• Ivan Milazzotti
    Segunda Jornada
    05-04-2026 00:10:02
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    5

Landolfo Rufolo, empobrecido, torna-se corsário, é preso pelos genoveses, naufraga e escapa sobre um cofre cheio de joias valiosíssimas; em Corfu é acolhido por uma mulher, volta rico para casa.

Lauretta estava sentada perto de Pampineia; vendo o fim glorioso de sua história, sem mais esperar começou a falar da seguinte maneira:

– Graciosíssimas senhoras, segundo me parece, não pode haver ação maior da Fortuna do que ver alguém ser elevado da miséria mais profunda à posição de rei, como ocorreu com Alessandro, conforme mostrou a história de Pampineia. E, visto que quem contar histórias sobre esse assunto daqui por diante só poderá ficar dentro desse limite, não me envergonho de contar uma história que, embora contenha misérias maiores, nem por isso tem conclusão tão magnífica. Bem sei que, em vista daquela história, a minha será ouvida com menor interesse: mas, não podendo fazer outra coisa, escusada estou.

Acredita-se que a costa que vai de Reggio a Gaeta seja a parte mais agradável da Itália; ali, bem perto de Salerno, há uma encosta que avança sobre o mar, chamada pelos habitantes de costa de Amalfi, cheia de cidadezinhas, jardins, fontes, homens ricos e hábeis no comércio como outros não há. Entre tais cidadezinhas encontra-se uma que se chama Ravello, onde, tal como ainda hoje existem homens ricos, houve no passado um que foi riquíssimo e se chamava Landolfo Rufolo; este, não satisfeito com sua riqueza, desejando duplicá-la, por pouco não a perdeu por inteiro, com a própria vida.

Portanto, como é hábito entre os mercadores, depois de fazer seus planos, ele comprou um grande navio e, às suas próprias expensas, carregou-o com várias mercadorias e partiu com elas para Chipre. Ali, descobriu que vários outros navios tinham chegado com mercadorias da mesma qualidade, razão pela qual ele não só precisou vender mais barato o que levava, como também, querendo comerciar suas coisas, quase as deu de graça: por isso, chegou à beira da ruína. Sentindo-se muito desgostoso com tudo aquilo, não sabendo o que fazer e vendo que deixara de ser riquíssimo para em breve tempo tornar-se quase pobre, pensou em morrer ou em recuperar os prejuízos na vida de corso, para não voltar pobre ao lugar de onde tinha saído rico. E, encontrando comprador para seu grande navio, com o dinheiro assim obtido e com o que obtivera no comércio, comprou uma embarcação leve de corso, que equipou e muniu muito bem com todas as coisas necessárias a tal atividade, e dedicou-se a apropriar-se das coisas alheias, sobretudo dos turcos.

E nessa atividade a fortuna lhe foi muito mais benévola do que fora no comércio. Em um ano, roubou e tomou tantos navios de turcos, que não só recuperou o que perdera no comércio como também multiplicou em muito aquilo que tinha. Assim, escarmentado pela primeira dor da perda e reconhecendo que já tinha o suficiente, para não incidir na segunda convenceu-se de que o que tinha deveria bastar, sem querer mais: por isso, preparou-se para voltar com aquilo para casa. E, temendo o comércio, não se preocupou em investir o dinheiro, mas resolveu retornar com aquele mesmo pequeno navio com o qual o ganhara; assim, aferrando remos, começou a voltar. Tinha já chegado ao Arquipélago[35] quando, durante certa noite, levantando-se um vento siroco que não só lhe era contrário como também encapelava muitíssimo o mar – coisa que seu pequeno navio não suportaria –, Landolfo abrigou-se do vento numa enseada formada por uma ilhota, com a intenção de lá esperar a melhoria do tempo. Estava fazia pouco naquela enseada quando com muito esforço chegaram duas grandes cocas[36] genovesas que, vindo de Constantinopla, fugiam daquilo mesmo de que Landolfo fugira; os homens que as tripulavam, vendo a pequena embarcação e fechando-lhe as vias de saída, ao saberem a quem pertencia e estando já a par da grande riqueza de seu proprietário, como eram naturalmente rapaces e cobiçosos de dinheiro, decidiram tomá-la. E, pondo em terra parte de seus homens, bem armados com balestras, ordenaram-lhes que ficassem numa posição tal que impedisse de sair da pequena embarcação quem não quisesse ser flechado; depois, usando suas chalupas e ajudados pelo mar, abordaram o naviozinho de Landolfo e, com pouco trabalho, em breve tempo e com toda a churma, tomaram tudo sem luta sem perderem nenhum homem: e, levando Landolfo e tudo o que haviam tirado de seu navio para uma das cocas, puseram a embarcação a pique e deixaram Landolfo vestido com um mísero gibão.

No dia seguinte, com a mudança do vento, as cocas rumaram para o poente a todo pano e durante o dia inteiro avançaram muito em sua viagem; mas, ao cair da noite, ergueu-se um vento tempestuoso que, formando altíssimas vagas, separou uma coca da outra. E, por força desse vento, a embarcação na qual estava o mísero e pobre Landolfo foi dar com muito ímpeto num baixio da ilha de Cefalônia, fendendo-se e despedaçando-se de um modo não muito diferente do vidro quando se choca contra um muro: e assim, com o mar já cheio de mercadorias, caixões e tábuas flutuando, como nesses casos costuma acontecer, embora a noite estivesse escuríssima, e o mar, encapelado e revoltoso, os pobres infelizes que estavam a bordo começaram a agarrar-se às coisas que por acaso lhes apareciam pela frente, nadando aqueles que sabiam nadar.

Entre eles estava o pobre Landolfo que, embora um dia antes tivesse clamado tantas vezes pela morte, achando melhor morrer que voltar pobre como estava para casa, ao vê-la chegar sentiu medo, e, tal como os outros, caindo-lhe sob as mãos uma tábua, agarrou-se a ela, esperando que, caso ele demorasse a se afogar, Deus lhe mandasse alguma ajuda para a salvação; e, pondo-se a cavalo sobre a tábua, viu-se impelido pelo mar e pelo vento ora para cá, ora para lá e, da melhor maneira que pôde, assim se manteve até que o dia clareou. Vendo que o dia chegara, olhou ao redor e nada viu além de nuvens, mar e um cofre que, flutuando, às vezes se aproximava, o que o deixava apavorado, por temer que se chocasse com ele e talvez o machucasse; por isso, sempre que o cofre chegava perto, Landolfo o empurrava com a mão, como podia, embora tivesse poucas forças. Mas, seja lá como for, o fato é que subitamente correu um pé de vento correu e pelos ares e caiu sobre o mar com tanta força, que bateu no cofre, e o cofre bateu na tábua sobre a qual estava Landolfo, tábua que virou, obrigando Landolfo a largá-la, submergindo; voltou depois à tona, mais ajudado pelo medo que pela força, e então viu que a tábua estava muito longe; assim, temendo não conseguir chegar até ela, dirigiu-se para o cofre, que estava bem próximo, e, com o peito apoiado na tampa, manteve-o reto com a ajuda dos braços da melhor maneira que conseguiu. Desse modo, jogado de um lado para o outro pelas ondas, sem comer (pois não havia o quê), bebendo mais do que desejaria, sem saber onde estava e não vendo nada senão mar, permaneceu todo aquele dia e a noite seguinte.

No outro dia, fosse por vontade de Deus ou pela força do vento, quase transformado em esponja, fortemente agarrado com ambas as mãos às bordas do cofre, tal como fazem aqueles que, estando para se afogar, seguram-se a alguma coisa, Landolfo chegou à praia da ilha de Corfu, onde por acaso uma mulher pobre areava e embelezava sua louça na água salgada. Esta, ao vê-lo aproximar-se, não reconhecendo nele forma humana, sentiu medo e recuou gritando. Ele, que não conseguia falar e pouco enxergava, nada disse; no entanto, à medida que o mar o impelia para a terra, ela foi percebendo o formato do cofre e, olhando com mais atenção, avistou primeiramente os braços estendidos sobre o cofre, depois identificou o rosto e imaginou que aquilo fosse o que de fato era. Então, compadecida, entrou um pouco no mar, que já estava tranquilo, agarrou-o pelos cabelos, puxou-o para a terra com cofre e tudo e lá, desvencilhando com dificuldade as mãos dele da tampa e pondo o cofre sobre a cabeça de uma filha que estava com ela, levou-o para a aldeia como se ele fosse uma criancinha: e, pondo-o no banho quente, tanto o esfregou e lavou com água quente, que ele recuperou o calor dissipado e um pouco das forças perdidas. Tratou-o pelo tempo que achou preciso, revigorou-o com um pouco de bom vinho e de doces, manteve-o da melhor maneira durante alguns dias, até que, recuperando as forças, ele percebeu onde estava. Então a boa mulher achou que já era hora de lhe devolver o cofre, que resgatara para ele, e de lhe dizer que fosse cuidar da vida; e assim fez.

Ele, que não se lembrava de cofre algum, assim mesmo o pegou quando trazido pela boa mulher, imaginando que não poderia valer tão pouco que algum dia não lhe pagasse as despesas; e, achando-o muito leve, quase perdeu as esperanças. No entanto, quando a boa mulher se ausentou da casa, ele despregou a tampa para ver o havia dentro, e encontrou muitas pedras preciosas engastadas e avulsas, coisa de que entendia um pouco; ao vê-las, percebendo que eram de grande valor e louvando a Deus, que ainda não quisera abandoná-lo, sentiu-se aliviado. Mas, por ter sido duramente golpeado pela fortuna duas vezes em pouco tempo, temendo a terceira, achou que convinha tomar muito cuidado se quisesse levar aquelas coisas para casa: assim, embrulhando-as em alguns panos da melhor maneira que pôde, disse à boa mulher que já não precisava do cofre e que, se lhe fizesse o favor, poderia dar-lhe um saco e ficar com ele.

A boa mulher concordou, e ele, demonstrando a maior gratidão de que era capaz pelo benefício recebido, pôs o saco a tiracolo e partiu; e, embarcando num navio, foi para Brindisi e, de lá, de uma costa a outra, chegou a Trani, onde encontrou alguns concidadãos que negociavam com tecidos e, quase pelo amor de Deus, o vestiram, depois que ele lhes contou todos os incidentes, com exceção do cofre; além disso, emprestaram-lhe um cavalo e, dando-lhe uma comitiva, mandaram-no para Ravello, aonde ele dizia que queria absolutamente voltar.

Chegando lá, quando achou que estava seguro, agradecendo a Deus que o conduzira, desfez o saquinho e, depois de olhar tudo com mais atenção do que fizera antes, descobriu que tinha tantas pedras e de tal qualidade que, se vendidas pelo preço devido ou até menos, ele ficaria duas vezes mais rico do que quando partira. E, depois de encontrar um meio de vender suas pedras, mandou boa quantidade de dinheiro a Corfu, para a boa mulher que o tirara do mar, como recompensa pelos serviços recebidos; mandou dinheiro também a Trani, para aqueles que o haviam vestido; com o restante ficou, pois não queria mais comerciar, e viveu decentemente até o fim.


[35] Egeu. (N.T.)[ «« ]

[36] Embarcação ligeira muito comum no tempo das cruzadas. (N.T.)[ «« ]