• Ivan Milazzotti
    Segunda Jornada
    05-04-2026 00:10:02
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Três jovens, dissipando tudo o que têm, empobrecem; um sobrinho deles, conhecendo um abade quando volta para casa sem esperanças, descobre que o abade é a filha do rei da Inglaterra, que o toma por marido e ressarce os prejuízos dos tios, pondo-o em ótima situação.

O caso de Rinaldo de Asti foi ouvido com admiração pelas mulheres e pelos rapazes, que elogiaram sua devoção e agradeceram a Deus e a São Julião por lhe terem dado socorro na hora de maior necessidade; e considerou-se que a mulher, que soubera aproveitar o que de bom Deus mandava à sua casa, não fora nada tola (embora isso fosse dito meio às escondidas). E, enquanto se falava sorrindo maliciosamente da ótima noite que ela passara, Pampineia, sentada ao lado de Filostrato, percebendo que chegara a sua vez, como de fato chegara, refletindo, começou a pensar no que deveria dizer; e, depois da ordem da rainha, passou a falar com audácia e alegria:

– Valorosas senhoras, quanto mais se fala dos feitos da Fortuna, tanto mais resta a dizer por parte de quem queira olhar bem as coisas; e a ninguém isso deve causar admiração, se tivermos a sensatez de pensar que todas as coisas que tolamente chamamos nossas estão nas mãos dela e, por conseguinte, vão sendo por ela incessantemente permutadas, segundo um julgamento oculto, deste àquele e daquele a este, e assim por diante, sem nenhum critério que possamos conhecer. Embora isso se verifique em tudo, fielmente e todos os dias, e embora tenha sido mostrado em algumas histórias aqui narradas, visto que à nossa rainha apraz que se fale do assunto, acrescentarei às histórias já contadas uma que talvez não deixe de ter utilidade para os ouvintes e que, acredito, poderá ser de seu agrado.

Houve outrora em nossa cidade um cavaleiro conhecido como messer Tebaldo, que, segundo alguns, era da família dos Lamberti, enquanto outros afirmam que ele era da família dos Agolanti; estes outros talvez se baseassem mais no ofício que seus filhos depois exerceram do que em qualquer outra coisa, ofício que era o exercido desde sempre e ainda é pelos Agolanti. Mas, deixando de lado a questão de saber a qual das duas famílias ele pertencia, digo que na época ele era um cavaleiro riquíssimo e tinha três filhos, o primeiro dos quais se chamava Lamberto, o segundo Tedaldo, e o terceiro Agolante, jovens belos e amáveis; não tinha ainda o maior dezoito anos quando o riquíssimo messer Tebaldo morreu, deixando-lhes todos os seus bens móveis e imóveis, como legítimos herdeiros. Estes, vendo que tinham ficado riquíssimos em dinheiro e propriedades, começaram a gastar sem outro governo que não fosse o próprio prazer, sem nenhum freio ou controle, mantendo enorme criadagem, numerosos e excelentes cavalos, cães e aves, oferecendo recepções esplêndidas, promovendo torneios e fazendo não só coisas compatíveis com a fidalguia, mas também tudo o que o seu apetite juvenil lhes inspirasse. Não fazia muito tempo que levavam tal vida, quando o tesouro deixado pelo pai começou a minguar; e, como aos gastos com que estavam comprometidos não bastassem apenas os seus rendimentos, começaram a empenhar e a vender propriedades. E, vendendo uma hoje e outra amanhã, mal perceberam que tinham chegado a quase nada, até que lhes foram abertos pela pobreza os olhos que a riqueza mantivera fechados.

Diante disso, Lamberto um dia chamou os outros dois e lhes falou da magnificência em que o pai vivera e que fora deles também, da riqueza que tinham e da pobreza a que haviam sido levados pelo desregramento de seus gastos; e, da melhor maneira que soube, convenceu os irmãos a venderem juntos o pouco que restava e irem embora, antes que sua miséria se tornasse notória; foi o que fizeram. E, sem despedidas nem pompa, saíram de Florença e não pararam enquanto não chegaram à Inglaterra; ali, alugando uma casinha em Londres e gastando pouquíssimo, começaram a emprestar a juros com avidez; e a fortuna lhes foi tão favorável, que em poucos anos eles já tinham acumulado grande quantidade de dinheiro.

Com esse dinheiro, voltando a Florença ora um, ora outro, recuperaram grande parte de suas propriedades, compraram muitas outras além dessas e casaram-se. Como continuassem emprestando dinheiro na Inglaterra, mandaram para lá um jovem sobrinho de nome Alessandro, que cuidaria daquele negócio, enquanto os três, em Florença, esquecidos da situação a que tinham sido reduzidos pelos excessivos gastos, apesar de estarem com as respectivas família, gastavam desmesuradamente, tirando proveito do alto crédito que tinham junto a todos os mercadores, para qualquer grande soma de dinheiro. Esses gastos foram sustentados durante alguns anos pelo dinheiro que Alessandro lhes mandava, pois ele passara a fazer empréstimos a barões contra castelos e outras rendas, o que lhe propiciava bons lucros.

E, enquanto os três irmãos gastavam prodigamente, pedindo dinheiro emprestado quando este lhes faltava, sempre contando firmemente com a Inglaterra, ocorreu que, contrariando todas as expectativas, desencadeou-se lá, entre o rei e seu filho[33], uma guerra que dividiu a ilha entre os que apoiavam um e os que apoiavam o outro; por essa razão, Alessandro ficou sem os castelos todos dos barões, não sobrando nada mais que lhe rendesse dinheiro. E, dia após dia, esperando que houvesse paz entre o filho e o pai, e que, por conseguinte, fosse possível recuperar capital e juros, Alessandro não saía da ilha, e os três irmãos, em Florença, não limitavam em nada seus enormes gastos, pedindo todos os dias mais dinheiro emprestado. No entanto, passados alguns anos, não se concretizando essas expectativas, os três irmãos não só perderam o crédito como também foram subitamente presos, visto que os credores queriam receber o que lhes era devido; e, não bastando para o pagamento as suas propriedades, eles continuaram presos por conta do remanescente, enquanto respectivas esposas e filhos pequenos foram para o campo, passando a viver na pobreza, uns aqui, outros acolá, sem saberem se podiam esperar algo que não fosse uma vida miserável.

Alessandro, que durante vários anos esperara a paz na Inglaterra, vendo que ela não vinha e achando que ficar ali era não só perigoso como também inútil, decidiu voltar para a Itália e pôs-se a caminho totalmente só. Ao sair de Bruges, viu por acaso que de lá também saía um abade branco acompanhado por muitos monges e criados, todos precedidos de muita bagagem; atrás iam dois cavaleiros idosos e parentes do rei; como eram conhecidos seus, Alessandro juntou-se a eles e foi recebido de bom grado em sua companhia.

Caminhando, portanto, Alessandro perguntou polidamente quem eram os monges que cavalgavam à frente com tantos criados e para onde iam. A isso um dos cavaleiros respondeu:

– Esse que vai cavalgando à frente é um jovem parente nosso, recentemente eleito abade de uma das maiores abadias da Inglaterra; como tem menos idade do que as leis concedem a tanta dignidade, estamos indo com ele a Roma solicitar do santo padre que lhe dê dispensa da exigência de idade e o confirme na dignidade: sobre isso não se deve falar com ninguém.

Caminhando, portanto, o abade novato ia ora à frente, ora atrás do seu séquito, tal como vemos todos os dias que os nobres fazem em viagem, e sucedeu-lhe deparar com Alessandro a caminhar ao seu lado; este era bastante jovem, belíssimo de corpo e semblante, educado, agradável e de bons modos, como ninguém mais poderia ser; à primeira vista o abade ficou maravilhado e gostou dele mais do que já gostara de qualquer outra coisa; e, chamando-o para junto de si, travou com ele agradável conversação, perguntando-lhe quem era, de onde vinha e para onde ia. Alessandro então expôs sinceramente a sua condição e respondeu à sua pergunta, oferecendo-se a prestar-lhe qualquer serviço que estivesse ao seu alcance. O abade, ouvindo sua conversação bonita e bem articulada, considerando os seus costumes com mais detalhes e pensando consigo que, apesar do ofício servil, ele devia ser fidalgo, foi se agradando cada vez mais da sua boa aparência; e, enchendo-se de compaixão pelas suas desgraças, confortou-o com familiaridade e disse-lhe que não deixasse de ter esperanças porque, se era homem de bem, Deus ainda o recolocaria ali de onde a fortuna o tirara, e até mais acima: e solicitou-lhe que, como estava indo para a Toscana, lhe fizesse o favor de permanecer em sua companhia, visto que também ele ia para lá. Alessandro agradeceu-lhe o conforto e disse estar a seu dispor para qualquer coisa que ele ordenasse.

Caminhando, portanto, ia o abade sentindo que, ao ver Alessandro, tantas coisas novas se revolviam em seu peito, até que após vários dias chegaram a uma aldeia que não tinha hospedarias em abundância; e, como o abade precisasse hospedar-se, Alessandro o fez alojar-se em casa de um hospedeiro com quem tinha muita amizade, pedindo a este que aprontasse um quarto no lugar menos incômodo da casa. Tinha ele já quase virado mordomo do abade, por ser muito prático, e, depois de alojar na aldeia todos os criados da melhor maneira possível, uns aqui, outros ali, havendo já o abade ceado, ia já adiantada a noite e estavam todos adormecidos, quando Alessandro perguntou ao hospedeiro onde ele mesmo dormiria.

A isso o hospedeiro respondeu:

– Na verdade, não sei; como você vê, está tudo lotado, e eu e minha família vamos dormir nos bancos; no entanto, no quarto do abade há algumas arcas de guardar grãos, posso levá-lo até lá e armar uma caminha em cima; lá, se quiser, pode dormir muito bem esta noite.

Alessandro respondeu:

– E como é que eu vou caber no quarto do abade? Como você sabe, ele é tão estreito que lá não foi possível instalar nenhum dos seus monges. Se eu tivesse percebido quando as cortinas da cama do abade foram fechadas, eu teria posto os monges para dormir em cima das arcas, e teria ficado onde os monges agora estão dormindo.

O hospedeiro disse:

– Agora a coisa já está feita e, se quiser, pode se acomodar lá da melhor maneira do mundo. O abade está dormindo com seis cortinas[34] pela frente: ponho ali bem quieto um colchãozinho e você dorme.

Alessandro, percebendo que aquilo podia ser feito sem nenhum incômodo para o abade, concordou e acomodou-se lá no maior silêncio possível. O abade, que não estava dormindo, mas, ao contrário, estava pensando muito nos seus desejos insólitos, ouvira o que diziam o hospedeiro e Alessandro e também percebera o lugar onde Alessandro tinha ido dormir; assim, muito contente, começou a pensar: “Deus mandou a ocasião para os meus desejos: se eu não aproveitar, vai demorar muito para aparecer outra igual.

E, decidindo-se a aproveitá-la, percebendo que tudo estava quieto na hospedaria, chamou Alessandro baixinho e convidou-o a deitar-se ao seu lado; ele, depois de várias recusas, despiu-se e deitou-se ao seu lado. O abade pôs a mão sobre o peito dele e começou a tocá-lo de um modo nada diferente dos usados pelas jovens enamoradas com seus amantes: Alessandro, muito admirado, receou que o abade, talvez tomado por um amor indecoroso, fosse incitado a tocá-lo daquela maneira. E esse receio, quer por conjectura, quer por algum ato de Alessandro, foi subitamente percebido pelo abade, que sorriu e, tirando rapidamente a camisa que vestia, tomou a mão de Alessandro e a pôs sobre seu peito, dizendo:

– Alessandro, deixe-se de pensamento tão tolo e tateie aqui para saber o que estou escondendo.

Alessandro, pondo a mão sobre o peito do abade, encontrou dois pequenos seios redondos, firmes e delicados, como se fossem feitos de marfim; descobrindo-os e percebendo logo que se tratava de mulher, sem esperar outro convite quis imediatamente abraçá-la e beijá-la; foi quando ela disse:

– Antes que se aproxime mais, espere para ouvir o que quero dizer. Como pode perceber, sou mulher, e não homem; saí de casa donzela e estava indo ao papa pedir-lhe que me desse marido: para sua felicidade ou minha desgraça, que seja, quando o vi no outro dia o amor me inflamou de tal modo que nunca houve mulher que amasse tanto um homem; por isso decidi que quero me casar com você e com nenhum outro; se não me quiser por mulher, saia logo daqui e volte para o seu lugar.

Alessandro, embora não a conhecesse, considerando o séquito que tinha, imaginou que ela seria nobre e rica; ademais, achava-a linda: por isso, sem pensar muito, respondeu que, se aquilo era do seu agrado, a ele dava muito gosto. Ela então, levantando-se, sentou-se na cama, diante de uma mesinha onde havia uma imagem de Nosso Senhor, e, pondo-lhe um anel na mão o fez desposá-la; depois, abraçados, para grande prazer de ambas as partes, os dois se divertiram durante todo o restante noite. E, combinando entre si o modo como organizariam as coisas, quando o dia surgiu Alessandro se levantou e saiu do quarto por onde entrara, sem que ninguém soubesse onde tinha dormido, e, felicíssimo, retomou o caminho com o abade e seu séquito; após muitos dias chegaram a Roma.

Ali, depois de terem passado alguns dias, o abade, os dois cavaleiros e Alessandro, sem mais ninguém, foram recebidos pelo papa; feita a devida reverência, assim começou o abade a falar:

– Santo padre, como o senhor deve saber melhor do que qualquer outra pessoa, todos aqueles que queiram viver bem e honestamente devem, na medida do possível, fugir de qualquer ocasião que os faça comportar-se de outro modo; e eu, que desejo viver honestamente, para poder fazê-lo, me pus a caminho envergando o hábito em que agora me vê, fugindo secretamente com grande parte dos tesouros de meu pai, o rei da Inglaterra (que queria me dar por esposa ao rei da Escócia, senhor muito velho, sendo eu jovem como vê), para vir aqui pedir a Vossa Santidade que me desse marido. E não foi tanto a velhice do rei da Escócia que me fez fugir, e sim o medo de fazer coisas que contrariassem as leis divinas e a honra do sangue real de meu pai, caso me casasse com ele, em vista da fragilidade da minha juventude. E, vindo a tanto disposta, Deus – pois só Ele sabe realmente aquilo que cabe a cada um –, creio que por misericórdia, pôs diante de meus olhos aquele que lhe aprazia que fosse meu marido: e era este jovem – e apontou Alessandro –, que o senhor está vendo ao meu lado, cujos costumes e cujo valor são dignos de qualquer grande dama, embora a nobreza de seu sangue talvez não seja tão límpida como a régia. É esse o homem que escolhi e quero, e não aceitarei nenhum outro, seja lá o que meu pai ou qualquer outra pessoa pense a respeito; e, embora houvesse desaparecido a principal razão que me trazia aqui, quis chegar ao fim do caminho, tanto para visitar os lugares santos e venerandos, de que esta cidade está cheia, e também Vossa Santidade, quanto para que o matrimônio contraído entre mim e Alessandro apenas na presença de Deus se torne público na sua presença e, por conseguinte, na dos outros homens. Por isso, finalmente, lhe rogo com humildade que lhe seja grato aquilo que Deus quis e foi do meu agrado, e que dê a sua bênção para que com ela, confirmando o que é do gosto daquele cujo vigário o senhor é, possamos viver e morrer juntos para a honra de Deus e de Vossa Santidade.

Admirado de ouvir que a mulher era filha do rei da Inglaterra, Alessandro encheu-se de singular e oculta alegria: porém muito mais admirados ficaram os dois cavaleiros, perturbando-se tanto que, se estivessem em outro lugar, e não diante do papa, teriam cometido alguma descortesia com Alessandro e talvez com a mulher. Por outro lado, o papa também se admirou bastante com o hábito que a mulher envergava e com a sua escolha; mas, sabendo que não podia voltar atrás, decidiu atender ao seu pedido. E, depois de consolar os cavaleiros, que sabia estarem perturbados, e de reconciliá-los com a dama e com Alessandro, deu ordens para que se fizesse o que era preciso. Chegado o dia por ele marcado, diante de todos os cardeais e de muitos outros homens nobres e valorosos, convidados para uma grande festa que ele preparara, mandou chamar a dama, que veio vestida em trajes régios e tinha uma aparência tão bela e agradável, que todos a elogiavam merecidamente; também Alessandro apareceu esplendidamente vestido, não com a aparência e os trajes de um jovem que tivesse emprestado dinheiro a juros, e sim de alguém que tivesse sangue real, sendo muito bem recebido pelos dois cavaleiros; então o papa, solenemente, realizou novos esponsais e, realizadas as bodas com beleza e magnificência, dispensou-os com sua bênção.

Alessandro e a mulher quiseram sair de Roma, vir a Florença, onde a notícia já chegara; e aqui foram recebidos com muitas honras pelos cidadãos; a dama mandou soltar os três irmãos, depois de pagar todos os credores, e restituiu as propriedades deles e de suas mulheres. Assim, com a boa graça de todos, Alessandro e esposa, levando consigo Agolante, partiram de Florença e foram para Paris, onde o rei os recebeu com hospitalidade. Depois os dois cavaleiros foram para a Inglaterra e tanto se empenharam junto ao rei, que ele lhes concedeu a sua graça e recebeu a filha e o genro com enorme festa; pouco depois, com muita honra, armou o genro cavaleiro e deu-lhe o condado de Cornualha. Foi ele tão capaz e soube agir tão bem, que reconciliou o filho com o pai, o que acarretou grande bem para a ilha e lhe possibilitou conquistar o amor e o favorecimento de todos os compatriotas; Agolante arrecadou inteiramente tudo o que lhe deviam e voltou riquíssimo para Florença, não sem antes armar cavaleiro o conde Alessandro. Depois, o conde viveu gloriosamente com a esposa; e, segundo querem alguns, com sua sensatez e valor, mais a ajuda do sogro, conquistou a Escócia e foi coroado seu rei.


[33] Seria a luta entre Henrique II (1133-1189) e seu primogênito Henrique. (N.T.)[ «« ]

[34] Provavelmente por ser habitual na época colocar duas cortinas em cada um dos três lados da cama. (N.T.)[ «« ]