Escrever sobre pessoas: a entrevista
Levar as pessoas a falar. Aprender a fazer perguntas que provoquem respostas sobre o que há de mais interessante e intenso em sua vida. Nada estimula tanto a escrever como alguém falando sobre o que pensa ou o que faz — com as suas próprias palavras.
As palavras dessa pessoa sempre serão melhores do que as suas, mesmo que você tenha o estilo mais elegante do mundo. Elas carregam as inflexões do jeito que ela tem de falar, bem como as suas idiossincrasias ao formar uma frase. Elas contêm os regionalismos da sua fala e os jargões próprios de seu meio. Elas transmitem o seu entusiasmo. É uma pessoa falando diretamente com o leitor, não por intermédio de um escritor. Basta o escritor interferir nisso para que a experiência da outra pessoa, qualquer que seja ela, se transforme em algo de segunda mão.
Portanto, aprenda a conduzir uma entrevista. Seja qual for o seu gênero de não ficção, ele ganhará mais vida quanto mais “citações” você conseguir introduzir no texto. Muitas vezes você será obrigado a escrever matérias aparentemente tão insípidas — a história de uma instituição ou alguma questão local, como um bueiro de rua — que poderá fraquejar diante da dificuldade de manter os seus leitores, ou você mesmo, acordados.
Não desanime. Você encontrará uma solução se olhar para o aspecto humano da coisa. Em algum canto de uma instituição insossa sempre haverá pessoas altamente comprometidas e com grande conhecimento daquilo que fazem. Em algum lugar por trás de toda história sobre bueiros de rua sempre haverá algum político cujo futuro depende em boa parte da sua instalação e uma viúva que sempre morou naquele determinado quarteirão e se sente indignada com o fato de algum vereador imbecil achar que aquilo vai realmente resolver o problema das enchentes. Encontre essas pessoas e deixe que elas contem a história, e o seu texto não será insípido.
Eu mesmo comprovei isso várias vezes. Muitos anos atrás, fui convidado a escrever um pequeno livro para a Biblioteca Pública de Nova York, em comemoração do quinquagésimo aniversário de seu prédio principal, na Quinta Avenida. Aparentemente, seria apenas a história de um edifício de mármore que guarda milhões de exemplares cheios de mofo. Mas, por trás dessa fachada, descobri que a biblioteca possuía dezenove departamentos de pesquisa, cada qual com seu curador, responsável por um lote importante de tesouros e raridades — desde o manuscrito da carta de despedida de [George] Washington até 750 mil fotogramas de filmes. Decidi entrevistar esses curadores para saber o que havia nas coleções que eles administravam, o que eles acrescentavam a elas para poder acompanhar as novas áreas de conhecimento e como as suas salas eram usadas.
Descobri que o departamento de Ciência e Tecnologia tinha uma coleção de registros de patentes que só ficava atrás daquela existente no Escritório de Patentes dos Estados Unidos e que era, portanto, quase uma segunda casa para os advogados de patentes da cidade. Mas ele também recebia diariamente um afluxo de homens e mulheres que acreditavam estar na iminência de descobrir o moto-perpétuo. “Todo mundo quer inventar alguma coisa”, explicou o curador, “mas ninguém quer nos contar o que está buscando, talvez pelo medo de que nós mesmos registremos a patente”. O prédio inteiro acabou se mostrando uma grande mistura de estudiosos, pesquisadores e excêntricos, e meu texto, embora fosse aparentemente a história de uma instituição, era, na verdade, um texto sobre pessoas.
Adotei a mesma abordagem em um longo artigo sobre a Sotheby’s. A casa de leilões de Londres também era dividida em várias áreas, dedicadas à prata, à porcelana e à arte, cada uma sob a responsabilidade de um especialista, e, como a Biblioteca Pública de Nova York, convivia com um público excêntrico e cheio de caprichos. Os especialistas eram como dirigentes de departamento de uma pequena faculdade, e todos tinham histórias únicas tanto no conteúdo quanto na forma de contar:
“Simplesmente ficamos sentados aqui e aguardamos que as coisas cheguem até nós, como Micawber”,14 disse R. S. Timewell, que dirige o departamento de mobiliário. “Recentemente, uma velha senhora da região de Cambridge escreveu dizendo que precisava angariar 2 mil libras e perguntou se eu poderia ir até a casa dela para avaliar se seus móveis atingiriam esse montante. Foi o que eu fiz, mas não havia absolutamente nada de valor. Quando eu já estava saindo da casa, perguntei: ‘Será que eu vi realmente tudo?’. Ela respondeu que sim, com exceção do que existia em um quarto de empregada que ela não se preocupara em me mostrar. No entanto, nesse quarto havia um belo baú do século 18 que a velha senhora usava para guardar cobertores. ‘Suas preocupações acabarão’, eu lhe disse, ‘se a senhora vender esse baú’. Ela disse: ‘Mas isso não é possível. Onde eu vou guardar os meus cobertores?’.”
Minhas preocupações também tinham acabado. Ouvindo os especialistas excêntricos que tocavam o negócio e as pessoas que afluíam para lá todas as manhãs levando objetos indesejados encontrados nos sótãos britânicos (“Temo que isto não seja da época da rainha Anne, senhora; infelizmente, está mais para a rainha Vitória”), reuni todos os relatos humanos que um escritor poderia querer.
Mais uma vez, quando fui convidado, em 1966, a escrever um livro sobre a história do Clube do Livro do Mês, em comemoração dos seus quarenta anos de existência, achei que não conseguiria encontrar nada além de um material bastante insosso. No entanto, acabei deparando com casos humanos saborosos dos dois lados do balcão, pois os livros eram sempre escolhidos por uma equipe de jurados muito rígidos e depois enviados para assinantes igualmente exigentes, que não hesitavam em embrulhar e mandar de volta um livro de que não tinham gostado. Recebi mais de mil páginas com transcrições de entrevistas dadas pelos cinco primeiros jurados da história do clube (Heywood Broun, Henry Seidel Canby, Dorothy Canfield, Christopher Morley e William Allen White), às quais adicionei as que eu mesmo havia feito com o seu fundador, Harry Scherman, e com os jurados que estavam na ativa. O resultado foram quatro décadas de memórias pessoais mostrando a evolução do gosto dos leitores americanos, e até mesmo os livros acabaram ganhando vida própria, tornando-se personagens da minha história:
“Para qualquer pessoa que se lembre do sucesso fenomenal de ...E o vento levou”, disse Dorothy Canfield, “é certamente difícil imaginar como isso deve ter sido sentido por aqueles que o viam de início apenas como um livro muito longo e detalhado sobre a Guerra Civil e suas consequências imediatas. Nunca tínhamos ouvido falar naquela autora nem conhecíamos a opinião de mais ninguém sobre a obra. Ela foi selecionada com alguma dificuldade, porque algumas caracterizações não eram muito autênticas ou convincentes. Mas, como narrativa, tinha aquela qualidade que os franceses chamam de attention: você fica querendo virar logo a página para saber o que irá acontecer. Lembro-me de alguém ter comentado o seguinte: ‘Bem, as pessoas podem não gostar muito disso, mas ninguém pode negar que há leitura bastante para o dinheiro que foi gasto’. Devo dizer que o seu tremendo sucesso foi uma surpresa para todo mundo, inclusive para nós”.
Esses três exemplos são típicos do tipo de informação que fica trancado dentro da cabeça das pessoas e que um bom escritor de não ficção precisa destrancar. A melhor maneira de praticar isso é ir a campo e entrevistar pessoas. A entrevista, em si, é uma das formas de não ficção mais populares, por isso é importante dominá-la quanto antes.
Como começar? Primeiramente, escolha a pessoa que você quer entrevistar. Se você está na faculdade, não entreviste o seu colega de quarto. Com todo o respeito por seus maravilhosos companheiros, é muito provável que eles não tenham muita coisa a dizer que o restante de nós queira ouvir. Para aprender o ofício da escrita de não ficção, você precisa sair para o mundo real — seu bairro, sua cidade, seu estado — e atuar como se estivesse escrevendo para uma publicação de verdade. Se isso for útil, imagine uma publicação para a qual escreverá hipoteticamente. Escolha como tema alguma pessoa cuja atividade seja tão importante, tão interessante ou tão fora do comum que qualquer leitor médio gostaria de ler a respeito dela.
Isso não significa que tenha de ser o presidente de algum banco. Pode ser apenas o dono da pizzaria local, do supermercado ou do salão de beleza. Pode ser o pescador que sai todas as madrugadas para o mar, o treinador do time de beisebol ou uma enfermeira. Pode ser o açougueiro, o padeiro ou — melhor ainda, se conseguir encontrá-lo — o fabricante de castiçais. Atente para as mulheres da sua comunidade que desafiam os velhos mitos sobre o que cada sexo estaria destinado a fazer. Escolha, em suma, alguém que sensibilize algum cantinho da mente do leitor.
Entrevistar alguém é uma técnica em que você só tende a melhorar. Nunca mais irá se sentir tão pouco à vontade como quando entrevistou pela primeira vez e provavelmente nunca se sentirá absolutamente confortável incitando outra pessoa a dizer coisas de que ela talvez tenha vergonha ou que não se sente preparada o bastante para revelar. Mas boa parte dessa técnica é puramente mecânica. E o restante, instinto — saber como deixar o outro relaxado, quando pressioná-lo mais, quando ouvir, quando parar. Isso tudo pode ser adquirido com a experiência.
Os instrumentos básicos para realizar uma entrevista são papel e alguns lápis bem apontados. Será esse um conselho tão óbvio que chega a ser insultante? Pois você ficaria surpreso se soubesse quantos autores saem à caça de sua presa sem levar um lápis consigo, ou levando um que quebra na hora ou uma caneta que não funciona e, ainda por cima, sem carregar nada onde escrever. “Sempre alerta” é um lema tão apropriado para um escritor de não ficção em suas andanças quanto para um escoteiro.
Mas mantenha o seu bloco bem guardado até o momento em que realmente precise dele. Nada costuma deixar alguém menos relaxado do que a chegada de um estranho com um bloco de anotações na mão. Os dois precisam de um tempo para se conhecer. Use alguns minutos apenas para conversar, captar com que tipo de pessoa você está lidando, conquistar a sua confiança.
Nunca vá para uma entrevista sem ter feito antes a lição de casa. Se você for entrevistar um vereador da cidade, informe-se antes sobre o histórico de suas votações. Se a entrevistada for uma atriz, saiba em quais filmes ou peças de teatro ela atuou. Você se sentirá mal se tiver de perguntar ao entrevistado coisas sobre as quais já poderia ter se informado antes.
Faça uma lista de perguntas prováveis — isso o poupará do desconforto de ter um branco no meio da entrevista. Talvez você nem utilize essa lista; questões até melhores podem lhe ocorrer na hora ou a pessoa entrevistada pode entrar por um caminho que você não tinha como prever. Nesse caso, só a intuição poderá guiá-lo. Se o entrevistado se desvia demais do assunto, traga-o de volta. Se você gosta da nova direção que ele tomou, vá em frente e deixe de lado as perguntas que havia preparado.
Muitos entrevistadores iniciantes se deixam inibir pelo medo de estar incomodando a outra pessoa, de não ter o direito de invadir a sua privacidade. Esse temor é quase inteiramente infundado. O chamado homem comum adora quando alguém aparece para entrevistá-lo. A maioria das pessoas leva a vida, se não em um desespero silencioso, pelo menos em um silêncio desesperador, e vibra diante da possibilidade de falar sobre o seu trabalho para alguém surgido do nada e que se mostra fortemente interessado em ouvi-la.
Isso não quer dizer, necessariamente, que tudo dará sempre certo. Muitas vezes você irá deparar com pessoas que nunca foram entrevistadas antes e que podem se sentir constrangidas, acanhadas, talvez com dificuldade para entregar algo que possa ser útil ao seu trabalho. Volte outro dia; tudo vai correr melhor. Os dois começarão até mesmo a gostar da coisa — mostre que você não está querendo forçar as suas vítimas a fazer algo que elas não queiram fazer.
Por falar em ferramentas, você pode estar se perguntando se não seria bom usar um gravador. Por que não levar simplesmente um gravador, apertar o botão e esquecer esse negócio de lápis e bloco de anotações?
Obviamente, o gravador é uma ferramenta ótima para registrar o que as pessoas têm a dizer — especialmente as que, por razões culturais ou por temperamento, nunca escreverão, elas mesmas, sobre isso. Em áreas como história social e antropologia, é algo valioso. Admiro os livros de Studs Terkel como Hard Times: An Oral History of the Great Depression [Tempos difíceis — uma história oral da Grande Depressão], que ele “escreveu” gravando entrevistas com pessoas comuns e costurando os resultados em um formato coerente. Também gosto das entrevistas pingue-pongue que algumas revistas publicam, feitas com ajuda do gravador. Elas transmitem espontaneidade, com a agradável ausência de um escritor que ficaria protegendo e polindo o seu produto para deixá-lo mais brilhante.
Rigorosamente falando, porém, isso não é escrever. É um trabalho de fazer perguntas e depois desbastar, soldar e editar as respostas transcritas, o que dá muito trabalho e toma muito tempo. Pessoas com bom nível de instrução que você imaginava que haviam falado no seu gravador de forma linear e precisa demonstram, ao final, terem dado tantas voltas e tropeços involuntários de linguagem que não produziram uma única frase decente para publicação. Nossos ouvidos admitem falhas gramaticais, sintáticas e modulações que os olhos não tolerariam por escrito. A simplicidade propiciada pelo gravador é apenas aparente; seu uso implica infinitos retoques posteriores.
Mas meus motivos principais para alertar quanto ao uso do gravador são de ordem prática. Um risco, por exemplo, decorre de que normalmente você não está com um gravador; é bem mais provável que esteja com um lápis. Outro risco é o de o gravador não funcionar. Há poucos momentos tão deprimentes no jornalismo como aquele em que, depois de obter “uma matéria realmente sensacional”, o repórter chega da rua, aperta o “play” e tudo o que se escuta é um grande silêncio. Mas, acima de tudo, é importante que o escritor possa ver o material recolhido. Se a sua entrevista está gravada, você não vê, apenas ouve, mexendo no aparelho sem parar, retrocedendo para encontrar aquela passagem brilhante que quase nunca acha, avançando, parando, começando de novo, o que acaba por deixá-lo maluco. Seja um escritor. Escreva as coisas.
Faço minhas entrevistas manualmente, usando um lápis com grafite no 1. Gosto da troca que se dá com a outra pessoa. Gosto que essa pessoa me veja trabalhando — executando uma tarefa, e não apenas sentado ali enquanto uma máquina trabalha por mim. Houve somente uma vez em que usei bastante um gravador. Foi para o meu livro Mitchell & Ruff, sobre os músicos de jazz Willie Ruff e Dwike Mitchell. Embora eu conhecesse os dois muito bem, senti que um escritor branco que pretende escrever sobre a experiência dos negros tem a obrigação de registrar corretamente as diversas tonalidades da voz deles. Não que Ruff e Mitchell falem outro tipo de inglês; ao contrário, eles falam um inglês perfeito e frequentemente com muita expressividade. Mas, sendo negros do Sul, utilizam certas palavras e expressões próprias de suas origens, acrescentando riqueza e humor ao que dizem. E eu não queria perder nenhuma dessas especificidades. Meu gravador captou todas elas, e os leitores do livro podem sentir que os dois músicos estão bem presentes ali. Pense em usar o gravador nas situações em que você corre o risco de violar a integridade cultural das pessoas que for entrevistar.
Mas há também um grande problema no método de fazer anotações: muitas vezes, a pessoa que você está entrevistando começa a falar mais rápido do que a sua capacidade de anotar. Você ainda está registrando a frase A quando ela salta para a frase B. Você então deixa de lado a frase A e acompanha o entrevistado na frase B, tentando, ao mesmo tempo, guardar a frase A no seu ouvido interior e torcendo para que a frase C não tenha nenhuma importância, você possa saltá-la e usar esse tempo para tentar alcançar o entrevistado. Desgraçadamente, o sujeito agora começa a falar bem rápido e finalmente diz tudo aquilo que você ficou tentando arrancar dele durante mais de uma hora, e, ainda por cima, com uma expressividade digna de um discurso de Churchill. O seu ouvido interno já está entupido com frases que você quer registrar antes que se percam para sempre.
Peça a ele que pare. Basta dizer “só um momento, por favor”, e escreva até registrar tudo. O que você está tentando fazer com essa escrita febril é simplesmente citá-lo corretamente, afinal ninguém gosta de se ver citado de maneira equivocada.
Com a prática, você aprende a escrever mais rápido e a usar certas fórmulas taquigráficas. Você mesmo acabará criando abreviações para as palavras mais usadas e omitindo na anotação as pequenas conexões sintáticas. Assim que a entrevista terminar, preencha todas as palavras faltantes de que se recordar. Complete as frases que ficaram incompletas. A maioria delas ainda estará viva, prontinha para ser lembrada.
Ao chegar em casa, digite as anotações — que provavelmente parecerão garranchos quase ilegíveis — para poder lê-las, depois, com mais facilidade. Isso não só torna a entrevista acessível, juntamente com os outros materiais que você reuniu, como permite que você reveja com calma aquela torrente de palavras redigidas às pressas e, a partir daí, descubra o que a pessoa realmente disse.
Você verá que nem tudo o que ela disse é interessante ou pertinente e que a pessoa foi até mesmo repetitiva. Isole as frases mais importantes ou mais vibrantes. Você sentirá a tentação de usar todas as palavras constantes das suas anotações, pois executou a trabalhosa tarefa de registrá-las integralmente. Mas trata-se de autoindulgência — nada justifica obrigar o leitor a fazer o mesmo esforço. A sua função é destilar o que há de essencial.
Quais são os compromissos que você tem com o entrevistado? Em que medida você pode condensar ou ampliar as suas palavras? Essa questão incomoda todo escritor depois que ele finaliza a sua primeira entrevista, e tem mesmo de ser assim. Mas a resposta não é difícil, se você tiver em mente, sempre, dois critérios: concisão e equilíbrio.
O seu dever ético para com a pessoa entrevistada é apresentar a posição dela de modo correto. Se ela ponderou cuidadosamente os dois lados de uma questão e você cita apenas o que ela pensa sobre um dos lados, fazendo-a parecer favorável a este, estará expressando mal o que ela lhe disse. Assim como poderá fazer o mesmo colocando uma citação fora de contexto, ou escolhendo apenas uma observação feita de relance sem acrescentar a reflexão mais aprofundada feita posteriormente. Você está lidando com a honra e a reputação do entrevistado — e com a sua também.
Mas depois o seu dever é com o leitor. Ele merece receber o conjunto da forma mais bem-acabada possível. Muitas pessoas, ao falar, fogem às vezes do assunto, contando histórias irrelevantes ou trivialidades. Boa parte disso é gostoso ouvir, mas não deixa de ser apenas banalidade. A entrevista ganhará força quando você destacar os pontos principais, sem as firulas descartáveis. Assim, se encontrar na quinta página das suas anotações um comentário que reforça claramente uma observação registrada na segunda página — observação, portanto, feita anteriormente na entrevista —, você estará fazendo um grande favor a todos se juntar os dois raciocínios, de modo que a segunda frase possa ilustrar a primeira. Isso pode não refletir a sequência real da entrevista, mas você será fiel ao propósito de reproduzir o conteúdo do que foi dito. Jogue com as citações de várias maneiras — selecionando-as, rejeitando algumas, sintetizando, alterando a sua ordem, deixando uma boa citação para o final. Só tome cuidado para fazer tudo isso de forma justa e equilibrada. Não mude nenhuma palavra nem permita que a redução de uma frase distorça o contexto daquilo que vai permanecer.
Quando digo “não mude nenhuma palavra”, estou sendo literal? Sim e não. Se quem está falando escolhe as palavras com muita cautela, será uma questão de orgulho profissional, para você, citá-lo ipsis litteris. Muitos entrevistadores descuidam disso, achando que fazer uma aproximação grosseira já é suficiente. Não é: ninguém gosta de se ver citado usando palavras ou frases que nunca usaria. Mas, se o entrevistado fala de uma maneira atabalhoada — com frases que se desviam do assunto, pensamentos desordenados, ou se o seu linguajar é tão confuso que poderia até mesmo constrangê-lo —, o escritor não tem outra opção a não ser ajustar a sua fala e estabelecer as conexões que ficaram faltando.
Às vezes, procurando se manter fiel ao entrevistado, você pode cair em uma armadilha. Ao escrever o seu texto, transpõe as palavras dele com exatidão, tal como as colheu durante a entrevista. Sente até certa satisfação por conseguir manter essa fidelidade. Mais tarde, ao editar o que escreveu, você se dá conta de que muitas das citações não têm quase nenhum sentido. Quando as escutou pela primeira vez, soavam tão bem que você nem voltou a refletir sobre elas. Agora, repensando, constata que há uma lacuna no linguajar ou na lógica. Manter essa lacuna não ajudará em nada o leitor ou o entrevistado — e não servirá à reputação do escritor. Muitas vezes, basta acrescentar uma ou duas palavras esclarecedoras. Ou, então, você pode encontrar outras citações, nas suas anotações, que deixem mais claro o mesmo ponto. Lembre-se, também, de que você pode telefonar para a pessoa entrevistada. Diga-lhe que quer checar só algumas coisas do que ela disse. Faça com que ela reformule alguns aspectos até que tudo fique claro para você. Não se torne prisioneiro das citações — às vezes, elas soam tão bem e são tão reconfortantes que você nem se detém para analisá-las. Nunca publique algo que você mesmo não tenha entendido.
Quanto à organização da entrevista, o seu lide deve obviamente mostrar ao leitor por que vale a pena ler sobre aquela pessoa. Por que ela merece que lhe dediquemos tempo e atenção? Assim, procure estabelecer um equilíbrio entre o que o entrevistado diz com as palavras dele e o que você escreve com as suas palavras como autor do texto. Se você apenas citar a pessoa em três ou quatro parágrafos consecutivos, o texto se tornará monótono. As citações ganham vida quando você se interpõe entre elas periodicamente, assumindo o papel de condutor da leitura. Você ainda é o escritor — não abra mão do controle. Mas faça de tal modo que as suas intervenções sejam sempre úteis; não insira essas frases enfadonhas que mostram claramente ao leitor que seu objetivo é apenas criar um intervalo entre uma citação e outra (“Ele esvaziou o cachimbo em um cinzeiro que havia por perto e então pude notar como seus dedos são longos”; “Ela remexeu preguiçosamente a sua salada de rúcula”).
Ao usar uma citação, inicie com ela a frase. Não comece com uma oração insípida dita pela pessoa.
ruim: O senhor Smith diz que gosta “de ir até o centro uma vez por semana para almoçar com alguns velhos amigos”.
bom: “Gosto de ir ao centro uma vez por semana”, diz o senhor Smith, “para almoçar com alguns velhos amigos”.
A segunda frase tem vitalidade; a primeira é uma frase morta. Não há nada mais morto, de fato, do que começar uma frase com “o senhor Smith disse” — muitos leitores param de ler justamente aí. Se o sujeito disse isso, então deixe-o dizer, e a frase terá um início mais acalorado, mais humano.
Tome cuidado, no entanto, com a hora de interromper uma citação. Faça o quanto antes, porém de forma natural, para que o leitor saiba quem está falando, mas não ali onde a interrupção possa quebrar o ritmo ou o sentido da citação. Perceba como cada uma das três variantes a seguir provoca alguma espécie de dano ao texto:
“Gosto”, diz o senhor Smith, “de ir até o centro uma vez por semana para almoçar com alguns velhos amigos”.
“Gosto de ir ao centro”, disse o senhor Smith, “uma vez por semana para almoçar com alguns velhos amigos”.
“Gosto de ir ao centro uma vez por semana e almoçar”, diz o senhor Smith, “com alguns velhos amigos”.
Por fim, não force as coisas tentando encontrar sinônimos para “diz”. Não faça o seu entrevistado asseverar ou sustentar apenas para evitar a repetição de “diz ele” e, por favor — por favor! —, não escreva “sorriu” ou “deu um sorriso largo”. Nunca ouvi ninguém sorrir. E, de toda maneira, como o olho do leitor sempre acaba pulando o “disse”, não é preciso perder tempo com isso. Mas, se você realmente adora variações, então escolha sinônimos que captem de fato a natureza da mudança na fala do entrevistado. “Destaca”, “explica”, “retruca”, “acrescenta” — cada um desses verbos tem um significado específico. Mas não use “acrescenta” se a pessoa estiver simplesmente afirmando algo e não introduzindo um postscriptum ao que acabou de dizer.
Todas essas técnicas, porém, servem apenas para você poder seguir adiante. Como o entrevistado sempre saberá mais sobre o assunto em pauta do que você, a boa condução de uma entrevista é, em última instância, algo que depende bastante das características próprias e da personalidade do escritor. Algumas ideias sobre como controlar a ansiedade nessa situação desigual, aprendendo a confiar na própria inteligência, estão no capítulo “Prazer, medo e confiança”.
O uso adequado ou inadequado de citações tem virado notícia, por causa de alguns acontecimentos de muita visibilidade. Um deles foi o julgamento por calúnia e difamação de Janet Malcolm, que foi considerada culpada de “fabricar” algumas citações no perfil do psiquiatra Jeffrey M. Masson que ela publicou na New Yorker. O outro foi a revelação de Joe McGinniss de que, em sua biografia do senador Edward M. Kennedy, The Last Brother [O último irmão], havia “escrito certas cenas e descrito certos acontecimentos a partir daquilo que inferi[u] que fosse o seu ponto de vista”, ainda que nunca tenha entrevistado o próprio Kennedy. Essa indistinção entre realidade e ficção é uma tendência que preocupa os escritores de não ficção mais cuidadosos — trata-se de uma agressão ao ofício. É um terreno perigoso até mesmo para um repórter consciencioso. Lembro o trabalho de Joseph Mitchell para, a partir dele, sugerir algumas orientações. A costura sutilíssima de citações ao longo de sua prosa foi um traço distintivo da façanha realizada por Mitchell nos textos brilhantes que escreveu para The New Yorker entre 1938 e 1965, muitos deles tratando de pessoas que haviam trabalhado na zona portuária de Nova York. Essas reportagens exerceram uma enorme influência nos escritores de não ficção da minha geração — foram o nosso livro-texto.
As seis reportagens de Mitchell que acabariam por se transformar no livro The Bottom of the Harbor [O fundo da baía], um clássico da não ficção americana, foram publicadas de forma irritantemente errática na New Yorker entre o fim da década de 1940 e o começo da de 1950, em muitos casos com intervalos de vários anos entre uma e outra. Cheguei a perguntar, algumas vezes, a amigos meus da revista quando sairia a reportagem seguinte, mas eles nunca sabiam nem se propunham a tentar adivinhar. Era um trabalho equivalente à composição de um mosaico, diziam eles, e o seu autor era meticuloso ao extremo no processo de reunir as diferentes peças, só considerando o trabalho finalizado quando estivesse perfeito. Quando uma nova reportagem finalmente era publicada, eu entendia por que levara tanto tempo; ela era absolutamente perfeita. Lembro-me até hoje da emoção que senti ao ler “Mr. Hunter’s Grave” [O túmulo do senhor Hunter], meu texto predileto de Mitchell. É sobre um velho senhor de 87 anos da Igreja Metodista Africana, um dos últimos sobreviventes de um vilarejo de pescadores de ostras do século 19 chamado Sandy Ground, em Staten Island. Com The Bottom of the Harbor, o passado se tornou um personagem importante no trabalho de Mitchell, conferindo-lhe um tom ao mesmo tempo elegíaco e histórico. Aqueles idosos, que constituíam o seu principal assunto, detinham uma importante memória, estabelecendo um elo com uma Nova York antiga.
O parágrafo que reproduzo a seguir, em que George H. Hunter é citado falando sobre a erva-dos-cachos-da-índia, é característico das várias citações longas presentes em “Mr. Hunter’s Grave”, com o seu lento encadeamento de detalhes saborosos:
Logo que começa a primavera, os brotos sobre a raiz estão no ponto de serem comidos. Têm gosto de aspargo. As velhas senhoras de Sandy Ground tinham uma crença ligada ao broto de erva-dos-cachos-da-índia; todas as velhas senhoras do Sul. Diziam que ele renovava o sangue. Minha mãe acreditava nisso. Toda primavera ela me mandava para o meio do mato para pegar brotos de erva-dos-cachos-da-índia. E eu também acreditava. Então, toda primavera, quando penso nisso, vou atrás de alguns a fim de cozinhá-los. Não que eu goste muito — na verdade, me dão gases —, mas acontece que eles me fazem recordar esse passado, me lembrar de minha mãe. Aqui, no meio da floresta desta parte de Staten Island você pode achar que está no fim do mundo, mas subindo só um pouco pela estrada Arthur Kill, perto da avenida Arden, há uma curva de onde consegue às vezes enxergar o topo dos arranha-céus de Nova York. Só os arranha-céus mais altos, e só o topo deles. Tem de ser em um dia de céu bastante limpo. E, mesmo assim, pode ser que você consiga ver os prédios por apenas um instante e, logo depois, eles desapareçam. Bem do lado dessa curva da estrada há um pequeno brejo, e a beirada desse brejo é o melhor lugar que eu conheço para pegar erva-dos-cachos-da-índia. Nesta primavera, fui até lá em uma manhã para pegar um pouco de brotos, mas a primavera neste ano atrasou, você deve se lembrar, e a erva não tinha ainda aparecido. As samambaias já estavam lá, as aráceas também, as primaveras, as flores-d’água e as bluets, mas não havia sinal da erva-dos-cachos-da-índia. Procurei aqui e ali, sem prestar atenção onde pisava, e acabei dando um passo em falso, só sei que depois me vi afundado na lama até os joelhos. Fiquei me debatendo dentro da lama por um certo tempo, sem me apavorar, e então, quando levantei a cabeça e olhei para a frente, avistei subitamente, a uma boa distância, a quilômetros e quilômetros dali, o contorno dos arranha-céus de Nova York brilhando à luz do sol da manhã. Não esperava por isso, foi impressionante. Foi como uma visão bíblica.
É claro que ninguém deve imaginar que o senhor Hunter disse tudo isso de uma vez, de um fôlego só; Mitchell fez uma porção de emendas. No entanto, não tenho nenhuma dúvida de que o senhor Hunter disse tudo isso uma hora ou outra, de que todas as palavras e o fraseado são dele. Soam como sendo dele; Mitchell não escreveu a cena a partir daquilo que teria “inferido” do ponto de vista de seu entrevistado. Fez um ajuste de ordem literária ao dizer que gastou para isso apenas uma tarde de caminhada pelo cemitério, quando na verdade, sabendo como ele era paciente e cortês e conhecendo seus métodos meticulosos, imagino que esse texto tenha lhe tomado no mínimo um ano de caminhadas e conversas, sempre escrevendo e reescrevendo. Raramente li um texto tão rico em sua composição; a “tarde” de Mitchell tem a serenidade de uma tarde verdadeira. E, quando ela chega ao fim, o senhor Hunter, refletindo sobre a história da pesca de ostras na baía de Nova York, sobre a passagem das gerações em Sandy Ground, sobre famílias e nomes de famílias, modos de plantar e cozinhar, flores selvagens, frutas, pássaros e árvores, igrejas e funerais, mudança e decadência, acabou por tocar em quase tudo o que diz respeito à vida.
Não tenho nenhuma dificuldade para chamar “Mr. Hunter’s Grave” de não ficção. Embora Mitchell tenha alterado o verdadeiro tempo decorrido, ele utilizou uma prerrogativa dramática para sintetizar e dar um foco ao seu texto, oferecendo ao leitor, assim, uma composição viável. Se ele tivesse contado a história no tempo real, esticando-a ao longo de todos os dias e meses que deve ter passado em Staten Island, poderia realizar algo como o tão sonolento quanto realista filme de oito horas de duração em que Andy Warhol registrou um homem dormindo durante oito horas. Com uma manobra muito cautelosa, Mitchell elevou o ofício da não ficção à categoria de arte. Mas nunca manipulou a verdade do senhor Hunter. Não houve, aqui, nenhuma “inferência” ou “fabricação”. O escritor jogou limpo.
Esse é, enfim, o meu padrão. Sei que não é possível escrever uma entrevista de forma competente sem omitir ou enfeitar uma ou outra citação; não acredite em um escritor que diga que nunca fez isso. Mas há muitas outras nuances de opinião nos dois extremos da minha. Os puristas diriam que Joseph Mitchell usou uma varinha mágica de romancista para tratar de fatos. Os progressistas dirão que Mitchell foi um pioneiro, que antecipou em muitas décadas o new journalism, cuja invenção foi atribuída, nos anos 1960, a autores como Gay Talese e Tom Wolfe, que utilizaram técnicas de ficção, como diálogos imaginários e emoção, para dar um sabor narrativo a textos criados a partir de fatos cuidadosamente apurados. Essas duas visões são em parte corretas.
O errado, na minha opinião, seria fabricar citações ou supor que alguém poderia ter dito isto ou aquilo. Escrever é uma responsabilidade pública. O raro privilégio do autor de não ficção é poder contar com todo o mundo maravilhoso das pessoas reais para escrever sobre elas. Ao ouvir as pessoas, cuide daquilo que elas dizem como você cuidaria de um precioso presente.
14. Wilkins Micawber, personagem do romance David Copperfield, de Charles Dickens, caracterizado tanto pela pobreza como pelo otimismo quanto à possibilidade de angariar fortuna. (n.t.)