Sobre a linguagem e as palavras

1.

A voz dos animais serve unicamente para expressar a vontade, em suas excitações e movimentos, mas a voz humana também serve para expressar o conhecimento. É por isso que os sons feitos pelos animais quase sempre nos causam uma impressão desagradável, com exceção de algumas vozes de pássaros.

Na origem da linguagem humana se encontram certamente, em primeiro lugar, as interjeições, com as quais não se expressam conceitos, mas sentimentos, movimentos da vontade, assim como nos sons dos animais. Logo depois apareceram diversas espécies de interjeições e, a partir dessa diversidade, ocorreu a passagem para os substantivos, verbos, pronomes pessoais, e assim por diante.

A palavra dos homens é o material mais duradouro. Se um poeta deu corpo à sua sensação passageira com as palavras mais apropriadas, aquela sensação vive através de séculos nessas palavras e é despertada novamente em cada leitor receptivo.

2.

Sabemos que, do ponto de vista gramatical, quanto mais antigas as línguas, mais perfeitas elas são, e pouco a pouco ocorre uma piora – partindo da elevação do sânscrito até a baixeza do jargão do inglês, esse traje mal-remendado de pensamento, feito com retalhos de tecidos heterogêneos. Essa degradação gradual é um argumento considerável contra as teorias muito apreciadas de nossos insípidos e risonhos otimistas, que defendem o “permanente progresso da humanidade para um estágio melhor”, em nome do qual gostariam de inverter a história deplorável da espécie bípede; em todo caso, trata-se de um problema difícil de resolver. Apesar de tudo, não podemos deixar de pensar que a raça humana primordial, proveniente de algum modo do seio da natureza, encontrava-se num estado de total e infantil ignorância, sendo conseqüentemente rudimentar e desamparada. Mesmo admitindo que o tesouro lexical das línguas foi reunido aos poucos, como aquela raça foi capaz de imaginar o edifício extremamente engenhoso das línguas, as formas múltiplas e complicadas da gramática? Por outro lado, verificamos em toda parte que os descendentes se mantêm fiéis à língua de seus antepassados e introduzem, pouco a pouco, apenas pequenas alterações. Mas a experiência não ensina que, na sucessão das gerações, as línguas se aperfeiçoam do ponto de vista gramatical, e sim, como foi dito, justamente o oposto, ou seja, que elas se tornam cada vez piores e mais simples.

No entanto, talvez devêssemos supor que a vida da língua é igual à de uma planta que, a partir de uma semente simples, um rebento discreto, desenvolve-se pouco a pouco, alcança seu ponto culminante e então decai lentamente à medida que envelhece. Nesse caso, só teríamos conhecimento dessa decadência, mas não do crescimento anterior. Trata-se de uma hipótese meramente ilustrativa, de uma comparação, não de uma explicação! Para obter um esclarecimento, o que me parece mais plausível é a suposição de que o homem inventou a linguagem instintivamente, uma vez que há nele, desde sua origem, um instinto por meio do qual, sem reflexão ou intenção consciente, produz os instrumentos e órgãos indispensáveis para o uso de sua razão. Mais tarde, com o passar das gerações, quando a linguagem passou a existir, esse instinto se perde gradativamente por falta de uso. Todavia, já que todas as obras produzidas apenas pelo instinto – por exemplo as construções das abelhas, das vespas, dos castores, os ninhos dos pássaros feitos em formas tão variadas e sempre apropriadas – possuem uma perfeição que lhes é peculiar, pois correspondem precisamente às exigências de seus objetivos, admiramos a profunda sabedoria que há nelas. É esse o caso da primeira língua, da língua original: ela possuía a elevada perfeição de todas as obras do instinto. Buscar os vestígios dessa perfeição para trazê-la à luz da reflexão e à clareza da consciência é a obra da gramática, que só surgiu milênios depois.

3.

O aprendizado de várias línguas não é apenas um meio de formação espiritual indireto, mas também um meio direto, profundamente eficiente. Por isso a frase de Carlos V: “Quantas línguas alguém fala, tantas vezes ele é um homem”.[99] (Quot linguas quis callet, tot homines valet.)

Essa questão se baseia no seguinte:

Não se encontra, para cada palavra de uma língua, um equivalente exato em todas as outras línguas. Portanto, nem todos os conceitos designados pelas palavras de uma língua são exatamente os mesmos que as palavras das outras expressam, por mais que essa identidade se verifique na maior parte dos casos, às vezes de um modo notavelmente preciso, como por exemplo com sullhyi e conceptio, Schneider [alfaiate] e tailleur.[100] Mas com freqüência se trata apenas de conceitos semelhantes e aparentados, que podem ser diferenciados por alguma modificação de sentido. Os seguintes exemplos servem, no momento, para esclarecer o que quero dizer:

apaideutos, rudis, roh [rude].

ormi, impetus, Andrang [impulso].

michani, Mittel [meio], medium.

seccatore, Quälgeist [importuno], importun.

ingénieux, sinnreich [engenhoso], clever.

Geist [espírito], esprit, wit.

Witzig [divertido], facetus, plaisant.

Malice, Bosheit [malícia], wickedeness.

A esses exemplos seria possível acrescentar inúmeros outros, com certeza ainda mais apropriados. Simbolizando com círculos os conceitos, como é comum na Lógica, seria possível expressar de modo aproximado essa quase identidade por meio de círculos que chegam perto de cobrir uns aos outros, todavia não são inteiramente concêntricos, assim:

Às vezes falta em uma língua a palavra para um conceito, embora ela se encontre na maioria das outras, ou mesmo em todas: um exemplo extremamente escandaloso disso é oferecido, no francês, pela ausência do verbo “estar”. Para alguns conceitos, por outro lado, só é possível encontrar a palavra em uma língua, de modo que essa palavra passa logo às outras línguas, como é o caso do termo latino afectus, do francês naïf, dos ingleses comfortable, disappointment, gentleman, e muitos outros[101]. Às vezes ocorre também que uma língua estrangeira expresse um conceito com uma sutileza que a nossa própria língua não lhe dá, de modo que o pensamos apenas naquela língua com tal sutileza. Com isso, cada pessoa que busca uma expressão exata de seu pensamento usará a palavra estrangeira, sem se importar com a algazarra dos puristas pedantes. Em todos esses casos, não é exatamente o mesmo conceito que determinada palavra de uma língua designa, em comparação com outra língua, e o dicionário oferece diversas expressões aparentadas que se aproximam do significado, só que não de modo concêntrico, mas em várias direções como na figura precedente, estabelecendo assim as fronteiras entre as quais esse significado se encontra. Por exemplo, a palavra latina honestum é circunscrita em alemão pelos termos wohlständig [decente], ehrenwert [honesto], ehrenvoll [honroso], ansehnlich [digno], tugendhaft [virtuoso] etc., e o termo grego sophron pode ser circunscrito de modo análogo.[102] É por isso que todas as traduções são necessariamente imperfeitas. Quase nunca é possível traduzir de uma língua para outra qualquer frase ou expressão característica, marcante, significativa de tal maneira que ela produza exata e perfeitamente o mesmo efeito.

Poemas não podem ser traduzidos, mas apenas recriados poeticamente; e o resultado é sempre duvidoso. Mesmo na prosa as melhores traduções chegam, no máximo, a ter com o original uma relação semelhante à que se estabelece entre uma certa peça musical e sua transposição para outro tom. Aqueles que entendem de música sabem do que se trata.

Por isso, toda tradução é uma obra morta, e seu estilo é forçado, rígido, sem naturalidade; ou então se trata de uma tradução livre, isto é, que se contenta com um à peu près, sendo portanto falsa. Uma biblioteca de traduções é como uma galeria de arte que só expõe cópias. E, quanto às traduções dos escritores da Antigüidade, elas são um sucedâneo de suas obras assim como o café de chicória é um sucedâneo do verdadeiro café.

De acordo com tudo que foi dito, quando se aprende uma língua, a dificuldade consiste sobretudo em reconhecer cada conceito para o qual essa língua tem uma palavra, mesmo que a própria língua de quem aprende não possua nenhuma palavra que corresponda com exatidão a tal conceito, o que ocorre com freqüência. Por isso, quando alguém aprende uma língua estrangeira, precisa delimitar várias esferas inteiramente novas de conceitos em seu espírito, desse modo surgem esferas de conceitos onde antes não havia nenhuma. Portanto, não aprendemos palavras apenas, mas adquirimos conceitos. É esse o caso sobretudo no aprendizado das línguas antigas, porque o modo de expressão dos antigos difere muito do nosso, e essa diferença é bem maior do que a existente entre duas línguas modernas. Isso pode ser demonstrado pela necessidade, quando se traduz para o latim, de recorrer a locuções muito diversas daquelas que estão no original. De fato, na maioria das vezes, é preciso fundir e remodelar inteiramente o pensamento que deve ser reproduzido em latim, de modo que ele é decomposto em seus elementos derradeiros e depois recomposto. Justamente nesse ponto se encontra o grande proveito que o espírito tira do aprendizado das línguas antigas.

Primeiro é preciso compreender corretamente todos os conceitos que a língua a ser aprendida designa com suas palavras e, a cada palavra dessa língua, pensar imediatamente no conceito exato correspondente, sem traduzir primeiro a palavra por uma da língua materna, para depois pensar no conceito designado pela tradução. Pois nem sempre o segundo conceito corresponde com exatidão ao primeiro, e o mesmo pode ser dito em referência a frases inteiras. Só assim se compreende o espírito da língua a ser aprendida, dando-se com isso um grande passo para o conhecimento da nação que fala essa língua, porque a língua é, para o espírito de uma nação, o que o estilo é para o espírito de um indivíduo.[103] Mas o domínio perfeito de uma língua só ocorre quando uma pessoa é capaz de traduzir não os livros, por exemplo, mas a si própria; desse modo, sem sofrer nenhuma perda de sua individualidade, ela consegue se comunicar imediatamente na outra língua, agradando tanto aos estrangeiros quanto aos falantes nativos.

Pessoas pouco capazes também não assimilarão com facilidade uma língua estrangeira: elas chegam a aprender as palavras da língua, no entanto sempre as empregam no sentido do equivalente aproximado que existe em sua língua materna e só decoram as locuções e frases características desta. Não conseguem se apropriar do espírito da língua estrangeira, o que se deve, na verdade, ao fato de que seu pensamento não se vale de meios próprios, mas é emprestado em sua maior parte da língua materna, cujas frases e locuções habituais tomam o lugar de pensamentos próprios. É por isso que, mesmo em sua própria língua, essas pessoas costumam usar apenas expressões idiomáticas gastas (hackney’d phrases, phrases banales) e, mesmo assim, são tão inábeis em combiná-las que se percebe logo a falta de consciência que têm do sentido dessas expressões. Todo o seu pensamento não vai muito além das palavras, de modo que se reduz quase inteiramente a uma tagarelice de papagaios. Pelo motivo oposto, a originalidade das expressões e a adequação individual de cada uma das que certa pessoa usa são sintomas infalíveis de um espírito superior.

De tudo isso se pode tirar as seguintes conclusões: no aprendizado de cada língua estrangeira formam-se novos conceitos para dar sentido a novos signos; distinguem-se certos conceitos que antes constituíam juntos um conceito mais amplo, portanto mais indeterminado, exatamente porque só havia uma palavra para eles; relações que não eram conhecidas até então são descobertas, porque a língua estrangeira designa o conceito por meio de um tropus ou metáfora que lhe é peculiar. Assim, mediante a língua apreendida, toma-se consciência de uma quantidade infinita de sutilezas, semelhanças, diferenças, relações entre as coisas. Nosso pensamento ganha, com o aprendizado de cada língua, uma nova modificação e tonalidade, de modo que o poliglotismo, além de ter várias utilidades indiretas, é também um meio direto de formação espiritual, pois aperfeiçoa e corrige nossas apreciações com a introdução da pluralidade e das sutilezas dos conceitos, aumentando também a flexibilidade do pensamento à medida que o conceito se torna cada vez mais livre da palavra com o aprendizado de várias línguas. As línguas antigas levam a isso, muito mais do que as modernas, em função de sua grande diferença em relação às nossas, o que não nos permite reproduzi-las palavra por palavra, mas exige que façamos uma fusão de todo o nosso pensamento e o moldemos em outra forma. (Esse é um dos muitos motivos da importância do aprendizado de línguas antigas.) Ou, permitindo-me uma metáfora química, enquanto a tradução de determinada língua moderna para outras chega no máximo a exigir que a frase a ser traduzida seja decomposta em seus elementos mais próximos, depois recomposta a partir deles, a tradução para o latim costuma impor uma decomposição em seus elementos mais distantes e derradeiros (o conteúdo puro do pensamento), a partir dos quais ela é composta numa forma inteiramente diferente. Assim, por exemplo, o que era expresso com substantivos agora é expresso com verbos, ou vice-versa. O mesmo processo se dá na tradução de línguas antigas para as modernas, o que demonstra o quanto a familiaridade com os autores antigos está distante quando nos contentamos com tais traduções.

A vantagem do estudo das línguas era algo que faltava aos gregos. Com certeza eles economizaram muito tempo com isso, mas o empregavam de modo pouco econômico, como testemunha a longa permanência dos homens livres na ágora, costume que chega a lembrar os lazzaroni e a tendência dos italianos de permanecer in piazza.

Enfim, a partir do que foi dito, percebe-se facilmente que a imitação do estilo dos antigos em suas próprias línguas, que ultrapassam de longe as nossas em termos de perfeição gramatical, é o melhor meio de se preparar para uma expressão ágil e perfeita dos pensamentos na língua materna. Para alguém se tornar um grande escritor isso é indispensável, da mesma maneira que, para os pintores e escultores principiantes, é necessário formar-se imitando o modelo da Antigüidade, antes de passar a uma composição própria. Só escrevendo em latim se aprende a dicção como uma obra de arte, cuja matéria é a língua, que por isso precisa ser tratada com o maior cuidado e a maior delicadeza. A partir de então se dedica atenção mais aguçada ao significado e ao valor das palavras, ao seu conjunto e às formas gramaticais; aprende-se a pesar essas coisas com exatidão e, assim, a manejar o precioso material apropriado a servir para expressão e conservação de pensamentos valiosos. Aprende-se a ter respeito pela língua em que se escreve, de modo que ela não seja usada e modificada com arbitrariedade e capricho. Sem essa escola preparatória, a escrita degenera facilmente em mera verborragia.

A pessoa que não sabe latim é semelhante àquela que se encontra numa bela região em tempo nublado: seu horizonte é extremamente limitado, ela só vê com clareza o que está próximo, e tudo o que se encontra poucos passos além se perde no indeterminado. Em contrapartida, o horizonte do latinista é muito amplo, abrangendo os séculos mais recentes, a Idade Média, a Antigüidade. – O grego ou o sânscrito com certeza ampliam o horizonte consideravelmente mais. – Quem não sabe latim pertence ao vulgo, mesmo que seja um grande virtuoso no campo da maquinaria elétrica ou que tenha, em seu cadinho, o radical do ácido de flúor.

Os escritores que não sabem latim não passarão, em pouco tempo, de fanfarrões aprendizes de barbeiro. Já percorreram boa parte desse caminho com seus galicismos e suas locuções pretensamente fáceis. Foi para a vulgaridade, nobres germanos, que vocês se voltaram, e é a vulgaridade que encontrarão.

Uma verdadeira insígnia da preguiça e um viveiro da ignorância são, atualmente, as edições de autores gregos, ou mesmo (horribile dictu [horrível de ser contado]) latinos, que os editores tiveram a ousadia de trazer à luz com notas em alemão! Que infâmia! Como o aluno deve aprender latim quando se fala sempre em sua língua materna? Por isso in schola nil nisi latine [na escola não se fala nada além de latim] era uma boa e velha regra. O fato de o Senhor Professor não ser mais capaz de escrever em latim com facilidade e o aluno não conseguir ler essa língua é o lado humorístico da questão. A preguiça e sua filha ignorância estão por trás disso. É uma vergonha! Um não aprendeu nada, o outro não quer aprender nada. Fumar charutos e falar sobre política são atividades que substituíram, em nossos dias, a erudição, assim como os livros ilustrados para crianças grandes substituíram as revistas literárias.

4.

Os franceses, inclusive os acadêmicos, lidam de maneira vergonhosa com a língua grega: adotam palavras dela para desfigurá-las. Eles escrevem, por exemplo, Etiologie, Estétique e assim por diante, quando é justamente apenas em francês que o ai é pronunciado da mesma maneira que em grego. Escrevem ainda bradype, Oedipe, Andromaque etc., ou seja, escrevem as palavras gregas como um jovem francês do campo as escreveria se as tivesse ouvido de passagem da boca de um estrangeiro. Seria uma gentileza se os eruditos franceses pelo menos se comportassem como se fossem capazes de entender o grego. Agora, ver a nobre língua grega maltratada de modo insolente, em função de um jargão tão medonho como é o francês considerado em sua essência (esse italiano deformado da maneira mais repugnante, com as longas sílabas finais atrozes e a pronúncia nasal), é um espetáculo como o de um colibri sendo devorado por uma grande aranha das Índias Ocidentais, ou de uma borboleta sendo engolida por um sapo.

Como os Senhores da Academia sempre se tratam reciprocamente pelo título de mon illustre confrère, tratamento que causa ótima impressão, sobretudo de longe, peço aos illustres confrères que considerem esta questão: ou deixam a língua grega em paz e se contentam com seu próprio jargão, ou usam as palavras gregas sem desfigurá-las. Ainda mais porque, nessa distorção que fazem, é preciso um grande esforço para adivinhar a palavra grega assim grafada e desvendar o sentido da expressão. Inclui-se nesse âmbito a fusão bárbara, habitual entre os eruditos franceses, de uma palavra grega com uma latina: pomologie. Coisas assim, meus illustres confrères, cheiram a aprendizes de barbeiro. Estou plenamente autorizado a essa repreensão, pois as fronteiras políticas valem tão pouco na república dos eruditos como na geografia física, e as fronteiras das línguas só existem para os ignorantes; as grosserias não devem ser toleradas nessa república.

5

É correto, e mesmo necessário, que a provisão de palavras de uma língua seja aumentada no mesmo passo em que aumentam os conceitos. Em contrapartida, se aquilo acontece sem isso, trata-se apenas de um sinal da pobreza de espírito de quem gostaria de levar alguma coisa para o mercado e no entanto, como não tem nenhum pensamento novo, vem com novas palavras. Essa maneira de enriquecer a língua está agora na ordem do dia e é um sinal dos tempos. Mas novas palavras para velhos conceitos são como uma nova cor aplicada a uma velha roupa.

De passagem e apenas porque o exemplo está tão próximo, note-se aqui que só se deve usar “isso e aquilo” quando cada um dos termos está no lugar de mais de uma palavra, como no parágrafo anterior, mas não quando se referem apenas a uma.[104] Nesse caso, é melhor repeti-la; os gregos em geral não hesitavam em recorrer a essa repetição, enquanto os franceses são os mais preocupados em evitá-las. Os alemães se complicam de tal maneira com o uso de seu “isso e aquilo” que não se sabe mais o que se encontra antes e o que se encontra depois.

6.

Desprezamos a escrita chinesa. Mas, como a tarefa de toda escrita é despertar conceitos na mente do outro, por meio de sinais visíveis, é evidente que se trata de um grande desvio apresentar aos olhos, em primeiro lugar, apenas um signo do signo auditivo, e fazer dele o portador exclusivo dos conceitos. Com isso, a nossa escrita com letras se reduz a um signo do signo. Assim, é de se perguntar qual a vantagem que o signo auditivo tem em relação ao visível, para nos levar a deixar o caminho direto do olho para a mente e tomar um desvio tão grande como este em que o signo visível só fala ao espírito alheio por intermédio do auditivo. É evidente que seria mais simples, ao modo dos chineses, tornar o signo visível diretamente o portador do conceito, em vez de reduzi-lo a um mero signo do som. Ainda mais quando o sentido da visão é receptivo a modificações mais numerosas e sutis do que as da audição, permitindo inclusive um agrupamento das impressões, o que não é possível para as percepções auditivas, uma vez que elas se dão exclusivamente no tempo.

Os motivos procurados aqui seriam os seguintes:

1) Por natureza, recorremos em primeiro lugar a signos auditivos para expressar nossos afetos e, em seguida, também nossos pensamentos. Com isso chegamos a uma linguagem para o ouvido, antes de ter pensado em inventar uma para a visão. Depois disso, é mais rápido reduzir a linguagem visual à linguagem auditiva, quando necessário, do que inventar ou aprender uma linguagem inteiramente nova, de um tipo inteiramente diferente, feita para o olho. Ainda mais porque logo se descobriu que a quantidade inumerável de palavras pode ser reduzida a poucos sons e, por isso, facilmente expressa por meio deles.

2) De fato, a visão consegue captar modificações mais diversificadas do que as percebidas pelo ouvido, mas não somos capazes de reproduzi-las para o olho sem instrumentos como o somos para o ouvido. Também não poderíamos nunca reproduzir e alterar os signos visíveis na mesma velocidade com que, graças à agilidade da língua, fazemos isso com os signos auditivos, como comprova a imperfeição da linguagem gestual dos surdos-mudos. É isso que faz da audição, de modo natural, o sentido essencial da linguagem e, conseqüentemente, da razão. Assim, os motivos pelos quais o caminho direto não é o melhor nesse caso, excepcionalmente, são no fundo apenas exteriores e acidentais, pois não resultam da essência da tarefa a ser realizada. Em conseqüência disso, quando consideramos o assunto de modo abstrato, puramente teórico e a priori, o procedimento dos chineses é na verdade o correto, de modo que só se poderia censurar neles certo pedantismo, uma vez que negligenciaram as circunstâncias empíricas que sugeriam outra via. Por outro lado, a experiência também trouxe à luz uma grande vantagem da escrita chinesa. Não é preciso saber chinês para se expressar nessa língua, cada um a lê em sua própria língua, exatamente como fazemos com nossos números, que em geral são, para os conceitos numéricos, o que os signos escritos chineses são para todos os conceitos; e os signos algébricos têm a mesma relação com os conceitos abstratos de grandeza. Por isso, como me assegurou um comerciante de chá inglês que esteve na China cinco vezes, em todo o Oceano Índico a escrita chinesa é o meio comum de comunicação entre comerciantes das mais diferentes nacionalidades, que não entendem nenhuma língua em comum. Esse homem estava convencido de que um dia, nessa qualidade, ela se espalharia pelo mundo todo. Um relato em consonância com esse é dado por J. F. Davis em sua obra The Chinese, Londres,1836, capítulo quinze.

7.

Os verbos depoentes são a única coisa insensata, mesmo absurda da língua romana, e a situação dos verbos médios da grega não é melhor.

Mas um erro específico, em latim, é o fato de fieri constituir a forma passiva de facere: isso implica, e inocula na razão dos que estudam a língua, o erro desastroso segundo o qual tudo o que é, ou pelo menos tudo o que se tornou, foi feito. Em comparação, na língua grega e na alemã, gignetai e werden [tornar-se] não valem imediatamente como formas passivas de poiein e machen [fazer]. Posso dizer em grego: nem tudo o que se tornou é algo que foi feito, mas isso não pode ser traduzido literalmente em latim como pode em alemão: nicht jedes Gewordene ist ein Gemachtes.

8.

As consoantes são o esqueleto, e as vogais, a carne das palavras. O esqueleto é (no indivíduo) inalterável, e a carne, muito mutável, em termos de cor, qualidade e quantidade. Com isso, as palavras conservam, à medida que são modificadas pelos séculos ou passam de uma língua para outra, o conjunto de suas consoantes, mas suas vogais se alteram com facilidade; é por esse motivo que, na etimologia, deve-se atentar muito mais para aquelas do que para essas.

Encontra-se para a palavra superstitio todo tipo de etimologias reunidas tanto em Disquisitionibus magicis, de Delrio, Livro I, cap. 1, quanto na obra de Wegschneider insit. theol. dogmaticae, proleg., cap. 1, 5. Em todo caso, suponho que a origem da palavra se encontre naturalmente no fato de ela designar apenas a crença em fantasmas, assim: defunctorum manes circunvagi, ergo mortus adhuc supersites esse.

Espero não estar dizendo nada novo quando noto que morfa e forma constituem a mesma palavra, relacionando-se da mesma maneira que renes e Nieren [rins], horse e Ross [cavalo]; e o mesmo vale para a observação de que, entre as semelhanças do grego com o alemão, uma das mais significativas é o fato de o superlativo ser construído, nas duas línguas, por “st” (-istos), enquanto não é esse o caso no latim.

A princípio eu poderia duvidar de que já se conheça a etimologia da palavra arm [pobre], ou seja, da noção de que ela provém de eremos, eremus, ermo em italiano, pois arm significa “onde não há nada”, portanto “oco, vazio”. (Eclesiástico, 12, 4: eremosis com o sentido de “empobrecer”). Em contrapartida, espero que o fato de Untertan [súdito] vir do antigo inglês thane, vassal, como é usado várias vezes em Macbeth, já seja conhecido.

A palavra alemã Luft [ar] vem da palavra anglo-saxã, que foi conservada nos termos ingleses lofty, alto, the loft, o sótão, le grenier, uma vez que inicialmente se designava por Luft apenas o que está no alto, a atmosfera, como ainda hoje se usa in der Luft [no ar] para oben [em cima]. Da mesma maneira, a palavra anglo-saxã first, primeiro, conservou seu sentido geral no inglês, mas permaneceu no alemão somente em Fürst [príncipe], princeps.

Também considero as palavras Aberglauben [superstição] e Aberwitz [loucura] como sendo derivadas de Überglauben [excesso de crença] e Überwitz [excesso de gracejo], com a mediação de Oberglauben e Oberwitz (como Überrock [sobretudo], Oberrock; Überhand [supremacia], Oberhand), e depois pela corrupção do “O” em “A”. O mesmo processo ocorre, em sentido inverso, no caso de Argwohn [suspeita] em vez de Argwahn. Acredito, da mesma maneira, que Hahnrei [chifrudo] é uma corruptela de Hohnrei, termo que nos foi conservado pelo inglês como um grito de escárnio: o-hone-a-rie! Ele aparece em Letters and Journals of Lord Byron, with notices of his life, de Thomas Moore[105]. Londres, 1830, vol. I, p. 441.

Em geral, o inglês é a despensa em que reencontramos, conservadas, nossas antigas palavras, assim como o sentido original das que ainda estão em uso. É o caso, por exemplo, do já mencionado termo Fürst [príncipe] em seu sentido original: the first, princeps. Na nova edição do texto original da “Teologia alemã”, algumas palavras só me são conhecidas e por isso compreensíveis a partir do inglês. – O fato de Epheu [hera] vir de Evoe não será nenhuma novidade?

A frase Es kostet mich não é nada além de um solene e precioso erro lingüístico, consagrado pelo uso. Kosten [custar ou saborear] vem, assim como o verbo italiano costare, de constare. Es kostet mich significa, portanto, me constat, em vez de mihi constat. Dieser Löwe [esse leão] kostet mich não é uma frase que possa ser dita por um proprietário de animais, mas por alguém que é devorado por um leão[106].

A semelhança entre coluber e Kolibri deve ser acidental, ou então teríamos de buscar sua fonte na pré-história da espécie humana, uma vez que o colibri só habita o continente americano. Os dois animais são tão diferentes, até opostos, que o colibri muitas vezes se torna presa de uma serpente da espécie coluber. Assim, é possível pensar em uma troca análoga à que ocorre em espanhol, língua na qual a palavra aceite não significa azeite, mas óleo. Além do mais, encontramos algumas concordâncias ainda mais marcantes de certos nomes originariamente americanos com os da Antigüidade européia, como entre a Atlântida de Platão e Aztlas, o antigo nome indígena do México, que ainda hoje se mantém nos nomes das cidades mexicanas Mazatlan e Tomatlan. Outro exemplo é o do alto monte Sorata, no Peru, e do monte italiano Soratte, nos Alpes.

9.

Nossos germanistas atuais (segundo um artigo do Deutschen Vierteljahrs-Schrift de 1855, número de outubro/dezembro) dividem a língua alemã (diuske) em ramos, assim: 1) o ramo gótico; 2) o ramo nórdico, isto é, islandês, do qual provêm o sueco e o dinamarquês; 3) o baixo-alemão, de onde vêm o dialeto Plattdeutsch e o holandês; 4) o frisão; 5) o anglo-saxão; 6) o alto-alemão, que teria surgido no início do século 17 e se dividido em antigo, médio e novo alto-alemão. Todo esse sistema não é de modo algum uma novidade, uma vez que já havia sido apresentado, com a refutação do tronco gótico, por Wachter em sua obra Specimen Glossarii germanici, Lips, 1727. (Cf. Lessing, Collektanea, vol. II, p. 384.) No entanto creio que há, nesse sistema, mais patriotismo que verdade, e me filio ao sistema do honrado e perspicaz Rask[107]. O gótico, proveniente do sânscrito, dividiu-se em três dialetos: sueco, dinamarquês e alemão.

Da língua dos antigos germanos não conhecemos nada, e me permito presumir que ela devia ser inteiramente diferente do gótico, portanto, da nossa. Somos, ao menos segundo a língua, godos. Entretanto, nada me incomoda mais que a expressão “línguas indo-germânicas” – quer dizer, a língua dos Vedas sob o mesmo teto que o jargão eventual dos já mencionados caçadores de ursos. Ut nos poma natamus! – Além disso, os mitos da chamada mitologia germânica, na verdade gótica, como a saga dos Nibelungos etc., são encontrados de modo muito mais elaborado e autêntico na Islândia e na Escandinávia do que entre os caçadores de urso alemães; e as antigüidades nórdicas, os achados feitos em escavações, as runas etc. testemunham, em comparação com os achados alemães, que a cultura era muito mais elevada na Escandinávia, em todos os campos.

É surpreendente que não haja nenhuma palavra alemã no francês, como há em inglês, já que no século 5 a França foi ocupada por visigodos, burgúndios e francos, e reis francos a governaram.

Niedlich, do antigo alemão neidlich = beneidenswert [invejável]. – Teller [prato], de patella. – Viande, do italiano vivanda. – Spada, espada, épé, de spathi, espada, termo utilizado nesse sentido por exemplo por Teofrasto nos Caracteres[108], cap. 24, peri; deilias. Affe [macaco], de Afer [africano], porque os primeiros macacos introduzidos aos alemães pelos romanos lhes foram designados por meio desse termo. – Kram [traste], de krama[mistura], keranumi[mescla]. – Taumeln [cambalear], de temulentus [ébrio]. – Vulpes [raposa] e Wolf [lobo] são palavras provavelmente aparentadas, com base na troca de duas espécies do gênero canis. – Wälsch muito provavelmente é apenas uma outra pronúncia de Gälisch (gaelic), ou seja, céltico, e significava entre os antigos alemães a língua não-germânica, ou melhor, não-gótica; é por isso que agora se refere especialmente ao italiano, portanto, à língua dos romanos. – Brot [pão] vem de broma [comida]. Volo [vôo] e boulomai, ou antes bouló, são, pela raiz, a mesma palavra. Heute [hoje] e oggi vêm de hodie, contudo não guardam qualquer semelhança entre si. – O termo alemão Gift [veneno] é o mesmo que o inglês gift: ele vem na verdade de geben [dar] e se refere ao que é dado: por isso o uso de vergeben [dar, repartir] em vez de vergiften [envenenar]. – Parlare [falar] provavelmente vem de perlator, portador, mensageiro: daí o termo inglês a parley [uma conferência]. – É evidente que to die [morrer] se relaciona com deuo, deuein [molhar], assim como tree [árvore] com drus [carvalho]. – De Garhuda, a águia de Vishnu, Geier [abutre]. – De Mala, Maul [focinho]. – Katze [gato] é a forma contraída de catus. – Shande [vergonha], de scandalum, termo que talvez tenha parentesco com o sânscrito tschandalada. – Ferkel [leitão], de ferculum [bandeja], porque vem inteiro para a mesa. – Plärren [berrar, choramingar], de pleurer e plorare. – Füllen, Fohlen [potro], de pullus. – Poison [veneno] e ponzonna, de potio [poção, veneno]. – Baby é bambino. – Brand [tição], do inglês antigo: brando em italiano. – Knife [faca] e canif [canivete] são a mesma palavra: de origem céltica? – Ziffer, cifra, chiffre, ciphre vêm provavelmente do galês, portanto do celta: cyfrinah, mistério (cf. Pictet, Mistère des Bardes, p. 14). O italiano tuffare (mergere) [imergir] e o alemão taufen [batizar] são a mesma palavra. – Ambrosia parece aparentada com amriti; Asen [divindades germânicas] talvez com aisa. Labreuomai é idêntico a labbern, tanto no sentido quanto na palavra. – aolles é Alle [todos]. – Seve é Saft [suco]. – Em todo caso, é estranho que Geiss [cabra] seja Zieg [cabra] ao contrário. – O inglês bower, caramanchão, é Bauer (nosso Vogelbauer [gaiola]).

Sei que os estudiosos e pesquisadores da língua sânscrita são muito mais cerimoniosos do que eu quando derivam as etimologias de suas fontes, entretanto mantenho a esperança de que ainda haja muitas frutas a serem colhidas para o meu diletantismo nesse assunto.


[99]Carlos V (1500-1558), imperador do Sacro Império Romano. (N.T.)

[100]Do ponto de vista de sua formação, há uma correspondência exata da palavra grega sullhyi (“compreensão” ou “concepção”) com a palavra latina conceptio, e tanto o termo alemão Schneider quanto o francês tailleur vêm do verbo cortar (schneiden, tailler). Schopenhauer recorrerá a vários exemplos de palavras estrangeiras para ilustrar sua teoria acerca das línguas. (N.T.)

[101]As palavras citadas passaram para a língua alemã, às vezes mantendo a grafia original, como no caso de Gentleman, às vezes com uma grafia modificada, como no caso de Affekt e komfortabel. (N.T.)

[102]A palavra grega sophrosyne [normalmente traduzida por “moderação” em português (N.T.)] não tem um equivalente exato em nenhuma língua. (N.A.)

[103]Dominar realmente várias novas línguas e lê-las com facilidade é um meio de se livrar das limitações nacionais que, de outro modo, ficam marcadas em cada pessoa. (N.A.)

[104]No original a expressão é “ersteres und letzteres”, utilizada para designar coisas que foram mencionadas na frase anterior, como faz Schopenhauer na segunda frase do parágrafo precedente. (N.T.)

[105]Thomas Moore (1779-1852), escritor irlandês. (N.T.)

[106]Schopenhauer faz referência aos dois sentidos do verbo kosten, “custar” e “saborear”, e ao uso do verbo com o complemento no caso acusativo (mich). A frase em questão, Dieser Löwe kostet mich significa literalmente “Esse leão me saboreia”. (N.T.)

[107]Rasmus Christian Rask (1787-1832), filólogo dinamarquês. (N.T.)

[108]Trata-se do filósofo e naturalista Teofrasto de Éreso (371-287 a.C.) (N.T.)