• Ivan Milazzotti
    Primeira Jornada
    23-03-2026 00:17:35
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    18

Cepperello, com falsa confissão, engana um santo frade e morre; e, tendo sido péssimo homem em vida, depois de morto tem reputação de santo e é chamado São Ciappelletto.

– Caríssimas senhoras, todas as coisas que o homem fizer, é conveniente que ele as principie com o santo nome d’Aquele que as fez todas. Por isso, devendo eu dar início às nossas narrativas, pretendo, em sendo o primeiro, começar por uma das suas maravilhas, para que, ouvindo-a, nossa esperança n’Ele se afirme como algo imutável, e seu nome sempre seja louvado por nós.

Como todos sabem, por serem todas transitórias e mortais, as coisas temporais trazem em si e fora de si contrariedades, angústias e agruras, dando ensejo a infinitos perigos; e é infalível que nós, passando a vida envolvidos nelas e fazendo parte delas, não possamos sobreviver nem nos defender sem que a especial graça de Deus nos dê forças e esclarecimento. E não devemos crer que tal graça desça sobre nós por mérito nosso, mas sim movida pela Sua bondade e pelas preces daqueles que, assim como nós, já foram mortais e, atendendo às Suas vontades enquanto estavam vivos, agora estão com Ele, eternos e beatos; é a estes que nós, talvez não ousando fazer súplicas a tão augusto juiz, suplicamos as coisas que consideramos necessárias, tal como a procuradores que, por experiência, conhecessem nossa fragilidade.

E também nisso percebemos que ele usa de piedosa liberalidade para conosco, pois, não podendo o gume do olho mortal penetrar no segredo da mente divina, às vezes somos enganados por nossos julgamentos e tomamos como procurador perante Sua Majestade alguém que foi por ela lançado ao exílio eterno; no entanto, Ele, de quem nada se oculta, considerando mais a pureza do que a ignorância do suplicante ou o exílio do suplicado, atende ao pedido que fazemos como se aquele a quem suplicamos fosse bem-aventurado em Sua presença. É o que se verá claramente na novela que pretendo contar; claramente, quero dizer, não pensando no juízo de Deus, mas no dos homens.

Conta-se que Musciatto Franzesi, grande e riquíssimo mercador que vivia na França e se tornou cavaleiro, precisando vir à Toscana com Carlos Sem Terra 9, irmão do rei da França, que o papa Bonifácio10 solicitava e trazia, percebendo que seus negócios estavam atravancados aqui e lá, tal como na maioria das vezes ocorre com os negócios dos mercadores, e que não poderia desatravancá-los com facilidade e rapidez, pensou em confiá-los a várias pessoas; e para todos encontrou modo de fazê-lo; no entanto, restava uma dúvida: quem seria mais apto para arrecadar seus créditos junto a vários borguinhões?

O motivo da dúvida era ter ele ouvido dizer que os borguinhões eram gente briguenta, de má índole e desleal; e não lhe vinha à lembrança ninguém em quem pudesse ter alguma confiança e que fosse tão malvado que pudesse opor-se à malvadeza dos outros.

Pensando demoradamente nessa questão, veio-lhe à lembrança certo Cepperello da Prato, que frequentemente se hospedava em sua casa de Paris, homem baixinho e almofadinha. Por isso os franceses, não sabendo o que queria dizer Cepperello e achando que fosse capela, ou seja, guirlanda, em vista do pequeno que era, como dissemos, em sua língua não o chamavam propriamente Ciappello, e sim Ciappelletto11; e por Ciappelletto passou a ser conhecido em todos os lugares, de modo que poucos o conheciam por Cepperello.

Vivia o tal Ciappelletto do seguinte modo: sendo notário, sentia muita vergonha caso se descobrisse que um dos seus instrumentos não era falso (embora poucos fizesse que não fossem falsos); pois dos falsos teria feito tantos quantos lhe pedissem, e preferia fazê-los de graça a fazer qualquer dos outros mediante elevado pagamento. Era com extrema alegria que dava falsos testemunhos, solicitados ou não; como naqueles tempos em França fosse enorme a confiança nos juramentos, ele, que não se importava de jurar em falso, vencia de má-fé todas as causas nas quais fosse exortado a dar fé de dizer a verdade. Sentia muito prazer e punha grande empenho em provocar maldades, inimizades e escândalos entre amigos, parentes e quaisquer outras pessoas, e, quanto maiores fossem os males daí decorrentes, maior sua alegria. Se convidado para algum homicídio ou qualquer outro delito, nunca recusava e comparecia de muito bom grado; e várias vezes sentiu gosto em ferir e matar gente com as próprias mãos. Blasfemador de Deus e dos santos é o que ele era em alto grau e por qualquer coisinha, porque irascível como ninguém mais no mundo. À igreja não ia nunca; e de todos os seus sacramentos ele escarnecia, como coisas sem valor, usando palavras abomináveis; em compensação, era useiro e vezeiro de tavernas e outros locais de dissolução.

De mulheres gostava tanto quanto os cães gostam de pauladas; com o contrário deliciava-se mais que qualquer outro homem depravado. Teria furtado e roubado com a mesma boa consciência com que um santo homem daria óbolos. Era tão guloso e beberrão que às vezes sofria de náuseas constrangedoras. Era arrematado jogador e apostador de dados trapaceados.

Por que me estendo em tantas palavras? Era talvez o pior homem que já nasceu. Durante muito tempo sua maldade teve o respaldo do poder e da posição de messer Musciatto, que várias vezes o defendeu dos particulares, que ele injuriava amiúde, e dos tribunais, que ele injuriava sem parar.

Quando Cepperello acudiu à memória de messer Musciatto, que conhecia muitíssimo bem sua vida, o referido messer Musciatto concluiu que a malvadeza dele seria exatamente a necessária aos borguinhões; assim, mandando chamá-lo, disse-lhe o seguinte:

– Ciappelletto, como sabe, estou para me retirar totalmente daqui e, tendo entre outras coisas algumas pendências com os borguinhões, gente cheia de trapaças, não sei de ninguém melhor que você para reaver o que é meu junto a eles; como não anda fazendo nada atualmente, se quiser cuidar disso, pretendo obter-lhe os favores da corte e dar-lhe a justa parte daquilo que for arrecadado.

Ciappelletto, que andava desocupado e pouco enfronhado nas coisas mundanas, vendo que estava de partida aquele que lhe dera sustento e acolhimento durante tanto tempo, decidiu-se sem tardar e quase que coagido pela necessidade, dizendo que, sim, aceitava.

Assim foi que, feitos os acertos entre os dois e indo-se messer Musciatto, depois de receber a procuração e as cartas favoráveis do rei, Ciappelletto foi para Borgonha, onde quase ninguém o conhecia; ali, contrariando sua natureza, começou a tentar fazer com bondade e mansidão as cobranças e as outras coisas para as quais tinha ido, como se estivesse reservando a ira para o último caso.

E, enquanto fazia tais coisas, hospedado em casa de dois irmãos florentinos, que ali emprestavam a juros e o respeitavam muito por estima a messer Musciatto, Ciappelletto ficou doente; os dois irmãos imediatamente chamaram médicos e criados para servi-lo, providenciando tudo o que fosse necessário à recuperação de sua saúde.

Mas qualquer socorro era inútil, porque o bom homem, que já estava velho e tinha vivido desregradamente, segundo diziam os médicos, piorava dia a dia, como quem tivesse um mal mortal; e com isso os dois irmãos se condoíam muito.

Um dia, estando bem próximos do quarto no qual Ciappelletto jazia doente, começaram assim a conversar:

– Que vamos fazer com esse aí? – dizia um ao outro. Por causa dele estamos em maus lençóis, porque mandá-lo embora desta casa assim doente seria vergonhoso, claro sinal de pouco juízo, porque as pessoas vão ver que primeiro nós o recebemos, mandamos servi-lo e medicá-lo com solicitude, mas agora, sem que ele tenha feito nada que nos desagrade, de repente o mandamos embora doente, às portas da morte. Por outro lado, ele foi tão malvado, que não irá querer se confessar nem receber nenhum sacramento da Igreja; e, se morrer sem confissão, nenhuma igreja vai querer receber seu corpo; ao contrário, será atirado junto aos fossos como um cão.12 E, mesmo que se confesse, seus pecados são tantos e tão horríveis que vai dar na mesma, porque não há de haver frade nem pároco que queira ou possa absolvê-lo; e assim, sem absolvição, também será atirado aos fossos. E, se isso ocorrer, vai se erguer um grande tumulto entre o povo daqui da cidade, tanto por nosso ofício, que eles amaldiçoam e lhes parece iníquo, quanto pela vontade que têm de nos roubar; e dirão: “Não queremos tolerar mais esses cães lombardos que a igreja não quis receber”; e virão correndo à nossa casa e não só vão roubar o que temos como talvez até nos tirem a vida; e por isso, aconteça o que acontecer, estamos em má situação se esse aí morrer.

Ciappelletto, como dissemos, estava deitado perto de onde os dois assim conjecturavam e, tendo bons ouvidos, como têm os doentes na maioria das vezes, ouviu o que diziam dele; então mandou chamá-los e disse:

– Não quero que temam por mim nem que tenham medo de sofrer prejuízos por minha causa. Ouvi o que diziam de mim e tenho absoluta certeza de que tudo ocorreria como disseram, caso as coisas corressem como imaginam; mas vão correr de outro modo. Em vida cometi tantas injúrias contra Nosso Senhor, que cometer mais uma agora às portas da morte não vai fazer a menor diferença. Por isso, providenciem a vinda do frade mais santo e virtuoso que encontrarem, se é que isso existe, e deixem tudo comigo, que vou acertar de uma vez por todas os seus assuntos e os meus, de modo que tudo vai acabar bem e vocês ficarão contentes.

Os dois irmãos, apesar de não depositarem muita esperança nisso, foram a um convento de frades e solicitaram algum homem santo e sábio para ouvir a confissão de um lombardo que estava doente em casa deles; e foi-lhes dado um frade idoso, de santa e devota vida, grande mestre das Escrituras e homem venerabilíssimo, por quem todos os cidadãos tinham grande e especial devoção; levaram-no consigo.

O frade, chegando ao quarto onde Ciappelletto jazia e sentando-se ao seu lado, primeiramente começou a confortá-lo com benevolência e depois lhe perguntou quanto tempo fazia que não se confessava. A isso Ciappelletto, que nunca se confessara, respondeu:

– Padre, meu costume é confessar-me pelo menos uma vez por semana, sem contar que muitas vezes há semanas em que me confesso mais; a verdade é que desde que fiquei doente, faz quase oito dias, não me confessei, tantos são os transtornos que essa doença me causou.

O frade então disse:

– Meu filho, fez muito bem, e assim deve ser daqui por diante; estou vendo que, se suas confissões são tão frequentes, terei pouco trabalho ouvindo ou perguntando.

Disse Ciappelletto:

– Senhor frade, não diga isso; nunca me confessei tantas vezes nem com tanta frequência que deixasse de querer me confessar em geral de todos os pecados de que me lembrasse desde o dia em que nasci até o dia em que me confessava; por isso lhe peço, meu bom pai, que me pergunte tudo ponto por ponto, como se eu nunca tivesse me confessado. E não tenha contemplação só porque estou doente, pois prefiro mortificar a carne a poupá-la e fazer alguma coisa que possa servir à perdição de minha alma, que meu Salvador redimiu com seu precioso sangue.

Essas palavras agradaram muito ao santo homem e pareceram-lhe depor a favor de uma mente bem disposta; e, depois de ter elogiado muito esse costume de Ciappelletto, começou por perguntar se ele tinha cometido o pecado da luxúria com alguma mulher. A isso Ciappelletto respondeu suspirando:

– Padre, nessa parte me envergonho de dizer a verdade, por temer cometer o pecado da vanglória.

Então o santo frade disse:

– Diga sem medo, porque quem diz a verdade nunca peca, nem em confissão nem em nenhum outro ato.

Então Ciappelletto disse:

– Já que o senhor me dá certeza disso, vou dizer: sou tão virgem como quando saí do corpo da minha mãe.

– Oh, bendito seja, por Deus! – disse o frade. – Como fez bem! E, fazendo isso, tem ainda mais mérito porque, se quisesse, teria mais arbítrio de fazer o contrário do que nós e qualquer outro submetido a alguma regra.

E depois perguntou se ele entristecera Deus com o pecado da gula; a isso, suspirando profundamente, Ciappelletto respondeu que sim, e muitas vezes; isto porque, além dos jejuns da quaresma que as pessoas devotas fazem todo ano, pelo menos três dias por semana ele costumava passar a pão e água, e bebera a água com o mesmo prazer e apetite (principalmente se tivesse ficado muito cansado, adorando ou peregrinando) com que os beberrões tomam vinho; e muitas vezes tinha desejado comer umas saladinhas de ervas, como aquelas que as mulheres fazem quando vão ao campo; e de vez em quando comer lhe parecera coisa melhor do que lhe parecia que deveria parecer a quem jejua por devoção, como ele.

Então o frade disse:

– Meu filho, esses pecados são naturais e bastante leves; por isso não quero que eles lhe pesem mais na consciência do que é necessário. Para todo e qualquer homem, por mais santo que seja, parece bom comer depois de longo jejum, e beber depois da canseira.

– Oh, padre – disse Ciappelletto –, não diga isso para me consolar; o senhor bem sabe que eu sei que as coisas feitas a serviço de Deus devem ser feitas todas com pureza, sem pensamentos espúrios; e quem as faz de outro modo peca.

O frade, contentíssimo, disse:

– Fico contente de saber que esse é seu entendimento e gosto muito de sua consciência pura e boa. Mas, diga, cometeu o pecado da ganância, desejando mais que o conveniente ou tendo o que não deveria ter?

Ciappelletto respondeu:

– Padre, não gostaria que o senhor nutrisse desconfianças por eu estar em casa desses usurários: não tenho nada com eles; aliás, vim aqui para adverti-los, admoestá-los, afastá-los desse abominável ganho; e creio que teria conseguido, se Deus não tivesse me visitado dessa maneira. Mas o senhor precisa saber que meu pai me deixou rica herança, cuja maior parte, tão logo ele morreu, eu dei a Deus; depois, para ganhar a vida e poder ajudar os pobres de Cristo, dediquei-me ao pequeno comércio e com isso desejei obter ganhos, mas sempre dividi o que ganhei com os pobres de Deus, destinando metade às minhas necessidades e dando-lhes a outra metade; com isso o Criador me ajudou tanto, que meus negócios sempre andaram de bem a melhor.

– Fez bem – disse o frade –, mas quantas vezes se deixou levar pela ira?

– Oh! – disse Ciappelletto. – Isso sim, digo que me aconteceu muitas vezes. Mas como pode conter-se quem todos os dias vê gente fazer coisas erradas, não observar os mandamentos de Deus, não temer os Seus julgamentos? Várias vezes por dia senti que preferia estar morto, quando via os jovens correndo atrás das vaidades, jurar e perjurar, frequentar tavernas, não ir a igrejas e seguir de preferência os caminhos do mundo, e não os de Deus.

O frade disse então:

– Meu filho, essa ira é boa, e eu nem saberia lhe impor penitência por isso. Mas, por acaso, a ira teria conseguido induzi-lo a cometer algum homicídio, a dizer impropérios a alguém ou a cometer alguma outra injúria?

A isso sior Ciappelletto respondeu:

– Ai, o senhor, que me parece ser homem de Deus, como diz essas palavras? Se me tivesse passado pela cabeça nem que fosse uma ideiazinha de fazer uma dessas coisas que o senhor diz, acha que eu acreditaria que Deus ia me dar amparo? Essas coisas quem faz são bandidos e criminosos, e desses, quando por acaso vi algum, sempre disse: “Vai, e que Deus te converta”.

Então o frade disse:

– Agora diga, meu filho, e que Deus o abençoe: acaso deu falso testemunho contra alguém ou falou mal de alguém ou subtraiu coisas de alguém sem o consentimento daquele a quem pertenciam?

– Já sim, senhor – respondeu Ciappelletto –, falei mal de alguém; porque eu tinha um vizinho que fazia a coisa mais errada do mundo, que era bater na mulher, de maneira que uma vez falei mal dele aos parentes da mulher, de tanta pena que eu sentia daquela coitadinha, que ele, cada vez que bebia demais, espancava que só Deus sabe.

Então o frade disse:

– Bom, você me disse que foi mercador: por acaso enganou os outros como todos os mercadores?

– Por minha fé – disse Ciappelletto –, sim, senhor; mas não sei quem era, só sei que alguém me deu o dinheiro que me devia pelo pano que lhe vendi, e eu o pus na caixa sem contar, mas depois de bem um mês descobri que havia quatro piccioli13 a mais do que deveria haver; então, como não voltei a ver essa pessoa, depois de guardar o dinheiro bem um ano para devolver, eu o dei de esmola em nome de Deus.

Disse o frade:

– Foi coisa pequena; e fez bem em fazer o que fez.

E, além dessas, o santo frade fez muitas outras perguntas, às quais ele respondeu sempre desse modo. Como ele já quisesse proceder à absolvição, disse Ciappelletto:

– Meu senhor, tenho mais um pecado que não contei.

O frade perguntou qual era, e ele disse:

– Lembro que obriguei meu criado a varrer a casa num sábado depois da nona hora e no santo domingo não fui reverente como devia.

– Oh, meu filho – disse o frade –, é coisa leve.

– Não – disse Ciappelletto, – não diga que é coisa leve, porque o domingo deve ser venerado, pois foi num dia assim que Nosso Senhor ressuscitou da morte para a vida.

O frade disse:

– Fez mais alguma coisa?

– Sim, senhor – respondeu Ciappelletto –, uma vez, distraído, cuspi no templo de Deus.

O frade começou a sorrir e disse:

– Meu filho, não é coisa para se preocupar: nós, que somos religiosos, cuspimos lá todos os dias.

Então Ciappelletto disse:

– Fazem coisa bem feia, porque não se deve manter nada tão limpo como o santo templo, onde se oferece sacrifício a Deus.

E em pouco tempo contou muitos fatos assim, até que por fim começou a suspirar e a chorar muito, como sabia fazer perfeitamente bem quando queria.

O santo frade:

– Meu filho, que está acontecendo?

Ciappelletto respondeu:

– Ai de mim, meu senhor, sobrou um pecado que eu nunca confessei, tamanha é a vergonha que sinto ao dizer; e, toda vez que me lembro dele, choro como está vendo, pois dou por mais que certo que Deus nunca não vai ter misericórdia de mim por causa desse pecado.

Então o santo frade disse:

– Que é isso, meu filho? O que está dizendo? Se todos os pecados já cometidos por todos os homens, ou que ainda venham a ser cometidos por todos os homens enquanto o mundo existir, estivessem todos num homem só, e ele estivesse arrependido e contrito como o vejo agora, é tanta a bondade e misericórdia de Deus que, se esse homem se confessasse, seus pecados seriam perdoados liberalmente; por isso, diga o que é, sem medo.

Então sior Ciappelletto disse, sempre chorando muito:

– Ai, padre, meu pecado é grande demais, e, se suas súplicas não se empenharem muito, mal posso acreditar que ele algum dia ele seja perdoado por Deus.

Então o frade disse:

– Diga sem medo, eu prometo que rogarei a Deus por você.

Mesmo assim Ciappelletto chorava e não dizia, enquanto o frade o incentivava a dizer. Até que, depois de alimentar durante muito tempo a curiosidade do frade, chorando suspirou profundamente e disse:

– Padre, como o senhor promete rogar a Deus por mim, vou dizer. Fique sabendo que uma vez, quando eu era pequeno, amaldiçoei a minha mãe.

E, dizendo isso, recomeçou a chorar alto.

O frade disse:

– Oh, meu filho, e isso lhe parece um pecado tão grande? Oh! Os homens blasfemam todos os dias contra Deus, e ele costuma perdoar aqueles que se arrependem de terem blasfemado; e você acha que Ele não vai perdoar isso? Não chore, console-se, pois não há dúvida, se você fosse um daqueles que o puseram na cruz e tivesse a contrição que estou vendo, Ele perdoaria.

Então Ciappelletto disse:

– Ai, padre, o que está dizendo? Minha mãe era tão boa, carregou-me no ventre nove meses, dia e noite, deu-me o seio mais de cem vezes! Fiz muito mal em amaldiçoá-la, e esse é um pecado enorme; se o senhor não rogar a Deus por mim, esse pecado não será perdoado.

O frade, vendo que Ciappelletto nada mais tinha para dizer, deu-lhe a absolvição e a bênção, considerando-o um santo homem, por acreditar plenamente na veracidade de tudo o que ele dissera.

E quem não acreditaria, vendo alguém falar daquele modo em artigo de morte? Depois de tudo isso, disse-lhe:

– Ciappelletto, com a ajuda de Deus logo ficará bom; mas, se por acaso Deus chamasse a si a sua alma bendita e bem disposta, gostaria de ser sepultado em nosso convento?

A isso Ciappelletto respondeu:

– Sim, senhor; aliás, não gostaria de estar em outro lugar, já que o senhor prometeu rogar a Deus por mim; sem contar que sempre tive especial devoção por sua ordem. Por isso lhe peço que, quando o senhor estiver no seu convento, faça que venha a mim aquele veracíssimo corpo de Cristo que pela manhã é consagrado sobre o altar; porque (embora não seja digno) pretendo comungar com sua licença e depois receber a santa e última unção, para que eu, apesar de ter vivido como pecador, pelo menos morra como cristão.

O santo homem disse que tinha muito gosto, que ele estava certo e que o mandaria imediatamente; e assim foi.

Os dois irmãos, temendo muito que Ciappelletto os enganasse, tinham-se posto junto a um tabique que separava o quarto onde ele estava de um outro e, atentando, conseguiam ouvir com facilidade o que ele dizia ao frade; ao ouvirem as coisas confessadas, às vezes sentiam tanta vontade de rir que quase gargalhavam, e diziam entre si:

– Que homem é esse que nem a velhice, nem a doença, nem o medo da morte, de que está próximo, nem mesmo de Deus, diante de cujo julgamento deverá estar daqui a pouco, conseguiram demover da maldade ou levar a desejar não morrer como viveu?

Mas, ouvindo que, de fato, ele receberia sepultura na igreja, não se preocupavam com nada mais.

Ciappelletto comungou logo em seguida e, piorando irremediavelmente, recebeu a última unção; pouco depois do entardecer daquele mesmo dia em que se confessara, morreu. Os dois irmãos, dispondo dos haveres dele para providenciarem sepultamento decente e mandando avisar os frades no convento, para que lá fossem à noite fazer velório, segundo o costume, e pela manhã cuidar do corpo, arranjaram tudo do modo mais conveniente. O santo frade que o confessara, ao saber que ele falecera, foi ter com o prior do convento e, convocado o capítulo, disse aos frades ali reunidos que Ciappelletto fora um santo homem, conforme percebera por sua confissão; e, prevendo que por ele Nosso Senhor deveria realizar muitos milagres, convenceu-os de que seu corpo deveria ser recebido com grande reverência e devoção. Com isso concordaram o prior e os outros frades, convencidos que estavam; e à noite, indo todos ao lugar onde jazia o corpo de Ciappelletto, fizeram-lhe grande e solene velório; pela manhã, todos vestidos de alva e pluvial, com livros nas mãos e cruzes à frente, cantando, foram buscar o corpo e em meio a muita festa e solenidade o levaram à igreja,seguidos por quase todo o povo da cidade, homens e mulheres. Estava já o corpo na igreja quando o santo frade que o confessara subiu ao púlpito e começou a pregar, dizendo coisas maravilhosas sobre a vida, os jejuns, a virgindade, a simplicidade, a inocência e a santidade daquele homem, contando entre outras coisas aquilo que Ciappelletto, chorando, confessara ser seu maior pecado, e como ele mal e mal pudera meter-lhe na cabeça que Deus o perdoaria; e, com isso, passou a repreender o povo que o ouvia, dizendo:

– E vocês, malditos, por dá cá aquela palha blasfemam contra Deus, Nossa Senhora e toda a corte celestial.

E além dessas coisas disse muitas outras sobre sua lealdade e pureza; e em pouco tempo, com suas palavras, às quais a gente do campo dava inteira fé, pôs aquilo na cabeça e na devoção de todos os que ali estavam, de tal modo que, terminado o ofício, todos, em meio ao maior tropel do mundo, foram beijar os pés e as mãos de Ciappelletto, rasgando todas as roupas que o cobriam, de modo que se tinha por feliz quem conseguisse pelo menos um pedacinho; e decidiu-se deixá-lo daquele modo durante todo o dia, para que pudesse ser visto e visitado por todos. Ao cair da noite, seu corpo foi posto numa urna de mármore e sepultado com honras numa capela; e, pouco a pouco, no dia seguinte as pessoas começaram a ir lá, acender velas, adorá-lo e, consequentemente, fazer pedidos e levar ex-votos de cera, dependendo da promessa feita.

E cresceram tanto a fama da sua santidade e a devoção que lhe tinham que quase não havia ninguém que, em alguma adversidade, fizesse promessa a outro santo; chamavam-no e chamam-no São Ciappelletto e afirmam que por seu intermédio Deus manifestou e manifesta todos os dias muitos milagres a quem se recomende a ele com fé.

Assim, pois, viveu e morreu Cepperello da Prato, tornando-se santo como ouviram. Não quero negar ser possível que ele seja bem-aventurado na presença de Deus, pois, embora sua vida tenha sido ímpia e malvada, na hora extrema ele pode ter feito um ato de tamanha contrição, que Deus talvez tenha tido misericórdia dele e o tenha recebido em seu reino; mas, como isso permanece oculto, raciocino pelo que se vê e digo ser mais provável que ele esteja em danação nas mãos do diabo do que no paraíso. E, se assim é, pode-se ver como é grande a bondade de Deus para conosco, pois, considerando a pureza de nossa fé, e não nossos erros, mesmo quando tomamos por intercessor um inimigo d’Ele, acreditando ser amigo, somos atendidos como se recorrêssemos a um verdadeiro santo para interceder na obtenção de sua graça. Por isso, nas atuais adversidades, para continuarmos sãos e salvos, por sua graça, nesta agradável companhia, louvando Seu nome com o qual começamos e reverenciando-O, recomendamo-nos a Ele em nossas necessidades, seguros de que seremos ouvidos.

E aqui se calou.