Miscelânea
Este capítulo é como uma colcha de retalhos: pequenos conselhos sobre vários pontos que reuni, como se diz, sob um mesmo guarda-chuva.
Verbos
Use os verbos sempre na voz ativa, a não ser que não haja uma maneira confortável de se desvencilhar do uso da voz passiva. Para um escritor, a diferença entre um estilo com verbo na ativa e um estilo com verbo na passiva, em termos de clareza e força, é a mesma que entre a vida e a morte.
“Joe o viu” é forte. “Ele foi visto por Joe” é fraco. A primeira frase é curta e precisa; não deixa dúvidas sobre quem fez o quê. A segunda é obrigatoriamente mais longa e tem um tom insípido: alguma coisa foi feita por alguém para alguém. E é também ambígua. Com que frequência ele foi visto por Joe? Uma vez? Todos os dias? Uma vez por semana? Um estilo construído com voz passiva acaba por sugar energia do leitor. Ninguém sabe muito bem o que está sendo perpetrado por quem e para quem.
Usei “perpetrado” por ser o tipo de palavra que os escritores de voz passiva adoram. Eles preferem as palavras mais longas de origem latina às palavras curtas anglo-saxãs — o que acoberta as suas dificuldades e deixa as suas frases ainda mais enjoadas. Curto é melhor do que longo. Das 701 palavras contidas no segundo discurso de posse de Lincoln, uma maravilha em si mesmo em termos de economia de texto, 505 têm apenas uma sílaba e 122 são palavras com duas sílabas.
O verbo é a principal de todas as suas ferramentas. Ele empurra a frase adiante e incute nela o seu ímpeto. Verbos na voz ativa empurram mais; verbos na passiva arrastam a frase aos trancos e barrancos. Verbos na voz ativa também nos permitem visualizar uma ação, pois exigem um pronome (“ele”), um substantivo (“o menino”) ou uma pessoa (“sra. Scott”) para pô-lo em movimento. Muitos verbos também carregam uma imagem ou uma sonoridade sugestiva de seu próprio significado: glitter [brilhar], dazzle [fascinar], twirl [girar], beguile [divertir, enganar], scatter [espalhar, difundir], swagger [induzir, bravatear], poke [empurrar, cutucar], pamper [mimar], vex [irritar, perturbar, discutir a fundo]. É provável que nenhuma outra língua disponha de um suprimento tão amplo de verbos vibrantes e expressivos como a inglesa. Não opte por um que seja apático ou meramente funcional. Faça com que os verbos na voz ativa ativem a sua frase e evite aqueles que requerem outro verbo para completar o seu trabalho. Não ponha para funcionar um negócio que você possa tocar ou lançar. Não diga que o presidente da empresa se afastou. Ele renunciou? Ele se aposentou? Foi demitido? Seja preciso. Utilize verbos precisos.
Se você quiser ver como os verbos na voz ativa transmitem vitalidade à palavra escrita, não retome apenas Hemingway, Thurber ou Thoreau. Eu recomendo a Bíblia do rei James e William Shakespeare.
Advérbios
A maioria dos advérbios é dispensável. Você vai sobrecarregar a sua frase e irritar o leitor se escolher um verbo que possui um significado específico e depois acrescentar um advérbio que tem o mesmo significado. Não diga que o rádio berrou estridentemente; “berrou” já indica estridência. Não escreva que uma pessoa apertou os dentes firmemente; não há outra forma de apertar os dentes. Sempre acontece na escrita desleixada que verbos fortes sejam enfraquecidos por advérbios redundantes. O mesmo ocorre com adjetivos e outros instrumentos discursivos: “simplesmente fácil”, “ligeiramente espartano”, “totalmente pasmo”. A beleza de “pasmo” está em que implica um espanto que já é total; não consigo imaginar uma pessoa parcialmente pasma. Se uma ação é tão fácil a ponto de ser simples, use “fácil”. E o que é “ligeiramente espartano”? Talvez a cela de um monge com piso todo acarpetado. Não use advérbios, a não ser que eles cumpram uma função necessária. Poupe-nos da notícia de que o atleta vencedor sorriu largamente.
E, já que estamos tratando disso, aproveitemos para eliminar “decididamente” e todos os seus parentes manhosos. Vejo nos jornais todos os dias que algumas circunstâncias são decididamente melhores e outras decididamente piores, mas nunca sei quão decidido é um melhoramento, ou quem executou a decisão, assim como nunca consigo saber quão notável é um resultado notavelmente justo ou se devo acreditar em um fato que é provavelmente verdadeiro. “Ele é provavelmente o melhor lançador do Mets”, escreve o elegante cronista esportivo, aspirante ao Parnaso que Red Smith alcançou sem nunca usar palavras como “provavelmente”. Será o lançador — e isso pode ser provado com argumentos — o melhor lançador do time? Se sim, por favor esqueça o “provavelmente”. Ou ele é talvez — a opinião está aberta a discussões — o melhor lançador? Com toda sinceridade, eu não sei. É, virtualmente, algo para tirar no cara ou coroa.
Adjetivos
A maioria dos adjetivos também é dispensável. Como os advérbios, eles são distribuídos nas frases por escritores que não param para pensar que o conceito já está no substantivo. Esse tipo de texto é permeado de rochedos escarpados e teias de aranha rendadas ou de adjetivos denotando a cor de um objeto cuja cor já é conhecida de todos: narcisos amarelos ou excremento marrom. Se você quer emitir algum juízo de valor sobre narcisos, escolha um adjetivo como “espalhafatoso”. Se você está em um lugar do país onde o excremento é vermelho, sinta-se livre para mencionar o excremento vermelho. Esses adjetivos cumprirão uma função que o substantivo, sozinho, não poderia cumprir.
A maioria dos autores semeia adjetivos quase inconscientemente pelo solo do seu texto para torná-lo mais viçoso e belo, e as frases vão ficando cada vez mais longas à medida que as preenchem com olmos frondosos, gatinhos travessos, detetives durões e lagoas plácidas. É o adjetivo-por-hábito — um hábito que você deveria extinguir. Nem todo carvalho precisa ser retorcido. Um adjetivo colocado apenas de modo decorativo reflete uma autoindulgência do autor e constitui um peso para o leitor.
Mais uma vez, a regra é simples: faça os seus adjetivos cumprirem uma função que seja necessária. “Ele olhou para o céu cinzento e para as nuvens negras e decidiu retornar para o porto.” O céu e as nuvens escuras são o motivo da decisão. Se é importante dizer ao leitor que uma casa era sombria ou que uma garota era bonita, então use “sombria” e “bonita”. Essas palavras ganharão força porque você terá aprendido a usar os adjetivos com moderação.
Pequenos qualificativos
Suprima as pequenas palavras e expressões que qualificam o modo como você sente, como você pensa ou o que você viu: “um pouco”, “meio”, “uma espécie de”, “um tipo de”, “um tanto”, “bastante”, “muito”, “demais”, “quase”, “em certo sentido” e outras tantas. Elas diluem o seu estilo e o seu poder de persuasão.
Não diga que estava um pouco confuso, meio cansado e um tanto deprimido e bastante aborrecido. Esteja confuso. Esteja cansado. Esteja deprimido. Esteja aborrecido. Não tolha o seu texto com pequenos acanhamentos. A boa escrita é enxuta e segura.
Não diga que você não ficou muito contente porque o hotel era caro demais. Diga que você não ficou contente porque o hotel era caro. Não diga que você teve um bocado de sorte. Um bocado é quanto? Não descreva um evento como bastante espetacular ou muito incrível. Palavras como “espetacular” e “incrível” não admitem gradações. “Muito” é uma palavra útil para dar ênfase, mas na maior parte das vezes é excessiva. Não é preciso chamar alguém de muito metódico. Ou ele é metódico, ou não é.
A questão principal diz respeito à autoridade. Cada pequeno qualificativo elimina uma fração da confiança do leitor. Os leitores querem um escritor que acredite em si mesmo e naquilo que está dizendo. Não abale essa crença. Não seja um tanto contundente. Seja contundente.
Pontuação
Exponho aqui breves reflexões sobre pontuação, que não pretendem constituir uma cartilha. Se você não sabe pontuar — e muitos estudantes universitários ainda não sabem —, compre uma gramática.
O ponto final
Não há muita coisa a ser dita sobre o ponto final, a não ser que a maioria dos escritores não chega a ele tão cedo quanto deveria. Se você se vê desesperadamente atolado em uma sentença muito longa, provavelmente é porque está tentando fazê-la dar mais do que ela pode dar de forma razoável — talvez expressando duas ideias diferentes, por exemplo. O caminho mais rápido para solucionar isso é quebrar a longa sentença em duas ou até mesmo três. Aos olhos de Deus, não há uma extensão mínima admissível para um período. Em bons autores, o que predomina são as frases curtas — e não me venha falar de Norman Mailer, que esse é um gênio. Se você quer escrever sentenças longas, seja um gênio. Ou pelo menos tenha certeza de que elas estão sob seu controle do começo ao fim, em termos de sintaxe e pontuação, de maneira que, a cada passo da sinuosa trilha, o leitor saiba onde está.
O ponto de exclamação
Não o utilize, a não ser que precise produzir um efeito determinado. Ele tem uma aura de arrebatamento, a excitação ofegante de uma debutante comentando um evento que foi excitante apenas para ela: “Papai diz que devo ter bebido champanhe demais!”. “Mas, honestamente, eu poderia ter dançado a noite inteira!” Todos nós sofremos mais do que admitimos com essas frases em que um ponto de exclamação nos cai sobre a cabeça com a apreciação de quanto uma pessoa é bela ou atraente. Em vez de fazer isso, construa as suas frases de modo que a ordem das palavras coloque a ênfase onde você quiser. Resista a adotar um ponto de exclamação para alertar o leitor de que você está fazendo uma brincadeira ou sendo irônico. “Nunca me ocorreu que pistolas de água precisassem ser carregadas!” Os leitores se irritam com a lembrança de que se trata de uma frase engraçada. Eles também perdem o prazer de achar isso engraçado por conta própria. O humor é mais bem-sucedido se for sugerido, e não há nenhuma sutileza em um ponto de exclamação.
O ponto e vírgula
Há um ranço de século 19 pairando sobre o ponto e vírgula. Ele é associado a frases cuidadosamente balanceadas, a ponderações criteriosas do tipo “por um lado” e “por outro lado”, de Conrad, Thackeray e Hardy. Por isso, deveria ser usado parcimoniosamente pelos escritores modernos de não ficção. No entanto, observo que ele aparece com alguma frequência em trechos que citei neste livro e que eu mesmo o utilizo bastante — normalmente para acrescentar alguma ideia relacionada à primeira metade da frase. Com efeito, o ponto e vírgula leva o leitor, se não a uma parada, ao menos a uma pausa. Portanto, use-o com discrição, lembrando que ele vai reduzir a um passo vitoriano o ímpeto do início do século 21 que você persegue. Em vez dele, conte mais com o período bem construído e o travessão.
O travessão
De alguma forma, essa inestimável ferramenta é amplamente vista como não muito apropriada — um grosseirão sentado à refinada mesa de jantar da linguagem correta. Mas ele tem o seu lugar garantido e é capaz de tirar você de muitas enrascadas. O travessão é usado de duas maneiras. Uma é para amplificar ou justificar na segunda parte de uma frase uma ideia que você expôs na primeira. “Decidimos seguir em frente — seriam apenas mais 150 quilômetros e poderíamos chegar lá a tempo de pegar o jantar.” Pela sua própria forma, o travessão empurra a frase para a frente e explica por que eles decidiram seguir adiante. O outro uso envolve dois travessões, que destacam uma ideia parentética dentro de uma frase mais longa. “Ela me disse para entrar no carro — tinha me pressionado o verão inteiro para cortar o cabelo — e dirigimos silenciosamente até a cidade.” Um detalhe explicativo que de outra maneira teria exigido uma frase separada é resolvido concisamente no meio do caminho.
Dois-pontos
Os dois-pontos começaram a ser vistos como até mais ultrapassados do que o ponto e vírgula, e muitas de suas funções foram assumidas pelo travessão. Mas ele ainda cumpre bem o seu papel original de conduzir a sua frase a uma breve parada antes de você mergulhar, digamos, em uma listagem discriminativa. “O folheto dizia que o navio pararia nos seguintes portos: Oran, Argel, Nápoles, Brindisi, Pireu, Istambul e Beirute.” Você não tem como dispensar os dois-pontos para esse tipo de necessidade.
Alteradores de tom
Aprenda a alertar o leitor quanto antes sobre qualquer mudança de tom em relação à frase anterior. Pelo menos uma dúzia de palavras ou expressões pode desempenhar essa função para você: “mas”, “no entanto”, “todavia”, “contudo”, “apesar disso”, “em vez disso”, “dessa maneira”, “por isso”, “enquanto isso”, “agora”, “mais tarde”, “hoje”, “subsequentemente” e muitas outras. Não saberia enfatizar o suficiente quanto você facilita o entendimento da frase pelo leitor quando inicia uma mudança de direção com um “mas”. Ou, no sentido inverso, quanto a coisa fica difícil se ele precisa aguardar até o fim para entender que você deu uma virada.
Muitos de nós aprendemos que não se deve começar uma frase com “mas”. Se você aprendeu assim, desaprenda — não existe palavra mais forte do que essa para começar. Ela anuncia um contraste total com o que veio antes, e o leitor, com isso, se prepara para a mudança. Se você precisa mudar um pouco para não usar “mas” em muitas frases seguidas, troque por “todavia”. Trata-se, todavia, de uma palavra mais fraca e que requer uma colocação cuidadosa. Não comece com “todavia” — ela fica pendurada na frase como um pano de prato úmido. E não finalize com “todavia” — a essa altura, ela já terá perdido sentido. Coloque-a tão no início quanto possível, como eu fiz três frases acima. Seu caráter abrupto, assim, torna-se uma virtude.
Se colocada no início da frase, qualquer uma dessas palavras — “Porém, ele decidiu ir” ou “Contudo, ele decidiu ir” — pode substituir uma frase longa que resume o que acabou de ser dito para o leitor: “Apesar do fato de todos esses perigos terem sido expostos a ele, ele decidiu ir”. Procure encontrar todos os lugares onde uma dessas palavras curtas forneceria imediatamente o mesmo sentido que uma longa e horrível oração. “Em vez disso, peguei o trem.” “Apesar disso, tinha de admirá-lo.” “Dessa maneira, aprendi a fumar.” “Por isso, ficou fácil encontrar com ele.” “Enquanto isso, eu estava falando com John.” Quanta tagarelice nos é poupada por essas palavras tão essenciais! (O ponto de exclamação é para mostrar que eu realmente acredito nisso.)
Quanto a “agora”, “hoje”, “enquanto isso”, “mais tarde”, o que elas evitam é a confusão, pois escritores desleixados frequentemente mudam o enquadramento temporal sem se lembrar de dar pelo menos uma dica ao leitor. “Agora eu estou mais esperto.” “Hoje você não poderá encontrar esse item.” “Mais tarde, descobri por quê.” Mantenha sempre o seu leitor orientado. Sempre se pergunte onde o deixou na frase anterior.
Substantivos abstratos
Substantivos que exprimem um conceito são normalmente usados em textos ruins no lugar de verbos que expressam o que uma pessoa fez. Seguem-se três frases tipicamente malfeitas:
A reação comum é uma risada incrédula.
Um cinismo estúpido não é a única resposta para o velho sistema.
A atual hostilidade do campus é um sintoma de mudança.
O que torna tão estranhas essas frases é que elas não contêm nenhuma pessoa. Tampouco possuem verbos de ação — apenas é ou não é. O leitor não tem como visualizar alguém executando alguma coisa; todo o sentido repousa em substantivos impessoais que incorporam algum conceito vago: “reação”, “cinismo”, “resposta”, “hostilidade”. Mude totalmente essas frases frias. Coloque pessoas fazendo coisas:
A maioria das pessoas apenas ri com descrédito.
Certas pessoas respondem ao velho sistema tornando-se cínicas; outras dizem...
É fácil perceber a mudança — você pode ver como os estudantes estão irados.
Essas minhas frases corrigidas não têm tanto vigor, em parte porque o material para o qual tentei dar alguma forma não tem consistência. Mas pelo menos elas contêm pessoas e verbos verdadeiros. Não se deixe apanhar com uma mala carregada de substantivos abstratos. Você vai submergir até o fundo do lago e nunca mais será visto.
Substantivismo rastejante
Trata-se de uma nova enfermidade americana que enfileira três ou quatro substantivos onde um substantivo só — ou, melhor ainda, um verbo — bastaria. Agora, ninguém quebra; temos setores com problemas de dinheiro. Não chove mais; temos atividades de precipitação ou um caso de probabilidade de tempestade. Por favor, deixe chover.
Hoje em dia, quatro ou cinco substantivos abstratos se ligam uns aos outros, como uma estrutura molecular. Eis um brilhante espécime que encontrei recentemente: “Intervenções em desenvolvimento de técnicas de facilitação da comunicação”. Nenhuma pessoa à vista, tampouco algum verbo de ação. Pelo que entendi, trata-se de um programa para ajudar estudantes a escrever melhor.
Exageros
“Parecia que uma bomba atômica tinha caído na sala de estar”, escreve o autor iniciante, descrevendo o que ele viu na manhã do domingo depois de uma festa que saiu do controle. Bem, todos sabemos que ele está exagerando para fazer alguma graça, mas também sabemos que não caiu nenhuma bomba atômica ali, nem alguma outra bomba, exceto, talvez, uma bomba-d’água. “Eu me sentia como se dez 747 estivessem voando dentro da minha cabeça”, escreve ele, “e pensei seriamente em me atirar pela janela”. Essas altas estripulias verbais podem ser assim tão altas — e esse autor já passou bastante do limite — até o ponto em que o leitor sente uma sonolência irresistível. É como estar preso com um homem que fica recitando limericks sem parar. Não exagere. Você não pensou realmente em se jogar pela janela. A vida já tem muitas situações horrivelmente engraçadas e verdadeiras. Deixe o humor se insinuar de tal maneira que quase não percebamos a sua chegada.
Credibilidade
A credibilidade é algo tão frágil para um escritor quanto para um presidente. Não infle um incidente para torná-lo mais extraordinário do que ele realmente é. Se o leitor o flagra, nem que seja em uma única afirmação falsa que você está tentando fazer passar por verdadeira, tudo o que escrever depois se tornará suspeito. É um risco grande demais, que não vale a pena.
Ditado
Muito daquilo que se “escreve” nos Estados Unidos é na verdade ditado. Administradores, executivos, gerentes, educadores e outros funcionários raciocinam em termos da máxima eficiência possível no uso do tempo. Eles acreditam que a maneira mais rápida de “escrever” alguma coisa é ditando-a para uma secretária, sem nunca sequer ler o que saiu dali. Trata-se de uma falsa economia — eles poupam algumas horas, mas liquidam toda a sua personalidade. O ato de ditar frases tende a torná-las pomposas, descosidas e redundantes. Executivos que são tão ocupados que não conseguem deixar de ditar deveriam ao menos encontrar tempo para editar o que ditaram, retirando algumas palavras, introduzindo outras, para se certificar de que o que eles, no fim das contas, escreveram reflete realmente aquilo que são, em especial quando se trata de um documento dirigido a consumidores que vão avaliar a sua personalidade e a sua empresa com base no seu estilo.
Escrita não é competição
Cada autor começa a partir de um determinado ponto e avança rumo a um destino específico. No entanto, muitos escritores se deixam paralisar pela ideia de estar competindo com os outros que também tentam escrever e que, supostamente, fariam isso melhor. É o que ocorre com frequência em aulas de escrita. Estudantes inexperientes sentem um calafrio ao ver que estão na mesma turma de colegas que já assinam artigos no jornal da faculdade. Mas escrever para o jornal da faculdade não é nenhuma grande credencial. Sempre achei que as lebres que escrevem nesses jornais são ultrapassadas pelas tartarugas que avançam meticulosamente para atingir a meta de realmente dominar o ofício da escrita. O mesmo temor tolhe os escritores freelances que veem o trabalho de outros autores aparecerem em revistas enquanto os deles sempre chegam de volta pelo correio. Esqueça a competição e avance no seu próprio ritmo. Seu único concorrente é você mesmo.
O subconsciente
Seu subconsciente escreve mais do que você imagina. Será comum gastar um dia inteiro tentando abrir caminho em meio a um cipoal de palavras em que você parece emaranhado para sempre. A solução, frequentemente, surgirá na manhã seguinte, quando você se enfiar ali de novo. Enquanto dormia, a sua mente de escritor estava acordada. Um escritor está trabalhando o tempo todo. Esteja sempre atento para o que se passa ao seu redor. Muito daquilo que você vê e escuta acaba voltando, depois de adquirir forma ao longo de dias, meses e até anos no seu subconsciente, justamente quando o seu consciente, esforçando-se para escrever, mais necessita.
O remédio mais rápido
Com mais frequência do que se supõe, um problema difícil de resolver em uma frase pode ser solucionado por simples descarte. Infelizmente, essa saída costuma ser a última a ocorrer a autores que se veem em uma situação de aperto. De início, tentam fazer todo tipo de emenda na frase problemática — transferindo-a para outro lugar dentro do período, tentando reescrevê-la, acrescentando novas palavras para clarear a ideia ou tentando azeitar a engrenagem emperrada. Esses esforços só fazem piorar a situação, e o autor é levado a concluir que não existe solução para o problema — um pensamento nada reconfortante. Quando se vir em um impasse desses, observe bem o ponto problemático e pergunte: “Preciso mesmo disso?”. Provavelmente a resposta será “não”. A pecinha estava tentando fazer um trabalho desnecessário o tempo todo — e é por isso que ela o afligia tanto. Remova-a e veja como o trecho em questão volta a ganhar vida e a respirar normalmente. É a cura mais rápida e, muitas vezes, a melhor.
Parágrafos
Faça parágrafos curtos. Escrever é algo visual — as letras capturam os olhos antes de poderem capturar a mente. Parágrafos curtos arejam o que você escreve e deixam o texto mais convidativo, enquanto um acúmulo longo demais de palavras pode desencorajar o leitor a começar a leitura.
Em jornais, os parágrafos devem ter no máximo duas ou três frases; as letras, no jornal, são organizadas em colunas estreitas, e os espaços logo se preenchem. Você pode achar que essa divisão constante em parágrafos estraga o desenvolvimento do seu raciocínio. Obviamente, The New Yorker é obcecada por esse temor — às vezes, seu leitor é obrigado a caminhar quilômetros e quilômetros sem nenhum respiro. Não se preocupe; os ganhos superam de longe os possíveis riscos.
Mas não se afobe. Uma sequência de parágrafos muito curtos é tão incômoda quanto um parágrafo longo demais. Penso nesses parágrafos nanicos — essas prodigiosas criações sem verbos — que jornalistas modernos escrevem para tornar os seus textos rápidos e rasteiros. Na verdade, eles acabam dificultando o trabalho do leitor ao retalhar o encadeamento natural das ideias.
Compare as duas formas de construir um mesmo texto apresentadas a seguir — como elas aparecem ao primeiro olhar e como soam ao serem lidas:
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O segundo procurador da Casa Branca deixou o trabalho mais cedo na terça-feira, dirigiu seu carro até um parque isolado com vista para o rio Potomac e pôs fim à vida. Caído sobre um canhão da época da Guerra Civil, com um revólver na mão, ele não deixou nenhum bilhete, nenhuma explicação. Apenas amigos, familiares e colegas em dolorosa perplexidade. Uma bela história de vida, sonho, até terça-feira, de todo homem. |
O segundo procurador da Casa Branca deixou o trabalho mais cedo na terça-feira, dirigiu seu carro até um parque isolado com vista para o rio Potomac e pôs fim à vida. Caído sobre um canhão da época da Guerra Civil, com um revólver na mão, ele não deixou nenhum bilhete, nenhuma explicação — apenas amigos, familiares e colegas em dolorosa perplexidade. Também deixou uma história de vida que até terça-feira era vista como a realização do sonho de todo homem. |
A versão da Associated Press (à esquerda), com seus parágrafos quebrados e a terceira e quarta frases sem nenhum verbo, é fragmentada e tem ar de superioridade. O repórter parece dizer ao leitor: “Uau, veja só como eu simplifiquei as coisas para você!”. A minha versão (à direita) devolve ao repórter a dignidade de escrever em melhor estilo e dar a um conjunto de três frases uma unidade lógica.
A definição dos parágrafos é um elemento sutil, mas importante, na redação de textos de não ficção e de livros — um roteiro que mostra permanentemente ao leitor como você organizou as suas ideias. Estude os bons autores de não ficção para ver como eles fazem isso. Você verá que quase todos raciocinam tendo o parágrafo — e não a frase — como unidade. Cada parágrafo possui a sua própria totalidade em termos de conteúdo e estrutura.
Sexismo
Uma das novas questões mais incômodas para os escritores se refere à linguagem sexista, principalmente os pronomes “ele-ela”. O movimento feminista revelou, prestimosamente, quanto de machismo se esconde por trás do nosso linguajar, não apenas no ofensivo he [ele], mas nas centenas de palavras que carregam um significado hostil ou insinuam algum juízo de valor. São palavras condescendentes (gal [garota, menina]), ou que implicam um estatuto de segunda classe (poetisa), ou um papel de segunda classe (house-wife [dona de casa]), ou algum tipo de inferioridade intelectual (the girls [as garotas]), ou que desdenham da capacidade de uma mulher exercer um determinado tipo de profissão (lady lawyer [senhora advogada]), ou que soam deliberadamente de forma maliciosa (divorcée [divorciada], coed [estudante em estabelecimento de ensino misto], blonde [loira]) e que raramente têm uma versão masculina.
Mais nocivos — e mais sutis — são os termos que tratam as mulheres como bens pertencentes ao homem da família, não como pessoas com identidade própria que cumprem um papel em pé de igualdade na história familiar: “Os primeiros povoadores avançavam para o Oeste com sua mulher e filhos”. Transforme esses povoadores em famílias pioneiras ou casais pioneiros que foram para o Oeste com seus filhos e filhas, ou em homens e mulheres que povoaram o Oeste. Hoje em dia, há pouquíssimas funções que não sejam atribuíveis aos dois sexos. Não utilize formulações sugerindo que só os homens podem ser pioneiros, fazendeiros, policiais ou bombeiros.
Em inglês, um problema ainda mais espinhoso é destacado pelo desconforto feminista diante de palavras contendo man (homem), como chairman [presidente de empresa] ou spokesman [porta-voz]. Seu argumento é que mulheres podem encabeçar uma diretoria tão bem quanto um homem e são tão boas quanto eles para falar. Daí a enxurrada de novas palavras como chairperson e spokeswoman. Fabricadas nos anos 1960, essas palavras despertam a nossa consciência em relação à discriminação sexual existente, seja nos vocábulos, seja nas atitudes. Mas, no fim das contas, são palavras fabricadas, que muitas vezes mais atrapalham do que ajudam a causa. Uma solução é encontrar algum outro termo: chair em vez de chairman, company representative [representante da empresa] em vez de spokesman. Você pode também substituir um desses substantivos por um verbo: “Falando em nome da empresa, a senhora Jones disse...”. No caso de uma função que tenha as duas formas, a masculina e a feminina, opte por um substituto genérico. Atores e atrizes podem se transformar em artistas.
Isso não resolve a questão do incômodo pronome. “Ele” e “dele” são vocábulos que causam irritação. “Cada funcionário deveria decidir aquilo que acha melhor para ele e seus dependentes.” O que devemos fazer com a quantidade interminável de frases como essa?
Outra solução comum é usar “ou”: “Cada funcionário ou funcionária deve decidir o que acha melhor para ele ou para ela”. Mas, novamente, isso deveria ser usado com moderação. Um escritor vai deparar muitas vezes com vários casos em um texto em que ele ou ela poderá usar “ele ou ela” ou “para ele ou para ela”, se isso soar natural. O que quero dizer com “natural” é que o autor, nesse caso, está mostrando que ele (ou ela) pensa nessa questão e está tentando dar o melhor dele (ou dela) dentro de limites razoáveis. Mas precisamos encarar o fato de que a língua adora o masculino usado de forma generalizante (“Nem só de pão vive o homem”). Transformar cada “ele” em “ele ou ela” e cada “dele” em “dele ou dela” atravancaria o idioma.
Nas primeiras edições de Como escrever bem, eu usei “ele” e “dele” para me referir “ao leitor”, “ao escritor”, “ao crítico”, “ao humorista” etc. Sentia que o livro ficaria mais difícil de ser lido se usasse “ele ou ela” cada vez que fizesse uma menção dessas. (Repudio a forma ele/ela: essa barra não tem lugar no uso correto da língua.) Ao longo dos anos, porém, muitas mulheres me escreveram me dando uma cutucada por causa disso. Diziam que, apesar de serem elas mesmas escritoras e leitoras, eram sempre levadas a visualizar um homem lendo ou escrevendo — e elas tinham razão; eu me sentia mesmo cutucado. A maior parte dessas cutucadas me fez adotar o plural, usando readers [leitores, leitoras] e writers [escritores, escritoras], seguidos, assim, de they [eles, elas]. Não gosto desses plurais; eles geralmente enfraquecem o texto, pois são menos específicos do que o singular e mais difíceis de visualizar. Preferiria que cada autor visualizasse um leitor se dedicando a ler aquilo que ele ou ela escreveu. Ainda assim, encontrei trezentos ou quatrocentos trechos em que eu podia eliminar ele, dele, seus, ou homem, sem muitos danos; o mundo não acabou por causa disso. No caso da presente edição, o pronome masculino permanece ali onde senti que era a única solução não embaraçosa.
As melhores soluções simplesmente eliminam o ele e suas conotações de posse masculina usando outros pronomes ou alterando algum outro elemento da frase. “Nós” é um substituto muito adequado para “ele”. “Nosso” ou “nossa” podem muitas vezes substituir “dele”. (A) “Primeiro ele observa o que acontece com os filhos dele e depois responsabiliza a vizinhança”. (B) “Primeiro nós observamos o que acontece com os nossos filhos e depois responsabilizamos a vizinhança”. Substantivos genéricos podem substituir substantivos específicos. (A) “Jornalistas costumam negligenciar sua esposa e seus filhos”. (B) “Jornalistas costumam negligenciar a família”. Inúmeros erros podem ser evitados com pequenas mudanças como essas.
Outro pronome que sempre me ajudou nessas correções foi “você”. Em vez de escrever sobre o que “o escritor” faz e as dificuldades em que ele mergulha, detectei muitos trechos em que podia me dirigir ao autor diretamente (“Você muitas vezes encontrará...”). Isso não funciona em todo tipo de texto, mas é um presente dos céus para quem escreve um livro com instruções ou de autoajuda. A voz de um dr. Spock falando para a mãe de uma criança que está com febre ou a voz de uma Julia Child falando para um cozinheiro perdido no meio da preparação de uma receita estão entre os sons mais reconfortantes que um leitor pode escutar. Procure sempre alguma forma de se mostrar disponível para as pessoas que você está tentando atingir.
Reescrever
Reescrever é a essência de escrever bem: é onde se ganha ou se perde o jogo. Essa ideia é difícil de aceitar. Todos nós investimos muito emocionalmente no nosso primeiro rascunho; não conseguimos admitir que ele possa ter nascido com imperfeições. Mas o mais provável, em quase 100% dos casos, é que isso tenha mesmo acontecido. A maior parte dos autores não diz logo de cara aquilo que quer dizer, ou não o diz tão bem quanto poderia. Há quase sempre alguma coisa errada com a frase que acaba de conceber. Não é clara. Não tem uma lógica. É verborrágica. Está pesada demais. É pretensiosa. É chata. É cheia de excessos. É cheia de clichês. Falta ritmo. Pode ser lida de diferentes formas. Não decorre naturalmente da frase precedente. Não... O fato é que escrever com clareza é o resultado de uma série de remendos.
Muita gente acredita que escritores profissionais não precisam reescrever; as palavras simplesmente caem no lugar certo. Ao contrário: escritores cuidadosos não conseguem parar de remexer no texto. Nunca pensei na reescrita como um fardo injusto; agradeço por todas as oportunidades que tive de melhorar o meu trabalho. A escrita é como um bom relógio — deve funcionar perfeitamente, sem nenhuma sobra. Os estudantes não compartilham desse meu amor pela reescrita. Eles a veem como um castigo: um dever de casa a mais ou um exercício a mais. Por favor — se você é um estudante desse tipo —, pense na reescrita como uma dádiva. Você não vai escrever bem enquanto não entender que escrever é um processo contínuo, não um produto acabado. Ninguém espera de você que o faça corretamente já na primeira vez, nem mesmo na segunda.
O que quero dizer com “reescrever”? Não me refiro a escrever um rascunho, depois escrever uma segunda versão diferente e depois uma terceira. A maior parte da reescrita consiste em remodelar, enxugar e refinar o material bruto que você redigiu na primeira tentativa. A maior parte dessa tarefa consiste em chegar à certeza de que você está oferecendo ao leitor um fluxo narrativo que ele poderá acompanhar do começo ao fim sem dificuldade alguma. Coloque-se sempre no lugar do leitor. Há alguma coisa que deveria ser dita a ele no começo da frase, mas que você colocou no final dela? Será que ele sabe, ao começar a ler a frase B, que você produziu uma virada — mudando de assunto, de tempo verbal, de tom, de ênfase — em relação à frase A?
Observemos um parágrafo típico, imaginando que se trate do primeiro rascunho de um autor. Não há nada de realmente errado com ele: é claro e correto gramaticalmente. Mas está cheio de arestas e asperezas: falhas do autor em manter o leitor a par das mudanças de tempo, lugar e tom ou em variar e avivar mais o estilo. O que eu fiz foi acrescentar entre colchetes, em itálico, depois de cada frase, algumas ideias que podem ocorrer a um editor ao dar uma primeira olhadela nesse rascunho inicial. Depois disso, você encontrará o parágrafo já revisado por mim, que incorpora essas ideias de correções:
Houve um tempo em que os vizinhos se preocupavam uns com os outros, ele lembrou. [Colocar “ele lembrou” antes, para dar de início um tom de reflexão.] Parecia não acontecer mais desse jeito, no entanto. [O contraste atribuído por “no entanto” deve vir em primeiro lugar. Começar com “Mas”. Definir também a localização.] Ele se perguntava se isso não se deveria a que no mundo moderno todo mundo está ocupado demais. [Todas essas frases têm o mesmo comprimento e o mesmo ritmo monótono; transformar esta última em uma pergunta?] Ocorreu-lhe a ideia de que hoje em dia as pessoas têm tantas coisas para fazer que não encontram mais tempo para a amizade à antiga. [Essa frase repete essencialmente a anterior; elimine-a ou a enriqueça com algum detalhe concreto.] As coisas não funcionavam assim nos Estados Unidos em outros tempos. [O leitor ainda está no presente; inverta a frase para lhe dizer que agora ele está no passado. “Estados Unidos” não será mais preciso se for colocado antes.] E percebeu que a situação era bem distinta em outros países, pela recordação que tinha dos anos em que viveu em vilarejos da Espanha e da Itália. [O leitor ainda está nos Estados Unidos. Use uma palavra de transição negativa para levá-lo à Europa. A frase também está muito frouxa. Quebrá-la em duas?] Parecia-lhe que, quanto mais as pessoas enriqueciam e construíam suas casas em lugares distantes, mais se isolavam das coisas essenciais da vida. [A ironia surgiu tarde demais. Colocá-la mais no começo. Enfatizar o paradoxo referente à riqueza.] E havia outro pensamento a perturbá-lo. [Este é o ponto principal do parágrafo; indique para o leitor que isso é importante. Evite a expressão “e havia”, que é muito fraca.] Seus amigos o haviam abandonado quando precisava deles mais do que nunca durante a sua recente enfermidade. [Monte a frase de novo de modo a fazer com que ela termine com “mais do que nunca”; a última expressão é a que fica no ouvido do leitor e confere força à frase. Deixe a doença para a frase seguinte; é uma ideia separada.] Era quase como se eles o considerassem culpado de ter feito algo vergonhoso. [Introduzir a doença aqui, como o motivo para a vergonha. Elimine “culpado”; isso está implícito.] Lembrou-se de ter lido em algum lugar sobre sociedades em regiões primitivas do mundo nas quais as pessoas doentes eram isoladas, embora nunca tivesse ouvido falar em um ritual desse tipo nos Estados Unidos. [A frase começa devagar e se prolonga sem energia nem brilho algum. Quebre-a em unidades mais curtas. Dê uma réplica mordaz para a ironia.]
Ele se lembrou de que os vizinhos costumavam se preocupar uns com os outros. Mas isso parecia não acontecer mais nos Estados Unidos. Seria porque todo mundo estava ocupado demais? Estariam as pessoas tão preocupadas com o seu televisor, seus carros e suas aulas de ginástica que já não teriam tempo para a amizade? Em outros tempos isso não era assim. E também não era assim que as pessoas viviam em outras partes do mundo. Mesmo nos vilarejos mais pobres da Espanha ou da Itália, ele recordou, as pessoas se visitavam levando um pedaço de pão. Uma ideia irônica lhe veio à mente: quanto mais ricas as pessoas ficavam, mais se afastavam da riqueza da vida. Mas o que realmente o perturbava era um fato ainda mais chocante. Os amigos o abandonaram no momento em que precisava deles mais do que nunca. Ao cair doente, ele parecia ter feito algo quase vergonhoso. Sabia que outras sociedades tinham o costume de “isolar” as pessoas gravemente enfermas. Mas esse ritual só existia em culturas primitivas. Será mesmo?
As revisões que eu fiz não são as melhores ou as únicas que poderiam ter sido feitas. Elas se referem principalmente a questões de carpintaria: mudar a sequência, enxugar o texto, enfatizar alguns pontos. Muita coisa ainda poderia ser revisada dentro dessas preocupações, como o ritmo, os detalhes e o frescor da linguagem. A composição do conjunto também é importante. Leia o seu texto em voz alta do começo ao fim, sempre lembrando onde deixou o leitor na frase precedente. Você poderá perceber que acabou escrevendo duas frases como as seguintes:
O herói trágico da peça é Otelo. Pequeno e malévolo, Iago alimenta as suas suspeitas enciumadas.
Não há nada de errado, em si, na frase sobre Iago. Mas, pensando-a como uma sequência da anterior, ela se mostra equivocada. O nome que ainda ressoa no ouvido do leitor é o de Otelo; então, o leitor, naturalmente, entende que ele, Otelo, é que é pequeno e malévolo.
Ao ler o seu texto em voz alta tendo em mente esse tipo de conexão, acabará ouvindo uma quantidade assustadora de trechos em que você se perdeu do leitor, o confundiu, deixou de lhe comunicar um fato que ele precisava saber ou lhe disse duas vezes a mesma coisa: os fios soltos inevitáveis de qualquer rascunho inicial. O que você precisa fazer é um ajuste — um ajuste que se sustente do começo ao fim e se desenvolva com economia e vivacidade.
Aprenda a curtir esse processo de idas e vindas. Eu não gosto de escrever; eu gosto de ter escrito. Mas adoro reescrever. Gosto, especialmente, de cortar: apertar a tecla “delete” e ver uma palavra, uma frase ou uma sentença inúteis se esvaírem no mundo da eletricidade. Gosto de substituir uma palavra anódina por outra que seja mais precisa ou mais viva. Gosto de reforçar a transição entre uma sentença e outra. Gosto de refazer uma sentença insípida a fim de lhe conferir um ritmo mais cadenciado ou uma musicalidade mais graciosa. A cada pequeno refinamento, sinto que me aproximo mais de onde gostaria de chegar e, quando finalmente chego lá, eu sei que quem ganhou o jogo não foi o ato de escrever, mas sim o de reescrever.
Escrever no computador
O computador é um presente de Deus, ou um presente da tecnologia, para reescrever e reorganizar o texto. Ele coloca as suas palavras bem diante dos seus olhos para sua imediata avaliação — e reavaliação; você pode brincar com as frases até chegar ao ponto certo. Os parágrafos e as páginas continuarão a se organizar por conta própria, sem importar quanto você corte ou altere, e depois a impressora colocará tudo no papel enquanto você sai para tomar uma cerveja. Nenhuma melodia poderia soar mais docemente aos ouvidos de um escritor do que o som do seu artigo sendo redigitado com — mas não por — todos esses incrementos.
Não é mais necessário que este livro explique, tal como fez nas primeiras edições, como se usa essa nova e bela máquina chamada processador de texto que entrou na nossa vida, e como usar suas ferramentas prodigiosas para escrever, reescrever e organizar um texto. Hoje, todos sabem usá-lo. Quero apenas lembrar (se você ainda não é um adepto) que a economia de tempo e de trabalho enfadonho é enorme. Com um computador, eu me sento para escrever com mais vontade do que quando usava uma máquina de escrever, especialmente quando tenho de encarar uma tarefa complexa em termos de organização de texto, e concluo essa tarefa em muito menos tempo e com muito menos cansaço. São ganhos cruciais para um escritor: tempo, produção, energia, prazer e controle.
Acredite no seu material
Quanto mais acumulo experiência no ofício da escrita, mais me dou conta de que não existe nada tão interessante como a verdade. O que as pessoas fazem — e o que as pessoas dizem — continua a me surpreender com suas conjecturas, seus ditos espirituosos, seu drama, seu humor ou sua dor. Quem seria capaz de inventar todas as coisas espantosas que acontecem de verdade? Vejo-me cada vez mais dizendo a escritores e aos meus alunos: “Confiem no seu material”. Parece ser um conselho difícil de ser seguido.
Recentemente, passei certo tempo como consultor de texto em um jornal de uma pequena cidade americana. Notei que muitos repórteres tinham adquirido o hábito de tentar tornar mais palatáveis as notícias escrevendo-as em um estilo leve. Seus lides eram compostos de uma série de fragmentos que resultavam em algo mais ou menos assim:
Vrooomm!
Era inacreditável.
Ed Barnes se perguntou se não estava vendo coisas.
Ou talvez fosse apenas uma febre da primavera. É engraçado como o mês de abril consegue fazer isso com um rapaz.
Não era como se ele não tivesse checado o carro antes de sair de casa.
Mas, novamente, ele não se lembrou de contar para Linda.
O que era estranho, pois ele sempre se lembrava de contar para Linda. Desde quando começaram a sair juntos, nos tempos do colegial.
Isso foi realmente vinte anos atrás?
E agora havia também o pequeno Scooter com que se preocupar.
Pensando bem, o cão vinha agindo de maneira suspeita.
Os textos normalmente começavam na primeira página, e nesse caso eu o leria até a remissão “continua na página 9” sem ter a menor ideia de qual era o assunto tratado. Então, docilmente, eu abriria a página 9 e me depararia com uma reportagem muito interessante, cheia de detalhes específicos. Eu chamaria o repórter e lhe diria: “É uma boa matéria a partir do momento em que eu finalmente abro a página 9. Por que você não colocou essas coisas no lide?”. O repórter responderia: “Bem, no lide eu estava tentando dar um colorido ao texto”. Ele admitiria, assim, que, na sua cabeça, o fato e o colorido são ingredientes que caminham separadamente. Pois não são; o colorido deve ser elemento integrado organicamente ao fato. O seu trabalho é apresentar o fato de forma colorida.
Em 1988, escrevi um livro sobre beisebol intitulado Spring Training [Treinos de primavera]. Ele combinava a minha vocação de uma vida inteira com o meu vício de uma vida inteira — o que é uma das melhores coisas que podem acontecer a um escritor; as pessoas sempre escreverão melhor e com mais prazer se o fizerem sobre algo que tem a ver com elas. Escolhi os treinos de primavera como um aspecto a aprofundar dentro do tema amplo do beisebol por se tratar de um período de renovação, tanto para os jogadores como para os torcedores. O jogo se mostra para nós com a sua pureza original: ele é praticado ao ar livre, debaixo de sol, na grama, sem música de órgão, por jovens que ficam tão próximos que quase se pode tocar neles e cujos salários e ressentimentos são generosamente deixados de lado por seis semanas. Acima de tudo, é um período de ensinamento e aprendizado. Escolhi acompanhar o Pittsburgh Pirates porque eles treinavam em um velho campo em Bradenton, na Flórida, e formavam uma equipe jovem que estava começando a se reconstruir, com um treinador, Jim Leyland, muito empenhado em ensinar.
Eu não queria romantizar o esporte. Não gosto desses filmes sobre beisebol que usam recursos de câmera lenta quando o rebatedor acerta um home run13 para mostrar ao espectador que se trata de um momento crucial. Eu sei disso, principalmente quando o home run é realizado com dois out na base do “nono”, para vencer a partida. Decidi não deixar o meu texto se arrastar em câmera lenta — não incomodar o leitor com ênfases — nem falar do beisebol como uma metáfora da vida, da morte, da meia-idade, da juventude perdida ou de um país mais inocente. Minha premissa era a de que o beisebol é um trabalho — um ofício honroso — e eu queria saber como esse ofício era ensinado e aprendido.
Procurei, então, Jim Leyland e sua equipe de treinadores e disse: “Vocês são professores. Eu sou professor. Diga-me: como vocês ensinam a rebater? Como vocês ensinam a lançar a bola? Como vocês ensinam a defender? Como vocês ensinam a correr para a base? Como fazem para manter esses jovens sempre estimulados diante de uma agenda tão brutalmente extensa?”. Todos eles responderam generosamente e me contaram, em detalhes, como cumprem suas tarefas. O mesmo fizeram os jogadores e todos os outros homens e mulheres que tinham alguma informação de que eu precisava: árbitros, olheiros, vendedores de ingressos, patrocinadores locais.
Um dia, subi a arquibancada localizada atrás da base principal para falar com algum olheiro. O treinamento da primavera é também um momento de exibição dos talentos do beisebol, e os campos ficam coalhados de homens lacônicos que passam a vida em busca de novos talentos. Vi um lugar vazio ao lado de um homem envelhecido, na altura dos sessenta anos, que usava um cronômetro e fazia anotações. Quando o turno acabou, perguntei-lhe que tempos ele estava registrando. Ele disse que se chamava Nick Kamzic e que era o coordenador dos olheiros do California Angels na região norte e estava registrando o tempo de corrida dos atletas entre as bases. Perguntei-lhe que tipo de informação estava procurando.
“Bem, um rebatedor destro leva 4,3 segundos para alcançar a primeira base”, disse ele, “e um canhoto leva 4,1 ou 4,2 segundos. Naturalmente isso varia um pouco — é preciso levar em conta o elemento humano.”
“O que esses números mostram para você?”, perguntei.
“Bem, sabemos que uma queimada dupla leva 4,3 segundos”, disse ele, como se fosse algo conhecido por todo mundo. Eu nunca tinha parado para pensar quanto tempo uma queimada dupla leva para ocorrer.
“O que significa...”
“Se você vê um jogador que atinge a primeira base em menos de 4,3 segundos, então é nele que você tem que prestar atenção.”
Como elemento factual, tudo isso se basta. Não há necessidade de acrescentar uma frase para destacar que 4,3 segundos é claramente pouco tempo para a execução de um lance que envolve uma rebatida de bola, dois arremessos e três jogadores de base. Ao simplesmente registrar os 4,3 segundos, você permite ao leitor que ele mesmo capte o valor dessa proeza. Ele vai gostar de você o ter deixado raciocinar por conta própria. O leitor tem um papel determinante no ato da escrita e precisa ter espaço para desempenhá-lo. Não o aborreça com excesso de explicações, dizendo-lhe algo que ele já sabe ou pode deduzir do que foi escrito. Procure evitar palavras como “surpreendentemente”, “previsivelmente” e “evidentemente”, que introduzem um juízo de valor sobre um fato antes mesmo de o leitor deparar com esse fato. Acredite no seu material.
Trabalhe com o que lhe interessa
Não existe nenhum tema sobre o qual você não possa escrever. Estudantes normalmente evitam assuntos muito caros a eles mesmos — skate, torcidas de times, rock, carros — por pensar que seus professores acharão esses temas “estúpidos”. Nenhum campo da vida é estúpido para quem o leva a sério. Se você se orientar por suas preferências, vai escrever melhor e cativar os seus leitores.
Já li belos livros sobre pescaria e pôquer, bilhar e rodeios, alpinismo e tartarugas gigantes e vários outros assuntos pelos quais nunca tinha achado que me interessaria. Escreva sobre os seus hobbies: cozinha, jardinagem, fotografia, tricô, antiguidades, corrida, navegação, mergulho, pássaros tropicais, peixes tropicais. Escreva sobre o seu trabalho: dar aulas, ser enfermeiro, administrar uma empresa ou uma loja. Escreva sobre uma área de que você gostava na faculdade e que sempre pensou em retomar: história, biografia, arte, arqueologia. Nenhum assunto é específico ou peculiar demais se, na hora de escrever, você estabelecer uma conexão honesta com ele.
13. Jogada decisiva, semelhante ao gol no futebol, em que o jogador rebate a bola atirando-a para fora dos limites do campo ou de forma que seu time consiga dar uma volta completa por todas as bases. (n.t.)