres é melhor labirinto que um observatório para o qual se dirigem todos os corredores de um edifício. A sábia reflexão que agora te submeto foi-me concedida anteontem à noite, enquanto ouvíamos chover sobre o labirinto e esperávamos que o sono nos visitasse; advertido e esclarecido por ela, optei por esquecer teus absurdos e pensar em algo sensato.

— Na teoria dos conjuntos, digamos, ou numa quarta dimensão do espaço — observou Dunraven.

— Não — disse Unwin com seriedade. — Pensei no labirinto de Creta. O labirinto cujo centro era um homem com cabeça de touro.

Dunraven, versado em obras policiais, pensou que a solução do mistério sempre é inferior ao mistério. O mistério participa do sobrenatural e até mesmo do divino; a solução, da prestidigitação. Disse, para retardar o inevitável:

— Cabeça de touro tem em medalhas e esculturas o minotauro. Dante imaginou-o com o corpo de touro e cabeça de homem.

— Também essa versão me convém — assentiu Unwin. — O que importa é a correspondência da casa monstruosa com o habitante monstruoso. O minotauro justifica de sobra a existência do labirinto. Ninguém dirá o mesmo de uma ameaça percebida em um sonho. Evocada a imagem do minotauro (evocação fatal num caso em que existe um labirinto), o problema, virtualmente, estava resolvido. No entanto, confesso não ter entendido que essa antiga imagem fosse a chave e, assim, foi necessário que teu relato me oferecesse um símbolo mais preciso: a teia de aranha.

— A teia de aranha? — repetiu Dunraven, perplexo.

— Sim. Não me espantaria nada que a teia de aranha (a forma universal da teia de aranha, entendamos bem, a teia de aranha de Platão) tivesse sugerido ao assassino (porque há um assassino) seu crime. Lembrarás que o Bokari, em uma tumba, sonhou com uma rede de serpentes e que, ao despertar, descobriu que uma teia de aranha lhe sugerira aquele sonho. Voltemos a essa noite em que o Bokari sonhou com uma rede. O rei vencido e o vizir e o escravo fogem pelo deserto com um tesouro. Refugiam-se em uma tumba. Dorme o vizir, de quem sabemos que é um covarde; não dorme o rei, de quem sabemos que é um valente. O rei, para não compartilhar o tesouro com o vizir, mata-o com uma facada; a sombra dele ameaça-o num sonho, noites depois. Tudo isto é inacreditável; entendo que os fatos ocorreram de outra maneira. Nessa noite dormiu o rei, o valente, e velou Zaid, o covarde. Dormir é distrair-se do universo, e a distração é difícil para quem sabe que o perseguem com espadas nuas. Zaid, ávido, inclinou-se sobre o sono de seu rei. Pensou em matá-lo (quem sabe até brincou com o punhal), mas não se atreveu. Chamou o escravo, ocultaram parte do tesouro na tumba, fugiram para Suakin e para a Inglaterra. Não com o fim de ocultar-se do Bokari, mas para atraí-lo e matá-lo, construiu à vista do mar o alto labirinto de muros vermelhos. Sabia que os navios levariam aos portos da Núbia a fama do homem vermelho, do escravo e do leão, e que, cedo ou tarde, o Bokari viria procurá-lo em seu labirinto. No último corredor da rede esperava o alçapão. O Bokari desprezava-o infinitamente; não se rebaixaria a tomar a menor precaução. O dia ansiado chegou; Abenjacan desembarcou na Inglaterra, caminhou até a porta do labirinto, atravessou os cegos corredores e já havia pisado talvez os primeiros degraus quando seu vizir o matou do alçapão, não sei se com um balaço. O escravo mataria o leão e outro balaço mataria o escravo. Em seguida, Zaid desfez os três rostos com uma pedra. Teve que agir assim; um só morto com a face desfeita teria sugerido um problema de identidade, mas a fera, o negro e o rei formavam uma série e, dados os dois termos iniciais, todos postulariam o último. Não é estranho que estivesse dominado pelo temor quando falou com Allaby; acabava de executar a horrível tarefa e se dispunha a fugir da Inglaterra para recuperar o tesouro.

Um silêncio pensativo, ou incrédulo, seguiu-se às palavras de Unwin. Dunraven pediu outro copo de cerveja preta antes de opinar.

— Aceito — disse — que meu Abenjacan seja Zaid. Tais metamorfoses, vais dizer, são clássicos artifícios do gênero, são verdadeiras convenções cuja observância exige o leitor. O que resisto a admitir é a conjetura de que uma porção do tesouro ficasse no Sudão. Lembra que Zaid fugia do rei e dos inimigos do rei; mais fácil é imaginá-lo roubando todo o tesouro do que se demorando em enterrar uma parte. Talvez não se encontrassem moedas por não restarem moedas; os pedreiros teriam esgotado um caudal que, ao contrário do ouro vermelho dos Nibelungos, não era infinito. Teríamos assim Abenjacan atravessando o mar para reclamar um tesouro dilapidado.

— Dilapidado, não — disse Unwin. — Investido em armar em terra de infiéis uma grande armadilha circular de tijolo destinada a prendê-lo e aniquilá-lo. Zaid, se tua conjetura é correta, procedeu premido pelo ódio e pelo temor e não pela cobiça. Roubou o tesouro e depois compreendeu que não era o essencial para ele. O essencial era que Abenjacan perecesse. Simulou ser Abenjacan, matou Abenjacan e finalmente foi Abenjacan.

— Sim — confirmou Dunraven. — Foi um vagabundo que, antes de ser ninguém na morte, recordaria ter sido um rei ou ter fingido ser um rei, algum dia.