Decisões de um escritor
Este é um livro sobre decisões — as incontáveis e sucessivas decisões que fazem parte de todo ato de escrever. Algumas decisões são grandes (“sobre o que eu devo escrever?”), outras são tão pequenas quanto a menor das palavras. Mas todas são importantes.
O capítulo precedente falava de grandes decisões: questões de forma, estrutura, condensação, foco e intenção. Este capítulo trata de decisões pequenas: as centenas de escolhas inerentes à organização de um texto longo. Considero que pode ser útil mostrar como são tomadas essas decisões usando um dos meus próprios trabalhos como o animal a ser dissecado.
Aprender a organizar um texto longo é tão importante quanto aprender a escrever uma frase clara e simples. Todas as suas frases claras e simples se desmancharão se você não tiver sempre em mente que a escrita é algo linear e sequencial, que a cola que a sustenta como um conjunto é a lógica, que se deve manter a conexão entre uma frase e a frase seguinte, entre um parágrafo e o parágrafo seguinte, entre um capítulo e o capítulo seguinte, e que a narrativa — a boa e velha “contação” de histórias — é o que arrasta os seus leitores sem que se deem conta do esforço realizado. A única coisa que eles devem notar é que você fez um plano bastante coerente para a realização do seu trabalho. Cada passo deve parecer inevitável.
Meu artigo intitulado “The News From Timbuktu” [Notícias de Timbuktu], publicado pela Condé Nast Traveller, representa apenas uma solução encontrada por um escritor para um determinado problema, mas ilustra, ao mesmo tempo, questões que podem ser aplicadas a todas as amplas tarefas da não ficção. Fiz comentários ao artigo [trechos a seguir], explicando as decisões tomadas ao longo de sua confecção.
A decisão mais difícil, em qualquer texto, é como iniciá-lo. O lide precisa fisgar o leitor com alguma ideia provocativa e continuar prendendo-o firmemente a cada parágrafo, acrescentando informações pouco a pouco. A importância das informações reside em fazer com que os leitores se sintam tão interessados que terão vontade de seguir adiante até o fim. O lide pode ser curto, do tamanho de um parágrafo, ou longo, conforme a necessidade. Você saberá quando ele chegou ao fim quando todo o trabalho necessário estiver concluído e você poderá adotar um tom mais relaxado, prosseguindo assim a sua narrativa. Aqui, o primeiro parágrafo transmite ao leitor uma ideia de impacto — que eu espero que nunca tenha lhe ocorrido antes:
O que mais me impressionou quando cheguei a Timbuktu foi que as ruas do lugar eram todas de terra. Entendi subitamente a diferença entre a areia e o barro. Toda cidade começa com ruas barrentas que são pavimentadas à medida que seus habitantes prosperam e subjugam o ambiente. A terra representa uma derrota. Uma cidade com ruas de terra é uma cidade à margem.
Observe como essas cinco frases são simples: frases afirmativas, diretas, sem nenhuma vírgula. Cada frase contém uma ideia — e apenas uma. O leitor processa uma ideia por vez, e de forma linear, sequencial. Grande parte dos problemas, para um escritor, decorre da tentativa de fazer uma frase cumprir muitas funções ao mesmo tempo. Nunca tenha medo de cortar uma frase longa, dividindo-a em duas ou até três frases menores.
Era justamente por isso que eu estava ali: Timbuktu é o destino extremo para quem procura o limite. Da meia dúzia de lugares que sempre excitaram os viajantes à simples menção de seus nomes — Bali e Taiti, Samarkand e Fez, Mombaça e Macau —, nenhum se iguala a Timbuktu no que se refere à sensação de distância e isolamento que ele transmite. Fiquei surpreso com a quantidade de pessoas que, ao saberem de minha viagem, diziam achar até então que Timbuktu não era um lugar de verdade, ou que, caso fosse de verdade, não faziam a menor ideia de onde se localizava no mapa-múndi. Elas conheciam aquele nome — o sinônimo mais expressivo para algo quase inatingível, um presente dos deuses para os letristas de canções em busca de uma rima em “u” e uma metáfora para exprimir o quão distante um jovem apaixonado seria capaz de ir para conquistar a sua inconquistável garota. Mas, como lugar real, Timbuktu era, certamente, um daqueles reinos africanos “há muito tempo perdidos”, como as Minas do Rei Salomão, que se revelaram inexistentes quando os exploradores da época vitoriana partiram em sua busca.
A primeira frase desse parágrafo decorre diretamente da última frase do parágrafo anterior; o leitor não tem nenhuma chance de se desviar. Depois disso, o parágrafo tem outro objetivo: ele reconhece aquilo que o leitor já sabe — ou sabe em parte — sobre Timbuktu. Dessa forma, o texto acolhe o leitor como um companheiro de jornada, uma pessoa que carrega para a viagem as mesmas emoções do autor. Ele também introduz algum tipo de informação — não fatos precisos, mas uma história saborosa.
O parágrafo que se segue começa com o trabalho pesado — que não pode mais ser adiado. Observe quantas informações estão concentradas nestes três períodos:
O reino perdido de Timbuktu, porém, foi, sim, encontrado, embora os homens que finalmente conseguiram fazê-lo depois de tantas provações — o escocês Gordon Laing em 1826 e o francês René Caillié em 1828 — devam ter se sentido cruelmente ridicularizados. A lendária cidade com 100 mil habitantes descrita pelo viajante Leo Africanus no século xvi — um centro de estudos com 20 mil alunos e 180 escolas do Alcorão — não passava de uma aldeia desolada com algumas poucas edificações de barro, cuja glória e população havia muito tinham desaparecido, e que sobrevivia apenas por causa de sua localização geográfica única, no cruzamento de duas importantes rotas de caravanas de camelos pelo Saara. Muito do que era comercializado na África, especialmente o sal vindo do norte e o ouro vindo do sul, o era em Timbuktu.
É o suficiente sobre a história de Timbuktu e a razão de sua fama. Um leitor de revistas não quer saber muito mais do que isso a respeito do passado da cidade e a sua importância. Não forneça ao leitor de um texto de revista mais do que aquilo que ele pede; se você quer contar mais coisas, escreva um livro ou um artigo para uma publicação acadêmica.
Bem, o que os seus leitores gostariam de saber agora? Faça a você mesmo essa pergunta ao final de cada trecho. Aqui, o que eles querem saber é o seguinte: por que eu fui a Timbuktu? Qual era o objetivo da minha viagem? O parágrafo a seguir vai diretamente ao ponto — mais uma vez, mantendo esticada a corda da frase anterior:
Viajei a Timbuktu justamente para observar a chegada de uma dessas caravanas. Fui uma das seis pessoas espertas ou tolas o bastante — ainda não sabíamos bem — para comprar um tour de duas semanas anunciado na edição dominical do New York Times por uma pequena agência de viagens de origem francesa especializada na África ocidental (Timbuktu fica no Mali, antigo Sudão francês). O escritório da agência fica em Nova York, e fui até lá na segunda-feira de manhã bem cedo para chegar antes de todo mundo. Fiz as perguntas de praxe, ouvi as respostas de praxe — vacina para febre amarela, vacina para cólera, comprimidos contra malária, não beber a água local — e recebi um folheto.
Além de explicar a gênese da viagem, esse parágrafo cumpre outra função: expor a personalidade e a voz própria do autor. Em textos sobre viagem, nunca esqueça que você é o guia. Não se trata apenas de levar os leitores para uma viagem; você precisa levá-los para a sua viagem. Faça com que se identifiquem com você — com as suas expectativas e apreensões. Isso significa transmitir-lhes uma ideia de quem você é. A expressão “espertas ou tolas o bastante” evoca um traço bastante familiar na literatura de viagem: o turista é sempre um otário ou um trouxa em potencial. Outra expressão descompromissada é aquela sobre chegar antes de todo mundo. Só a coloquei para me divertir um pouco. A rigor, nesse quarto parágrafo já é um pouco tarde para dizer onde fica Timbuktu, mas eu não consegui encontrar uma forma de fazer isso antes sem atrapalhar a estrutura do lide.
Eis o quinto parágrafo:
“Esta é a sua chance de participar de uma extravagância única na vida — a anual caravana do sal Azalai para Timbuktu!”, diziam as primeiras linhas do folheto. “Imagine isto: centenas de camelos transportando um carregamento de sal precioso (‘ouro branco’ para os nativos do isolado oeste africano) fazem sua entrada triunfal em Timbuktu, uma antiga e mística localidade, meio deserto, meio cidade, com cerca de 7 mil habitantes. Os nômades vestidos de trajes multicoloridos que conduzem a caravana atravessaram 1.600 quilômetros ao longo do Saara para comemorar o fim de sua jornada com festas de rua e tradicionais danças tribais. Passe uma noite em uma tenda no meio do deserto tendo um chefe tribal como anfitrião.”
Esse é um exemplo típico de como um escritor pode fazer com que outras pessoas trabalhem de forma útil para ele — usando as palavras delas, que normalmente são mais reveladoras do que as palavras do escritor. Nesse caso, não só o folheto conta para o leitor que tipo de viagem se prometia ali, mas também a sua linguagem possui uma graça própria, deixando clara a grandiloquência dos seus promotores. Esteja sempre atento para citações engraçadas ou autoexplicativas e utilize-as à vontade. Eis o último parágrafo do lide:
Bem, esse é o meu tipo de viagem, ainda que não necessariamente meu tipo de prosa, e coincidiu que também é o tipo de viagem que agradava à minha mulher e a outras quatro pessoas. Quanto à faixa etária, o grupo ia da meia-idade ao Medicare.21 Cinco de nós éramos do centro de Manhattan, e havia uma viúva de Maryland — todos havia muitos anos habituados a fazer viagens para lugares limítrofes. Nomes como Veneza e Versalhes não eram dos que vinham à tona nos relatos sobre nossas viagens anteriores. Nem mesmo Marrakech, Luxor ou Chiang Mai. Nossa conversa era sobre Butão, Bornéu, Tibete, Iêmen ou Moluccas. Agora — graças a Alá! —, estávamos em Timbuktu. E nossa caravana de camelos estava prestes a chegar.
Isso fecha o lide. Esses seis parágrafos me custaram o mesmo tempo que todo o restante do texto. Mas foi só quando finalmente consegui amarrá-los que me senti com confiança para seguir adiante. Pode ser que outra pessoa conseguisse fazer um lide melhor para essa reportagem, mas eu não conseguiria. Naquele momento, senti que os leitores que haviam me acompanhado até ali continuariam a ler até o fim.
Não menos importantes do que as decisões sobre a estrutura são as decisões que temos de tomar em relação a cada palavra. A banalidade é inimiga do bom texto; o desafio é justamente não escrever como todo mundo. Um ponto que tinha de estar claro já no lide era a idade dos membros do nosso grupo. Inicialmente, escrevi alguma coisa razoável como “éramos cinquentões e sexagenários”. Mas o meramente razoável é um trambolho. Não havia uma forma mais viva de passar essa informação? Parecia não haver. Mas, ao final, uma musa misericordiosa me presenteou com Medicare — daí a expressão “da meia-idade ao Medicare”. Se procurar bastante, você sempre acabará encontrando algum nome apropriado ou uma metáfora para falar desses fatos pouco interessantes mas necessários da vida.
A frase sobre Veneza e Versalhes consumiu ainda mais tempo. Originalmente, eu havia escrito: “Nomes como Londres e Paris não eram dos que vinham à tona nos relatos sobre nossas viagens anteriores”. Nada de muito divertido. Tentei pensar em outras capitais bastante populares. Roma e Cairo? Atenas e Bangcoc? Não eram muito melhores. Talvez a aliteração ajudasse — os leitores saboreiam todo esforço feito para satisfazer o seu senso de ritmo e cadência. Madri e Moscou? Tel Aviv e Tóquio? Muito artificial. Parei, então, de pensar em capitais e comecei a pensar em cidades que estão sempre lotadas de turistas. Veneza saltou diante de mim, para a minha satisfação: todo mundo vai a Veneza. Que outra cidade desse tipo começa com V? Só Viena, que, no entanto, é próxima demais de Veneza sob vários aspectos. Por fim, pensando menos em cidades turísticas e mais em pontos turísticos, viajei mentalmente para fora das grandes capitais, e foi em uma dessas excursões que topei com Versalhes. E ganhei o meu dia.
Depois disso, eu precisava de um verbo mais vibrante do que “aparecer”. Queria uma expressão que criasse uma imagem. Nenhum dos sinônimos normais parecia dar certo. Finalmente, encontrei “vinham à tona” — uma expressão ridiculamente prosaica. De fato, era perfeita: ela produz a imagem de algo ou alguém que aparece de vez em quando. Com isso, ficava em aberto, ainda, uma decisão: quais lugares turísticos excêntricos pareceriam banais aos olhos de seis excursionistas que compraram passagem para Timbuktu? Os três que acabei escolhendo — Luxor, Marrakech e Chiang Mai — eram bastante exóticos nos anos 1950, quando os visitei pela primeira vez. Hoje, já não são; a era da viagem em avião a jato tornou-os quase tão populares como Londres ou Paris.
Em seu conjunto, esse trecho levou quase uma hora para ser escrito. Mas eu não me aborreci em nenhum momento com isso. Ao contrário, ver a coisa se encaixar corretamente me proporcionou um grande prazer. Nenhuma decisão sobre a escrita é ínfima demais para não merecer uma grande quantidade de tempo. Você e o leitor sabem quando o seu trabalho minucioso é recompensado por uma frase bem-acabada.
Observe que há um asterisco ao final do lide (poderia ser também apenas um espaço em branco). Esse asterisco é uma sinalização. Ele informa ao leitor que você organizou o seu texto de uma determinada maneira e que uma nova etapa irá começar — talvez alguma mudança cronológica, como um flashback, uma mudança de assunto, de ênfase ou de tom. Aqui, depois de um lide bastante compacto, o asterisco permite que o autor tome fôlego e recomece, agora no passo mais relaxado de um contador de histórias:
Para chegar a Timbuktu tomamos um avião em Nova York rumo a Abidjan, capital da Costa do Marfim, e de lá um voo para Bamako, capital do Mali, país vizinho, situado ao norte. Ao contrário da verdejante Costa do Marfim, o Mali é um país seco, com sua metade sul banhada principalmente pelo rio Níger e a metade norte formada quase que em sua totalidade por um deserto; Timbuktu é, literalmente, a última parada para os viajantes que atravessam o Saara em direção ao norte, ou a primeira parada para os que estão indo para o sul — um ponto muito cobiçado depois de semanas de calor e sede.
Ninguém da nossa turma conhecia muita coisa sobre o Mali nem sabia o que esperar do país — nossos pensamentos estavam voltados para o encontro com a caravana do sal em Timbuktu, não para o território que tínhamos de atravessar até chegar ali. O que não esperávamos é que seríamos instantaneamente conquistados pelo país. O Mali era um mergulho em um universo de cores: pessoas bonitas trajando tecidos com um design inebriante, mercados efervescentes com frutas e verduras, crianças cujos sorrisos constituíam um milagre permanente. Desesperadamente pobre, o Mali era um país rico em pessoas. A cidade de Bamako e suas ruas arborizadas nos deixaram encantados com sua energia e segurança.
Na manhã seguinte, bem cedo, saímos para uma viagem de dez horas em uma van que já havia tido os seus melhores dias — embora não muito melhores —, para chegar à cidade sagrada de Djenné, um centro medieval de comércio e de ensino islâmico no Níger, anterior a Timbuktu e que rivalizava em brilho com esta última. Hoje em dia, só se consegue chegar a Djenné com uma pequena balsa. Enquanto sacolejávamos por diversas estradas indescritíveis, apressados para chegar antes do anoitecer, as torres e as agulhas da sua grande mesquita de barro, que lembrava um castelo de areia distante, escarneciam de nós parecendo recuar cada vez mais. Quando finalmente chegamos, a mesquita ainda lembrava um castelo de areia — uma elegante fortaleza que bem poderia ter sido construída por crianças. Arquitetonicamente (aprendi mais tarde), ela tinha um estilo sudanês; durante todos esses incontáveis anos, as crianças, nas praias, têm construído castelos no estilo sudanês. Descansar um pouco na velha praça de Djenné ao anoitecer foi um ponto alto da nossa viagem.
Mas os dois dias seguintes não foram menos ricos. O primeiro foi consumido viajando pela região do Dogon adentro. O Dogon, que fica em um talude de difícil acesso para forasteiros, é admirado pelos antropólogos pelo animismo da sua cultura e da sua cosmologia e pelos colecionadores de arte por suas máscaras e estátuas. As poucas horas que passamos escalando seus vilarejos e assistindo a uma dança de máscaras nos permitiram um lampejo muito breve de uma sociedade que não tinha nada de simples. O segundo dia foi consumido em Mopte, uma cidade de comércio no Níger de que gostamos muito, mas que também tivemos de deixar rapidamente. Afinal, tínhamos um encontro marcado em Timbuktu e um avião fretado para nos levar até lá.
Obviamente há muito mais a ser dito sobre o Mali do que o que está sintetizado nesses quatro parágrafos — muitos livros de especialistas já foram escritos sobre a cultura Dogon e os povos do rio Níger. Mas essa reportagem não era sobre o Mali, e sim sobre a busca por uma caravana de camelos. Por isso, eu precisava tomar uma decisão sobre o tamanho do texto. E minha decisão foi atravessar o Mali o mais rapidamente possível, contando no menor número de frases possível quais foram as estradas pelas quais tivemos de passar e o que era relevante nos lugares em que paramos ao longo do caminho.
Nessas horas, eu faço a mim mesmo uma pergunta muito útil: “De que trata realmente o texto?” (Não apenas “de que trata o texto?”). O apego por materiais que você reuniu a duras penas não é razão suficiente para incluí-los no texto se eles não são essenciais para o tema sobre o qual escolheu escrever. É preciso ter uma grande autodisciplina, beirando o masoquismo. O único consolo diante da perda de tanto material é que, na verdade, ele não será totalmente perdido: permanecerá no seu texto de uma forma intangível, que o leitor vai captar. Os leitores devem sempre sentir que você sabe mais coisas sobre o seu tema do que aquilo que colocou no papel.
Voltando ao “afinal, tínhamos um encontro marcado em Timbuktu”:
O que me deixou mais preocupado quando estive na agência de viagens foram as coordenadas precisas desse encontro. Perguntei à gerente da agência como ela podia ter certeza de que a caravana do sal chegaria exatamente no dia 2 de dezembro; nômades conduzindo camelos não são exatamente o tipo de gente que acredito trabalhar com uma planilha de horários. Minha esposa, que não padece desse meu otimismo em relação a forças vitais como camelos e agentes de viagem, estava convencida, desde o início, de que, ao chegarmos a Timbuktu, alguém nos diria que a caravana do sal tinha chegado, mas acabara de partir, ou, mais provavelmente, que não tinha nem dado notícias. A agente de viagem zombou da minha pergunta.
“Temos um contato muito próximo com a caravana”, disse ela. “Mantemos representantes no deserto. Se veem que a caravana vai atrasar alguns dias, eles nos avisam, e podemos então alterar o itinerário dentro do Mali.” Isso me pareceu sensato — os otimistas conseguem achar qualquer coisa sensata —, e agora eu estava em um avião não muito maior que o de Lindbergh, voando para o norte em direção a Timbuktu, sobre uma região tão inóspita que eu era incapaz de ver o menor sinal de vida lá embaixo. Enquanto isso, porém, centenas de camelos carregados de sacos de sal avançavam em direção ao sul para se encontrar comigo. Chefes tribais deveriam, a essa altura, estar pensando em como me entreter em sua tenda no meio do deserto.
Os dois parágrafos acima contêm evidentes doses de humor — pequenas brincadeiras. Mais uma vez, são parte do meu esforço para me divertir. Mas são também uma tentativa deliberada de sustentar um determinado tipo de persona. Uma das características mais antigas dos textos sobre viagens e dos textos humorísticos é a eterna credulidade do narrador. Com moderação, fazer-se de ingênuo — ou totalmente ludibriável — proporciona ao leitor o enorme prazer de se sentir superior.
O piloto circulou sobre Timbuktu para nos proporcionar uma visão aérea geral da cidade que nós, vindos de tão longe, queríamos visitar. As inúmeras construções de barro espalhadas pareciam abandonadas havia muito tempo, tão mortas quanto o forte Zinderneuf no final de Beau Geste; certamente não havia nenhum ser vivo ali. Em seu movimento de expansão, que gerou o cinturão seco que atravessa a África Central conhecido como Sahel, o Saara havia desde muito tempo deixado Timbuktu para trás, totalmente abandonada. Senti um calafrio; eu não queria ser deixado em um lugar tão abandonado como aquele.
A menção ao filme Beau Geste é um esforço de tocar em associações que os leitores fazem com aquilo que estão lendo. Muito da fama de Timbuktu se deve a Hollywood. Ao evocar o destino do forte Zinderneuf — Brian Donlevy interpretou no filme um comandante sádico da Legião Estrangeira francesa que expunha os cadáveres de seus soldados nos nichos da edificação —, revelo o meu próprio apego ao gênero e crio um vínculo com os aficionados do cinema. Meu objetivo é ativar no leitor alguma ressonância capaz de provocar uma reação emocional que os escritores não conseguem gerar sozinhos.
Duas palavras — “calafrio” e “abandonado” — demoraram para ser encontradas. Sendo a segunda uma ressonância das últimas palavras de Jesus, era certamente, ali, a mais apropriada para expressar solidão e desamparo.
No aeroporto, encontramos com o nosso guia local, um tuaregue chamado Mohammed Ali. Para um viajante animado, ele era como um sinal reconfortante — se alguém pode ser considerado dono dessa região do Saara, são os tuaregues, uma raça de berberes orgulhosos que se retirou para o deserto e fez deste uma espécie de reserva, não se submetendo, assim, nem aos árabes nem aos colonizadores franceses que depois ocuparam o norte da África. Mohammed Ali, que vestia a tradicional túnica azul dos homens tuaregues, tinha um rosto escuro e inteligente, um tanto árabe nos traços angulosos, e se movia com uma segurança que era evidentemente parte da sua personalidade. Quando adolescente, ele participou com o pai de uma haj [peregrinação] a Meca (muitos tuaregues acabaram se convertendo ao islamismo) e ficou por sete anos na Arábia Saudita e no Egito estudando inglês, francês e árabe. Os tuaregues têm também a sua própria língua, com um alfabeto bastante complexo, chamado tamashek.
Mohammed Ali disse que precisaria, primeiro, levar-nos ao posto policial para que nossos passaportes fossem averiguados. Vi filmes demais para conseguir me sentir tranquilo nesse tipo de situação, e, quando entramos em uma sala que mais parecia um calabouço para sermos interrogados por dois policiais armados, não muito longe de uma cela de prisão onde podíamos ver um homem e um menino dormindo, ocorreu-me mais um flashback, dessa vez de As quatro penas brancas e a cena dos soldados britânicos aprisionados em Omdurman. Meu peito continuava oprimido quando saímos dali e Mohammed Ali nos levou para conhecer a cidade miserável, mostrando-nos diligentemente os seus “pontos de interesse”: a Grande Mesquita, o mercado e três casas totalmente dilapidadas com placas indicando que nelas haviam morado Laing, Caillié e o explorador alemão Heinrich Barth. Não vimos mais nenhum turista no local.
Mais uma vez, como no caso da menção a Beau Geste, a referência a As quatro penas brancas [The Four Feathers] provoca um calafrio em qualquer pessoa que tiver visto esse filme. O fato de ele ter se baseado em uma expedição real — realizada por Kitchener no Nilo para vingar a derrota sofrida pelo general Gordon no Mahdi — dá à frase um toque de medo. Obviamente a justiça árabe nos postos espalhados pelo Saara ainda está muito longe de ser misericordiosa.
O asterisco, por sua vez, indica novamente uma mudança de tom. É como se o texto dissesse: “Bem, basta de Timbuktu. Vamos agora focar o objeto principal da reportagem: a procura pela caravana de camelos”. Introduzir esse tipo de divisão em textos longos e complexos não apenas ajuda o leitor a acompanhar o seu roteiro como também elimina uma parte da ansiedade inerente ao ato de escrever, permitindo que você separe o seu material em partes controláveis e as aborde uma de cada vez. O conjunto da tarefa parece menos grandioso, o que contribui para afastar o pânico.
No Hotel Azalai, onde parecíamos ser os únicos hóspedes, perguntamos a Mohammed Ali quantos turistas estavam em Timbuktu para encontrar com a caravana do sal.
“Seis”, disse ele. “Vocês seis.”
“Mas...” Alguma coisa dentro de mim me impediu de concluir a frase. Optei por outra abordagem. “O que quer dizer a palavra ‘azalai’? Por que a caravana é chamada de Caravana do Sal Azalai?”
“Era a palavra usada pelos franceses”, disse ele, “quando organizavam a caravana e todos os camelos faziam a viagem juntos uma vez por ano, sempre no começo de dezembro.”
“E como fazem agora?”, várias vozes perguntaram.
“Bem, a partir do momento em que o Mali ficou independente, eles decidiram deixar os comerciantes trazerem as suas caravanas a Timbuktu quando bem entendessem.”
O Mali conquistou a independência em 1960. Estávamos em Timbuktu, portanto, para acompanhar um acontecimento que não ocorria havia 27 anos.
A última frase é uma pequena bomba atirada no texto. E fala por si só — apenas os fatos, por favor —, sem comentários. Não acrescentei nela um ponto de exclamação para chamar a atenção dos leitores de que aquele foi um momento surpreendente. Se o tivesse feito, retiraria deles o prazer de entender isso por conta própria. Acredite no seu material.
Minha mulher, como os demais, não ficou surpresa. Recebemos a notícia com tranquilidade, como velhos e experimentados viajantes que botavam fé em que, de um modo ou de outro, acabariam encontrando a sua caravana de camelos. Nossa reação foi, principalmente, de estupefação diante do descarado descumprimento dos cânones da propaganda não enganosa. Mohammed Ali não tinha conhecimento das vistosas promessas juradas pelo folheto da agência. Sabia apenas que tinha sido contratado para nos levar ao encontro da caravana do sal, e nos disse que na manhã seguinte sairíamos em busca de uma e passaríamos a noite no Saara. O começo de dezembro, disse ele, é o momento em que as caravanas começam a chegar. E não fez menção alguma à tenda de algum chefe de tribo.
Mais palavras escolhidas cuidadosamente: “cânones”, “descarado”, “vistosas”, “juradas”. Elas são vivas e precisas, sem ser compridas ou exóticas. Mais do que isso: são palavras pelas quais os leitores provavelmente não estavam esperando e que gostaram de encontrar. A frase sobre o chefe de tribo, que se refere a uma afirmação que estava no folheto, é outra sutil brincadeira. “Fechos” como esse, ao final do parágrafo, ajudam a empurrar o leitor para o parágrafo seguinte e o mantêm de bom humor.
Na manhã seguinte, minha mulher — que é a voz da razão no seu limite máximo — disse que não iria ao Saara se não fôssemos em dois veículos. Fiquei feliz, por isso, ao ver duas Land Rovers à nossa espera quando saímos do hotel. Em uma delas, um menino enchia um dos pneus dianteiros com uma bomba para pneu de bicicleta. Quatro de nós nos apertamos no banco traseiro de uma das Land Rovers; Mohammed sentou no da frente, ao lado do motorista. A segunda Land Rover levaria os outros dois membros do nosso grupo e dois meninos chamados de “aprendizes”. Ninguém nos disse o que eles estavam aprendendo.
Outro fato alarmante que não requer nenhum tipo de ornamentação — o enchimento do pneu — e outra pequena brincadeira na última frase.
Partimos diretamente para o Saara. O deserto era uma superfície marrom ilimitada sem nenhum tipo de trilha ou caminho; a cidade maiorzinha mais próxima era Algiers. Esse foi o momento em que mais me senti no limite do nada. Uma voz dentro de mim disse bem baixo: “Isto é uma loucura. Por que você está fazendo isto?”. Mas eu sabia por quê; eu estava em uma busca que remontava aos meus primeiros encontros com os livros dos “excêntricos do deserto” britânicos — uma gente solitária como Charles Doughty, sir Richard Burton. T. E. Lawrence e Wilfred Thesiger, que viveu entre os beduínos. Eu sempre me perguntara como seria levar uma vida austera como aquela. Que poderes ela tinha sobre aqueles ingleses obsessivos?
Mais uma recordação. A menção a Doughty e seus compatriotas é uma lembrança do fato de que a literatura sobre o deserto é tão poderosa quanto a filmografia sobre esse tema. Ela acrescenta mais um item à bagagem emocional que eu carregava e que o leitor tinha o direito de conhecer.
O trecho a seguir dá sequência à pergunta que fechou o parágrafo anterior:
Agora eu começava a entender. Enquanto avançávamos pelo deserto, vez por outra Mohammed Ali orientava o motorista: um pouco mais para a direita, um pouco mais para a esquerda. Perguntamos como é que ele sabia para onde estava indo. Ele disse que se guiava pelas dunas. As dunas, no entanto, eram todas muito parecidas. Perguntamos quanto tempo faltava para encontrarmos uma caravana do sal. Mohammed Ali disse que esperava que seriam mais três ou quatro horas. Continuamos avançando. Para os meus olhos, sempre habituados a ver objetos, não havia quase nada para olhar. Mas, depois de algum tempo, esse “quase nada” se tornou, ele próprio, um objeto — o próprio sentido do deserto. Tentei incorporar esse fato ao meu metabolismo. E isso me levou a uma resignação reconfortante, a tal ponto que esqueci totalmente por que tínhamos chegado até ali.
Subitamente, o motorista fez um giro à esquerda e parou o veículo. “Camelos”, disse ele. Apertei os meus olhos urbanos, mas não consegui enxergar nada. Aos poucos, ela surgiu no meu foco, bem ao longe: uma caravana com quarenta camelos avançando com um passo majestoso rumo a Timbuktu, levando, como fazem as caravanas há mil anos, o sal extraído das minas de Traoudenni, localizada vinte dias ao norte. Avançamos, colocando-nos a uma distância de cerca de cem metros da caravana. Não poderia ser menos do que isso porque, como explicou Mohammed Ali, os camelos são criaturas nervosas, que entram em pânico facilmente diante de qualquer coisa “estranha”. (Nós éramos, inegavelmente, estranhos.) Ele contou que os camelos sempre chegavam a Timbuktu para descarregar o sal tarde da noite, quando a cidade está vazia. Era o que havia a ser dito sobre a “entrada triunfal”.
Era uma imagem arrebatadora, bem mais dramática do que seria uma marcha bem organizada. A solidão daquela caravana era a solidão de todas as caravanas que já atravessaram, desde sempre, o Saara. Os camelos eram amarrados uns aos outros e pareciam avançar em uníssono, com tanta precisão quanto as Rockettes22 com seu ritmo ondulante. Cada camelo trazia de cada lado dois blocos de sal amarrados com cordas. O sal parecia mármore branco sujo. Os blocos (tal como eu pude medir depois no mercado em Timbuktu) têm 1,06 metro de comprimento, 45,7 centímetros de altura e 1,9 centímetro de espessura — o peso e o tamanho máximos, ao que parece, que um camelo pode suportar. Sentamos na areia e ficamos observando a caravana, até que o último camelo desaparecesse por trás de uma duna.
O tom é de uma narrativa linear — com uma sequência de frases declarativas. “Solidão”, que não é exatamente o tipo de palavra que eu gosto, por ser “poética” demais, representou a única decisão difícil. Mas, ao final, percebi que não havia outra palavra capaz de cumprir a mesma função e, com alguma relutância, acabei ficando com ela.
Era meio-dia e o sol ardia de uma forma cruel. Voltamos para nossas Land Rovers e avançamos velozmente ao longo do deserto até que Mohammed Ali encontrou uma árvore que projetava uma sombra grande o bastante para abrigar cinco nova-iorquinos e uma viúva de Maryland, e ali ficamos até perto das quatro horas da tarde fazendo um piquenique, observando a paisagem inteirinha branca, cochilando um pouco, mudando nossa manta de lugar conforme a sombra se movia com o sol. Os dois motoristas passaram o tempo todo da sesta fuçando no motor de uma das Land Rovers, ao que parece para desmontá-lo. Um nômade apareceu não sei de onde e parou para nos perguntar se tínhamos um pouco de quinino. Outro nômade apareceu também não sei de onde e parou para conversar conosco por algum tempo. Depois, vimos dois homens avançando pelo deserto em nossa direção e atrás deles — seria a nossa primeira miragem? — havia outra caravana de sal, desta vez com cinquenta camelos, com seus contornos visíveis contra o céu. Tendo-nos visto, só Deus sabe como, de tão longe, os dois homens tinham saído da caravana para nos fazer uma visita. Um deles era um velho, que ria bastante. Sentaram-se ao lado de Mohammed Ali para saber as últimas novidades de Timbuktu.
A frase mais trabalhosa foi aquela sobre os motoristas fuçando no motor da Land Rover. Eu queria que ela fosse tão simples como as outras, mas com alguma pequena surpresa embutida — um toque de humor irônico. De resto, meu objetivo, a partir daí, foi contar o restante da história da forma mais simples possível:
Quatro horas se passaram sem que percebêssemos, como se tivéssemos dormido em uma região com outro fuso horário, o do Saara, até que, no fim da tarde, quando o calor do sol começava a arrefecer, voltamos para as Land Rovers, que, para minha surpresa, ainda funcionavam, e partimos para avançar pelo deserto em direção ao que Mohammed Ali chamou de nosso “acampamento”. Imaginei, se não uma tenda de chefe de tribo, ao menos uma tenda qualquer — alguma coisa que tivesse a aparência de um acampamento. Finalmente paramos em um local que se assemelhava, espantosamente, ao que procuráramos ao longo de todo o dia. Nele havia, porém, uma pequena árvore. Algumas mulheres beduínas estavam agrupadas embaixo dela — vestidas de preto, com o rosto velado — e Mohammed Ali deixou-nos ali, no deserto, bem perto delas.
As mulheres se juntaram mais e recuaram um pouco à nossa chegada — brancos alienígenas caídos abruptamente no seu habitat. Estavam tão coladas umas às outras que pareciam uma barreira. Evidentemente, Mohammed Ali resolvera parar ao primeiro sinal de “cor local” que conseguira encontrar para os seus turistas, esperando que nos virássemos sozinhos a partir dali. A única coisa a fazer seria nos sentarmos e tentar parecer amistosos. Mas tínhamos total consciência de sermos intrusos, e provavelmente elas sentiam o nosso desconforto. Levou algum tempo até que aquela barreira preta se desfez e mostrou serem na verdade quatro mulheres, três crianças e dois bebês nus. Mohammed tinha se afastado. Parecia não querer falar com beduínos; talvez, como tuaregue, os visse como inferiores.
Mas foram as beduínas, justamente, que tiveram a elegância de nos deixar à vontade. Depois de retirar o véu do rosto e expor um sorriso de estrela de cinema — dentes brancos e olhos negros brilhantes em um rosto lindo —, uma das mulheres remexeu nos seus pertences e retirou dali uma manta e uma esteira, estendendo-as para que pudéssemos nos sentar. Lembrei-me, então, de que, segundo os livros, a figura do intruso não existe no deserto; todo mundo que aparece estava sendo, de alguma forma, aguardado. Logo depois, dois beduínos surgiram do deserto, completando a unidade familiar, que, então vimos, era composta de dois homens, duas esposas para cada homem e seus filhos. O marido mais velho, que tinha um rosto belo e forte, cumprimentou as suas duas mulheres com um tapinha delicado na cabeça de cada uma, como uma espécie de bênção, e se sentou perto de mim. Uma das mulheres serviu o jantar para ele — uma tigela com painço. Ele imediatamente ofereceu a tigela para mim. Embora eu tenha declinado, foi uma oferta que jamais esquecerei. Permanecemos em um silêncio amistoso enquanto ele comia. As crianças se aproximaram para fazer companhia. O sol já tinha se posto e a lua cheia aparecera para tomar conta do Saara.
Enquanto isso, nossos motoristas tinham estendido algumas mantas perto das duas Land Rovers e faziam uma fogueira com a madeira do deserto. Nós então nos agrupamos, com nossas próprias mantas, observamos o surgimento das estrelas no céu do deserto, jantamos uma espécie de frango e nos preparamos para dormir. Cada um dispunha de equipamento móvel próprio para fazer suas necessidades. Alertados de que as noites no Saara são frias, tínhamos trazido nossos agasalhos também. Depois de vestir o meu, enrolei-me em uma manta que logo amenizou a rigidez do chão do deserto e adormeci envolvido por uma quietude imensa. Uma hora depois, fui acordado por uma agitação igualmente imensa — nossa família beduína tinha trazido as suas cabras e camelos para passar a noite ali. E logo tudo silenciou novamente.
Na manhã seguinte, observei algumas pegadas na areia perto da minha manta. Mohammed Ali disse que um chacal havia aparecido durante a noite para pegar os restos do nosso jantar — os quais, pelo que eu me lembrava, deviam ser muito poucos. Mas eu não escutara nada. Estava ocupado demais sonhando que era Lawrence da Arábia.
[fim]
Uma decisão sempre crucial em um texto é onde concluí-lo. Muitas vezes a própria história lhe dirá em que ponto ela quer se encerrar. Esse final não era o que eu tinha em mente de início. Como o objetivo da nossa viagem era encontrar uma caravana de sal, eu estava imbuído da ideia de que teria de completar o velho ciclo do comércio de sal: descrever como voltamos a Timbuktu e vimos o sal sendo descarregado, comprado e vendido no mercado. Mas, quanto mais eu me aproximava do momento de redigir esse trecho conclusivo, menos eu me sentia disposto. Ele surgia diante de mim como uma tarefa enfadonha, nem eu nem o leitor estaríamos interessados.
Subitamente, lembrei-me de que eu não tinha nenhum compromisso para com o conjunto da nossa viagem. Não precisava reconstituir tudo. O verdadeiro clímax da minha reportagem não era o encontro com a caravana do sal, mas sim o encontro com a hospitalidade imemorial das pessoas que vivem no Saara. Poucos momentos de minha vida podem ser comparados àquele em que uma família de nômades dona de quase nada se ofereceu para dividir comigo o seu jantar. Da mesma forma, nenhum outro momento poderia reproduzir mais vivamente o que eu procurava de fato encontrar no deserto e sobre o que todos aqueles ingleses escreveram — a nobreza de quem vive no limite absoluto.
Quando você extrai uma mensagem como essa do seu material — quando a sua história lhe diz que acabou, independentemente do que aconteceu depois —, procure a porta de saída. Eu saí rapidamente, detendo-me apenas o suficiente para garantir que todas as partes estavam íntegras: que o escritor-guia que começou a viagem era a mesma pessoa que a concluía. A referência jocosa a Lawrence preserva a persona, amarra toda uma série de associações e fecha o círculo da jornada. Ter entendido que eu então podia simplesmente parar foi uma sensação incrível, não só porque com isso a labuta tinha acabado — com o quebra-cabeça solucionado —, mas também porque esse final me pareceu perfeitamente bem. Era a decisão correta a ser tomada.
A título de postscriptum, gostaria de mencionar uma última decisão que um autor precisa tomar. Tem a ver com a necessidade dos escritores de não ficção de dar uma chance à própria sorte. Um comando que uso frequentemente para me manter em ação é “pegue o avião”. Dois dos momentos mais emocionantes de minha vida foram resultado de eu ter pegado o avião a propósito do meu livro Mitchell & Ruff. Primeiro eu fui a Xangai com os músicos Willie Ruff e Dwike Mitchell quando eles introduziram o jazz na China, no Conservatório Musical de Xangai. Um ano depois, fui a Veneza com Ruff para ouvi-lo tocar cantos gregorianos com sua trompa francesa na Basílica de San Marco de noite, quando não havia ninguém ali, para estudar a acústica que inspirara a escola veneziana de música. Nos dois casos, Ruff não tinha nenhuma garantia de que conseguiria realmente tocar; eu poderia ter desperdiçado todo o meu dinheiro e meu tempo ao decidir acompanhá-lo. Mas eu peguei o avião, e esses dois textos longos, publicados originalmente na The New Yorker, são provavelmente os meus melhores artigos. Eu peguei o avião para Timbuktu em busca de uma caravana de camelos, que era uma aposta ainda mais arriscada, e peguei o avião para Bradenton para o spring training sem saber se eu seria bem recebido ou hostilizado. Meu livro Writing to Learn [Escrever para aprender] nasceu de um telefonema de um estranho. Ouvi a respeito de um projeto educacional tão interessante que peguei o avião para Minnesota para saber mais dele.
Pegar o avião me permitiu conhecer histórias no mundo inteiro e em todos os eua — e ainda permite. Isso não quer dizer que não fico nervoso quando saio de casa em direção ao aeroporto; ao contrário, eu sempre fico — mas isso faz parte do jogo. (Um pouco de nervosismo dá um sabor especial ao ato de escrever.) Mas me sinto sempre revigorado quando volto para casa.
Como escritor de não ficção, você precisa pegar o avião. Se um assunto lhe interessa, vá atrás dele, seja no condado vizinho, no estado vizinho ou no país vizinho. Pois ele não virá à sua procura.
Decida o que você quer fazer. Depois, decida fazê-lo. E, então, faça-o.
21. O autor se refere ao sistema de saúde pública dos Estados Unidos voltado para pessoas com 65 anos ou mais. (n.t.)