• Ivan Milazzotti
    Primeira Jornada
    23-03-2026 00:38:45
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    9

Bergamino, com uma história sobre Primas e o abade de Cluny, espicaça com dignidade uma insólita avareza que acometeu messer Cane della Scala.

A espirituosidade de Emília e de sua novela provocaram riso na rainha e em todos os presentes, que elogiaram a insólita percepção do cruzado. Mas, depois que as risadas silenciaram e todos se aquietaram, Filostrato, a quem competia agora narrar uma história, começou a falar do seguinte modo:

– Nobres senhoras, é muito bonito atingir um alvo que não se mova, mas é quase prodigioso um arqueiro acertar alguma coisa inesperada que apareça de repente. A vida viciosa e dissoluta dos clérigos, por ser em muitos aspectos uma espécie de alvo imóvel, expõe-se sem dificuldade aos comentários, às alfinetadas e à censura de qualquer um; por isso, embora tenha feito muito bem o homem honesto que lançou ao rosto do inquisidor a hipócrita caridade dos frades que dão aos pobres o que conviria dar aos porcos ou jogar fora, considero mais digno de louvor aquele do qual devo falar agora, inspirado pela história anterior. Este, com um conto gracioso, representando em outrem aquilo que pretendia dizer sobre si mesmo e sobre messer Cane della Scala, magnífico senhor, criticou uma súbita e inusitada avareza que nele se manifestou. E a história é esta.

Tal como ecoa conhecidíssima fama em todo o mundo, messer Cane della Scala, que em muitas coisas foi favorecido pela Fortuna, era um dos mais notáveis e magnificentes senhores que a Itália conheceu desde os tempos do imperador Frederico II até agora.

Esse senhor, que se dispusera a dar uma festa notável e admirável em Verona, para a qual haviam chegado muitas pessoas de vários lugares, sobretudo dedicadas aos diversos tipos de entretenimento, de repente desistiu (por uma razão qualquer) e, depois de remunerar em parte aqueles que tinham ido, dispensou-os. Só ficou um, chamado Bergamino, falador pronto e talentoso (muito mais do que pode imaginar quem não o tenha ouvido), que não recebera nenhuma remuneração nem fora dispensado; ficou, na esperança de que tal fato não deixaria de lhe trazer alguma futura utilidade. Mas, na opinião de messer Cane, qualquer coisa que lhe dessem estaria mais perdida do que se fosse lançada ao fogo; contudo, não lhe dizia nada disso nem mandava ninguém dizer.

Bergamino, depois de alguns dias, vendo que não o chamavam nem solicitavam as coisas relativas ao seu ofício, e que, além disso, consumia na hospedaria tudo o que tinha com seus cavalos e criados, começou a ser tomado pela melancolia; mesmo assim, esperava, achando que não ficaria bem ir embora. Levara consigo três trajes belos e ricos que lhe haviam sido dados por outros fidalgos, para comparecer com dignidade à festa, e, como seu hospedeiro quisesse ser pago, ele primeiramente lhe deu um dos trajes e depois, permanecendo ali muito mais tempo, precisou dar-lhe o segundo, para poder continuar hospedado; e passou a comer por conta do terceiro, disposto a observar duramente o tempo que durasse aquele traje, para depois ir embora.

Já estava vivendo à custa do terceiro traje quando, um dia, estando messer Cane a comer, Bergamino se pôs diante dele com ar muito tristonho. Ao vê-lo, messer Cane disse, mais para escarnecê-lo que para se deleitar com as palavras do outro:

– Bergamino, o que tem? Está tão melancólico! Diga alguma coisa.

Bergamino então, sem pensar muito, como se muito já tivesse pensado, de repente começou a contar a seguinte história, que adaptou à sua situação:

– Meu senhor deve saber que Primas foi um homem versado em gramática e, além disso, grande e pronto versificador, como nenhum outro, coisas que o tornaram tão respeitável e famoso que, mesmo não sendo conhecido de vista em todos os lugares, quase não havia quem não soubesse quem era Primas pelo nome e pela reputação.

“Uma vez, estava ele em Paris vivendo na pobreza, que era como vivia na maior parte do tempo, por serem suas virtudes pouco apreciadas por aqueles que têm grande poder, quando ouviu falar de certo abade de Cluny que, segundo se acredita, é o prelado mais rico em rendimentos na Igreja de Deus, com exceção do papa; dele ouviu dizer coisas maravilhosas e magníficas, como por exemplo que mantinha uma corte e nunca negara comida nem bebida a ninguém que se dirigisse ao local onde ele ficava, bastando para isso fazer o pedido enquanto o abade estivesse comendo. Ouvindo tais coisas, Primas, que gostava de conhecer homens valorosos e nobres, decidiu ir ver a magnificência daquele abade e perguntou a que distância ficava ele de Paris. Responderam-lhe que talvez houvesse umas seis milhas até o lugar onde ele ficava, e Primas acreditou que, partindo de manhã bem cedo, poderia chegar lá na hora do almoço.

“Pedindo que lhe ensinassem o caminho e não encontrando ninguém que para lá fosse, ficou com medo de, por alguma infelicidade, perder-se e ir dar em lugar onde não encontrasse tão depressa o que comer; e assim, para não passar dificuldades com comida, teve a ideia de levar três pães, imaginando que água (de que não gostava muito) ele poderia encontrar em qualquer lugar. Guardando os pães junto ao peito, pôs-se a caminho, e tudo correu tão bem que antes da hora de comer chegou ao local onde ficava o abade. Entrou, foi olhando para todos os cantos e, vendo a grande quantidade de mesas postas, o grande aparato da cozinha e as outras coisas prontas para o almoço, disse de si para si: ‘De fato, ele é tão magnificente quanto se diz’. Estava atento a todas essas coisas quando o senescal do abade (pois já estava na hora de comer) ordenou que as mãos fossem lavadas; lavadas as mãos, cada um se sentou à mesa. Por acaso, mandaram que Primas se sentasse bem em frente à porta do quarto de onde o abade deveria sair para ir à sala comer.

“Havia naquela corte o uso de nunca pôr nas mesas vinho, pão nem quaisquer outras coisas de comer ou beber antes que o abade se sentasse. Por isso, quando o senescal viu que as mesas estavam preparadas, mandou dizer ao abade que, caso lhe agradasse, a comida estava pronta.

“O abade mandou abrir a porta do quarto para ir à sala e, a caminho, olhando para a frente, quem viu por acaso em primeiro lugar foi Primas, que estava com péssima aparência e que ele não conhecia de vista; assim que o viu, imediatamente lhe veio à mente um mau pensamento que nunca tivera, e ele disse consigo: ‘Veja a quem dou de comer!’. E, retornando, ordenou que o quarto fosse fechado e perguntou àqueles que estavam por perto se alguém conhecia aquele malfeitor que estava sentado à mesa bem em frente à porta do seu quarto. Todos responderam que não.

“Primas, que tinha vontade de comer, por ter andado muito e não estar acostumado a jejuar, depois de esperar um pouco e ver que o abade não chegava, tirou do peito um dos três pães que havia levado e começou a comer. O abade, depois de algum tempo, ordenou a um dos seus empregados que fosse olhar se Primas tinha ido embora.

“O empregado respondeu:

“– Não, senhor; ao contrário, está comendo um pão, que ele decerto deve ter trazido.

“O abade disse:

“– Então que coma do seu, se tem, porque do que é nosso não vai comer hoje.

“O abade gostaria que Primas saísse espontaneamente, pois achava que não ficava bem mandá-lo embora. Primas, depois de comer um pão, vendo que o abade não chegava, começou a comer o segundo; e isso também foi dito ao abade, que mandara alguém ver se ele tinha ido embora.

“Finalmente, como o abade não chegasse mesmo, Primas, que já tinha comido o segundo pão, começou a comer o terceiro; e isso também foi relatado ao abade, que começou a pensar e a dizer de si para si: ‘Ora, que coisa nova é essa que hoje me entrou na alma? Que avareza! Que despeito! E por quem? Dei de comer, durante tantos anos, a quem quer que quisesse comer, sem olhar se era fidalgo ou camponês, pobre ou rico, mercador ou bufarinheiro, e com meus próprios olhos vi minha comida sendo estragada por inúmeros malfeitores, e nem por isso em minha alma se insinuou o pensamento que tive hoje por esse aí. Sem dúvida não devo ter sido dominado pela avareza por causa de uma pessoa insignificante, e esse que me parece um malfeitor deve ser homem de importância, para que meu espírito tenha se negado de tal modo a dar-lhe hospitalidade’.

“Assim pensando, quis saber quem era ele e, descobrindo que era Primas, ali presente para verificar o que ouvira falar sobre sua magnificência, o abade, que de muito tempo já ouvia falar de Primas como homem talentoso, sentiu-se envergonhado; e, ansioso por reparar o erro, empenhou-se em obsequiá-lo de muitas maneiras. Depois de lhe dar comida, de acordo com o que convinha à qualidade de Primas, ordenou que o vestissem com nobreza e, ofertando-lhe dinheiro e um palafrém, deixou-o à vontade para ir ou ficar. Primas, contente, demonstrando a maior gratidão que podia, voltou cavalgando a Paris, de onde tinha saído a pé.”

Messer Cane, que era bom entendedor, sem precisar de outra demonstração compreendeu o que Bergamino queria dizer e disse sorrindo:

– Bergamino, você mostrou adequadamente os seus prejuízos, o seu valor, a minha avareza e aquilo que espera de mim; e, de fato, nunca, senão agora com você, fui dominado pela avareza; mas vou expulsá-la com o porrete que você mesmo me indicou.

E, depois de mandar pagar o hospedeiro de Bergamino, de vesti-lo nobremente com um de seus trajes, de lhe dar dinheiro e um palafrém, daquela vez o deixou à vontade para ir ou ficar.