Sobre a leitura e os livros

1.

A ignorância degrada os homens somente quando se encontra associada à riqueza. O pobre é sujeitado por sua pobreza e necessidade; no seu caso, os trabalhos substituem o saber e ocupam o pensamento. Em contrapartida, os ricos que são ignorantes vivem apenas em função de seus prazeres e se assemelham ao gado, como se pode verificar diariamente. Além disso, ainda devem ser repreendidos por não usarem sua riqueza e ócio para aquilo que lhes conferiria o maior valor.

2.

Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: apenas repetimos seu processo mental, do mesmo modo que um estudante, ao aprender a escrever, refaz com a pena os traços que seu professor fizera a lápis. Quando lemos, somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar. É por isso que sentimos um alívio ao passarmos da ocupação com nossos próprios pensamentos para a leitura. No entanto, a nossa cabeça é, durante a leitura, apenas uma arena de pensamentos alheios. Quando eles se retiram, o que resta? Em conseqüência disso, quem lê muito e quase o dia todo, mas nos intervalos passa o tempo sem pensar nada, perde gradativamente a capacidade de pensar por si mesmo – como alguém que, de tanto cavalgar, acabasse desaprendendo a andar. Mas é este o caso de muitos eruditos: leram até ficarem burros. Pois a leitura contínua, retomada de imediato a cada momento livre, imobiliza o espírito mais do que o trabalho manual contínuo, já que é possível entregar-se a seus próprios pensamentos durante esse trabalho. Assim como uma mola acaba perdendo sua elasticidade pela pressão incessante de outro corpo, o espírito perde a sua pela imposição constante de pensamentos alheios. E, assim como o excesso de alimentação faz mal ao estômago e dessa maneira acaba afetando o corpo todo, também é possível, com excesso de alimento espiritual, sobrecarregar e sufocar o espírito. Pois, quanto mais se lê, menor a quantidade de marcas deixadas no espírito pelo que foi lido: ele se torna como um quadro com muitas coisas escritas sobre as outras. Com isso não se chega à ruminação[88]: mas é só por meio dela que nos apropriamos do que foi lido, assim como as refeições não nos alimentam quando comemos, e sim quando digerimos. Em contrapartida, se alguém lê continuamente, sem parar para pensar, o que foi lido não cria raízes e se perde em grande parte. Em todo caso, com o alimento espiritual ocorre a mesma coisa que com o corporal: só a qüinquagésima parte do que alguém absorve é assimilada, o resto se perde pela transpiração, respiração e, assim por diante.

Além de tudo, os pensamentos postos em papel não passam, em geral, de um vestígio deixado na areia por um passante: vê-se bem o caminho que ele tomou, mas para saber o que ele viu durante o caminho é preciso usar os próprios olhos.

3.

Nenhuma qualidade literária – como por exemplo a capacidade de persuasão, a riqueza de imagens, o dom da comparação, a ousadia, ou a amargura, ou a concisão, ou a graça, ou a leveza da expressão, ou mesmo a argúcia, os contrastes surpreendentes, o laconismo, a ingenuidade, entre outras – pode ser adquirida pelo simples fato de lermos escritores que possuem tal qualidade. Contudo, se já as possuímos in potentia, podemos evocá-las, trazê-las à nossa consciência, podemos ver o uso que é possível fazer delas, podemos ser fortalecidos na inclinação, na disposição para usá-las, podemos julgar o efeito de sua aplicação em exemplos e, assim, aprender a maneira correta de usá-las; e só então possuiremos tais qualidades in actu. Essa é a única maneira de a leitura ensinar a escrever, na medida em que ela nos mostra o uso que podemos fazer de nossos próprios dons naturais; portanto, pressupondo sempre a existência destes. Sem eles, não aprendemos coisa alguma pela leitura, a não ser uma forma fria e morta, de modo que não nos tornamos nada mais do que imitadores banais.

4.

A corporação da vigilância sanitária deveria, no interesse dos olhos, prestar atenção para que o tamanho das letras impressas tivesse um mínimo estabelecido e que não pudesse ser desrespeitado. (Quando eu estava em Veneza, em 1818, numa época em que as autênticas correntinhas venezianas ainda eram fabricadas, disse-me um ourives que os fabricantes da catena fina[89] ficavam cegos aos trinta anos.)

5.

Assim como as camadas da terra conservam as séries das criaturas vivas de épocas passadas, também as prateleiras das bibliotecas conservam em série os erros do passado da maneira como foram expressos; erros que, como aquelas criaturas, eram bem vivos em seu tempo e faziam bastante barulho, mas agora permanecem ali rígidos e petrificados, num local em que apenas os paleontólogos literários os observam.

6.

Segundo Heródoto, Xerxes chorou ao contemplar seu exército inumerável, pensando que em cem anos nenhum daqueles homens ainda estaria vivo.[90] Quem não sentiria vontade de chorar, à vista dos grossos catálogos editoriais, se pensasse que, de todos aqueles livros, já em dez anos não haverá nenhum vivo.

7.

Ocorre na literatura o mesmo que na vida: para onde quer que alguém se volte, depara-se logo com o incorrigível vulgo da humanidade, que se encontra por toda parte em legiões, enchendo e sujando tudo, como as moscas no verão. Isso explica a quantidade de livros ruins, essa abundante erva daninha da literatura que tira a nutrição do trigo e o sufoca. Pois eles roubam tempo, dinheiro e atenção do público, coisas que pertencem por direito aos bons livros e a seus objetivos nobres, enquanto os livros ruins são escritos exclusivamente com a intenção de ganhar dinheiro ou criar empregos. Nesse caso, eles não são apenas inúteis, mas realmente prejudiciais. Nove décimos de toda a nossa literatura atual não têm nenhum outro objetivo a não ser tirar alguns trocados do bolso do público: para isso, o autor, o editor e o crítico literário compactuam.

Um golpe pior e mais maldoso, porém mais digno de consideração, foi dado pelos literatos, pelos escritores prolixos que fazem da literatura seu ganha-pão, contra o bom gosto e a verdadeira formação da época, possibilitando que eles levem todo o mundo elegante na coleira, tornando-o adestrado a ler no momento certo, isto é, fazendo todos lerem sempre a mesma coisa, o livro mais recente, a fim de ter um assunto para conversar em seu círculo. Servem a esse objetivo os romances ruins e produtos semelhantes de penas antes renomadas, como as de Spindler, Bulwer, Eugène Sue, entre outros[91]. Contudo, o que pode ser mais mesquinho do que o destino desse público beletrista que mantém o compromisso de ler sempre a última coisa escrita por cabeças das mais vulgares, por pessoas que escrevem apenas por dinheiro e, por isso mesmo, podem ser encontradas em grande número, enquanto as obras dos espíritos mais raros e elevados de todos os tempos e países são conhecidas apenas de nome! – Em particular a imprensa diária ligada às letras constitui um meio engenhoso de roubar, ao público interessado em estética, o tempo que deveria ser dedicado aos produtos autênticos do gênero, para o bem de sua formação, de modo que esse tempo fique reservado aos remendos diários de obras feitos por cabeças banais.

Como as pessoas lêem sempre, em vez dos melhores de todos os tempos, apenas a última novidade, os escritores permanecem no círculo estreito das idéias que circulam, e a época afunda cada vez mais em sua própria lama.

Por isso é tão importante, em relação ao nosso hábito de leitura, a arte de não ler. Ela consiste na atitude de não escolher para ler o que, a cada momento determinado, constitui a ocupação do grande público; por exemplo, panfletos políticos ou literários, romances, poesias etc., que causam rebuliço justamente naquele momento e chegam a ter várias edições em seu primeiro e último ano de vida. Basta nos lembrarmos de que, em geral, quem escreve para os tolos encontra sempre um grande público, a fim de que nosso tempo destinado à leitura, que costuma ser escasso, seja voltado exclusivamente para as obras dos grandes espíritos de todos os tempos e povos, para os homens que se destacam em relação ao resto da humanidade e que são apontados como tais pela voz da notoriedade. Apenas esses espíritos realmente educam e formam os demais.

Quanto às obras ruins, nunca se lerá pouco quando se trata delas; quanto às boas, nunca elas serão lidas com freqüência excessiva. Livros ruins são veneno intelectual, capaz de fazer definhar o espírito.

Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, o tempo e a energia são limitados.

8.

Escrevem-se livros ora sobre este, ora sobre aquele grande espírito do passado, e o público os lê, mas não lê os próprios autores dos quais eles tratam. Isso porque o público só quer ler o que acaba de ser impresso, e porque similis similis gaudet [o semelhante busca o semelhante], de modo que a indiscrição fútil e insossa de uma cabeça vazia atual lhe parecerá mais homogênea e agradável do que os pensamentos de grandes espíritos. Mas eu agradeço ao destino por ter me conduzido, já na juventude, a um belo epigrama de A. W. Schlegel que desde então se tornou minha estrela guia:

“Leiam com afinco os antigos, os verdadeiros e autênticos antigos: o que os modernos dizem sobre eles não significa muito”.[92]

Ah, como uma cabeça banal se parece com outra! Elas realmente foram todas moldadas na mesma forma! A cada uma delas ocorre a mesma idéia na mesma ocasião, e nada além disso! E, ainda por cima, há suas baixas intenções pessoais. A indiscrição sem valor de tais velhacos é lida por um público estúpido, se for publicada hoje, e os grandes espíritos descansam nas prateleiras de livros.

É inacreditável a tolice e a perversidade do público que deixa de ler os espíritos mais nobres e mais raros de cada gênero, de todos os tempos e lugares, para ler as besteiras escritas por cabeças banais que aparecem diariamente, que se espalham a cada ano em grande quantidade, como moscas. E isso apenas porque foram publicadas hoje e sua tinta ainda está fresca. Na verdade, esses produtos deveriam ser abandonados e desprezados já no dia de seu nascimento, como serão após poucos anos, e então para sempre, reduzindo-se a um mero assunto para que se ria dos tempos passados e de suas balelas.

9.

Em todos os tempos, há duas literaturas que caminham lado a lado, praticamente alheias uma à outra: uma verdadeira e uma apenas aparente. A primeira se desenvolve até se tornar uma literatura duradoura. Feita por gente que vive para a ciência ou a poesia, segue seu caminho com seriedade e tranqüilidade, mas de maneira extremamente lenta, produzindo na Europa pouco mais de uma dúzia de obras no século, obras que todavia permanecem. A segunda, feita por gente que vive da ciência ou da poesia, segue a galope, sob grande estardalhaço e balbúrdia dos participantes, trazendo muitos milhares de obras para o mercado a cada ano. Contudo, poucos anos depois nos perguntamos onde elas estão, onde foi parar sua fama tão prematura e ruidosa. Assim, é possível designar essa literatura como passageira e a outra como permanente.

10.

Seria bom comprar livros se fosse possível comprar, junto com eles, o tempo para lê-los, mas é comum confundir a compra dos livros com a assimilação de seu conteúdo.

Exigir que alguém tivesse guardado tudo aquilo que já leu é o mesmo que exigir que ele ainda carregasse tudo aquilo que já comeu. Ele viveu do alimento corporalmente e do que leu, espiritualmente, e foi assim que se tornou o que é. Mas, da mesma maneira que o corpo assimila o que lhe é homogêneo, o espírito guarda o que lhe interessa, ou seja, o que diz respeito a seu sistema de pensamentos ou o que se adapta a suas finalidades. Certamente todos têm as suas finalidades, mas poucas são as pessoas que possuem algo semelhante a um sistema de pensamentos, de modo que não é um interesse objetivo que os move, e é esse o motivo pelo qual nada do que lêem é assimilado e eles não conservam coisa alguma.

Repetitio est mater studiorum [A repetição é a mãe do estudo]. Cada livro importante deve ser lido, de imediato, duas vezes, em parte porque as coisas são melhor compreendidas na segunda vez, em seu contexto, e o início é entendido corretamente quando se conhece o final; em parte porque, na segunda vez, cada passagem é acompanhada com outra disposição e com outro humor, diferentes dos da primeira, de modo que a impressão se altera, como quando um objeto é observado sob uma luz diversa.

As obras são a quintessência de um espírito: em conseqüência disso, por maior que seja o espírito, elas terão sempre uma riqueza de conteúdo maior do que a possibilitada pelo contato com o autor e substituirão sua companhia no que é essencial, aliás, na verdade a superam de longe e a deixam para trás. Até os escritos de uma cabeça mediana podem ser instrutivos, divertidos e dignos de leitura, exatamente porque são a quintessência, o resultado, o fruto de todo o seu pensamento e estudo, enquanto sua companhia não nos poderia satisfazer. Isso explica por que é possível ler livros de pessoas em cuja companhia não encontraríamos nenhuma satisfação, e também é por esse motivo que a cultura espiritual elevada nos leva gradativamente a encontrar prazer apenas nos livros, não mais nos homens.

Não há nenhum conforto maior para o espírito do que a leitura dos clássicos antigos: logo que uma pessoa tem em mãos qualquer um deles, mesmo que seja por meia hora, sente-se imediatamente renovado, aliviado, purificado, elevado e fortalecido; é como se tivesse bebido de uma fonte de água fresca em meio aos rochedos. Será que essa impressão se deve às línguas antigas e à sua perfeição? Ou à grandeza dos espíritos cujas obras sobreviveram aos milênios, intactas, sem perder seu vigor? Talvez aos dois fatores ao mesmo tempo. Mas de uma coisa eu sei: se o ensino das línguas antigas um dia chegar ao fim, como há o risco de acontecer agora, surgirá uma nova literatura, constituída de escritos tão bárbaros, rasos e sem valor como nunca se viu. Ainda mais quando a língua alemã, que de fato possui algumas das perfeições das antigas, é dilapidada e maltratada de modo apressado e metódico pelos escribas sem valor da “atualidade”, de tal maneira que ela se transforma gradativamente, empobrecida e aleijada, num miserável jargão.

duas histórias: a política e a da literatura e da arte. A primeira é a história da vontade, a segunda, a do intelecto. É por isso que a primeira geralmente é angustiante, mesmo terrível: medo, necessidade, engano e assassinatos horríveis, em massa. A outra, em contrapartida, é agradável e jovial, assim como o intelecto isolado, mesmo quando descreve erros e descaminhos. Seu ramo principal é a história da filosofia. Na verdade, esta constitui seu baixo fundamental, que ressoa até mesmo na outra história e conduz a opinião a partir de seu fundamento, mas é a opinião que governa o mundo. Assim, a filosofia também é, entendida em seu sentido próprio, o mais poderoso poder material, embora seu efeito seja muito lento.

11.

Na história universal, meio século é sempre um período de tempo considerável, porque sua matéria passa sem cessar; contudo, há sempre algo que se destaca. Na história da literatura, no entanto, o mesmo período de tempo não costuma significar nada, porque coisa alguma aconteceu: as tentativas canhestras não importam. Portanto, continua-se na mesma situação em que se estava cinqüenta anos antes.

Para esclarecer isso basta pensar nos avanços do conhecimento por parte da espécie humana segundo a imagem de uma órbita planetária. Assim é possível representar por meio de epiciclos ptolomaicos os descaminhos que costumam ocorrer após cada avanço significativo, de modo que a espécie humana se encontra de novo, depois de passar por esses epiciclos, na mesma situação em que estava antes da ocorrência dele. Contudo, as grandes cabeças que realmente levam adiante a espécie naquela órbita planetária não acompanham, em cada caso, o movimento do epiciclo correspondente. Isso explica porque o reconhecimento pela posteridade costuma ser pago com a perda de aplauso por parte dos contemporâneos, e vice-versa.

Um desses epiciclos é, por exemplo, a filosofia de Fichte e Schelling, por fim coroado pela caricatura hegeliana delas. Esse epiciclo partia da linha circular levada adiante por Kant até o ponto em que, posteriormente, eu a retomei para fazê-la avançar, mas no intervalo os pseudofilósofos mencionados antes, e mais alguns outros, percorreram seu epiciclo, que agora acaba de se completar; assim, o público que os seguiu percebe que se encontra exatamente no ponto do qual partira.

Está relacionado a esse modo de progressão das coisas o fato de vermos, a cada trinta anos, o espírito científico, literário e artístico da época declarar falência. Pois, nesse período de tempo, os respectivos erros e descaminhos se acumularam tanto que desabam sobre o peso de sua absurdidade, e ao mesmo tempo a oposição em relação a eles se fortalece. Nesse momento, ocorre uma mudança, só que com freqüência ela é seguida por um erro na direção oposta. Mostrar esse andamento das coisas em seu retorno periódico seria o verdadeiro conteúdo pragmático da história literária, entretanto ela não pensa muito a respeito do assunto. Além do mais, em função da relativa brevidade e de tais períodos, costuma ser difícil reunir os dados correspondentes a épocas afastadas no tempo, por isso é mais confortável observar a situação em sua própria época.

Se fosse preciso acrescentar um exemplo tirado das ciências positivas, seria possível mencionar a geologia netunista de Werner[93]. Todavia, atenho-me ao exemplo mencionado anteriormente, pois ele é mais próximo de nós. Ao brilhante período de Kant sucedeu imediatamente, na filosofia alemã, outro período, no qual os autores não se esforçaram para convencer, mas para impressionar; não buscaram ser precisos e claros, mas brilhantes e hiperbólicos, ou até mesmo incompreensíveis; não a fim de procurar a verdade, mas a fim de fazer intrigas. Com isso, a filosofia não podia fazer nenhum progresso. Finalmente, chegou a falência de toda essa escola e método. Pois, com Hegel e seus companheiros, a insolência desses rascunhos sem sentido, por um lado, e a glorificação mútua sem escrúpulos, por outro, junto à evidente premeditação de todo esse movimento bem planejado, alcançaram proporções tão colossais, que todos tiveram de abrir os olhos para essa charlatanice. E, quando foi retirada a proteção que vinha de cima, em conseqüência de certas revelações, todos tiveram de abrir também as bocas. Essa pseudofilosofia, a mais miserável que já existiu, arrastou consigo para o abismo do descrédito seus antecessores Fichte e Schelling. Assim, ficou evidente toda a incompetência filosófica na Alemanha da primeira metade do século posterior a Kant, enquanto se continuava a vangloriar para os estrangeiros o talento filosófico dos alemães – especialmente desde que um escritor inglês usou a maliciosa ironia de chamá-los um povo de pensadores.

Quem quiser confirmar o esquema geral dos epiciclos exposto aqui com exemplos da história da arte precisa apenas observar a escola de escultura de Bernini,[94] que floresceu ainda no século passado, e especialmente seu desdobramento francês. Essa escola buscava representar, em vez da beleza antiga, a natureza comum; em vez da simplicidade e graça dos antigos, o decoro do minueto francês. Ela foi arruinada quando, após as reprovações de Winckelmann,[95] seguiu-se o retorno à escola dos antigos.

Um exemplo da pintura é oferecido pelo primeiro quarto deste século, no qual a arte era considerada meramente um meio e um instrumento de uma religiosidade medieval, e com isso os únicos temas escolhidos eram os da igreja. Mas, nesse caso, eles eram elaborados por pintores aos quais faltava a verdadeira seriedade da fé e, todavia, em seu delírio, tomavam como modelo Francesco Francia, Pietro Prugino, Angelico de Fiesole, entre outros, e os consideravam superiores aos verdadeiros grandes mestres que os sucederam. Considerando essa aberração, e porque um esforço análogo tinha ocorrido ao mesmo tempo na poesia, Goethe escreveu a parábola “Representação do padre”.[96] Após o reconhecimento de que essa escola também se baseava em ilusões, ela entrou em decadência, seguindo-se a ela o retorno à natureza que se manifestava em quadros de gênero e todos os tipos de cenas de vida, num tipo de pintura que por vezes se perde em obras vulgares.

Correspondendo ao desenvolvimento dos avanços humanos descrito, a história literária é, em grande parte, o catálogo de um museu de criaturas que nasceram deformadas. O formol em que elas são conservadas por mais tempo é o pergaminho. Em contrapartida, as poucas criaturas bem-formadas não precisam ser procuradas ali: elas permaneceram vivas e podem ser encontradas em qualquer lugar do mundo, por onde circulam como imortais, eternamente no frescor da juventude. Apenas elas constituem a verdadeira literatura, mencionada no item anterior, cuja história com escassos personagens aprendemos desde cedo, da boca de todos os homens cultos, e não só quando lemos compêndios. – Contra a atual monomania dominante de ler histórias da literatura sem conhecer nada diretamente, aconselho uma passagem de Lichtenberg muito digna se ser lida, volume II, página 302 da antiga edição.[97]

Gostaria que alguém tentasse escrever um dia uma história trágica da literatura, na qual expusesse como as diferentes nações, cada uma das quais deposita seu maior orgulho nos grandes escritores e artistas que tem a exibir, trataram esses homens durante suas vidas. Assim, o autor poria diante dos nossos olhos aquela interminável batalha travada pelo que é bom e autêntico, em todos os tempos e países, contra o domínio do que é deturpado e ruim; descreveria o martírio de quase todos os verdadeiros iluminados da humanidade, de quase todos os grandes mestres em cada disciplina e em cada arte; mostraria como eles, com poucas exceções, sofreram na pobreza e na miséria, sem reconhecimento, sem apreço, sem alunos, enquanto a fama, a honra e a riqueza eram reservadas aos indignos em cada área. Sua sorte foi a mesma de Esaú, que foi substituído, enquanto caçava para levar comida para o pai, por Jacó, vestido com suas roupas, para roubar em casa a bênção paterna. Como, apesar de tudo, o amor à sua causa manteve os educadores da espécie humana em seu caminho até que terminasse sua difícil batalha, o laurel imortal lhes foi concedido e chegou enfim a hora em que se pode dizer a seu respeito:

“A pesada couraça ganha asas,

Curta é a dor, eterna a alegria”.[98]


[88]Sim, o afluxo forte e contínuo do que foi lido recentemente serve apenas para acelerar o esquecimento do que foi apreendido antes. (N.A.)

[89]Tipo de corrente produzida pela ourivesaria veneziana. (N.T.)

[90]Trata-se de uma passagem da História, Livro VII, XLVI, de Heródoto, historiador grego do século 4 a. C.. (N.T.)

[91]Trata-se de três escritores que fizeram sucesso momentaneamente no século 19: Eugène Sue, pseudônimo de Marie Joseph Sue (1804-1857); Sir Edward G. D. Bulwer-Lython (1803-1873); e Karl Spindler (1796-1855). (N.T.)

[92]Estudo da Antigüidade, epigrama publicado pelo poeta e crítico alemão August Wilhelm Schlegel (1767-1845) no Musenalmanach de 1802. (N.T.)

[93]Abraham Gottlob Werner (1749-1817), geólogo alemão. (N.T.)

[94]Gian Lorenzo Bernini (1598-1680), escultor italiano. (N.T.)

[95]Johann Joachim Winckelmann (1717-1768), arqueólogo e historiador da arte alemão, critica a escola de Bernini em seu livro Reflexões sobre a imitação das obras gregas na pintura e na escultura. (N.T.)

[96]O nome do poema de Goethe em alemão é Pfaffespiel. O termo Pfaffe tem um sentido pejorativo e pode ser traduzido por “padreco”. (N.T.)

[97]A passagem de Lichtenberg a que Schopenhauer se refere é a seguinte: “Acredito que, em nossos dias, cultiva-se de modo excessivamente minucioso a história das ciências, com uma grande desvantagem para a própria ciência. Trata-se de algo agradável de se ler, e no entanto, mesmo que não deixe a cabeça inteiramente vazia, no mínimo a deixa destituída de força real exatamente porque a enche demais. Quem, ao menos uma vez, sentiu o impulso não de encher a cabeça, mas de fortalecer a inteligência, de desenvolver as faculdades e as aptidões, de tornar mais ampla a própria capacidade, deve ter descoberto que não há nada mais debilitante do que uma conversa com alguém conhecido como historiador da ciência, ou seja, uma pessoa que não deu sua contribuição pessoal a essa ciência e, contudo, conhece milhares de pequenos dados histórico-literários acerca dela. É como dar um livro de culinária a alguém com muita fome. Também acho que a chamada história literária nunca terá êxito entre os homens que pensam, que são conscientes do seu próprio valor e do valor da ciência autêntica. Esses homens preferem refletir a ter o trabalho de saber como os outros refletiram. O mais triste em tudo isso é constatar que, quanto mais cresce o gosto pelas pesquisas literárias numa ciência, diminui proporcionalmente a energia usada para ampliar a própria ciência; a única coisa que aumenta é o orgulho de possuí-la. As pessoas acreditam que a possuem mais do que quem de fato a possui. Com certeza tem fundamento a observação de que a verdadeira ciência nunca deixa seu possuidor orgulhoso. Quem se enche de orgulho são apenas aqueles que, sendo incapazes de desenvolver a ciência em si, dedicam-se a descrever seus pontos obscuros e sabem contar tudo o que os outros fizeram, pois consideram essa ocupação, em grande parte mecânica, um exercício da própria ciência. Seria possível dar exemplos disso, mas esta seria uma tarefa odiosa demais.” Vermischte Schriften, Göttingen, 1801. (N.T.)

[98]Trata-se dos últimos versos da peça A donzela de Orleans, de Schiller. Ato V, Cena XIV. “Der schwere Panzer wird zum Fügelkleide, /Kurz ist der Schmerz, und ewig ist die Freude.” (N.T.)