• Ivan Milazzotti
    Segunda Jornada
    05-04-2026 00:10:02
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    5

Bernabò de Gênova, enganado por Ambrogiuolo, perde o que tem e manda matar a mulher inocente. Ela escapa e serve o sultão vestida de homem; encontra o embusteiro e conduz Bernabò a Alexandria, onde o embusteiro é punido, ela retoma os trajes femininos e volta com o marido a Gênova, ricos agora.

Depois que Elissa cumpriu seu dever narrando uma história capaz de suscitar compaixão, a rainha Filomena, que era bela e alta, de rosto agradável e sorridente como nenhuma outra, recolhendo-se em si mesma, disse:

– É preciso cumprir o acordo feito com Dioneu; por isso, como restamos só nós, ele e eu, para contar histórias, contarei primeiro a minha, e ele, conforme pediu, será o último a contar.

E, dito isso, assim começou.

– É frequente ouvir-se o povo citar certo provérbio, segundo o qual o enganador fica aos pés do enganado; não parece possível mostrar sua veracidade por meio de razões, mas apenas por meio dos casos que ocorrem. Por isso, observando o tema proposto, veio-me à ideia demonstrar ao mesmo tempo, caríssimas senhoras, que o provérbio é verdadeiro como se diz; e não lhes deverá causar desagrado ouvir-me para aprenderem a defender-se dos enganadores.

Numa hospedaria de Paris encontravam-se alguns grandes mercadores italianos, uns por um negócio, outros por outro, como é de seu costume; certa noite, depois de terem todos jantado alegremente, começaram a conversar sobre diferentes coisas e, passando de um assunto a outro, acabaram falando de suas mulheres, que tinham deixado em casa. E, brincando, um deles começou a dizer:

– Eu não sei como a minha se comporta, mas sei muito bem que, quando aqui me cai nas mãos uma mocinha que me agrade, deixo de lado o amor que tenho por minha mulher e me divirto com a daqui o máximo que posso.

Outro respondeu:

– Eu faço o mesmo, porque, se acreditar que minha mulher tem alguma aventura, ela terá, e, se não acreditar, terá também; então, fica elas por elas; o burro que bate na parede recebe de volta.

O terceiro, ao falar, quase chegou à mesma sentença; em suma, parecia que todos concordavam nisso, que as mulheres deixadas em casa não queriam perder tempo.

Só um, que se chamava Bernabò Lomellin de Gênova, disse o contrário, afirmando que, por especial graça de Deus, tinha uma dama por esposa, a mais dotada de todas as virtudes que uma mulher, um cavaleiro ou em grande parte um donzel devem ter, não havendo talvez outra igual na Itália; pois ela era bela de corpo, bastante jovem ainda, prendada e vigorosa, e não havia atividade de mulher, tal como os lavores de seda e coisas semelhantes, que ela não executasse melhor que qualquer outra. Além disso, dizia não ser possível encontrar serviçal ou criado, fosse qual fosse, que servisse melhor nem mais atentamente a mesa de um senhor, por ser ela muito bem educada, sensata e discreta. Depois disso, elogiou-a por saber cavalgar, cuidar de um falcão, ler, escrever e contar melhor que um mercador; e, depois de muitos outros louvores, chegou àquilo de que se falava ali, afirmando e jurando que não era possível encontrar nenhuma outra mais honesta e séria que ela; e que, por tais motivos, ele acreditava que, se ficasse fora de casa dez anos ou para sempre, ela nunca seria atraída por algum caso com outro homem.

Havia, entre os que assim conversavam, um jovem mercador chamado Ambrogiuolo de Piacenza, que, ouvindo este último louvor de Bernabò à sua mulher, começou a dar a maior risada do mundo e, zombando, perguntou se o imperador lhe havia concedido aquele privilégio mais do que a todos os outros homens. Bernabò, um tanto irritadinho, disse que aquela graça não lhe fora concedida pelo imperador, e sim por Deus, que tinha um pouco mais de poder que o imperador.

Então Ambrogiuolo disse:

– Bernabò, não duvido que você acredite estar dizendo a verdade; mas, pelo que me parece, atentou pouco para a natureza das coisas; porque, se tivesse atentado, não creio que seu engenho seja tão curto que o impeça de perceber coisas que o levariam a falar com mais comedimento sobre esse assunto. E, para que não creia que nós, que falamos tão livremente de nossas mulheres, achamos ter mulher diferente ou de índole distinta da sua, mas que dissemos tudo movidos por natural percepção, quero conversar um pouco sobre o assunto com você. Sempre julguei o homem o animal mais nobre que Deus criou entre os mortais, vindo depois dele a mulher; mas o homem, tal como em geral se crê e se vê por suas obras, é mais perfeito; e, tendo mais perfeição, sem dúvida alguma deve ter mais firmeza e de fato tem, motivo pelo qual as mulheres são sempre mais volúveis; por que isso ocorre é coisa que poderia ser demonstrada com muitas razões naturais, que no momento pretendo deixar de lado. Portanto, se o homem, mesmo tendo mais firmeza, não pode aguentar-se e deixar de condescender, nem digo com alguma mulher que o solicite, mas deixar de desejar alguma que lhe agrade e, além de desejar, fazer de tudo o que puder para estar com ela, e isso não uma vez por mês, mas mil vezes por dia, o que espera você que uma mulher naturalmente volúvel possa fazer diante de pedidos, lisonjas, presentes e mil outros estratagemas que venham a ser usados por algum homem sagaz que a ame? Acha que ela pode aguentar-se? Por mais que você afirme, não creio que acredite nisso; e você mesmo diz que sua esposa é mulher, e que é de carne e osso como as outras. Por isso, se assim é, ela deve ter os mesmos desejos e as mesmas forças que as outras têm para resistir a esses apetites naturais; portanto é possível que, embora sendo honestíssima, faça o que as outras fazem; e nada do que é possível deve ser assim veementemente negado nem o seu contrário pode ser afirmado, como você faz.

A isso Bernabò respondeu dizendo:

– Sou mercador, e não fisófolo[59], e como mercador responderei. E digo que sei que o que você está dizendo pode acontecer com as desajuizadas, que não têm recato nenhum; mas as que são ajuizadas preocupam-se tanto com a própria honra que a defendem com mais força que os homens, que não se preocupam com isso; e das mulheres desse tipo é a minha.

Ambrogiuolo disse:

– De fato, se, para cada caso desses que elas tivessem, lhes nascesse um chifre na testa como testemunho do que foi feito, acho que poucas teriam casos; mas, além de não nascerem chifres, as ajuizadas não deixam pegadas nem marcas; e a vergonha e a desonra consistem apenas em coisas que aparecem; por isso, quando podem, fazem às escondidas ou deixam de fazer por burrice. E você pode estar certo de que só é séria aquela que nunca foi cortejada por nenhum homem ou, se foi ela que cortejou, não foi correspondida. E, mesmo sabendo por razões naturais e verdadeiras que as coisas só podem ser assim, eu não falaria de modo tão absoluto, como falo, se não tivesse comprovado muitas vezes e com muitas delas. Por isso lhe digo que, se eu chegasse perto dessa sua tão santíssima mulher, acho que bem depressa conseguiria levá-la a fazer aquilo que já levei outras a fazer.

Bernabò respondeu, irritado:

– Ficar batendo boca é coisa que poderia se prolongar demais; você diria uma coisa, eu diria outra, e no fim não se chegaria a nada. Mas, como está dizendo que todas são tão fáceis, e que você tem tanto engenho, para ter certeza da honestidade da minha mulher estou disposto a permitir que me cortem a cabeça se por acaso você conseguir levá-la a fazer o que quiser; e, se não conseguir, só quero que me pague mil florins de ouro.

Ambrogiuolo, já acalorado com a discussão, respondeu:

– Bernabò, não sei o que faria com o seu sangue, caso ganhasse; mas, se quiser ter a prova daquilo que eu já disse, aposte cinco mil florins de ouro, que devem custar menos que sua cabeça, contra mil dos meus; e, mesmo que você não imponha nenhum prazo, eu me comprometo a ir a Gênova e, dentro de três meses a partir do dia de minha partida daqui, conseguir que sua mulher faça a minha vontade, e como sinal disso, trazer comigo algumas das coisas que ela mais preza, além de indícios tão fortes e tais que você mesmo admitiria ser verdade, mas desde que você dê sua palavra de que nesse período não irá a Gênova nem escreverá nada a ela sobre o assunto.

Bernabò disse que estava de pleno acordo; e, embora os outros mercadores presentes fizessem de tudo para impedir o ato, por saberem que daquilo poderia advir um grande mal, os dois estavam com os ânimos tão acirrados que, contrariando os outros, comprometeram-se mutuamente por meio de um acordo escrito de próprio punho.

Assinado o acordo, Bernabò ficou, e Ambrogiuolo foi para Gênova o mais depressa que pôde. Permanecendo lá alguns dias, durante os quais se informou com muita cautela do nome, do lugar e dos costumes da mulher, ficou sabendo aquilo que Bernabò lhe dissera e até mais, concluindo que fora loucura o que fizera. Mesmo assim, travando conhecimento com uma mulher pobre que frequentava muito a casa e de quem a senhora gostava muito, não podendo induzi-la a outra coisa, corrompeu-a com dinheiro e se fez carregar numa arca construída segundo o seu tamanho não só para dentro da casa, como também para dentro do quarto da gentil senhora; ali a boa velha a confiou à senhora por alguns dias, como se tivesse de ir a algum lugar, tudo seguindo as instruções dadas por Ambrogiuolo.

Portanto, a arca ficou no quarto, e ao cair a noite Ambrogiuolo, percebendo que a mulher estava dormindo, abriu-a por meio de certos mecanismos e saiu em silêncio para o aposento, onde havia uma lamparina acesa. Assim, começou a observar e fixar na memória a disposição do cômodo, as pinturas e tudo o que fosse notável. Então, aproximando-se da cama e percebendo que a mulher e uma menininha que estava com ela dormiam profundamente, descobriu-a por inteiro e viu que era tão bela nua quanto vestida, mas não enxergou nenhum sinal que pudesse descrever, a não ser um que ela tinha debaixo da mama esquerda, ou seja, uma pinta ao redor da qual havia um pouco de penugem loura como ouro; depois disso, voltou a cobri-la em silêncio, se bem que, vendo-a tão bonita, teve vontade de arriscar a vida e deitar-se ao lado dela. No entanto, como ouvira dizer que ela era tão rigorosa e severa com aquelas coisas, não se arriscou; e, ficando a maior parte da noite à vontade no quarto, pegou uma bolsa e um casaco de um cofre dela, além de alguns anéis e cintos, e, pondo tudo na arca, voltou a enfiar-se nela e a fechou tal como antes estava; e dessa maneira agiu duas noites, sem que a mulher desconfiasse de nada. Ao chegar o terceiro dia, segundo planejado, a boa velha voltou para buscar a arca e a levou de volta ao lugar onde a pegara; Ambrogiuolo saiu dela e, depois de pagar a velha conforme prometido, voltou a Paris o mais depressa possível, antes do fim do prazo combinado.

Ali, chamando os mercadores que estavam presentes à discussão e à aposta, diante de Bernabò ele disse que ganhara a aposta feita entre eles, pois realizara aquilo de que se gabara; e, para provar que era verdade, primeiro descreveu a forma do quarto e as pinturas que nele havia e depois mostrou as coisas da mulher que trouxera consigo, afirmando que as recebera dela. Bernabò admitiu que o quarto tinha a forma que ele descrevera e, além disso, que reconhecia aquelas coisas como pertencentes de fato à sua mulher; mas disse que ele poderia ter sabido por algum dos criados da casa as características do quarto e, de maneira semelhante, ter obtido as coisas; por isso, se não dissesse mais nada, achava que aquilo não era suficiente para fazê-lo vencer a aposta.

Então Ambrogiuolo disse:

– Na verdade isso deveria bastar; mas, visto que você quer que eu diga mais, direi. E digo que dona Zinevra, sua esposa, tem debaixo da mama esquerda uma pinta bem grandinha, e em torno dela há uns seis pelinhos loiros como ouro.

Quando Bernabò ouviu isso, teve a impressão de que levara uma punhalada no coração, tamanha foi a dor que sentiu; sua expressão mudou tanto que, mesmo não dizendo palavra, deu indícios manifestos de que era verdade o que Ambrogiuolo dizia; e depois de certo tempo disse:

– Senhores, o que Ambrogiuolo diz é verdade; por isso, como venceu, pode vir quando quiser e será pago.

Assim, no dia seguinte Ambrogiuolo foi inteiramente pago. E Bernabò, saindo de Paris, foi para Gênova com cruéis intenções em relação à mulher. Chegando às cercanias da cidade, não quis entrar, e, ficando a cerca de vinte milhas de distância, numa de suas propriedades, mandou a Gênova um criado seu, em quem muito confiava, com dois cavalos e cartas, nas quais dizia à mulher que voltara, e que ela viesse com o criado até onde ele estava; e ordenou ao criado, secretamente, que, chegando com a mulher a algum lugar que lhe parecesse mais apropriado, a matasse sem nenhuma misericórdia e voltasse para lá. O criado, chegando a Gênova, entregou as cartas e fez sua embaixada, sendo recebido pela mulher com muita alegria; no seguinte pela manhã, ela montou a cavalo e, com ele, pôs-se a caminho rumo à propriedade.

Caminhando juntos e falando de várias coisas, chegaram a um valão muito profundo e ermo, cercado de altas grotas e de árvores, que o criado achou ser o lugar onde poderia executar com segurança as ordens do patrão; então puxou o punhal, segurou a mulher pelo braço e disse:

– Recomende a alma a Deus, porque a senhora daqui não deve passar, e sim morrer.

A mulher, vendo o punhal e ouvindo as palavras, disse assustadíssima:

– Piedade, pelo amor de Deus! Mas, antes de me matar, diga que ofensa lhe fiz para querer me matar.

O criado respondeu:

– Não me ofendeu em nada; mas de que modo ofendeu seu marido não sei, só sei que ele me mandou matá-la no caminho, sem nenhuma misericórdia; e, se eu não fizer isso, ele me ameaçou, dizendo que me pendura pela garganta. A senhora sabe que devo muito a ele e que não posso dizer não a nada que ele mande; só Deus sabe como tenho pena da senhora, mas não posso fazer outra coisa.

Então a mulher disse, chorando:

– Ai, piedade, pelo amor de Deus! Não queira tornar-se assassino de quem nunca o ofendeu, só para servir outra pessoa. Deus, que tudo conhece, sabe que nunca fiz nada que merecesse essa recompensa do meu marido. Mas vamos deixar isso de lado agora; se você quiser, poderá ao mesmo tempo agradar a Deus, ao seu senhor e a mim da seguinte maneira: pegue estas minhas roupas e me dê somente o seu gibão e um capuz; volte com minhas roupas àquele que é seu senhor e meu e diga que me matou; e juro, pela vida que você me dará, que me afasto e vou para algum lugar tão distante que nunca chegará notícia minha nem a ele, nem a você nem a este lugar.

O criado, que a matava bem a contragosto, facilmente se apiedou; por isso, pegou as roupas dela, deu-lhe um gibão ordinário e um capuz e, deixando-a com algum dinheiro que ela tinha, pediu-lhe que se afastasse da região e a deixou no valão a pé, indo ter com seu o senhor, a quem disse que não só tinha cumprido sua ordem, como também deixara o corpo dela entre vários lobos. Bernabò depois de algum tempo voltou para Gênova e lá, quando o fato ficou conhecido, foi veementemente recriminado.

A mulher ficou sozinha e desconsolada e, caindo a noite, disfarçou-se o mais que pôde e foi até uma aldeia próxima; ali, conseguindo com uma velha aquilo de que precisava, ajustou o gibão às suas medidas, encurtou-o, fez calções com a blusa, cortou os cabelos e, transformada em marinheiro, foi em direção ao mar; lá, por acaso, encontrou um fidalgo catalão chamado En Cararch, que descera de uma nau sua que estava não muito longe dali para refrescar-se numa nascente de Alba.[60] Puxando conversa, acertou que trabalharia para ele e embarcou, fazendo-se chamar Sicuran de Finale. Ali, vestido com roupas melhores pelo fidalgo, começou a servir tão bem e tão adequadamente, que lhe agradou sobremaneira. Ocorre que, depois de não muito tempo, aquele catalão aportou com carga em Alexandria e levou alguns falcões-peregrinos ao sultão, para presenteá-lo. O sultão, ao convidá-lo para comer algumas vezes, vendo os costumes de Sicurano, que sempre o servia, gostou dele e o pediu ao catalão; este, apesar de sentir muito, deixou-o com o sultão.

Em pouco tempo, com seu bom trabalho, Sicurano conquistou a simpatia e a estima do sultão, tal como conquistara as do catalão. Com o passar do tempo ocorreu que, havendo em certa época do ano uma espécie de feira na qual se reunia grande número de mercadores cristãos e sarracenos em Acre[61], cidade que estava sob o poder do sultão, este, para segurança dos mercadores e das mercadorias, tinha por hábito sempre mandar ali, além de vários funcionários, alguns dos seus comandantes com homens que ficassem de guarda. Para essa tarefa, chegado o momento, o sultão decidiu mandar Sicurano, que já sabia otimamente a língua; e assim fez.

Sicurano, indo a Acre como senhor e capitão da guarda dos mercadores e das mercadorias, executava muito bem e com eficiência o que cabia ao seu cargo e ia circulando por lá a ver muitos mercadores sicilianos, pisanos, genoveses, venezianos e outros italianos, com os quais lhe agradava fazer amizade porque lhe traziam lembranças de sua terra. Ocorre que, de uma das vezes, ao descer do cavalo junto a um armazém de mercadores venezianos, deparou, entre outras joias, com uma bolsa e um cinto que ele imediatamente reconheceu como seus, o que lhe causou admiração; mas, sem mudar de expressão, perguntou gentilmente de quem eram e se queriam vender.

Estava ali Ambrogiuolo de Piacenza, chegado com muita mercadoria numa nau de venezianos, e, ao ouvir que o capitão da guarda perguntava de quem eram, adiantou-se e disse rindo:

– Essas coisas são minhas e não as vendo; mas se gostam delas, posso dá-las de bom grado ao senhor.

Sicurano, ao vê-lo rir, desconfiou que ele o tivesse reconhecido por algum gesto; mas disse, impassível:

– Deve estar rindo por ver um soldado como eu perguntar sobre essas coisas de mulheres.

Ambrogiuolo disse:

– Não estou rindo disso, mas do modo como as ganhei.

Então Sicurano disse:

– Ah, que Deus lhe dê boa sorte, e, se não lhe for inconveniente, diga lá como as ganhou.

– Senhor – disse Ambrogiuolo –, estas coisas quem me deu, junto com algumas outras, foi uma gentil senhora de Gênova chamada Zinevra, mulher de Bernabò Lomellin, numa noite em que me deitei com ela, pedindo-me que por seu amor eu ficasse com elas. Dei risada agora porque me lembrei da parvoíce de Bernabò, que teve a insensatez de apostar cinco mil florins de ouro contra mil, achando que eu não submeteria a mulher dele aos meus desejos; pois eu fiz isso e ganhei a aposta; e ele, que deveria punir a sua própria estupidez, e não sua mulher, por ter feito o que fazem todas, ao voltar de Paris a Gênova, pelo que ouvi dizer, mandou matá-la.

Sicurano, ouvindo aquilo, logo entendeu qual fora a razão da ira de Bernabò e percebeu claramente que aquele ali era a causa de todo o seu mal; e no íntimo decidiu que não o deixaria sair impune. Por isso, demonstrou ter gostado muito da história e astutamente travou com ele estreitos laços de amizade, a tal ponto que, terminada a feira, Ambrogiuolo, seguindo seus conselhos, foi com ele e com todas as suas coisas para Alexandria, onde Sicurano o ajudou a montar um armazém e lhe pôs nas mãos muito dinheiro seu. Ambrogiuolo, vendo que estava tirando grande proveito, ali ficava de bom grado. Sicurano, empenhado em demonstrar sua inocência a Bernabò, não descansou enquanto não conseguiu trazer este último até ali, com a ajuda de alguns grandes mercadores genoveses que estavam em Alexandria, aduzindo várias razões; e Bernabò, que estava bastante pobre, foi recebido secretamente por um amigo de Sicurano, até o momento em que este achasse oportuno fazer o que pretendia.

Sicurano já fizera Ambrogiuolo contar a história diante do sultão, com o que este se divertira; mas, vendo que ali se encontrava Bernabò e que a questão não deveria ser retardada, chegado o momento oportuno, pediu ao sultão que chamasse Ambrogiuolo e Bernabò, e que, na presença de Bernabò, caso não fosse possível obter por bem de Ambrogiuolo a verdade dos fatos de que ele se gabava em relação à mulher de Bernabò, que por mal ela fosse obtida. Desse modo, quando Ambrogiuolo e Bernabò compareceram diante do sultão, este, em presença de muitas pessoas e com expressão severa, ordenou a Ambrogiuolo que dissesse a verdade sobre o modo como ganhara de Bernabò cinco mil florins de ouro; e ali estava presente Sicurano, em quem Ambrogiuolo mais tinha confiança e que, com expressão muito mais irada, o ameaçava com terríveis tormentos caso não dissesse a verdade. Ambrogiuolo, intimidado pelos dois lados e um tanto constrangido em presença de Bernabò e de muitos outros, não esperando nenhuma outra pena além da restituição dos cinco mil florins de ouro e das coisas, contou tudo claramente, como acontecera.

E, depois que Ambrogiuolo contou, Sicurano, como representante do sultão, voltando-se para Bernabò, disse:

– E você, por causa dessa mentira, o que fez à sua mulher?

Bernabò respondeu:

– Vencido pela ira da perda do dinheiro e pela vergonha da desonra que achava ter recebido de minha mulher, ordenei a um criado meu que a matasse; e, segundo ele me contou, ela foi imediatamente devorada por muitos lobos.

Essas coisas foram assim ditas na presença do sultão, que as ouviu e entendeu todas, não sabendo ainda aonde queria chegar Sicurano, que dispusera e solicitara tudo aquilo. Então este lhe disse:

– Meu senhor pode ver claramente se essa boa mulher tem por que se gabar do amante e do marido; pois o amante ao mesmo tempo a priva da honra, mancha sua fama com mentiras e arruína-lhe o marido; e o marido, acreditando mais nas falsidades alheias do que na verdade que pudera conhecer de longa experiência, manda matá-la para que sirva de pasto a lobos; e, além disso, são tão grandes a estima e o amor que o amigo e o marido sentem por ela, que, a despeito do longo tempo passado ao lado dela, nenhum dos dois a reconhece. Mas o senhor, que sabe muito bem o que cada um deles mereceu, se tiver a bondade de me fazer uma graça especial, peço que puna o enganador e perdoe o enganado, e eu trarei essa mulher à sua presença e à deles.

O sultão, disposto a satisfazer Sicurano em tudo, disse que concordava, e que trouxesse a mulher. Com isso muito admirado ficou Bernabò, para quem era mais que certa a morte dela; e Ambrogiuolo, já adivinhando seu mal, temia algo pior do que perder dinheiro, e não sabia o que esperar ou o que mais temer da vinda da mulher, porém era maior o espanto com que esperava sua chegada.

Feita a concessão a Sicurano, este, chorando e ajoelhando-se diante do sultão, desfez-se quase ao mesmo tempo da voz masculina e do desejo de parecer homem e disse:

– Senhor, eu sou a mísera e desventurada Zinevra, que passou seis anos vagando como homem pelo mundo, vituperada de maneira falsa e criminosa por esse traidor de Ambrogiuolo e destinada a morrer nas mãos de um criado e a ser devorada pelos lobos por ordem deste homem cruel e iníquo.

E, abrindo a parte da frente da roupa e mostrando o peito, revelou ao sultão e a todos os outros que era mulher; depois, dirigindo-se a Ambrogiuolo, perguntou-lhe colérica quando se deitara com ela, conforme ele antes se gabava. Ele, reconhecendo-a, como se tivesse emudecido de vergonha, nada dizia.

O sultão, que sempre a tivera por homem, ao ver e ouvir aquilo ficou tão admirado que várias vezes achou que o que via e ouvia era sonho, e não realidade. Mesmo assim, passado o espanto e reconhecendo a realidade, exaltou com grande louvor a vida, a constância, os costumes e a virtude de Zinevra, que até então se chamara Sicurano. E, ordenando que lhe trouxessem honrosos trajes femininos e mulheres que lhe fizessem companhia, atendendo ao pedido dela perdoou a Bernabò a merecida morte. E este, reconhecendo-a, lançou-se a seus pés chorando e pedindo perdão, e ela o perdoou bondosamente, embora ele não fosse digno, fazendo-o levantar-se e abraçando-o com ternura, como seu marido.

O sultão depois ordenou que Ambrogiuolo fosse imediatamente amarrado a um poste em algum lugar alto da cidade, exposto ao sol e lambuzado de mel, e que nunca fosse tirado de lá, até que caísse por si mesmo; e assim foi feito. Depois disso, ordenou que à mulher fosse dado tudo o que era de Ambrogiuolo, o que não era tão pouco que não valesse mais de dez mil dobrões; e, mandando preparar uma belíssima festa, homenageou Bernabò como marido da senhora Zinevra e a senhora Zinevra como valorosíssima mulher, dando-lhe em joias, em vasilhas de ouro e prata e em dinheiro o equivalente a mais de outros dez mil dobrões. E, mandando equipar uma nau, terminada a festa a eles dedicada, deu-lhes licença de voltar a Gênova quando quisessem; e para lá voltaram riquíssimos e muito alegres, sendo recebidos com muita honra, especialmente a senhora Zinevra, que todos acreditavam morta; e enquanto viveu ela foi sempre considerada mulher de grande virtude e valor.

Ambrogiuolo, no mesmo dia em que, lambuzado de mel, foi amarrado ao poste, não só morreu em meio a grande angústia pela ação de moscas, vespas e moscardos, que abundam naquelas terras, como também foi por estes devorado até os ossos, que ficaram brancos e presos aos nervos por muito tempo, sem serem retirados, como testemunhos da malvadeza daquele homem para quem quer que os visse. E foi assim que o enganador ficou aos pés do enganado.


[59] Forma popular usada propositadamente por Boccaccio. (N.T.)[ «« ]

[60] Atual Albisola. (N.T.)[ «« ]

[61] São João de Acre. (N.T.)[ «« ]