Os verbos e adjetivos de cada personagem, contados por programa nas traduções de Rubens Figueiredo e Paulo Bezerra. São duas leituras: o que o personagem diz (a voz) e como o narrador o mostra (a caracterização). Uma terceira camada parte do original russo e mostra como cada tradutor verteu as palavras de Dostoiévski. No fim, as discrepâncias encontradas e uma análise da pontuação.
| Personagem | Palavras | Verbos característicos | Adjetivos característicos |
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As palavras mais características do personagem no texto de Dostoiévski, e a palavra portuguesa que cada tradutor usou nos mesmos trechos. Linhas destacadas: os tradutores escolheram palavras diferentes. Um traço quer dizer que o alinhamento automático não achou uma correspondência segura. A coluna IA traz a minha tradução da palavra, fora de contexto: o sentido de dicionário mais próximo do uso no livro.
| Russo | Vezes | Figueiredo | Bezerra | IA |
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| Russo | Vezes | Figueiredo | Bezerra | IA |
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Medi com que regularidade cada tradutor usa a mesma palavra portuguesa para a mesma palavra russa, nas 343 palavras frequentes em que o alinhamento é seguro. O resultado empatou: a coerência média deu 0,49 em Figueiredo e 0,50 em Bezerra. Nenhum dos dois é, no geral, mais "literal" que o outro.
A diferença está nas escolhas de cada um. Bezerra traduz progovorít’ (dizer, articular) quase sempre por pronunciar: "pronunciou" aparece 136 vezes no texto dele e 5 no de Figueiredo, que espalha o mesmo verbo entre exclamar, falar e dizer. A tabela abaixo mostra outras 29 palavras em que os dois, cada um com coerência, foram para lados diferentes; a coluna IA traz a minha tradução, para comparar. Não há um padrão simples de formal contra coloquial: Figueiredo prefere embriagado e sórdido, Bezerra, bêbado e vil; Figueiredo diz mandar e roubar, Bezerra, enviar e saquear.
| Russo | No livro | Rubens Figueiredo | Paulo Bezerra | IA |
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A comparação dos três textos achou 5 números que não batem com o original, 20 trechos omitidos e uma diferença clara de estratégia entre os tradutores. Cada caso foi conferido lendo o russo e as duas traduções lado a lado.
Ressalva: foram comparados os arquivos digitais das traduções, não os livros impressos. Um erro de digitalização, como uma linha pulada num escaneamento, se parece com um erro de tradução. Antes de atribuir um caso ao tradutor, vale conferir no livro impresso.
| Local | Trecho | Original russo | Figueiredo | Bezerra |
|---|---|---|---|---|
| P2I | Promissória cobrada na delegacia | há nove meses | há dez meses | há nove meses |
| P2IV | Idade de Zóssimov | uns vinte e sete anos | uns vinte anos | uns vinte e sete anos |
| P4IV | Sônia lendo Lázaro: a palavra enfatizada | "quatro" (dias) | "quarto" | "quatro" |
| P6III | Mesinhas da taberna onde Svidrigáilov espera | vinte | dez | vinte e cinco |
| EpI | Abertura do Epílogo: tempo de prisão e tempo desde o crime | nove meses; quase um ano e meio | quatro meses; quase meio ano | nove meses; quase um ano e meio |
O desvio do Epílogo é o mais grave, porque altera a cronologia do romance: só o processo levou meses.
Local no formato parte + capítulo: P3VI = Parte 3, Capítulo VI; EpI = Epílogo, Capítulo I. O arquivo de Bezerra tem 17 omissões, e o de Figueiredo, 3. As de Bezerra coincidem com os travessões perdidos no mesmo arquivo, o que sugere defeito de digitalização. Só o livro impresso confirma.
| Local | Tradução | Cena | O que falta |
|---|---|---|---|
| P1III | Figueiredo | Raskólnikov e Nastácia, sobre as aulas | O comentário do narrador: falou "de má vontade, como se respondesse aos próprios pensamentos" |
| P1V | Figueiredo | Sonho do cavalo | Duas frases: o velho que não se contém e sorri, e "uma eguinha tão magra, e ainda dá coice!" |
| P2II | Bezerra | Raskólnikov na casa de Razumíkhin | "Quase sufocou de raiva de si mesmo" |
| P2IV | Bezerra | Razumíkhin fala do tio e de Porfíri | "Mas você já o conhece…" |
| P2VI | Bezerra | O condenado na rocha ("viver, viver e viver") | "Não importa como, contanto que viver!" e "Como isso é verdade! Meu Deus, como é verdade!" |
| P2VI | Bezerra | Zamiótov no Palácio de Cristal | O exemplo da velha assassinada "no nosso distrito", justamente onde ele toca no crime diante de Raskólnikov |
| P2VI | Bezerra | Razumíkhin acha Raskólnikov na taberna | "Procurei você até embaixo do sofá! Fomos até ao sótão!" |
| P2VI | Bezerra | Raskólnikov volta ao prédio da velha | O apartamento do segundo andar onde Nikolai e Mitka pintavam, agora trancado e com a porta repintada |
| P3I | Bezerra | Pulkhéria depois da primeira visita | "Como ele foi duro, parece que nem ficou contente conosco" e as lágrimas nos olhos dela |
| P3III | Bezerra | Zóssimov com o paciente | "Eu não tenho muitos pacientes" |
| P3III | Figueiredo | Razumíkhin elogia um gesto de Raskólnikov | A exclamação "Ele tem desses gestos!" |
| P3III | Bezerra | Pulkhéria fala de Marfa Petrovna | "Eu já te escrevi tanto sobre ela" |
| P4V | Bezerra | Segundo encontro com Porfíri: o "parece" | O segundo pensamento, em que ele se recrimina por se preocupar com a palavra |
| P4VI | Bezerra | Falsa confissão do pintor Nikolai diante de Porfíri | A frase final: "Continuava de joelhos" |
| P5II | Bezerra | Banquete fúnebre | "Era óbvio que queriam atiçá-los um contra o outro" |
| P5III | Bezerra | Banquete fúnebre: a acusação de Lújin contra Sônia | "Todos se agitaram" |
| P6II | Bezerra | Última conversa com Porfíri, no quarto de Raskólnikov | "Porfíri Petróvitch esperava sentado, quieto" |
| P6III | Bezerra | Raskólnikov a caminho de Svidrigáilov | "Para que iria agora à casa de Sônia?" |
| P6VII | Bezerra | Raskólnikov e Dúnia | "Nem sei para que eu fui lá" |
| P6VII | Bezerra | Raskólnikov pensa no castigo, antes de se entregar | "Mas por que não? Claro, é assim que deve ser" |
Em P6VII, Raskólnikov diz que matar aquela velha faria "quarenta pecados serem perdoados". Figueiredo mantém os quarenta pecados. Bezerra troca pelo ditado brasileiro "quem mata esse ladrão tem cem anos de perdão". Isso se chama domesticação: trocar a imagem estrangeira por uma equivalente familiar ao leitor.
Em P4V, Dostoiévski escreve duas vezes que Porfíri zakudákhtal, "cacarejou". Aqui é Bezerra quem mantém a imagem do original ("cacarejou"), e Figueiredo quem a apaga ("tagarelava"). Manter a imagem estrangeira se chama estrangeirização. Nenhum dos dois tradutores segue uma regra fixa.
A busca pega o que dá para medir: tamanho dos parágrafos, número de frases e números. Não pega uma frase traduzida com o sentido torcido, nem uma ironia que se perdeu.
Dostoiévski pontua cada personagem de um jeito, e os dois tradutores mexem nessa pontuação de maneiras diferentes e consistentes. Os dois respeitam a divisão em frases: são 15.766 frases no russo, 15.984 em Figueiredo e 15.864 em Bezerra.
Sinais por mil palavras faladas, no russo.
| Personagem | ! | … | ? |
|---|---|---|---|
| Katierina Ivánovna | 89,5 | 16,1 | 18,0 |
| Sônia | 71,8 | 43,2 | 29,8 |
| Marmeládov | 46,2 | 39,5 | 20,8 |
| Pulkhéria | 41,2 | 23,5 | 16,9 |
| Razumíkhin | 36,5 | 20,7 | 23,8 |
| Porfíri | 34,0 | 16,0 | 17,8 |
| Raskólnikov | 28,1 | 27,2 | 25,5 |
| Lújin | 22,8 | 23,6 | 15,1 |
| Svidrigáilov | 18,1 | 10,8 | 17,5 |
Contagem nos parágrafos alinhados, com o russo valendo 100.
| Sinal | Original | Figueiredo | Bezerra |
|---|---|---|---|
| Exclamação ! | 100 | 95 | 93 |
| Reticências … | 100 | 111 | 99 |
| Interrogação ? | 100 | 111 | 108 |
| Ponto e vírgula ; | 100 | 101 | 104 |
| Vírgula , | 100 | 106 | 74 |
| Travessão interno — | 100 | 15 | 58 |
Katierina é a personagem mais exclamativa do livro, com três vezes mais exclamações que Svidrigáilov. Sônia e Marmeládov lideram nas reticências: o embaraço dela, a fala bêbada e sentimental dele. Svidrigáilov tem o menor número de exclamações e de reticências; a ameaça dele está na calma. Lição para quem escreve: um vilão que nunca exclama e nunca hesita assusta mais do que um que grita.
O russo tem muitas frases com palavra interrogativa que terminam em exclamação: Tchem ia pokhoroniú evó!, "Com que vou enterrá-lo!". É um grito de desespero, não uma pergunta. Figueiredo quase sempre troca o "!" por "?": nas falas de Katierina ele tem 49% a mais de interrogações que o original, e nas de Sônia e Pulkhéria, 31%. Bezerra mantém o "!" com mais frequência, ou junta os dois sinais: usa "?!" ou "!?" 51 vezes, contra uma no original.
Vdrug ("de repente") aparece 515 vezes no original, um tique famoso de Dostoiévski, e vem entre vírgulas só 4 vezes. Figueiredo isola a expressão entre vírgulas cerca de 330 vezes (", de repente,", ", de súbito,", "De repente,"); Bezerra, 2 vezes. Em Dostoiévski, a surpresa entra no meio da frase sem pausa. Figueiredo dá a ela uma respiração antes e depois.
Ele acrescenta cerca de 11% de reticências, sobretudo nas falas de Dúnia (+31%), Porfíri (+26%) e Svidrigáilov (+22%). Bezerra fica igual ao original (99%). O resultado é um Porfíri e um Svidrigáilov mais reticentes e insinuantes do que Dostoiévski os escreveu.
Figueiredo elimina 85% dos travessões internos, trocando-os por vírgulas ou pontos; Bezerra mantém pouco mais da metade. Mas em russo o travessão muitas vezes faz o papel do verbo "ser" (nichtchetá — porok, "a miséria [é] vício"), e esses casos não deveriam mesmo passar para o português.
Ressalvas: as comparações por personagem dependem de quem fala cada trecho (cerca de 27% das falas ficaram sem dono). No arquivo de Bezerra, alguns travessões viraram hífens na digitalização. E o russo usa mais vírgulas por regra gramatical, porque toda oração subordinada é separada por vírgula; parte dos 74% de Bezerra é simplesmente português correto.
No original, o verbo que mais o distingue na narração é dúmat’ (pensar), seguido de tchúvstvovat’ (sentir) e pómnit’ (lembrar). Nas duas traduções, os adjetivos que o narrador cola nele são de imobilidade: calado, deitado, sentado, pensativo. Na fala, sobem matar e permitir, e múchit’, que Figueiredo traduz por torturar e Bezerra por atormentar.
No russo, são só cerca de 1.700 palavras faladas, em torno de atormentar, chorar, viver e matar. O narrador a mostra pelo corpo: no original ela prochéptat’ (sussurra) e drojat’ (treme). Quando ela vskríknut’ (dá um grito curto, súbito), Figueiredo escreve gritou e Bezerra, exclamou.
O narrador russo o faz kríknut’, zakritchát’ e zarevét’ (gritar, pôr-se a gritar, urrar). Na fala dele aparecem dormir, delirar, mentir, e o adjetivo p’ianyi (bêbado): embriagado em Figueiredo, bêbado em Bezerra.
O original confirma o que as traduções mostravam: kapitál’nyi, lítchnyi, ekonomítcheskii, tchástnyi, vájnyi (capital, pessoal, econômico, privado, importante). É vocabulário de negócio na boca de um noivo. O narrador o faz poblednét’ (empalidecer) e ostanovít’ (deter).
Os adjetivos dele são psikhologítcheskii, neobyknovénnyi, neterpelívyi, komítcheskii: o investigador que fala de psicologia e brinca. Duas vezes Dostoiévski escreve que ele zakudákhtal, "cacarejou", como uma galinha. Bezerra mantém a imagem: cacarejou. Figueiredo troca por tagarelava, e a galinha some.
No russo, o narrador alterna kritchát’ (gritar), kríknut’ (dar um grito), zakritchát’ (começar a gritar) e vskríknut’ (soltar um grito súbito). Os prefixos mudam o tempo e a força do grito. As duas traduções dizem gritar em quase todos os casos. Na fala dela, blagoródnyi e glúpyi (nobre, tolo) resumem a viúva orgulhosa que despreza os convidados.
Zakónnyi, grajdánskii, nemýslimyi, poléznyi: o vocabulário dos "progressistas" de 1860 (o casamento civil, a comuna útil). Para zakónnyi, Figueiredo escolhe legal e Bezerra, legítimo.
O verbo que introduz a fala já é caracterização: Sônia sussurra, Razumíkhin urra, Porfíri cacareja. Dostoiévski usa os prefixos russos para dar a cada grito um tempo e uma força. O português tem recursos equivalentes (bradar, berrar, vociferar, guinchar, soltar um grito), e cabe a quem escreve escolher.
O programa separou cada parágrafo em fala e narração pelos travessões. No russo, só contou como troca de fala o travessão que vem depois de pontuação, porque o russo também usa travessão no lugar do verbo "ser" ("нищета — порок", "a miséria [é] vício"). Depois procurou o falante no comentário colado à fala ("— … — gritou Razumíkhin"), aceitando nomes, apelidos e pronomes. No russo, aceitou só nomes no caso nominativo, que é o caso do sujeito. Quando não havia comentário, usou a alternância da conversa, e um vocativo dentro da fala ("Não é nada, Sônia") exclui aquela pessoa como falante.
Em seguida, alinhou os três textos parágrafo por parágrafo. Isso permitiu uma conferência independente: nos parágrafos em que o russo e uma tradução tinham falante atribuído, o falante coincidiu em 95% dos casos com Figueiredo e em 96% com Bezerra. Depois juntei as três atribuições: o falante que tinha maioria ficou, e a fala sem dono num texto herdou o dono do texto paralelo. No fim, cerca de 73% das palavras faladas ficaram com dono nos três textos. O resto são figurantes (o escriturário, o operário, o porteiro) ou trechos ambíguos.
Para descobrir como cada tradutor verteu uma palavra russa, o programa olha os parágrafos alinhados em que ela aparece e escolhe a palavra portuguesa que mais anda junto com ela no livro todo. Isso funciona bem para palavras que se repetem e falha nas que aparecem uma vez só. Por isso, descartei correspondências de ocorrência única pouco seguras e removi à mão as poucas que eu sabia estarem erradas.
Classe gramatical e lema vêm do spaCy (português e russo) e do pymorphy (russo). Os dois erram em formas raras. Corrigi os erros que apareceram nas listas, mas algum ainda pode ter escapado.
Cuidado com a edição de Bezerra: no arquivo digital, alguns travessões se perderam na conversão. Nesses pontos o programa confunde fala com narração. O alinhamento com o russo recuperou parte desses casos, mas não todos.
Só entraram personagens com material suficiente: cerca de 1.000 palavras faladas para a voz, e umas 50 aparições como sujeito para a caracterização. Mikolka, o carroceiro do sonho, foi separado de Mikolka, o pintor. Cartas e pensamentos entre aspas foram excluídos da caracterização.