• Ivan Milazzotti
    Ryunosuke Akutagawa
    08-03-2026 12:27:00
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Rashōmon

Aconteceu em uma noite. Um humilde servo estava sob o Portão Rashōmon, aguardando a chuva parar. Sob o amplo portão, não havia ninguém além dele. Em um dos grandes pilares redondos, cuja tinta vermelha já descascava em alguns pontos, havia apenas uma esperança[4] solitária. Como o portão se localizava na Avenida Suzaku[5], normalmente se esperaria encontrar duas ou três outras pessoas por lá, aguardando a chuva diminuir. Mas não havia ninguém por lá além dele.

Vejam, nos últimos dois ou três anos houve uma série de desastres em Kyoto: terremotos, tornados, incêndios e fome. A capital desmoronava de muitas maneiras diferentes. De acordo com registros antigos, estátuas e altares budistas foram destruídos, e sua madeira, laqueada com vermelhão[6] e folhas de ouro ou prata, empilhada na beira da estrada e vendida como lenha. Desnecessário dizer que, com a capital neste estado, não havia ninguém para consertar o portão e, de fato, ninguém pensava nisso. Aproveitando esse estado de abandono, raposas e texugos passaram a morar lá. Ladrões moravam lá. Por fim, tornou-se até mesmo costumeiro levar cadáveres não reclamados para o portão e jogá-los por lá. Assim, após o pôr do sol, as pessoas ficavam com medo e ninguém ousava colocar os pés próximos ao portão depois de escurecer.

No lugar delas, um enorme bando de corvos se aglomerava por lá. Durante o dia, incontáveis pássaros podiam ser vistos sobrevoando em círculos enquanto grasnavam nas elevadas telhas ornamentais do telhado. Pareciam sementes de gergelim espalhadas, principalmente quando o céu acima do portão ficava vermelho ao pôr do sol. Os corvos, é claro, surgiam para bicar a carne dos cadáveres no alto do portão. Hoje, porém, talvez porque já fosse tarde, nem um único pássaro podia ser visto. Mas o que se podia ver eram seus excrementos brancos, presos em remendos nos degraus de pedra, que desmoronavam em alguns pontos, com ervas daninhas crescendo nas rachaduras. O servo, vestindo um quimono azul-marinho desbotado pela lavagem excessiva, sentou-se no sétimo e último degrau da escadaria de pedras. Assistiu à chuva cair enquanto brincava com uma grande espinha na bochecha direita, perdido em seus próprios pensamentos.

Há pouco, escrevi: "Um humilde servo aguardava que a chuva parasse". No entanto, mesmo que a chuva de fato parasse, o servo ainda não teria nada para fazer. Normalmente, é claro, esperaria-se que retornasse para a casa de seu senhor, mas ele fora dispensado do serviço de seu senhor quatro ou cinco dias antes. Como escrevi antes, nessa época a cidade de Kyoto se deteriorava de muitas maneiras diferentes. O fato de esse servo ter sido dispensado por seu senhor, que o empregara por tantos anos, foi apenas outro pequeno efeito colateral desse declínio. Então, ao invés de dizer: "Um humilde servo aguardava que a chuva parasse", teria sido mais apropriado dizer: "Um humilde servo, preso pela chuva, não tinha para onde ir e não sabia o que fazer". O clima naquele dia serviu para escurecer ainda mais o humor desse servo do período Heian. A chuva começara a cair um pouco depois das quatro da tarde e ainda não dava sinais de diminuir. Por enquanto, a prioridade na mente do servo era como ele ganharia a vida amanhã – como superaria essa "situação desesperadora". Enquanto tentava juntar suas ideias errantes, ele ouvia pensativamente o som da chuva caindo sobre a Avenida Suzaku.

A chuva engolfava Rashōmon, e rajadas de vento surgiam de muito longe e atingiam o portão com um barulho tremendo. A escuridão da noite gradualmente descia e, caso se olhasse para cima, poderia parecer que as nuvens enormes e sombrias estavam suspensas nas pontas das telhas projetadas do telhado do portão.

Para de alguma forma superar sua "situação desesperadora", o servo poderia ter que colocar seu moral de lado. Se ele se recusasse a fazer coisas que julgava moralmente questionáveis, acabaria morrendo de fome sob uma parede coberta por barro ou à beira da estrada. E então seria levado a este portão, para ser descartado, como um cachorro. "Se eu estiver disposto a fazer o que for preciso para sobreviver..." Seus pensamentos circularam por sua cabeça várias vezes, e finalmente chegaram aqui. Mas esse "se" sempre permaneceria uma mera hipótese. Pois, embora o servo reconhecesse que precisava fazer tudo o que pudesse para sobreviver, não teve a coragem de levar a sentença à sua conclusão precipitada: "Estou destinado a me tornar um ladrão."

O servo espirrou e se levantou exaurido. Kyoto – tão gélida à noite – já estava fria o suficiente para ele desejar um braseiro. O vento e a escuridão sopravam impiedosamente entre os pilares do portão. A esperança que estava sentada no pilar vermelho partira havia muito.

O servo enfiou a cabeça no peito, curvou os ombros – vestido com o quimono azul que usava por cima da fina e amarelada roupa de baixo – e olhou ao redor do portão. "Se há um lugar onde não serei incomodado pelo vento ou pela chuva... um lugar onde não serei visto... um lugar onde pareça que posso dormir confortavelmente a noite toda... então vou passar a noite lá", pensou. Felizmente, só então, ele avistou a ampla escadaria vermelha que levava à torre no topo do portão. As únicas pessoas que poderia encontrar por lá já estariam mortas! Assim, o servo, tomando cuidado para que sua espada simples com cabo de madeira não escorregasse da bainha, pisou no último degrau com sua sandália de palha.

Alguns minutos depois. No meio da larga escadaria que levava ao topo da torre do portão, o homem prendeu a respiração e, agachado como um gato, ergueu os olhos com cautela. Do topo da torre, brilhou suavemente sobre a bochecha direita do homem a luz de uma chama. Era a mesma bochecha com a espinha vermelha cheia de pus entre a barba por fazer. O servo dera como certo que todos lá em cima já estariam mortos. Mas, quando subiu mais dois ou três degraus, viu que não apenas alguém acendera uma fogueira lá em cima, como pareciam movê-la para frente e para trás... Ele poderia afirmar isso pelo modo como a luz amarela e turva oscilava nas teias de aranha penduradas em cada canto e fenda do teto. Um fogo aceso... nesta noite chuvosa... e no topo deste portão... Certamente este não poderia ser um humano qualquer.

O servo rastejou até o último degrau da íngreme escadaria, com os pés silenciosos como os de uma lagartixa. Ajeitou o corpo o máximo que pôde, esticou o pescoço tão longe quanto possível e espiou cautelosamente para dentro da torre. Como afirmavam os rumores, vários cadáveres haviam sido descartados na torre, mas a luz do fogo não estava tão intensa quanto esperava, então ele não saberia dizer quantos eram. Embora a luz estivesse fraca, o que ele de fato sabia era que alguns dos corpos usavam quimonos e outros se encontravam nus. Previsivelmente, o número de cadáveres incluía homens e mulheres, misturados entre os mortos. Os corpos se pareciam tanto com bonecos de argila que seria possível duvidar que qualquer deles houvesse vivido algum dia. Com a boca aberta e os braços estendidos, estavam espalhados ao acaso pelo chão. E já que as partes superiores de seus corpos – como seus peitos e ombros – captavam um pouco da luz fraca do fogo, acabavam lançando sombras nas partes inferiores, e os cadáveres estavam eternamente silenciosos como um mudo.

O servo instintivamente cobriu o nariz do fedor pútrido dos corpos em decomposição. Mas, no instante seguinte, sua mão caiu de seu rosto. Uma forte emoção quase lhe roubara o olfato.

Foi nesse momento que o criado avistou pela primeira vez a pessoa agachada entre os cadáveres. Era uma velhinha emaciada de cabelos brancos em um quimono vermelho escuro. A velha carregava uma tocha de pinho acesa e olhava para o rosto de um dos cadáveres. A julgar pelo comprimento de seus cabelos em alguns pontos, provavelmente era o corpo de uma mulher.

Por um momento, movido por seis partes de medo e quatro partes de curiosidade, o criado se esqueceu até de respirar. Tomando emprestada uma frase dos escritores das crônicas antigas, ele sentiu como se "os pelos da cabeça e do corpo crescessem de modo profuso". A velha enfiou o cabo da tocha de pinho no vão entre as tábuas do piso. Pôs as duas mãos na cabeça do cadáver e, como um macaco catando os piolhos de seu filho, principiou a arrancar os fios dos longos cabelos do cadáver, um por um. Os cabelos pareciam se desprender com muito pouco esforço.

A cada vez que ela puxava um daqueles fios de cabelo, o servo ficava um pouco menos assustado. E a cada vez que ela puxava um daqueles fios de cabelo, o ódio intenso que ele agora sentia por essa mulher ficava um pouco mais forte. Não – provavelmente é enganoso afirmar que ele a odiava, por si só. Em vez disso, era uma repulsa contra todas as formas do mal, que ficava mais forte a cada minuto. Naquele momento, se alguém levantasse novamente a questão sobre a qual o servo estivera pensando sob o portão – se morreria de fome ou se tornaria um criminoso –, o servo quase certamente teria escolhido a fome, sem um pingo de arrependimento. Como a tocha que a velha enfiara entre as tábuas do piso, era assim que o coração do homem ardia contra tudo o que era mau.

O servo, é claro, não sabia por que a velha arrancava os cabelos do cadáver, então, racionalmente, não tinha como saber se era imoral ou não. Mas para este servo, nesta noite chuvosa, em cima deste portão, arrancar o cabelo de uma mulher morta era um pecado imperdoável. Claro, o servo já havia esquecido que, até muito recentemente, ele pensava em se tornar um ladrão.

O servo esticou as pernas e, de repente, saltou da escada sem avisar. Andou a passos largos até a mulher, com a mão no cabo de madeira de sua espada. Desnecessário dizer que a mulher ficou morrendo de medo.

Assim que a velha enxergou o servo, sobressaltou-se como se houvesse sido disparada por uma besta.

— Você! Onde você está indo?

O servo gritou. Colocou-se no caminho da velha, enquanto ela tropeçava nos cadáveres em uma tentativa frenética de escapar. A velha tentou empurrá-lo para o lado. Mas o servo ainda não tinha intenção de deixá-la ir e a empurrou de volta. Por um tempo, os dois lutaram entre os cadáveres sem dizer uma única palavra. Mas o resultado desta batalha estava claro desde o início. No final, o servo agarrou o braço da velha e a jogou no chão. Seu braço, como uma coxa de frango, era apenas pele e ossos.

— O que você estava fazendo? Bem, o que você estava fazendo? FALE! Se não me contar, vai receber ISTO!

O servo empurrou a velha para longe e, de repente, puxou a espada e exibiu o aço pálido diante dos olhos dela. Mas a velha nada disse. Suas mãos tremiam incontrolavelmente, seus ombros pesavam enquanto ela ofegava. Seus olhos estavam tão arregalados que pareciam prestes a saltar para fora das órbitas, mas, ainda assim, como uma muda, ela permaneceu obstinadamente em silêncio. Ao ver isso, o servo então percebeu que tinha a vida dessa mulher na palma de sua mão. Quando percebeu isso, seu coração, que ardia tão ferozmente de ódio, esfriou, até que tudo o que restou foram os sentimentos de orgulho e satisfação que vêm com um trabalho bem feito. O servo olhou para a mulher, baixou a voz e disse:

— Não sou um funcionário do departamento de polícia nem nada. Sou apenas um viajante que por acaso passava por baixo do portão há alguns instantes. Não vou amarrar você ou coisa parecida. Mas seria melhor se você me contasse o que fazia em cima deste portão agora há pouco.

A velha de olhos esbugalhados abriu-os ainda mais e encarou o rosto do servo. Olhava para ele com os olhos vermelhos e lancinantes de uma ave de rapina. E então, seus lábios – tão enrugados que eram quase uma parte de seu nariz – moveram-se, como se ela estivesse mastigando alguma coisa. Era possível ver seu proeminente pomo de adão movendo-se em sua macilenta garganta. Então, daquela garganta, surgiu uma voz ofegante que parecia o grasnar de um corvo.

— Estou pegando esse cabelo... Estou pegando o cabelo dessa mulher para... Bem, pensei em fazer uma peruca.

O criado ficou desapontado porque a resposta da velha fora tão inesperadamente enfadonha. Junto com a decepção, aqueles antigos sentimentos de ódio e desprezo voltaram à sua mente. E, de alguma forma, ele deve ter transmitido esses sentimentos à velha. Com os cabelos que roubara do cadáver ainda agarrados em uma das mãos, ela murmurou com uma voz rouca de sapo:

— Entendo. Bem, talvez seja imoral arrancar os cabelos dos mortos. Mas estes cadáveres aqui – todos eles – eram o tipo de pessoa com quem ninguém se importaria. Na verdade, essa mulher de quem eu arrancava os cabelos momentos atrás... ela costumava fatiar cobras em pedaços de 10 centímetros, secá-los e vendê-los no acampamento da guarda do palácio do príncipe herdeiro, dizendo que era peixe desidratado. Se não tivesse morrido na praga, provavelmente iria para lá agora. E, no entanto, os guardas afirmavam que o peixe desidratado dessa mulher tinha um gosto bom, e sempre o compravam para acompanhar o arroz. Não acho que o que ela fazia era imoral. Se não tivesse feito isso, teria morrido de fome, então, ela apenas fez o que precisava fazer. E essa mulher, que entendia tão bem dessas coisas que precisamos fazer, provavelmente me perdoaria pelo que estou fazendo com ela também.

A velha disse algo nesse sentido.

O servo colocou a espada de volta na bainha e pousou a mão no cabo enquanto ouvia a história dela com antipatia. Por certo, enquanto ouvia, sua mão direita alisava a espinha vermelha cheia de pus em sua bochecha. Enquanto ouvia a história dela, sentiu a coragem que faltara sob o portão momentos antes crescer dentro de si. Isso o conduzia na direção completamente oposta à coragem que tivera quando escalara o portão e agarrara a velha. O servo não estava mais debatendo se morreria de fome ou se tornaria um ladrão. Do jeito que se sentia agora, a ideia de morrer de fome era virtualmente impensável.

— Isso é definitivamente verdade — concordou, zombeteiro, quando ela terminara de falar. Deu um passo à frente e de repente afastou a mão direita da espinha. Agarrando a mulher pela nuca, disse a ela em um tom mordaz: — Bem, então você não vai usar isso contra mim se eu tentar roubar as suas roupas. Se não fizer isso, veja você, eu também vou morrer de fome.

O servo habilmente despiu a mulher de seu quimono. Ela tentou se agarrar à perna dele, mas ele a chutou violentamente sobre os cadáveres. O acesso para a escadaria ficava a apenas cinco passos de distância. Em um piscar de olhos, o servo desceu correndo a íngreme escadaria e adentrou a escuridão, levando o quimono vermelho-escuro debaixo do braço.

Por um tempo, a velha permaneceu deitada como se estivesse morta, mas demorou pouco para que erguesse seu corpo nu dos cadáveres. Choramingando, ela rastejou até a escada, à luz de sua tocha ainda acesa. Enfiou a cabeça no acesso à escadaria e olhou para os fundos do portão, seus cabelos brancos e curtos suspensos de cabeça para baixo. Mas lá fora havia apenas a escuridão completa da noite.

Para onde o servo foi, ninguém sabe.

 

***

 

Como mencionado anteriormente, existem três finais para esta história.

 

O final original (na ortografia moderna) é:

"O servo já havia enfrentado a chuva e fugido para Kyoto a fim de começar a trabalhar como ladrão."

 

Isso foi posteriormente alterado para:

下人 は 、 既 既 に 、 雨 を 冒 し て 、 京都 の 町 へ 強盗 を 働 き に 急 い で い た。com o mesmo significado.

 

Finalmente, foi alterado para:

下人 の 行 方 方 は 、 誰 も 知 ら な い。

"Para onde o servo foi, ninguém sabe."

[4]. Inseto da família Tettigoniidae, popularmente conhecido no Brasil como esperança em razão da crença de que ele simboliza boa sorte (principalmente quando pousa em uma pessoa), enquanto que encontrá-lo morto é considerado presságio de mau agouro.

[5]. Avenida Suzaku (朱雀 大路 Suzaku Ōji) é o nome dado à avenida central que leva ao Palácio Imperial pelo sul nas capitais japonesas. As cidades geralmente se baseavam em um padrão de grade tradicional chinês. A Avenida Suzaku era tipicamente a estrada central dentro da malha urbana e, como resultado, a mais larga. Fujiwara-kyō, Heijō-kyō e Heian-kyō tinham sua própria Avenida Suzaku. A palavra Suzaku refere-se ao Deus Guardião do Sul, que se dizia aparecer na forma de um pássaro.

[6]. Vermelhão é um pigmento opaco alaranjado que tem sido usado desde a antiguidade.