• Ivan Milazzotti
    Como escrever bem
    17-07-2025 19:15:01
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O público

Logo depois de trabalhar a questão da preservação da sua identidade, outra pergunta surgirá: “Para quem eu escrevo?”.

É uma pergunta fundamental, e ela tem uma resposta fundamental: você escreve para si mesmo. Não tente visualizar uma grande massa de público. Esse público não existe — cada leitor é uma pessoa diferente. Não tente adivinhar que tipo de coisa os editores querem publicar nem se paute pelo que você acredita que o país esteja a fim de ler. Os editores e os leitores não sabem o que querem ler até o momento em que o leem. Além disso, estão sempre procurando coisas novas.

Não fique preocupado em saber se o leitor vai “entender” caso você sinta necessidade de satisfazer um impulso súbito de humor. Se isso o diverte no ato da escrita, vá em frente. (O trecho sempre poderá ser retirado depois, mas só você é que poderá, de início, colocá-lo.) Você escreve, primeiramente, para agradar a si mesmo e, se consegue seguir adiante com satisfação, também agradará aos leitores que forem dignos daquilo que você faz. Se os mais broncos ficarem para trás, comendo poeira, é porque não são eles que você quer atingir.

Isso pode parecer um paradoxo. Eu mesmo disse antes que o leitor é um pássaro empoleirado sobre um galho frágil, à beira da distração ou do sono. Agora, afirmo que você deve escrever para si mesmo sem se deixar atormentar por esta dúvida: o leitor está ou não está ficando para trás?

São duas questões diferentes. Uma é o ofício, outra é a atitude. A primeira diz respeito a controlar uma técnica determinada. A segunda se refere a como você utiliza essa técnica para expressar a sua personalidade.

No que diz respeito ao ofício, não há desculpas para quem perde leitores por escrever de modo desleixado. Se o leitor se desliga no meio do seu artigo porque você se descuidou de algum detalhe técnico, a culpa é sua. Mas, quanto à questão mais ampla de saber se o leitor gosta de você, ou gosta daquilo que você está dizendo ou da maneira como você está dizendo, ou concorda com aquilo, ou sente afinidade com o seu senso de humor ou a sua visão de mundo, não há motivo para se preocupar. Você é você, ele é ele, e os dois acabarão se dando bem — ou não.

Talvez essa técnica possa parecer um paradoxo. Como é possível zelar para não perder o leitor e ao mesmo tempo não ligar para a opinião dele? Pois eu garanto que são dois processos independentes.

Primeiramente, trabalhe duro para ter controle sobre as ferramentas utilizadas. Simplifique, enxugue, até não poder mais. Pense nisso como um gesto mecânico, e suas frases logo ficarão mais limpas. O gesto nunca será tão mecânico quanto, por exemplo, fazer a barba ou lavar os cabelos; você sempre terá de pensar nas várias possibilidades de uso das ferramentas disponíveis. Mas, ao final, as suas frases estarão sustentadas por bases sólidas, e o risco de perder o leitor será menor.

Pense que o outro processo é um gesto criativo: a expressão daquilo que você é. Relaxe e diga o que quer dizer. E, como o estilo é aquilo que somos, você só precisa ser verdadeiro consigo mesmo para vê-lo surgir pouco a pouco dos excessos e resíduos acumulados, tornando-se a cada dia mais peculiar. Talvez o estilo precise de anos para se consolidar como o seu estilo, a sua voz. Assim como levamos muito tempo para sermos nós mesmos, é preciso muito tempo para encontrarmos a nós mesmos como donos de um estilo singular, e, mesmo depois disso, nosso estilo irá modificar-se à medida que ficarmos mais velhos.

Qualquer que seja a sua idade, seja você mesmo ao escrever. Muitos idosos ainda escrevem com o mesmo ímpeto que tinham aos vinte ou trinta anos de idade; obviamente, as suas ideias ainda são de jovens. Outros escritores também idosos apenas divagam e repetem a si mesmos; seu estilo é uma indicação de que se transformaram em seres prolixos e enfadonhos. Muitos universitários escrevem como se tivessem sido congelados trinta anos atrás. Nunca diga por escrito algo que você não se sentiria confortável para dizer em uma conversa. Se você não diz “efetivamente” ou “ademais”, ou não chama uma pessoa de “sujeito” (“ele é um sujeito agradável”), por favor, não escreva isso.

Vamos dar uma olhadinha em alguns autores para sentir o prazer com que eles colocam no papel as suas paixões e suas extravagâncias, sem se importarem com a opinião do leitor. O primeiro trecho é extraído de “The Hen (An Appreciation)” [A galinha (uma apreciação)], escrito por E. B. White em 1944, no ápice da Segunda Guerra Mundial:

As aves nem sempre gozaram de boa reputação entre as pessoas de bem, embora o ovo, pelo que observo, tenha grande prestígio. Agora, entretanto, a galinha está em alta. A guerra a divinizou, e ela é a queridinha atual dos lares, passou a ser exibida nos banquetes dos congressos e louvada nos vagões de fumantes; seus modos de mocinha e seus hábitos curiosos são tema de conversas animadas de administradores para quem, até ontem, ela não passava de um ser estranho, sem valor nem encanto.

A minha ligação com as galinhas data de 1907, e sempre me mantive fiel a elas, nos tempos bons ou ruins. Nunca foi um relacionamento fácil. Quando eu era menino e vivia em um subúrbio bastante subdividido, precisava prestar contas à polícia e à vizinhança; minhas aves tinham de ficar muito bem guardadas, como um jornal clandestino. Mais tarde, já adulto e com vida social, eu tinha de prestar contas aos velhos amigos na cidade, pois a maioria deles via as galinhas como um objeto cômico perfeito para um teatro de variedades... O escárnio deles só fazia aumentar a minha devoção por elas. Permaneci leal, como faria um homem cuja noiva fosse recebida por sua família com chacotas. Agora chegou a minha vez de rir, quando ouço toda essa tagarelice entusiasmada das pessoas da cidade que de repente adotaram as galinhas socialmente e espalham no ar sua nova euforia, seu novo conhecimento, e os encantos das raças New Hampshire Red ou Laced Wyandotte.3 Ao ouvir suas exclamações nervosas de deslumbramento e louvor, você poderia até pensar que a galinha surgiu ontem mesmo nos subúrbios de Nova York, não em um passado distante nas florestas da Índia.

Para um homem que cria galinhas, todo conhecimento sobre aves domésticas é algo estimulante e infinitamente fascinante. Toda primavera, eu abro o meu diário da fazenda e leio, com a mesma expressão de enlevo no rosto, o velho texto sobre como montar uma incubadora...

É alguém escrevendo sobre um assunto pelo qual eu não tenho o menor interesse. No entanto, gosto desse texto do começo ao fim. Gosto da beleza singela do seu estilo. Gosto do ritmo, das palavras inesperadas mas revigorantes (“divinizou”, “encantos”, “tagarelice”) e dos detalhes precisos, como a menção à Laced Wyandotte e à incubadora. Mas o que me agrada, acima de tudo, é o fato de se tratar de um homem contando para mim despudoradamente o seu caso de amor com aves domésticas, que remonta a 1907. É um texto escrito com calor humano. Depois de três parágrafos, fico sabendo bastante coisa sobre que tipo de homem é esse amante de galinhas.

Ou então considere um escritor que é quase o oposto de White em termos de estilo, que se delicia com palavras opulentas simplesmente pela sua opulência e que não endeusa as frases simples. Apesar disso, um e outro compartilham as opiniões firmes e o hábito de dizerem o que pensam. A seguir, H. L. Mencken escreve sobre o famoso “Julgamento do macaco” — o julgamento de John Scopes, um jovem professor que ensinava a teoria da evolução em suas aulas no Tennessee —, no verão de 1925:

Fazia muito calor em Dayton, Tennessee, quando decidiram julgar o incrédulo John Scopes, mas foi para lá que eu me dirigi, com enorme boa vontade, ansioso para ver os cristãos evangélicos em ação. Nas grandes cidades da República, apesar dos infindáveis esforços dos devotos, o assunto foi colocado em quarentena, como um doente terminal. Os próprios supervisores das escolas de catecismo balançam suas pernas resistentes ouvindo jazz no rádio às escondidas; seus alunos, próximos da adolescência, já não reagem aos hormônios em ebulição se alistando para atividades missionárias na África; ao contrário, preferem mesmo é o agarramento. Até em Dayton, apesar de a turba ser favorável à execução de Scopes, deparei com um cheiro forte de antinomismo. No domingo, as nove igrejas do vilarejo estavam ocupadas só pela metade, e ervas daninhas tomavam conta de seus jardins. Apenas dois ou três dos pastores locais conseguiam se sustentar com a sua ciência espiritual; os demais tinham de trabalhar atendendo a encomendas de calças por via postal ou nas plantações de morango da região; um deles, ouvi dizer, era barbeiro... Exatamente doze minutos depois de chegar à cidade, fui guiado por um cristão que me apresentou a bebida predileta do Cumberland Range: uma dose de licor de milho com uma de Coca-Cola. Pareceu-me uma mistura horrível, mas descobri que os iluminados de Dayton bebiam aquilo com enorme prazer, alisando a pança e revirando os olhos. Eram todos eles loucos pelo Gênesis, mas os rostos estavam corados demais para pertencerem a abstêmios e, quando aparecia uma linda garota caminhando pela rua principal, eles levavam as mãos ao lugar onde as gravatas costumam terminar, com uma desenvoltura amorosa digna de estrelas do cinema...

É puro Mencken, com sua impetuosa energia e sua irreverência. Em quase todas as páginas de seus livros, ele diz alguma coisa que certamente agride a declarada religiosidade de seus compatriotas. A santidade com que os americanos envolviam seus heróis, suas igrejas e suas nobres leis — especialmente a Lei Seca — era para ele a fonte de uma hipocrisia inesgotável. Algumas de suas munições mais pesadas foram dirigidas a políticos e presidentes — as páginas de seu perfil do “Arcanjo Woodrow” permanecem abrasadoras até hoje. Quanto aos fiéis e clérigos cristãos, eles aparecem infalivelmente como tolos e charlatães.

Pode parecer miraculoso que Mencken, com tantas heresias, tenha conseguido sobreviver nos anos 1920, momento em que o culto ao herói era uma religião americana e em que a ira santa do Cinturão Bíblico4 se espalhava de uma costa à outra. Mas ele não apenas sobreviveu como se tornou o jornalista mais reverenciado e influente de sua geração. Seu impacto nos autores de não ficção que o sucederam é imensurável, e até hoje seus textos soam atuais como se tivessem sido escritos ontem.

O segredo da sua popularidade — à parte o uso pirotécnico que soube fazer do linguajar americano — é que ele escrevia para si mesmo e não estava nem aí para o que o leitor pudesse achar. Não era preciso compartilhar de seus preconceitos para saborear a espontaneidade jovial com que os expressava. Mencken nunca era contido ou evasivo; não se ajoelhava diante do leitor nem bajulava ninguém. É preciso coragem para ser um escritor assim, e é essa coragem que forja os jornalistas reverenciados e influentes.

Mais próximo dos dias de hoje é o trecho abaixo de How to Survive in Your Native Land [Como sobreviver em sua terra natal], um livro em que James Herndon relata sua experiência como professor do ensino fundamental em um colégio na Califórnia. De todos os livros sérios sobre educação que brotaram pelos Estados Unidos afora, o de Herndon é, para mim, o que melhor soube captar como as coisas se passam de verdade em uma sala de aula. Seu estilo não é necessariamente peculiar, mas a sua voz é autêntica. Eis o início do livro:

Seria aconselhável começar com Piston. Vou descrevê-lo: Piston era um aluno da oitava série, ruivo, gordinho e de altura mediana; sua principal característica, porém, era ser muito teimoso. Sem entrar em detalhes, ficou claro logo de início que aquilo que Piston não queria fazer Piston não fazia e que aquilo que Piston queria fazer Piston fazia.

Não era um grande problema. Piston queria, principalmente, pintar, desenhar monstros, rabiscar formas em folhas de mimeógrafo e imprimi-las, escrever uma ou outra história de terror — algumas crianças se referiam a ele como O Necrófilo — e, quando não queria fazer nada disso, gostava de circular pelos saguões e, de vez em quando (como ouvi dizer), bisbilhotar os banheiros das meninas.

Tínhamos alguns confrontos menores. Certa vez, pedi aos alunos que se sentassem para escutar o que eu tinha a lhes dizer — alguma coisa sobre a maneira como eles vinham se comportando nos corredores da escola. Eu os deixava circular livremente e cabia a eles (era isso o que eu planejava enfatizar) não aprontar demais, a ponto de fazer com que outros professores viessem se queixar a mim. A questão, ali, era que todos se sentassem — eu aguardaria que fizessem isso e só então começaria a falar. Piston permaneceu de pé. Eu mandei, de novo, que ele se sentasse. Ele não deu atenção. Eu salientei que estava falando com ele. Ele fez um sinal de que estava me ouvindo. Perguntei, então, por que cargas-d’água ele não se sentava. Ele disse que não queria se sentar. Eu disse que queria que ele se sentasse. Ele disse que para ele isso não importava. Eu disse para se sentar mesmo assim. Ele perguntou por quê. Eu disse porque eu estou mandando. Ele disse que não iria se sentar. Eu disse veja bem, eu quero que você se sente e escute o que vou dizer. Ele disse que estava escutando. Eu vou escutar, mas não vou sentar.

Bem, é assim que as coisas acontecem, às vezes, nas escolas. Você, como professor, acaba ficando obcecado com uma questão — eu era a parte atingida, tendo concedido, como de costume, uma liberdade inédita, e eles, como de costume, se aproveitavam disso. É fogo ter de ouvir alguém dizer, quando você chega à sala dos professores para tomar um café, que fulano ou sicrano da sua classe estava circulando pela escola sem autorização, fazendo caretas e fazendo gestos obscenos para crianças da minha classe durante a parte mais importante da minha aula sobre o Egito — você precisa, então, pedir permissão para fazer aquele seu discurso tendencioso, e quase todo mundo dá permissão, você se senta para fazê-lo, mas, de vez em quando, alguém abre os olhos se recusando a ceder ali onde não há necessidade... Como é que chegamos a isso? É o que precisamos sempre nos perguntar.

Qualquer escritor que usa “é fogo” e “tendencioso” em uma mesma frase e recorre a citações sem usar aspas sabe o que está fazendo. Esse estilo aparentemente sem artifícios e, no entanto, tão recheado de arte, é ideal para o objetivo de Herndon. Ele evita a arrogância que não raro contamina os textos de pessoas que exercem trabalhos valorosos e permite a expressão de boas doses de humor e senso comum. Herndon soa como um bom professor e um homem cuja companhia me agradaria compartilhar. Mas, essencialmente, ele escreve para si mesmo: um público formado por uma pessoa só.

“Para quem eu escrevo?” Essa pergunta, com a qual se inicia este capítulo, deixou alguns leitores incomodados. Eles queriam que eu dissesse “A quem devo escrever?”. Mas eu não consigo falar assim. Isso não seria eu.