• Ivan Milazzotti
    Segunda Jornada
    05-04-2026 00:10:02
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Rinaldo de Asti é roubado e vai parar em Castel Guiglielmo, onde é hospedado por uma viúva; depois, ressarcido de seus prejuízos, volta para casa são e salvo.

As aventuras de Martellino, contadas por Neifile, provocaram muitas risadas entre as senhoras e entre os rapazes, principalmente em Filostrato; este, que estava sentado ao lado de Neifile, recebeu ordem da rainha de contar a próxima história. E começou sem demora.

– Belas senhoras, há uma história que está me tentando; gira em torno de um misto de coisas sagradas, desventuras e amor, e talvez seja útil ouvi-la, especialmente para aqueles que caminham pelos perigosos territórios do amor, nos quais quem não rezar o pai-nosso a São Julião[29], mesmo tendo boa cama, estará muito mal hospedado.

No tempo do marquês Azzo de Ferrara havia um mercador chamado Rinaldo de Asti[30], que fora a Bolonha tratar de negócios; depois de fazer o que devia, na volta para casa, saiu de Ferrara e, cavalgando rumo a Verona, topou com alguns homens que pareciam mercadores, mas na realidade eram bandoleiros, gente de vida criminosa e vil, cuja companhia ele aceitou e com os quais seguiu conversando despreocupadamente. Eles, vendo que tratavam com um mercador e imaginando que ele levava dinheiro, combinaram que o roubariam assim que se apresentasse a ocasião: por isso, para que ele não desconfiasse de nada, iam conversando como pessoas sóbrias e de boa condição, acerca de honestidade e lealdade, mostrando-se humildes e benévolos naquilo que podiam e sabiam: motivo pelo qual ele considerava que tivera muita sorte em encontrá-los, pois estava sozinho com um criado a cavalo.

Caminhando e passando de um assunto a outro, como ocorre nas conversas, começaram a falar das orações que as pessoas fazem a Deus; e um dos bandoleiros (pois eram três) disse a Rinaldo:

– E o senhor, que oração costuma fazer em viagem?

A isso Rinaldo respondeu:

– Na verdade, para essas coisas eu sou grosseiro e ignorante, e tenho poucas orações à mão, pois vivo à moda antiga e aceito seis por meia dúzia; no entanto, sempre tive o costume de, em viagem, pela manhã, ao sair da hospedaria, rezar um pai-nosso e uma ave-maria pela alma do pai e da mãe[31] de São Julião e depois pedir a Deus e ao Santo que naquela noite me deem boa hospedagem. E muitas vezes já, em viagem, enfrentei grandes perigos, escapei de todos e à noite encontrei um bom lugar e fui bem hospedado; por isso, creio firmemente que São Julião – e digo isso em sua honra – obteve para mim essa graça de Deus; e, se de manhã não faço essa oração, tenho a impressão de que o dia não vai ser bom, e de que a noite não vai chegar bem.

Ouvindo isso, aquele que fizera a pergunta disse:

– E hoje de manhã o senhor fez a oração?

Rinaldo respondeu:

– Sim, claro.

Então o homem, que já sabia o que ia acontecer, disse de si para si: “Que faça bom proveito, porque, se não falharmos, tenho a impressão de que você vai ter péssima hospedagem”; depois lhe disse:

– Eu também já viajei muito e nunca fiz essa oração, embora já tenha ouvido muita gente recomendá-la, mas nem por isso deixei de ter boa hospedagem; e esta noite, por acaso, o senhor poderá ver quem vai se hospedar melhor: o senhor, que fez a oração, ou eu, que não a fiz. É bem verdade que, em lugar dela, eu rezo o Dirupisti ou a ’Ntemerata ou o Deprofundi, que, como costumava dizer uma minha avó, têm enorme virtude.

E assim, falando de várias coisas, avançando pelo caminho e esperando lugar e momento certo para concretizarem suas más intenções, já era tarde quando ultrapassaram Castel Guiglielmo e, ao atravessarem um rio, os três, vendo que a hora já era avançada, e o lugar, ermo e escondido, assaltaram e roubaram Rinaldo, deixando-o a pé e em mangas de camisa; depois, partindo, disseram:

– Vai ver se o teu São Julião te dá boa hospedagem esta noite; o nosso eu sei que vai dar.

E, atravessando o rio, foram embora.

O criado de Rinaldo, que era medroso, ao vê-lo assaltado não lhe prestou ajuda nenhuma, mas, dando meia-volta ao cavalo que montava, não parou de correr até chegar a Castel Guiglielmo, onde, já noite, entrou e hospedou-se sem maiores preocupações.

Rinaldo, em mangas de camisa e descalço, sob intenso frio e neve ininterrupta, não sabendo o que fazer, vendo que já anoitecia, tremendo e batendo os dentes, começou a olhar ao redor, tentando achar algum refúgio onde pudesse pernoitar e não morrer de frio; mas, não vendo nenhum, porque pouco tempo antes houvera guerra na região e tudo se incendiara, impelido pela friagem dirigiu-se correndo para Castel Guiglielmo, sem saber se seu criado tinha fugido para lá ou para qualquer outro lugar, acreditando que, se conseguisse entrar, receberia algum socorro de Deus. Mas a noite densa o surpreendeu a cerca de uma milha do castelo, e ele chegou lá tão tarde, que, encontrando as portas fechadas e as pontes levantadas, não conseguiu entrar. Então, chorando de pesar e desconsolo, olhava ao redor em busca de um lugar onde pudesse ficar e onde pelo menos não lhe nevasse em cima; então, viu uma casa que formava certa saliência sobre a muralha do castelo e debaixo dela decidiu ficar até que surgisse o dia; foi para lá e, sob a tal saliência, encontrou uma porta, mas fechada; então, juntando ao pé dela um pouco de palha, ele ali se pôs e ficou, triste e pesaroso, queixando-se frequentemente a São Julião, dizendo que aquilo não era digno da fé que lhe dedicava. Mas São Julião, que tinha estima por ele, sem muita demora lhe preparou uma boa hospedagem.

Havia naquele castelo uma viúva, dona de corpo belíssimo, como nenhuma outra, que o marquês Azzo amava como a própria vida e lá mantinha à sua disposição: a referida mulher morava naquela casa, sob cuja saliência Rinaldo tinha ido se abrigar. Por acaso, durante o dia, o marquês lá estivera com a intenção de dormir à noite com ela e, discretamente, a mandara preparar um banho e uma ceia requintada. Quando estava tudo pronto (e ela só esperava a vinda do marquês), um criado chegara à porta trazendo ao marquês notícias que o obrigaram a partir de repente a cavalo: por isso, depois de mandar dizer à mulher que não o esperasse, ele foi embora rapidamente. Então a mulher, um pouco desconsolada, não sabendo o que fazer, decidiu entrar no banho preparado para o marquês, para depois cear e dormir; e foi assim que entrou no banho.

Ficava o tal banho próximo à porta onde o pobre Rinaldo se encostara, do lado de fora do burgo; por isso, a mulher, do banho, ouviu o choro e o tiritar de Rinaldo, que parecia uma cegonha batendo o bico. Então, chamando a criada, disse-lhe:

– Vá lá para cima e olhe para o lado de fora do muro ao pé desta porta para ver quem está lá e o que está fazendo.

A criada foi e, ajudada pela claridade do ar, viu Rinaldo em mangas de camisa e descalço, sentado ali, como se disse, tremendo muito; então ela lhe perguntou quem era. Rinaldo, tremendo tanto que mal conseguia pronunciar as palavras, disse-lhe com a maior brevidade possível quem era e como e por que estava lá: e depois começou a rogar-lhe que, se fosse possível, não o deixasse morrer de frio ali, durante a noite. A criada, compadecida, voltou até sua senhora e contou tudo. Esta, também compadecida, lembrando-se de que tinha a chave daquela porta, que às vezes servia para as entradas furtivas do marquês, disse:

– Vá lá e abra a porta devagarinho; aqui há este jantar, sem ninguém para comer, e também muito espaço para abrigá-lo.

A criada, depois de louvar a senhora por esse gesto de humanidade, foi até lá e abriu a porta; estava ele já dentro, quando a senhora, vendo-o quase congelado, disse:

– Depressa, bom homem, entre naquele banho, que ainda está quente.

Coisa que ele fez de bom grado, sem esperar mais convite, de tal modo que, reconfortado pelo calor, teve a impressão de que estivera morto e voltava à vida. A mulher mandou trazer-lhe algumas roupas que tinham sido de seu marido pouco antes da morte; vestidas, elas pareciam ter sido feitas sob medida para ele; e, enquanto aguardava as ordens da mulher, ele começou a agradecer a Deus e a São Julião que o haviam livrado de noite tão ruim, como ele previa, e conduzido a uma boa hospedagem, pelo que parecia. Depois disso, a senhora, tendo descansado um pouco e mandado fazer uma enorme fogueira na lareira de uma de suas salas, foi para lá e perguntou o que era feito do bom homem. A isso a criada respondeu:

– Senhora, ele se vestiu e ficou muito bonito; parece gente direita e de bons costumes.

– Então vá até lá – disse a senhora –, chame-o, diga que venha aqui: vamos cear junto ao fogo, porque sei que ele não jantou.

Rinaldo entrou no salão e, vendo a mulher, que lhe pareceu importante, cumprimentou-a com reverência e agradeceu-lhe o benefício recebido da melhor maneira que sabia. A mulher, vendo-o, ouvindo-o e concordando com o que a criada dissera, recebeu-o alegremente e, com familiaridade, convidou-o a sentar-se junto ao fogo e perguntou-lhe do incidente que o levara até lá; Rinaldo contou tudo com minúcias. A mulher, que tinha ouvido alguma coisa sobre a chegada do criado de Rinaldo ao castelo, ao ouvir o que ele disse acreditou inteiramente e contou-lhe o que sabia sobre o seu criado, dizendo que na manhã seguinte seria fácil encontrá-lo. Posta a mesa, como quis a mulher, Rinaldo se sentou com ela e começou a jantar, depois de lavar as mãos. Era ele homem de grande estatura, bonito, de rosto agradável, tinha maneiras admiráveis e elegantes e era jovem de meia-idade; a mulher, deitando-lhe o olhar por diversas vezes, louvava-o cada vez mais; além disso, o marquês, que deveria ter vindo para dormir com ela, já lhe despertara na mente o apetite concupiscente. Depois do jantar, retirada a mesa, ela se aconselhou com a criada, perguntando se, em vista do pouco caso que o marquês fizera dela, conviria aproveitar aquele bem que a Fortuna lhe punha à frente.

A criada, conhecendo o desejo da patroa, encorajou-a como pôde e soube. Assim a mulher, voltando para junto do fogo, onde deixara Rinaldo sozinho, começou a olhar para ele amorosamente e disse:

– Ah, senhor Rinaldo, por que está assim pensativo? Acha que não vai poder ser compensado por um cavalo e algumas roupas que perdeu? Console-se, fique alegre, sinta-se em casa; aliás, gostaria de dizer mais uma coisa: vendo-o com essas roupas, que foram do meu finado marido, tive a impressão de estar diante dele, e devo ter sentido umas cem vezes esta noite vontade de abraçar e beijar o senhor, e sem dúvida o teria feito, não tivesse eu receio de lhe causar desagrado.

Rinaldo, ouvindo essas palavras e vendo o brilho dos olhos da mulher, não sendo nenhum mentecapto, foi ao encontro dela com os braços abertos e disse:

– Quando penso que só por sua causa posso dizer que estou vivo ainda e quando considero o lugar de onde a senhora me tirou, seria muita descortesia de minha parte não me empenhar em fazer tudo o que fosse de seu agrado; por isso, satisfaça sua vontade de me abraçar e beijar, que eu também a abraçarei e beijarei com enorme prazer.

Depois disso não precisaram de palavras. A mulher, que ardia de desejo amoroso, logo se atirou nos braços dele; e, depois de abraçá-lo e beijá-lo mil vezes com desejo e de ser do mesmo modo beijada por ele, os dois se levantaram e foram para o quarto, onde, sem mais delongas, se deitaram realmente e, até o raiar do dia, saciaram seu desejo várias vezes. Mas, quando a aurora começou a surgir, quis a mulher que eles se levantassem, para que ninguém suspeitasse e, depois de lhe dar alguns trajes ordinários e de lhe encher a bolsa de dinheiro, pediu-lhe que mantivesse tudo em segredo, não sem antes lhe mostrar que caminho deveria pegar para entrar no castelo e encontrar seu criado, fazendo-o finalmente sair por aquela pequena porta pela qual ele tinha entrado.

Quando o dia já estava claro, ele, fazendo de conta que chegava de mais longe, entrou no castelo, cujas portas já estavam abertas, e encontrou seu criado. Depois, quando já envergava seus próprios trajes, que estavam na valise, e pensava em montar no cavalo do criado, eis que quase por milagre divino os três bandoleiros que o tinham roubado na noite anterior, presos por motivo de outro delito praticado pouco depois, foram levados àquele castelo. E, graças à confissão deles mesmos, o cavalo, as roupas e o dinheiro foram restituídos a Rinaldo, que não perdeu nada mais que um par de ligas com as quais os bandoleiros não sabiam o que tinham feito. Desse modo, Rinaldo, agradecendo a Deus e a São Julião, montou a cavalo e voltou para casa são e salvo; e os três bandoleiros no dia seguinte foram dar pontapés no vento.[32]


[29] Costumava-se rezar um pai-nosso em intenção de São Julião para obter hospitalidade e proteção nas longas viagens. (N.T.)[ «« ]

[30] Asti era importante centro comercial da época. (N.T.)[ «« ]

[31] Segundo a lenda, tinham sido mortos por erro do santo, que, para resgatar o crime, se tornara hospitaleiro. (N.T.)[ «« ]

[32] Ou seja, foram enforcados. (N.T.)[ «« ]