• Ivan Milazzotti
    Segunda Jornada
    05-04-2026 00:10:02
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    5

O conde de Antuérpia, sob falsa acusação, vai para o exílio e deixa dois filhos seus em diferentes lugares da Inglaterra; voltando incógnito da Escócia, encontra-os em bom estado; vai trabalhar como cavalariço no exército do rei da França, sua inocência é reconhecida e ele recupera sua antiga posição.

Muitos suspiros foram dados pelas senhoras diante das várias vicissitudes daquela beldade: mas quem saberá que razões inspiravam tais suspiros? Talvez houvesse quem suspirava tanto por inveja de tão frequentes bodas quanto por piedade pela mulher. Mas, deixando de lado tais coisas agora, depois que todos riram com as últimas palavras de Pânfilo, a rainha, vendo que com elas terminava a história dele, voltou-se para Elissa e impôs que ela continuasse na ordem com uma das suas histórias. E ela, obedecendo com alegria, começou.

– É vastíssimo o campo que perlustramos hoje, e não há ninguém que nele deixe de competir em pelo menos dez arenas, e não só numa, tanto o encheu a Fortuna de acontecimentos insólitos e graves; por isso, para contar algum, entre os infinitos que existem, digo que:

Quando o império de Roma passou dos franceses aos alemães[55], surgiu entre as duas nações intensa inimizade com acerba e contínua guerra, e tanto para a defesa de seu país quanto para a ofensa do alheio, o rei da França e um de seus filhos, valendo-se das forças de seu reino e de amigos e parentes que tivessem poder para tanto, organizaram um enorme exército para atacarem os inimigos; e, antes de avançarem, não querendo deixar o reino sem governo e sabendo que Gautier, conde de Antuérpia, era homem cortês e sábio, além de fiel amigo e servidor, e achando que ele, embora bastante adestrado na arte da guerra, era mais apto a coisas delicadas que a pesadas, deixaram-no como representante geral para todo o governo do reino de França e puseram-se a caminho. Então, com sensatez e ordem, Gautier deu início aos encargos confiados, sempre conferenciando sobre todas as coisas com a rainha e a nora; e, embora elas tivessem ficado sob sua custódia e jurisdição, não deixava de respeitá-las como suas senhoras e superiores. Muito bem-feito de corpo, com cerca de quarenta anos de idade, era o referido Gautier agradável e cortês como nenhum outro fidalgo; e, além de tudo isso, o mais galante e delicado cavaleiro que se conhecia naqueles tempos, e o que mais andava adornado.

Ocorre que, estando o rei de França e seu filho na citada guerra, morreu a mulher de Gautier, deixando-o com um filho e uma filha ainda pequeninos, e nada mais; e, como ele frequentasse a corte das referidas senhoras e com elas tratasse amiúde dos negócios do reino, a mulher do filho do rei começou a reparar nele e, observando com muita afeição sua pessoa e seus costumes, sentiu-se inflamada por oculto e ardente amor; e, percebendo-se jovem e viçosa, enquanto ele não tinha mulher, achou que satisfaria facilmente seus desejos e, acreditando que nada se oporia a isso, a não ser o pudor, decidiu desfazer-se deste e manifestar-lhe totalmente seus desejos. E, num dia em que estava sozinha, achando ser aquela a ocasião propícia, mandou chamá-lo a pretexto de falar de outras coisas.

O conde, cujos pensamentos estavam muito distantes dos da mulher, compareceu sem demora; e sentando-se – como quis ela – ao seu lado num divã de um aposento onde estavam sozinhos, perguntou-lhe duas vezes a razão pela qual o chamara, e ela ficou calada, até que, por fim, incitada pelo amor, enrubescida de vergonha, quase chorando e toda trêmula, com a voz embargada começou a dizer:

– Caríssimo e doce amigo e senhor, homem judicioso que é, deve saber perfeitamente como é grande a fragilidade dos homens e das mulheres, e, por diferentes razões, mais numa que noutra; por isso, perante um juiz justo, um mesmo pecado em diferentes qualidades[56] de pessoas não deve receber a mesma pena. E quem negaria que seriam muito mais repreensíveis o homem e a mulher pobres que, precisando ganhar com o trabalho o que lhes fosse necessário para viver, cedessem às incitações do amor, do que a mulher rica e ociosa, a quem não faltasse coisa alguma para satisfazer seus desejos? Acredito que ninguém. Por essa razão considero que as referidas coisas devem servir para escusar em grande parte aquela que as possui, se ela porventura se deixar arrastar para o amor; e de resto deve escusá-la o fato de ter escolhido amante prudente e valoroso, se é que o fez. Essas coisas que, a meu ver, estão ambas presentes em mim, bem como outras mais que me induzem a amar, tais como minha juventude e a distância de meu marido, devem agora socorrer-me, vindo em defesa de meu ardente amor pelo senhor; e se elas tiverem perante o senhor a força que perante os judiciosos devem ter, rogo-lhe que me dê amparo e ajuda naquilo que vou lhe pedir. É verdade que, em virtude da distância de meu marido, não podendo eu resistir aos aguilhões da carne nem à força do amor (tão poderosos que já tantas vezes venceram e vencem todos os dias os homens fortes, quanto mais as mulheres frágeis), vivendo eu no conforto e no ócio nos quais me vê, deixei-me levar a desejar os prazeres do amor e a apaixonar-me. Sei que tal coisa, se conhecida, não seria decorosa, mas que, se fosse e permanecesse oculta, não seria indecorosa em quase nada, segundo julgo; de qualquer modo, foi-me o Amor tão complacente que não só não me privou do devido discernimento na escolha do amante como também me esclareceu, mostrando que o senhor é digno de ser amado por uma mulher como eu; pois, se meu juízo não me engana, considero ser o senhor o mais belo, o mais agradável, o mais gentil e o mais judicioso cavaleiro que no reino de França se possa achar; e, assim como posso dizer que me encontro sem marido, também se pode dizer que o senhor está sem mulher. Por isso lhe rogo, em nome do imenso amor que lhe dedico, que não me negue o seu e que tenha piedade da minha juventude, que, tal como gelo no fogo, se consome pelo senhor.

Tais palavras foram seguidas por grande abundância de lágrimas, e ela, que ainda pretendia fazer mais súplicas, não conseguiu continuar falando, mas, chorando, abaixou o rosto e, como que capitulando, deixou a cabeça pender sobre o peito do conde. Este, que era lealíssimo cavaleiro, começou a repreender acerbamente um amor tão insano e a rechaçá-la quando ela já queria lançar-se ao seu colo; e com juramentos pôs-se a afirmar que preferiria ser esquartejado a consentir que tal coisa fosse cometida contra a honra de seu senhor por ele mesmo ou por qualquer outro.

A mulher, ao ouvir isso, subitamente se esqueceu do amor e disse com extremo furor:

– Acaso serei eu, vil cavaleiro, escarnecida desse modo por meu desejo? E, se quer levar-me à morte, que Deus não me impeça de fazê-lo morrer ou expulsar do mundo.

E, assim dizendo, levou as mãos aos cabelos e, depois de despenteá-los e emaranhá-los, rasgou as roupas no peito e começou a gritar:

– Socorro, socorro, o conde de Antuérpia quer me violentar.

O conde, ao ver aquilo, temendo muito mais a inveja dos cortesãos que sua própria consciência, receando que, por essa mesma inveja, se desse mais fé à malvadez da mulher do que à sua inocência, levantou-se e saiu o mais depressa que pôde do aposento e do palácio e fugiu para casa, onde, sem pensar duas vezes, montou os filhos a cavalo e, montando também, rumou para Calais o mais depressa que pôde.

Com o barulho da mulher, acudiram várias pessoas que, ao vê-la e ouvir as razões de seus gritos, não só deram fé às suas palavras como também acreditaram que o conde se valera durante muito tempo do garbo e das maneiras requintadas para poder chegar àquilo. Enfurecidos, portanto, correram à casa dele para prendê-lo, mas, não o encontrando, depois de roubarem as coisas todas, arrasaram-na até os alicerces. A notícia, contada de maneira abjeta, chegou às hostes do rei e do filho, e eles, muito perturbados, condenaram o conde e seus descendentes ao exílio perpétuo, oferecendo enorme recompensa a quem o trouxesse vivo ou morto.

O conde, lamentando o fato de, com a fuga, ter passado de inocente a culpado, chegou com os filhos a Calais sem se dar a conhecer ou reconhecer, logo atravessou para a Inglaterra e vestido com roupas pobres rumou para Londres; lá chegando, antes de entrar na cidade, instruiu longamente os dois filhos pequenos sobretudo em duas coisas: a primeira era que eles deviam suportar pacientemente o estado de pobreza no qual a Fortuna os pusera com o pai, sem que tivessem culpa alguma; a segunda era que, se tinham amor à vida, deviam usar de toda a sagacidade para se absterem de dizer a quem quer que fosse de onde eram e de quem eram filhos. O menino, que se chamava Luís, tinha cerca de nove anos, e a filha, cujo nome era Violante, cerca de sete; estes, no que lhes permitia a tenra idade, entenderam bem as instruções do pai e o demonstraram depois nas ações. E, para que tudo corresse de melhor maneira, achou ele por bem mudar seus nomes, e assim o fez; ao menino deu o nome de Perrot, e à menina, o de Jeannette[57]; e, entrando em Londres pobremente vestidos, tal como vemos que fazem os mendigos franceses, começaram a pedir esmolas.

Estavam eles em tal ocupação certa manhã numa igreja quando por acaso uma grande dama, mulher de um dos marechais do rei da Inglaterra, ao sair viu o conde e os seus dois filhinhos pedindo esmolas; perguntou-lhe então de onde era e se aqueles eram seus filhos. Ele respondeu que era da Picardia e que, por causa de um delito cometido por um filho mais velho, que era desonesto, precisara partir com aqueles dois, que também eram seus. A dama, que era piedosa, olhou bem para a menina, que lhe agradou muito, pois era bonita, gentil e cativante, e disse:

– Bom homem, se lhe agradar deixar essa sua filhinha comigo, que tem tão bom aspecto, eu teria muito prazer em ficar com ela; e, se for uma boa mulher, eu a casarei no momento propício, de tal maneira que ficará muito bem.

O conde gostou muito do pedido, logo respondeu que sim e, com lágrimas nos olhos, entregou-lhe a menina, recomendando-a muito. E assim, tendo alojado a filha e sabendo bem com quem, decidiu não ficar mais ali; e, pedindo esmolas, atravessou a ilha e foi para Gales com Perrot, não sem muita canseira, visto ser alguém que não estava acostumado a andar a pé. Ali havia outro marechal do rei, que ocupava elevada posição e tinha grande número de servidores, a cuja corte o conde e o filho às vezes recorriam para terem o que comer. E, estando ali algum filho do referido marechal, bem como outros meninos fidalgos, exercitando-se em competições infantis, como correr e pular, Perrot começou a ambientar-se com eles e a competir com a mesma destreza de alguns dos outros ou até mais. O marechal, vendo aquilo certa vez e gostando muito das maneiras e dos modos do menino, perguntou quem era ele. Disseram-lhe que era filho de um pobre que às vezes ia lá pedir esmolas. O marechal mandou pedir o menino, e o conde, que mais nada pedia a Deus, concedeu-o sem objeção, por mais custoso que lhe fosse separar-se dele. O conde, portanto, depois de acomodar bem o filho e a filha, decidiu não ficar mais tempo na Inglaterra e, da melhor forma que pôde, foi para a Irlanda; chegando a Stanford, pôs-se a trabalhar como lacaio de um vassalo de um conde do interior, fazendo todas aquelas coisas que competem a um lacaio ou cavalariço; e ali ficou muito tempo, sem nunca ser conhecido por ninguém, suportando muita incomodidade e cansaço.

Violante, chamada de Jeannette, ao lado da fidalga em Londres foi crescendo em idade, corpo e beleza, gozando de tanta simpatia da mulher, do marido, de todos da casa e de quem quer que a conhecesse, que era coisa linda de se ver; e não havia quem, observando seus costumes e suas maneiras, não dissesse que ela era digna de elevadíssimos bens e muita honra. Por essa razão, a fidalga, que a recebera do pai sem nunca ter conseguido saber quem ele era, a não ser aquilo que lhe fora dito por ele mesmo, propusera-se casá-la honrosamente, segundo a condição que lhe atribuía. Mas Deus, justo protetor dos méritos, sabendo ser ela uma mulher nobre que, sem culpa, penitenciava os pecados alheios, dispôs as coisas de modo diferente; e, para que a jovem fidalga não caísse nas mãos de um homem de baixa condição, é de se crer que aquilo que ocorreu tenha sido permitido pela bondade d’Ele.

A fidalga com quem Jeannette morava tinha um único filho de seu marido, que ela e o pai amavam extremadamente, tanto por ser seu filho quanto porque ele bem o merecia, pelas virtudes e qualidades que possuía, pois mais que qualquer outro tinha ótimos costumes, era valoroso, virtuoso e formoso. Esse filho, cerca de seis anos mais velho que Jeannette, vendo-a belíssima e graciosa, enamorou-se dela a tal ponto que nada mais existia para ele além dela. Mas, imaginando-a de baixa extração, não só não ousava pedi-la em casamento ao pai e à mãe, como também, temendo repreensão por se ter permitido amar alguém daquela posição, mantinha como podia o seu amor em segredo: motivo pelo qual ele o estimulava muito mais do que se fosse manifesto. Foi assim que, por excesso de sofrimento, adoeceu gravemente. Os vários médicos chamados para cuidar dele, depois de observarem um sintoma ou outro e não conseguirem saber qual era sua enfermidade, de comum acordo desesperavam de lhe restituir a saúde. Por isso, o pai e a mãe do jovem demonstravam tal dor e tal melancolia que maior seria impossível suportar: e várias vezes perguntavam apiedados qual era a razão de seu mal, e ele ou respondia com suspiros ou dizia que se sentia consumir por inteiro.

Certo dia, estava ao lado dele sentado um médico bastante jovem, mas profundo conhecedor de sua ciência, a segurar-lhe o braço naquela região onde eles sentem o pulso, quando Jeannette, que, em respeito à mãe dele, o atendia com solicitude, entrou por alguma razão no quarto. O enfermo, assim que viu a jovem, sem dizer palavra nem fazer gesto algum, sentiu mais forte no coração o ardor amoroso, e o pulso começou a bater-lhe com mais vigor que o usual; o médico, percebendo imediatamente, admirou-se e ficou quieto, para ver quanto tempo aquele batimento duraria. Assim que Jeannette saiu do quarto, o batimento acalmou-se, e o médico, portanto, achou que havia entendido parte da razão da enfermidade do jovem; pouco depois, como se quisesse pedir alguma coisa a Jeannette, sempre segurando o braço do doente, mandou chamá-la. E ela veio imediatamente; nem bem entrara no quarto, voltaram os batimentos do pulso; e, saindo ela, cessaram estes.

Então o médico, achando ter certeza suficiente, levantou-se, chamou à parte o pai e a mãe do jovem e disse-lhes:

– A saúde de seu filho não está nos remédios dos médicos, mas nas mãos de Jeannette, que, conforme percebi claramente por certos sinais, esse jovem ama compaixão, coisa de que ela não se apercebe, pelo que pude ver. Agora sabem o que fazer, se é que prezam a vida dele.

O fidalgo e sua mulher, ao ouvirem isso, ficaram contentes por terem encontrado algum modo de salvá-lo, embora lhes pesasse muito que esse modo fosse o que mais temiam, ou seja, ter de dar Jeannette por esposa ao filho.

Portanto, depois que o médico partiu, eles foram ter com o doente, e a dama assim falou:

– Meu filho, eu nunca imaginaria que me ocultasse algum desejo, principalmente ao vê-lo definhar por não obter o que quer; por isso, você deveria e deve estar seguro de que, para contentá-lo, eu não deixaria de fazer coisa alguma, ainda que não totalmente decorosa, que não faria a mim mesma; mas, visto que escondeu, Deus se mostrou mais misericordioso com sua pessoa do que você mesmo e, para impedir que morra dessa enfermidade, mostrou-me a razão do seu mal, que nada mais é que o excesso de amor que nutre por alguma jovem, seja ela quem for. Na verdade, não deveria envergonhar-se de manifestar esse sentimento, pois sua idade assim o exige, e, se não estivesse apaixonado, eu o teria em bem pouca conta. Portanto, meu filho, não esconda nada de mim; ao contrário, revele com confiança todos os seus desejos; desfaça-se da melancolia e dos pensamentos dos quais essa sua doença provém, console-se e tenha a certeza de que nada deixarei de fazer do que você me impuser para a sua satisfação e que esteja em meu poder, pois o amo mais que à minha própria vida. Livre-se da vergonha e do medo e diga se posso fazer alguma coisa pelo seu amor; e, se achar que não me empenharei nisso e não levarei a efeito o prometido, pode considerar-me a mãe mais cruel que jamais pariu um filho.

O jovem, ouvindo as palavras da mãe, primeiro se encabulou, mas depois, pensando de si para si que ninguém melhor que ela poderia atender ao seu desejo, livrou-se da timidez e disse:

– Minha senhora, nada me fez ocultar o meu amor senão o fato de ter percebido que as pessoas, depois que amadurecem, no mais das vezes preferem não se lembrar de que foram jovens. Mas, como a vejo compreensiva, não só não negarei que é verdade aquilo que a senhora percebeu como também lhe revelarei de quem se trata, com a condição de que sua promessa venha a ser cumprida na medida do possível, e assim me terá curado.

A isso a dama (confiando demais naquilo que não deveria fazer, da forma como já pensava) respondeu que ele deveria revelar-lhe com confiança o que queria; que ela sem demora se poria em ação para que ele satisfizesse o seu desejo.

– Senhora – disse então o jovem –, a grande beleza e as louváveis maneiras de nossa Jeannette, a impossibilidade de levá-la a perceber meu amor, nem digo apiedar-se dele, e o fato de não ter ousado nunca revelá-lo a ninguém conduziram-me ao estado em que me vê; e, se aquilo que me prometeu não ocorrer de um modo ou de outro, pode estar certa de que minha vida será breve.

A dama, que achava ser aquele um momento de conforto, mais que de repreensões, disse sorrindo:

– Ai, meu filho, então foi por isso que se deixou adoecer? Console-se e deixe tudo comigo, pois ficará curado.

O jovem, cheio de esperança, em curtíssimo tempo deu mostras de grande melhora, e a dama, muito contente, dispôs-se a tentar cumprir a promessa que fizera. E, chamando um dia Jeannette, em tom de brincadeira perguntou-lhe gentilmente se ela tinha algum pretendente.

A isso Jeannette, muito vermelha, respondeu:

– Senhora, a uma pobre donzela expulsa de casa, como eu, que está a serviço em casa alheia, como estou, não cabe nem fica bem dar atenção ao amor.

A isso a dama respondeu:

– Pois, se não tem, queremos dar-lhe um que a faça viver feliz e tirar mais deleite de sua beleza; pois não é conveniente que uma donzela assim tão formosa fique sem pretendente.

A isso Jeannette respondeu:

– A senhora me subtraiu à pobreza de meu pai e criou-me como filha; por isso, eu deveria atendê-la em todos os seus desejos; mas nesse não atenderei e creio fazer bem. Se for de sua vontade dar-me marido, entendo que deverei amá-lo, e não a outro; por isso, como da herança de meus antepassados nada me restou, a não ser a honestidade, pretendo mantê-la e conservá-la enquanto durar minha vida.

Essas palavras pareceram totalmente contrárias àquilo que a dama pretendia, para cumprir a promessa feita ao filho, embora, sendo mulher sensata, no íntimo apreciasse muito a donzela. Então disse:

– Como, Jeannette? Se Sua Majestade, o rei, que é jovem cavaleiro (sendo você linda donzela), quisesse usufruir o prazer do seu amor, você se negaria?

A isso ela respondeu imediatamente:

– O rei poderia impor-me o que quisesse, mas meu consentimento ele nunca poderia ter, a não ser para o que fosse decoroso.

A mulher, compreendendo o que ela sentia, deixou-se de palavras e pensou em colocá-la à prova; assim, disse ao filho que, tão logo se curasse, deveria levá-la para um quarto e tentar obter prazer com ela, afirmando que lhe parecia indecoroso interceder por ele, fazendo súplicas à donzela, como se fosse uma rufiona. Muito descontente com isso, o jovem piorou de repente; a dama então manifestou suas intenções a Jeannette. Encontrando-a mais obstinada do que nunca, contou ao marido o que fizera e, ainda que a contragosto, decidiram em comum acordo dar a moça por esposa ao filho, preferindo que ele continuasse vivo, com mulher não adequada, a vê-lo morto sem nenhuma; foi o que fizeram, depois de muitos rodeios. Jeannette ficou contentíssima e do fundo do coração agradeceu a Deus, que não se esquecera dela; apesar de tudo isso, jamais confessou que não era filha de um picardo. O jovem sarou, casou-se mais feliz que qualquer outro homem e começou a viver muito bem com ela.

Perrot, que ficara em Gales com o marechal do rei da Inglaterra, crescendo também, caiu nas graças do seu senhor e tornou-se formoso e virtuoso como nenhum outro na ilha, de tal modo que em torneios, justas ou qualquer outra ação de armas ninguém no país era igual a ele; pois era conhecido e famoso, e todos chamavam Perrot, o Picardo. E Deus, que não se esquecera de sua irmã, demonstrou que também o tinha em vista; pois que chegou à região uma epidemia de peste que matou quase metade da sua população e fez grande parte das pessoas restantes fugir de medo para outras regiões, de modo que tudo parecia abandonado. Em tal peste o marechal, sua mulher, um de seus filhos e muitos outros irmãos, sobrinhos e parentes, todos morreram, ficando apenas uma sua filha donzela, já núbil, além de alguns servidores, entre os quais Perrot. Amainada a peste, a donzela, por gosto próprio e acatando conselho de alguns compatriotas que haviam sobrevivido, aceitou casar-se com Perrot, por ser ele um homem bravo e virtuoso, de modo que o fez senhor de tudo o que lhe cabia por herança. Não se passara muito tempo quando o rei da Inglaterra, sabendo da morte do marechal e conhecendo o valor de Perrot, o Picardo, nomeou-o para o posto daquele que morrera, tornando-o seu marechal. E foi isso, em suma, o que ocorreu com os dois filhos inocentes que o conde de Antuérpia deixara, dando-os por perdidos.

Já se haviam passado dezoito anos desde que o conde de Antuérpia saíra fugido de Paris; ainda morava ele na Irlanda, tinha levado vida miserável e sofrido muitas coisas, quando, sentindo-se velho, teve vontade de saber, se possível, o que acontecera com seus filhos. Percebendo que seu antigo aspecto se transformara totalmente e sentindo-se, graças ao longo exercício, mais vigoroso do que quando era jovem e vivia no ócio, partiu bastante pobre e malvestido, deixando aquele com quem ficara durante muito tempo; indo para a Inglaterra, dirigiu-se ao lugar onde deixara Perrot; lá foi informado de que ele se tornara marechal e grande senhor e viu-o sadio, vigoroso e bonito; com isso ficou muito contente, mas não quis se dar a conhecer enquanto não tivesse notícias de Jeannette. Assim, pondo-se a caminho, não parou enquanto não chegou a Londres; ali, perguntando cautelosamente sobre a mulher com a qual deixara a filha e sobre a sua situação, descobriu que Jeannette era mulher do filho dela, o que muito lhe agradou, considerando pequenas todas as adversidades passadas, já que encontrara os filhos vivos e em boa situação. E, desejando vê-la, começou a abrigar-se como pobre perto da casa dela. Assim é que um dia foi visto por Jamy[58] Lamiens, como era chamado o marido de Jeannette, que teve compaixão dele, por considerá-lo pobre e velho, e ordenou a um de seus criados que o levasse à sua casa e lhe desse comida por Deus, o que o criado fez de bom grado.

Jeannette já tivera vários filhos de Jamy; o maior deles não tinha mais de oito anos, e eram as crianças mais lindas e graciosas do mundo. Estas, assim que viram o conde comer, puseram-se ao redor dele e começaram a fazer-lhe festa, como se, movidas por alguma oculta virtude, tivessem sentido que ele era seu avô. O conde, sabendo que eram seus netos, começou a demonstrar afeição e carinho, motivo pelo qual as crianças não queriam separar-se dele, por mais que fossem chamadas pela pessoa encarregada de cuidar delas. Jeannette, ao saber disso, saiu de um quarto, foi até onde estava o conde e ameaçou bater nos filhos, caso não fizessem o que era ordenado por seu preceptor. As crianças começaram a chorar e a dizer que queriam ficar perto daquele homem, que gostava delas mais que o preceptor, o que provocou riso na mulher e no conde. O conde se erguera para prestar homenagem à filha, não na qualidade de pai, mas na de homem pobre a uma dama, e sentira na alma um prazer maravilhoso ao vê-la. Mas ela não o conheceu então nem depois, por estar ele demasiadamente diferente do que era, pois se encontrava envelhecido, encanecido e barbudo, tendo emagrecido e se amorenado, parecendo outro homem, e não o conde. A dama, vendo que as crianças não queriam afastar-se dele, mas choravam quando alguém quisesse separá-los, disse ao preceptor que as deixasse ficar mais um pouco.

Enquanto as crianças estavam com o bom homem, o pai de Jamy voltou e foi informado daquele fato pelo preceptor; ele, que desprezava Jeannette, disse:

– Deixe-os estar com a desventura que Deus lhes der; pois eles estão assim retratando suas origens. Descendem de mendigos por parte de mãe, por isso não é de admirar que gostem de ficar com mendigos.

O conde ouviu essas palavras e sofreu muito com elas, mas deu de ombros, suportando aquela injúria como aguentara muitas outras. Jamy, que ouvira a festa que os filhos faziam ao bom homem, ou seja, ao conde, mesmo desagradado, gostava tanto deles que, para não os ver chorar, ordenou que, se o bom homem quisesse ficar lá executando algum serviço, deveria ser acolhido. E ele respondeu que ficaria de bom grado, mas que não sabia fazer outra coisa senão tratar de cavalos, coisa a que se acostumara a vida inteira. Incumbiram-no de um cavalo, e ele, depois de tratá-lo, ia brincar com as crianças.

Enquanto a Fortuna ia conduzindo o conde de Antuérpia e seus filhos da maneira como descrevemos, o rei da França, depois de muitas tréguas com os alemães, morreu, e em seu lugar foi coroado o filho cuja mulher era aquela pela qual o conde fora expulso. Terminada a última trégua com os alemães, esse filho recomeçou ferocíssima guerra; para ajudá-lo, na qualidade de parente recente, o rei da Inglaterra mandou muitos homens sob o comando de seu marechal Perrot e de Jamy Lamiens, filho do outro marechal; e com este foi o bom homem, ou seja, o conde, que, sem ser reconhecido por ninguém, ficou no exército durante um bom tempo como cavalariço; ali, por ser valoroso, fez ótimas coisas, mais do que se esperava dele, tanto com orientações quanto com ações.

Ocorre que durante a guerra a rainha da França adoeceu gravemente; e, sabendo que estava para morrer, arrependida de todos os pecados, confessou-se devotamente com o arcebispo de Rouen, considerado por todos um homem santíssimo e bondoso, e, entre outros pecados, contou-lhe a grande injustiça que fizera ao conde de Antuérpia. Não satisfeita em dizer-lhe isso, também relatou diante de muitos outros homens virtuosos tudo como de fato acontecera, suplicando-lhes que intercedessem junto ao rei para que ao conde fossem restituídos os antigos direitos, caso estivesse vivo, e, se não, que isso fosse feito aos seus filhos; não demorou muito, deixando esta vida, foi honrosamente sepultada.

Essa confissão foi relatada ao rei, que, depois de alguns dolorosos suspiros pelas injúrias infligidas injustamente àquele homem virtuoso, mandou proclamar por todo o exército e também por muitos outros lugares que quem desse informações sobre o conde de Antuérpia ou de algum de seus filhos seria maravilhosamente recompensado por cada um deles, pois era ele agora considerado inocente daquilo que o levara ao exílio, em vista da confissão feita pela rainha, sendo intenção do rei restituir-lhes os antigos títulos e conceder-lhes outros ainda mais elevados. Ouvindo tais coisas e percebendo que eram verazes, o conde, na qualidade de cavalariço, logo foi procurar Jamy e lhe pediu que fosse com ele falar com Perrot, pois queria mostrar-lhes o que o rei estava procurando.

Reunidos os três, disse o conde a Perrot, que já estava pensando em apresentar-se:

– Perrot, Jamy, que está aqui, é casado com sua irmã, e nunca recebeu nenhum dote; por isso, para que sua irmã não fique sem dote, creio que ele, e nenhum outro, deve receber esse benefício tão grande que o rei está prometendo, apontando-o como filho do conde de Antuérpia, apresentando Violante como sua irmã e esposa dele e a mim como o conde de Antuérpia e pai dos dois.

Perrot, ouvindo isso, olhou fixo para ele e imediatamente o reconheceu; então, chorando, atirou-se aos seus pés e abraçou-o dizendo:

– Meu pai, seja muito bem-vindo.

Jamy, ouvindo o que o conde dissera e vendo o que Perrot fazia, foi tomado por tanto espanto e alegria que mal sabia o que fazer; mas, dando fé ao que era dito e envergonhando-se muito de palavras injuriosas que dissera ao conde enquanto ele trabalhava como cavalariço, deixou-se cair aos pés dele chorando e, humildemente, pediu perdão por todos os ultrajes passados; o conde o pôs de pé com muita bondade e o perdoou. E, depois que os três contaram vários casos e muito choraram e se alegraram juntos, Perrot e Jamy quiseram vestir devidamente o conde, que não concordou de maneira nenhuma, mas, ao contrário, quis que Jamy antes tivesse certeza de que receberia a recompensa prometida e só depois o apresentasse naquelas roupas de cavalariço, para fazer o rei envergonhar-se mais.

Jamy, portanto, seguido pelo conde e por Perrot, compareceu diante do rei e ofereceu-se para apresentar-lhe o conde e os filhos, desde que, segundo a proclamação, ele fosse recompensado. O rei logo mandou trazer a recompensa, que pareceu maravilhosa aos olhos de Jamy, e ordenou que ele a levasse caso demonstrasse com veracidade onde estavam o conde e os filhos, como prometia. Jamy então, voltando-se para trás e fazendo avançar o conde, seu cavalariço, e Perrot, disse:

– Majestade, aqui estão o pai e o filho; a filha, que é minha mulher e não está aqui, com a ajuda de Deus, Vossa Majestade logo verá.

O rei, ouvindo isso, olhou o conde e, embora este estivesse muito mudado, depois de algum tempo o reconheceu; e quase com lágrimas nos olhos fez que ele, que estava de joelhos, se levantasse, beijou-o e abraçou-o; e, acolhendo Perrot com amizade, ordenou que o conde fosse devidamente provido de roupas, servidores, cavalos e arreios, segundo convinha à sua nobreza, o que foi feito em seguida. Além disso, o rei concedeu muitas honrarias a Perrot e quis saber tudo sobre os acontecimentos passados. E, quando Jamy recebeu as altas recompensas por ter apresentado o conde e os filhos, o conde lhe disse:

– Tome estes presentes dados pela magnificência de Sua Majestade, o rei, e lembre-se de dizer a seu pai que seus filhos, netos dele e meus, não nasceram de mãe mendiga.

Jamy pegou os presentes e chamou a mulher e a mãe a Paris, vindo também a mulher de Perrot; ali, com muita alegria, ficaram todos com o conde, a quem o rei restituíra todos os bens e concedera títulos maiores do que ele jamais tivera. Depois, com sua licença, cada um voltou para casa, e ele viveu em Paris até morrer, mais gloriosamente que nunca.


[55] Com a morte do último príncipe carolíngio, em 912, Conrado, duque de Francônia, foi eleito imperador, e o império, que até então havia sido hereditário, passou a ser eletivo, ficando em mãos alemãs. (N.T.)[ «« ]

[56] No sentido de classe. O que vem a seguir é um cânone corrente no amor cortês medieval. (N.T.)[ «« ]

[57] Em italiano, no original: Perotto e Giannetta. (N.T.)[ «« ]

[58] Em italiano, no original: Giachetto. (N.T.)[ «« ]