Estilo
Há muitas coisas a ponderar, logo de início, sobre os monstrengos à espreita do escritor que tenta colocar de pé um texto bem escrito.
Você poderia perguntar: “Mas, se eu eliminar tudo o que você acha excessivo e enxugar todas as frases até deixá-las no osso, sobrará alguma coisa de mim mesmo no texto?”. É uma pergunta pertinente. Se levada ao extremo, a simplicidade pode resultar em um estilo tão sofisticado quanto o das frases: “João gosta de Maria” e “Veja o Totó correndo”.
Vou responder a ela, primeiramente, no que diz respeito à carpintaria do texto. Em seguida, passarei para a questão mais ampla sobre quem é o escritor e como preservar a sua identidade.
Poucas pessoas se dão conta de como escrevem mal. Ninguém nunca lhes mostrou a quantidade de excessos ou a falta de clareza que se alastram por seu estilo e quanto isso atrapalha o entendimento daquilo que elas querem dizer. Se você me der um texto com oito páginas, eu lhe direi para cortá-lo para quatro páginas. Você vai reclamar dizendo que é impossível. Então irá para casa, fará os cortes, e o texto ficará bem melhor. Depois é que vem a parte mais difícil: cortar para três páginas.
A questão é que você precisa enxugar o texto antes mesmo de poder reconstruí-lo. Você precisa saber quais são as ferramentas essenciais e qual a função de cada uma delas. Ainda conforme a metáfora da carpintaria, é necessário primeiro saber serrar a madeira corretamente e martelar pregos. Depois disso você pode alinhar as pontas ou acrescentar florões refinados, se for do seu gosto. Mas nunca se esqueça de que você está praticando um ofício que se baseia em certos princípios. Se os pregos forem fracos, a sua casa vai cair. Se o seu verbo for fraco e a sua sintaxe não tiver firmeza, suas frases despencarão.
Devo admitir que alguns autores de não ficção, como Tom Wolfe e Norman Mailer, construíram casas notáveis. Mas esses são escritores que levaram anos praticando o seu ofício e quando, ao final, ergueram as suas torres fantásticas e seus jardins suspensos, para a surpresa de todos nós, que nunca havíamos sonhado com tais ornamentações, eles sabiam muito bem o que estavam fazendo. Ninguém vira um Tom Wolfe da noite para o dia, nem mesmo o próprio Tom Wolfe.
Primeiro, portanto, aprenda a martelar pregos e, se o que você construir for firme e útil, poderá sentir-se plenamente satisfeito.
Mas você vai querer descobrir um “estilo” — embelezar as palavras simples de forma que os leitores o identifiquem como alguém especial. Você irá atrás de sinônimos mais chamativos e de adjetivos floreados, como se “estilo” fosse algo que se pudesse comprar em uma loja para depois enfeitar suas palavras com cores brilhantes e decorativas. (Cores decorativas são as que os decoradores gostam de usar.) Não existem lojas de estilo; estilo é algo inerente à pessoa que está escrevendo, é uma parte constitutiva dessa pessoa, como o cabelo ou, no caso de um careca, a falta dele. Tentar adicionar um estilo é como colocar uma peruca. À primeira vista, o então ex-careca parece mais jovem e até mesmo bonito. Mas, olhando novamente — e, no caso de uma peruca, lança-se sempre uma segunda olhadela —, ele não parece muito bem. A questão não é que não pareça bem penteado; até parece, mas passamos a admirar apenas a técnica do fabricante de perucas. A questão é que não parece ser ele mesmo.
Esse é o problema com escritores que tentam deliberadamente enfeitar demais o texto. Você perde tudo aquilo que o torna único. O leitor vai perceber que está querendo se exibir. Os leitores querem que a pessoa que está se dirigindo a eles seja autêntica. Assim, uma regra fundamental é a seguinte: seja você mesmo.
Porém, não há regra mais difícil de seguir do que essa. Ela exige que os escritores façam duas coisas incompatíveis com o seu próprio metabolismo. Eles precisam relaxar e ter confiança.
Dizer para um escritor relaxar é o mesmo que dizer para um homem relaxar enquanto está sendo examinado por causa de uma hérnia. Quanto à confiança, veja só a rigidez com que ele se senta, olhando para a tela que aguarda as suas palavras. Veja quantas vezes ele se levanta para pegar alguma coisa para beber ou comer. Um escritor faz qualquer coisa para evitar o ato de escrever. Por experiência própria como jornalista, posso assegurar que o número de vezes que cada repórter vai, por hora, ao bebedouro ultrapassa de longe a necessidade de água que seu corpo tem.
O que pode ser feito para livrar o escritor desses sofrimentos? Infelizmente, nenhuma cura foi descoberta. Posso oferecer apenas, como consolação, a ideia de que você não está sozinho. Alguns dias serão melhores do que outros. Alguns serão tão ruins que você perderá qualquer esperança de um dia voltar a escrever. Todos nós já passamos por momentos assim e passaremos por muitos outros.
No entanto, seria bom tentar reduzir os dias ruins ao mínimo, o que me leva de volta à questão do relaxamento.
Suponha que você seja o escritor que se senta para trabalhar. Você deduz que o seu texto precisa ter certo tamanho, caso contrário não parecerá importante. Imagina como ele ficará garboso quando impresso. Pensa na quantidade de pessoas que o lerão. Considera que ele precisa ter o peso e a solidez da autoridade. Decide que o seu estilo precisará deslumbrar as pessoas. Não admira que você se veja travado; está tão ocupado pensando na sua tão espetacular responsabilidade pelo texto final que não consegue nem sequer começá-lo. Mesmo assim, você se julga digno da tarefa e, indo em busca de frases imponentes que não lhe ocorreriam se não estivesse querendo impressionar tanto, mergulha no trabalho.
O primeiro parágrafo é um desastre — uma reunião de generalidades que parecem ter saído de uma máquina. Nenhuma pessoa poderia ter escrito isso. O segundo parágrafo não sai muito melhor. Mas o terceiro começa a apresentar algo parecido a uma qualidade humana, e lá pelo quarto parágrafo a sua voz começa a soar no texto. Você começou a relaxar. É incrível a frequência com que um editor pode descartar os primeiros três ou quatro parágrafos de um artigo, ou até mesmo as primeiras páginas, e começar com o parágrafo em que o texto passa a soar com a voz do autor. Aqueles primeiros parágrafos não são apenas impessoais e rebuscados; eles não dizem nada — não passam de uma tentativa canhestra de fazer um prólogo fantástico. O que sempre procuro, como editor, é uma frase que diga algo como “Nunca esqueci o dia em que eu...”. Então penso: “Ah, eis finalmente uma pessoa!”.
Os escritores, obviamente, mostram-se com maior naturalidade quando escrevem na primeira pessoa. A escrita é uma relação íntima entre duas pessoas levada ao papel e ela será tão boa quanto a sua capacidade de preservar a sua humanidade. Por isso, estimulo a escrita na primeira pessoa: o uso de “eu” e “mim”, e “nós” e “nosso”. É uma luta.
“Quem sou eu para dizer o que penso?”, perguntam. “Ou o que sinto?”
“Quem é você para não dizer o que sente?”, eu respondo. “Só existe uma pessoa como você. Ninguém mais pensa ou sente exatamente da mesma maneira.”
“Mas ninguém liga para as minhas opiniões”, dizem. “Eu me sentiria exposto.”
“As pessoas ligarão se você lhes disser alguma coisa interessante”, eu digo, “e faça isso com palavras que lhe venham naturalmente”.
Seja como for, fazer escritores usarem o “eu” não é nada fácil. Eles acham que precisam antes conquistar o direito de expor as suas emoções ou ideias. Ou então que isso é egoísmo. Ou algo não muito digno — um medo que aflige o mundo acadêmico. Daí o uso professoral do “alguém” (“Alguém que não estava totalmente de acordo com a visão do dr. Maltby sobre a condição humana”) ou do impessoal “nós” (“Esperamos que a monografia do professor Felt encontre o amplo público que ela realmente merece”). Eu não quero me encontrar com “alguém” — deve ser um cara bem chato. O que eu quero é que um professor apaixonado pelo seu tema me diga por que isso fascina tanto a ele.
Entendo que há vários tipos de texto em que o “eu” não é admitido. Os jornais não querem o “eu” nos textos noticiosos; muitas revistas não o querem em seus artigos; o mundo dos negócios e as instituições não o querem nos relatórios que enviam tão profusamente para os lares americanos; faculdades não querem o “eu” nos trabalhos de fim de semestre ou nas dissertações, e os professores de inglês desencorajam todo e qualquer pronome da primeira pessoa que não seja o literário “nós” (“Notamos no uso simbólico que Melville faz da baleia branca...”). Muitas dessas proibições são válidas. Também tenho simpatia pelos professores que não querem dar aos seus alunos uma válvula de escape fácil para a sua opinião — “Eu acho que Hamlet era um estúpido”— antes de eles terem se defrontado com a disciplina de avaliar um trabalho a partir dos seus méritos e com fontes externas. O “eu” pode ser uma autoindulgência e uma forma de tirar o corpo fora.
No entanto, temos medo de revelar quem somos. As instituições que pedem o nosso apoio enviando-nos seus folhetos parecem todas iguais — hospitais, escolas, bibliotecas, museus, jardins zoológicos — embora tenham sido fundadas e ainda sejam mantidas por homens e mulheres com sonhos e visões diferentes uns dos outros. Onde estão essas pessoas? É difícil detectá-las em meio a todos esses textos impessoais na voz passiva que dizem “iniciativas foram adotadas” e “prioridades foram estabelecidas”.
Mesmo onde o “eu” não é admitido ainda é possível criar um tom pessoal. O colunista político James Reston não usava “eu” nas suas colunas, mas eu podia ter uma boa ideia do tipo de pessoa que ele era, e era capaz de dizer o mesmo de muitos outros ensaístas e repórteres. Os bons escritores são visíveis por trás de suas palavras. Se você não puder usar o “eu”, pelo menos pense com o “eu” enquanto escreve, ou então escreva o primeiro rascunho na primeira pessoa e depois retire o “eu”. Isso dará uma temperatura específica ao seu estilo impessoal.
O estilo está ligado ao psíquico, e escrever é algo que possui profundas raízes psicológicas. As razões pelas quais nos expressamos desta ou daquela maneira ou falhamos na tentativa de nos expressarmos por causa do “bloqueio da página em branco” encontram-se parcialmente em nosso subconsciente. Há tantos tipos de bloqueio quantos são os tipos de escritores, e não pretendo desvendá-los. Este é um livro curto, e eu não me chamo Sigmund Freud.
Notei, porém, a existência de um novo motivo para evitar o “eu”: os americanos não querem assumir posições. Na geração passada, nossos dirigentes nos diziam onde se situavam e em que acreditavam. Hoje, eles realizam manobras verbais incríveis para escapar dessa necessidade. Basta ver como se contorcem nas entrevistas de televisão para evitar qualquer comprometimento. Eu me lembro de o presidente [Gerald] Ford garantir a um grupo de empresários que sua política fiscal daria certo. Ele disse: “Tudo o que vemos à frente são nuvens, mês após mês, cada vez mais claras”. Para mim isso sugere que as nuvens ainda estavam bastante escuras. Mas a frase de Ford é vaga o bastante para não dizer nada e, ao mesmo tempo, acalmar seus eleitores.
A situação não melhorou muito nos governos mais recentes. Ao comentar a crise política na Polônia, em 1984, o secretário de Defesa [dos eua], Caspar Weinberger, disse: “Permanecem os motivos para sérias preocupações, e a situação continua muito séria. E, quanto mais ela continua a ser séria, mais motivos haverá para estarmos seriamente preocupados”. O primeiro presidente Bush, ao ser questionado a respeito de sua posição sobre os fuzis de assalto, disse: “Muitos grupos acham que você pode proibir alguns tipos de arma. Não vejo dessa maneira. O que eu sinto é uma profunda preocupação com isso”.
Porém, para mim, o maior campeão de todos os tempos é Elliot Richardson, que ocupou quatro cargos importantes nos anos 1970.2 É difícil saber por onde começar a retirar exemplos de seu imenso tesouro de declarações ambíguas, mas veja só esta: “No fim das contas, a ação afirmativa, por ora, tem sido, eu acho, um sucesso relativo”. Uma frase de dezesseis palavras com três modalizações. Atribuo a ela a medalha de ouro da frase mais escorregadia do discurso público moderno, embora possa rivalizar com a análise que Richardson fez de como diminuir o tédio reinante entre os trabalhadores da linha de montagem: “Então, por fim, chego à firme convicção que mencionei no início: esse é um tema ainda muito novo para emitirmos um julgamento definitivo”.
É isso uma firme convicção? Dirigentes que ficam gingando para lá e para cá, como boxeadores idosos, não inspiram confiança — ou não a merecem. O mesmo vale para escritores. Se você for você mesmo, o assunto de que tratar exercerá o seu próprio poder de atração. Acredite na sua própria identidade e em suas opiniões. Escrever é uma atividade do ego, e você precisa aceitar o seu. Use a energia dele para seguir em frente.
2. No governo Richard Nixon, secretário da Saúde, Educação e Bem-Estar Social, secretário de Defesa e procurador-geral. No governo Gerald Ford, secretário do Comércio. (n.t.)