• Ivan Milazzotti
    Jorge Luis Borges
    09-10-2025 01:07:25
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A espera

A carruagem deixou-o no quatro mil e quatro dessa rua do Noroeste. Não tinha dado as nove da manhã; o homem percebeu com aprovação os manchados plátanos, o quadrado de terra ao pé de cada um, as respeitáveis casas com varandinha, a farmácia contígua, os desbotados losangos da loja de tintas e da ferraria. Um longo e compacto paredão de hospital fechava a calçada da frente; o sol reverberava, mais ao longe, em algumas estufas. O homem considerou que essas coisas (agora arbitrárias e casuais e em qualquer ordem, como as que se vêem nos sonhos) seriam com o tempo, se Deus quisesse, invariáveis, necessárias e familiares. Na vitrina da farmácia lia-se em letras de fôrma: Breslauer; os judeus estavam deslocando os italianos, que tinham deslocado os nativos. Melhor assim; o homem preferia não alternar com gente de seu sangue.

O cocheiro ajudou-o a descer o baú; uma mulher de ar distraído ou cansado abriu pôr fim a porta. De seu assento, o cocheiro lhe devolveu uma das moedas, um vintém oriental que estava em seu bolso desde essa noite no hotel de Melo. O homem entregou-lhe quarenta centavos, e no ato ele sentiu: "Tenho obrigação de agir de maneira que todos se esqueçam de mim. Cometi dois erros: dei uma moeda de outro país e deixei ver que esse equívoco me interessa".

Precedido pela mulher, atravessou o vestíbulo e o primeiro pátio. O quarto que lhe haviam reservado dava, felizmente, para o segundo andar. A cama era de ferro, que o artífice havia deformado em curvas fantásticas, representando ramos e pâmpanos; havia, ao mesmo tempo, um alto guarda-roupa de pinho, uma mesa-de-cabeceira, uma estante com livros quase ao nível do chão, duas cadeiras díspares e um lavatório com sua bacia, sua jarra, sua saboneteira e um garrafão de vidro escuro. Um mapa da província de Buenos Aires e um crucifixo adornavam as paredes; o papel era vermelho, com grandes pavões repetidos, de cauda desfraldada. A única porta dava para o pátio. Foi necessário mudar a posição das cadeiras para dar lugar ao baú. O inquilino aprovou tudo; quando a mulher lhe perguntou como se chamava, disse Villari, não como um desafio secreto, não para mitigar uma humilhação que, na verdade, não sentia, mas porque esse nome o perseguia, porque lhe foi impossível pensar em outro. Não o seduziu, certamente, o erro literário de imaginar que assumir o nome do inimigo pudesse ser uma astúcia.

O senhor Villari, no início, não deixava a casa; passadas algumas semanas, começou a sair, por um instante, ao escurecer. Numa noite, entrou no cinema que havia a três quadras. Não passou nunca da última fila; sempre se levantava um pouco antes do fim da sessão. Viu trágicas histórias de bandidos; estas, sem dúvida, incluíam erros; estas, sem dúvida, incluíam imagens que também eram de sua vida anterior; Villari não os percebeu porque a ideia de uma coincidência entre a arte e a realidade lhe era alheia. Docilmente, procurava que as coisas lhe agradassem; queria adiantar-se à intenção com que elas lhe eram mostradas. Ao contrário dos que têm lido romances, ele não se via nunca a si mesmo como personagem da arte.

Nunca lhe chegou uma carta, nem sequer uma circular, mas lia com confusa esperança uma das seções do jornal. À tarde, encostava na porta uma das cadeiras e mateava com seriedade, de olhos postos na trepadeira do muro do contíguo sobrado. Anos de solidão haviam-lhe ensinado que os dias, na memória, tendem a ser iguais, mas que não há um dia, nem mesmo de prisão ou de hospital, que não traga surpresas. Em outras reclusões cedera à tentação de contar os dias e as horas, mas esta reclusão era diferente, porque não tinha fim — a não ser que o jornal, numa manhã, trouxesse a notícia da morte de Alejandro Villari. Também era possível que Villari já tivesse morrido e então esta vida seria um sonho. Essa possibilidade o inquietava, pois não chegou a entender se ela se parecia com alívio ou com desdita; disse a si mesmo que era absurda e a repeliu. Em dias longínquos, menos longínquos pelo passar do tempo que por dois ou três fatos irrevogáveis, desejara muitas coisas, com amor sem escrúpulo; essa vontade poderosa, que movera o ódio dos homens e o amor de alguma mulher, já não queria coisas particulares: só queria perdurar, não concluir. O sabor da erva, o sabor do tabaco negro, o crescente fio de sombra que ia ganhando o pátio.

Havia na casa um cachorro-lobo, já velho. Villari fez amizade com ele. Falava-lhe em espanhol, em italiano e nas poucas palavras que lhe ficaram do rústico dialeto de sua infância. Villari procurava viver no mero presente, sem lembranças nem previsões; as primeiras lhe importavam menos que as últimas. Vagamente acreditou intuir que o passado é a substância de que o tempo está feito; por isso é que este se torna logo passado. Sua fadiga, algum dia, pareceu-se com felicidade; em momentos assim, não era muito mais complexo que o cão.

Numa noite, deixou-o assombrado e trêmulo uma íntima descarga de dor no fundo da boca. Esse horrível milagre ocorreu em poucos minutos e outra vez por volta do amanhecer. Villari, no dia seguinte, mandou buscar um carro que o deixou num consultório dentário do bairro do Once. Aí, arrancaram-lhe o molar. Nesse transe, não esteve mais covarde nem mais tranquilo que outras pessoas.

Em outra noite, ao voltar do cinema, sentiu que o empurravam. Com ira, com indignação, com secreto alívio, encarou o insolente. Cuspiu-lhe uma injúria soez; o outro, atônito, balbuciou uma desculpa. Era um homem alto, jovem, de cabelo escuro, e o acompanhava uma mulher de tipo alemão; Villari, nessa noite, repetiu a si mesmo que não os conhecia. Entretanto, quatro ou cinco dias se passaram antes que saísse à rua.

Entre os livros da estante havia uma Divina Comédia, com o velho comentário de Andreoli. Menos premido pela curiosidade que por um sentimento de dever, Villari atirou-se à leitura dessa obra capital; antes de comer, lia um canto, e a seguir, em ordem rigorosa, as notas. Não julgou inverossímeis ou excessivas as penas infernais e não pensou que Dante o tivesse condenado ao último círculo, onde os dentes de Ugolino roem eternamente a nuca de Ruggieri.

Os pavões do papel carmesim pareciam destinados a alimentar pesadelos tenazes, mas o senhor Villari não sonhou nunca com um caramanchão monstruoso feito de inextricáveis pássaros vivos. Nos amanheceres sonhava um sonho de fundo igual e de circunstâncias variáveis. Dois homens e Villari entravam com revólveres no quarto ou o agrediam ao sair do cinema ou eram, os três ao mesmo tempo, o desconhecido que o havia empurrado, ou o esperavam tristemente no pátio e pareciam não o conhecer. No fim do sonho, ele tirava o revólver da gaveta da contígua mesa-de-cabeceira (e é verdade que nessa gaveta guardava um revólver) e o descarregava contra os homens. O estrondo da arma despertava-o, mas sempre era um sonho e em outro sonho o ataque se repetia e em outro sonho tinha que tornar a matá-los.

Numa escura manhã do mês de julho, a presença de gente desconhecida (não o ruído da porta quando a abriram) despertou-o. Altos na penumbra do quarto, curiosamente simplificados pela penumbra (nos sonhos do temor sempre tinham sido mais claros), vigilantes, imóveis e pacientes, com os olhos baixos como se o peso das armas os encurvasse, Alejandro Villari e um desconhecido tinham-no alcançado, finalmente. Com um sinal, pediu-lhes que esperassem e voltou-se contra a parede, como se retomasse o sono. Fez isso para despertar a misericórdia dos que o mataram? Ou porque é menos duro suportar um acontecimento espantoso que imaginá-lo ou aguardá-lo indefinidamente? Ou — e isto talvez seja o mais verossímil — para que os assassinos fossem um sonho, como já o haviam sido tantas vezes, no mesmo lugar, à mesma hora?

Nessa magia estava quando o apagou a descarga.