• Ivan Milazzotti
    Como escrever bem
    17-07-2025 19:15:01
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    30

Escrever sobre lugares: a reportagem sobre viagens

Depois de saber como escrever sobre pessoas, você deve saber também como escrever sobre um lugar. Pessoas e lugares são os dois pilares sobre os quais se constrói a maior parte dos textos de não ficção. Todo acontecimento que envolve uma pessoa se dá em algum lugar, e o leitor sempre quer saber como é esse lugar.

Em alguns poucos casos, você precisará de apenas um ou dois parágrafos para definir o cenário de determinado acontecimento. Mas, na maior parte das vezes, para dar consistência à história, terá de evocar o ambiente de um bairro ou uma cidade. E, em alguns casos, como um relato de viagem propriamente dito — aquele gênero intrépido em que você conta como pegou um barco para conhecer as ilhas gregas ou atravessou, mochila nas costas, as Montanhas Rochosas —, a descrição de detalhes será o principal ingrediente.

Qualquer que seja essa proporção, isso parecerá relativamente fácil. A triste verdade, porém, é que é muito difícil. Deve ser mesmo difícil, pois é nesse terreno que muitos autores — profissionais e amadores — produzem não só o seu pior trabalho mas também um trabalho que é mesmo claramente terrível. E um trabalho terrível não tem nada a ver com alguma falha de caráter. Ao contrário, ele resulta de uma virtude, que é o entusiasmo. Ninguém se transforma tão rapidamente em um chato quanto um viajante que chega em casa depois de suas andanças. Ele gostou tanto da viagem que quer logo nos contar tudo sobre ela — e “tudo” é justamente o que nós não queremos ouvir. Queremos ouvir apenas algumas coisas. O que fez a viagem dele ser diferente da viagem de qualquer outra pessoa? O que ele pode nos contar que ainda não sabemos? Não queremos que descreva todos os brinquedos por onde andou na Disneylândia, que nos diga que o Grand Canyon é impressionante ou que existem muitos canais em Veneza. Se uma das atrações da Disneylândia quebrou ou alguém caiu dentro do impressionante Grand Canyon, isso sim faria sentido relatar.

Quando visitamos determinado lugar, é natural achar que fomos os primeiros a conhecê-lo ou a ter tido pensamentos tão sensíveis sobre ele. E isso é bastante justo: é o que nos faz seguir adiante e valida a nossa experiência. Quem conseguiria visitar a Torre de Londres sem pensar nas mulheres de Henrique viii, ou visitar o Egito e não se sentir tocado pelas dimensões e pela antiguidade das pirâmides? Mas isso é o básico já relatado por inúmeras pessoas. Como escritor, você precisa controlar com rédeas curtas a sua subjetividade — aquele viajante emocionado com novas imagens, sons e cheiros — e manter sempre um olhar objetivo dirigido para o leitor. Uma reportagem que registre tudo o que você fez na sua viagem irá deixá-lo fascinado, pois foi a sua viagem. Mas será que fascinará também o leitor? Certamente não. Uma simples reunião de detalhes não abre as portas para o interesse do leitor. Os detalhes precisam ser importantes.

Outra grande armadilha é o estilo. Em nenhum outro tipo de não ficção usam-se tantos chavões. Palavras e expressões que você se sentiria mal de usar em uma conversa comum — “esplendoroso”, “salpicado”, “róseo”, “lendário”, “de vento em popa” — são moeda corrente. Metade dos lugares que se veem em um dia de passeio são pitorescos, especialmente moinhos e pontes cobertas. Cidades em montanhas (ou colinas) são como ninhos — poucas vezes li sobre cidades em montanhas que não lembrassem ninhos — e o interior dos países é cheio de estradinhas, de preferência meio abandonadas. Na Europa, você acorda ao som de carroças puxadas a cavalo ao longo de um rio repleto de histórias; você parece ouvir o ruído de uma caneta de pena arranhando o papel. É um mundo em que o velho e o novo se misturam — aliás, o velho não pode se misturar com o velho. É um mundo onde objetos inanimados ganham vida: vitrines sorriem, edifícios se orgulham, ruínas acenam e até mesmo as chaminés cantam a sua eterna melodia de boas-vindas.

O “viagês” é também um estilo em que se usam palavras fáceis, que, quando examinadas com profundidade, não querem dizer nada ou cujo significado é diferente para cada pessoa: “atraente”, “charmoso”, “romântico”. Escrever que “a cidade tem seus próprios atrativos” não ajuda muito. E quem poderia definir o que é “charme”, a não ser o dono de alguma escola de etiqueta? E “romântico”? São conceitos subjetivos que dependem do observador. O mesmo nascer do sol pode ser romântico para uma pessoa, mas, para outra, pode ser um momento de sofrida ressaca após uma longa noitada.

Como evitar essas bizarrices apavorantes e fazer um bom texto sobre lugares? Meu conselho pode ser resumido a dois princípios — um sobre o estilo e outro sobre o conteúdo.

Em primeiro lugar, escolha as palavras com um cuidado especial. Se uma expressão lhe ocorrer muito facilmente, desconfie dela; provavelmente será um desses inúmeros clichês que estamparam com tanta força o tecido da escrita sobre viagens que é preciso fazer um grande esforço para não os usar. Resista também à tentação de forjar uma frase poética brilhante para descrever uma cachoeira maravilhosa. Na melhor das hipóteses, vai soar como algo artificial — não natural em você — e, na pior, como algo empolado demais. Procure palavras e imagens vivas. Deixe “miríade” e outras coisas do mesmo jaez para os poetas. Deixe “jaez” para alguém que o leve para bem longe.

Quanto ao conteúdo, seja extremamente seletivo. Se estiver descrevendo uma praia, não escreva que “várias rochas se espalham pelo litoral” ou que “às vezes se vê uma gaivota voando”. O litoral geralmente é formado por pedras e sobrevoado por gaivotas. Evite elementos como esses, que são amplamente conhecidos: não nos diga que o mar tem ondas e que a areia é branca. Descubra detalhes significativos; eles podem ser importantes para a sua narrativa. Podem ser incomuns, curiosos, cômicos ou divertidos, mas atente para que sejam sempre úteis.

Citarei aqui alguns exemplos de vários autores, bem diferentes uns dos outros em termos de temperamento, mas semelhantes quanto à força dos detalhes que escolhem. O primeiro é retirado de um texto de Joan Didion chamado “Some Dreamers of the Golden Dream” [Alguns sonhadores do sonho dourado]. Trata de um crime horrível cometido no Vale de San Bernardino, na Califórnia, e neste trecho inicial a autora nos leva, como se estivéssemos dentro do seu automóvel, de uma civilização urbana até o ponto deserto de uma estrada onde o Volkswagen de Lucille Miller se incendiou inexplicavelmente:

Esta é a Califórnia onde é fácil fazer um Dial-A-Devotion,15 mas muito difícil comprar um livro. É a terra dos penteados extravagantes, das Capris16 e das meninas que desde o começo da vida estão destinadas a usar um vestido longo branco de casamento, a dar à luz um Kimberly, uma Sherry ou uma Debbi, a se divorciar em Tijuana e voltar para alguma escola de cabeleireira. “Éramos apenas crianças malucas”, elas dizem, sem arrependimentos, olhando para o futuro. O futuro parece sempre bom nesta terra dourada, porque ninguém se lembra do passado. Aqui é onde sopra um vento quente e os velhos hábitos não parecem ter importância, onde a taxa de divórcios é duas vezes maior do que a média nacional e onde 1 em cada 38 pessoas mora em um trailer. Aqui é a última parada para quem vem de qualquer lugar, para todos os que perambulam à solta depois de deixar para trás o frio, o passado e os velhos hábitos. Aqui eles buscam um novo estilo de vida, que esperam encontrar nos únicos lugares para onde costumam voltar os seus olhos: os filmes e os jornais. O caso de Lucille Marie Maxwell Miller é um monumento a esse novo estilo na forma de tabloide.

Imagine, primeiro, a rua Banyan, pois foi onde tudo aconteceu. Para chegar ali, a partir de San Bernardino, é preciso tomar a direção oeste e seguir pelo Foothill Boulevard, Route 66. No caminho, cruza-se com um pátio de manobras dos trens de Santa Fé e o motel Forty Winks, um conjunto de dezenove barracões indígenas feitos de estuque: “durma em uma tendaaqui os seus búzios valem mais”. Depois do motel, cruza-se com o Salão de Dança de Fontana, a Igreja do Nazareno de Fontana e a parada A Go-Go; em seguida, a Kaiser Steel, pela Cucamonga, na direção do café e restaurante Kapu Kai, que fica na esquina da Route 66 com a avenida Carnelian. Na avenida, a partir do Kapu Kai, nome que significa “mares proibidos”, surgem, tremulando ao vento forte, as bandeiras das subdivisões regionais. “ranchos de meio acre! refeições leves! portais de travertino! desconto de US$ 95”. São vestígios de um projeto que foi a pique, restos do naufrágio da Nova Califórnia. Depois de algum tempo, as sinalizações ao longo da avenida Carnelian diminuem, as casas já não têm mais as cores brilhantes da época dos proprietários da Springtime Home, dando lugar a barracões desbotados cujos moradores cultivam uvas e criam galinhas, e então a colina fica mais íngreme, a estrada vai conduzindo para o alto, o número de barracões diminui e ali — desolada, rudemente asfaltada e delineada por uma sequência de eucaliptos e limoeiros — se encontra a rua Banyan.

Em apenas dois parágrafos, podemos sentir não só a aridez da paisagem da Nova Califórnia, com suas tendas de estuque, moradias improvisadas e uma atmosfera usurpada de algum conto havaiano, mas também a patética transitoriedade da vida e das pretensões das pessoas que por ali se estabeleceram. Todos os detalhes — estatísticas, nomes e sinalizações — são introduzidos de forma útil.

O detalhe concreto constitui uma âncora também na prosa de John McPhee. Coming Into the Country [Por dentro do país], seu livro sobre o Alasca — para citar apenas um entre os seus vários e engenhosos livros —, contém um capítulo dedicado à procura por uma possível nova capital para o estado. McPhee precisa de apenas algumas frases para nos transmitir a sensação daquilo que vai mal na capital atual, tornando-a um lugar ruim tanto para as pessoas viverem como para os parlamentares fazerem boas leis:

Em Juneau, um pedestre, de cabeça baixa e passos rápidos, pode ser interrompido à toa pelo vento. Barras de segurança ao longo das ruas são usadas por senadores e deputados para ir ao trabalho. Nos últimos dois anos, vários medidores de velocidade do vento foram instalados em um ponto mais elevado da cidade. Podiam medir velocidades de até 320 quilômetros por hora. Eles não sobreviveram. Os ventos do Taku os arrancaram violentamente, depois de levarem os seus ponteiros ao máximo da escala. O tempo nem sempre é tão ruim, mas a cidade se moldou com base nele. Juneau, portanto, é uma comunidade cerrada de construções coladas umas às outras e ruas estreitas como na Europa, erguidas ao pé da montanha e recebendo de frente a água salgada do oceano...

A urgência de mudar a capital ocorreu a Harris durante esses dois anos [em que foi senador pelo Alasca]. As sessões locais começavam em janeiro e continuavam por no mínimo mais três meses, e Harris desenvolveu aquilo que ele chamou de “uma sensação absoluta de isolamento — ficava como que trancado ali. As pessoas não podiam ir até você. Você ficava em uma gaiola. Falando com os lobistas todos os dias. Sempre as mesmas pessoas. Era preciso mais arejamento para poder acompanhar o que acontecia”.

As especificidades da cidade, tão distantes da experiência normal do país, ficam claras imediatamente. Uma das possibilidades, para os parlamentares, era transferir a capital para Anchorage. Ali, eles pelo menos não se sentiriam como se fossem estrangeiros. McPhee destila a essência dessa cidade em um parágrafo engenhoso, tanto por seus detalhes como por suas metáforas:

Praticamente todos os americanos reconheceriam Anchorage, pois Anchorage é como aquele pedaço de qualquer cidade onde do nada surgiu um Coronel Sanders.17 Pode-se às vezes perdoar Anchorage em nome do pioneirismo. Primeiro construa, depois civilize. Mas Anchorage não é uma cidade de fronteira. Não tem, virtualmente, nenhuma relação com o seu ambiente. Foi levada até ali pelo vento, como uma semente americana. Um disparo ocorrido em El Paso poderia mandar uma Anchorage pelos ares. Anchorage é a região norte de Trenton, o centro de Oxnard, os circuitos que contêm as águas do oceano em Daytona Beach. É uma Albuquerque condensada, instantânea.

O que McPhee fez foi captar o conceito de Juneau e de Anchorage. A principal tarefa que você tem ao escrever sobre viagens é encontrar o conceito-chave do lugar que está abordando. Durante décadas e décadas, os escritores vinham tentando dominar de alguma forma o rio Mississippi, captar a essência dessa pujante via de comunicação que avança pelo centro devoto dos Estados Unidos, muitas vezes com uma fúria bíblica. Mas ninguém o fez de modo tão sucinto como Jonathan Raban, ao visitar os estados do Meio-Oeste logo após os alagamentos causados pelas grandes inundações do rio. Seu texto começa assim:

Ao voar para Minneapolis a partir do Oeste, você encara a região como um problema de ordem teológica.

As grandes fazendas planas do Minnesota se estendem formando uma grade, tão previsível como uma folha de papel quadriculado. Cada caminho de cascalho, cada vala foi projetada de acordo com a latitude e a longitude do sistema oficial de divisão territorial. As fazendas são quadradas, os campos são quadrados, as casas são quadradas; se fosse possível tirar os telhados, você veria as pessoas sentadas em torno de mesas quadradas bem no centro de salas quadradas. A natureza foi fatiada, raspada, adestrada, punida e reprimida com esses ângulos retos, o pensamento quadrado de um país luterano. Você sente necessidade de avistar alguma curva rebelde, algum campo salpicado de cores irregulares, onde algum fazendeiro incauto tenha permitido que o milho e a soja coabitassem.

Mas não há nenhum fazendeiro incauto ao longo do trajeto. A paisagem aparece diante dos nossos olhos — assim como aos olhos de Deus — como um gigantesco painel publicitário que vende a terrível retidão das pessoas. Aqui não há espaço para diversão, diz ele; somos pessoas absolutamente retas, perfeitos candidatos ao Paraíso.

E de repente o rio invade o quadro — uma sombra larga e curvilínea que se espraia indomavelmente no meio do tabuleiro. Desgarrado, sinuoso, crivado de brejos escuros e ilhas verdes em forma de charuto, o Mississippi parece ter sido colocado ali para dar ao Meio-Oeste temente a Deus uma lição sobre o que é a natureza rebelde e incorrigível. Como o temperamento difícil de Calvino, ele se apresenta feito um animal selvagem bem no coração do país.

Quando as pessoas que vivem ao longo do Mississippi lhe atribuem um gênero, elas o fazem com naturalidade, vendo-o quase sempre como sendo do mesmo sexo que o delas. “É melhor sempre respeitar o rio, ou ele mesmo o obrigará a fazê-lo”, resmunga o controlador da barreira. “As águas são geniosas — elas já acabaram com muita gente por aqui”, diz a garçonete atrás do balcão. Quando Eliot escreveu que o rio está dentro de nós (enquanto o oceano nos envolve por inteiro), estava revelando uma verdade cotidiana sobre o Mississippi. As pessoas veem a agitação de suas águas barrentas como a encarnação de sua própria turbulência interna. Quando se vangloriam, diante de forasteiros, dos caprichos de seu rio, da sua ânsia por perturbação e destruição, suas inundações e afogamentos, há um certo tom na voz que diz: Está em mim fazer isso... Sei como é.

Que sorte maior poderia ter um escritor de não ficção do que a de viver nos Estados Unidos? O país é infinitamente variado e surpreendente. Seja ele urbano ou rural, esteja a leste ou a oeste, o lugar sobre o qual você escreve tem sempre um aspecto, uma população e um conjunto de características culturais totalmente singulares. Descubra esses traços distintivos. Os três trechos que apresento a seguir descrevem três locais dos Estados Unidos que não poderiam ser mais diferentes entre si. No entanto, nos três casos, os autores nos apresentam tantas imagens precisas que nos sentimos como se estivéssemos nesses lugares. O primeiro trecho, extraído de “Halfway to Dick and Jane: A Puerto Rican Pilgrimage” [A meio caminho de Dick e Jane: uma peregrinação porto-riquenha], de Jack Agüeros, descreve a região hispânica da infância do escritor em Nova York, um lugar onde diferentes pequenos países podiam existir em um único quarteirão:

Em toda sala de aula havia alunos que não falavam inglês. Negros, italianos, porto-riquenhos, as relações na classe eram boas, mas todos nós sabíamos que não poderíamos visitar os bairros uns dos outros. Às vezes não tínhamos liberdade de passear nem mesmo dentro do nosso próprio quarteirão. Na rua 109, perto do poste de luz oeste, havia o Latin Aces e, no poste de luz leste, o Senecas, “clube” ao qual eu pertencia. Os meninos que não falavam inglês eram conhecidos como os Marine Tigers, expressão tirada de uma canção popular espanhola. O Marine Tiger e o Marine Shark eram dois barcos que faziam o trajeto de San Juan a Nova York trazendo muitos imigrantes da ilha.

O bairro tinha suas fronteiras. A Terceira Avenida e, a leste, os italianos. A Quinta Avenida e, a oeste, os negros. No sul, havia uma colina na rua 103 conhecida na região como Cooney’s Hill. Quando você atingia o topo da colina, alguma coisa estranha acontecia: os Estados Unidos começavam, pois, olhando dali para o sul, via-se onde moravam os “americanos”. Dick e Jane não estavam mortos; estavam vivos e bem, em um bairro melhor.

Quando nosso grupo de garotos porto-riquenhos decidia ir nadar na piscina do Jefferson Park, sabia que havia o risco de ocorrer alguma briga com os italianos. E quando ia à igreja La Milagrosa, no Harlem, sabia que havia o risco de ocorrer alguma briga com os negros. Mas, quando caminhava para além da Cooney’s Hill, corria o risco de receber olhares duros, olhares desaprovadores, e de ser questionado pela polícia com frases como: “O que vocês estão fazendo aqui neste bairro?” e “Meninos, por que não voltam para o lugar de vocês?”.

O nosso lugar! Rapaz, eu tinha escrito várias redações sobre os Estados Unidos. Por acaso as quadras de tênis do Central Park também não eram o meu lugar, mesmo que eu não soubesse jogar? Não poderia estar lá para ver Dick jogando? Aqueles policiais não estavam trabalhando também para mim?

Passemos agora para uma pequena cidade no leste do Texas, perto da fronteira com o Arkansas. Este texto, escrito por Prudence Mackintosh, saiu na Texas Monthly, uma revista de que gosto pela vivacidade com que Prudence e seus colegas escritores do Texas me transportam — eu, um morador do centro de Manhattan — para cada canto de seu estado:

Aos poucos percebi que muita coisa que desde criança eu acreditava ser o Texas era na verdade o Sul. Os acalentados mitos do Texas tinham pouco a ver com a minha região do estado. Eu conhecia o corniso, o cinamomo, a murta-de-crepe e a mimosa, mas não a centáurea-azul ou o pincel-de-índio.18 Embora a Four States Fair and Rodeo acontecesse na minha cidade, eu nunca aprendi a montar um cavalo. Nunca conheci ninguém que usasse chapéu de vaqueiro ou botas, a não ser como fantasia. Conheci um ou outro fazendeiro cuja propriedade era famosa por ser um lugar administrado mais ou menos à antiga, mas nenhum rancho com o brasão de seu gado afixado sobre as porteiras. Na minha cidade, as ruas se chamavam Madeira, Pinheiro, Oliva e Bulevar, não Guadalupe ou Lavaca.

Avancemos ainda mais para o oeste, em direção a Muroc Field, no deserto do Mojave, Califórnia, o único lugar dos Estados Unidos árido e despovoado o bastante para a Força Aérea ter escolhido como cenário, há uma geração, a fim de quebrar a barreira do som, como explica Tom Wolfe nos brilhantes capítulos iniciais de Os eleitos:

Parece uma paisagem fossilizada que foi deixada para trás pela evolução do mundo. Repleta de leitos de lagos ressecados, sendo o lago Rogers o maior deles. Além da artemísia, as únicas plantas eram as árvores-de-josué, deformação aberrante no mundo vegetal, parecida com o cruzamento do cacto com o bonsai japonês. Têm uma cor verde-escura, sólida, com galhos estropiados. Ao anoitecer, as silhuetas das árvores-de-josué em meio ao deserto fossilizado se erguem como um pesadelo artrítico. No verão, como era de esperar, a temperatura subia a até 43° C e o leito seco dos lagos se cobria de areia, com a ocorrência de tormentas e tempestades de areia como em um filme sobre a Legião Estrangeira. À noite, a temperatura caía a ponto de quase congelar tudo e, em dezembro, começava a chover, o que fazia com que os lagos secos recebessem alguns centímetros de água e aparecesse uma espécie de camarão pré-histórico nojento, que se espalhava pela lama, enquanto gaivotas, vindas do oceano a centenas de quilômetros ou mais de distância e após terem sobrevoado montanhas, surgiam para abocanhar esses bichos contorcidos e arcaicos. É preciso ver para crer...

Com a passagem do vento, que leva essa fina camada de água para lá e para cá, o leito dos lagos fica totalmente liso e nivelado. Na primavera, quando a água evapora e o sol seca a terra árida, os leitos dos lagos se tornam a melhor e a maior pista natural de aterrissagem jamais imaginada, com enorme margem de erro para as manobras. E isso era algo bastante desejado, dada a natureza do empreendimento a ser realizado em Muroc:

Além do vento, da areia, de algumas plantas semelhantes ao amarilho e das árvores-de-josué, não havia nada em Muroc, com exceção de dois hangares pré-fabricados, um ao lado do outro, duas bombas de gasolina, uma pista de concreto, algumas choupanas com acabamento de betume e algumas tendas. Os oficiais ficavam nas choupanas, chamadas de “barracões”, e os seus inferiores nas tendas, congelando-se durante a noite e quase derretendo ao longo do dia. Cada estradinha, dentro da área, tinha uma guarita, aos cuidados de soldados. O empreendimento planejado pelas Forças Armadas para esse fim de mundo era o desenvolvimento do jato supersônico e de projetos espaciais com uso de foguetes.

Exercite bastante esse tipo de texto sobre viagem — e, quando falo em viagem, isso não quer dizer que você precise ir até o Marrocos ou até Mombaça. Vá até o centro comercial do seu bairro, a algum salão de boliche ou a alguma creche. Qualquer que seja o local sobre o qual vai escrever, visite-o o máximo de vezes a fim de extrair suas características diferenciadoras, aquilo que o torna algo particular. Normalmente, será uma combinação entre o próprio local e as pessoas que se encontram ali. Se for o seu salão de boliche, será uma mistura entre o clima que existe lá dentro e os seus frequentadores habituais. Se for uma cidade estrangeira, será uma mistura entre a velha cultura local e a população presente. Procure descobrir isso.

Um mestre na arte de captar esses detalhes foi o escritor inglês V. S. Pritchett, um dos melhores e mais versáteis autores de não ficção. Veja o que ele extraiu de uma visita a Istambul:

Istambul alimenta tanto a imaginação das pessoas, que a realidade acaba por chocar muitos viajantes. Não conseguimos tirar os sultões de nossa mente. Muitos de nós ainda esperamos encontrá-los imóveis, de pernas cruzadas, cheios de joias, estendidos em seu divã. Lembramos as histórias sobre haréns. A verdade é que Istambul não tem de que se vangloriar, a não ser de sua localização. É uma cidade com colinas íngremes, pavimentadas e barulhentas [...].

Em sua maioria, as lojas vendem tecidos, roupas, meias, calçados, com os ambulantes gregos correndo atrás, tecidos nos ombros, de cada potencial comprador, e os turcos esperando passivamente. Carregadores gritam; todo mundo grita; você se choca com cavalos, tem de desviar do caminho diante de tantas obras de pavimentação e, em meio a tudo isso, observa uma das imagens miraculosas da Turquia: um jovem sério carregando uma bandeja de prata sustentada por três correntes, com um pequeno copo de vidro com chá vermelho bem no centro da bandeja. Ele não derrama nenhuma gota; manobra, em meio a todo o caos, para levá-la ao seu chefe, que está sentado à porta de sua loja.

Percebe-se que há dois tipos de pessoas na Turquia: as que carregam coisas e as que ficam sentadas. Ninguém se senta de modo tão relaxado, tão categoricamente e com tanta beatitude quanto um turco; ele se senta com cada centímetro de seu corpo; até o seu rosto se senta. Ele se senta como se tivesse herdado essa arte de gerações e gerações de sultões do palácio da colina do Seraglio. Nada lhe agrada mais do que convidar você a se sentar com ele na sua loja ou em seu escritório junto com meia dúzia de outros homens igualmente sentados. Educadamente, perguntarão a sua idade, coisas sobre o seu casamento, o sexo de seus filhos, quantos parentes você tem, onde e como vive; e, depois, como os demais homens sentados, você limpará a garganta com uma enorme escarrada cujo barulho ultrapassará de longe o som de tudo o mais que possa ser ouvido em Lisboa, Nova York ou Sheffield, para então somar o seu silêncio ao de todos.

Gosto da frase “até o seu rosto se senta” — não mais do que seis palavras curtas, mas que contêm uma ideia tão imaginosa que nos pega de surpresa. E que nos diz muito sobre os turcos. Nunca mais conseguirei visitar a Turquia novamente sem prestar atenção nesses homens sentados. Com apenas uma rápida e perspicaz ideia, Pritchett captou uma característica nacional. Essa é a essência de um bom texto sobre outros países. Destilar o relevante daquilo que parece sem importância.

Os ingleses (como Pritchett me faz lembrar) sempre foram excelentes em uma forma peculiar de texto sobre viagens, o artigo que se diferencia menos por aquilo que o autor extrai do lugar do que por aquilo que o lugar extrai do autor. Novas paisagens geram pensamentos que de outra maneira não ocorreriam à mente do autor. Se viajar é ampliar horizontes, isso pode significar ampliar mais do que o conhecimento que se tem sobre o aspecto de uma igreja gótica ou sobre como os franceses produzem vinho. Viajar pode gerar uma constelação de ideias sobre como as pessoas trabalham e se divertem, criam seus filhos, cultuam suas divindades, vivem e morrem. Os livros de sábios aventureiros e apaixonados pelo deserto da Arábia, como T. E. Lawrence, Freya Stark e Wilfred Thesiger, que escolheu viver entre os beduínos, retiram muito de seu estranho poder das reflexões surgidas da necessidade de sobreviver em um meio ambiente tão inóspito e rarefeito.

Assim, quando escrever sobre um determinado lugar, procure retirar dele o que há de melhor. Mas, pensando no processo inverso, permita que ele retire também o melhor de você. Um dos livros de viagem mais ricos já escritos por um americano é Walden, embora Thoreau só tenha se afastado da cidade algo em torno de um quilômetro e meio.

No fim das contas, porém, o que dá realmente vida a um lugar é a atividade humana. Pessoas fazendo coisas é que conferem a um local a sua personalidade. Passados quarenta anos, ainda me lembro de quando li a dinâmica narrativa de James Baldwin, em Da próxima vez, o fogo, contando sua vida como jovem pregador em uma igreja do Harlem. Ainda carrego comigo a sensação de como era aquele santuário em um domingo de manhã, pois Baldwin foi muito além da mera descrição, rumo a um universo literário mais elevado, carregado de sons e ritmos, de fé e emoções compartilhadas:

A igreja era muito excitante. Levei muito tempo para me libertar dessa excitação e, em um nível mais profundo, mais visceral, nunca cheguei nem chegarei a libertar-me. Não há outra música como aquela, não há espetáculo como o do júbilo dos santos e dos lamentos dos pecadores, daquele toque dos pandeiros e aquelas vozes todas juntas rogando a Deus com ímpeto sagrado. Ainda hoje, não conheço nenhuma efusão como a daqueles rostos multicoloridos, cansados, mas, de alguma forma, triunfantes e transfigurados, vozes que surgiam das profundezas de um desespero visível, tangível e permanente para falar da bondade do Senhor. Nunca vi nada igual à incandescência e à excitação que às vezes, sem nenhum aviso, tomam conta de uma igreja, levando-a, como Leadbelly e tantos outros testemunharam, a “balançar”. Nada do que aconteceu comigo depois se iguala ao poder e à glória que eu às vezes sentia quando, no meio de um sermão, me dava conta de que estava, de alguma forma, por algum milagre, realmente carregando em mim, como eles dizem, “a Palavra” — quando a igreja e eu éramos uma coisa só. A dor e a alegria deles eram minhas também, e as minhas eram as deles. E os seus gritos de “amém!”, “aleluia!”, “sim, Senhor!”, “louvado seja o Seu nome!” e “fale, irmão!” sustentavam e estimulavam os meus próprios gritos até que nos tornávamos todos iguais, encharcados de suor, cantando e dançando, cheios de ânsia e de júbilo, ao pé do altar.

Não tenha medo de escrever sobre um lugar a respeito do qual ache que tudo já foi escrito. Ele não será o seu lugar até o momento em que você escrever sobre ele. Encarei eu mesmo esse desafio quando decidi escrever um livro, American Places [Lugares americanos], sobre quinze pontos altamente turísticos e cheios de clichês que tinham se tornado símbolos americanos ou que representavam uma ideia poderosa dos ideais e das aspirações dos americanos.

Nove dos meus lugares eram extremamente simbólicos: o monte Rushmore, as cataratas do Niágara, o Álamo, o Parque de Yellowstone, Pearl Harbor, o monte Vernon, Concord & Lexington, a Disneylândia e o Rockefeller Center. Cinco eram lugares que incorporavam uma ideia diferente sobre os eua: Hannibal (Missouri), a cidade da infância de Mark Twain, que ele usou para criar ao mesmo tempo os mitos do rio Mississippi e de uma infância ideal; Appomatox, onde a Guerra Civil terminou; Kitty Hawk, onde os irmãos Wright inventaram a aviação, símbolo dos eua como nação de gênios trapalhões; Abilene (Kansas), cidade rural de Dwight D. Einsenhower, símbolo dos valores das pequenas cidades americanas; e Chautauqua, vilarejo ao norte de Nova York que forjou a maior parte dos conceitos americanos de autodesenvolvimento e educação para adultos. Somente um dos meus lugares sagrados era novo: o Maya Lin’s Civil Rights Memorial, em Montgomery (Alabama), erguido em homenagem aos homens, mulheres e crianças assassinados durante o movimento pelos direitos civis no Sul. Com exceção do Rockefeller Center, eu nunca tinha visitado nenhum desses lugares e não conhecia nada sobre a sua história.

Meu método não foi o de abordar os turistas contemplando o monte Rushmore e perguntar: “O que você sente?”. Pois eu sabia o que eles responderiam: seria alguma coisa subjetiva (“É incrível!”) e, portanto, inútil para mim como informação. Em vez disso, procurei os responsáveis, as pessoas que cuidam desses lugares, e perguntei: por que você acha que 2 milhões de pessoas por ano vêm ver o monte Rushmore? Ou 3 milhões, no caso do Álamo? Ou, ainda, 1 milhão na ponte Concord? Ou 250 mil em Hannibal? O que essas pessoas buscam nesses lugares? Meu objetivo era conhecer por dentro as intenções próprias de cada um desses lugares: descobrir o que eles tentavam ser, e não aquilo que eu esperava ou queria que fossem.

Ao entrevistar homens e mulheres da região — guardas-florestais, curadores, bibliotecários, comerciantes, antigos moradores, as Filhas da República do Texas, membros da Associação de Senhoras do monte Vernon —, consegui chegar a um dos mais ricos filões à espera do autor que realmente procure saber o que são os Estados Unidos: a expressividade rotineira de pessoas que trabalham em um lugar que preenche necessidades de outras. Cito aqui coisas que responsáveis de três lugares diferentes me disseram:

monte rushmore: “À tarde, quando a luz do sol projeta sombras naquela cavidade”, disse Fred Banks, um dos guardas-florestais, “você sente que os olhos daqueles quatro senhores19 estão voltados diretamente para você, para qualquer lado que você vá. Estão perscrutando a sua mente, querendo saber o que você está pensando, fazendo você se sentir culpado: ‘Está fazendo a sua parte?’”.

kitty hawk: “Metade das pessoas que vêm a Kitty Hawk tem algum tipo de relação com a aviação e busca pelas raízes das coisas”, diz a superintendente Ann Childress. “Temos de trocar periodicamente algumas fotografias de Wilbur e Orville Wright porque os rostos ficam meio apagados, de tanto que os visitantes gostam de tocar na sua imagem. Os Wright eram rapazes simples que não tinham ido muito além do colegial em sua formação e, no entanto, fizeram algo extraordinário, em muito pouco tempo, com pouco dinheiro. Tiveram um êxito enorme — mudaram a nossa forma de viver — e eu penso: ‘Será que eu conseguiria ter tanta inspiração e trabalhar tão arduamente para criar alguma coisa dessa magnitude?’”.

parque yellowstone: “Visitar parques nacionais é uma tradição entre as famílias americanas”, diz o guarda-florestal George B. Robinson, “e o parque de que todo mundo já ouviu falar é o Yellowstone. Mas existe também uma razão mais escondida. Acho que as pessoas sentem uma necessidade inata de se reconectar com lugares de onde elas vieram. Um dos laços mais fortes que eu observei aqui é o laço entre os bem mais novos e os bem mais velhos. Eles estão mais próximos de suas origens”.

O forte conteúdo emocional do livro veio daquilo que extraí de outras pessoas. Eu não precisei me derramar nem em emoção nem em patriotismo. Cuidado com os derramamentos. Se está escrevendo sobre lugares sagrados ou significativos, deixe os exageros para outros. Uma coisa que aprendi assim que cheguei a Pearl Harbor foi que o encouraçado Arizona, afundado pelos japoneses em 7 de dezembro de 1941, continua a vazar cerca de um galão de óleo por dia. Quando, mais tarde, entrevistei o superintendente Donald Magee, ele lembrou que, logo depois de assumir o cargo, revogou uma determinação burocrática antiga que proibia crianças com menos de 1,15 metro de visitarem o Memorial do Arizona. O raciocínio por trás daquela interdição era que o comportamento dessas crianças poderia “impactar negativamente a experiência” de outros turistas.

“Não acredito que as crianças sejam imaturas a ponto de não poderem entender o que esse navio representa”, disse Magee. “Elas saberão muito bem do que se trata ao olharem o vazamento de óleo — ao perceberem que o navio ainda está sangrando.”


15. Serviço telefônico muito em voga nos anos 1950 que dava acesso a mensagens religiosas gravadas. (n.t.)

16. Referência às calças femininas que foram moda nos anos 1950. (n.t.)

17. Fundador e símbolo da rede de fast-food kfc. (n.t.)

18. Planta nativa do Texas. (n.t.)

19. O monte Rushmore é mundialmente conhecido por ter esculpido em sua encosta o rosto dos presidentes americanos George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln. (n.t.)