• Ivan Milazzotti
    Como escrever bem
    17-07-2025 19:15:01
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A não ficção como literatura

Alguns anos atrás, passei um fim de semana em Buffalo para dar uma palestra em um seminário de escritores organizado naquela cidade por um grupo de autoras. Essas mulheres levavam o seu ofício bastante a sério, e os livros e artigos que haviam escrito eram interessantes e consistentes. Pediram-me que participasse de um talk show de rádio que iria ao ar alguns dias antes, para ajudar na promoção do evento. Elas estariam com o apresentador do programa no estúdio, enquanto eu falaria ao telefone, de meu apartamento, em Nova York.

Na noite combinada, o telefone tocou e o apresentador começou saudando-me com aquela jovialidade forçada, típica da sua profissão. Disse que estava no estúdio em companhia de três mulheres adoráveis e que gostaria muito de saber o que nós achávamos da situação atual da literatura e quais conselhos teríamos para dar aos seus ouvintes que eram igualmente homens de letras e nutriam as suas próprias ambições literárias. Essa introdução tão acalorada caiu como uma pedra sobre nós, e nenhuma das três amáveis mulheres disse coisa alguma, o que me pareceu, a rigor, a resposta mais apropriada.

O silêncio se prolongou, e, ao final, acabei dizendo o seguinte: “Na minha opinião, deveríamos eliminar de agora em diante o uso de palavras como ‘literatura’, ‘literário’ e ‘homens de letras’”. Eu sabia que o apresentador estava informado a respeito de que tipo de escritores nós éramos e quais temas gostaríamos de discutir. Mas o fato é que ele não tinha outro quadro de referência para introduzir o tema. “Como vocês veem a produção literária atual nos Estados Unidos?”, perguntou — questão que também teve como resposta um silêncio eloquente. Por fim, eu disse: “Estamos aqui para falar sobre o ofício da escrita”.

Ele também não sabia muito bem o que fazer com isso, e começou então a lembrar nomes de autores como Ernest Hemingway, Saul Bellow e William Styron, que obviamente considerávamos monstros literários. Dissemos, no entanto, que esses autores não eram modelos para nós, mencionando outros nomes, como Lewis Thomas, Joan Didion e Gary Wills. Ele nunca tinha ouvido falar neles. Uma das senhoras mencionou Os eleitos, de Tom Wolfe, mas ele também nunca tinha ouvido falar dessa obra. Explicamos que admirávamos esses autores por sua habilidade em explorar as questões e preocupações do cotidiano.

“Mas vocês não pretendem escrever nada de literário?”, perguntou o apresentador. As três mulheres responderam que achavam já estar fazendo um belo trabalho. A partir daí o programa passou para outra etapa, em que o apresentador começou a receber telefonemas de ouvintes, todos eles interessados na questão da arte da escrita e querendo saber como víamos esse tópico. “Mesmo assim, no silêncio da noite”, perguntou o apresentador a vários ouvintes, “você nunca sonha em escrever o grande romance americano?”. Eles não pensavam nisso. Não tinham esses sonhos — nem no silêncio da noite, nem em algum outro momento do dia. Foi, com certeza, um dos piores programas de rádio de todos os tempos.

Essa história resume uma situação que todos os que praticam a não ficção reconhecem facilmente. Aqueles de nós que tentam escrever bem sobre o mundo em que vivemos, ou ensinar estudantes a escrever bem sobre o mundo em que eles vivem, se veem deslocados em um tempo em que a literatura por definição ainda consiste nos gêneros certificados como “literários” no século 19: romances, contos e poemas. E, no entanto, hoje em dia, o que os escritores escrevem e vendem, o que os editores de livros e de revistas publicam e o que os leitores pedem é, predominantemente, não ficção.

Inúmeros exemplos, de diferentes tipos, ilustram essa mudança. Um deles é a história do Book of the Month Club [Clube do Livro do Mês]. Quando esse clube foi criado por Harry Scherman, em 1926, os americanos tinham pouco acesso à nova literatura de qualidade e liam principalmente porcarias como Ben-Hur. A ideia de Scherman era que toda cidade que tivesse uma agência do correio teria também o equivalente a uma livraria, e ele passou então a enviar os melhores lançamentos para esses leitores recentemente conquistados no país inteiro.

A maior parte do que ele enviava era ficção. A relação das principais escolhas feitas pelo clube entre 1926 e 1941 é dominada claramente por romancistas: Ellen Glasgow, Sinclair Lewis, Virginia Woolf, John Galsworthy, Elinor Wylie, Ignazio Silone, Rosamond Lehmann, Edith Wharton, Somerset Maugham, Willa Cather, Booth Tarkington, Isak Dinesen, James Gould Cozzens, Thornton Wilder, Sigrid Undset, Ernest Hemingway, William Saroyan, John P. Marquand, John Steinbeck e muitos outros. Isso era o que havia de mais sofisticado em termos de “literatura” nos Estados Unidos. Os membros do Clube do Livro do Mês não tinham ouvido falar quase nada sobre a aproximação da Segunda Guerra Mundial. Pelo menos até 1940, quando a guerra chegou a eles por intermédio de um livro, Mrs. Miniver [de Jan Struther], um corajoso romance sobre os primeiros dias da batalha aérea entre as forças alemãs e britânicas.

Isso tudo mudou com Pearl Harbor. A Segunda Guerra mandou 7 milhões de americanos para outros continentes e lhes abriu os olhos para a realidade: para novos lugares, novas questões e novos acontecimentos. Depois da guerra, essa tendência foi reforçada pelo advento da televisão. Pessoas que entravam em contato com a realidade todas as noites em sua sala de estar começavam a perder a paciência com o ritmo lento e as alusões indiretas dos romancistas. Da noite para o dia, os Estados Unidos se tornaram um país preocupado com os fatos. A partir de 1946, os membros do Clube do Livro do Mês passaram a pedir — e, desde então, a receber — preferencialmente não ficção.

As revistas surfaram nessa mesma onda. A Saturday Evening Post, que por muito tempo alimentara seus leitores com uma dieta baseada unicamente em contos de escritores que pareciam, todos eles, ter três nomes — Clarence Budington Kelland, Octavus Roy Cohen —, deu a virada no começo dos anos 1960. Noventa por cento da revista passou a ser dedicado a textos de não ficção, com apenas um conto escrito por um autor-de-três-nomes para não dar aos leitores fiéis a ideia de que haviam sido abandonados. Era o começo da era de ouro da não ficção, especialmente na Life, que publicava todas as semanas artigos muito bem escritos, na New Yorker, que sofisticou o gênero ao criar grandes marcos da escrita americana moderna, como Silent Spring [Primavera silenciosa], de Rachel Carson, e A sangue frio, de Truman Capote, e na Harper’s, que trazia textos excepcionais como Os exércitos da noite, de Norman Mailer. A não ficção se tornou a nova literatura americana.

Hoje em dia, não há nenhum aspecto de nossa vida — do passado ou do presente — que não tenha se tornado acessível aos leitores comuns por homens e mulheres que escrevem com grande seriedade e elegância. Somem-se a essa literatura da realidade todas as disciplinas antes vistas como acadêmicas, como a antropologia, a economia e a história social, hoje tratadas por escritores de não ficção e lidas de modo geral por pessoas curiosas. Somem-se, ainda, todos os livros que misturam história e biografia e que marcaram o mercado editorial americano nos últimos anos: Truman e The Path Between the Seas [O caminho entre os mares], de David McCullough; The Power Broker: Robert Moses and the Fall of New York [O mediador do poder: Robert Moses e a queda de Nova York], de Robert A. Caro; Parting the Waters: America in the King Years, 1954-63 [Separando as águas: a América nos anos King], de Taylor Branch; The Paper: The Life and Death of the New York Herald Tribune [O jornal: a vida e a morte do New York Herald Tribune], de Richard Kluger; The Making of the Atomic Bomb [A fabricação da bomba atômica], de Richard Rhodes; From Beirut to Jerusalem [De Beirute a Jerusalém], de Thomas L. Friedman; Common Ground: A Turbulent Decade in the Lives of Three American Families [Ponto de convergência: uma década turbulenta na vida de três famílias americanas], de J. Anthony Lukas; Theodore Rex, de Edmund Morris; The Promised Land: The Great Black Migration and How it Changed America [A Terra Prometida: a grande migração negra e como ela mudou os eua], de Nicholas Lemann; King Leopold’s Ghost: A Story of Greed, Terror and Heroism in Colonial Africa [O fantasma do rei Leopoldo: uma história de ambição, terror e heroísmo na África colonial], de Adam Hochschild; Walter Lipman and the American Century [Walter Lipman e o século americano], de Ronald Steel; Mencken: The American Iconoclast [Mencken: o iconoclasta americano], de Marion Elizabeth Rodgers; Lenin’s Tomb: The Last Days of the Soviet Empire [O túmulo de Lênin: os últimos dias do império soviético], de David Remnick; Melville, de Andrew Delbanco; De Kooning: An American Master [De Kooning: um mestre americano], de Mark Stevens e Annalyn Swan. Minha lista de títulos da nova literatura de não ficção, em resumo, incluiria todos os autores que trabalham com a informação e que a apresentam com vigor, clareza e sensibilidade.

Não estou dizendo que a ficção está morta. Obviamente, um romancista pode nos levar a lugares aonde nenhum outro escritor consegue chegar: as emoções profundas e a vida interior de cada um de nós. O que estou dizendo, sim, é que não tenho paciência para o esnobismo dos que veem a não ficção apenas como um outro nome do jornalismo e para quem o jornalismo, qualquer que seja o nome que este venha a ter, é sempre coisa de segunda categoria. E, já que estamos redefinindo a literatura, vamos redefinir também o jornalismo. Jornalismo é todo texto que se lança primeiramente em alguma publicação periódica, quaisquer que sejam os seus leitores. Os primeiros dois livros de Lewis Thomas, As vidas de uma célula e A medusa e a lesma, foram escritos inicialmente como ensaios para o New England Journal of Medicine. Historicamente, nos Estados Unidos, o bom jornalismo acaba virando boa literatura. Antes de serem canonizados no templo da literatura, H. L. Mencken, Ring Lardner, Joseph Mitchell, Edmund Wilson e dezenas de outros grandes escritores americanos eram jornalistas. Simplesmente faziam o que sabiam fazer de melhor e nunca se preocuparam com definições.

Em última análise, cada escritor deve seguir o caminho em que se sinta mais confortável. Para a maioria das pessoas que estão aprendendo a escrever, esse caminho é a não ficção. Ela as habilita a escrever sobre aquilo que conhecem, que podem observar ou descobrir. Isso vale especialmente para jovens e estudantes. Eles escreverão com muito mais disposição sobre assuntos que digam respeito à vida deles ou para os quais já possuam uma aptidão. A motivação é um ingrediente central da escrita. Se a não ficção é o gênero no qual você consegue escrever melhor ou o que consegue ensinar melhor a escrever, não se deixe enganar pela ideia de que se trata de uma escrita de espécie inferior. A única distinção importante a ser feita é entre escrever bem e escrever mal. Texto bom é texto bom, qualquer que seja a sua forma e qualquer que seja o nome que se dê a ele.