De manhã, chegou uma carta!
Querido Micha,
O senhor se esqueceu de nós por completo, venha depressa, queremos ver o senhor. Imploramos, nós duas, de joelhos. Venha hoje, deixe-nos ver os seus olhos radiantes. Aguardamos com impaciência.
Ta e Va.
Kuzmínki, 7 de junho.
A carta vinha de Tatiana Alekséievna Lósseva, que, dez ou doze anos antes, quando Podgórin morava em Kuzmínki, era chamada de Ta, para abreviar. Mas e quem era Va? Podgórin tinha lembrança de longas conversas, risos alegres, romances, passeios à noitinha e um verdadeiro jardim florido de meninas e moças, que, na época, moravam em Kuzmínki e nos arredores, e Podgórin também tinha lembrança de um rosto simples, inteligente, cheio de vida e com sardas que combinavam muito bem com os cabelos ruivos, de tom escuro — era Vária, ou Varvara Pávlovna, amiga de Tatiana. Vária tinha se formado em medicina e estava trabalhando em algum lugar na periferia de Tula,[2] numa fábrica, e agora, pelo visto, tinha ido a Kuzmínki para passar uma temporada.
“A doce Va!”, pensou Podgórin, entregando-se a recordações. “Como era maravilhosa!”
Tatiana, Vária e Podgórin tinham quase a mesma idade; porém, naquela época, ele não passava de um estudante, enquanto as duas já eram moças feitas, prontas para casar, e o encaravam como um menino. Mesmo agora, apesar de já ser advogado e estar começando a ficar grisalho, as duas ainda o chamavam de Micha,[3] o consideravam um mero rapazinho e diziam que não tinha nenhuma experiência de vida.
Ele amava muito as duas, no entanto parecia amá-las mais nas recordações do que na realidade. Pouco sabia da vida atual de ambas — estranha e difícil de compreender, para ele. Assim como era estranha aquela carta breve, jocosa, que na certa as duas compuseram com vagar e esmero, bem como era certo que, enquanto Tatiana escrevia, às suas costas, de pé, estava Serguei Sergueitch, seu marido… Fazia apenas seis anos que Kuzmínki fora entregue como dote,[4] mas já havia sido arruinada por aquele mesmo Serguei Sergueitch, e agora, toda vez que era preciso pagar a um banco ou resgatar uma hipoteca, eles buscavam os conselhos de Podgórin, na condição de advogado e, além do mais, já duas vezes haviam lhe pedido algum empréstimo. Estava claro que, também daquela vez, queriam obter de Podgórin conselho ou dinheiro.
Kuzmínki já não tinha o atrativo de antes. Era um lugar triste. Já não havia risos nem agitação nem rostos alegres e despreocupados nem encontros em silenciosas noites de luar, entretanto, acima de tudo, já não havia juventude; o mais provável era que tudo aquilo fosse fascinante só nas memórias… Além de Ta e Va, lá também vive Na, ou Nadiejda, irmã de Tatiana, que, de brincadeira e a sério, chamavam de a noiva de Podgórin; ele a viu crescer, achavam que ia casar com ela e, certa época, Podgórin esteve mesmo apaixonado e teve a intenção de pedi-la em casamento, mas agora Nadiejda já contava vinte e três anos e ele ainda não havia casado…
“Mas como foi que tudo acabou ficando desse jeito?”, pensava agora, confuso, ao ler a carta. “Só que eu também não posso deixar de ir lá, vão ficar magoadas…”
O fato de haver muito tempo que não visitava os Lóssev pesava como uma pedra em sua consciência. E, depois de caminhar pelo quarto e pensar bem, fez um esforço contra si mesmo e decidiu visitá-los durante dois ou três dias, cumprir aquela obrigação e, em seguida, ficar livre e tranquilo, pelo menos até o verão. Assim, após o almoço, enquanto se preparava para ir à estação Bréstski,[5] disse à criada que voltaria em três dias.
De Moscou a Kuzmínki, eram duas horas de viagem de trem e mais uns vinte minutos de coche. Já da estação, se avistava o bosque de Tatiana e três casas de campo altas e estreitas, que Lóssev tinha começado a construir, mas não terminara, envolvido em várias negociatas logo nos primeiros anos do casamento. Aquelas casas de campo e vários outros negócios o levaram à ruína, sem falar das viagens constantes a Moscou, onde almoçava no Bazar Eslavo, jantava no Hermitage e terminava o dia na rua Málaia Brónnaia[6] ou no Jivodiorka,[7] onde havia ciganos (a isso ele chamava de “divertir-se”). O próprio Podgórin também era dado a beber, às vezes em excesso, e frequentava mulheres de vida desregrada, mas o fazia com frieza, indolência, sem nenhuma satisfação, e era dominado por um sentimento de repulsa quando, em sua presença, outros homens se entregavam àquilo com fervor. Podgórin não compreendia as pessoas que se sentiam mais livres no Jivodiorka do que em casa, na companhia de mulheres direitas, e não gostava de tais pessoas; tinha a impressão de que qualquer sordidez grudaria nele, como uma bardana. Também não gostava de Lóssev, julgava-o desinteressante, incapaz de qualquer coisa, uma pessoa preguiçosa e, em sua companhia, mais de uma vez experimentara um sentimento de repugnância…
Logo depois do bosque, Serguei Sergueitch e Nadiejda vieram a seu encontro.
— Meu caro, o que houve, por que o senhor se esqueceu de nós? — disse Serguei Sergueitch, enquanto o beijava três vezes,[8] e depois o segurou pela cintura, com as duas mãos. — O senhor está completamente farto de nós, não é, meu velho?
Tinha feições pronunciadas, nariz grosso, barba rala e castanho-clara; penteava os cabelos para o lado, à maneira de um comerciante, a fim de parecer uma pessoa simples, um russo comum. Ao falar, respirava forte, direto no rosto do interlocutor e, quando calado, ofegava pelo nariz. O corpo bem nutrido e a excessiva saciedade o sufocavam e, a fim de respirar melhor, ele sempre estufava o peito, o que lhe dava um aspecto arrogante. A seu lado, Nadiejda, a cunhada, parecia de uma leveza aérea. Era uma lourinha pálida, esbelta, de olhos simpáticos e afetuosos; se bonita ou não, Podgórin era incapaz de dizer, pois a conhecia desde a infância e encarava sua aparência com indiferença. Naquele dia, usava vestido branco e decotado, e a impressão do pescoço branco, alongado e nu era nova para ele, e não muito agradável.
— Eu e a minha irmã estamos esperando o senhor desde a manhã — disse ela. — Vária está conosco, também à espera do senhor.
Tomou-o pelo braço e riu de repente, sem motivo, em seguida deu um leve grito de alegria, como que encantada por alguma ideia repentina. O campo de centeio em flor, imóvel no ar parado, e o bosque, iluminado pelo sol, eram bonitos; e parecia que só agora, ao caminhar ao lado de Podgórin, Nadiejda havia se dado conta de tal beleza.
— Eu vim passar três dias com vocês — disse ele. — Perdoe, não consegui, de maneira nenhuma, me desvencilhar mais cedo de Moscou.
— Não é bom, não é bom, o senhor se esqueceu completamente de nós — disse Serguei Sergueitch. — Jamais dans ma vie![9] — disse ele, de súbito, e estalou os dedos.
Tinha o costume de pronunciar, em tom exclamativo, e de surpresa para o interlocutor, uma expressão qualquer, sem nenhuma relação com a conversa e, ao mesmo tempo, estalar os dedos. Além disso, estava sempre imitando alguém; se revirava os olhos ou jogava o cabelo para trás, com ar negligente, ou se adotava um tom enfático, significava que, na véspera, tinha ido ao teatro ou a um jantar em que fizeram discursos. Daquela vez, caminhava como alguém que sofre de gota, em passos bem curtos, sem flexionar os joelhos — na certa, também estava imitando alguém.
— A Tânia[10] nem acreditava mais que o senhor viria — disse Nadiejda. — Já eu e Vária tínhamos um pressentimento; não sei por quê, mas eu sabia que o senhor viria justamente nesse trem.
— Jamais dans ma vie! — repetiu Serguei Sergueitch.
Na varanda que dava para o jardim, as damas aguardavam. Dez anos antes, Podgórin — estudante pobre, na ocasião — dava aulas de matemática e história para Nadiejda, em troca de comida e um quarto para dormir; e Vária, estudante, aproveitava para ter, com ele, aulas de latim. Mas Tânia, na época já moça feita e bonita, não pensava em nada, senão no amor, só queria amor e paixão, e queria com fervor, esperava um noivo e sonhava com ele dia e noite. Agora, já com mais de trinta anos, tão bonita e vistosa como antes, num penhoar comprido, de mãos brancas e carnudas, ela só pensava no marido e nas duas filhas pequenas e trazia no rosto a expressão de alguém que, mesmo quando falava e sorria, estava sempre alerta, sempre em guarda, na defesa de seu amor e de seu direito a esse amor, sempre pronta para, a qualquer minuto, lançar-se contra algum inimigo que quisesse tomar seu marido e suas filhas. Ela amava muito e, assim lhe parecia, seu amor era correspondido, mas o ciúme e o temor pelas filhas a afligiam o tempo todo e impediam que fosse feliz.
Após a recepção ruidosa na varanda, todos, exceto Serguei Sergueitch, foram para o quarto de Tatiana. Ali, por trás dos estores fechados, os raios do sol não penetravam e reinava a penumbra, tanto que todas as rosas do grande buquê pareciam de uma cor só. Acomodaram Podgórin na velha poltrona junto à janela, Nadiejda sentou-se a seus pés, num banquinho baixo. Ele sabia que, além das censuras carinhosas, das brincadeiras e dos risos que agora soavam e lhe traziam tantas lembranças de outros tempos, logo viria uma conversa desagradável sobre letras de câmbio e hipotecas — era inevitável —, e pensou que talvez fosse melhor tratar do assunto de uma vez, não deixar para mais tarde; desembaraçar-se o quanto antes e, depois, ir para o jardim e para o ar livre.
— Não é melhor conversar primeiro sobre negócios? — disse ele. — Que novidade têm vocês sobre Kuzmínki? Tudo está bem no reino da Dinamarca?[11]
— Nossa Kuzmínki vai muito mal — respondeu Tatiana, e suspirou com tristeza. — Ah, os nossos negócios andam tão mal, tão mal, que a situação parece que não poderia estar pior — disse, e, abalada, começou a caminhar pela sala. — Nossa propriedade vai ser vendida, o leilão está marcado para o dia 7 de agosto, já foi divulgado em toda parte e os compradores vêm aqui, andam pelos quartos, olham tudo… Qualquer um tem direito de entrar no meu quarto e olhar. Pode ser correto, do ponto de vista jurídico, mas me humilha, me ofende profundamente. Não temos como pagar e não há mais onde pedir empréstimos. Em suma, é horrível, horrível! Juro ao senhor — prosseguiu, parando no meio da sala; a voz tremia, lágrimas cintilavam nos olhos. — Juro ao senhor, por tudo o que há de mais sagrado, pela felicidade de minhas filhas: sem Kuzmínki, eu não posso! Eu nasci aqui, este é o meu ninho e, se me tomarem isto, não vou sobreviver, vou morrer de desespero.
— Parece-me que a senhora está vendo a situação de modo sombrio demais — disse Podgórin. — Para tudo há um jeito. Seu marido vai arranjar um emprego, a senhora vai tomar um caminho novo, vai ter uma vida nova.
— Como o senhor pode dizer isso? — gritou Tatiana; agora, ela parecia muito bonita e forte, e aquela prontidão para, a qualquer minuto, lançar-se contra algum inimigo que quisesse tomar seu marido, suas filhas e seu ninho, se expressava em seu rosto, e em toda a sua figura, de modo especialmente incisivo. — Que vida nova é essa? Serguei anda à procura de um emprego, estão oferecendo o posto de inspetor de tributos em algum lugar na província de Ufá ou de Perm, e eu estou disposta a ir para onde quiserem, até para a Sibéria, estou disposta a viver lá dez, vinte anos, contanto que eu saiba que, cedo ou tarde, um dia, apesar de tudo, voltarei para Kuzmínki. Sem Kuzmínki, eu não posso. Não posso e não posso. Eu não quero! — gritou e bateu com o pé no chão.
— Micha, o senhor é advogado — disse Vária. — O senhor conhece o ramo, e seu trabalho é dar conselhos sobre o que fazer.
Só havia uma resposta justa e razoável: “Não se pode fazer nada”. Mas Podgórin não tinha coragem de dizer isso francamente, e balbuciou, indeciso:
— Vai ser preciso pensar um pouco… Eu vou pensar.
Dentro dele, havia duas pessoas. Como advogado, lhe ocorria cuidar de casos graves. Com os clientes e no tribunal, ele se portava com destemor e exprimia sua opinião sempre de modo direto e incisivo e, com os amigos, usava até um linguajar rude; mas na vida pessoal e na intimidade, com as pessoas mais próximas ou conhecidas de longa data, Podgórin demonstrava uma delicadeza fora do comum, era acanhado e sensível, incapaz de se exprimir de forma direta. Bastava uma lágrima, um olhar de esguelha, a menor mentira ou um simples gesto feio para ele logo se retrair e perder a coragem. Naquele momento, Nadiejda estava sentada a seus pés, e ele não gostou do pescoço desnudo, aquilo o incomodava, sentia até vontade de ir embora. Um ano antes, sem saber como, ele encontrara Serguei Sergueitch na casa de certa senhora na rua Brónnaia e, agora, diante de Tatiana, sentia-se constrangido, como se ele mesmo tivesse participado de uma traição. E aquela conversa sobre Kuzmínki o deixava em grande apuro. Estava habituado a ver todas as questões espinhosas e desagradáveis resolvidas pelos juízes ou pelos jurados, ou simplesmente por algum artigo da lei, porém, quando apresentavam uma questão a ele, em particular, para que ele, em pessoa, a solucionasse, então Podgórin se via perdido.
— Micha, o senhor é nosso amigo, todos nós amamos o senhor como uma pessoa da família — prosseguiu Tatiana. — E digo ao senhor com toda a sinceridade: toda nossa esperança está no senhor. Pelo amor de Deus, nos explique o que devemos fazer. Quem sabe é necessário apresentar uma petição em algum lugar? Quem sabe ainda não é tarde para passar a propriedade para o nome de Nádia ou de Vária?… O que fazer?
— Ajude, Micha, ajude — disse Vária, enquanto fumava. — O senhor sempre foi muito inteligente. O senhor viveu pouco, não tem nenhuma experiência da vida, mas, sobre os ombros, tem uma cabeça muito boa… O senhor vai socorrer Tânia, eu sei.
— É preciso pensar… Talvez eu consiga imaginar alguma coisa.
Saíram para passear no jardim e, depois, no campo. Serguei Sergueitch foi também. Segurou Podgórin pelo braço e o levou sempre à frente dos demais, pelo visto com a intenção de conversar com ele sobre algum assunto — na certa, seus negócios fracassados. Andar ao lado de Serguei Sergueitch e conversar com ele era um tormento. A todo instante beijava Podgórin, sempre três vezes, segurava-o pelo cotovelo, abraçava-o pela cintura, respirava em cheio no seu rosto, parecia coberto por uma cola açucarada que, a qualquer momento, poderia grudar-se nele; a expressão dos olhos, que deixava claro que ele precisava de algo de Podgórin e que, a qualquer minuto, ia fazer um pedido, produzia uma impressão angustiante, como se estivesse sob a mira de um revólver.
O sol se pôs, começou a escurecer. Na ferrovia, aqui e ali, cintilavam luzes verdes, vermelhas… Vária parou e, olhando para as luzes, começou a recitar:
Reta, a ferrovia: aterros estreitos,
Trilhos, postes, pontes,
Pelas margens, ossos russos…
Quantos, quantos![12]
— Como é que continua? Ah, meu Deus, esqueci tudo!
Trabalhamos com afinco, no calor, no frio,
As costas eternamente curvadas…
Ela recitava com voz magnífica, que ressoava no peito, com sentimento, um rosado vivo ardia no rosto e, nos olhos, surgiram lágrimas. Era a Vária de outros tempos, a Vária estudante, e, ao ouvi-la, Podgórin pensou no passado e recordou que ele mesmo, quando universitário, sabia de cor muitos versos bonitos e adorava recitar.
Sem aprumar ainda as costas arqueadas,
Até hoje, segue o povo calado, passivo…
Mas, daí em diante, Vária não lembrou mais… Calou-se, deu um sorriso frouxo, apagado, e, depois que parou, as luzes verdes e vermelhas ganharam um aspecto tristonho…
— Ah, eu esqueci.
Porém, de repente, Podgórin lembrou — por acaso, de algum modo, aquilo havia sobrevivido incólume em sua memória de estudante — e recitou devagar, a meia-voz:
Já suportou bastante, o povo russo,
Suportou esta estrada de ferro,
Suportou tudo — e com o peito largo,
Radiante, há de abrir caminho para si…
Pena que…
— Pena que — cortou Vária, lembrando —, pena que, viver esse tempo tão belo, já não caberá a mim nem a ti!
Ela riu e bateu de leve com a mão no ombro de Podgórin.
Voltaram para casa e foram jantar. Serguei Sergueitch, com ar negligente, enfiou o canto do guardanapo por dentro da gola — imitando alguém.
— Vamos beber — disse, e serviu vodca para si e para Podgórin. — Nós, estudantes de antigamente, sabíamos beber de verdade, falar bonito e agir a sério. Bebo à sua saúde, meu amigo, e o senhor vai beber à saúde de um velho tolo idealista e fazer votos para que ele morra tão idealista quanto antes. A sepultura endireita o corcunda.
Durante todo o jantar, Tatiana olhava para o marido com ternura, com ciúmes, temerosa de que bebesse ou comesse algo nocivo. Tinha a impressão de que ele se fartara das atenções das mulheres, de que estava cansado — disso ela gostava no marido, mas, ao mesmo tempo, a fazia sofrer. Vária e Nádia também demonstravam ternura por Serguei Sergueitch, olhavam para ele com preocupação, como se temessem que, de súbito, ele se levantasse, fosse embora e as deixasse. Quando ele quis servir um segundo cálice para si, Vária se mostrou zangada e disse:
— O senhor está se envenenando, Serguei Sergueitch. O senhor é uma pessoa nervosa, impressionável, e pode facilmente tornar-se alcoólatra. Tânia, mande tirar a vodca da mesa.
Em geral, Serguei Sergueitch fazia grande sucesso com as mulheres. Elas adoravam sua estatura elevada, seu porte físico, os traços pronunciados do rosto, sua ociosidade e seus infortúnios. Diziam que era muito bondoso e, por isso, gastador; que era um idealista e, por isso, sem senso prático; que era honesto, puro de espírito, incapaz de fazer concessões às pessoas e às circunstâncias e, por isso, nada possuía e não encontrava ocupações apropriadas para si. As mulheres acreditavam nele a fundo, o adoravam e, desse modo, o deixaram envaidecido com sua veneração, tanto assim que ele mesmo passou a crer que era um idealista, sem senso prático, honesto, puro de espírito, e também que era melhor do que aquelas mulheres e que estava um degrau acima de todas elas.
— Mas por que o senhor não faz um elogio às minhas meninas? — disse Tatiana, olhando com amor para as duas filhas, saudáveis, bem nutridas, semelhantes a duas broas, enquanto amontoava, para as meninas, dois pratos cheios de arroz. — Olhe só para elas! Dizem que todas as mães elogiam os filhos, mas, garanto ao senhor, eu sou imparcial, minhas filhas são fora do comum. Sobretudo a mais velha.
Podgórin sorria para Tatiana e para as meninas, mas achava estranho que aquela mulher jovem, saudável, inteligente, no fundo um organismo tão grande e tão complexo, despendesse toda a energia da vida num trabalho tão simples, tão rasteiro como a organização daquele ninho que, por si só, mesmo sem ela, já se organizaria muito bem.
“Talvez até seja necessário”, pensou ele, “mas é uma coisa desinteressante e limitada.”
— Nem gemer ele conseguiu, quando sobre ele um urso caiu[13] — disse Serguei Sergueitch, e estalou os dedos.
Jantaram. Tatiana e Vária levaram Podgórin para a sala de estar, acomodaram a visita no sofá e começaram a conversar com ele a meia-voz, de novo sobre negócios.
— Nós temos de ajudar o Serguei Sergueitch — disse Vária. — É nossa obrigação moral. Ele tem suas fraquezas, não sabe economizar, não pensa no dia de amanhã, mas isso acontece porque ele é muito bom e generoso. Tem sempre alma de criança. Se você der um milhão para ele, em um mês não sobrará mais nada, vai distribuir tudo.
— É verdade, é verdade — disse Tatiana, e lágrimas correram em suas faces. — Eu sofri demais com ele, mas tenho de reconhecer que é um homem maravilhoso.
E então, as duas, Tatiana e Vária, não conseguiram se esquivar de uma pequena crueldade e não pouparam Podgórin de uma censura:
— E a geração do senhor, Micha, já não é capaz de nada disso!
“Mas que história é essa de geração?”, pensou Podgórin. “Afinal, Lóssev é mais velho do que eu uns seis anos no máximo…”
— Não é fácil viver neste mundo — disse Vária, e suspirou. — Vivemos o tempo todo sob a ameaça de alguma perda. Ora querem tomar a nossa propriedade, ora alguém muito próximo de nós adoece e temos medo de que morra… e é assim, dia após dia. Mas o que fazer, meus amigos? É preciso se resignar à vontade suprema, sem lamúrias, é preciso lembrar que, neste mundo, nada é por acaso, tudo tem um propósito distante. O senhor, Micha, ainda viveu pouco e sofreu pouco, e vai rir de mim; pois pode rir, mesmo assim, vou lhe contar: no tempo de minhas agruras mais aflitivas, tive alguns episódios de clarividência, isso produziu uma reviravolta no meu espírito e, agora, sei que nada é por acaso e tudo que ocorre em nossa vida é necessário.
Como aquela Vária já grisalha, comprimida por um espartilho, num vestido da moda, com ombreiras, aquela Vária que girava um cigarro entre os dedos compridos, magros, e que por algum motivo tremiam, como aquela Vária que cedia facilmente ao misticismo e falava em voz tão lânguida e monótona — como ela era diferente da Vária estudante, ruiva, alegre, expansiva, atrevida…
“Mas para onde foi tudo aquilo?”, pensou Podgórin, enquanto a escutava, entediado.
— Cante alguma coisa, Va — disse Podgórin, a fim de interromper aquela conversa sobre visões sobrenaturais. — Antigamente a senhora cantava tão bem.
— Ah, Micha, o tempo passou e não volta mais.
— Então recite um pouco mais de Nekrássov.
— Eu já esqueci tudo. O que recitei agora há pouco me ocorreu por acaso.
Apesar do espartilho e das ombreiras, percebia-se que ela também andava passando necessidades e que, lá na fábrica perto de Tula, vivia na penúria. Também dava para perceber que trabalhava demais; o serviço pesado, monótono, e seu envolvimento constante nos problemas alheios, sua preocupação com os outros, a haviam esgotado, envelhecido, e Podgórin, agora, enquanto olhava com pena para seu rosto já sem viço, pensava que, no fundo, o certo mesmo seria socorrer não Kuzmínki, não Serguei Sergueitch, pelos quais ela tanto se afligia, mas sim a própria Vária.
A instrução elevada e o fato de ter se tornado médica, pelo visto, não tinham alterado a mulher que havia dentro dela. Assim como Tatiana, ela adorava casamentos, famílias, batizados, longas conversas sobre crianças, adorava com fervor os romances com desenlaces felizes, só lia, nos jornais, notícias sobre incêndios, enchentes e cerimônias de gala; desejava muito que Podgórin pedisse Nadiejda em casamento e, se aquilo acontecesse, ela se desmancharia em lágrimas de ternura.
Podgórin não sabia se a circunstância surgira por acaso ou se tinha sido planejada por Vária, o fato é que, de repente, ele se viu a sós com Nadiejda. Entretanto, a suspeita de que o estavam observando às escondidas e queriam algo dele o deixava constrangido e encabulado e, ao lado da moça, Podgórin tinha a sensação de ter sido colocado, junto com ela, dentro de uma gaiola.
— Vamos para o jardim — disse Nadiejda.
Foram para o jardim: ele estava aborrecido, com um sentimento de enfado, sem saber o que falar; já ela estava alegre, orgulhosa de ficar a sós com ele, visivelmente satisfeita com a perspectiva de Podgórin permanecer em sua casa por mais três dias, e também, talvez, cheia de doces devaneios e esperanças. Ele desconhecia se amava Nadiejda ou não, mas sabia que ela estava habituada com ele, se afeiçoara a ele desde muito tempo e continuava a vê-lo, ainda, como seu professor e, agora, em sua alma, se passava o mesmo que, em outros tempos, se dera na alma de sua irmã Tatiana, ou seja, só pensava no amor, em se casar o quanto antes, ter marido, filhos e o seu cantinho para viver. O sentimento de amizade, tão forte entre as crianças, Nadiejda o conservava até agora, e era bem possível que apenas respeitasse Podgórin, gostasse dele como um amigo e estivesse apaixonada não por ele, mas por aqueles sonhos de ter marido e filhos.
— Está escurecendo — disse ele.
— Sim. Agora a lua aparece mais tarde.
O tempo todo, caminhavam apenas pela alameda perto da casa. Podgórin não tinha intenção de ir para o fundo do jardim: lá era escuro, ele teria de conduzir Nadiejda segura pelo braço, ficar muito perto dela. Na varanda, algumas sombras se moviam, e ele teve a impressão de que eram Tatiana e Vária, que o vigiavam.
— Preciso pedir um conselho ao senhor — disse Nadiejda, e se deteve. — Se Kuzmínki for mesmo a leilão, Serguei Sergueitch vai arranjar um emprego, e nossa vida vai mudar completamente. Não vou mais morar com minha irmã, nós vamos nos separar, porque não quero ser um fardo para a família. Eu preciso trabalhar. Vou arranjar alguma coisa para fazer em Moscou, vou trabalhar muito, vou ajudar a minha irmã e o seu marido. E o senhor vai me ajudar com seus conselhos… não é verdade?
Sem nenhuma familiaridade com o trabalho, agora, no entanto, ela estava repleta de entusiasmo com a ideia da independência, de uma vida laboriosa, e construía planos para o futuro — isso estava escrito em seu rosto, e aquela vida, em que ela iria trabalhar e ajudar os outros, lhe parecia bela, poética. Podgórin via bem de perto seu rosto pálido, as sobrancelhas escuras, e lembrou como era uma aluna inteligente, sagaz, cheia de aptidões promissoras, e lembrou como era agradável dar aula para Nadiejda. Agora, com certeza, ela não era uma simples dama da sociedade à cata de um noivo, mas uma jovem inteligente, generosa, de extraordinária bondade, de alma dócil e meiga, da qual, como a cera, se poderia moldar qualquer coisa e, num ambiente adequado, havia de se transformar numa mulher maravilhosa.
“De fato, por que, então, não se casar com ela?”, pensou Podgórin, mas logo, por algum motivo, se assustou com a ideia e caminhou rumo à casa.
Na sala, Tatiana estava sentada ao piano, e sua maneira vigorosa de tocar o fez lembrar-se do passado, quando, naquela mesma sala, tocavam, cantavam e dançavam até de madrugada, diante das janelas abertas, enquanto os pássaros, no jardim e no rio, também cantavam. Podgórin se alegrou, começou a dizer gracejos, pôs-se a dançar com Nadiejda e com Vária, depois cantou. Um calo no pé o afligia, ele pediu permissão para calçar os chinelos de Serguei Sergueitch e, por mais estranho que fosse, de chinelos, sentiu-se uma pessoa de casa, da família (“como um cunhado…”, passou por sua cabeça, num lampejo), e tornou-se ainda mais alegre. Ao vê-lo assim, todos se animaram, se alegraram, como que rejuvenescidos; no rosto de todos, reluziu a esperança: Kuzmínki estava salva! Afinal, era simples de resolver: bastava inventar alguma coisa, escavar algo nas leis ou então casar Nádia com Podgórin… E, obviamente, aquela questão já estava bem encaminhada. Nádia, rosada, feliz, com os olhos cheios de lágrimas, à espera de algo extraordinário, rodopiava na dança, seu vestido branco inflava e se viam os pezinhos bonitos e miúdos, em meias cor de pele… Vária, muito contente, tomou Podgórim pelo braço e lhe disse a meia-voz, com expressão eloquente:
— Micha, não fuja da sua felicidade. Apanhe a felicidade já, enquanto ela mesma se oferece às suas mãos. Depois, o senhor vai correr atrás dela e aí já será tarde, não vai mais alcançá-la.
Podgórin sentiu vontade de prometer, dar esperanças, e ele mesmo já estava acreditando que Kuzmínki estava salva e que aquilo era simples de fazer.
— E tu serás a rainha do m-u-u-undo… — cantou ele, fazendo pose, mas de súbito se deu conta de que não podia fazer nada para aquelas pessoas, rigorosamente nada, e emudeceu, com ar culpado.
Depois, sentou-se num canto, calado, encolheu as pernas e, sob a cadeira, cruzou os pés calçados em chinelos alheios.
Olhando para ele, os demais também compreenderam que já não era possível fazer nada, e emudeceram. Fecharam a tampa do piano. Todos se deram conta de que era tarde, era hora de dormir, e Tatiana apagou o grande lampião da sala.
Fizeram a cama de Podgórin na mesma casinha anexa onde ele morara antigamente. Serguei Sergueitch o conduziu até lá, com uma vela erguida bem alto, acima da cabeça, embora a lua já tivesse subido e estivesse claro. Os dois caminharam pela alameda entre arbustos de lilases e, sob os pés de ambos, o cascalho fino crepitava.
— Nem gemer ele conseguiu, quando sobre ele um urso caiu — disse Serguei Sergueitch.
E Podgórin teve a impressão de que já ouvira a frase mil vezes. Como estava farto daquilo! Ao chegarem à casinha, Serguei Sergueitch tirou, de dentro do paletó folgado, uma garrafa e dois cálices e os colocou sobre a mesa.
— É conhaque — disse. — Número zero-zero. Vária está lá em casa e, com ela, não posso beber, agora ela desandou a falar em alcoolismo, mas aqui nós podemos ficar sossegados. O conhaque é excelente.
Sentaram-se. De fato, o conhaque parecia bom.
— Hoje vamos beber de verdade — prosseguiu Serguei Sergueitch, enquanto acrescentava limão. — Sou um velho estudante festeiro, às vezes adoro uma farra. É indispensável.
Nos olhos, havia a mesma expressão de que precisava de alguma coisa de Podgórin e de que, a qualquer momento, ia fazer algum pedido.
— Vamos beber, meu caro — prosseguiu, e suspirou. — Senão é triste demais. Chegou o fim da linha, para os excêntricos como eu. Acabou-se. O idealismo já saiu de moda. Hoje em dia, reina o rublo e, se você não quiser ser varrido para fora da estrada, ajoelhe-se diante do rublo e mostre veneração por ele. Só que eu não consigo. Já é demais para mim!
— Quando vai ser o leilão? — perguntou Podgórin, para mudar de assunto.
— Dia 7 de agosto. Mas eu, meu caro, não estou contando com a salvação de Kuzmínki. A dívida acumulada é gigantesca e a propriedade não gera receita nenhuma, só prejuízos, todos os anos. Não vale a pena… Claro, Tânia está triste, é o seu solo natal; já eu, confesso, fico até contente, em parte. Não sou um homem do campo. Minha terra é a cidade grande, ruidosa, meu ambiente é a luta!
Continuou a falar, mas não era ainda aquilo que desejava dizer e, com olhar penetrante, espreitava Podgórin, como à espera do melhor momento. De súbito, Podgórin viu seus olhos bem perto, sentiu no rosto sua respiração…
— Meu caro, salve-me! — exclamou Serguei Sergueitch, ofegante. — Preciso de duzentos rublos! Eu suplico ao senhor!
Podgórin queria dizer que ele mesmo andava apertado de dinheiro e pensou que era melhor dar aqueles duzentos rublos a um mendigo qualquer ou, até mesmo, simplesmente perder tudo num jogo de cartas, porém seu constrangimento era terrível e, naquele quarto acanhado, com uma vela acesa, sentiu-se preso numa armadilha, queria livrar-se o quanto antes daquela respiração, daquelas mãos moles que o seguravam pela cintura e que pareciam já ter se grudado a ele, e bem depressa tratou de procurar nos bolsos o seu caderno de anotações, dentro do qual guardava o dinheiro.
— Tome… — balbuciou, tirando cem rublos. — O resto, só depois. Não tenho mais comigo. Veja, eu não sei negar — continuou, contrariado, e começou a se irritar. — Eu tenho o coração mole de uma mulherzinha. Mas, faça o favor, depois me pague esse dinheiro sem falta. Eu preciso dele.
— Agradeço ao senhor. Obrigado, meu amigo!
— E, pelo amor de Deus, pare de imaginar que é um idealista. O senhor é tão idealista quanto um peru. O senhor não passa de um leviano, uma pessoa ociosa, e mais nada.
Serguei Sergueitch suspirou fundo e sentou-se no sofá.
— Meu caro amigo, o senhor se irritou — disse. — Mas, se soubesse como sofro! Estou atravessando uma fase horrorosa. Meu caro amigo, eu juro, não é por mim mesmo que lamento, não! Lamento é pela esposa e pelas filhas. Se não tivesse esposa e filhas, eu já teria dado cabo da minha vida há muito tempo.
De repente, os ombros e a cabeça começaram a tremer, e ele se desfez em soluços.
— Era só o que faltava — disse Podgórin, andando inquieto pela sala, com forte irritação. — Pois muito bem, o que se faz com uma pessoa que causa uma montanha de malefícios e depois começa a chorar? Essas suas lágrimas desarmam a gente, eu não tenho forças para lhe dizer nada. O senhor está chorando, portanto, o senhor tem razão.
— Eu causei uma montanha de malefícios? — perguntou Serguei Sergueitch, levantando-se e olhando para Podgórin com surpresa. — Meu caro, será que o senhor disse mesmo isso? Eu causei uma montanha de malefícios? Ah, como o senhor me conhece mal! Como o senhor me compreende pouco!
— Muito bem, eu não compreendo o senhor, mas, por favor, só não fique aí chorando. Isso é nojento.
— Ah, como o senhor me conhece mal! — repetiu Lóssev, com total sinceridade. — Como o senhor me conhece mal!
— Olhe para si no espelho — prosseguiu Podgórin. — O senhor já não é nenhum jovem, logo estará velho, chegou a hora de pôr a cabeça no lugar, de se dar conta, por pouco que seja, de quem é o senhor e do que é o senhor. Não fez nada a vida inteira, levou toda a vida nesse palavrório ocioso e pueril, sempre com esses trejeitos, essas palhaçadas. Nem sei como a cabeça do senhor ainda não começou a girar. Como pode não estar cansado de viver desse jeito? É horrível ficar com o senhor! É maçante, me deixa à beira do estupor!
Dito isso, Podgórin foi para fora, batendo a porta com força. Talvez tivesse sido a primeira vez na vida em que foi sincero e disse o que de fato queria.
Pouco depois, já lamentava ter sido tão severo. De que adiantava falar a sério ou discutir com uma pessoa que mentia sem parar, comia muito, bebia muito, gastava muito o dinheiro dos outros e, ao mesmo tempo, estava convencido de que era um idealista e uma vítima? Tratava-se, no caso, de mera tolice ou de antigos maus costumes que se entranharam a fundo no organismo, como uma doença, e já não tinham mais cura. Em todo caso, indignação e censuras severas de nada adiantavam, nas circunstâncias, o melhor seria dar risadas; uma zombaria bem-feita produziria muito mais resultado do que uma dezena de sermões!
“A solução mais simples era não dar atenção, e pronto”, pensou Podgórin. “E, acima de tudo, não dar dinheiro!”
Pouco depois, já nem pensava mais em Serguei Sergueitch nem nos seus cem rublos. A madrugada estava silenciosa, sonhadora, muito clara. Quando olhou para o céu daquela noite enluarada, Podgórin teve a impressão de que só ele e a lua estavam acordados, tudo o mais dormia ou, pelo menos, cochilava; e no seu pensamento não havia nem gente nem dinheiro, e, pouco a pouco, seu estado de ânimo se tornou sereno, apaziguado, ele se sentiu unido àquele mundo e, no silêncio da madrugada, o rumor dos próprios passos lhe pareceu muito triste.
O jardim era contornado por um muro de pedras brancas. No lado que dava para o campo, no canto direito, havia uma torre, construída muito tempo antes, ainda na época da servidão. Embaixo, a torre era feita de pedra e, em cima, de madeira, com um patamar, tinha o telhado em forma de cone, com uma agulha comprida, na qual se via um negro cata-vento. No térreo, havia duas portas, de modo que era possível passar do jardim para o campo, e para cima, rumo ao patamar, havia uma escada que rangia sob o peso dos pés. Embaixo da escada, amontoavam-se velhas poltronas quebradas, e o luar, que agora penetrava pela porta, iluminava as poltronas, e elas, com suas pernas tortas e viradas para cima, pareciam ter ganhado vida de madrugada e ali, no silêncio, era como se estivessem à espera de alguém.
Podgórin subiu pela escada até o patamar e sentou-se. Logo depois do muro, havia uma vala com uma mureta, para marcar a divisa, e depois vinha o campo, vasto, iluminado pelo luar. Podgórin sabia que seguindo em linha reta, à frente, a três verstas[14] do jardim, ficava o bosque, e agora ele tinha a impressão de estar vendo, ao longe, uma faixa escura. As codornas e as codornizes piavam; de vez em quando, do lado do bosque, vinha o canto de um cuco, que também estava acordado.
Soaram passos. Alguém caminhava pelo jardim, na direção da torre.
Um cachorro latiu.
— Juk![15] — ordenou uma voz baixa, de mulher. — Juk! Para trás!
De baixo, veio o som de alguém entrando na torre e, após um minuto, surgiu na mureta o cão negro, velho conhecido de Podgórin. Ele parou, olhou para cima, para o lugar onde Podgórin estava sentado, e abanou o rabo com ar amistoso. Em seguida, após um breve intervalo, como uma sombra que saísse da vala escura, ergueu-se um vulto branco que também parou na mureta. Era Nadiejda.
— O que você está vendo lá? — perguntou ela para o cachorro, e se pôs a olhar para cima.
Não estava vendo Podgórin, mas na certa sentia sua presença, pois sorriu, e o rosto pálido, iluminado pela lua, parecia feliz. A sombra negra da torre, que se estendia até bem longe, sobre a terra, pelo campo, o vulto branco e imóvel, com um sorriso de enlevo no rosto pálido, o cachorro preto, as sombras dos dois — tudo parecia um sonho…
— Alguém está lá em cima… — falou Nadiejda, baixinho.
Ficou parada, à espera de que Podgórin descesse ou a chamasse para junto dele e, afinal, se declarasse, e os dois seriam felizes, naquela madrugada linda e serena. Branca, pálida, esguia, muito bonita à luz da lua, ela esperava carinhos; seus constantes sonhos de felicidade e amor a consumiam, ela já não tinha mais forças para esconder seus sentimentos e toda sua figura, os olhos radiantes, o sorriso feliz e imutável, revelavam seus pensamentos secretos, e Podgórin ficou encabulado, retraiu-se, emudeceu sem saber se devia dizer algo que transformasse tudo em mera brincadeira, como era seu costume, ou manter-se calado, e então sentiu uma irritação e só conseguiu pensar que ali, naquele jardim, numa noite de luar, perto de uma jovem bela, apaixonada, sonhadora, ele se sentia tão indiferente quando na rua Málaia Brónnaia — e, sem dúvida, era por isso que, para ele, essa poesia era tão obsoleta quanto aquela prosa grosseira. Obsoletos também eram os encontros ao luar, as figuras femininas brancas e de cinturas finas, as sombras misteriosas, as torres, os jardins e os “tipos” como Serguei Sergueitch, e também como ele mesmo, Podgórin, com seu tédio frio, sua irritação constante, sua incapacidade de adaptar-se à vida real, sua incapacidade de tomar da vida aquilo que ela podia oferecer, e com essa lamuriosa e enfadonha sede de algo que não existe nem pode existir neste mundo. E agora, ali sentado naquela torre, ele preferia uns fogos de artifício bonitos ou algum desfile ao luar ou Vária recitando de novo “A estrada de ferro” ou mesmo outra mulher que, de pé na mureta, lá onde agora estava Nadiejda, contasse algo interessante, novo, sem nenhuma relação com o amor nem com a felicidade e, no entanto, se falasse de amor, que fosse como um chamado para novas formas de vida, elevadas e racionais, cuja véspera já estamos vivendo, talvez, e que às vezes até pressentimos…
— Não tem ninguém lá… — disse Nadiejda.
Depois de aguardar mais um minuto, ela seguiu rumo ao bosque, devagar, de cabeça baixa. O cachorro foi correndo na frente. E Podgórin, ainda por muito tempo, ficou vendo aquela mancha branca.
“Mas como é que tudo ficou assim tão complicado…”, repetia em pensamento, enquanto voltava ao seu quarto, na casinha anexa.
Não conseguia imaginar o que ia dizer para Serguei Sergueitch e Tatiana, no dia seguinte, como ia se portar na frente de Nadiejda — e também no terceiro dia, e, por antecipação, já sentia o constrangimento, o medo, o tédio. Como preencher aqueles três dias compridos que prometera passar ali? Veio à memória a conversa a respeito de visões sobrenaturais e a frase feita de Serguei Sergueitch: “Nem gemer ele conseguiu, quando sobre ele um urso caiu”, lembrou-se de que no dia seguinte, para agradar a Tatiana, teria de sorrir para suas filhas bem nutridas, rechonchudas… e decidiu ir embora.
Às cinco e meia, na varanda da casa principal, apareceu Serguei Sergueitch com um roupão de Bukhara[16] e, na cabeça, um fez com uma borla pendurada. Podgórin, sem perder um minuto, foi até ele e tratou de se despedir.
— Eu preciso estar em Moscou às dez horas — disse, sem olhar para ele. — Esqueci completamente que estarão à minha espera no cartório. Por favor, deixe-me partir. Quando elas se levantarem, diga que peço desculpas e que lamento tremendamente…
Nem ouviu o que Serguei Sergueitch respondeu e se retirou afobado, virando-se toda hora a fim de olhar para as janelas da casa principal, receoso de que as damas despertassem e o retivessem ali. Tinha vergonha de seu nervosismo. Sentia que era a última vez que veria Kuzmínki e, ao partir, virou-se várias vezes para olhar para a casinha anexa onde, em outros tempos, vivera tantos dias bonitos, mas sua alma estava fria, sem sinal de tristeza…
Já em casa, sobre a mesa, viu, antes de tudo, o bilhete que recebera na véspera. “Querido Micha”, leu. “O senhor se esqueceu de nós por completo, venha depressa…” E, por algum motivo, lembrou-se de como Nadiejda rodopiava ao dançar, como seu vestido inflava e se viam os pés calçados em meias cor de pele…
Dez minutos depois, já estava sentado à mesa, trabalhando, e não pensava mais em Kuzmínki.
1898