• Ivan Milazzotti
    Primeira Jornada
    23-03-2026 00:38:45
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    9

Mestre Alberto de Bolonha, cortesmente, faz sentir-se envergonhada a mulher que queria envergonhá-lo por estar apaixonado por ela.

Elissa já se calara, e a última tarefa de narrar cabia à rainha, que começou a dizer com graça feminil:

– Valorosas jovens, assim como nas noites claras e serenas as estrelas são ornamento do céu, e na primavera o são as flores dos verdes prados, também os costumes louváveis e as conversações agradáveis são ornamentados por ditos espirituosos. Que, sendo breves, caem muito melhor às mulheres que aos homens, porque é mais inconveniente às mulheres que aos homens o costume de falar muito e demoradamente, sempre que seja possível abster-se disso, se bem que hoje poucas mulheres há, ou nenhuma, que entendam ditos espirituosos ou que, mesmo entendendo, saibam como responder, e isso é uma vergonha para nós e para todas as que estão vivas agora. Porque a virtude que já existiu na alma das antepassadas foi transformada pelas mulheres modernas em ornamentos do corpo; e aquela que se veste com roupas mais variegadas, listradas e ornamentadas acredita que deve ser muito mais considerada e homenageada que as outras, sem pensar que, se a questão é de quem se veste ou se cobre com tais roupas, um asno seria capaz de usá-las em muito maior quantidade que qualquer mulher; e nem por isso seria mais digno de honra que um asno.

“Sinto-me envergonhada, porque tudo o que disser sobre as outras estarei dizendo sobre mim: essas mulheres tão ornamentadas, pintadas e variegadas, quando precisam responder a alguma pergunta, ou ficam mudas e insensíveis como estátuas de mármore, ou dão tais respostas que seria muito melhor se tivessem ficado caladas; e querem acreditar que é por pureza de espírito que não sabem conversar entre mulheres e homens inteligentes, dando à sua futilidade o nome de honestidade, como se mulher honesta fosse só aquela que conversasse com a criada, a lavadeira ou a cozinheira. Porque, se a natureza tivesse desejado isso, como elas querem levar a crer, de algum modo teria limitado sua capacidade de tagarelar.

“E a verdade é que, assim como nas outras coisas, nesta devem ser considerados o tempo, o lugar e a pessoa com quem se fala; porque às vezes uma mulher ou um homem, acreditando que fará a outra pessoa enrubescer com alguma palavrinha espirituosa, se não tiver medido bem suas forças com as dessa pessoa, sentirá em si aquele mesmo rubor que acreditava provocar nela. E, para que as senhoras saibam resguardar-se e não lhes caiba aquele provérbio que se costuma citar em todo lugar, ou seja, que as mulheres em tudo sempre levam a pior, quero que esta última história de hoje, que me compete narrar, lhes sirva de lição; então, assim como se distinguiram das outras pela nobreza de espírito, também se mostrarão diferentes delas na excelência de costumes.”

Havia na Bolonha, não muitos anos atrás, e talvez ainda exista um grande médico que gozava de excelente fama em quase todo o mundo; seu nome era mestre Alberto. Estava já velho, com quase setenta anos, e tanta era a nobreza de seu espírito que, embora de seu corpo já se tivesse ido quase todo o calor natural, ele não se esquivou de abrigar em si a chama do amor; pois, vendo numa festa uma belíssima viúva, que, segundo dizem alguns, se chamava madonna Malgherida dei Ghisolieri, gostou muitíssimo dela e abrigou o amor no peito maduro de um modo nada diferente ao de um jovenzinho, a ponto de ter a impressão de que não descansava bem à noite quando durante o dia anterior não visse o encantador e delicado rosto da bela mulher.

E por isso começou a percorrer com frequência, ora a pé, ora a cavalo, conforme lhe parecesse mais cômodo, a rua diante da casa daquela mulher. Foi assim que ela e várias outras se aperceberam da razão do seu trânsito por ali e muitas vezes escarneceram juntas, ao verem apaixonado um homem tão rico em anos e tino, como se acreditassem que a agradabilíssima paixão amorosa só entra e permanece na tola alma dos jovens, e em nenhum outro lugar.

Assim, continuava mestre Alberto a passar por lá quando, em certo dia de festa, estando a mulher sentada com várias outras diante da porta, avistou de longe mestre Alberto a caminhar em sua direção; todas então combinaram recebê-lo hospitaleiramente e depois fazer alusões espirituosas àquela sua paixão; e foi o que fizeram. Desse modo, levantando-se todas, convidaram-no a entrar e o conduziram a um pátio fresco, onde mandaram servir-lhe vinhos e doces finíssimos; por fim, com palavras bonitas e espirituosas, perguntaram-lhe como podia ser aquilo, de estar apaixonado por aquela bela mulher, sabendo-se que ela era amada por muitos jovens bonitos, corteses e elegantes.

O mestre, percebendo-se cortesmente fustigado, pôs um sorriso no rosto e respondeu:

– Senhora, o fato de eu amar não deve ser causa de espanto a ninguém que tenha discernimento, muito menos à senhora, que merece esse amor. E, embora aos homens de idade faltem naturalmente as forças necessárias aos exercícios amorosos, nem por isso lhes faltam vontade e percepção daquilo que deve ser amado, coisas que, pela própria natureza, conhecem bem, porque têm mais conhecimentos que os jovens. A esperança que me move, a mim que sou velho e amo a senhora, que é amada por muitos jovens, é a seguinte: já estive várias vezes em lugares onde vi mulheres que, merendando, comem tremoços e alho-porro; mas no alho-porro, apesar de nada ser bom, menos ruim e mais agradável ao paladar é a cabeça, que, motivadas por apetite pervertido, as senhoras em geral seguram na mão, enquanto mastigam as folhas, que não só não valem coisa alguma, como também têm gosto ruim. E como posso saber se, ao escolher amantes, a senhora não faz coisa semelhante? E, se assim fizesse, eu seria o escolhido, e os outros, rejeitados.

A nobre senhora, ao lado das outras, disse, um tanto envergonhada:

– Mestre, o senhor repreendeu com propriedade e cortesia a nossa atitude presunçosa; prezo muito o seu amor, como se deve prezar o amor de um homem sábio e talentoso; por isso, resguardando-se o meu recato, disponha de mim em tudo o que lhe for de mais agrado. O mestre, levantando-se com seus companheiros, agradeceu e despediu-se risonho da mulher que o cercava de festas. Foi assim que ela, não atentando para a pessoa que era alvo de seus motejos, acreditou vencer e foi vencida: coisa de que as senhoras, se forem inteligentes, deverão se resguardar muito bem.

O sol já se inclinava para o poente, e o calor diminuíra parcialmente, quando as novelas das moças e dos rapazes chegaram ao fim. Por isso a rainha disse com satisfação:

– Agora, caras companheiras, nada mais resta ao meu governo deste dia senão escolher uma nova rainha, que deverá dispor, como bem entender, sua vida e a nossa para o honrado divertimento do dia vindouro; e, embora este dia pareça durar ainda até a noite, como é indubitável que não conseguirá prover-se devidamente para o futuro quem não tirar antecipadamente um pouco de tempo para preparar-se, se quisermos que seja oportunamente disposto para amanhã cedo tudo aquilo que for deliberado pela nova rainha, julgo necessário já neste momento dar início às jornadas seguintes. Por isso, reverenciando Aquele por quem todas as coisas vivem e que é nossa consolação, na segunda jornada nosso reino terá como rainha Filomena, jovem discretíssima.

E, dizendo isso, levantou-se, retirou da cabeça a guirlanda de louro e entregou-a reverentemente a Filomena; enquanto isso, todas as outras moças e os rapazes a saudavam como rainha, submetendo-se graciosamente à sua senhoria.

Filomena, um tanto enrubescida pelo acanhamento de ver-se coroada rainha, lembrou-se das palavras ditas por Pampineia pouco antes e, não querendo parecer tola, cobrou coragem e, primeiramente, confirmou as incumbências distribuídas por Pampineia e depois dispôs tudo o que deveria ser feito para a manhã seguinte e para a futura ceia. Ficando todos onde estavam, a seguir ela começou a falar do seguinte modo:

– Caríssimas companheiras, embora Pampineia me tenha escolhido rainha, mais por cortesia dela que por minhas qualidades, quanto à maneira como viveremos não estou disposta a seguir apenas as minhas decisões, mas as minhas e as das senhoras em conjunto; e para que fiquem a par do que pretendo fazer e possam, portanto, acrescentar ou retirar o que houverem por bem, direi com poucas palavras como será. Se bem observei as medidas hoje tomadas por Pampineia, posso dizer que me pareceram louváveis e agradáveis; por isso, enquanto elas não se tornarem aborrecidas pela excessiva repetição ou por outra razão, não julgo necessário modificá-las. Portanto, iniciadas as disposições de tudo o que haveremos de fazer, podemos levantar-nos daqui e entreter-nos ainda mais um pouco; quando o sol estiver se pondo, cearemos com a fresca e, depois de algumas canções e outros entretenimentos, será bom irmos dormir. Amanhã cedo nos levantamos com a fresca e cada um também se entreterá no lugar que achar melhor; e, tal como fizemos hoje, na hora devida voltaremos para comer, dançar e, depois da sesta, como hoje, retornaremos aqui para contar histórias, pois a mim também parece nisso haver enorme prazer e utilidade. É verdade que o que Pampineia não pôde fazer, por ter sido eleita tarde para o governo, quero eu começar a fazer, ou seja, limitar as histórias que haveremos de contar a algum tema que será exposto de antemão, para que cada um tenha tempo de pensar em alguma bela história para narrar sobre o assunto proposto; e, se lhes agradar, proponho o seguinte: visto que desde o princípio do mundo os homens foram levados pela Fortuna a enfrentar adversidades, e assim será até o fim, cada um deverá contar algo sobre alguém que, apesar de atribulado por diferentes coisas, conseguiu chegar a um final feliz, contrariando todas as expectativas.

Tanto as mulheres quanto os homens aprovaram essa medida e disseram que a acatariam. Quando todos já se calavam, somente Dioneu disse:

– Senhora, conforme todos os outros disseram, também digo que essa disposição é extremamente agradável e elogiável; mas como graça especial peço-lhe um privilégio, e que ele me seja garantido por todo o tempo que durar este nosso grupo, qual seja, que essa lei não me obrigue a contar uma história restrita à proposta apresentada, caso eu não queira, mas possa contar a que mais me agradar. E, para que ninguém acredite que peço esse favor por não ter histórias à mão, a partir de agora ficarei contente se for sempre o último a falar. A rainha, que o conhecia como homem divertido e festivo, percebeu claramente que ele só fazia aquele pedido para poder alegrar o grupo com alguma história engraçada, caso todos estivessem cansados das narrativas; e, com o consentimento dos demais, concedeu-lhe a graça com satisfação.

E, levantando-se, foram caminhando a passos lentos em direção a um riacho de águas límpidas, que descia de um outeiro para um vale ensombrecido por muitas árvores entre pedras vistosas e relva verde. Ali, descalças e de braços nus, caminhando pela água, começaram a fazer várias brincadeiras umas com as outras. Chegando a hora da ceia, dirigiram-se ao palácio e comeram alegremente.

Depois de comerem, mandaram buscar os instrumentos, e a rainha ordenou que se desse início a uma dança conduzida por Lauretta, e que Emília cantasse uma canção, acompanhada pelo alaúde de Dioneu. Obedecendo à ordem, Lauretta iniciou prontamente a dança e a conduziu, enquanto Emília cantava sentimentalmente a seguinte canção:

Encanta-me a beleza minha tanto,
que um outro amor jamais
vou querer e não creio ter encanto.

 

E vejo nela, sempre que me espelho,
um bem que tanto agrada ao intelecto:
um acidente novo ou fato velho
nunca me roubará o prazer dileto.
E qual outro atraente e belo objeto
poderei ver jamais
que no meu peito ponha novo encanto?

 

Não me foge esse bem, sempre que quero
mirá-lo p’ra poder me consolar,
mas me traz o prazer, tal como espero,
tão doce de se ouvir, que linguajar
não há para o entender ou expressar
de algum mortal jamais,
que não sinta o ardor de tal encanto.

 

E eu, que cada vez mais vou me inflamando,
quanto mais meu olhar nele está posto,
mais me rendendo vou, mais me entregando,
sentindo da promessa o antegosto,
esperando depois bem maior gosto,
tão grande que jamais
foi sentido no mundo tal encanto.

Terminada essa pequena balada – que todos acompanharam cantando o refrão com alegria, ainda que sua letra fizesse alguns pensar –, visto que uma pequena parte da breve noite já se passara, depois de outras pequenas carolas quis a rainha dar fim à primeira jornada; e, acesas as tochas, ordenou que cada um fosse repousar até a manhã seguinte; e assim se fez, voltando cada um a seu aposento.

Termina a primeira jornada do Decameron.