• Ivan Milazzotti
    Como escrever bem
    17-07-2025 19:15:01
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Excessos

Lutar contra o excesso é como lutar contra as ervas daninhas — o escritor fica sempre um pouco para trás. Novas variedades brotam durante a noite e, ao meio-dia, já fazem parte do discurso americano. Pense no que John Dean, assessor do presidente Richard Nixon, conseguiu fazer em apenas um dia de depoimentos na televisão durante as audiências do caso Watergate. No dia seguinte, todo mundo nos Estados Unidos estava dizendo “no atual momento” em vez de “agora”.

Pense em tudo aquilo que acrescentamos aos verbos que não precisam de nenhuma ajuda. Não dirigimos um comitê. Nós estamos na direção de um comitê. Não enfrentamos mais os problemas. Nós encaramos de frente os problemas.

Você poderia dizer que é um detalhe que não merece a nossa preocupação. Ao contrário: precisamos nos preocupar com isso. Escrever é algo diretamente proporcional ao número de coisas que não deveriam estar presentes e poderiam ser retiradas do texto. O “algum” antes de “tempo livre” não deveria estar ali. Observe cada palavra que coloca no papel. Você encontrará uma quantidade surpreendente delas que não serve para nada.

Pegue os adjetivos “pessoal” e “particular”, como em “um amigo pessoal meu”, “seu sentimento pessoal” ou “seu médico particular”. São casos típicos de palavras que podem ser eliminadas. Há centenas como essas. O amigo pessoal se introduziu em nosso linguajar para diferenciar este do amigo de trabalho, adulterando, assim, tanto a linguagem quanto a amizade. O sentimento de alguém é o sentimento pessoal dessa pessoa — é isso o que “seu” significa. Quanto ao médico particular, é um homem ou uma mulher chamado para o camarim de uma atriz que passa mal e que não precisa, dessa forma, ser atendida por um médico qualquer, indicado pelo teatro. Um dia eu ainda gostaria de ver essa pessoa identificada como “o seu médico”. Médicos são médicos, amigos são amigos. O restante é excesso.

Excesso é a frase elaborada que expulsou a palavra curta que dizia a mesma coisa. Antes de John Dean, as pessoas e o mundo dos negócios já tinham parado de dizer “agora”. Eles diziam “no momento” (“Todos os nossos operadores estão ocupados no momento”), ou “atualmente” (“Atualmente, estou trabalhando na Bolsa de Valores”). No entanto, “agora” pode ser sempre usado para expressar essa ideia de momento imediato (“Agora eu posso vê-lo”), assim como “hoje” para expressar o presente histórico (“Os preços subiram hoje”), ou simplesmente o verbo “estar” (“Está chovendo”), em vez de dizer, desnecessariamente, “no atual momento estamos enfrentando alguma precipitação atmosférica”.

“Experimentando” é um dos piores excessos. Até mesmo o seu dentista vai perguntar-lhe se você está experimentando alguma dor. Se quem estivesse na cadeira fosse o próprio filho dele, ele perguntaria: “Dói?”. Em resumo, ele falaria com naturalidade. Ao usar uma frase mais pomposa em sua atuação profissional, ele parece não apenas afetar ter mais importância, mas também mitigar a dolorosa verdade. É a mesma linguagem da aeromoça ao demonstrar como funciona a máscara de oxigênio que deve cair caso diminua a pressão da cabine do avião. “Em caso de uma eventual despressurização da aeronave, máscaras de ar cairão automaticamente”, começa ela — uma frase que por si só suga tanto do nosso oxigênio que já ficamos preparados para qualquer desastre.

Excesso é o poderoso eufemismo que transforma um bairro pobre em uma “área socioeconômica deprimida”, lixeiros em “pessoas que coletam lixo” e lixão em “unidade de reciclagem”. Penso em uma charge de Bill Mauldin em que dois vagabundos conduzem um vagão de carga. Um deles diz: “Comecei como simples vagabundo e agora virei um desempregado profissional”. O excesso é o politicamente correto em estado enfurecido. Vi uma publicidade de um acampamento para meninos em que se prometia “dedicar atenção particular a tudo o que seja minimamente extraordinário”.

Excesso é a linguagem oficial usada pelas corporações para ocultar seus erros. Quando a Digital Equipment Corporation fechou 3 mil postos de trabalho, seu comunicado não falou em demissões; mencionou-se apenas que se tratava de “metodologias involuntárias”. Quando um míssil da Força Aérea caiu, ele “se chocou com o solo prematuramente”. Quando uma fábrica da General Motors parou, o que houve foi “um ajuste no cronograma relacionado ao volume de produção”. Empresas que faliram tiveram “uma posição negativa de fluxo de caixa”.

Excesso é a linguagem usada pelo Pentágono ao chamar uma invasão de “ataque reforçado de reação protetora” e ao justificar a enormidade de seu orçamento alegando a necessidade de uma “coibição das forças inimigas”. Como afirmou George Orwell em “A política e a língua inglesa”, ensaio escrito em 1946, mas citado frequentemente durante as guerras do Camboja, do Vietnã e do Iraque, “os discursos e textos políticos são em grande parte uma defesa do indefensável [...]. Assim, o linguajar político tem de ser formado amplamente por eufemismos, falácias e meras imprecisões nebulosas”. O alerta de Orwell de que o excesso não é apenas algo inconveniente mas também um instrumento mortal se mostrou verdadeiro nas últimas décadas de aventureirismo militar dos Estados Unidos. Foi durante o governo de George W. Bush que as vítimas civis no Iraque transformaram-se em “danos colaterais”.

A camuflagem verbal atingiu novas alturas durante o mandato do general Alexander Haig como secretário de Estado do presidente Ronald Reagan. Antes de Haig, ninguém havia pensado em dizer “nesta conjunção de amadurecimentos” quando queria dizer “agora”. Ele afirmou aos americanos que o terrorismo podia ser combatido com uma “garra punitiva expressiva” e que o uso dos mísseis nucleares intermediários estava “no turbilhão da crucialidade”. Com relação às preocupações que a população pudesse alimentar, sua mensagem foi “deixa comigo”, embora o que ele realmente disse tenha sido: “Precisamos levar a atenção do público quanto a isso a um nível de decibéis mais baixo. Não acredito que haja uma espécie de curva de conhecimento a ser traçada nessa área de conteúdo”.

Poderia continuar citando exemplos de diferentes campos — toda profissão tem o seu arsenal sempre crescente de jargões para jogar poeira nos olhos do populacho. Mas a lista seria entediante. Meu objetivo ao destacar esse ponto é demonstrar que o excesso é o inimigo. Portanto, tome cuidado. Uma palavra comprida nunca é melhor do que uma curta: “assistência” (ajuda), “inúmeros” (muitos), “facilitação” (ajuda), “indivíduo” (homem ou mulher), “restante” (resto), “inaugural” (inicial), “implemente” (faça), “somente” (só), “intente” (tente), “conhecido como” (chamado), entre centenas de outros exemplos. Tome cuidado com essas escorregadias palavras da moda: paradigma e parâmetro, priorizar e potencializar. São ervas daninhas que vão asfixiar aquilo que você escreve. Não dialogue com uma pessoa com quem você pode falar. Não crie uma interface com ninguém.

Tão insidiosas quanto elas são as junções de palavras com que tentamos explicar como nos propomos a avançar em nossas explanações: “Devo acrescentar que”, “vale a pena destacar que”, “é interessante observar que”. Se você deveria acrescentar, acrescente. Se algo deveria ser destacado, destaque. Se é interessante observar isso ou aquilo, torne isso ou aquilo interessante. É comum ficarmos pasmos com o que acontece quando alguém diz: “Será que isso interessa a você?”. Não infle aquilo que não precisa ser inflado: “com a possível exceção de” (exceto), “devido ao fato de que” (porque), “perdeu totalmente a habilidade para” (não conseguiu), “até o momento em que” (até), “com o propósito de” (para).

Existe alguma maneira de perceber de imediato quando há excesso? Há um recurso que meus alunos de Yale achavam de grande utilidade. Eu colocava entre colchetes todos os elementos de um texto que não cumpriam nenhuma função. Muitas vezes apenas uma palavra era assinalada: a dispensável preposição ligada a um verbo (“fazer com que”), ou um advérbio que possui o mesmo sentido que o verbo (“sorriu alegremente”), ou um adjetivo que declara um fato já presumido (“alto arranha-céu”). Meus colchetes destacavam muitas vezes pequenos qualificativos que enfraquecem qualquer frase em que apareçam (“um pouco de”, “uma espécie de”), ou expressões como “em um certo sentido”, que não querem dizer nada. Às vezes os meus colchetes destacavam um período inteiro — que repetia essencialmente o que o período anterior já havia dito ou que dizia algo que os leitores não precisavam saber ou que podiam deduzir por conta própria. A maioria dos rascunhos iniciais pode ser cortada em 50% sem que se perca nenhuma informação e sem prejudicar a voz do autor.

O motivo pelo qual eu colocava as palavras supérfluas de meus alunos entre colchetes em vez de riscá-las era evitar a violação de sua prosa sagrada. Eu queria deixar as frases deles intactas, para que pudessem analisá-las. Eu dizia: “Posso estar enganado, mas acredito que isso possa ser descartado sem afetar o conteúdo. Mas é você quem decide. Leia a frase sem o que está entre colchetes e veja se funciona”. Nas primeiras semanas do semestre, eu lhes devolvia textos infestados de colchetes. Parágrafos inteiros ficavam entre colchetes. Logo os alunos aprenderam a colocar colchetes mentais em seus próprios excessos, e ao final do semestre seus textos ficavam quase limpos. Muitos desses alunos são hoje escritores profissionais e me dizem: “Ainda vejo os seus colchetes — eles me perseguem o tempo todo”.

Você mesmo pode desenvolver esse olhar. Procure detectar todos os excessos no seu texto e corte-os sem dó. Agradeça sempre que puder jogar algo fora. Releia cada frase que colocou no papel. Todas as palavras cumprem alguma função? Este ou aquele pensamento não poderia ser expresso com menos palavras? Há alguma coisa pomposa, pretensiosa ou “da moda”? Está mantendo algum elemento inútil só porque o acha bonito?

Simplifique, simplifique.