• Ivan Milazzotti
    Anatomia da História
    03-07-2025 15:36:59
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PREMISSA

Michael Crichton não tem os personagens profundos e humanos de um Tchekhov ou as tramas brilhantes de um Dickens – só é o melhor escritor de premissas de Hollywood. Pegue Jurassic Park: o parque dos dinossauros como exemplo. Pode ser que a história de Crichton tenha se originado deste princípio narrativo: "E se você colocasse os dois pesos pesados da evolução – dinossauros e humanos – em um mesmo ringue e os obrigasse a lutar até a morte?". Essa é uma história que eu quero ver.

Há muitos modos de começar o processo de escrita. Alguns autores preferem quebrar a história em sete passos primários, o que vamos explorar no Capítulo 3. Mas a maioria começa com a expressão mais curta da história como um todo – a premissa.

O QUE É A PREMISSA?

A premissa é sua história declarada em uma sentença. É a combinação mais simples de personagem e trama, e geralmente consiste em um evento que dá início à ação, uma breve noção sobre o personagem principal e uma breve noção sobre o final da história.

Alguns exemplos:

  • O poderoso chefão: o filho mais jovem de uma família mafiosa se vinga dos homens que mataram seu pai e se torna o novo chefão.
  • Feitiço da lua: uma mulher se apaixona pelo irmão de seu noivo enquanto ele visita a mãe na Itália.
  • Casablanca: um exilado estadunidense durão reencontra um antigo amor, mas precisa abrir mão dele para lutar contra os nazistas.
  • Um bonde chamado desejo: uma beldade em decadência tenta convencer um homem a se casar com ela enquanto sofre ataques constantes do marido bruto da irmã.
  • Star Wars: quando uma princesa corre perigo mortal, um jovem usa suas habilidades como guerreiro para salvá-la e derrotar as forças malignas de um império galáctico.

Há vários motivos práticos para que uma boa premissa seja crucial para o sucesso da sua história. Em primeiro lugar, Hollywood vende filmes para o mundo todo, com uma boa parcela do faturamento entrando no fim de semana de estreia. Por isso, os produtores procuram por premissas high concept1, o que quer dizer que o filme pode ser resumido em uma frase apelativa que as pessoas entenderão instantaneamente e correrão para o cinema para assistir.

Em segundo lugar, a sua premissa é sua inspiração. É o momento "Eureca!" em que você tem uma ideia e diz "Isso daria uma ótima história!", e essa empolgação lhe dá a perseverança para prosseguir durante meses, e até anos, de escrita difícil.

O que nos leva a outra questão importante: para o bem ou para o mal, a premissa é também a sua prisão. Assim que você decide desenvolver uma ideia, há milhares de outras em potencial que não vão ser escritas – então é melhor estar satisfeito com a sua escolha.

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PONTO-CHAVE: O que você escolhe escrever é muito mais importante do que qualquer decisão que tome sobre como escrever.

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Um último motivo para se ter uma boa premissa é que essa decisão vai basear todas as outras que você tomará durante o processo de escrita. Personagem, trama, tema, símbolos – tudo se origina dessa ideia central. Se você falhar na premissa, nada mais importa. Se os alicerces de um prédio são malfeitos, nenhum trabalho nos andares superiores tornará o prédio estável. Você pode ser incrível com personagens, um mestre da trama ou um gênio do diálogo: se sua premissa for fraca, não há nada que possa fazer para salvar a história.

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PONTO-CHAVE: Nove em cada dez escritores fracassam na premissa.

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O grande motivo para tantos fracassarem aqui é que não sabem como desenvolver a ideia, como desenterrar o ouro enterrado nela. Não percebem que o grande valor da premissa é permitir ao escritor que explore a história completa e as muitas formas que ela pode assumir antes de escrevê-la de fato.

A premissa é um exemplo clássico de um assunto no qual pouco conhecimento é uma coisa perigosa. A maioria dos roteiristas sabe da importância que Hollywood atribui a uma premissa high concept. O que não sabem é que uma frase de marketing jamais lhes dirá o que a história orgânica exige.

Também não conhecem a fraqueza estrutural inerente a qualquer premissa high concept: ela só lhe dá duas ou três cenas. Essas cenas são as que ocorrem logo antes e logo depois de uma reviravolta e que tornam a sua premissa única. O longa-metragem médio tem de 40 a 70 cenas. Um romance pode ter o dobro ou o triplo desse número. Só conhecendo bem o ofício de contação de histórias é que você pode superar as limitações do high concept e contar a história toda com sucesso.

A primeira técnica para encontrar o ouro em uma ideia é tempo. Reserve bastante tempo para o começo do processo de escrita. Não estou falando de horas nem dias, mas de semanas. Não cometa o erro amador de pensar em uma premissa instigante e sair correndo imediatamente para escrever cenas. Você só vai conseguir escrever vinte ou trinta páginas e vai topar com um beco sem saída.

No processo de escrita, a etapa da premissa é o momento em que você explora a grande estratégia da sua história: envolve ver o panorama de forma mais ampla, distanciada, e encontrar a forma e o desenvolvimento geral da história. Você começa quase sem nada com que trabalhar. É por isso que o trabalho com a premissa é o mais incerto de todo o processo: você está tateando no escuro, explorando possibilidades para entender o que funciona e o que não funciona, o que se solidifica em um todo orgânico e o que não se sustenta.

Isso significa que você precisa permanecer flexível, aberto a todas as possibilidades. Pelo mesmo motivo, neste momento, o mais importante é usar como guia um método criativo orgânico.

DESENVOLVENDO SUA PREMISSA

Nas semanas em que explorar sua premissa, use os seguintes passos para pensar em uma única sentença que possa ser transformada em uma grande história.

Passo 1: Escreva algo que possa mudar sua vida

Esse é um padrão bem alto, mas pode ser o conselho mais valioso que você receberá como escritor. Nunca vi um que tenha falhado quando o seguiu. Por quê? Porque se uma história é importante para você, pode ser que seja importante para muitas outras pessoas do público. E quando terminar de escrever a história, não importa o que mais aconteça, você terá mudado sua vida.

Você pode dizer: "Eu adoraria escrever uma história assim, mas como vou saber se ela vai mudar a minha vida antes de eu a escrever?". Para isso você vai precisar de um pouco de autoexploração, algo que a maioria dos escritores, acredite se quiser, nunca fazem. A maioria dos escritores se contenta em pensar em uma premissa que seja uma cópia fajuta do filme, livro ou peça de outra pessoa, que parece ter um apelo comercial, mas não tem qualquer conexão pessoal com o escritor. Essa história jamais será mais que genérica e estará fadada ao fracasso.

Para explorar a si mesmo e ter a chance de escrever algo que possa mudar sua vida, você deve reunir dados sobre quem você é. E precisa colocá-los para fora e olhar para eles para que possa estudá-los objetivamente.

Há dois exercícios que podem ajudá-lo nisso. Primeiro, escreva sua lista de desejos. Sua lista de desejos é uma lista de tudo o que você gostaria de ver na tela, em um livro ou no teatro. É aquilo pelo qual você é apaixonado e que o entretém. Você pode anotar personagens que imaginou, reviravoltas legais de trama ou diálogos incríveis que surgiram em sua mente. Pode listar temas com os quais se importe ou certos gêneros que sempre o atraem.

Escreva todos eles usando quantas folhas precisar. Essa é a sua lista de desejos pessoal, então não rejeite nada. Ignore pensamentos como "Isso seria caro demais". E não organize as coisas enquanto escreve. Deixe uma ideia levar a outra.

O segundo exercício é uma lista de premissas. É uma lista de todas as premissas em que você já pensou. Podem ser cinco, vinte, cinquenta ou mais. De novo, use quantas folhas precisar. A principal exigência desse exercício é que você expresse cada premissa em uma frase. Isso o força a ser muito claro sobre cada ideia e permite que veja todas as suas premissas juntas em um único lugar.

Depois de completar tanto a lista de desejos como a de premissas, coloque-as a sua frente e as estude. Procure por elementos centrais que se repetem em ambas. Certos personagens e tipos de personagens podem ser recorrentes, uma qualidade de voz pode se insinuar através dos diálogos, um ou dois tipos de história (gêneros) podem se repetir, ou pode haver um tema, assunto ou período histórico ao qual você sempre retorna.

Enquanto estuda as listas, padrões-chave sobre o que você ama vão começar a emergir. Isso, na forma mais crua possível, é a sua visão. É quem você é como escritor e ser humano, registrado no papel à sua frente. Volte a ele com frequência.

Note que esses dois exercícios se destinam tanto a ampliar suas possibilidades como a integrar o que já existe profundamente em você. Não garantem que escreverá uma história que mude sua vida – nada garante. Mas, depois dessa etapa essencial de autoexploração, qualquer premissa na qual pensar terá mais chances de ser pessoal e original.

Passo 2: Procure o que é possível

Um dos principais motivos para os escritores fracassarem na etapa da premissa é não saberem como identificar o verdadeiro potencial da história deles. Isso exige experiência e também técnica. O que você está procurando é aonde a ideia pode chegar, o modo como pode desabrochar. Não pule direto para uma única possibilidade, mesmo que pareça muito boa.

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PONTO-CHAVE: Explore suas opções. A intenção aqui é explorar muitos lugares possíveis aonde levar a ideia, e só então escolher o melhor.

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Uma técnica para explorar possibilidades é ver se a ideia faz alguma promessa. Algumas ideias geram certas expectativas, coisas que devem acontecer para satisfazer o público se a ideia for desenvolvida em uma história completa. Essas "promessas" podem conduzi-lo até a melhor opção para desenvolver a ideia.

Uma técnica muito valiosa para entender o que sua ideia possibilita é fazer a seguinte pergunta: e se? O "e se" o levará para dois lugares: sua ideia central e sua própria mente. Tal indagação o ajudará a definir o que é permitido na nova história e o que não é. Também o ajudará a explorar sua mente, que está brincando nessa paisagem ficcional. Quanto mais você se perguntar "e se?", mais poderá habitar essa paisagem integralmente, detalhá-la e torná-la envolvente para um público.

A questão aqui é deixar que sua mente seja livre. Não se censure nem se julgue. Jamais diga a si mesmo que uma de suas ideias é idiota. Ideias "idiotas" muitas vezes conduzem a grandes sacadas criativas.

Para entender melhor esse processo, vamos examinar histórias que já foram escritas e brincar com o que os autores podem ter pensado enquanto exploravam as possibilidades mais profundas de suas premissas.

  • A testemunha

(Earl W. Wallace e William Kelley, história de William Kelley, 1985)

Um menino que testemunha um crime é um começo clássico para um thriller. Promete perigos de roer as unhas, ação intensa e violência. Mas e se você levar a história para muito além e explorar a violência nos Estados Unidos? E se mostrar os dois extremos do uso da força – violência e pacifismo – fazendo o menino viajar de uma pacata comunidade amish até uma cidade violenta? E se, então, obrigar um homem que usa a violência para o bem, o herói policial, a entrar no mundo amish e se apaixonar? E se então você levar a violência para o coração do pacifismo?

  • Tootsie

(Larry Gelbart e Murray Schisgal, história de Don McGuire e Larry Gelbart, 1982)

A promessa que imediatamente ocorre ao público diante dessa ideia é a diversão de ver um homem vestido de mulher. E você sabe que vão querer esse personagem no maior número de situações difíceis possível. Mas e se você for além dessas expectativas úteis, mas óbvias? E se destacar a estratégia do herói para mostrar de perto como os homens jogam o jogo do amor? E se você transformar o herói em um machista que é obrigado a usar o disfarce que menos quer – o de mulher –, mas que mais precisa para crescer? E se intensificar o ritmo e a trama empurrando a história em direção à farsa: mostrando muitos homens e mulheres perseguindo uns aos outros ao mesmo tempo?

  • Chinatown

(Robert Towne, 1974)

A ideia de um homem investigando um assassinato em Los Angeles na década de 1930 promete todas as revelações, reviravoltas e surpresas de uma boa história policial. Mas e se o crime só aumentar? E se o detetive começar investigando o menor "crime" possível, adultério, e acabar descobrindo que a cidade inteira foi construída por meio de assassinatos? Depois disso você pode tornar as revelações cada vez maiores até mostrar ao público os segredos mais profundos e sombrios da vida nos Estados Unidos.

  • O poderoso chefão

(romance de Mario Puzo, roteiro de Mario Puzo e Francis Ford Coppola, 1972)

Uma história sobre uma família mafiosa promete assassinos implacáveis e crimes violentos. Mas e se você tornar o chefe da família muito maior, um tipo de rei dos Estados Unidos? E se ele for o chefe do lado sombrio do país, tão poderoso no submundo quanto o presidente é oficialmente? Como esse homem é um rei, é possível criar uma grande tragédia, uma queda e ascensão shakespeariana em que um rei morre e outro toma seu lugar. E se você transformar uma simples história de crime em um épico estadunidense?

  • Assassinato no Expresso Oriente

(romance de Agatha Christie, roteiro de Paul Dehn, 1974)

Um homem assassinado num compartimento de trem bem ao lado de onde um detetive brilhante está dormindo promete ser uma história policial engenhosa. Mas e se você levar a ideia de justiça para além da captura típica do assassino? E se quiser mostrar a justiça poética por excelência? E se o homem assassinado merecer morrer, e um júri espontâneo de doze homens e mulheres se tornar tanto seu juiz como seu algoz?

  • Quero ser grande

(Gary Ross e Anne Spielberg, 1988)

A história de um menino que acorda e de repente descobre que é um homem adulto promete ser uma comédia fantástica e divertida. Mas e se você escrever uma fantasia situada não em um mundo distante e bizarro, mas em um mundo que uma criança comum reconheceria? E se você o mandasse para a utopia real de um menino – uma loja de brinquedos – e o fizesse sair com uma mulher bonita e sexy? E se a história não fosse só sobre o menino crescendo fisicamente, mas mostrasse a mistura ideal de um homem e um garoto para uma vida adulta feliz?

Passo 3: Identifique os desafios e problemas da história

Há regras de construção que se aplicam a todas as histórias, mas cada história tem, também, o seu próprio conjunto de regras – ou desafios. Esses são os problemas específicos profundamente enraizados na ideia e você não pode escapar deles. Nem deve querer. Esses problemas são a sinalização que o levará a encontrar sua verdadeira história. Você deve confrontá-los e resolvê-los se pretende desenvolver bem sua história. A maioria dos escritores só descobre esses obstáculos, se é que descobre, depois de escrever a história inteira – e aí é tarde demais.

O truque é aprender a reconhecer os problemas inerentes já na premissa. É claro, mesmo os melhores escritores não conseguem identificar todos eles tão cedo no processo. Mas, à medida que você domina as técnicas-chave de personagem, trama, tema, mundo ficcional, símbolo e diálogo, terá uma boa surpresa ao ver como será capaz de desenterrar as dificuldades de qualquer ideia. A seguir, veja alguns desafios e problemas inerentes a algumas ideias:

  • Star Wars

(George Lucas, 1977)

Em qualquer épico, mas especialmente em um épico espacial como Star Wars, é preciso introduzir depressa uma vasta gama de personagens e depois mantê-los interagindo ao longo de espaços e tempos extensos. Você precisa tornar a história futurística plausível e reconhecível no presente. E precisa de um modo de criar mudanças de caráter2 em um herói que é moralmente bom desde o começo.

  • Forrest Gump: o contador de histórias

(romance de Winston Groom, roteiro de Eric Roth, 1994)

Como transformar quarenta anos de momentos históricos em uma história coesa, orgânica e pessoal? Os problemas incluem criar um herói com deficiência intelectual que seja capaz de conduzir a trama, ter percepções profundas e passar por uma mudança de caráter, ao mesmo tempo que equilibra uma qualidade fantasiosa com sentimentos genuínos.

  • Amada

(romance de Toni Morrison, 1988)

O principal desafio de Toni Morrison é escrever uma história de escravidão em que a heroína não seja retratada como uma vítima. Uma história ambiciosa como essa apresenta inúmeros problemas que devem ser resolvidos: manter o impulso narrativo apesar dos constantes pulos entre passado e presente, fazer com que eventos de um passado distante sejam significativos para um público atual, conduzir a trama com personagens reativos, mostrar os efeitos da escravidão na mente daqueles que a viveram e como esses efeitos continuam a punir as pessoas anos após o fim da escravidão.

  • Tubarão

(romance de Peter Benchley, roteiro de Peter Benchley e Carl Gottlieb, 1975)

Escrever uma história de terror "realista" – na qual os personagens lutam com um dos predadores naturais do ser humano – apresenta muitos problemas: criar uma briga justa contra um oponente de inteligência limitada, criar uma situação na qual o tubarão possa atacar com frequência e terminar a história com o herói lutando corpo a corpo com o tubarão.

  • As aventuras de Huckleberry Finn

(romance de Mark Twain, 1884)

O principal desafio que Mark Twain enfrentou foi enorme: como mostrar, em termos fictícios, o tecido moral, ou mais precisamente imoral, de uma nação inteira? Essa ideia brilhante contém alguns grandes problemas: usar um garoto para impelir a ação, manter o ímpeto e uma oposição forte em uma estrutura episódica de viagem e mostrar de forma plausível um menino simples e não muito admirável tendo enormes percepções morais.

  • O grande Gatsby

(romance de F. Scott Fitzgerald, 1925)

O desafio de Fitzgerald é mostrar o sonho americano corrompido e reduzido à competição por fama e dinheiro. Os problemas dele são igualmente intimidadores. Ele precisa criar um impulso narrativo em um contexto no qual o herói é o ajudante de outra pessoa, fazer o público se importar com pessoas superficiais e, de algum modo, transformar uma pequena história de amor em uma metáfora para os Estados Unidos.

  • A morte de um caixeiro-viajante

(Arthur Miller, 1949)

O desafio central de Arthur Miller é como mostrar a tragédia de um homem pequeno. Os problemas que o autor deve resolver incluem misturar eventos passados e presentes sem confundir o público, manter o impulso narrativo e fornecer esperança em uma conclusão desesperada e violenta.

Passo 4: Encontre o princípio narrativo

Dados os problemas e as promessas inerentes à sua ideia, você deve agora pensar em uma estratégia geral para contar a história. Essa estratégia, declarada em uma frase, é o princípio narrativo de sua história. O princípio narrativo ajuda você a estender a premissa para transformá-la em uma estrutura profunda.

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PONTO-CHAVE: O princípio narrativo é aquilo que organiza a história em um todo. É a lógica interna da história, o que conecta as partes organicamente, de modo que a história seja maior que a soma de suas partes. É o que torna a história original.

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Em resumo, o princípio narrativo é a semente da história – e é o fator mais importante para torná-la original e eficaz. Às vezes, esse princípio é um símbolo ou uma metáfora (conhecido como símbolo central, grande metáfora ou metáfora raiz). Mas muitas vezes é maior que isso. O princípio narrativo acompanha o processo fundamental que vai se desdobrar ao longo da história.

Ele é difícil de enxergar. E, na verdade, a maioria das histórias não tem um. São histórias padrão, contadas genericamente. Esta é a diferença entre uma premissa – que todas as histórias têm – e um princípio narrativo – que só boas histórias têm: a premissa é concreta, o que acontece de fato, enquanto o princípio narrativo é abstrato. É o processo mais profundo que ocorre em uma história contada de um jeito original. Resumindo:

Princípio narrativo = processo da história + execução original

Digamos que você queira mostrar o funcionamento interno da máfia nos Estados Unidos, como literalmente centenas de roteiristas e romancistas já fizeram. Se você fosse realmente bom, poderia pensar neste princípio narrativo (de O poderoso chefão):

Usar a estratégia clássica de contos de fadas para mostrar como o mais novo de três filhos se torna o novo "rei".

O importante é que o princípio narrativo seja a "ideia sintetizadora", a "causa formativa"3 da história; é o que lhe dá unidade interna, assim como a torna diferente de todas as outras histórias.

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PONTO-CHAVE: Encontre o princípio, mantenha o princípio. Seja diligente em descobri-lo e nunca o perca de vista durante o longo processo de escrita.

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Vamos dar uma olhada em Tootsie para entender como a diferença entre a premissa e o princípio narrativo se apresenta em uma história real.

premissa: quando um ator não consegue trabalho, se disfarça de mulher, consegue um papel em uma série de TV e se apaixona por uma das atrizes do elenco.

princípio narrativo: obrigar um machista a viver como uma mulher.

Como encontrar o princípio narrativo em sua premissa? Não cometa o erro que a maioria dos escritores comete a essa altura. Em vez de pensar em um princípio narrativo único, escolhem um gênero e o impõem à premissa, para depois forçarem a história a cumprir os beats (eventos) típicos daquele gênero. O resultado é uma ficção mecânica, genérica e sem originalidade.

Você encontra o princípio narrativo ao extraí-lo da frase simples à sua frente. Como um detetive, "induz" a forma da história a partir da premissa.

Isso não significa que só haja um princípio narrativo por ideia, nem que seja fixo ou predeterminado. Há muitos princípios ou formas possíveis que você pode captar da premissa e por meio dos quais pode desenvolver a história. Cada um lhe dará possibilidades diferentes do que dizer e cada um trará problemas inerentes que você deverá resolver. Novamente, deixe que sua técnica o ajude.

Um modo de pensar em um princípio narrativo é usar uma jornada ou metáfora de viagem semelhante. O trajeto de balsa de Huckleberry e Jim pelo rio Mississippi, a jornada de barco de Marlow rio acima até o "coração das trevas", as viagens de Leopold Bloom por Dublin em Ulysses, a queda de Alice na toca do coelho até o mundo invertido do País das Maravilhas – todas são metáforas de viagem para organizar o processo mais profundo da história.

Note como o uso de uma jornada em Coração das trevas fornece o princípio narrativo para um trabalho de ficção muito complexo:

A viagem de um narrador rio acima até o interior da selva é uma linha que conduz simultaneamente a três localidades: à verdade sobre um homem misterioso e aparentemente imoral, à verdade sobre o próprio contador da história e a um caminho que recua na civilização até a barbárie e o coração moral das trevas em todos os seres humanos.

Às vezes, um único símbolo pode servir como o princípio narrativo, como o "A" vermelho em A letra escarlate, a ilha em A tempestade, a baleia em Moby Dick ou a montanha em A montanha mágica. Ou você pode conectar dois grandes símbolos para formar uma frase, por exemplo, em Como era verde o meu vale. Outros princípios narrativos incluem unidades de tempo (dia, noite, quatro estações), o uso característico de um narrador ou um jeito especial como a história se desdobra.

Aqui vão alguns princípios narrativos de livros, filmes e peças, desde a Bíblia até a série Harry Potter, e como eles diferem da premissa.

  • Moisés, no livro do Êxodo

premissa: quando um príncipe egípcio descobre que é hebreu, liberta seu povo da escravidão.

princípio narrativo: um homem que não sabe quem é luta para libertar seu povo e recebe as novas leis morais que definirão ele e seu povo.

  • Ulysses

premissa: um dia na vida de um homem em Dublin.

princípio narrativo: em uma odisseia moderna através da cidade, no decorrer de um único dia, um homem encontra um pai e outro homem encontra um filho.

  • Quatro casamentos e um funeral

premissa: um homem se apaixona por uma mulher, mas ambos ficam noivos de outras pessoas, começando por ela.

princípio narrativo: um grupo de amigos experimenta quatro utopias (casamentos) e um momento no inferno (funeral) enquanto cada um deles procura pelo parceiro ideal no casamento.

  • Série Harry Potter

premissa: um garoto descobre que tem poderes mágicos e vai estudar em uma escola para bruxos.

princípio narrativo: um príncipe mago aprende a ser um homem e um rei ao estudar em um internato para feiticeiros ao longo de sete anos.

  • Golpe de mestre

premissa: dois vigaristas enganam um homem rico que matou um de seus amigos.

princípio narrativo: contar a história de um golpe na forma de um golpe, enganando tanto o oponente como o público.

  • Longa jornada noite adentro

premissa: uma família lida com o vício da mãe.

princípio narrativo: à medida que o dia se torna noite, uma família é confrontada com os pecados e fantasmas do passado.

  • Agora seremos felizes

premissa: uma jovem se apaixona pelo vizinho.

princípio narrativo: o crescimento de uma família ao longo de um ano, mostrado por eventos em cada uma das quatro estações.

  • Copenhagen

premissa: três pessoas contam versões conflitantes de uma reunião que mudou o resultado da Segunda Guerra Mundial.

princípio narrativo: usar o Princípio da Incerteza de Heisenberg, da Física, para explorar a moralidade ambígua do homem que descobriu esse princípio.

  • Um conto de Natal

premissa: quando três fantasmas visitam um velho sovina, ele recupera o espírito natalino.

princípio narrativo: traçar o renascimento de um homem forçando-o a ver seu passado, presente e futuro ao longo de uma véspera de Natal.

  • A felicidade não se compra

premissa: quando um homem se prepara para cometer suicídio, um anjo lhe mostra como seria o mundo se ele nunca tivesse nascido.

princípio narrativo: expressar o poder do indivíduo mostrando como seria uma cidade, e depois uma nação, se um homem nunca tivesse vivido.

  • Cidadão Kane

premissa: conta a história de vida de um rico barão do jornalismo.

princípio narrativo: usar diversos narradores para mostrar como a vida de um homem jamais pode ser conhecida.

Passo 5: Determine o melhor personagem em sua ideia

Uma vez que tenha definido o princípio narrativo de sua história, é hora de focar o seu herói.

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PONTO-CHAVE: Sempre conte a história de seu melhor personagem.

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Com "melhor" eu não quero dizer a pessoa mais legal. Estou falando da mais fascinante, desafiadora e complexa, mesmo que não seja muito simpática. O motivo para contar a história de seu melhor personagem é que o seu interesse – e o interesse do público – inevitavelmente vai focar ele. Você sempre vai querer que esse personagem conduza a ação.

Para determinar o melhor personagem inserido em sua ideia, o método é se fazer esta pergunta crucial: qual deles eu amo? Você pode encontrar a resposta fazendo as seguintes perguntas: eu quero ver esse personagem agir? Eu amo o modo como ele pensa? Eu me importo com os desafios que ele tem que superar?

Se não conseguir encontrar um personagem que ama inserido na ideia central, passe para outra ideia. Se conseguir encontrá-lo, mas ele não for o personagem principal, mude a premissa agora mesmo para que passe a ser.

Se você está desenvolvendo uma ideia que parece ter múltiplos personagens principais, vai ter tantas tramas quanto personagens principais, e deve encontrar o melhor personagem para cada uma.

Passo 6: Tenha noção do conflito central

Depois que tiver uma ideia de quem vai conduzir a história, o passo seguinte é descobrir sobre o que sua história trata no nível mais essencial. Isso significa determinar o conflito central da história. Para descobri-lo, pergunte-se: "Quem enfrenta quem pelo quê?" e responda à questão em uma frase curta.

A resposta vai revelar do que sua história trata de verdade, porque todo o conflito nela se resume essencialmente a essa questão. Nos próximos dois capítulos, sobre os sete passos e personagens, vamos explorar esse conflito, às vezes de modos complexos. Mas você precisa manter essa declaração sucinta do conflito, junto com o princípio narrativo, na sua frente o tempo todo.

Passo 7: Tenha noção da linha única de causa e efeito

Toda história boa e orgânica tem uma linha única de causa e efeito: A leva a B, que leva a C... até a Z. Essa é a espinha da história, e se você não tiver uma espinha ou se tiver espinhas demais, sua história vai desmoronar (em breve vamos falar sobre histórias com múltiplos heróis).

Digamos que você pense nesta premissa:

Um homem se apaixona e enfrenta o irmão pelo controle de uma vinícola.

Note que essa é uma premissa dividida em duas trajetórias de causa e efeito. Uma das grandes vantagens de usar essas técnicas para desenvolver sua premissa é que é muito mais fácil identificar problemas e encontrar soluções quando você escreveu apenas uma frase. Uma vez que se escreve uma história ou um roteiro inteiro, os problemas da história parecem estar cimentados. Mas quando se escreve apenas uma frase, pode-se fazer uma simples mudança e transformar uma premissa dividida em uma linha única, tal como:

Por meio do amor de uma mulher bondosa, um homem derrota o irmão pelo controle de uma vinícola.

O truque para encontrar a linha única de causa e efeito é se perguntar: qual é a ação básica do meu herói? Ele vai realizar muitas ações ao longo da história, mas deve haver uma que seja a mais importante, que unifique todas as outras ações dele. Essa ação é a linha de causa e efeito.

Por exemplo, vamos voltar à premissa de uma frase de Star Wars:

Quando uma princesa corre perigo mortal, um jovem usa suas habilidades como guerreiro para salvá-la e derrotar as forças malignas de um império galáctico.

Ao nos obrigar a descrever Star Wars em uma única sentença, vemos que a ação que une a miríade de ações desse filme é "usa suas habilidades como guerreiro".

Considere O poderoso chefão. É um livro e um filme épicos, mas neles também, se analisarmos o processo e reduzirmos a história a uma premissa de uma sentença, podemos enxergar a ação básica claramente:

O filho mais jovem de uma família mafiosa se vinga dos homens que mataram seu pai e se torna o novo chefão.

De todas as ações que Michael realiza na história, aquela que conecta as demais, a ação básica, é se vingar.

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PONTO-CHAVE: Se estiver desenvolvendo uma premissa com muitos personagens principais, cada trama deve ter uma linha única de causa e efeito. E todas as tramas devem se unir para formar uma espinha maior e universal.

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Por exemplo, em Os contos da Cantuária, cada viajante conta uma história com uma espinha única. Mas todas as histórias pertencem a um grupo – um microcosmo da sociedade inglesa – que está viajando para a Cantuária.

Passo 8: Determine a possível mudança de caráter de seu herói

Depois do princípio narrativo, a coisa mais importante a extrair da sua premissa é a mudança de caráter fundamental de seu herói. É isso que dá ao público a satisfação mais profunda, não importa a forma que a história assuma, mesmo quando a mudança de caráter for negativa (como em O poderoso chefão).

A mudança de caráter é o que seu herói experimenta ao lutar por algo. No nível mais simples, essa mudança pode ser representada por uma equação de três partes (não a confunda com a estrutura de três atos):

F × A = M

Onde:

F significa as fraquezas, tanto psicológicas como morais.

A representa a luta para realizar a ação básica no meio da história.

M indica a mudança.

Na maioria das histórias, um personagem com fraquezas se esforça para realizar algo e, como resultado, acaba mudando (positiva ou negativamente). A simples lógica de uma história funciona da seguinte maneira: como o ato de esforçar-se para realizar a ação básica (A) leva o personagem a passar de F para M? Note que A, a ação básica, é o fulcro. Um personagem com certas fraquezas, quando passa por uma série de dificuldades, é forjado e temperado, transformando-se em outra pessoa.

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PONTO-CHAVE: A ação básica deve ser aquela mais propícia para forçar o personagem a lidar com suas fraquezas e mudar.

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Essa é a simples geometria de qualquer história porque é a sequência do crescimento humano. O crescimento humano é muito elusivo, mas é real e é o que você deve expressar acima de tudo (ou então mostrar por que ele não aconteceu).

A chave para fazer isso é começar com a ação básica, depois considerar os opostos da ação básica. Isso vai mostrar quem é seu herói no começo da história – as fraquezas dele – e quem ele é no fim – como mudou.

Os passos funcionam assim:

  1. Escreva sua premissa simples. (Esteja aberto a modificar essa premissa uma vez que descobrir a mudança de caráter.)
  2. Determine a ação básica de seu herói ao longo da história.
  3. Pense nos opostos de A (ação básica) tanto para F (as fraquezas psicológicas e morais do herói) como para M (mudança).

Considerar os opostos da ação básica é crucial, pois é o único jeito de a mudança ocorrer. Se as fraquezas de seu herói são similares à ação básica que ele vai realizar durante a história, ele vai simplesmente aprofundar aquelas fraquezas e permanecer quem era.

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PONTO-CHAVE: Escreva uma série de opções possíveis para as fraquezas e mudanças do herói.

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Assim como há uma série de possibilidades para desenvolver sua premissa, há muitas opções tanto para as fraquezas como para a pessoa diferente que seu herói se tornará. Por exemplo, digamos que a ação básica de seu herói é se tornar um fora da lei durante a história.

Começando com essa ação básica, podemos pensar nos seguintes opostos para possíveis fraquezas e mudanças (note que cada fraqueza e mudança é um oposto possível da ação básica):

  • Um homem certinho e dominado pela esposa envolve-se com uma gangue de indivíduos fora da lei e se divorcia.

f – fraquezas no começo: certinho, dominado pela esposa.

a – ação básica: envolve-se com uma gangue de indivíduos fora da lei.

m – mudança: se divorcia.

  • Um banqueiro certinho e arrogante envolve-se com uma gangue de indivíduos fora da lei e passa a ajudar os pobres.

f – fraquezas no começo: certinho, arrogante.

a – ação básica: envolve-se com uma gangue de indivíduos fora da lei.

m – mudança: passa a ajudar os pobres.

  • Um homem tímido e cauteloso envolve-se com uma gangue de indivíduos fora da lei e fica inebriado com a fama.

f – fraquezas no começo: tímido, cauteloso.

a – ação básica: envolve-se com uma gangue de indivíduos fora da lei.

m – mudança: fica inebriado com a fama.

Qualquer uma das mudanças dos tópicos anteriores pode ser uma mudança de caráter extraída da premissa de uma frase sobre um homem tornando-se um fora da lei. Vamos analisar essa técnica em duas histórias conhecidas.

  • Star Wars

premissa: quando uma princesa corre perigo mortal, um jovem usa suas habilidades como guerreiro para salvá-la e derrotar as forças malignas de um império galáctico.

f – fraquezas no começo: ingênuo, impetuoso, paralisado, sem foco, sem confiança.

a – ação básica: usa suas habilidades de guerreiro.

m – mudança: autoestima, um lugar em um grupo seleto e um guerreiro de verdade.

As fraquezas de Luke no início decididamente não são as qualidades de um guerreiro. Mas, ao ser forçado repetidas vezes a usar tais habilidades, ele é fortalecido e se torna um guerreiro confiante para o lado do bem.

  • O poderoso chefão

premissa: o filho mais jovem de uma família mafiosa se vinga dos homens que mataram seu pai e se torna o novo chefão.

f – fraquezas no começo: descomprometido, temeroso, convencional, legítimo, isolado da família.

a – ação básica: se vinga.

m – mudança: governante tirânico e absoluto da família.

O poderoso chefão é um exemplo perfeito de por que você deve ir até os opostos da ação básica para determinar as fraquezas e a mudança de seu herói. Se Michael começasse a história como um homem vingativo, vingar-se dos homens que atiraram em seu pai só o tornaria mais do mesmo. Não haveria mudança de caráter. Mas e se ele começasse como o oposto de vingativo? Um homem descomprometido, temeroso, convencional, legítimo, isolado de sua família mafiosa, que então se vinga e se torna o governante tirânico e absoluto da família. É uma mudança radical, sem dúvida. Mas completamente plausível.

Note que o que você obtém ao usar essa técnica é só a possível mudança de caráter para a sua história. O trabalho com a premissa, especialmente em relação à mudança de caráter, é extremamente incerto. Esteja aberto a pensar em uma mudança diferente à medida que desenvolve o processo de escrita. Nos próximos dois capítulos, vamos explorar em mais detalhes esse elemento crucial da história.

Passo 9: Descubra uma possível escolha moral do herói

O tema central de uma história é cristalizado com frequência por uma escolha moral que o herói deve fazer, geralmente no fim. O tema é a visão do roteirista do jeito correto de agir no mundo – sua visão moral e um dos motivos principais pelos quais você está escrevendo sua história.

O tema é mais bem expressado por meio da estrutura da história e do que eu chamo de "argumento moral". É aqui que você, o autor, vai defender seu ponto de vista sobre como viver, não usando um argumento filosófico, mas por meio das ações de personagens que perseguem uma meta (para mais detalhes, veja o Capítulo 5). Provavelmente o passo mais importante nesse argumento é a última escolha moral que você dá ao herói.

Muitos escritores cometem o erro de dar ao herói uma escolha falsa – isto é, entre algo positivo e algo negativo. Por exemplo, você pode forçar o herói a escolher entre ir para a prisão ou ficar com a garota dos sonhos. O resultado é óbvio.

*

PONTO-CHAVE: Para ser uma escolha verdadeira, seu herói deve escolher entre duas opções positivas ou, raramente, entre evitar duas negativas (como em A escolha de Sofia).

*

Dê o máximo de equilíbrio possível às opções, com uma apresentando um jeito de viver apenas um pouco melhor que a outra. Um clássico exemplo de escolha entre duas opções positivas é entre amor e honra. Em Adeus às armas, o herói escolhe o amor. Em Relíquia macabra (e em quase todas as histórias policiais), o herói escolhe a honra.

Mais uma vez, note que essa técnica trata de encontrar a possível escolha moral. Isso porque a escolha que você imagina agora pode mudar completamente quando começar a escrever a história de fato. Essa técnica apenas o obriga a começar a pensar sobre seu tema, em termos práticos, desde o início do processo de escrita.

Passo 10: Avalie o apelo junto ao público

Quando terminar o trabalho com a premissa, faça uma última pergunta: essa linha única é especial o suficiente para gerar interesse em muitas pessoas além de mim?

Essa é uma questão de popularidade, de apelo comercial. Você deve ser implacável ao respondê-la. Se olhar para a sua premissa e perceber que as únicas pessoas que vão querer ler sua história são você e sua família próxima, eu o aconselharia fortemente a não usar essa premissa como a base para uma história inteira.

Você sempre deve escrever primeiro para si, sobre aquilo que importa para você, mas não deve escrever apenas para si. Um dos maiores erros que os escritores cometem é cair na armadilha de pensar em termos de ou/ou: ou eu escrevo sobre o que importa para mim ou eu escrevo o que vai vender. Essa é uma distinção falsa, nascida da antiga noção romântica de escrever em um sótão e sofrer pela sua arte.

Às vezes, você tem uma ideia de que simplesmente precisa escrever, ou, às vezes, uma ótima ideia para a qual não sabe se há um público. Mas lembre-se: você terá mais ideias na vida do que conseguirá transformar em histórias completas. Tente sempre escrever algo com que se importe e que ache que vai agradar a um público. Sua escrita deve significar muito para você em um nível pessoal, mas escrever para um público permite, de forma mais fácil, que você faça o que ama.

CRIANDO SUA PREMISSA

Exercício de escrita 1
  • premissa: escreva sua premissa em uma sentença. Pergunte-se se essa premissa tem o potencial de se tornar uma história que pode mudar sua vida.
  • lista de desejos e lista de premissas: escreva sua lista de desejos e sua lista de premissas. Estude-as em conjunto para identificar os elementos centrais do que importa para você e do que você gosta.
  • possibilidades: procure o que é possível na premissa. Anote opções.
  • desafios e problemas da história: descreva a maior quantidade possível de desafios e problemas únicos à sua ideia.
  • princípio narrativo: pense no princípio narrativo de sua ideia. Lembre-se de que esse princípio deve descrever um processo, ou forma, mais profundo representado pela história, e também um modo único de contá-la.
  • melhor personagem: determine qual é o melhor personagem na ideia e transforme-o no herói de sua premissa.
  • conflito: pergunte-se quem seu herói está enfrentando e pelo quê.
  • ação básica: encontre uma linha única de causa e efeito, identificando a ação básica que seu herói vai realizar na história.
  • mudança de caráter: pense na possível mudança de caráter de seu herói, começando com a ação básica e depois explorando os opostos dela para entender suas fraquezas (F) no início e sua mudança (M) no final.
  • escolha moral: pense em uma decisão moral que seu herói possa ser forçado a tomar perto do fim da história, certificando-se de que seja uma escolha difícil, mas plausível.
  • interesse do público: questione se sua premissa tem o potencial de agradar a um público maior. Caso não tenha, volte à estaca zero.

Vamos examinar Tootsie com mais calma para que você entenda como pode desenvolver esse processo de premissa.

  • Tootsie

(Larry Gelbart e Murray Schisgal, história de Don McGuire e Larry Gelbart, 1982)

premissa: quando um ator não consegue trabalho, se disfarça de mulher, consegue um papel em uma série de TV e se apaixona por uma das atrizes do elenco.

possibilidades: um exame bem-humorado do jogo da sedução moderno, mas também uma dissecação da imoralidade profunda que subjaz ao modo como homens e mulheres agem uns em relação aos outros na esfera mais íntima de suas vidas.

desafios da história: como mostrar o efeito das ações imorais dos homens contra as mulheres sem parecer atacar um gênero inteiro e retratar o outro como inocente?

problemas: como fazer um homem parecer crível como mulher, entrelaçar várias tramas de homens/mulheres e unificá-las, concluir com sucesso cada trama e fazer com que uma história de amor se torne emocionalmente satisfatória usando uma série de técnicas da farsa que colocam o público em uma posição superior?

princípio narrativo: obrigar um machista a viver como mulher. Situar a história no mundo do entretenimento para tornar o disfarce mais plausível.

melhor personagem: a divisão de Michael entre vestir-se tanto como homem ou mulher pode ser uma expressão física e cômica da contradição extrema em seu próprio caráter.

conflito: Michael enfrenta Julie, Ron, Les e Sandy em questões de amor e honestidade.

ação básica: o herói finge ser mulher.

mudança de caráter:

f: Michael é arrogante, mentiroso e mulherengo.

m: ao fingir ser uma mulher, Michael aprende a ser um homem melhor e torna-se capaz de amar de verdade.

escolha moral: Michael sacrifica seu emprego lucrativo e pede desculpas a Julie por mentir para ela.


  1. High concept é um conceito também utilizado no audiovisual brasileiro, indicando que uma premissa carrega uma alta potência tanto narrativa quanto de mercado. [N. E.] ↩︎

  2. No original, character change. Embora a tradução óbvia desse termo seja "mudança de personagem", preferimos enfatizar o sentido da mudança proposta pelo autor e reduzir a redundância que propõe quando em português, optando por traduzir o termo character como caráter. [N. T.] ↩︎

  3. CRANE, Ronald S. The language of criticism and the structure of poetry. Toronto: University of Toronto Press, 1953, p. 2. ↩︎