• Ivan Milazzotti
    Como escrever bem
    17-07-2025 19:15:01
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    30

Escrever histórias de família e memórias

Uma das frases mais tristes que eu conheço é “eu gostaria de ter perguntado à minha mãe sobre isso”. Ou ao meu pai. Ou à minha avó. Ou ao meu avô. Como todos os pais sabem, nossos filhos não são tão fascinados como nós por nossa vida fascinante. Somente quando se tornam pais — e encaram os primeiros sinais do seu próprio envelhecimento — é que subitamente começam a querer saber mais sobre sua herança familiar e sua coleção de histórias e tradições. “Como eram exatamente aquelas histórias que meu pai costumava contar sobre sua vinda para os eua?” “Onde ficava exatamente aquela fazenda no Meio-Oeste onde minha mãe cresceu?”

Escritores são os guardiães da memória, e é disso que trata este capítulo: como deixar algum tipo de registro de sua vida e da família em que você nasceu. Esse registro pode adquirir diversas formas. Podem ser memórias formais — um gesto cuidadoso de construção literária. Mas pode ser também uma história familiar informal, escrita para contar aos seus filhos e netos coisas sobre a família em que eles nasceram. Pode ser uma história oral que você registra gravando depoimentos de um pai ou de um avô idoso demais ou frágil demais para escrever. Ou ainda qualquer coisa que você queira que tenha este significado: algo que misture história com reminiscências. Seja como for, trata-se de um tipo importante de escrita. Memórias costumam morrer junto com seus donos, e o tempo muitas vezes nos pega de surpresa com a pressa com que se esvai.

Meu pai, um homem de negócios sem pretensões literárias, escreveu duas histórias familiares em sua velhice. Era uma empreitada perfeita para um homem sem talento se divertir sozinho. Sentado em sua poltrona favorita, de couro verde, em um apartamento localizado na parte de cima na Park Avenue, ele escreveu uma história sobre o seu lado da família — os Zinsser e os Scharmann —, recuando até a Alemanha do século 19. Depois, escreveu uma história sobre a loja de verniz da família, na rua 59 Oeste, fundada pelo seu avô em 1849. Fez tudo a lápis, em um bloco amarelo, sem parar para reescrever — nem no momento em que anotava, nem depois. Não tinha paciência para fazer nada que o obrigasse a repensar ou a agir mais lentamente. No campo de golfe, quando caminhava a passos largos em direção à bola, ele já avaliava o que fazer, sacava o taco e, sem se deter, fazia a jogada.

Depois de escrever suas histórias, meu pai mandou datilografá-las, mimeografá-las e encaderná-las com uma capa de plástico. Deu uma cópia com uma dedicatória pessoal a cada uma das três filhas, aos maridos, a mim, à minha mulher e aos seus quinze netos, alguns dos quais ainda nem sabiam ler. Gosto da ideia de que cada um tenha recebido a sua cópia; isso expressava o reconhecimento de cada um como participante da saga familiar. Não tenho ideia de quantos desses netos gastaram algum tempo com essas histórias. Mas aposto que pelo menos alguns se decidiram a isso e gosto de pensar que aquelas quinze cópias estão hoje bem guardadas na casa deles, entre o Maine e a Califórnia, à espera da próxima geração.

O que meu pai fez é, para mim, um modelo de produção de uma história familiar que não aspira a ser nada além disso; jamais lhe ocorreria a ideia de ver o texto publicado. Há muitas razões para escrever que não têm nada a ver com ser publicado. Escrever é um poderoso mecanismo de busca, e uma de suas satisfações é fazer um acerto de contas com a história da própria vida. Outra é digerir os golpes mais duros — perdas, dores, doenças, vícios, decepções, fracassos — e chegar a algum tipo de compreensão e apaziguamento.

As duas histórias contadas por meu pai foram ganhando minha admiração gradualmente. Acredito que, de início, fui mais reticente do que deveria em relação a elas; provavelmente via com certo menosprezo a facilidade com que ele encarara um processo que para mim era extremamente árduo. Ao longo dos anos, porém, flagrei-me em vários momentos mergulhando nelas para me lembrar de algum parente morto havia tempos ou me certificar de algum elemento geográfico da Nova York de antigamente, e a cada leitura eu gostava mais do texto.

Acima de tudo está a questão da voz. Não sendo escritor, meu pai não tinha nenhuma preocupação de encontrar o seu “estilo”. Simplesmente escrevia da mesma maneira como falava, e agora, ao reler seus textos, é como se eu “ouvisse” a sua personalidade e o seu humor, seus usos e suas expressões, muitas delas ecoando o tempo em que esteve na faculdade, no começo dos anos 1900. É como se eu ouvisse também a sua franqueza. Ele não era sentimental no que dizia respeito a laços sanguíneos, e acho graça nas avaliações lapidares que faz do tio X, “de segunda classe”, ou do primo Y, “que nunca valeu muita coisa”.

Lembre-se disso quando escrever a história da sua própria família. Não procure ser um “escritor”. Ocorre-me, agora, que meu pai era um escritor mais natural do que eu, que sempre estou mexendo e remexendo nos textos. Seja você mesmo e os seus leitores o seguirão aonde for. Tente cometer um ato de escrita e seus leitores pularão do barco para escapar. O seu produto é você. A negociação essencial em textos de memórias ou histórias pessoais é aquela que ocorre entre você e as experiências e emoções que lhe vêm à lembrança.

Em sua história familiar, meu pai não se esquivou do principal trauma da sua infância: o fim abrupto do casamento de seus pais quando ele e seu irmão Rudolph ainda eram pequenos. A mãe deles era filha de um imigrante alemão, um self-made man chamado H. B. Scharmann, que, em plena corrida do ouro, chegou adolescente à Califórnia em uma carroça coberta, após ter perdido a mãe e a irmã durante o trajeto. Frida Scharmann herdou o orgulho e a ambição irredutíveis do pai e, quando se casou com William Zinsser, um jovem promissor que integrava o seu círculo de amigos germano-americanos, viu nele uma resposta às suas aspirações culturais. Eles passariam as noites indo a concertos, à ópera e promovendo reuniões musicais. Mas, com o tempo, o marido promissor acabou demonstrando que não tinha tais anseios. Preferia ficar dormindo em sua poltrona depois do jantar.

Quanto foi amarga essa lassidão do marido para a jovem Frida Zinsser eu posso imaginar por tê-la conhecido já madura, sempre frequentando o Carnegie Hall, tocando Beethoven e Brahms ao piano, viajando para a Europa e estudando línguas estrangeiras, estimulando meu pai, minhas irmãs e a mim mesmo a nos aprimorarmos culturalmente. Seu ímpeto de realizar os sonhos frustrados de seu casamento nunca vacilou. Mas ela tinha também aquela tendência alemã de dar bronca em todos à sua volta e acabou morrendo solitária aos 81 anos de idade, depois de afastar de si todos os seus amigos.

Escrevi uma vez a respeito dela, muitos anos atrás, em um texto de memórias para um livro intitulado Five Boyhoods [Cinco infâncias]. Descrevendo a avó que conheci quando menino, elogiei a sua força, mas também observei que a presença dela era algo complicado em nossa vida. Quando o livro foi publicado, minha mãe defendeu a sogra, que não tinha facilitado nem um pouco a vida dela. “A vovó era na verdade muito tímida”, disse ela, “e queria ser amada”. Pode ser; a verdade está em algum lugar entre a minha versão e a de minha mãe. Mas, para mim, minha avó era daquele jeito. Era a verdade tal como eu a recordava, e foi assim que a escrevi.

Se menciono esse caso, é porque uma das perguntas mais frequentes que os autores de memórias se fazem é: devo escrever a partir do ponto de vista da criança que eu era ou do adulto que sou agora? As memórias mais poderosas, acredito, são as que preservam a unidade de um tempo e lugar relembrados: livros como Growing Up, de Russell Baker, A Cab at the Door, de V. S. Pritchett, ou The Road From Coorain [A estrada de Coorain], de Jill Ker Conway, evocam como era ser uma criança ou um adolescente em um mundo de adultos obrigados a lutar contra as adversidades da vida.

Mas, se você prefere o outro caminho — escrever sobre os seus anos iniciais a partir da perspectiva mais sábia da maturidade —, suas memórias não serão menos íntegras por causa disso. Um bom exemplo é Poets in Their Youth [Poetas na juventude], em que Eileen Simpson rememora os anos iniciais de sua vida com o primeiro marido, John Berryman, e seus famosos colegas poetas autodestrutivos, entre os quais Robert Lowell e Delmore Schwartz, cujos demônios ela, ainda noiva, era jovem demais para entender. Ao revisitar esse período em suas memórias, já como uma mulher mais velha, psicoterapeuta e escritora, ela usou seu conhecimento clínico para criar um retrato precioso de uma das maiores escolas poéticas dos eua. Mas são, de todo modo, dois tipos de escrita. E você deve escolher um deles.

A história familiar escrita por meu pai trouxe-me detalhes sobre o casamento de sua mãe que eu não conhecia quando redigi as minhas próprias memórias. Agora, conhecendo esses fatos, posso compreender as sucessivas decepções que fizeram com que ela se tornasse a mulher que se tornou, e, se hoje eu tivesse de voltar a falar da saga de minha família, acrescentaria o combate sem fim contra as suas tormentas e tensões germânicas. (A família de minha mãe, formada por ianques da Nova Inglaterra — Knowltons e Joyces —, administrou a sua vida sem grandes dramas.) Eu acrescentaria também o lamento sem fim pelo enorme vazio bem no centro da história do meu pai. Em seus dois textos, as menções ao pai dele são raras, e o perdão, inexistente. Toda a sua simpatia se volta àquela angustiada jovem divorciada que era a sua mãe e à sua permanente firmeza de caráter.

No entanto, algumas das qualidades mais cativantes do meu pai — o charme, o humor, a vivacidade, os olhos incrivelmente azuis — devem ter vindo do lado dos Zinsser, não dos taciturnos Scharmann e seus olhos castanhos. Sempre me senti carente de mais dados sobre esse avô desaparecido. Sempre que perguntava sobre isso ao meu pai ele mudava de assunto e não tinha histórias para contar. Ao escrever a sua história familiar, memorize com o espírito aberto e guarde tudo aquilo que seus descendentes possam querer saber.

Isso me leva a outra pergunta que os autores de memórias se fazem: como fica a questão da privacidade das pessoas sobre as quais escrevo? Devo revelar coisas que possam ofender ou ferir os meus familiares? O que minha irmã pensará disso ou daquilo?

Não se preocupe com esse problema antecipadamente. Sua primeira tarefa é registrar a sua história tal como você a recorda hoje. Não olhe para trás para ver se os seus parentes estão lendo por cima dos seus ombros. Conte o que tiver vontade de contar, de forma livre e sincera, até o fim. Só então pense na questão da privacidade. Se você escreveu a história da sua família apenas para a sua própria família, não há nenhuma necessidade legal ou ética de mostrá-la a qualquer outra pessoa. Mas, se você tem em mente um público mais amplo — se pensa em distribuir para alguns amigos ou mesmo transformar em livro —, é recomendável mostrar aos seus familiares os trechos em que eles são mencionados. Trata-se de uma gentileza elementar; ninguém gosta de ser surpreendido por um texto já impresso. Isso também lhes dará tempo para lhe pedir a retirada de certas passagens — pedido que você pode acatar ou não.

Por fim, trata-se de um texto seu — foi você quem fez todo o trabalho. Se sua irmã vê nele algum problema, ela pode escrever as suas próprias memórias, que serão tão válidas quanto as suas; ninguém detém o monopólio de um passado comum. Alguns parentes dirão que você não deveria ter escrito certas coisas, principalmente se tiver exposto características não exatamente elogiáveis da família. Mas acredito que, em um nível mais profundo, a maioria das famílias quer deixar um registro de seus esforços para constituir justamente uma família, por mais imperfeitos que esses esforços possam ter sido, e seus parentes verão com bons olhos e lhe agradecerão por você ter feito esse trabalho. Isso, se você o fizer honestamente e não com motivações impróprias.

Quais seriam essas motivações impróprias? Permita-me voltar à febre das memórias nos anos 1990. Até então, os autores de memórias encobriam com um véu as suas experiências e pensamentos mais escandalosos; certa polidez era algo ainda consensualmente aceito. Surgiram, então, os talk shows, e o pudor saiu de cena. De repente, nenhum episódio rememorado era tão sórdido, nenhuma família era tão disfuncional que não pudessem ser expostos à excitação das massas por meio de tv a cabo, revistas e livros. O resultado foi uma avalanche de textos de memórias, muitos deles apenas terapêuticos, com seus autores usando o gênero para chafurdar em revelações pessoais e na autocompaixão e para atacar todos aqueles que alguma vez lhes tivessem feito algum mal na vida. Não se tratava de escrever, mas de se lamuriar.

Mas ninguém hoje em dia se lembra desses livros; os leitores não se apegam a lamentações. Não use as suas memórias para remoer velhas queixas e fazer acertos de contas; descarregue esse rancor em outro lugar. As memórias publicadas nos anos 1990 de que nos lembramos hoje são aquelas que foram escritas com amor e senso do perdão, como The Liar’s Club, de Mary Karr, As cinzas de Angela, de Frank McCourt, A vida deste rapaz, de Tobias Wolff, e A Drinking Life, de Pete Hamill. Embora a infância que eles descrevem tenha sido dolorida, esses autores eram tão fortes interiormente quando jovens como são hoje na idade adulta. Não somos vítimas — é isso que eles querem que saibamos. Viemos de um grupo de pessoas falíveis e sobrevivemos sem ressentimentos para seguir adiante em nossa vida. Para eles, escrever suas memórias se tornou um ato de cura.

Isso pode ser um ato de cura para você também. Se você souber olhar para o seu próprio lado humano e para o lado humano das pessoas com quem cruzou ao longo da vida, seja qual for o tamanho da dor que elas lhe impuseram ou que você impôs a elas, os leitores se apegarão à sua história.

Chegamos, agora, à parte mais difícil: como organizar essa coisa toda. A maioria das pessoas que começam a escrever memórias se assusta e fica paralisada diante da dimensão da tarefa. O que colocar? O que deixar de fora? Por onde começar? Onde parar? Como dar uma forma à história? O passado chega a elas em milhares de fragmentos, criando o desafio de estabelecer algum tipo de ordem no conjunto. Por causa dessa ansiedade, muitas memórias permanecem durante anos escritas apenas pela metade, ou simplesmente deixam de ser escritas.

O que pode ser feito?

Você deve tomar uma série de decisões de redução do conteúdo. Por exemplo: em uma história familiar, uma decisão importante será escrever sobre apenas um dos ramos da família. As famílias são organismos complexos, especialmente se você considera sua trajetória voltando várias gerações. Opte por escrever sobre o lado materno da família, ou o paterno, mas não sobre os dois. Retome o outro lado mais adiante, como um projeto separado.

Lembre-se de que, nas suas memórias, o protagonista — o guia turístico — é você. Você precisa encontrar um esquema narrativo para a história que pretende contar e não abrir mão do controle. Isso significa deixar de fora das suas memórias muitas pessoas que não precisam estar ali. Como irmãos e irmãs.

Um dos meus alunos em um curso sobre memórias era uma mulher que queria escrever sobre a casa em que havia crescido, em Michigan. Sua mãe tinha falecido, a casa acabara de ser vendida, e ela, seu pai e seus dez irmãos teriam ali uma reunião para decidir o que fazer com os objetos. Escrever sobre essa tarefa, ela pensou, a ajudaria a entender a sua infância no interior daquela grande família católica. Eu concordei com isso — era um quadro perfeito para escrever memórias — e perguntei como ela pretendia fazer.

Ela disse que começaria entrevistando o pai e todos os seus irmãos, para conhecer a lembrança que eles tinham da casa. Perguntei-lhe se a história que ela queria escrever era a história deles. Não, ela respondeu; era a história dela. Nesse caso, eu disse, entrevistar todos esses irmãos seria uma total perda de tempo e de energia. Só então ela começou a vislumbrar a forma mais apropriada para a sua história e a preparar a sua própria cabeça para confrontar a casa e suas lembranças. Poupei-lhe centenas de horas de entrevistas, transcrições e tentativas de encaixar tudo em suas memórias, sendo que nada disso pertencia a elas. Trata-se da sua história. Você precisa entrevistar apenas os parentes que tenham alguma visão muito específica da situação familiar ou que conheçam uma história que ajude a montar um quebra-cabeça que você não consiga solucionar por conta própria.

A seguir, mais um caso, de outra turma.

Uma jovem judia chamada Helen Blatt estava decidida a escrever sobre a experiência de seu pai como sobrevivente do Holocausto. Ele havia fugido de seu vilarejo na Polônia aos catorze anos — um dos poucos judeus que conseguiram partir —, pegado o caminho para a Itália, depois Nova Orleans e, finalmente, Nova York. Tinha, agora, oitenta anos, e sua filha o convidou para retornar com ela àquele vilarejo polonês, onde ela poderia saber mais coisas sobre os seus primeiros anos e escrever sua história. Mas ele não aceitou o convite; sentia-se fragilizado demais, e o passado era muito doloroso.

Ela resolveu, então, viajar sozinha, em 2004. Fez anotações, tirou fotografias e conversou com pessoas da localidade. Mas não conseguiu descobrir elementos que a habilitassem a escrever algo à altura da história do pai. Ficou muito chateada com isso. Seu desânimo era palpável na sala de aula.

Por alguns instantes, eu não consegui pensar em nada para lhe dizer. Ao final, eu disse: “Não se trata da história do seu pai”.

Quando entendeu o que eu estava dizendo, ela me lançou um olhar do qual me recordo até hoje.

“É a sua história”, eu disse. E ponderei que ninguém teria dados suficientes — nem mesmo os estudiosos do Holocausto — para reconstituir os primeiros anos da vida de seu pai; muito do passado dos judeus na Europa havia simplesmente desaparecido. “Se você escrever sobre a sua própria busca do passado do seu pai”, eu disse, “você também estará contando a história da vida dele e daquilo que ele deixou como herança”.

Logo vi que acabava de tirar um peso imenso de suas costas. Ela deu um sorriso que nenhum de nós na sala tinha visto antes e disse que começaria a escrever a história imediatamente.

O curso chegou ao fim sem que eu recebesse nenhum texto dela. Telefonei-lhe depois, e ela disse que ainda estava escrevendo e que precisava de mais tempo. Então, um dia, chegou-me pelo correio um manuscrito com 24 páginas. Intitulado “Returning Home” [Voltando para casa], ele contava a peregrinação de Helen Blatt a Plesna, uma pequena cidade rural no sudeste da Polônia que nem sequer aparecia no mapa. “Sessenta e cinco anos depois”, escrevia ela, “eu era o primeiro membro da família Blatt que a cidade via desde 1939”. Fazendo-se conhecer aos poucos pelos habitantes locais, descobriu que muitos familiares do pai — avós, tios e tias — ainda eram lembrados ali. Quando um senhor mais velho disse “Você se parece com a sua avó Helen”, experimentou “uma sensação irresistível de segurança e tranquilidade”.

Eis como ela encerra o texto:

Depois que voltei para casa, eu e meu pai passamos três dias juntos. Ele assistiu a cada minuto do vídeo de quatro horas que eu gravara como se estivesse vendo uma obra-prima. Queria ouvir todos os detalhes de minha viagem: com quem me encontrei, os lugares onde estive, o que eu vi, de quais comidas eu gostei e de quais não gostei, e como fui tratada. Assegurei-lhe que fui recebida de braços abertos. Embora não haja nenhuma fotografia que possa me mostrar como era o rosto de meus parentes, consigo hoje construir mentalmente uma imagem da personalidade deles. O fato de ter sido tão bem tratada por pessoas totalmente estranhas a mim é reflexo do respeito de que os meus avós gozavam naquela comunidade. Trouxe para o meu pai algumas caixas com cartas e presentes dados por seus velhos amigos: vodca polonesa, mapas, fotografias e desenhos de Plesna.

Enquanto lhe contava as minhas histórias, ele parecia uma criança excitada esperando para abrir o seu presente de aniversário. A tristeza de seus olhos também havia desaparecido; ele parecia feliz e inebriado. Eu achava que, ao ver a propriedade da família no vídeo, ele fosse chorar; e, de fato, o fez, mas as suas lágrimas eram de alegria. Parecia tão orgulhoso que lhe perguntei: “Papai, por que você sente tanto orgulho vendo tudo isso? É pela sua casa?”. Ele respondeu: “Não, é por você! Você se transformou nos meus olhos, ouvidos e pernas. Obrigado por ter feito essa viagem. Estou me sentindo como se eu mesmo tivesse estado ali”.

Meu último conselho em relação à diminuição do leque de temas pode ser resumido em duas palavras: pense pequeno. Não esquadrinhe todo o seu passado — ou o passado de sua família — a fim de encontrar episódios que considere “importantes” o bastante para merecerem ser incluídos em suas memórias. Tente localizar momentos menores que estejam ainda vivos dentro das suas lembranças. Se você consegue lembrar deles, é porque contêm alguma verdade universal que os leitores saberão reconhecer a partir da própria vida.

Essa foi a principal lição que aprendi ao escrever em 2004 um livro intitulado Writing About Your Life [Escrever sobre a sua vida]. São memórias de minha própria vida, mas, no meio do caminho, eu também intercalava explicações sobre as decisões que eu tinha tomado para reduzir e organizar o texto. Nunca senti que minhas memórias precisassem incluir todas as coisas importantes que aconteceram comigo — uma tentação muito comum quando pessoas já mais idosas se sentam para fazer um resumo da vida delas. Muitos capítulos das minhas memórias são sobre episódios menores que não foram objetivamente “importantes”, mas que foram importantes para mim. Por terem sido importantes para mim, eles também tocavam na sensibilidade dos leitores, atingindo uma verdade universal importante para eles.

Um dos capítulos trata de um jogo mecânico de beisebol com que brinquei milhares de horas com meu amigo de infância Charlie Willis. O capítulo começa explicando que em 1983 eu escrevi para o New York Times um artigo relatando essa minha obsessão infantil. Eu dizia que minha mãe devia ter jogado fora o brinquedo quando entrei no Exército. “Mas em meio ao nevoeiro da memória eu ainda vejo a palavra wolverine. O que ‘Rosebud’ era para o Cidadão Kane, ‘Wolverine’ é para mim — uma chave quase irremediavelmente desaparecida. Menciono isso, aqui, para se alguém por acaso encontrar esse jogo em algum sótão, porão ou garagem. Pego o primeiro avião para ir até o local — assim como Charlie Willis.”

Poucos dias depois, começaram a chegar cartas de outros homens que haviam tido aquele jogo e que se lembravam de ter passado horas a fio brincando com ele com seus amigos de infância. A última carta vinha de Booneville, Arkansas, e eu não consegui acreditar no nome do remetente: wolverine toy company [Fábrica de brinquedos Wolverine]. A carta era assinada por William W. Lehren, vice-presidente comercial. “Deixamos de fabricar o ‘Pennant Winner’ em 1950”, dizia ele, “mas procurei em nosso museu e descobri que ainda temos um conosco. Se algum dia o senhor estiver aqui por perto, eu adoraria convidá-lo para disputar algumas partidas”.

Nunca fui a Booneville, mas, em 1999, Bill Lehren se aposentou e, tendo se mudado para Connecticut, um belo dia telefonou para mim. Ele me disse, então, que tinha comprado da Wolverine aquele último “Pennant Winner” e perguntou se eu ainda tinha interesse em disputar uma partida com ele. Poucos dias depois, ele apareceu em meu escritório em Nova York e abriu um pacote com aquele brinquedo que eu não via fazia mais de sessenta anos.

Ele era maravilhoso. Bastou que eu olhasse para o seu campo verde metálico e brilhante para começar a sentir na ponta dos dedos o bastão tal como eu o acionava com uma mola, aguardando o lançamento. Podia sentir também os botões de “rápido” e “devagar”, um de cada lado, que detonavam o lançamento em diferentes velocidades. Bill e eu colocamos o jogo sobre o tapete e pusemos mãos à obra — dois sujeitos na casa dos setenta anos ajoelhados um em cada extremidade do campo, trocando de lado a cada turno. O sol se pôs, e o céu sobre a Lexington Avenue escureceu. Mas nós nem nos demos conta disso.

Era um tema muito específico para tratar em um texto; poucas pessoas tiveram um jogo mecânico de beisebol. Mas todo mundo teve na infância um jogo, um brinquedo ou uma boneca favorita. O simples fato de eu ter tido esse brinquedo e de tê-lo reencontrado na outra ponta da minha vida não poderia deixar de criar uma conexão com leitores que quisessem voltar a ver mais uma vez os seus brinquedos, jogos ou bonecas favoritos. A identificação que eles tinham não era com o meu jogo de beisebol, mas sim com a ideia de jogo — uma ideia universal. Lembre-se disso ao escrever as suas memórias e cuide para que a sua história não seja grande demais a ponto de não interessar a ninguém além de você mesmo. As histórias menores que ainda pulsam na sua lembrança possuem uma ressonância própria. Acredite nelas.

Outro capítulo de Writing About Your Life trata do período em que prestei o serviço militar, durante a Segunda Guerra Mundial. Como a maioria dos homens da minha geração, lembro-me dessa guerra como uma experiência crucial em minha vida. No meu texto, porém, não escrevi nada sobre a guerra em si. Contei apenas a história de uma viagem que fiz pelo norte da África depois que o nosso navio nos deixou em Casablanca. Meu companheiro de armas e eu fomos colocados em um trem formado por vagões de madeira velha chamados de “quarenta-e-oito” porque haviam sido usados pelos franceses na Primeira Guerra para transportar ou quarenta pessoas ou oito cavalos. As palavras quarante hommes ou huit chevaux23 ainda estavam gravadas neles.

Ao longo de seis dias, eu permaneci sentado na porta aberta do vagão com as pernas penduradas sobre o solo do Marrocos, da Argélia e da Tunísia. Foi a viagem mais desconfortável que já fiz — e a melhor de todas. Não conseguia acreditar que estava no norte da África. Eu era um filho superprotegido de wasps do nordeste dos eua; ninguém que crescera ou estudara comigo jamais havia mencionado a existência dos árabes. Agora, subitamente, eu estava diante de uma paisagem onde tudo era novidade — cada imagem, cada som, cada perfume. Os oito meses que eu acabaria passando naquele território tão exótico marcaram o início de um caso de amor que nunca mais terminaria. Eles fizeram de mim alguém que passou a vida viajando para a África, a Ásia e outras regiões distantes. Aqueles dias também mudaram a minha maneira de pensar o mundo.

Lembre-se: as suas melhores histórias muitas vezes terão menos a ver com os assuntos do que com aquilo que eles significam — não com o que você fez em uma determinada situação, mas com a forma como essa situação afetou você e o ajudou a ser quem você é.

Quanto à forma de reunir e organizar as suas memórias, o meu último conselho — mais uma vez — é: pense pequeno. Divida a sua vida em pedaços manejáveis. Não procure enxergar o produto final, o grande edifício que tem em vista. Isso só aumentará a sua ansiedade.

O que eu sugiro é o seguinte: sente-se à sua escrivaninha na segunda-feira de manhã e escreva alguma coisa sobre algum acontecimento que está vivo em sua memória. Não precisa ser longo — três páginas, cinco páginas —, mas precisa ter um começo e um fim. Guarde esse episódio em uma pasta e toque a vida normalmente. Faça a mesma coisa na terça-feira de manhã. O episódio de terça-feira não precisa ter nenhuma relação com o de segunda. Use aquilo que lhe vier à memória; o seu subconsciente, tendo sido chamado a trabalhar, começará a trazer o seu passado de volta para você.

Faça isso durante dois meses, ou três meses, ou seis meses. Não fique impaciente, querendo começar a escrever logo as suas “memórias” — aquele texto que você tinha em mente antes de começar. Então, um dia, retire da pasta todos os textos que guardou e espalhe-os pelo chão. (Muitas vezes o chão é o melhor amigo do escritor.) Leia-os em sequência, veja o que lhe transmitem e que configuração emerge deles. Eles lhe dirão sobre o que as suas memórias serão — e sobre o que elas não serão. Eles lhe mostrarão o que é essencial e o que é secundário, o que é interessante e o que não é, o que é emocionante, importante, incomum, engraçado, o que deve ser aprofundado e ampliado. Você começará a enxergar o corpo narrativo da sua história e o caminho a seguir.

A partir daí, tudo o que você precisará fazer será reunir as peças.


23. Em francês, “quarenta homens ou oito cavalos”. (n.t.)